Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA VI                                   




frica do sculo XIX
 dcada de 1880
EDITOR J. F. ADE AJAYI




UNESCO Representao no BRASIL
Ministrio da Educao do BRASIL
Universidade Federal de So Carlos
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica


HISTRIA GERAL DA FRICA  VI
frica do sculo XIX  dcada de 1880
Coleo Histria Geral da frica da UNESCO

Volume I        Metodologia e pr-histria da frica
                (Editor J. Ki-Zerbo)

Volume II       frica antiga
                (Editor G. Mokhtar)

Volume III      frica do sculo VII ao XI
                (Editor M. El Fasi)
                (Editor Assistente I. Hrbek)

Volume IV       frica do sculo XII ao XVI
                (Editor D. T. Niane)

Volume V        frica do sculo XVI ao XVIII
                (Editor B. A. Ogot)

Volume VI       frica do sculo XIX  dcada de 1880
                (Editor J. F. A. Ajayi)

Volume VII      frica sob dominao colonial, 1880-1935
                (Editor A. A. Boahen)

Volume VIII frica desde 1935
            (Editor A. A. Mazrui)
            (Editor Assistente C. Wondji)




Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO,
nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e apresentao do
material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte
da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio
ou de suas autoridades, tampouco da delimitao de suas fronteiras ou limites.
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA  VI
frica do sculo
XIX  decada
de 1880
EDITOR J. F. ADE AJAyI




                      Organizao
               das Naes Unidas
                  para a Educao,
              a Cincia e a Cultura
Esta verso em portugus  fruto de uma parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil, a
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao do
Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).

Ttulo original: General History of Africa, VI: Africa in the nineteenth century until the 1880s. Paris:
UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational
Publishers Ltd., 1989. (Primeira edio publicada em ingls).

 UNESCO 2010

Coordenao geral da edio e atualizao: Valter Roberto Silvrio
Tradutores: David Yann Chaigne, Joo Bortolanza, Luana Antunes Costa, Lus Hernan de Almeida
Prado Mendoza, Milton Coelho, Sieni Maria Campos
Reviso tcnica: Kabengele Munanga
Preparao de texto: Eduardo Roque dos Reis Falco
Reviso e atualizao ortogrfica: Ilunga Kabengele
Projeto grfico e diagramao: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaa e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil



      Histria geral da frica, VI: frica do sculo XIX  dcada de 1880 / editado por J. F. Ade
            Ajayi.  Braslia : UNESCO, 2010.
            1032 p.

          ISBN: 978-85-7652-128-0

           1. Histria 2. Histria contempornea 3. Histria africana 4. Culturas africanas 5. frica
      I. Ajayi, J. F. Ade II. UNESCO III. Brasil. Ministrio da Educao IV. Universidade Federal
      de So Carlos


Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)
Representao no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar
70070-912  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2106-3500
Fax: (55 61) 3322-4261
Site: www.unesco.org/brasilia
E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Ministrio da Educao (MEC)
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC)
Esplanada dos Ministrios, Bl. L, 2 andar
70047-900  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2022-9217
Fax: (55 61) 2022-9020
Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

Universidade Federal de So Carlos (UFSCar)
Rodovia Washington Luis, Km 233  SP 310
Bairro Monjolinho
13565-905  So Carlos  SP  Brasil
Tel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)
Fax: (55 16) 3361-2081
Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

Impresso no Brasil
                                      SUMRIO




Apresentao ...................................................................................VII
Nota dos Tradutores .......................................................................... IX
Cronologia ....................................................................................... XI
Lista de Figuras ............................................................................. XIII
Prefcio ..........................................................................................XIX
Apresentao do Projeto .................................................................XXV

Captulo 1 frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas ...... 1
Captulo 2 A frica e a economia-mundo ............................................. 27
Captulo 3 Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX........ 47
Captulo 4 A abolio do trfico de escravos .......................................... 77
Captulo 5 O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos ..... 105
Captulo 6 O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo ............... 147
Captulo 7 Os britnicos, os beres e os africanos na frica do
           Sul 1850-1880 .................................................................... 169
Captulo 8 Os pases da bacia do Zambeze .......................................... 211
Captulo 9 O litoral e o interior da frica Oriental de 1800
            a 1845 ................................................................................. 249
Captulo 10 O litoral e o interior da frica Oriental de 1845
             a 1880 ............................................................................... 275
VI                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



Captulo 11        Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos ................. 317
Captulo 12        A bacia do Congo e Angola.............................................. 343
Captulo 13        O renascimento do Egito (1805-1881)............................. 377
Captulo 14        O Sudo no sculo XIX .................................................... 411
Captulo 15        A Etipia e a Somlia ....................................................... 435
Captulo 16        Madagascar, 1800-1880 .................................................... 477
Captulo 17        Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia
                   e Lbia ............................................................................... 517
Captulo 18        O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880 ................. 549
Captulo 19        Novas formas de interveno europeia no Magreb ........... 571
Captulo 20        O Saara no sculo XIX ..................................................... 591
Captulo 21        As revolues islmicas do sculo XIX na frica
                   do Oeste ............................................................................ 619
Captulo 22        O califado de Sokoto e o Borno ....................................... 641
Captulo 23        O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878 ......... 699
Captulo 24        Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin ............. 741
Captulo 25        Estados e povos do Arco do Nger e do Volta .................. 771
Captulo 26        Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no
                   sculo XIX ........................................................................ 813
Captulo 27        O delta do Nger e Camares ........................................... 843
Captulo 28        A dispora africana ........................................................... 875
Captulo 29        Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia ..... 905

Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao
de uma Histria Geral da frica .......................................................931
Dados biogrficos dos autores do volume VI .....................................933
Abreviaes e listas de peridicos ......................................................939
Referncias bibliogrficas .................................................................941
ndice remissivo .............................................................................1001
APRESENTAO                                                                          VII




                       APRESENTAO



   "Outra exigncia imperativa  de que a histria (e a cultura) da frica devem pelo menos ser
   vistas de dentro, no sendo medidas por rguas de valores estranhos... Mas essas conexes
   tm que ser analisadas nos termos de trocas mtuas, e influncias multilaterais em que algo
   seja ouvido da contribuio africana para o desenvolvimento da espcie humana". J. Ki-Zerbo,
   Histria Geral da frica, vol. I, p. LII.

    A Representao da UNESCO no Brasil e o Ministrio da Educao tm a satis-
fao de disponibilizar em portugus a Coleo da Histria Geral da frica. Em seus
oito volumes, que cobrem desde a pr-histria do continente africano at sua histria
recente, a Coleo apresenta um amplo panorama das civilizaes africanas. Com sua
publicao em lngua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para
uma nova leitura e melhor compreenso das sociedades e culturas africanas, e demons-
trar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Cumpre-se,
tambm, o intuito de contribuir para uma disseminao, de forma ampla, e para uma
viso equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da frica para a humanidade,
assim como para o estreitamento dos laos histricos existentes entre o Brasil e a frica.
    O acesso aos registros sobre a histria e cultura africanas contidos nesta Coleo se
reveste de significativa importncia. Apesar de passados mais de 26 anos aps o lana-
mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevncia e singularidade so mundial-
mente reconhecidas, especialmente por ser uma histria escrita ao longo de trinta anos
por mais de 350 especialistas, sob a coordenao de um comit cientfico internacional
constitudo por 39 intelectuais, dos quais dois teros africanos.
    A imensa riqueza cultural, simblica e tecnolgica subtrada da frica para o conti-
nente americano criou condies para o desenvolvimento de sociedades onde elementos
europeus, africanos, das populaes originrias e, posteriormente, de outras regies do
mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-
se considerado o papel civilizatrio que os negros vindos da frica desempenharam
na formao da sociedade brasileira. Essa compreenso, no entanto, ainda est restrita
aos altos estudos acadmicos e so poucas as fontes de acesso pblico para avaliar este
complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.
VIII                                                        frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A publicao da Coleo da Histria Geral da frica em portugus  tambm resul-
tado do compromisso de ambas as instituies em combater todas as formas de desigual-
dades, conforme estabelecido na Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948),
especialmente no sentido de contribuir para a preveno e eliminao de todas as formas
de manifestao de discriminao tnica e racial, conforme estabelecido na Conveno
Internacional sobre a Eliminao de todas as Formas de Discriminao Racial de 1965.
    Para o Brasil, que vem fortalecendo as relaes diplomticas, a cooperao econ-
mica e o intercmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa  mais um passo
importante para a consolidao da nova agenda poltica. A crescente aproximao com
os pases da frica se reflete internamente na crescente valorizao do papel do negro
na sociedade brasileira e na denncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento
da desigualdade entre brancos e negros no pas e a educao para as relaes tnicas
e raciais ganhou maior relevncia com a Constituio de 1988. O reconhecimento da
prtica do racismo como crime  uma das expresses da deciso da sociedade brasileira
de superar a herana persistente da escravido. Recentemente, o sistema educacional
recebeu a responsabilidade de promover a valorizao da contribuio africana quando,
por meio da alterao da Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) e
com a aprovao da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatrio o ensino da histria e
da cultura africana e afro-brasileira no currculo da educao bsica.
    Essa Lei  um marco histrico para a educao e a sociedade brasileira por criar, via
currculo escolar, um espao de dilogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-
mento sobre a histria e cultura da frica e dos africanos, a histria e cultura dos negros
no Brasil e as contribuies na formao da sociedade brasileira nas suas diferentes
reas: social, econmica e poltica. Colabora, nessa direo, para dar acesso a negros e
no negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenas socioculturais
presentes na formao do pas. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento,
reconhecimento e valorizao da diversidade tnica e racial brasileira.
    Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministrio da Educao acreditam que esta publica-
o estimular o necessrio avano e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre
a temtica, bem como a elaborao de materiais pedaggicos que subsidiem a formao
inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com
esta edio em portugus da Histria Geral da frica contribuir para uma efetiva educao
das relaes tnicas e raciais no pas, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino da Histria e Cultura Afro-
brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educao.

Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.

             Vincent Defourny                              Fernando Haddad
 Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educao do Brasil
NOTA DOS TRADUTORES                                                        IX




          NOTA DOS TRADUTORES




    A Conferncia de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-
rente daquele que motivou as duas primeiras conferncias organizadas pela
ONU sobre o tema da discriminao racial e do racismo: em 1978 e 1983 em
Genebra, na Sua, o alvo da condenao era o apartheid.
    A conferncia de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre
os quais vale destacar a avaliao dos avanos na luta contra o racismo, na luta
contra a discriminao racial e as formas correlatas de discriminao; a avaliao
dos obstculos que impedem esse avano em seus diversos contextos; bem como
a sugesto de medidas de combate s expresses de racismo e intolerncias.
    Aps Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento
da questo social na agenda do governo federal  a implementao de polticas
pblicas para a eliminao das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-
dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante
das recomendaes da conferncia para os Estados Nacionais e organismos
internacionais.
    No que se refere  educao, o diagnstico realizado em novembro de 2007,
a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao (SECAD/
MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-
tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relao ao seu baixo
grau de institucionalizao e sua desigual aplicao no territrio nacional. Entre
X                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



os fatores assinalados para a explicao da pouca institucionalizao da lei estava
a falta de materiais de referncia e didticos voltados  Histria de frica.
    Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponveis sobre
a Histria da frica, havia um certo consenso em afirmar que durante muito
tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e
eurocntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-
mente sua histria, uma histria quase inexistente para muitos at a chegada
dos europeus e do colonialismo no sculo XIX.
    Rompendo com essa viso, a Histria Geral da frica publicada pela UNESCO
 uma obra coletiva cujo objetivo  a melhor compreenso das sociedades e cul-
turas africanas e demonstrar a importncia das contribuies da frica para a
histria do mundo. Ela nasceu da demanda feita  UNESCO pelas novas naes
africanas recm-independentes, que viam a importncia de contar com uma his-
tria da frica que oferecesse uma viso abrangente e completa do continente,
para alm das leituras e compreenses convencionais. Em 1964, a UNESCO
assumiu o compromisso da preparao e publicao da Histria Geral da frica.
Uma das suas caractersticas mais relevantes  que ela permite compreender
a evoluo histrica dos povos africanos em sua relao com os outros povos.
Contudo, at os dias de hoje, o uso da Histria Geral da frica tem se limitado
sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos
usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos
desta limitao era a ausncia de uma traduo do conjunto dos volumes que
compem a obra em lngua portuguesa.
    A Universidade Federal de So Carlos, por meio do Ncleo de Estudos
Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de
traduo e atualizao ortogrfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio
da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (SECAD),
do Ministrio da Educao (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as
condies para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e
ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado
do continente africano para nossa formao social e cultural.
                      CRONOLOGIA


   Na apresentao das datas da pr-histria convencionou-se adotar dois tipos
de notao, com base nos seguintes critrios:
      Tomando como ponto de partida a poca atual, isto , datas B.P. (before
       present), tendo como referncia o ano de + 1950; nesse caso, as datas so
       todas negativas em relao a + 1950.
      Usando como referencial o incio da Era Crist; nesse caso, as datas
       so simplesmente precedidas dos sinais - ou +. No que diz respeito aos
       sculos, as menes "antes de Cristo" e "depois de Cristo" so substitudas
       por "antes da Era Crist", "da Era Crist".
   Exemplos:
   (i) 2300 B.P. = -350
   (ii) 2900 a.C. = -2900
        1800 d.C. = +1800
   (iii) sculo V a.C. = sculo V antes da Era Crist
         sculo III d.C. = sculo III da Era Crist
Lista de Figuras                                                                                                          XIII




                          LISTA DE FIGURAS




Figura 1.1     Dana cerimonial em Mbelebele, campo militar zulu, em 1836 .......................... 22
Figura 3.1     As misses crists e o isl, 1800-1860.................................................................. 54
Figura 3.2     Igreja da misso da Church of Scotland em Blantyre (Malaui) ........................... 56
Figura 3.3    Tiyo Soga ............................................................................................................. 58
Figura 3.4     Escola da vila Charlotte, Serra Leoa, cerca de 1885 ............................................ 61
Figura 4.1     Mapa da costa ocidental da frica ....................................................................... 86
Figura 4.2     Um grupo de mulheres oromas a bordo do HMS Daphne depois de sua
              libertao de um veleiro leste-africano ............................................................... 102
Figura 4.3     Escravos libertados no domnio da Misso das universidades em Mbweni,
              perto de Zanzibar  pagamento dos salrios ...................................................... 102
Figura 6.1     Bonecas  venda no Cabo no incio do sculo XIX, representando um
              homem e uma mulher san .................................................................................. 152
Figura 7.1     Mapa da frica do Sul indicando os Estados e os povos, 1850-1880 ............... 172
Figura 7.2     Membros de um comando ber, por volta de 1880............................................ 206
Figura 8.1     Mapa tnico e poltico da frica Central, 1800-1880 ....................................... 214
Figura 8.2     Jumbe de Khota Khota.......................................................................................... 222
Figura 8.3     Mercadores rabes da regio norte do lago Malaui............................................ 224
Figura 8.4     Um Rugaruga (caador de escravos) ................................................................. 228
Figura 8.5     Os shangana de Soshangane chegam a Shapanga para recolher o imposto
              anual devido pelos portugueses........................................................................... 237
Figura 8.6    Tocador de tambor e danarinos na corte de Sipopa, rei dos lozi, 1875 ............ 241
Figura 8.7     Sipopa, um dos chefes da rebelio lozi contra os kololo em 1864 ..................... 241
XIV                                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



Figura 9.1  O litoral e o interior: povos e principais rotas comerciais, 1800-1850 ............... 251
Figura 9.2  O litoral setentrional e o interior: as rotas comerciais, 1850 .............................. 256
Figura 9.3  Extrao em prensas do leo de gergelim em Mogadscio, 1847 ....................... 257
Figura 9.4  Sa`d ibn Sultan, sulto de Zanzibar (1804-1856) ............................................. 259
Figura 10.1  O Oceano ndico no sculo XIX ..................................................................... 277
Figura 10.2  O comrcio na frica Oriental no sculo XIX ................................................ 282
Figura 10.3  Penteados e cortes de cabelos nyamwezi .......................................................... 285
Figura 10.4  Mercadores nyamwezi na estrada ..................................................................... 285
Figura 10.5  Mirambo em 1882 ou 1883 ............................................................................. 295
Figura 10.6  A regio dos Grandes Lagos, 1840-1884......................................................... 297
Figura 10.7  Itinerrio das migraes em direo ao Norte dos nguni de Zwangendaba,
             dos maseko nguni e dos msene ........................................................................ 300
Figura 10.8 Os massai e seus vizinhos, 1840-1884 ............................................................. 304
Figura 11.1 A regio dos Grandes Lagos ............................................................................ 319
Figura 11.2 O Buganda em 1875: a capital do kabaka........................................................ 322
Figura 11.3 O kabaka Mutesa, rodeado de chefes e dignitrios .......................................... 322
Figura 11.4 A casa do Tesouro e os ornamentos reais do rumanyika, rei do Karagwe ........ 326
Figura 11.5 Batalha naval no Lago Vitria entre os Baganda e o povo das Ilhas
             Buvuma, 1875 .................................................................................................. 329
Figura 11.6 Circuitos comerciais da regio dos Grandes Lagos .......................................... 331
Figura 12.1 A frica Central do Oeste no sculo XIX ....................................................... 344
Figura 12.2 Uma aldeia da provncia de Manyema, a Nordeste do Imprio Luba.............. 346
Figura 12.3 Tambores reais do reino kuba, no sculo XIX .................................................. 351
Figura 12.4 Munza, rei dos mangbetu, em 1870 ................................................................. 356
Figura 12.5 Kazembe em 1831 ........................................................................................... 356
Figura 12.6 A frica Central do Oeste: espaos comerciais por volta de 1880 .................. 358
Figura 12.7 Mulher da aristocracia kimbundu com sua escrava, nos anos 1850 ................. 359
Figura 12.8 Guerreiro kimbundo e mulher da aristocracia, nos anos 1850 ......................... 359
Figura 12.9 Chifre de elefante esculpido, da metade do sculo XIX ................................... 360
Figura 12.10 Uma caravana de mercadores ovimbundo durante um pouso ........................ 363
Figura 12.11 Esttua chokwe representando Chibinda Ilunga, o lendrio fundador do
              Imprio lunda................................................................................................. 367
Figura 12.12 O mwant yav Mbumba .................................................................................. 372
Figura 13.1 O Imprio egpcio de Muhammad `Al (1804-1849) ....................................... 380
Figura 13.2 Muhammad `Al ............................................................................................... 383
Figura 13.3 Ibrhm, filho de Muhammad `Ali e seu general-em-chefe ............................. 384
Figura 13.4 O shaykh Rif `al-Tahtw ................................................................................ 389
Figura 13.5 A chegada do primeiro trem ligando o Cairo a Suez, 14 de dezembro
             de 1858 ............................................................................................................ 395
Figura 13.6 O bombardeio de Alexandria, julho de 1882 ................................................... 407
Lista de Figuras                                                                                                                   XV


Figura 14.1        O Sudo sob o domnio turco, 1820-1881 ....................................................... 412
Figura 14.2        Sennar em 1821: a capital do antigo sultanato dos funj................................... 415
Figura 14.3        Um acampamento de caadores de escravos turco-egpcios no Cordofo ....... 415
Figura 14.4        Navios mercantes de Cartum sobre um afluente do Bahr al Ghazal ao
                   Norte das terras dinka ...................................................................................... 422
Figura 14.5        A zeriba de um mercador em Mvolo, com um estabelecimento dinka fora
                   de seus muros ................................................................................................... 422
Figura 14.6        Uma vila shilluk aps um ataque de caadores de escravos .............................. 424
Figura 14.7        Um msico zande ............................................................................................ 426
Figura 14.8        O reforo da administrao e a modernizao turco-egpcias .......................... 433
Figura 15.1        A Etipia no incio do sculo XIX .................................................................. 437
Figura 15.2        Dajazmach Web do Tigre .............................................................................. 440
Figura 15.3        O rei Sahla Sellas de Shoa ............................................................................. 443
Figura 15.4        O emir Ahmad ibn Muhammad do Harar, 1794-1821 ................................... 451
Figura 15.5        O imperador Teodoro inspecionando o canteiro de obras de uma estrada ...... 454
Figura 15.6        O grande canho "Sebastopol" do imperador Teodoro .................................... 458
Figura 15.7        Eclesisticos etopes durante a dcada de 1840 ............................................... 459
Figura 15.8        Uma interpretao moderna da cena do suicdio do imperador Teodoro em
                   frente a sir Robert Napier ................................................................................ 466
Figura 15.9        O imperador Johanns IV ................................................................................ 469
Figura 16.1        Madagascar e seus vizinhos .............................................................................. 479
Figura 16.2        Vista de Antananarivo nos anos 1850 .............................................................. 480
Figura 16.3        Madagascar, 1800-1880 ................................................................................... 483
Figura 16.4        A expanso do reino merina, 1810-1840 ......................................................... 488
Figura 16.5        Adrianampoinimerina, morto em 1810............................................................ 491
Figura 16.6        O rei Radama I, 1810-1828 ............................................................................. 491
Figura 16.7        A rainha Ranavalona I, 1828-1861 .................................................................. 491
Figura 16.8        O rei Radama II, 1861-1863 ........................................................................... 491
Figura 16.9        A rainha Rasoherina, 1863-1868 ..................................................................... 491
Figura 16.10        A rainha Ranavalona II, 1868-1883. .................................................................. 491
Figura 16.11         O palcio da rainha em Antananarivo, comeado em 1839 por Jean
                     Laborde a pedido da rainha Ranavalona I ......................................................495
Figura 16.12         O palanquim da rainha Rasoherina diante de uma palhota venerada ............ 507
Figura 16.13         Acampamento de Ranavalona II.................................................................... 511
Figura 16.14         Fundio e forjamento do ferro em Madagascar, nos anos 1850 ................... 512
Figura 16.15         Mulheres escravas tirando gua e pilando arroz em Madagascar ................... 515
Figura 17.1        Interior da mesquita de Ketchawa (erguida em 1794), em Argel .................... 520
Figura 17.2        Uma escola cornica em Argel, 1830 ............................................................... 522
Figura 17.3        Membros do nizm [exrcito] tunisiano com uniformes de estilo europeu .... 539
Figura 17.4        O tmulo de Muhammad ben `Al al-Sansi, fundador da Sansiyya ............. 544
XVI                                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



Figura 17.5    Mulheres da alta sociedade argelina servidas por uma escrava negra ............... 546
Figura 18.1    O sulto `Abd al-Rahmn (1822-1859) em 1832 ............................................ 550
Figura 18.2    As regies histricas do Marrocos no sculo XIX ........................................... 552
Figura 18.3    O sulto Hasan I (1873-1894)......................................................................... 560
Figura 18.4    Rial de prata cunhado em Paris em 1881 para Hasan I ................................... 563
Figura 19.1   `Abd al-Kdir.................................................................................................... 579
Figura 19.2    Soldados de `Abd al-Kdir: a infantaria ........................................................... 580
Figura 19.3   Soldados de `Abd al-Kdir: a cavalaria ............................................................. 580
Figura 19.4   A guerra franco-marroquina: a batalha de Isly, 1844 ....................................... 581
Figura 19.5   A submisso de `Abd al-Kdir.......................................................................... 582
Figura 20.1   O comrcio nos confins do deserto .................................................................. 605
Figura 20.2   A kasba [citadela] de Murzuk, no Fezzn, em 1869 ........................................ 606
Figura 20.3   A sociedade oasiana: mulheres no mercado de Murzuk, 1869 ......................... 608
Figura 20.4   Os minaretes da mesquita de Agads .............................................................. 609
Figura 20.5   Artigos de marroquinaria tuaregue  venda em Tomboctou nos anos 1850 .... 614
Figura 22.1   O califado de Sokoto, o Borno e os seus vizinhos............................................ 643
Figura 22.2   Carta de Muhammad Bello, califa de Sokoto, 1817-1837 ............................... 648
Figura 22.3   Artigos do artesanato huassa colecionados por Gustav Nachtigal, em 1870 ... 682
Figura 22.4   O xeque Muhammad al-Amn al-Knemi ...................................................... 685
Figura 22.5   Um dos lanceiros kanembu do xeque al-Kanmi ............................................. 689
Figura 22.6   Blusa bordada de uma mulher do Borno, feita nos anos 1870 .......................... 694
Figura 23.1    As pginas iniciais de al-Idtirar, supostamente o nico livro escrito por
               Seku Ahmadu ...................................................................................................702
Figura 23.2    O Macina em seu apogeu, 1830 ....................................................................... 705
Figura 23.3    Runas de uma torre de defesa do tat [fortaleza] de Hamdallahi ................... 707
Figura 23.4    Sepultura de Seku Ahmadu em Hamdallahi ................................................... 709
Figura 23.5    Imprio Torodbe em seu apogeu ...................................................................... 717
Figura 23.6    De Dinguiraye a Hamdallahi ........................................................................... 727
Figura 23.7    Entrada do palcio de Ahmadu, em Sgou-Sikoro .......................................... 736
Figura 23.8    Ahmadu recebendo a corte do seu palcio ........................................................ 740
Figura 24.1   Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin ............................................. 743
Figura 24.2    Chefes da regio costeira de Mandinka na Gmbia em 1805.......................... 748
Figura 24.3   Vista de Timbo, capital de Futa Djalon, c. 1815 .............................................. 753
Figura 24.4    Barqueiros kru ................................................................................................... 761
Figura 24.5    Casas kru........................................................................................................... 761
Figura 25.1    Povos e cidades da frica Ocidental mencionados no texto ............................ 773
Figura 25.2    A banqueta de ouro dos ashanti ....................................................................... 774
Figura 25.3    A corte das finanas, Kumashi, 1817 ............................................................... 781
Figura 25.4    O primeiro dia da festa anual do Odwira, em Kumashi, 1817n Murray,
               Londres .............................................................................................................782
Lista de Figuras                                                                                                            XVII


Figura 25.5 Personagens mascarados mossi, provavelmente "sacerdotes da terra"
             representando a autoridade aborgene, no incio do sculo XIX ...................... 786
Figura 25.6 Mogho Naaba Sanem festejado pelos seus sujeitos em 1888 ........................... 786
Figura 25.7 Tipos de casa bambara, 1887 ........................................................................... 795
Figura 25.8 Um mercador ambulante mossi, 1888 .............................................................. 801
Figura 25.9 Mapa de Kintampo, cidade comercial do interior da Costa do Ouro .............. 802
Figura 25.10 Salaga em 1888. ............................................................................................. 803
Figura 25.11 Uma oficina de carpintaria da misso de Bal, em Christiansborg (Accra) ... 810
Figura 26.1 Escultura representando um guerreiro sobre os ombros de um babala .......... 815
Figura 26.2 O pas iorub-aja e o antigo Imprio Oyo (incio do sculo XIX) .................. 817
Figura 26.3 A porta da cidade iorub de Ipara, no pas ijebu, aproximadamente
            em 1855 ............................................................................................................819
Figura 26.4 Vista de Ibadan, em 1854, em primeiro plano as instalaes da Church
            Missionary Society ............................................................................................822
Figura 26.5 Altar no recinto do rei, Benin .......................................................................... 829
Figura 26.6 Vista da cidade de Benin na poca da invaso britnica, 1897 ........................ 830
Figura 26.8 Esttua de um homem em p, brao direito levantado e esquerdo dobrado,
            considerada uma representao simblica do rei Ghezo (1818-1858) ............. 838
Figura 26.9 O rei Gll (1858-1889), simbolicamente sob a forma de um leo ................. 838
Figura 27.1 O delta do Nger e Camares no sculo XIX .................................................. 844
Figura 27.2 Uma localidade itsekiri no rio Benin, nos anos 1890 ....................................... 846
Figura 27.3 Nana Olomu de Itsekiri ................................................................................... 847
Figura 27.4 O rei Jaja de Opobo ......................................................................................... 852
Figura 27.5 A casa do rei Bell, na dcada de 1840 .............................................................. 865
Figura 27.6 Ouassengo, comerciante de Ogou, empunhando presas de elefante,
            acompanhado das suas mulheres ...................................................................... 870
Figura 27.7 Antchuwe Kowe Rapontchombo (o "rei Denis"), soberano das margens do
            Ogou, com a sua grande mulher                                                                                      871
Figura 28.1 Figura masculina de tipo negride suportando nas costas o peso de um
            cris indonsio preso  cintura, provavelmente proveniente da regio do atual
            Vietn e datado,  verossmil, do sculo XVII...................................................878
Figura 28.2 O trfico de escravos da frica do Leste nos anos 1850, visto por sir
            Richard Burton ................................................................................................ 880
Figura 28.3 Servial negra e eunuco negro com a criana do seu mestre na ndia
            Oriental, no sculo XIX ................................................................................... 885
Figura 28.4 Toussaint Louverture, lder da revoluo de Santo-Domingo e patrono da
            independncia do Haiti .................................................................................... 902
Prefcio                                                               XIX




                           PREFCIO
                   por M. Amadou  Mahtar M'Bow,
                Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)




    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espcie esconderam do
mundo a real histria da frica. As sociedades africanas passavam por socie-
dades que no podiam ter histria. Apesar de importantes trabalhos efetuados
desde as primeiras dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande nmero de especialistas no-
africanos, ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades no
podiam ser objeto de um estudo cientfico, notadamente por falta de fontes e
documentos escritos.
    Se a Ilada e a Odissia podiam ser devidamente consideradas como fontes
essenciais da histria da Grcia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
 tradio oral africana, essa memria dos povos que fornece, em suas vidas, a
trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a histria de grande
parte da frica, recorria-se somente a fontes externas  frica, oferecendo
uma viso no do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
que se pensava que ele deveria ser. Tomando freqentemente a "Idade Mdia"
europia como ponto de referncia, os modos de produo, as relaes sociais
tanto quanto as instituies polticas no eram percebidos seno em referncia
ao passado da Europa.
    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, atravs dos sculos, por
XX                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



vias que lhes so prprias e que o historiador s pode apreender renunciando a
certos preconceitos e renovando seu mtodo.
    Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado como
uma entidade histrica. Em contrrio, enfatizava-se tudo o que pudesse refor-
ar a idia de uma ciso que teria existido, desde sempre, entre uma "frica
branca" e uma "frica negra" que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se
frequentemente o Saara como um espao impenetrvel que tornaria impossveis
misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenas, hbitos e idias
entre as sociedades constitudas de um lado e de outro do deserto. Traavam-se
fronteiras intransponveis entre as civilizaes do antigo Egito e da Nbia e
aquelas dos povos subsaarianos.
    Certamente, a histria da frica norte-saariana esteve antes ligada quela da
bacia mediterrnea, muito mais que a histria da frica subsaariana mas, nos
dias atuais,  amplamente reconhecido que as civilizaes do continente africano,
pela sua variedade lingstica e cultural, formam em graus variados as vertentes
histricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laos seculares.
    Um outro fenmeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado
africano foi o aparecimento, com o trfico negreiro e a colonizao, de esteretipos
raciais criadores de desprezo e incompreenso, to profundamente consolidados
que corromperam inclusive os prprios conceitos da historiografia. Desde que
foram empregadas as noes de "brancos" e "negros", para nomear genericamente
os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram
levados a lutar contra uma dupla servido, econmica e psicolgica. Marcado
pela pigmentao de sua pele, transformado em uma mercadoria, entre outras, e
condenado ao trabalho forado, o africano passou a simbolizar, na conscincia de
seus dominadores, uma essncia racial imaginria e ilusoriamente inferior quela
do negro. Este processo de falsa identificao depreciou a histria dos povos afri-
canos, no esprito de muitos, rebaixando-a a uma etno-histria em cuja apreciao
das realidades histricas e culturais no podia ser seno falseada.
    A situao evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
particular, desde que os pases da frica, tendo alcanado sua independncia,
comearam a participar ativamente da vida da comunidade internacional e dos
intercmbios a ela inerentes. Historiadores, em nmero crescente, esforaram-
se em abordar o estudo da frica com mais rigor, objetividade e abertura de
esprito, empregando  obviamente com as devidas precaues  fontes africanas
originais. No exerccio de seu direito  iniciativa histrica, os prprios africanos
sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em bases slidas, a his-
toricidade de suas sociedades.
Prefcio                                                                                                       XXI



     nesse contexto que emerge a importncia da Histria Geral da frica, em
oito volumes, cuja publicao a Unesco comeou.
    Os especialistas de numerosos pases que se empenharam nessa obra, pre-
ocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos tericos e
metodolgicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificaes abusivas
criadas por uma concepo linear e limitativa da histria universal, bem como
em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel. Eles esfor-
aram-se para extrair os dados histricos que permitissem melhor acompanhar
a evoluo dos diferentes povos africanos em sua especificidade sociocultural.
    Nessa tarefa imensa, complexa e rdua em vista da diversidade de fontes e
da disperso dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira
fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentao e de planificao da
obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, atravs de pesquisas de
campo: campanhas de coleta da tradio oral, criao de centros regionais de
documentao para a tradio oral, coleta de manuscritos inditos em rabe e
ajami (lnguas africanas escritas em caracteres rabes), compilao de inventrios
de arquivos e preparao de um Guia das fontes da histria da frica, publicado
posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos pases
da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas
africanos e de outros continentes, durante os quais discutiu-se questes meto-
dolgicas e traou-se as grandes linhas do projeto, aps atencioso exame das
fontes disponveis.
    Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e  articu-
lao do conjunto da obra. Durante esse perodo, realizaram-se reunies interna-
cionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o propsito
de examinar e detalhar os problemas relativos  redao e  publicao da obra:
apresentao em oito volumes, edio principal em ingls, francs e rabe, assim
como tradues para lnguas africanas, tais como o kiswahili, o hawsa, o peul, o
yoruba ou o lingala. Igualmente esto previstas tradues para o alemo, russo,
portugus, espanhol e chins1, alm de edies resumidas, destinadas a um
pblico mais amplo, tanto africano quanto internacional.
    A terceira e ltima fase constituiu-se na redao e na publicao do trabalho.
Ela comeou pela nomeao de um Comit Cientfico Internacional de trinta e

1    O volume I foi publicado em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahili,
     peul e portugus; o volume II em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahili,
     peul e portugus; o volume III em ingls, rabe, espanhol e francs; o volume IV em ingls, rabe, chins,
     espanhol, francs e portugus; o volume V em ingls e rabe; o volume VI em ingls, rabe e francs; o
     volume VII em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o VIII em ingls e francs.
XXII                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



nove membros, composto por africanos e no-africanos, na respectiva proporo
de dois teros e um tero, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual
pela obra.
    Interdisciplinar, o mtodo seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade
de abordagens tericas quanto de fontes. Dentre essas ltimas,  preciso citar
primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da histria
das culturas e das civilizaes africanas. Graas a ela, admite-se, nos dias atuais,
reconhecer que a frica foi, com toda probabilidade, o bero da humanidade,
palco de uma das primeiras revolues tecnolgicas da histria, ocorrida no
perodo Neoltico. A arqueologia igualmente mostrou que, na frica, especifi-
camente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizaes mais brilhantes
do mundo. Outra fonte digna de nota  a tradio oral que, at recentemente
desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para a reconstituio da
histria da frica, permitindo seguir o percurso de seus diferentes povos no
tempo e no espao, compreender, a partir de seu interior, a viso africana do
mundo, e apreender os traos originais dos valores que fundam as culturas e as
instituies do continente.
    Saber-se- reconhecer o mrito do Comit Cientfico Internacional encarre-
gado dessa Histria geral da frica, de seu relator, bem como de seus coordena-
dores e autores dos diferentes volumes e captulos, por terem lanado uma luz
original sobre o passado da frica, abraado em sua totalidade, evitando todo
dogmatismo no estudo de questes essenciais, tais como: o trfico negreiro, essa
"sangria sem fim", responsvel por umas das deportaes mais cruis da histria
dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas foras vivas, no
momento em que esse ltimo desempenhava um papel determinante no pro-
gresso econmico e comercial da Europa; a colonizao, com todas suas conse-
qncias nos mbitos demogrfico, econmico, psicolgico e cultural; as relaes
entre a frica ao sul do Saara e o mundo rabe; o processo de descolonizao e
de construo nacional, mobilizador da razo e da paixo de pessoas ainda vivas
e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questes foram abordadas com
grande preocupao quanto  honestidade e ao rigor cientfico, o que constitui
um mrito no desprezvel da presente obra. Ao fazer o balano de nossos
conhecimentos sobre a frica, propondo diversas perspectivas sobre as culturas
africanas e oferecendo uma nova leitura da histria, a Histria geral da frica
tem a indiscutvel vantagem de destacar tanto as luzes quanto as sombras, sem
dissimular as divergncias de opinio entre os estudiosos.
    Ao demonstrar a insuficincia dos enfoques metodolgicas amide utiliza-
dos na pesquisa sobre a frica, essa nova publicao convida  renovao e ao
Prefcio                                                                                                 XXIII



aprofundamento de uma dupla problemtica, da historiografia e da identidade
cultural, unidas por laos de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo tra-
balho histrico de valor, a mltiplas novas pesquisas.
     assim que, em estreita colaborao com a UNESCO, o Comit Cient-
fico Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito
de aprofundar algumas questes que permitiro uma viso mais clara sobre
certos aspectos do passado da frica. Esses trabalhos publicados na coleo
da UNESCO, Histria geral da frica: estudos e documentos, viro a cons-
tituir, de modo til, um suplemento  presente obra2. Igualmente, tal esforo
desdobrar-se- na elaborao de publicaes versando sobre a histria nacional
ou sub-regional.
    Essa Histria geral da frica coloca simultaneamente em foco a unidade his-
trica da frica e suas relaes com os outros continentes, especialmente com as
Amricas e o Caribe. Por muito tempo, as expresses da criatividade dos afro-
descendentes nas Amricas haviam sido isoladas por certos historiadores em um
agregado heterclito de africanismos; essa viso, obviamente, no corresponde
quela dos autores da presente obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
para a Amrica, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] poltico
e cultural, a participao constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da
primeira independncia americana, bem como nos movimentos nacionais de
libertao, esses fatos so justamente apreciados pelo que eles realmente foram:
vigorosas afirmaes de identidade que contriburam para forjar o conceito
universal de humanidade.  hoje evidente que a herana africana marcou, mais
ou menos segundo as regies, as maneiras de sentir, pensar, sonhar e agir de
certas naes do hemisfrio ocidental. Do sul dos Estados-Unidos ao norte do
Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacfico, as contribuies culturais
herdadas da frica so visveis por toda parte; em certos casos, inclusive, elas
constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns dos
elementos mais importantes da populao.




2    Doze nmeros dessa srie foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: n. 1 - O povoamento do
     Egito antigo e a decodificao da escrita merotica; n. 2 - O trfico negreiro do sculo XV ao sculo XIX;
     n. 3  Relaes histricas atravs do Oceano ndico; n. 4  A historiografia da frica Meridional; n. 5  A
     descolonizao da frica: frica Meridional e Chifre da frica [Nordeste da frica]; n. 6  Etnonmias
     e toponmias; n. 7  As relaes histricas e socioculturais entre a frica e o mundo rabe; n. 8  A meto-
     dologia da histria da frica contempornea; n. 9  O processo de educao e a historiografia na frica;
     n. 10  A frica e a Segunda Guerra Mundial; n. 11  Lbya Antiqua; n. 12  O papel dos movimentos
     estudantis africanos na evoluo poltica e social da frica de 1900 a 1975.
XXIV                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relaes da frica com
o sul da sia atravs do Oceano ndico, alm de evidenciar as contribuies
africanas junto a outras civilizaes em seu jogo de trocas mtuas.
    Estou convencido que os esforos dos povos da frica para conquistar ou
reforar sua independncia, assegurar seu desenvolvimento e consolidar suas
especificidades culturais devem enraizar-se em uma conscincia histrica reno-
vada, intensamente vivida e assumida de gerao em gerao.
    Minha formao pessoal, a experincia adquirida como professor e, desde
os primrdios da independncia, como presidente da primeira comisso criada
com vistas  reforma dos programas de ensino de histria e de geografia de
certos pases da frica Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era neces-
srio, para a educao da juventude e para a informao do pblico, uma obra
de histria elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior
os problemas e as esperanas da frica, pensadores capazes de considerar o
continente em sua totalidade.
    Por todas essas razes, a UNESCO zelar para que essa Histria Geral da
frica seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base
da elaborao de livros infantis, manuais escolares e emisses televisivas ou
radiofnicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da frica
e de outras partes, podero ter uma melhor viso do passado do continente
africano e dos fatores que o explicam, alm de lhes oferecer uma compreenso
mais precisa acerca de seu patrimnio cultural e de sua contribuio ao pro-
gresso geral da humanidade. Essa obra deveria ento contribuir para favorecer
a cooperao internacional e reforar a solidariedade entre os povos em suas
aspiraes por justia, progresso e paz. Pelo menos, esse  o voto que manifesto
muito sinceramente.
    Resta-me ainda expressar minha profunda gratido aos membros do Comit
Cientfico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes volu-
mes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realizao desta
prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuio por eles
trazida mostram com clareza o quanto homens vindos de diversos horizontes,
conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a servio da
verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido
pela UNESCO, para lograr xito em um projeto de tamanho valor cientfico
e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se s organizaes e aos
governos que, graas a suas generosas doaes, permitiram  UNESCO publi-
car essa obra em diferentes lnguas e assegurar-lhe a difuso universal que ela
merece, em prol da comunidade internacional em sua totalidade.
    APRESENTAO DO PROJETO
                    pelo Professor Bethwell Allan Ogot
             Presidente do Comit Cientfico Internacional
             para a redao de uma Histria Geral da frica




    A Conferncia Geral da UNESCO, em sua dcima sexta sesso, solicitou
ao Diretor-geral que empreendesse a redao de uma Histria Geral da frica.
Esse considervel trabalho foi confiado a um Comit Cientfico Internacional
criado pelo Conselho Executivo em 1970.
    Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da
UNESCO, em 1971, esse Comit compe-se de trinta e nove membros res-
ponsveis (dentre os quais dois teros africanos e um tero de no-africanos),
nomeados pelo Diretor-geral da UNESCO por um perodo correspondente 
durao do mandato do Comit.
    A primeira tarefa do Comit consistiu em definir as principais caractersticas
da obra. Ele definiu-as em sua primeira sesso, nos seguintes termos:
      Em que pese visar a maior qualidade cientfica possvel, a Histria Geral
       da frica no busca a exausto e se pretende uma obra de sntese que
       evitar o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposio
       dos problemas indicadores do atual estdio dos conhecimentos e das
       grandes correntes de pensamento e pesquisa, no hesitando em assinalar,
       em tais circunstncias, as divergncias de opinio. Ela assim preparar o
       caminho para posteriores publicaes.
      A frica  aqui considerada como um todo. O objetivo  mostrar as
       relaes histricas entre as diferentes partes do continente, muito amide
XXVI                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



       subdividido, nas obras publicadas at o momento. Os laos histricos
       da frica com os outros continentes recebem a ateno merecida e so
       analisados sob o ngulo dos intercmbios mtuos e das influncias mul-
       tilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuio da
       frica para o desenvolvimento da humanidade.
      A Histria Geral da frica consiste, antes de tudo, em uma histria das
       idias e das civilizaes, das sociedades e das instituies. Ela funda-
       menta-se sobre uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas
       a tradio oral e a expresso artstica.
      A Histria Geral da frica  aqui essencialmente examinada de seu inte-
       rior. Obra erudita, ela tambm , em larga medida, o fiel reflexo da
       maneira atravs da qual os autores africanos vem sua prpria civilizao.
       Embora elaborada em mbito internacional e recorrendo a todos os
       dados cientficos atuais, a Histria ser igualmente um elemento capital
       para o reconhecimento do patrimnio cultural africano, evidenciando
       os fatores que contribuem  unidade do continente. Essa vontade em
       examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poder,
       alm de suas qualidades cientficas, conferir-lhe um grande valor de
       atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da frica, a Histria poderia,
       em uma poca dominada por rivalidades econmicas e tcnicas, propor
       uma concepo particular dos valores humanos.
    O Comit decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo sobre mais de 3
milhes de anos de histria da frica, em oito volumes, cada qual compreen-
dendo aproximadamente oitocentas pginas de texto com ilustraes (fotos,
mapas e desenhos tracejados).
    Para cada volume designou-se um coordenador principal, assistido, quando
necessrio, por um ou dois codiretores assistentes.
    Os coordenadores dos volumes so escolhidos, tanto entre os membros do
Comit quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo, todos
eleitos por esse ltimo, pela maioria de dois teros. Eles encarregam-se da ela-
borao dos volumes, em conformidade com as decises e segundo os planos
decididos pelo Comit. So eles os responsveis, no plano cientfico, perante
o Comit ou, entre duas sesses do Comit, perante o Conselho Executivo,
pelo contedo dos volumes, pela redao final dos textos ou ilustraes e, de
uma maneira geral, por todos os aspectos cientficos e tcnicos da Histria. 
o Conselho Executivo quem aprova, em ltima instncia, o original definitivo.
Uma vez considerado pronto para a edio, o texto  remetido ao Diretor-Geral
Apresentao do Projeto                                                       XXVII



da UNESCO. A direo da obra cabe, dessa forma, ao Comit ou ao Conselho
Executivo, nesse caso responsvel no nterim entre duas sesses do Comit.
    Cada volume compreende por volta de 30 captulos. Cada qual redigido por
um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessrio.
    Os autores so escolhidos pelo Comit em funo de seu curriculum vitae.
A preferncia  concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequao
aos ttulos requeridos. Alm disso, o Comit zela, tanto quanto possvel, para
que todas as regies da frica, bem como outras regies que tenham mantido
relaes histricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa
representadas no quadro dos autores.
    Aps aprovao pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes captu-
los so enviados a todos os membros do Comit para submisso  sua crtica.
    Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume  submetido ao
exame de um comit de leitura, designado no seio do Comit Cientfico Inter-
nacional, em funo de suas competncias; cabe a esse comit realizar uma
profunda anlise tanto do contedo quanto da forma dos captulos.
    Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em ltima instncia, os originais.
    Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou-se necessrio,
pois permite assegurar o mximo de rigor cientfico  Histria Geral da frica.
Com efeito, houve ocasies nas quais o Conselho Executivo rejeitou origi-
nais, solicitou reestruturaes importantes ou, inclusive, confiou a redao de
um captulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questo ou
perodo especficos da histria foram consultados para a finalizao definitiva
de um volume.
    Primeiramente, uma edio principal da obra em ingls, francs e rabe ser
publicada, posteriormente haver uma edio em forma de brochura, nesses
mesmos idiomas.
    Uma verso resumida em ingls e francs servir como base para a traduo
em lnguas africanas. O Comit Cientfico Internacional determinou quais
os idiomas africanos para os quais sero realizadas as primeiras tradues: o
kiswahili e o haussa.
    Tanto quanto possvel, pretende-se igualmente assegurar a publicao da
Histria Geral da frica em vrios idiomas de grande difuso internacional
(dentre os quais, entre outros: alemo, chins, italiano, japons, portugus, russo,
etc.).
    Trata-se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca
que constitui um ingente desafio para os historiadores da frica e para a comu-
nidade cientfica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece sua
XXVIII                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



chancela. Com efeito, pode-se facilmente imaginar a complexidade de uma
tarefa tal qual a redao de uma histria da frica que cobre no espao, todo
um continente e, no tempo, os quatro ltimos milhes de anos, respeitando,
todavia, as mais elevadas normas cientficas e convocando, como  necessrio,
estudiosos pertencentes a todo um leque de pases, culturas, ideologias e tra-
dies histricas. Trata-se de um empreendimento continental, internacional e
interdisciplinar, de grande envergadura.
    Em concluso, obrigo-me a sublinhar a importncia dessa obra para a frica
e para todo o mundo. No momento em que os povos da frica lutam para se unir
e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhecimento
adequado sobre o passado da frica, uma tomada de conscincia no tocante aos
elos que unem os Africanos entre si e a frica aos demais continentes, tudo
isso deveria facilitar, em grande medida, a compreenso mtua entre os povos
da Terra e, alm disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um patrimnio
cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.


                                                           Bethwell Allan Ogot
                                                       Em 8 de agosto de 1979
                                  Presidente do Comit Cientfico Internacional
                                 para a redao de uma Histria Geral da frica
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                   1



                                          CAPTULO 1


frica no incio do sculo XIX: problemas
               e perspectivas
                                             J. F. Ade. Ajayi




   O presente volume pretende apresentar de forma geral a histria da frica
no sculo XIX, ou seja, antes da corrida macia dos europeus e da colonizao.
, em grande parte, sobre o assim chamado1 "sculo pr-colonial" que versa o
esforo desempenhado aps a Segunda Guerra Mundial para renovar a inter-
pretao da histria da frica, esforo este de que a Histria geral da frica,
publicada pela UNESCO, representa, sem dvida, o pice. A partir do momento
em que se admitiu o fato de as mudanas ocorridas na frica no remontarem
 poca colonial, despertou-se um considervel interesse no que concerne ao
sculo que precede  colonizao. Os historiadores consagraram vrios traba-
lhos aos acontecimentos revolucionrios do sculo XIX, tais como as reformas
de Muhammad `Ali no Egito, a reunificao da Etipia sob os imperadores
Tewodros e Menelik, o Mfecane dos Estados sotho-nguni na frica Central e
Austral, ou as jihad da frica Ocidental. Tais acontecimentos, assim como outros
de importncia comparvel, sero estudados nos prximos captulos. Contudo,
os traos gerais do sculo XIX, bem como o significado global deste sculo na
histria da frica, permanecem controversos.
   Em grande parte da frica, o sculo XIX  mais bem conhecido e estudado
do que os perodos anteriores. Isso se deve  abundncia e  confiabilidade rela-


1    P. D. Curtin, S. Feierman, L. Thompson e J. Vansina, 1978, p. 362.
2                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



tiva das fontes orais, assim como s novas fontes representadas pelos documen-
tos escritos decorrentes da intensificao da atividade dos europeus na frica:
relatos de viajantes, de missionrios, de comerciantes, de agentes diplomticos e
outros representantes dos pases europeus que penetraram, em muitos casos pela
primeira vez, em diversas regies do interior do continente. Houve uma tendn-
cia, como no caso da tradio oral, para situar neste sculo privilegiado todas
as mudanas importantes sofridas pela frica antes da colonizao. Felizmente,
a dinmica da evoluo da frica no decorrer dos precedentes perodos j foi
analisada nos outros volumes da presente Histria, permitindo assim refutar o
"mito" de uma frica esttica. Porm, o corolrio desse mito subsistiu: acredita-
-se ainda que as mudanas ocorridas no sculo XIX seriam necessariamente
diferentes das mudanas anteriores, podendo apenas ser explicadas por fatores
antes desconhecidos. Portanto,  importante estudar aqui em que medida as
mudanas do sculo XIX prolongariam as do sculo XVIII, e em que medida
novos fatores, ligados  intensificao da atividade dos europeus e  crescente
integrao da frica ao sistema econmico mundial, poderiam explic-las.
    A tendncia para explicar, exageradamente ou exclusivamente, as mudanas
ocorridas na frica durante o "sculo pr-colonial" em funo da intensificao
da atividade dos europeus coloca o segundo problema caracterstico do estudo
deste perodo. A crescente integrao da frica ao sistema econmico mundial 
muitas vezes considerada, no somente como um elemento importante, mas antes
como o principal acontecimento da histria da frica no sculo XIX. Em vez de
ser considerado como um prenncio, o sculo XIX aparece ento como o incio
do perodo colonial. Conforme a assero do falecido professor Dike em Trade
and Politics, segundo a qual "a histria moderna da frica Ocidental , em grande
medida, a histria de cinco sculos de comrcio com os europeus"2, considerou-se
por muito tempo que o crescimento do comrcio com os europeus, a organizao
das rotas comerciais e o desenvolvimento (em mercados que se multiplicavam na
prpria frica) das trocas, destinadas a alimentar o comrcio externo, eram os
principais, seno os nicos, fatores de mudana na histria da frica oitocentista.
Destarte, atribui-se a transformao do Egito ao choque causado pela chegada


2   K. O. Dike, 1956, p. 1. Tal assero era claramente exagerada, at mesmo em relao  prpria posio de
    Dike em seu estudo do Delta do Nger no sculo XIX, pois neste so destacados os fatores internos de
    mudana. S. I. Mudenge (1974, p. 373) critica assim a tese de Trade and Politics: "Uma vez estabelecida
    a existncia de relaes comerciais com o estrangeiro, quando se trata de expor as consequncias destas,
    Dike negligencia o estudo do efeito real desse comrcio sobre o sistema poltico, assim como de suas
    relaes com a produo e o consumo internos em cada Estado; ao contrrio, ele concentra todos seus
    esforos na descrio das rotas comerciais, dos mercados e dos produtos trocados."
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                                                    3



de Bonaparte, em vez de considerar o complexo conjunto de fatores internos
que haviam originado, j no sculo XVIII, um movimento nacional em torno do
albans Muhammad `Ali. Ao se apoiar no renascimento egpcio, Muhammad `Ali,
impedira o poder otomano de assentar de novo seu domnio direto sobre o Egito.
Da mesma forma, v-se no Mfecane no um produto da prpria dinmica da
sociedade nguni do Norte, mas antes uma vaga reao  presena dos europeus,
reao esta que teria dado origem a presses sobre a fronteira ocidental do Cabo
ou ao desejo de comerciar com os portugueses na baa de Delagoa. No incio do
sculo XIX, a notvel conjuno desses acontecimentos com as jihad da frica
Ocidental e o despertar da Etipia exigem uma explicao global3. Mas, em vez
de buscar essa explicao na dinmica das sociedades africanas, os historiadores
acreditam poder encontr-la na industrializao da Europa e na influncia da
economia mundial sobre a frica.
    , portanto, necessrio, neste captulo de introduo, concentrar nossa ateno
no que realmente era a frica no incio do sculo XIX e destacar as caractersticas
e as tendncias gerais deste perodo, a natureza e a importncia dos elementos sub-
sistentes do passado, as inovaes e outros elementos novos, e, por fim, as tendncias
para o futuro.  apenas ao abordar logo esse problema que poderemos entender,
no fim do presente volume, o que foi a evoluo da frica no sculo XIX e em que
medida devemos considerar a presena dos europeus como "uma condio prvia e
necessria ao desenvolvimento tcnico, cultural e moral das sociedades africanas"4,
ou, pelo contrrio, como a principal causa de subdesenvolvimento da frica.


    A demografia e os movimentos populacionais5
  No incio do sculo XIX, os principais grupos lingusticos e culturais que
compunham a populao da frica haviam se estabelecido h muito tempo


3    Ver a tentativa de I. Hrbek em 1965 (publicada em 1968): " surpreendente o nmero de acontecimentos
     de grande alcance ocorridos na frica entre 1805 e 1820; ainda que no tenham ligaes entre eles,
     constituem um movimento distinto na histria da frica." Ele cita as jihad dos fulbe da frica Ocidental,
     o levante dos zulus e o do Buganda, a fundao do Egito moderno por Muhammad `Ali, a expanso
     do Imerina em Madagascar, o levante dos omani em Zanzibar e a abolio do trfico de escravos. Ver
     I. Hrbek, 1968, p. 47-48. Os historiadores, que almejam doravante por uma sntese aplicvel a todo o
     continente, acreditam, muitas vezes de forma simplificadora, que a explicao global reside na integrao
     progressiva da frica  economia global.
4    T. Hodgkin, 1976, p. 7, a respeito do ponto de vista daqueles que ele chama "os sbios administradores
     imperialistas".
5    Essa seo inspira-se em grande parte de dois captulos da presente Histria, escritos respectivamente
     por J. Vansina (cap. 3, vol. V) e J. C. Caldwell (cap. 18, vol. VII).
4                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



nos diferentes territrios dos quais reivindicavam a posse. Na maior parte do
continente, essa partilha havia se findado antes do sculo XVII. No sculo XIX,
os diferentes grupos, aps terem assentado suas posies, haviam alcanado uma
certa estabilidade. Nos sculos XVII e XVIII, foi apenas no Chifre da frica e
na frica Oriental (com exceo do centro da regio dos Grandes Lagos), bem
como em Madagascar, que importantes migraes ocorreram rumo a regies
relativamente pouco povoadas. Mesmo nessas regies, as populaes haviam
atingido, no incio do sculo XIX, uma estabilidade que implica o domnio do
espao.
    Entenderemos aqui por migrao o deslocamento extraordinrio de um
grande nmero de pessoas em vastos territrios e durante um longo perodo. Os
deslocamentos regulares efetuados, a fim de garantir sua sobrevivncia, por cria-
dores de animais transumantes, por cultivadores praticantes de culturas alterna-
das, por caadores e aqueles que vivem da colheita, que percorriam determinados
territrios  procura de caa, de mel ou at de palmeiras das quais comiam as
frutas, por pescadores que seguiam as migraes sazonais dos peixes, por merca-
dores e artesos especializados, como os ferreiros, que exerciam sua atividade em
colnias longnquas, todos esses deslocamentos ainda ocorriam, mas geralmente
no implicavam uma mudana definitiva e no apresentavam o carter de uma
migrao, no sentido que demos  palavra. Todavia, a presso demogrfica ligada
ao tipo de uso das terras, muitas vezes resultante de um crescimento popula-
cional normal durante um perodo de relativa prosperidade, ou a imigrao
provocada por vrios fatores  guerra, desmoronamento dos sistemas polticos,
seca prolongada, epidemia ou outra catstrofe natural  podiam acarretar pro-
cessos de expanso progressiva. Ocorreu um grande nmero dessas expanses
no sculo XIX. Algumas, como a dos fang na zona das florestas equatoriais,
desencadearam-se em funo de movimentos anteriores ao sculo XIX; outras,
como a dos chokwe de Angola, foram provocadas pela modificao das relaes
comerciais no sculo XIX. Os movimentos populacionais de maior amplitude
eram ligados ao declnio ou ao avano dos sistemas estatais. Limitavam-se a
uma regio, como aquele que se seguiu  queda do Antigo Oyo na parte ioruba
da Nigria Ocidental, ou se estendiam em toda uma parte do continente, como
aquele dos nguni do Norte que, na frica Austral, se seguiu ao Mfecane. As
populaes em movimento muitas vezes tiveram que ocupar e cultivar terras que,
at ento, haviam sido consideradas de qualidade inferior, e, por conseguinte,
desenvolver culturas e tcnicas agrcolas adequadas a seu novo meio.
    Estima-se habitualmente em 100 milhes de habitantes a populao total da
frica no incio do sculo XIX. Este nmero  arbitrrio, pelo menos em parte,
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                         5



e resulta de uma extrapolao fundada nos poucos dados demogrficos relativos
ao perodo posterior a 1950. Tal estimativa pode se revelar muito diferente do
nmero real. Porm, do ponto de vista histrico, as questes essenciais referem-
-se menos ao nmero exato da populao do que s tendncias demogrficas e
s suas relaes com os sistemas econmicos, a atividade agrcola e a repartio
geogrfica da populao em relao aos recursos do solo.
    Em virtude da organizao da agricultura, do grau de desenvolvimento das
tcnicas e da higiene, bem como da forte mortalidade infantil causada pelas
doenas, os demgrafos supem geralmente que a populao total no podia
aumentar muito. O crescimento anual teria se situado habitualmente na faixa
dos 0,5% (ao passo que alcana atualmente entre 2,5 e 3,5%), ou seja, cada ano,
o nmero dos nascimentos teria ultrapassado o dos bitos de 50 por mil habi-
tantes. A populao teria assim duplicado em um milnio. Na frica do Norte,
visto que a populao permanecia estvel e que se praticava uma agricultura
intensiva, e a irrigao nas regies frteis, principalmente nos osis, a populao
aumentava regularmente durante os perodos de prosperidade. Entretanto, tudo
indica que esse crescimento no compensava as secas e as epidemias, de modo
que a populao podia dificilmente permanecer estvel. Nas pastagens do Sudo,
da frica Central e Austral, as populaes transformavam constantemente suas
tcnicas. Elas associavam a criao ao cultivo do solo ou praticavam diver-
sos tipos de agricultura mista, capazes de garantir a subsistncia da crescente
populao. Os habitantes das regies mais arborizadas tambm desenvolveram
tipos de agricultura permitindo o crescimento demogrfico. No sculo XVIII,
a populao atingia uma forte densidade em regies como a Baixa Casamansa,
o pas dos igbo no Sudeste da Nigria, as pastagens de Camares e a regio
dos Grandes Lagos da frica Oriental. Contudo, acrescentando-se s cats-
trofes naturais, o trfico de escravos e as guerras mortferas por ele acarretadas
causaram perdas demogrficas de grande escala e, notadamente, a diminuio,
durante um longo perodo, do nmero de mulheres em idade de procriar. Tais
perdas fizeram com que a populao total da frica diminusse nos sculos XVII
e XVIII. Esse despovoamento, desigualmente repartido, atingiu de forma mais
ampla aqueles que eram menos capazes de se defender, ento concentrados no
oeste e no centro-oeste da frica.
    Ainda no se analisaram todos os efeitos desse despovoamento. As hipteses
a seu respeito continuam a alimentar uma viva controvrsia6. Considera-se hoje


6    Ver J. E. Inikori (org.), 1982a e 1982b, p. 29-36.
6                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



que o crescimento rpido da populao, associado a recursos escassos e a uma
produtividade limitada,  uma das principais caractersticas do subdesenvolvi-
mento7. Porm, isso apenas se verifica no caso de economias interdependentes.
No caso das economias relativamente independentes do incio do sculo XIX,
foi sobretudo o subpovoamento que constituiu um fator de subdesenvolvi-
mento. Tudo indica que algumas comunidades africanas, ao compar-las com
suas vizinhas, tiraram proveito do trfico de escravos. Conseguiram conservar
sua capacidade de resistncia ao explorar a fraqueza de outras comunidades.
Assim fizeram durar sua prosperidade o tempo suficiente para implementar
slidos sistemas econmicos, nos quais o crescimento demogrfico aumentava
a produtividade e garantia o desenvolvimento. , contudo, provvel que essas
mesmas comunidades tenham sofrido do empobrecimento de suas vizinhas e
da insegurana que reinava em suas fronteiras. Nenhuma sociedade ou econo-
mia poderia ter escapado do traumatismo e do desalento geralmente causados
pelas considerveis perdas demogrficas acarretadas pelo trfico de escravos e as
guerras correlatas8. O trfico parece fornecer a melhor explicao pelo fato de a
frica, entre todos os continentes, ter tido as mais instveis e frgeis estruturas
polticas e econmicas do sculo XIX. As fronteiras dos Estados e os centros
administrativos deslocaram-se aparentemente ao ritmo de uma constante flutu-
ao. Se considerarmos os mtodos e as tcnicas em uso na poca, os agricultores
no teriam tirado o melhor proveito da maioria das terras.
    O sculo XIX no alterou de vez a situao demogrfica em seu conjunto.
A campanha em favor da abolio do trfico s produziu seus efeitos de forma
demorada. De incio, o processo de abolio resultou menos na reduo da
exportao de escravos do que na concentrao do trfico em um nmero redu-
zido de portos. Lenta no incio, a queda nas exportaes tomou, aps 1850,
propores considerveis. Porm, o trfico rumo a Zanzibar e ao Oceano ndico
aumentava  medida que diminua o das Amricas. Ademais, o crescimento
das exportaes que substituram o trfico fez com que, na prpria frica, se
precisasse de um nmero muito maior de escravos para conseguir marfim, para
recoltar o leo de palma, os amendoins, o mel, os cravos-da-ndia e, mais tarde,
a borracha e o algodo, bem como para transportar todos esses produtos. O
sculo XIX assistiu, portanto, ao crescimento considervel do trfico interno e
do trabalho servil, o que teve desastrosas consequncias sobre os procedimen-
tos de explorao. Alguns historiadores afirmam que a populao diminuiu

7   L. Valensi, 1977, p. 286.
8   J. E. Inikori, 1982b, p. 51-60.
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                                           7



pela metade, no perodo de uma gerao, em determinadas regies de Angola
antes de 1830, e da frica Central e Oriental pouco aps 1880. Entretanto, a
abolio da escravido permitiu parar com a deportao macia dos africanos.
Tudo indica que, no comeo do sculo XIX e pela primeira vez desde o sculo
XVII, a populao tendeu a crescer no conjunto do continente9. Esse movimento
acentuou-se entre 1850 e 1880, depois declinou um pouco no incio da colo-
nizao, antes de prosseguir, lentamente de incio e depois em um ritmo mais
acelerado, a partir dos anos 1930. Esse crescimento demogrfico do incio do
sculo XIX, devido a fatores tanto internos quanto externos, foi, por si mesmo,
um importante fator de mudana, particularmente em regies que, como a
frica Oriental e Austral setecentista, no foram atingidas, ou muito pouco,
pelo trfico de escravos.


    O crescente interesse dos europeus pela frica
   Quaisquer que sejam as dvidas a respeito do nmero da populao da frica
no incio do sculo XIX ou das consequncias do crescimento demogrfico da
poca, h um elemento do qual temos certeza: os europeus mostraram, ento,
pela frica um crescente interesse, cuja importncia como fator de mudana na
histria da frica foi certamente exagerada.
   Tal interesse levou de incio os europeus a empreenderem, aproximadamente
a partir do fim do sculo XVIII, expedies visando recolher informaes mais
precisas sobre as principais caractersticas geogrficas do continente africano:
fontes dos rios, situao das montanhas e dos lagos, repartio da populao.
Buscava-se tambm saber quais eram os maiores Estados, os mais importan-
tes mercados e as principais produes agrcolas e industriais. A Revoluo
Francesa, as guerras napolenicas e os esforos dos pases coligados  nota-
damente da Inglaterra, enquanto principal potncia martima  para conter a
expanso francesa tiveram repercusses sobre a frica. Os franceses, para os
quais o Egito representava a porta do Extremo Oriente, ocuparam Alexandria
e Cairo. Os ingleses tomaram a colnia holandesa do Cabo. Em seguida, ao
tomar amplitude, o movimento em prol da abolio da escravido permitiu
 Inglaterra, cuja supremacia martima se afirmava cada vez mais, intervir na
frica o quanto queria, sob o pretexto de uma misso a cumprir. Em 1807, o
Governo ingls proibiu o trfico de escravos aos mercadores ingleses e fez da

9    UNESCO, Histria Geral da frica, vol. VII, cap. 18; ver tambm J. C. Caldwell, 1977, p. 9.
8                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



cidade de Freetown, fundada por escravos alforriados, uma colnia da Coroa e
a base de uma campanha naval dirigida contra o trfico ao largo da frica Oci-
dental. Os franceses foram expulsos do Egito, mas, aproveitando-se da fraqueza
do Imprio Otomano, continuaram a buscar vantagens, entre outras comerciais,
na frica do Norte, onde a luta contra os piratas magrebinos servia de desculpa
para seus empreendimentos. Aps sua derrota, os franceses tiveram que aderir
ao movimento abolicionista, e isso foi mais uma razo para eles se interessarem
nos portos e nas feitorias da frica Ocidental. No sculo XIX, o abolicionismo,
as misses e a busca por produtos  cujo comrcio era mais honorvel do que
o dos escravos  tornaram-se, portanto, elementos importantes da situao
poltica da frica.
    Convm no exagerar, nem a potncia dos europeus na frica no incio do
sculo XIX, nem o ritmo com o qual adquiriram "posses" ou penetraram no
interior do continente antes de 1850. Os portugueses pretendiam dominar os
territrios que vo de Angola a Moambique. No interior das terras, haviam
fundado postos militares e prazos (exploraes agrcolas), e dominavam inter-
mitentemente a regio que se estendia de Loje, a Sul do Cuanza, at Casanga
(Kasanga), a Leste, alm de suas feitorias situadas na costa, entre Ambriz e
Momedes. Em Moambique, a dominao portuguesa limitava-se, em 1800,
 Ilha de Moambique. Nessa ilha, os mercadores brasileiros e mulatos desem-
penhavam um papel mais importante do que os administradores portugueses.
A crescente demanda por escravos do fim do sculo XVIII e do incio do XIX
levou-os a abandonarem o sistema dos prazos. A segurana das rotas comerciais
era principalmente garantida pelos pombeiros. Porm, esses mulatos descalos,
que vendiam produtos brasileiros, no poderiam ter exercido seu comrcio caso
este no tivesse sido tolerado pelos chefes e mercadores africanos10. Aps 1815,
os franceses haviam restabelecido suas feitorias da Senegmbia, notadamente
em Saint-Louis e Gore. No Waalo, eles tentaram fundar, sem sucesso, uma
explorao agrcola defendida por um posto militar em Bakel. Na frica do
Norte, tomaram Argel em 1830. Vinte anos foram necessrios para derrotar a
resistncia dos argelinos liderados pelo emir `Abd Al-Kdir (Abd El-Kader).
Na colnia inglesa formada por Freetown e pelas aldeias de agricultores vizi-
nhas, a aculturao dos escravos alforriados deu origem  cultura "crioula". A
crescente prosperidade dessa colnia e a emigrao de seus habitantes para
Bathurst, Badagri, Lagos, e mais adiante, estendeu sobre a costa a influncia


10   A. F. Isaacman, 1976, p. 8-11.
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                       9



dos mercadores e dos missionrios ingleses que, em um ou dois lugares como
Abeokuta, comearam a penetrar no interior do continente por volta de 1850.
Na Costa do Ouro, os ingleses, ainda submetidos  concorrncia dos comer-
ciantes dinamarqueses e holandeses, opuseram-se aos esforos de dominao
dos ashanti, notadamente ao explorar o temor que estes ltimos inspiravam
aos fanti, incentivando-os a unirem-se sob a proteo da Inglaterra. Na frica
Austral, ainda que os fazendeiros ingleses no tivessem conseguido se implantar
em Natal, a colnia do Cabo estendeu-se consideravelmente graas  secesso
dos trekboers rebeldes que avanaram para o interior do continente, obrigando
assim os ingleses a segui-los, ainda que fosse apenas para impedir seu extermnio
pelos exrcitos dos novos Estados africanos. Dessa forma, os ingleses pareciam
ser os rbitros da situao e os verdadeiros senhores da regio. Mas a frica do
Sul permaneceu, at meados do sculo XIX, uma colnia dividida e povoada
por fazendeiros pobres, muitas vezes  merc de seus vizinhos africanos, os quais
no eram menos divididos.
    Foram feitas vrias tentativas no intuito de repetir o sucesso dos ingleses
em Freetown: os americanos fundaram uma colnia na Libria e os franceses
em Libreville. O crescente interesse dos ingleses e dos franceses sobre a ndia
e o Oceano ndico  Aden, Ilha Maurcio, Madagascar e o novo sultanato de
Zanzibar  comeou a ter repercusses na frica. Contudo,  preciso lembrar
que os europeus e os americanos chegavam  frica pelo mar, concentrando-se
assim nas costas. Penetraram pouco no interior do continente antes de 1850,
enquanto os principais acontecimentos do incio do sculo XIX na frica, tais
como o Renascimento Etope, o Mfecane ou as jihad da frica Ocidental,
surgiram todos, com exceo da reforma de Muhammad `Ali, no interior do
continente.
    A presena dos missionrios contribuiu muito para o notvel sucesso dos
ingleses em Freetown. Respondendo s exigncias da situao e aps terem
superado as hesitaes inspiradas por sua f pietista, missionrios de cultura
alem, oriundos de Brema e, sobretudo, de Basileia, participaram da valorizao
dessa colnia britnica. Da mesma maneira que os missionrios ingleses, eles
entenderam que a explorao das fazendas, o estudo dos idiomas autctones, o
ensino, a construo e o comrcio ofereciam maiores possibilidades de ao do
que a predicao. Foi construdo um certo nmero de misses, e alguns missio-
nrios de primeiro plano desempenharam, a ttulo individual, um papel impor-
tante nos conflitos raciais. Porm, o sucesso de Freetown nunca foi igualado.
Surgiram diversas organizaes encarregadas da propagao do cristianismo. O
ensino bsico e os estudos lingusticos inaugurados pelos primeiros missionrios
10                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



apenas frutificariam mais tarde. Na frica, as misses crists constituram um
fator de mudana mais importante na segunda metade do sculo XIX do que na
primeira. Em 1850, Livingstone s efetuava sua primeira expedio missionria.
A Congregao dos Padres do Esprito Santo foi fundada em 1847, a dos Padres
Brancos em 1863.
    Na primeira metade do sculo XIX, a atividade dos comerciantes europeus
ampliou-se de forma muito mais rpida e alcanou territrios muito maiores do
que a influncia dos missionrios. Isso se deveu em grande parte ao fato de esse
comrcio ser a continuao do trfico de escravos que ocorreu antes do sculo
XIX. Os primeiros a praticarem o comrcio legtimo foram os negociantes, que
haviam antes praticado o trfico, ou que permaneciam negreiros. Tal fato merece
ser destacado, j que as estruturas das novas relaes comerciais eram muito
semelhantes quelas do trfico. A moeda desempenhou um papel cada vez maior
aps 1850, mas, na primeira metade do sculo, o comrcio do leo de palma,
dos amendoins, do marfim e dos cravos-da-ndia, baseava-se no trfico interno
e no crdito: era preciso, aps ter pagado adiantado em gneros aos mercadores
africanos, tomar medidas para proteger o investimento e garantir a entrega dos
bens assim adquiridos. Os negociantes europeus permaneciam na costa, onde
comerciantes africanos do interior traziam-lhes mercadorias. Da mesma forma,
intermedirios africanos, inclusive pombeiros ou comerciantes rabes e sualis,
traziam para a costa produtos negociados no interior em troca de mercadorias
compradas a prazo no litoral. Enquanto duraram essas formas de organizao, as
trocas comerciais permaneceram estruturadas da mesma forma que nos sculos
anteriores. A colheita das frutas da palmeira, da goma arbica e do mel, e at a
caa aos elefantes, empregavam um maior nmero de africanos do que a captura
de escravos e sua venda aos europeus. Por outro lado, nas principais regies de
comrcio  na costa ou a proximidade das rotas comerciais , as populaes afri-
canas modificaram progressivamente a composio de suas classes dirigentes e a
maneira pela qual seus membros eram escolhidos. Os acontecimentos do sculo
XIX favoreceram, em especial, a chegada ao poder de alguns grupos de guer-
reiros. Os descendentes de escravos alforriados consagravam-se muitas vezes ao
comrcio: o nmero e a importncia desses comerciantes crioulos cresceram nos
anos 1870. No devemos, contudo exagerar a rapidez e a amplitude da mobili-
dade social. Os chefes tradicionais no renunciaram facilmente a seus privilgios.
Pelo contrrio, em todo lugar onde era possvel, eles assentaram sua posio ao
se apoiar em guerreiros, ou mesmo em mercadores europeus ou crioulos. Os
guerreiros ou mercadores crioulos desejosos de tomar parte nos privilgios do
chefe deviam respeitar as estruturas existentes a reger a competio poltica. Eles
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                                             11



deviam recrutar uma importante comitiva, composta principalmente de escravos
e clientes, e adquirir as riquezas cuja distribuio lhes permitiriam ascender ao
poder. Assim, uma vez que a diversificao dos produtos trocados no acarretou
nenhuma transformao do sistema de relaes comerciais, no ocorreu, pelo
menos durante a primeira metade do sculo XIX, a revoluo econmica e social
que se podia esperar.
    O comrcio europeu crescia rapidamente11. Porm, tal expanso s foi poss-
vel em virtude do sistema j existente das relaes comerciais locais e regionais.
Desse fato decorre um certo nmero de consequncias que cabe destacar aqui.
A primeira foi o fato de o comrcio local e regional depender muito menos das
impulses vindas do exterior que da dinmica interna das comunidades africa-
nas e, em especial, de seus sistemas de produo agrcola, artesanal e industrial.
Outra consequncia, pelo menos no incio, consistiu no fato de o comrcio
externo ocupar, na vida da maioria das populaes africanas, um lugar muito
menos importante do que o comrcio interno. A importncia do comrcio
externo no foi, contudo, negligencivel, j que o controle desse comrcio foi,
talvez, em certos casos, um fator decisivo de superioridade.  difcil estabelecer
em que medida o desenvolvimento do comrcio exterior contribuiu para o enri-
quecimento de alguns chefes africanos, ou permitiu-lhes obter produtos essen-
ciais que no poderiam ter conseguido de outra forma. Dentre esses produtos, os
mais importantes para a maioria dos Estados africanos eram as armas de fogo.
Os esforos dos europeus para controlar, em seu prprio interesse, o comrcio
das armas de fogo fizeram com que um grande nmero de chefes atribusse ao
comrcio exterior  que era um dos meios para adquirir essa mercadoria  uma
importncia que, na realidade, no era to grande, pois a posse de fuzis nem
sempre bastava para garantir a superioridade militar.
    Outro problema colocado pelo desenvolvimento do comrcio exterior  o de
suas repercusses, no somente no que diz respeito ao comrcio local e regional,
como tambm no que tange  agricultura. Qualquer seja a importncia atribuda
por determinados chefes ao comrcio exterior, se considerarmos a atividade das
populaes africanas em seu conjunto,  certo que tal comrcio no influenciou
verdadeiramente a agricultura, ao menos durante a primeira metade do sculo
XIX. A agricultura empregava uma grande maioria da populao, ela provia as
necessidades bsicas, como a de comer, de se vestir e de se alojar, e seus produ-
tos eram amplamente usados nas fabricaes artesanais e industriais. Por isso 

11   Encontra-se um resumo til, embora verse sobre o conjunto do sculo pr-colonial, em P. D. Curtin e
     al., 1978, particularmente nas pginas 369 e 376 e no captulo 14, p. 419-443.
12                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



inconcebvel que se possa atribuir-lhe menos importncia do que ao comrcio
em geral e ao comrcio exterior em particular.


     Os sistemas de produo agrcola
    Convm destacar o fato de, no incio do sculo XIX, a economia de todas as
comunidades africanas fundar-se na produo de alimentos por meio de uma
ou mais atividades: cultivo do solo, criao de animais, pesca e caa. Todas as
outras atividades  comrcio, poltica, religio, produo artesanal e industrial,
construo, explorao de minas  eram secundrias em relao  agricultura, e
sem esta, no poderiam ter existido12. Alm de a agricultura ocupar, nesta poca,
um lugar central na vida econmica da imensa maioria dos africanos, os diver-
sos sistemas de produo agrcola permitem, em grande medida, compreender
a estrutura das relaes sociais e polticas no seio das comunidades, as relaes
das comunidades entre si, e sua atitude frente ao comrcio exterior. , portanto,
de se surpreender que os historiadores tenham concentrado toda sua ateno
no comrcio exterior13, sem indagar sobre esses sistemas que fundamentavam
as sociedades africanas.
    A maioria das pesquisas que podem ser consultadas sobre a agricultura na
frica no sculo XIX considera-a do ponto de vista das economias coloniais.
Norteadas por preocupaes tericas e ideolgicas, tais pesquisas procuram
mais participar de uma discusso sobre o subdesenvolvimento do que entender
a evoluo da agricultura africana oitocentista. Veem nos diferentes sistemas de
produo agrcola a base uniforme de uma "economia natural" e, no advento do
mercantilismo, o preldio do capitalismo perifrico, caracterstico do perodo
colonial. Poucas pesquisas baseiam-se em dados empricos para mostrar o fun-
cionamento e o desenvolvimento de determinadas comunidades agrcolas do
sculo XIX. Ademais, no permitem considerar, independentemente do ponto
de vista acima referido, as diferentes regies da frica, e ainda menos fazer
uma sntese aplicvel a todo o continente. Podemos, contudo, graas s infor-
maes nelas contidas, submeter a um novo exame as principais caractersticas
da agricultura, enquanto fundamento das sociedades africanas, e os fatores que
a modificaram.


12   D. Beach, 1977, p. 40, a respeito dos shona.
13   Ver P. J. Shea, 1978, p. 94: "O comrcio e a produo so, evidentemente, ligados, mas estimo que seja
     preciso se interessar, em primeiro lugar, pela produo."
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                        13



    O estudo de algumas comunidades rurais da Tunsia, entre 1750 e 185014,
trouxe  tona algumas caractersticas, essencialmente aplicveis s regies sub-
metidas  influncia otomana, mas tambm encontradas nas demais regies da
frica: o regime fundirio; o sistema familiar de produo e de troca; as presses
exercidas pelo governo central que, em troca dos impostos que arrecadava, prote-
gia seus sditos, mas no garantia quase nenhum servio pblico; e o constante
perigo que representavam, para a sade, as epidemias de peste, de clera e de
varola. O autor desse estudo escolheu considerar o perodo que se estende de
1750 a 1850 para destacar a continuidade dos fatos nele compreendidos, bem
como para mostrar claramente que a fraqueza da economia tunisiana remontava
mais ao sculo XVIII do que ao XIX e, portanto, que no se podia atribu-la 
interveno dos europeus. Por enquanto, deixaremos de lado esse problema e o
fato de existir, no Magreb e no Egito, sem falar do resto da frica, uma grande
variedade de formas sociais e polticas. As principais caractersticas da situao
tunisiana no menos merecem ser examinadas, no quadro de uma apresentao
geral dos problemas africanos.
    O regime fundirio das comunidades tunisianas do incio do sculo XIX era
submetido  lei islmica. Contudo permitia, tanto em teoria como em prtica,
um grande leque de interpretaes por parte do governo central, dos k`id ou das
famlias interessadas. Em funo da prtica da agricultura intensiva caracters-
tica dos "osis", as terras tinham um valor econmico superior ao resto da frica.
Portanto, era maior a tentao de troc-las por dinheiro. Porm, o elemento
essencial consiste no fato de, no incio do sculo XIX, a propriedade privada do
solo geralmente no ser reconhecida, o que constitua uma diferena fundamen-
tal em relao ao sistema feudal da Europa. Na Tunsia, bem como em outras
partes da frica, a terra pertencia  comunidade ou ao rei, na medida em que
este ltimo estava encarregado dos interesses daquela. No nvel local, o k`id, ou
qualquer outro representante competente da autoridade, atribua aos agricultores
o uso das terras. Tal direito de atribuio gerava, por vezes, algumas rivalidades.
Comunidades vizinhas, mesmo quando pagavam um tributo ou impostos ao
mesmo suserano, disputavam-se s vezes o direito de explorar diretamente as
terras ou de distribu-las entre os agricultores. Todavia, o princpio fundamental
era a impossibilidade de compra ou venda do solo. No sculo XIX, a evoluo
tornou-se mais rpida, principalmente com a chegada dos europeus. A separao
dos campos por cercas e o desenvolvimento das exploraes agrcolas contribu-


14   L. Valensi, 1977.
14                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



ram para a generalizao do comrcio das terras. Por vezes, o governo central,
ao mesmo tempo em que mantinha, em teoria, o fundamento jurdico do regime
fundirio, buscou tirar proveito do valor econmico do solo. Da mesma forma,
as famlias que sofriam dificuldades financeiras procuravam s vezes garantir um
emprstimo ao ceder a seus credores, ao menos temporariamente, uma poro
de terreno. Essas prticas apenas modificaram progressivamente o sistema de
produo agrcola herdado do sculo XVIII, e raramente alteraram de forma
significativa o fundamento terico do regime fundirio.
    Destacaremos mais uma vez a diversidade, do ponto de vista dos modos de
produo agrcola, apresentada pelas diferentes reas ecolgicas da frica, quer
se trate dos sistemas de propriedade e de sucesso, das ferramentas bsicas, dos
tipos de culturas, do uso do solo, da diviso das tarefas entre homens e mulheres,
ou ainda, da especializao das diferentes comunidades no que concerne  esco-
lha das culturas, s tcnicas agrcolas ou  criao de animais. Porm, existe outra
caracterstica da situao tunisiana que se pode aplicar ao conjunto da frica.
Essa caracterstica evidencia o erro que consiste em falar, a respeito da agricul-
tura africana, de uma "economia de subsistncia" ou de uma "economia natural".
Essas expresses tm como origem a ideia falsa, segundo a qual as comunidades
rurais da frica eram comunidades estticas formadas por "tribos independentes
ou quase"15. J que se recolheram fatos refutando a hiptese do isolamento das
comunidades, alguns defensores do conceito de agricultura de subsistncia, ao
mesmo tempo em que reconhecem a importncia predominante da circulao
dos bens e dos servios, tentam doravante dar  subsistncia uma definio base-
ada em uma concepo ideolgica. Eles sustentam que os agricultores africanos
praticavam uma agricultura de subsistncia, mas que no eram camponeses, j
que, mesmo ao praticar trocas, a busca do lucro no era seu principal objetivo.
Eles definem os camponeses como "pequenos produtores agrcolas que garantem
a sua subsistncia ao vender uma parte de sua safra e de seu rebanho". Ademais,
eles consideram que o surgimento do campesinato resulta necessariamente da
formao de novos mercados e da busca do lucro16. A histria da Tunsia mos-
tra muito bem que na frica do incio do sculo XIX, os sistemas de produo
agrcola eram organizados de tal maneira que as comunidades no podiam ser
independentes. A diversidade dos solos, das tradies familiares, das preferncias


15   E. P. Scott, 1978, em particular as pginas 449 e 453, cujas notas relatam a longa controvrsia baseada
     na oposio entre agricultura de subsistncia e troca, e entre o carter "formal" e o carter "real" das
     trocas.
16   R. Palmer e N. Parsons, 1977b, p. 2-5.
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                             15



individuais e das tcnicas, tinha como efeito a diversidade das culturas. O cultivo
do solo, a fabricao artesanal e a criao de animais, formavam combinaes
cuja variedade incitava as famlias a satisfazer suas necessidades bsicas, trocando
entre si suas produes. Cada famlia cedia parte de seu excedente em troca do
que ela necessitava, mas no produzia, e conservava o restante em previso de
uma seca ou de outra catstrofe.
    No incio do sculo XIX, no existiam, em nenhuma regio da frica, inclu-
sive nas mais afastadas, comunidades que pudessem ser consideradas totalmente
autossuficientes ou independentes. Em sua pesquisa sobre o reinado de Womu-
nafu no Bunafu, D. W. Cohen mostrou que mesmo uma pequena comunidade
isolada dispunha de bens e de servios que apenas especialistas podiam lhe
oferecer17. O Bunafu era uma regio afastada do norte do Busoga que, segundo
Cohen, nunca at ento fora submetida a algum tipo de poder administrativo.
Um certo nmero de chefes acompanhados por suas famlias e seus partidrios,
ali se havia estabelecido no fim do sculo XVIII e no incio do XIX. Tal pene-
trao era ligada s ltimas fases das migraes dos luo. Estes, oriundos das
fontes do Nilo, viram se juntar a eles grupos expulsos das margens setentrionais
do Lago Vitria e de pequenos Estados, como Luuka, pela expanso do reino
do Buganda. Esses migrantes evitavam os Estados j constitudos e procuravam
regies pouco povoadas. Suas casas eram espalhadas em vez de serem agrupadas
em aldeias. No havia verdadeiras feiras onde trocar seus produtos de forma
regular. Os casamentos, os ritos e outras formas de relaes sociais fizeram com
que nascesse entre eles o sentimento de constituir uma comunidade. Aps um
perodo de luta pelo poder, um dos pretendentes conseguiu impor sua autori-
dade a todo o grupo, mas, em termos de vida social, cada famlia permanecia
organizada em torno de suas terras. Como afirma Cohen:
     a disperso dos domnios [...] favorecia o surgimento e a preservao de tradies
     hericas, cujo tema central era o arroteamento dos territrios, fundando assim a
     perenidade do poder e dos direitos dos descendentes do arroteador sobre tal terri-
     trio. O princpio estabelecido consistia no fato de cada ontem ser o senhor de seu
     domnio, da mesma forma que o rei era o senhor de seu reino. O domnio era um
     mundo fechado, que fosse ou no circundado por uma cerca; dentro dos limites de
     seu domnio, cada homem era soberano18.




17   D. W. Cohen, 1977, p. 48; ver tambm mapa 11.2 abaixo.
18   Ibid., p. 43.
16                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    No  necessrio mostrar, de forma detalhada, como e sob que forma um
poder supremo se destacou a partir das tradies rivais, relativas aos fundadores
das diferentes famlias do Bunafu. O que  preciso sublinhar  o fato de, no
sculo XIX, os domnios serem as unidades do sistema de propriedade fundiria
e de produo. Porm, mesmo no Bunafu, apesar das cercas que os circunda-
vam e da distncia que os separavam uns dos outros, os domnios no eram
autossuficientes. Em um perodo de duas geraes teceram-se relaes sociais
e culturais, formando assim uma rede em que os bens e os servios circulavam
com uma notria facilidade. Recm-chegados, como o mukama Womunafu e
seus companheiros, introduziram tcnicas, conhecimentos e produtos novos.
A demanda por determinados produtos, notadamente usados na agricultura,
como o sal, a olaria e os objetos de ferro, dava por vezes origem  organizao
de uma feira, onde os habitantes traziam, a fim de troc-los por esses produtos,
tecidos de casca de rvore, peles ou animais vivos. Outros levavam diretamente
o excedente de sua produo a pescadores ou a artesos especializados, como os
forjadores ou os oleiros. Os bens e os servios circulavam tambm sob a forma
de pagamentos para determinados ritos, ou na ocasio dos casamentos e de
outros acontecimentos da vida social, sem falar dos saques, roubos e sequestros.
O estudo de Cohen apresenta-nos, como ele mesmo diz, "uma srie de quadros
da vida econmica de uma regio que, no incio do sculo XIX, ainda no era
submetida a qualquer poder administrativo. Essa economia no era `canalizada'
pelo comrcio internacional ou inter-regional, mas baseava-se em uma rede de
circulao, de distribuio e redistribuio especialmente densa e extensa"19.
    At mesmo no Bunafu, as mudanas do sculo XIX acarretaram obrigaes e
possibilidades novas.  medida que as famlias cresciam, as culturas se estendiam
a terras antes negligenciadas. Tentaram-se novas culturas de que se desconfiava
at ento; algumas dentre elas tomariam mais tarde uma grande importncia. O
"horizonte econmico" das comunidades crescia  medida que o comrcio estrei-
tava os laos das aldeias com os portos da costa e os mercados ultramarinos. O
desenvolvimento das relaes comerciais provocou mudanas sociais e polticas.
Tais relaes tenderam a reforar a posio dos chefes, que podiam enriquecer
mais rapidamente com a taxao do comrcio do sal, do ferro e do cobre  sem
falar do marfim, da cera de abelha e do leo de palma  que com a arrecadao
de tributos sob a forma de produtos agrcolas e de trabalho obrigatrio. Porm,
os chefes podiam dificilmente apropriar-se de todos os benefcios do comrcio.


19   Ibid., p. 47-48.
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                         17



A fim de buscar fortuna, um grande nmero de indivduos deixou o lugar de
residncia imposto a eles pela tradio, aumentando assim a mobilidade social.
Essas lentas mudanas no constituam verdadeiras novidades, mas resultavam,
antes, da acentuao de uma tendncia e da generalizao de um comportamento
que j se podia observar no sculo XVIII. No devemos, portanto, exagerar o
efeito do comrcio exterior. Como o mostra J. -L. Vellut, a histria da frica no
sculo XIX no se reduz  maneira pela qual o continente enfrentou as flutua-
es da economia mundial; trata-se tambm da histria da lenta diversificao
dos recursos naturais explorados pelos africanos20.  imprescindvel destacar
esse fator interno, ao mesmo tempo influenciado por fatores externos e na base
da reao suscitada por estes. Como indicado por Cohen no captulo sobre a
regio dos Grandes Lagos  at agora considerada pelos historiadores como
um conjunto de Estados centralizados reagindo a foras externas  essa regio,
"no sculo XIX, no era apenas um conjunto de Estados, pequenos e grandes,
mas tambm um mundo em que o indivduo e a famlia no cessavam, de mil
maneiras, e por vezes insensivelmente, de mudar de atitude frente  autoridade
do Estado,  participao social,  produo e ao comrcio"21.
     interessante comparar, no incio do sculo XIX, a organizao da agricul-
tura nos arredores da antiga cidade de Kano, no norte da Nigria, com aquela
que prevalecia no Bunafu, essa regio do norte do Busoga ainda no submetida
 autoridade administrativa. As feiras ocupavam um lugar maior na economia
do Kano, pois essa cidade tornara-se, desde muito, um dos centros do comrcio
local, regional e internacional, graas a suas atividades manufatureiras: fabricao
e tingimento dos tecidos e curtio. Entretanto, seria um erro concentrar nossa
ateno nas correntes determinadas pelas feiras e pelas rotas comerciais, em vez
de interessarmo-nos na rede de relaes sociais e culturais de que dependiam tais
rotas e feiras. O soberano, a classe dirigente e os mercadores de Kano desem-
penhavam um papel considervel na vida econmica dessa cidade fortificada,
tambm influenciada pelo isl. Todavia, tanto em Kano quanto no Bunafu e
nas comunidades rurais da Tunsia, a produo agrcola, quer se tratasse das
culturas de base ou das diversas espcies de algodo e de plantas tintureiras,
dependia essencialmente dos plebeus dos domnios rurais, que constituam a base
do sistema de produo. Como o apontou Abdullahi Mahadi, em uma pesquisa
recente, na regio de Kano, o maigida, ou seja, o chefe de um domnio, agia
"como o governador de uma cidade". O pessoal de sua casa recebia dele comida

20   J.-L. Vellut, cap. 12 abaixo.
21   D. W. Cohen, cap. 11 abaixo.
18                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



e vestimentas; ele presidia os acontecimentos de sua vida social; cada ano, ele
determinava a extenso das terras a serem cultivadas, assim como o tipo de cul-
turas que receberiam; ele decidia quanto tempo seria empregado no trabalho da
explorao coletiva (gandu) e nas exploraes individuais (gayauna). O trabalho
no era nitidamente dividido por gnero. Todo mundo participava da semeadura:
os homens cavavam buracos no solo para ali depositar as sementes, ao passo que
mulheres e crianas as recobriam de terra. Os adultos dos dois sexos cuidavam da
capina enquanto as crianas guardavam os carneiros, as cabras e outros animais
domsticos. As mulheres juntavam no meio do campo os feixes colhidos pelos
homens. Alm da rede de relaes sociais e culturais que, em alguns casos, impli-
cavam o trabalho em comum e a troca dos produtos, havia o que era chamado de
gayya (trabalho comunitrio), realizado pelos habitantes de uma aldeia de forma
voluntria  mas um bom cidado devia participar conscienciosamente  quando
um excedente de mo de obra era requisitado para a semeadura, a colheita, a
construo de uma casa ou outra atividade dessa importncia22.
    Como mencionado acima, no que diz respeito ao controle da economia e
da vida das comunidades reais, o Estado, encarnado pelo emir e seus represen-
tantes oficiais, desempenhava em Kano um papel mais ativo do que no Bunafu.
A esse respeito, a situao de Kano assemelhava-se  da Tunsia. O emir era
considerado o dono do solo. Ele podia tambm regulamentar a aquisio, o uso
e a alienao das terras. Ele tinha o poder de proibir o uso da terra queles de
seus sditos que haviam voluntariamente desobedecido, falharam no cumpri-
mento de suas obrigaes tributrias, ou cometiam, de forma corriqueira, aes
contrrias aos interesses da sociedade, tal como o roubo. Ao mesmo tempo, o
emir tinha o dever de garantir a seus sditos leais a posse de suas terras, de tal
forma que os chefes de domnios acreditavam geralmente ser o dono delas. Mas
nem por isso acreditavam que a posse garantida pelo emir pudesse outorgar-lhes
o direito de alienao, ainda que fosse geralmente permitido alugar ou sublocar
suas terras. Apoiando-se nessa concepo segundo a qual o emir era o dono do
solo, soberanos empreendedores incitaram vrios grupos, notadamente oriundos
do Borno, de Azben ou do Nupe e que podiam introduzir em Kano diversas
tcnicas agrcolas ou industriais, a instalarem-se em diferentes partes do reino,
onde substituram as populaes autctones geralmente incitadas a deixar a
regio que habitavam. O rei outorgava domnios aos chefes, aos principais digni-
trios e mercadores. Estes ali empregavam seus escravos e clientes para o cultivo


22   A. Mahadi, 1982, especialmente o cap. 6, "Agricultural and Livestock Production".
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                           19



do solo, a criao de animais e a produo industrial. Outros trabalhadores foram
recrutados por meio do sistema que institua o trabalho voluntrio, o gayya.
    O xito obtido pela jihad no incio do sculo XIX trouxe importantes mudan-
as  poltica econmica de Kano. Provocou notadamente a aplicao do sistema
jurdico do isl  a shari`a  ao regime fundirio. Os califas deram mais importncia
s diversas medidas destinadas a promover a prosperidade industrial e comercial. 
de destacar que essa poltica se fundamentava na organizao da agricultura vigente
no sculo XVIII. Como o afirma Mahadi, "o sistema fundirio anterior ao sculo
XIX no sofreu alteraes essenciais. O aspecto da continuidade primava sobre o
da mudana"23. A shari`a, ao reconhecer o direito do emir de distribuir terras, fazia
do solo um possvel objeto de comrcio que "Kano continuava a considerar ilegal".
O mais notvel efeito da aplicao da shari`a ao regime fundirio teria sido o de
favorecer, por meio da herana, a diviso do gandu (domnio explorado coletiva-
mente por uma linhagem) em lotes pertencentes, cada um, a uma famlia, e, por
conseguinte, de reduzir a extenso dos lotes, que constituam, para os plebeus, a base
da produo agrcola. Ao mesmo tempo, a notria expanso da agricultura exten-
siva praticada pela classe dirigente e os principais negociantes agravou a escassez
de terras, particularmente a proximidade de Kano e das outras cidades, o que levou
os pequenos agricultores a estabelecerem-se em regies mais afastadas, a abando-
narem a agricultura para a fabricao artesanal e industrial, ou a submeterem-se
totalmente aos grandes proprietrios, juntando-se a sua clientela.


     As estruturas do poder
    Os exemplos de Kano e do Bunafu mostram, sob duas formas diferentes, a
influncia que a estrutura poltica podia ter sobre o desenvolvimento da agri-
cultura na frica do incio do sculo XIX. No primeiro caso, o sistema poltico
era centralizado e amplamente estruturado. No outro, um poder mais difuso
exercia-se de maneira informal. No retomaremos aqui a distino, outrora
proposta pelos antroplogos, entre as sociedades "com Estado" e as sociedades
"sem Estado". Os habitantes do Bunafu tinham a impresso de viver sob a
autoridade de um governo. Quando das lutas em torno do surgimento de um
novo sistema poltico no Bunafu, os imigrantes, que haviam fugido de sistemas
polticos hierarquizados e fortemente estruturados, inspiraram-se na lembrana
que guardavam de tais sistemas. Outros continuavam a acreditar nos poderes do

23   Ibid., p. 566-567.
20                                                           frica do sculo XIX  dcada de 1880



mukama, esse chefe carismtico eleito e habitado pela divindade, ou na influncia
dos fogos, ritualmente acesos na casa real, sobre a fecundidade das mulheres e a
fertilidade do solo. Vellut mostrou que era preciso substituir a distino baseada
na presena ou na ausncia de um Estado por uma distino entre
     dois modelos de poder: o dos reinos, hierarquizado, definido e tributrio, ou, no outro
     extremo, o do governo por comits de ancios ou de autoridades locais, mais iguali-
     trio e informal. Esses dois modelos eram complementares e, na prtica, existia uma
     grande variedade de situaes intermedirias, hesitaes e compromissos diversos. As
     exigncias do meio e das atividades econmicas, bem como das circunstncias hist-
     ricas e at mesmo de pessoas, favoreceram um tipo de organizao aproximando-se
     ou do modelo realista (com suas qualidades de ordem, de segurana), ou do ideal
     democrtico, mais flexvel, menos coercivo24.
     preciso acrescentar que o sistema estatal no foi sempre aquele que garan-
tiu a ordem da forma mais eficiente. Transcendendo o sistema de linhagens
caracterstico das sociedades descentralizadas, diversas instituies que haviam
se desenvolvido nas reas religiosas, judiciria e econmica puderam, graas a seu
carter global, cumprir a funo de enquadramento, necessria  preservao da
ordem, ou substituir o Estado em decomposio25. Podemos citar, por exemplo,
o poro e associaes similares na Alta Guin ou as diversas "sociedades secretas"
de Camares e do Gabo, na bacia do Cross e na zona da floresta equatorial.
No caso dos aro, a influncia de um grupo de orculos, amplamente difundida
nas colnias aro e por "sociedades secretas" locais, forneceu a base judiciria e
econmica da unificao de uma grande parte do pas igbo. As mudanas econ-
micas do sculo XIX agiram nas estruturas do poder, no somente ao modificar
a estrutura dos Estados, como tambm ao reforar, em vrios casos, as estruturas
no polticas que j abrangiam o conjunto da sociedade.
    Os acontecimentos advindos no incio do sculo XIX revelam uma tendn-
cia  centralizao dos sistemas polticos e  consolidao da autoridade real.
Ao passo que se desagregavam os imprios por demais extensos, como o dos
lunda, o Antigo Oyo e o Imprio Mossi do mogho naaba, foram substitudos por
novos Estados, menores e submissos a regimes mais autoritrios. Muhammad
`Ali fortaleceu seu poder no Egito, o que enfraqueceu ainda mais o Imprio
Otomano. Ele sonhava com a substituio dele por um imprio afro-rabe,
mas tal projeto, apesar dos esforos de seu filho, nunca se concretizou. `Uthmn

24   J.-L. Vellut, cap. 12 abaixo.
25   J. N. Oriji, 1982.
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                                 21



dan Fodio conseguiu transformar o califado de Sokoto em um grande imprio,
mas o verdadeiro poder poltico foi delegado aos emires. O Mfecane provocou
uma reao em cadeia que resultou na constituio de um conjunto de peque-
nos reinos centralizados, no somente na frica Austral, como tambm na
frica Central e mesmo Oriental. Em sua anlise das causas do Mfecane, L.
D. Ngcongco mostra a que ponto o sistema de produo agrcola do Nguni do
Norte era centralizado, e como a sociedade nguni, sob o impulso do Estado, se
adaptou s exigncias impostas pela transformao desse sistema.
    Os cultivadores nguni do norte haviam progressivamente desenvolvido um
sistema de explorao mista. Eles viviam em moradias dispersas e no em aldeias
como os sotho-tswana. O chefe da linhagem paterna morava geralmente na
propriedade familiar, com duas ou trs mulheres acomodadas, cada uma com
seus filhos, em uma casa separada. Os homens cuidavam do rebanho e caavam,
enquanto as mulheres se dedicavam s culturas. O sistema de uso do solo permi-
tia ao rebanho ter acesso, alternadamente, aos pastos doces e aos pastos amargos:
     Na primavera e no incio do vero, os pastores nguni podiam levar seu rebanho para
     pastar no `cume' das altas terras e, a partir de meados do vero, eles desciam de volta
     com seus animais at o fundo dos vales cobertos de ervas tenras. A diversidade do
     clima permitira tambm a esses agricultores escolher os terrenos os mais apropriados
      cultura do sorgo, do milhete ou do milho26.
    O milho introduzido no sculo XVIII substitura-se, no incio do sculo XIX,
s culturas tradicionais como base da alimentao. Esses fatores parecem ter acar-
retado uma relativa prosperidade e um crescimento demogrfico que, ao agravar a
concorrncia em torno da posse das terras, provocaram, por sua vez, novas tenses
sociais e polticas. Os chefes, fossem eles soberanos ou tributrios, formavam
uma hierarquia. Seus grandes domnios participavam das atividades comunitrias,
fossem elas rituais, culturais ou militares. Ao que tudo indica, os soberanos dos
nguni do norte tomaram emprestado dos sotho-tswana seus rituais de iniciao
centralizados. Ademais, eles usaram esses rituais para recrutar jovens dos dois
sexos como mo de obra comunitria e, mais tarde, para formar tropas de jovens
guerreiros que, por vezes, passavam at dez anos no domnio real antes de voltarem
a suas casas, casarem e retomarem o trabalho da terra. Tal sistema permitia limitar
o crescimento demogrfico e regular os movimentos populacionais. As atividades
militares dessas tropas tomaram amplitude  medida que a concorrncia pela
apropriao do solo degenerava em verdadeiras guerras.

26   L. D. Ngcongco, cap. 5 abaixo.
                                                                                                                                                          22
                                                                                                                                                          frica do sculo XIX  dcada de 1880
figura 1.1 Dana cerimonial em Mbelebele, campo militar zulu, em 1836. [Fonte: J. D. Omer-Cooper, The Zulu aftermath, 1966, Longman, London (o original
encontra-se em A. F. Gardiner, Narrative of a journey to the Zoolu country, 1836, London). Ilustrao: Longman,  Slide Centre Ltd, Ilminster.]
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                     23



     Os impulsos internos
    O Mfecane, considerado uma das principais causas das grandes mudanas
na frica do sculo XIX, explica-se em primeiro lugar pela maneira com que o
desenvolvimento social e econmico se adaptou, antes do sculo XIX,  evoluo
histrica. O exame minucioso dos dados de que dispomos atualmente desmentiu
todas as tentativas de explicao global ligando o Mfecane  presena dos euro-
peus no Cabo,  crescente influncia da economia pastoril capitalista praticada
pelos trekboers, ou  atrao pelo comrcio estabelecido pelos portugueses na
baa de Delagoa. Os impulsos na base do Mfecane vinham principalmente da
prpria frica. Isso tambm se verifica no que diz respeito a outros grandes
acontecimentos do incio do sculo XIX, tais como as reformas de Muhammad
`Ali e as jihad da frica Ocidental.
    O movimento nacional que levou Muhammad `Ali ao poder e do qual este
ltimo, graas a sua habilidade, soube permanecer o inspirador e dirigente, foi
muitas vezes atribudo ao abalo causado pela "misso egpcia" de Bonaparte.
Trata-se, contudo, de uma concepo errnea, como o mostra A. Abdel-Malek
em seu captulo intitulado "O renascimento do Egito (1805-1881)": "O sculo
XVIII egpcio aparece como um laboratrio do que seria o Egito renascente27"
O sentimento nacional sustentado pela elite egpcia nas grandes cidades, em
especial Cairo e Alexandria, e pelos shaykh e os `ulam nos centros islmicos
como al-Azhar, deu origem s revoltas de outubro de 1798 e de abril de 1800,
enfraquecendo a posio dos franceses e provocando sua partida. O mesmo
movimento derrotou a tentativa dos mamelucos pr-otomanos para restabele-
cer seu domnio sobre o Egito. Portanto, foi o sentimento nacional egpcio que
permitiu as reformas de Muhammad `Ali e explica a vontade deste ltimo e de
seu filho de dar ao Egito um governo verdadeiramente nacional, independente
tanto do sulto otomano, quanto dos europeus, e capaz de administrar um
imprio afro-rabe.
    Essa vontade de renovao e de reforma manifestou-se tambm junto aos
diferentes soberanos que tomaram parte da aventura do Mfecane, ou que ten-
taram restaurar o Imprio da Etipia, ou entre os shaykh do Sudo Central e
Ocidental, que tiraram das tradies do isl os princpios de uma reforma social
e poltica. Em grande parte graas aos escritos que deixaram os combatentes da
jihad e os viajantes europeus, temos um conhecimento suficiente do conjunto


27   A. Abdel-Malek, cap. 13 abaixo.
24                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



de foras e ideias que provocaram essa srie de movimentos revolucionrios,
iniciada, no sculo XVIII, no Futa Toro, no Futa Djalon e no Bondu para
terminar, no sculo XIX, em Sokoto, no Macina e em Dinguiraye. , portanto,
intil tentar avaliar o lugar ocupado pela economia europeia neste conjunto
de foras e ideias: mercantilismo na poca do trfico negreiro, ou capitalismo
na poca da abolio da escravido e das viagens de descoberta. A jihad rece-
beu seu impulso dos prprios africanos. Os soberanos que tomaram parte da
jihad esforaram-se para desenvolver a produo agrcola, tanto nas exploraes
familiares tradicionais, quanto nos grandes domnios explorados por escravos
ou por clientes. Tambm incentivaram a indstria e o comrcio. Melhoraram
as rotas comerciais e a segurana dos comerciantes. A imensa maioria das mer-
cadorias que circulava ao longo dessas rotas era destinada ao comrcio local e
regional, mas os chefes da jihad tambm criaram rotas para os mercadores que
atravessavam o Saara e para os peregrinos que iam ao Sudo Oriental, ao vale
do Nilo e a Meca.  cada vez mais evidente que, mesmo antes da retomada
oitocentista do comrcio com os europeus, essas medidas relativas ao comrcio
interno implantaram rotas comerciais que atravessavam todo o continente 28.
Claro, os europeus rapidamente tomaram conhecimento do resultado dessas
medidas, das quais se apressaram em tirar proveito. Pelo fato de no disporem
de documentos igualmente numerosos a respeito das regies situadas mais ao
Sul, os historiadores caram com mais frequncia na tentao de superestimar
a influncia que teve sobre a economia do Antigo Oyo a participao desse
Estado no trfico negreiro, no sculo XVIII, por intermdio da regio dos egba
e de Porto-Novo29. At agora, contudo, essas hipteses sobre as consequncias
da abolio da escravatura no conseguiram explicar a derrocada das bases eco-
nmicas, polticas, religiosas e sociais do imprio, nem as numerosas tentativas
feitas no sculo XIX no intuito de alicerar novas estruturas em diversas ideias
polticas e religiosas.  mais provvel que, como nos Estados onde foi travada
a jihad, essa derrocada tenha como causas fundamentais o descontentamento
dos sditos e seu desejo de reformas; as causas secundrias, por sua vez, foram a
penetrao do pensamento muulmano e a jihad de Sokoto, mais do que o tr-
fico ou sua abolio. As guerras, as migraes, a explorao de regies at ento


28   Ver por exemplo P. D. Curtin e al., 1978, cap. 14.
29   R. Law, 1977, em particular nas p. 217-236, recapitula todos os documentos disponveis, mas ele tem
     tendncia a exagerar a influncia do comrcio em geral, e do trfico em particular, sobre a economia do
     Antigo Oyo. Ver na pgina 255: " provvel que o desmoronamento do trfico nos anos 1790 tenha
     reduzido consideravelmente a renda dos alafin, e Awole, para enfrentar a situao, teria talvez aumen-
     tando os impostos dentro do reino."
frica no incio do sculo XIX: problemas e perspectivas                                                   25



deixadas de lado, como os charcos costeiros, o desenvolvimento das cidades e
de novos mercados, o gosto pelas experincias e reformas foram consequncias
da queda do imprio que criaram possibilidades que os europeus se limitaram
a explorar.
    , portanto, o desejo de renovao que explica que, no sculo XIX, e apesar
da desconfiana que as intenes dos europeus lhes inspiravam, tantos soberanos
africanos  do Egito e da Tunsia, de Madagascar e de Lesoto, de Abeokuta
como da regio dos fanti  tenham corrido o risco de acolher comerciantes,
aventureiros ou missionrios vindos da Europa: esperavam que a importao
das tcnicas europeias ajudasse a desenvolver seus pases. O Egito no foi o
nico pas da frica a ter uma sensao de renascimento. Pode-se realmente
dizer que o sculo XIX foi, para a frica, "a era do progresso"30. Mas a aspira-
o ao progresso, que de fato dominou essa poca, tinha sua origem na prpria
frica. Os soberanos africanos tentaram tirar partido da atividade crescente dos
europeus, mas, vtimas dessa atividade, acabaram vendo frustrada sua esperana
de renovao.


     Concluso
    No incio do sculo XIX, surgiram novos fatores de mudana na histria da
frica, sendo o principal deles o maior desejo de os europeus terem no apenas
de fazer comrcio na frica, mas tambm intervir na vida social e econmica das
populaes africanas. Esse desejo se traduzia em diversas preocupaes: os euro-
peus queriam conhecer melhor as populaes e os recursos do interior, eliminar
o trfico negreiro, desenvolver a exportao de certas culturas; os missionrios
procuravam impor aos africanos a maneira de viver dos cristos; os comerciantes
empenhavam-se em estender sua atividade ao interior do continente. Tudo isso
abria novas possibilidade e novas dificuldades econmicas. Os centros do novo
comrcio nem sempre coincidiam com os do antigo. Os diferentes Estados e,
dentro dos Estados, os diferentes grupos de interesses disputavam as fontes de
riqueza e o comrcio dos produtos agora essenciais, como as armas de fogo.
A importncia quantitativa dessas novas relaes comerciais e, mais ainda, o
estmulo que elas representaram para as trocas j existentes, foram fontes de


30    o ttulo ("Africa's age of improvement"), dado por A. Hopkins, em 1980, a sua aula inaugural, que, con-
     tudo, versava mais sobre os objetivos gerais da histria econmica da frica do que sobre as tendncias
     caractersticas do sculo XIX.
26                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



expanso considervel das atividades comerciais. Contudo, uma vez mais  pre-
ciso frisar que o comrcio praticado no sculo XIX era o prolongamento do que
existia antes; que os homens que o inauguraram e as estruturas que o sustenta-
ram eram os mesmos da poca do trfico negreiro; que esse comrcio se baseava,
em grande medida, no trfico interno e no trabalho dos escravos; e, portanto, nos
sistemas polticos, na rede de rotas comerciais, nas relaes sociais e econmicas
e, antes de tudo, no sistema de produo agrcola preexistentes. No se deve
traar uma imagem deformada da evoluo da frica no incio do sculo XIX,
fazendo remontar a essa poca a influncia preponderante que os europeus s
tero mais tarde sobre os processos de transformao. No incio do sculo XIX,
as tradies herdadas do sculo XVIII e as mudanas prprias  frica tiveram
muito mais importncia do que as mudanas vindas de fora.
A frica e a economia-mundo                                                                 27



                                     CAPTULO 2


              A frica e a economia-mundo
                                   Immanuel Wallerstein




    Estruturas comerciais: dos "produtos de luxo"
    aos "gneros de primeiras necessidades"
    A grande transformao das relaes econmicas da frica com o resto
do mundo no foi o produto da partilha do continente no fim do sculo XIX.
Ao contrrio, a partilha da frica foi uma consequencia da transformao das
relaes econmicas desse continente com o resto do mundo e, em particular,
com a Europa: processo que comeou por volta de 1750, resultando na grande
empreitada europeia de colonizao dos ltimos decnios do sculo XIX.
    H tempos, vastas regies da frica encontravam-se sulcadas por rotas
comerciais que se prolongavam frequentemente para alm do continente, atra-
vessando o Oceano ndico, o Mediterrneo e o Oceano Atlntico1. Podemos
dizer que estas relaes comerciais extracontinentais correspondiam mais ou
menos ao "comrcio  longa distncia" praticado, h milnios, na sia e na
Europa, e no quadro do qual se trocava aquilo que convm chamar produtos de
luxo, ou seja, produtos que rendiam muito por um baixo volume. A produo
de tais gneros destinados s trocas ocupava apenas uma pequena frao da


1   A. G. Hopkins (1973, pg. VI) faz aluso aos "grupos de entidades econmicas interdependentes que
    estabeleciam relaes comerciais regulares, muito extensas e antigas".
28                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



mo de obra das regies de origem, e provavelmente representava apenas uma
pequena parcela de seus rendimentos. Consequentemente, o comrcio "de luxo"
era um comrcio "do suprfluo", j que era possvel interromp-lo ou find-lo
sem para isso reorganizar, na base, os processos de produo das regies de ori-
gem. Portanto, no que diz respeito s duas regies cujos produtos eram objeto
de tal troca, no se pode dizer que elas se situavam em um mesmo sistema de
diviso do trabalho2.
    Parece que, na zona do Oceano ndico, as estruturas no evoluram muito
entre 1500 e 1800. A intruso dos portugueses nessa zona martima, seguida
de outros europeus, modificou um pouco a identidade dos protagonistas deste
comrcio, mas quase no alterou sua natureza e amplitude. Mesmo no que con-
cerne aos homens, as mudanas foram menos importantes do que, em geral, se
acredita. Parece que, ainda em 1750, Moambique, cujo litoral fora colonizado
pelos portugueses, contava dentre seus mercadores com mais naturais da ndia
e do Guzerate do que residentes portugueses. Parece que as mudanas impor-
tantes intervieram somente na segunda metade do sculo XVIII, com a queda
do Imprio Mogol, o advento da ndia britnica, bem como o avano dos rabes
omanis na costa suali3.
    Era de praxe a distino tradicional entre a produo agrcola no comercia-
lizada e o comrcio de produtos (de luxo) no agrcola com os pases longnquos,
mesmo onde se haviam estabelecido pequenas comunidades agrcolas de europeus,
tais como os prazeros, no vale do Zambeze, ou os beres, na costa do Cabo.
    Entretanto, havia uma zona onde a situao econmica era sensivelmente
diferente: as regies da frica Ocidental e Central, que comearam a participar
do trfico de escravos. Evidentemente, o trfico foi tanto uma consequencia
quanto um elemento chave da edificao da economia-mundo capitalista, ini-
ciada aproximadamente em 1450, com a Europa em sua base. Desde o sculo
XVII, a regio do Caribe, em amplo sentido, fazia parte deste conjunto na
condio de zona de produo anexa, cujas plantaes (no somente de cana-
-de-acar, mas tambm, de tabaco, algodo etc.), em pleno desenvolvimento,
dependeram cada vez mais da mo de obra dos escravos "capturados" na frica
Ocidental e Central, transportados atravs do Atlntico.
     preciso considerar este comrcio de escravos de longa distncia como um
comrcio de luxo ou de "produtos de primeiras necessidades"? Pode-se dizer


2    Em obras anteriores, tive a oportunidade de explicar porque o comrcio exterior da frica antes de 1750
     pode ser considerado como um comrcio "de luxo". Ver I. Wallerstein, 1973 e 1976.
3    Ver E. Alpers, 1975.
A frica e a economia-mundo                                                                              29



que ele concerne  "produo" de mo de obra a servio da economia-mundo
capitalista? E devem-se considerar tais regies de "produo" como zonas anexas
deste sistema capitalista? Estas questes so bem complexas. Para respond-las
em termos quantitativos, observa-se um movimento ascendente do trfico de
escravos, entre 1450 e 1800, e um aumento muito sensvel em torno de 1650.
Em 1750, os efetivos triplicaram em relao a 16504.
    A partir de uma certa poca, os negreiros, evidentemente, no se contenta-
vam mais em buscar indivduos para vender como escravos, mas esforavam-se
para assegurar fontes regulares de abastecimento.  por isso que a frica Oci-
dental e Central foi insensivelmente levada a adotar seu sistema de produo
e sua poltica em funo dessas relaes econmicas, doravante permanentes.
 difcil saber a partir de qual poca (1650? 1700? 1750?) esta adaptao pode
ser considerada relativamente bem estabelecida. Pessoalmente, estou mais incli-
nado para uma data mais tardia5. Mas, como veremos,  certo que a prpria
transformao deste negcio "de luxo", o trfico de escravos, em um comrcio
"de primeira necessidade" abalou sua viabilidade econmica: de fato, os custos de
reproduo deveriam, desde ento, estar integrados nos clculos de rentabilidade,
em termos de remunerao dos servios de mo de obra na economia-mundo
capitalista, pois em toda troca de "produtos de primeira necessidade", os custos
de produo compreendem os "custos de oportunidade".
    Enquanto a frica se encontrava "fora" da economia-mundo, o "custo" de um
escravo para seu senhor era a soma dos custos de compra, de sustentao e de
vigia do escravo (calculada proporcionalmente  durao de sua vida), dividida
pelo trabalho total produzido pelo escravo durante sua existncia. O "benef-
cio" para a economia-mundo era basicamente a diferena entre a mais-valia
produzida pelo escravo e seu "custo". A partir do momento em que a frica se
encaminhou para "o interior" da economia-mundo, ou seja, que ela produziu, em


4   Dados calculados figuram em P. Curtin (1969, quadros 33, 34, 65, 67 e figura 26). Se os nmeros men-
    cionados por P. Curtin tm sido muito discutidos, por outro lado, a evoluo da curva de crescimento
    proposta por ele no  muito questionada. Ver o debate entre J. Inikori (1976) e P. Curtin (1976); ver
    tambm o resumo das provas cientficas, bem como a nova sntese de P. Lovejoy (1982). P. Lovejoy
    aponta algumas modificaes fundamentais na curva. Lembremos que, traando uma s curva para toda
    a frica, no se levava em conta as nuanas geogrficas. A costa angolana foi largamente integrada desde
    o sculo XVI, ao passo que o Golfo de Benin, a Costa do Ouro e o Golfo de Biafra s foram integrados
    por volta de 1650, 1700 e 1740, respectivamente. A costa de Serra Leoa, integrada muito cedo, apenas
    se tornou uma importante zona de exportao por volta da metade do sculo XVIII. Quanto  frica
    do Sudeste, s se tornou uma grande fonte de exportao no sculo XIX.
5   S. Daget (1980) explica que, a partir de 1650, o comrcio de escravos implicou a "produo" de escravos;
     por isso que, distinguindo-se ao mesmo tempo do comrcio de luxo e dos produtos de base, as relaes
    comerciais da poca 1650-1800 apresentavam-se como um compromisso entre estas duas noes.
30                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



seu solo, gneros que fizeram parte da diviso do trabalho da economia-mundo,
algum que era escravo no podia ser outra coisa, por exemplo, um produtor
livre ou um assalariado. Portanto, se o "custo" do escravo talvez permanecesse o
mesmo para o seu senhor, o "benefcio", do ponto de vista da economia-mundo,
devia ser recalculado. O primeiro termo da equao devia levar em conta a
acumulao "de substituio", resultando de uma possvel outra utilizao do
indivduo. Talvez o escravo tivesse produzido uma mais-valia ainda mais forte
se ele no tivesse sido escravo. Ademais, e isto  fundamental, o segundo termo
tambm mudava, pois os anos de reproduo, que outrora, comumente, no eram
levados em conta nos clculos, agora passaram a constar deles. A acumulao
lquida, resultado dos anos de escravido, encontrava-se agora reduzida, ao passo
que continuaria a mesma, caso o escravo no fosse escravo. Consequentemente,
do ponto de vista do processo de acumulao no conjunto da economia-mundo,
o clculo era menos favorvel ao sistema de escravido.
    Entretanto, o desenvolvimento futuro da frica deveria ser menos afetado
por estas modificaes econmicas do trfico de escravos do que por um pro-
cesso muito mais profundo, o qual se desenrolava na complexa economia-mundo
capitalista. O primeiro movimento de expanso econmica e geogrfica da
economia-mundo capitalista a longo prazo ocorrera entre 1450 e 1600-1650.
Pode-se dizer que nesta poca, a frica no se integrava a esse processo hist-
rico. Entre 1600-1650 e 1730-1750, a economia-mundo capitalista conheceu
um perodo de relativa estagnao, retomando seu flego e reunindo suas foras.
Isso foi particularmente ntido nas regies geogrficas que tinham participado
do movimento expansionista do sculo XVI. Mas, nesta poca, nenhuma regio
da frica aderira a esse sistema (com as reservas j feitas, no que concerne 
evoluo da estrutura do trfico de escravos)6.


     A expanso capitalista
   Entretanto, por volta de 1730-1750, por razes inerentes ao seu funciona-
mento, a economia-mundo capitalista retomou sua expanso econmica e geo-
grfica. No curso dos cem anos que se seguiram, ela absorveria, em sua rede de
produo, cinco grandes zonas geogrficas que, at ento, haviam permanecido
 margem de seu sistema: a Rssia, o Imprio Otomano, a ndia, as zonas "lon-


6    Para uma anlise detalhada da economia-mundo capitalista no perodo 1450-1750, ver I. Wallerstein,
     1974, 1980.
A frica e a economia-mundo                                                    31



gnquas" do continente americano (o Canad, a parte ocidental da Amrica do
Norte, a ponta meridional da Amrica do Sul), bem como a frica (do Norte,
do Oeste e do Sul).  da integrao dessa ltima zona que tratamos aqui.
    Para a economia-mundo capitalista centrada em torno da Europa, as cinco
zonas mencionadas acima apresentavam caractersticas comuns: todas elas
tinham uma posio geogrfica perifrica; todas estavam em contato com a
Europa atravs de seu comrcio "de luxo" com as terras longnquas; todas eram,
potencialmente, produtoras de matrias primas e podiam recorrer a uma mo
de obra pouco dispendiosa.
    Entretanto, essas cinco zonas tambm apresentavam caractersticas forte-
mente diversas. Seus sistemas ecolgicos eram muito diferentes uns dos outro,
e, no que tange  incluso de tais zonas na economia-mundo, existia uma grande
variedade, tanto na natureza dos produtos, quanto nos custos de produo cor-
relatos. Os sistemas polticos tambm eram muito diversos. De um lado, havia
os grandes imprios do mundo (Imprio Russo e Imprio Otomano), os quais
agrupavam domnios muito vastos em uma superestrutura poltica nica e muito
burocrtica. No outro extremo, havia os territrios "longnquos" das duas Am-
ricas  economias no agrcolas, pouco povoadas, sem relaes umas com as
outras, e dotadas de mltiplas estruturas polticas, frequentemente acfalas.
No primeiro caso, o processo de integrao  economia-mundo foi obra de
"integradores", sabendo se adaptar aos sistemas polticos existentes e encontrar
os meios de transform-los em estruturas estatais, contidas no sistema interes-
tatal e por ele delimitadas. No segundo caso, o processo de integrao passava
pela criao de novas estruturas (frequentemente de tipo colonial), capazes de
organizar a produo e de participar do sistema interestatal. Aproximadamente
falando, podemos dizer que, no primeiro caso, as estruturas dos Estados exis-
tentes foram enfraquecidas, ao passo que, no segundo, assistiu-se ao surgimento
de novas estruturas, mais fortes. Contudo, em ambos os casos, as estruturas
polticas, resultantes desta transformao, foram aquelas das zonas perifricas,
estruturas "fracas" em relao s "fortes" estruturas estatais das regies-mes da
economia-mundo capitalista.
    O processo de integrao da frica no participou de nenhum dos dois
extremos. As estruturas polticas existentes eram mltiplas. Algumas eram rela-
tivamente fortes e burocrticas, ao passo que outras eram praticamente acfalas.
A frica no constitua, de forma alguma, o que  chamado de "uma economia",
mesmo se frequentemente podemos falar de "economias" regionais que, muitas
vezes, ultrapassavam o quadro de entidades polticas singulares. Do ponto de
vista dos "integradores", certas estruturas polticas existentes deveriam estar
32                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



enfraquecidas (por exemplo, o Imprio Russo, o Otomano e o Mogol), ao passo
que, em outros casos, foi preciso criar poderes polticos novos e fortes o suficiente
para assegurar o bom funcionamento dos processos econmicos transformados.
Enfim, sabe-se que sistemas polticos coloniais completamente novos foram
criados quase em toda parte, mais frequentemente, aps um certo prazo.
    A integrao de um novo elemento na economia-mundo passa basicamente
por duas fases. Primeiramente, pela fase fundamental: a transformao de uma
parte relativamente importante dos processos de produo que deveriam dora-
vante fazer parte do conjunto integrado dos processos de produo, segundo
os quais opera a diviso do trabalho na sociedade da economia-mundo. Em
segundo lugar, a transformao das estruturas polticas, resultando na constitui-
o de "Estados" submissos s regras e aos mecanismos do sistema interestatal;
tais Estados eram fortes o suficiente para facilitar uma circulao relativamente
fluda dos fatores de produo no interior da economia-mundo, mas no tinham
a potncia necessria para se oporem a ela, salvo por certos meios restritos e
por tempos limitados. Estamos convencidos de que tal processo de integrao
se desenrolou a partir de 1750 (at aproximadamente 1900), para a frica do
Norte, a frica do Oeste e a frica do Sul, ao passo que a frica do Leste apenas
comeou sua integrao por volta de 1850, ou at mesmo 18757.
    Essa integrao da frica no nasceu de um dia para outro. Foi um processo
lento e regular, tanto que qualquer observador pudesse constatar uma permann-
cia dos velhos esquemas de produo agrcola e a predominncia deles em ter-
mos estatsticos. As normas e os valores tradicionais permaneceram,  primeira
vista, relativamente imutveis, o que podia evidentemente incitar a subestimao
da importncia da evoluo em curso. No obstante, destacamos quatro mudan-
as: uma parte da produo logo se viu orientada sistematicamente para os
mercados da economia-mundo capitalista; tratava-se de "produtos de primeira
necessidade" para a economia-mundo; essa produo exigia o recrutamento (ou a
requisio) de trabalhadores, o que tendeu  implementao de novas estruturas
de fornecimento de mo de obra; por fim, tal produo beneficiava, geralmente,
queles que a dominavam no plano local, atraindo assim novos interessados. Tal

7     preciso fazer uma distino entre "integrao" e "assimilao perifrica". No primeiro caso,  reforado
     o desenvolvimento do capitalismo, alargando-o; no segundo, ele  desenvolvido em profundidade. A
     integrao sempre precede a assimilao perifrica. Esta segunda fase comeou em 1875/1900 para a
     maior parte da frica do Norte, do Oeste e do Sul, e, talvez, somente por volta de 1920 para a frica do
     Leste. O processo est sempre em curso. Quando sustentamos que antes do sculo XX a frica no fazia
     parte da economia-mundo, queremos dizer que a assimilao perifrica ainda no era efetiva. Em uma
     obra publicada em 1982, T. K. Hopkins e I. Wallerstein explicam, brevemente, a distino e as relaes
     entre esses dois processos.
A frica e a economia-mundo                                                      33



processo foi simplesmente ativado pela integrao, mas o fato  que onde existe
a qudrupla combinao da produo orientada para um mercado-mundo, da
produo de artigos de primeira necessidade, da reestruturao da mo de obra
e do lucro, dispomos da base econmica indispensvel  integrao, com todas
as consequencias polticas acarretadas por tal processo. Convm sublinhar que
a integrao da frica na economia-mundo no  a consequencia de uma livre
escolha. Nenhuma regio escolheu essa opo. A integrao foi um processo
exgeno que se chocou com resistncias. Ora, a resistncia oposta pela frica
produziu alguns efeitos: ela retardou, depois diminuiu o prprio processo da
integrao. Mas houve um momento em que o equilbrio das foras foi des-
favorvel aos oponentes. Isto no foi o fim da ao de origem local. As lutas
pelo poder continuaram, mais ou menos segundo as vias preexistentes, porm
obedecendo a novos imperativos sistemticos e geralmente diferentes daqueles
que estavam em vigor antes da integrao. A ao local no conheceu trgua na
frica, tampouco em qualquer outra parte.
    Dado que, at ento, o comrcio "intercontinental" da frica consistia princi-
palmente no trfico de escravos, e que a integrao foi acompanhada da abolio
do trfico, a integrao frequentemente tem sido considerada como a passagem
do comrcio de escravos ao comrcio "legtimo". Contudo, recorrer a expres-
ses ideolgicas da poca pode induzir-nos ao erro. Para se convencer disso,
basta considerar a frica do Norte ou a frica do Sul, sem falar das regies
exteriores ao continente africano que foram integradas  economia-mundo na
mesma poca. A diminuio do trfico de escravos, qualquer que fosse a sua
importncia, se situava no segundo plano em relao  necessidade, geralmente
experimentada pela economia-mundo capitalista, de encontrar novas regies
de produo a baixo custo, no quadro do desenvolvimento geral de sua atividade
econmica e de sua taxa de acumulao.


    A integrao do Egito e do Magreb
   Este processo  mais fcil de ser discernido se no basearmos a anlise, como
de costume, no estudo da costa ocidental da frica. Tomemos, portanto, o caso do
Egito. Antes de 1730, a produo egpcia se inscrevia no esquema da diviso do
trabalho no Imprio-mundo Otomano. O Egito era, ao mesmo tempo, um dos
celeiros deste sistema histrico e uma placa giratria desta vasta rede interconti-
nental de comrcio de produtos de luxo. Na segunda metade do sculo XVIII, as
contradies internas do sistema egpcio, aliadas  diminuio da demanda dos
34                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



artigos de exportao anteriores, provocaram uma crise da fiscalidade da estrutura
estatal e um aumento dos impostos, ocasionando, por sua vez, um movimento de
resistncia dos camponeses, que se manifestou atravs de um abandono das ter-
ras. Ora, na mesma poca, a economia-mundo capitalista buscava precisamente
incluir a produo egpcia em sua rede. Tal processo foi concretizado, no fim do
sculo XVIII, pela ativa rivalidade militar que levou a Frana e a Inglaterra  luta
 ambas desejando se impor na regio. A resposta egpcia se deu pela ascenso
ao poder de Muhammad `Al, que tentou "modernizar" o pas.
    Do ponto de vista econmico, esse esforo de "modernizao" se apoiava na
produo de um gnero agrcola, devendo servir de artigo de exportao de base.
Por diversas razes ligadas s condies ecolgicas e s estruturas polticas da
economia-mundo capitalista, o Egito tinha mais interesse em optar pelo algodo
de fibras longas do que pelo trigo. Entretanto, a produo de algodo em grande
escala necessitava de uma modificao no s do sistema de irrigao, mas ainda
da organizao social das relaes de produo. Muhammad `Al estabeleceu o
monoplio do Estado no comrcio, com arrecadao direta das taxas por fun-
cionrios assalariados. Seguiu-se uma regulamentao, cada vez mais estrita, dos
mtodos de produo dos agricultores, e o recrutamento forado de pessoal para
os trabalhos de infraestrutura e para o servio militar. Tal sistema foi posterior-
mente substitudo pelo trabalho de corveia nas grandes propriedades privadas,
que representavam 45% da superfcie das terras arveis em 1844, ao passo que
este nmero no passava dos 10% em 1818. O processo foi ainda reforado aps
a morte de Muhammad `Al, com a expropriao dos camponeses que acabou
desencadeando, com o apoio destes, a grande revolta dos `Urb, em 1881-1882.
Tal revolta contribuiu, entre outros, para precipitar o estabelecimento do regime
colonial britnico. A transformao integral do processo de produo teve por
consequencia o surgimento de uma importante camada de trabalhadores rurais
sem-terras, o estabelecimento de um controle direto das atividades agrcolas e
um sensvel aumento do tempo de trabalho exigido dos camponeses8.
    As coisas ocorreram diferentemente no Magreb. Por um lado, podemos
dizer que houve um constante esforo para integrar o Magreb (em particular,
o Marrocos) na economia-mundo capitalista, desde suas origens, ou seja, desde
o final do sculo XV9. Por outro lado, parece que a regio no tinha conhecido
grandes mudanas nas relaes de produo at a metade do sculo XIX, ou
mesmo mais tarde. Entre 1450 e 1830, uma boa parte (mas no a totalidade)

8    Para mais precises, ver A. R. Richards, 1977.
9    Ver A. Laroui, 1975, p. 29-33 e D. Seddon, 1978, p. 66.
A frica e a economia-mundo                                                                                 35



das relaes entre o Magreb e a Europa, atravs do Mediterrneo, era condi-
cionada pela atividade dos corsrios; essa, do ponto de vista econmico, pode
ser assimilada, de alguma forma, ao comrcio de luxo com os pases longn-
quos, mediante ambiguidades anlogas quelas que apresentavam o trfico de
escravos setecentista na frica Ocidental. Todavia, contrariamente ao trfico
de escravos, as expedies corsrias comearam a desaparecer no sculo XVIII,
cedendo espao a trocas comerciais mais regulares, em particular no Marrocos
e na Tunsia10. Desde a segunda metade do sculo XVIII, o Marrocos cultivava
gneros industriais e alimentcios, os quais eram exportados para a Europa junto
a produtos de origem animal e minerais. Essas atividades foram consideravel-
mente estendidas aps 182011. A maior resistncia da Arglia a tal integrao
econmica explica, na verdade, sua conquista relativamente precoce, sobrevinda
em uma poca em que a dominao poltica da Europa sobre a frica ainda
no se encontrava generalizada.


     O modelo da frica Ocidental
    O papel primordial do comrcio transaariano na vida econmica do Magreb
est entre os fatores que permitiu a esse ltimo manter, durante muito tempo,
relaes mal definidas com a economia-mundo, a meio caminho entre a inte-
grao e a independncia. A regio serviu de zona de passagem e de intermedi-
rio para aquilo que, na verdade, era uma ligao comercial indireta e distante
entre Sahel e a Europa. Foi precisamente em funo disso que o Magreb no
se viu obrigado a fundar em seu prprio territrio novos centros de produo
dedicados  exportao. As opinies divergem quanto  relativa importncia
do trfico comercial transaariano entre 1750 e 188012. Mas  certo que, com
a colonizao sobrevinda no fim do sculo XIX, estas antigas rotas comerciais
perderam sua importncia econmica, e o Magreb se viu privado da "cobertura"
que lhe assegurava seu papel de entreposto.



10   A. Laroui estima que a evoluo da Tunsia no sculo XVIII  comparvel ao desenvolvimento empreen-
     dido mais tarde pelo Egito. "A Tunsia deu os primeiros passos; mas, no sculo seguinte, ela se inspiraria
     no despotismo iluminado de Mhmet Ali". 1975. p. 43.
11   Ver D. Seddon, 1978, p. 69-71.
12   Segundo A. A. Boahen, 1964, p. 131, esse comrcio apenas representava, no sculo XIX, "uma parte
     de seu valor inicial"; ao passo que C. Newbury, 1966, afirma que, longe de declinar, ele no cessou de
     aumentar at 1875.
36                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



    H tempos, os historiadores se interessam pelo avano do que chamamos de
comrcio "legtimo" na frica Ocidental oitocentista, cujo aspecto mais impor-
tante no  nem o aumento quantitativo das trocas nem as variaes de sua
composio, mas a resultante transformao das estruturas de produo, bem
como as consequencias dessas mudanas nas relaes de produo. Este processo
comeou antes das medidas tomadas pelos britnicos para abolir o trfico de
escravos, pois a prpria poltica abolicionista  uma consequencia da expanso
da economia-mundo capitalista;  indubitvel que a abolio da escravido tenha
precipitado o processo de transformao das estruturas de produo na frica
Ocidental13.
    Inmeras provas escritas permitem-nos afirmar que o novo produto por
excelncia, e, de algum modo, aquele que mais teve sucesso, foi o leo de palma,
originrio do Delta do Nger. Primeiramente ligado ao trfico de escravos14,
tal produo prosperou at 1861, ano que assistiu ao fim de seu avano, o seu
declnio definitivo ocorrendo no final do sculo15. O comrcio de leo de palma
tambm se desenvolveu na Costa do Ouro, ainda que de forma um pouco menos
espetacular16, e no Daom, onde o trfico de escravos alcanara tamanha ampli-
tude que podemos falar da integrao efetiva da populao local pelo trfico17.


13   C. Chamberlin, 1979, p. 420-421, contesta o termo "comrcio legtimo", porque, alm de seu eurocen-
     trismo, "ele sugere que a abolio est na origem da converso das exportaes de escravos em exportaes
     de produtos, ao passo que, na verdade, essa transformao  simultaneamente anterior e posterior s
     disposies abolicionistas britnicas de 1807". Ele adere  ideia de que as necessidades da Europa de
     matrias-primas desempenharam um papel, e insiste nas "exigncias extraordinrias" que faziam pesar,
     na produo, o volume das exportaes do leo de palma, da madeira e do ltex. Numerosos produtores
     comearam a prospectar vastas regies em busca de novos produtos.
14   Ver A. J. H. Latham, 1978. Ver tambm C. Coquery-Vidrovitch e H. Moniot, 1974, p. 108: "Dife-
     rentemente das naes europeias, comrcio negreiro e comrcio legtimo no representavam, para os
     africanos, duas atividades contraditrias. Ao contrrio, sua complementaridade nos anos 1860 facilitou
     a evoluo".
15 Ver A. G. Hopkins, 1973, p. 133.
16   Ver A. A. Boahen, 1975, p. 91. Quanto  supremacia da Nigria sobre a Costa do Ouro no que tange 
     produo do leo de palma, ver S. D. Neumark, 1954, p. 60.
17   Ver I. A. Akinjogbin, 1967, p. 141: "A partir de 1767, a vida nacional do Daom dependia basicamente das
     consequncias, a longo prazo, da restaurao econmica de Tegbessou. Ao fundar a economia do Daom
     no trfico de escravos, Tegbessou tanto colocara o reino  merc dos fatores externos que os daomeanos
     no puderam control-lo nem mesmo influenci-lo". Ver tambm D. Ronem, 1971 e J. Inikori, 1977.
     A passagem do trfico de escravos ao comrcio de leo de palma reforou a influncia dos mercadores
     particulares em relao aos mercadores do rei (R. Law, 1977) e estimulou a atividade comercial no norte
     da savana, como nos caso dos ashanti ( J. F. Munro, 1976, p. 46). Mas, na realidade, essa transio oca-
     sionou mudanas mais decisivas no nvel da produo do que no nvel das trocas. "A coleta, o transporte
     e a armazenamento de produtos, tais como o leo de palma e o amendoim, assim como a diviso dos
     produtos importados e sua repartio entre inmeros pequenos produtores, exigiam mais mo de obra
     do que o trfico de escravos [...]" ( J. Munro, 1976, p. 47).
A frica e a economia-mundo                                                                                37



    O amendoim tambm foi um importante novo produto. Destinado  expor-
tao, primeiramente foi cultivado na costa da Alta Guin, nos anos 1830,
depois, se expandiu para o Oeste at a Senegmbia18. A terceira grande produo
foi a do ltex, cujo comrcio comeou muito mais tarde, em parte para compen-
sar a baixa demanda do leo de palma19. Por sua vez, o fim do trfico de escravos
e o desenvolvimento da agricultura de rendimento que lhe foi decorrente no
litoral, ou prximo s costas, estimularam a economia no centro do Sudo (gado,
potassa, produtos agrcolas, artigos de couro)20.
    O fato  que algumas tentativas de novas culturas comerciais malograram.
Notadamente, parece que a interveno direta dos europeus produziu efeitos
nefastos na produtividade, como ilustram o fracasso da colonizao agrcola
do Waalo, entre 1819 e 183121, e, mais tarde, as diversas tentativas feitas no
Senegal, no sul da Costa do Ouro e na Nigria22. Isso no significa que os
europeus comeavam a se estabelecer mais solidamente na cena africana: antes,
a importante mudana era que, ao comprar lotes de artigos dos traficantes que
penetravam no interior e organizar o envio de tais produtos para o alm-mar,
eles suplantavam, nos portos, os mercadores africanos que desempenhavam o
papel de intermedirios23.
    Para adaptar a produo s novas exportaes, foi necessrio, evidentemente,
renovar as importaes. Durante todo o sculo XIX, assistiu-se  multiplicao
das importaes de produtos manufaturados provenientes da Europa, e, sobre-
tudo, da Gr-Bretanha. Assim, a frica, cujos tecidos de algodo j eram os
primeiros produtos de importao no sculo XVIII, multiplicou por cinquenta
o volume de suas importaes entre 1815 e 1850, e, depois, por sete, at 189124.


18   G. E. Brooks, 1975, destaca a rapidez com que os cultivadores africanos responderam  forte demanda
     europeia (em particular, francesa). Ver tambm B. Mouser, 1973, 1975.
19   Ver R. E. Dumett, 1971.
20   Ver P. E. Lovejoy, 1974, p. 571-572: "O crescimento econmico encetado aps 1750 prosseguiu durante
     todo o sculo XIX [...]. O sculo que precedeu o regime colonial foi uma poca de relativa prosperidade".
     P. Lovejoy observou que o volume das mercadorias a granel, transitando entre a zona costeira (inclusive
     os gneros reexportados da Europa) e o Sudo Central, era largamente superior quilo que geralmente
     pensamos.
21   Ver B. Barry, 1972, p. 237-258.
22   Ver J. F. A. Ajayi e B. O. Oloruntimehin, 1976, p. 211. Segundo A. G. Hopkins, 1973, p. 138: "Os
     promotores (destas experincias) encontraram-se impossibilitados de lutar contra a concorrncia dos
     mercados internacionais, parcialmente em razo dos custos proibitivos da mo de obra africana livre".
23   Ver C. Chamberlin, 1979, p. 423. No que concerne  repartio dos papis nas relaes comerciais
     internas, G. I. Jones destaca, a propsito da regio do Delta do Nger, que "os comerciantes europeus, de
     bom ou mau grado, tiveram que se adequar s estruturas comerciais africanas" (1963, p. 82).
24   Ver C. W. Newbury, 1972. Ver tambm A. G. Hopkins, 1973, p. 129.
38                                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



Os fabricantes da frica Ocidental adaptaram-se a esse afluxo macio, como o
fizeram os povos de outras regies ao se integrarem  economia-mundo. Uma
parte das manufaturas locais foi convertida, as outras se especializaram para lutar
contra esta nova concorrncia e se refugiaram em uma produo destinada a
mercados mais restritos25.


     A frica Austral
   Na frica Austral, a integrao seguiu um processo diferente: de um lado,
porque a regio no exportava escravos, de outro, em razo do estabelecimento
de uma colnia de brancos. Embora os beres estabelecidos no Cabo no sculo
XVIII fossem europeus vivendo em uma colnia europeia, devemos considerar
que poucos fizeram parte integrante da economia-mundo capitalista26.
   As modificaes estruturais que seguiram s guerras napolenicas foram,
evidentemente, uma consequncia regional da nova hegemonia adquirida pela
Gr-Bretanha na economia-mundo. Mas este movimento poltico pode ser
considerado como o prosseguimento lgico do lento processo de avano e de
expanso da economia-mundo. Os britnicos consagraram pouco tempo  adap-
tao dos processos de produo que teria permitido uma rpida integrao da
regio. Aumentaram consideravelmente o trfico martimo, enviaram novos
colonos da Gr-Bretanha e desenvolveram a criao em escala industrial de
carneiro em tamanhas propores que, por volta de 1845, a colnia do Cabo


25   Ver J. E. Flint, 1974, p. 388-389 e E. Reynolds, 1974a, p. 70.
26   M. F. Katzen sublinha os numerosos esforos empregados pelas autoridades holandesas a partir de Van
     Riebeeck a fim de implantar uma produo orientada para a exportao: "As nicas exportaes saindo
     do Cabo, antes de 1778, consistiam em alguns produtos da caa (marfim, peles, plumas de avestruz etc.),
     mais o trigo, o vinho e a aguardente, no sculo XVIII" (1969, p. 193). Alis, esses ltimos produtos eram
     exportados em quantidades muito pequenas: "A nica produo comercial de vinho se situava a dois ou
     trs dias do Cabo, os cereais eram cultivados ainda um pouco mais longe [...]. A VOC (Vereenigde Oost
     Indische Compagnie, Companhia Holandesa das ndias Orientais) considerava o Cabo, antes de tudo, como
     um posto de abastecimento que devia ser explorado da forma mais econmica possvel", p. 202. Sobre o
     perodo precedente a 1806, J. F. Munro fez uma distino entre a zona que se estende no raio de 80 a
     100 quilmetros em torno da cidade do Cabo, "que produzia trigo e vinho para o mercado de exportao"
     (1975, p. 56) e "as outras zonas agrcolas de subsistncia que, devido  colnia de tendncia pastoral a leste
     do Cabo, estabeleceram frgeis ligaes comerciais com o trfico martimo do Cabo [...]".
     A. Atmore e S. Marks afirmaram que, mesmo na frica do Sul do sculo XIX, "sem a contnua contri-
     buio de tcnicas provenientes da metrpole ou do enclave metropolitano do Cabo", os africnderes
     "teriam podido se misturar  populao majoritria das diferentes sociedades africanas presentes, como
     fizeram os prazeros portugueses no vale do Zambeze ou, ainda, os mestios griqua no rio Orange" (1974,
     p. 110). Mas,  precisamente a que reside o problema. No sculo XIX, de bom ou mau grado, eles foram
     integrados  economia-mundo e reagiram em funo desta realidade.
A frica e a economia-mundo                                                                               39



havia se tornado um importante centro de produo da economia-mundo27.
Mais tarde, o Natal se tornaria uma regio produtora de acar, cujas plantaes
empregavam trabalhadores indianos engajados a longo prazo.
    No sculo XVIII, os agricultores brancos obrigaram os khoi-khoi e os mes-
tios ("coloured") a trabalharem, mais frequentemente, como escravos. Depois,
os britnicos declararam oficialmente a emancipao dos escravos. A expanso
e a evoluo econmica provocaram ento o Grand Trek dos beres, tendo os
britnicos permanecido basicamente como testemunhas  parte, ao passo que as
populaes nguni e zulu entravam em ao28. Houve, ento, uma luta incitada
pela possesso das terras e pelo domnio da mo de obra empregada a uma
produo destinada ao mercado mundial. Na colnia do Cabo, camponeses afri-
canos implantaram uma agricultura desenvolvida paralelamente s exploraes
dos cultivadores brancos, os quais empregavam meeiros africanos29.
    No podemos fazer nenhuma aproximao entre os acontecimentos acima
descritos e a situao da regio angolana, que, entretanto, matinha ligaes mais
antigas com a Europa. Nesse caso, o trfico de escravos e o comrcio de marfim
se desenvolveram rapidamente, ocasionando incurses cada vez mais profundas
no continente e enfraquecendo diversas estruturas polticas existentes30. Aps a
abolio da escravido, tentou-se criar plantaes para os colonos brancos. Estas
conheceram um breve momento de prosperidade graas ao xito do algodo nos
anos 1860; mas tais plantaes acabaram malogrando, como muitas das outras
tentativas deste gnero na frica Ocidental31. Nenhum produto africano foi
ento objeto de uma importante cultura de rendimento.


     A tardia integrao da frica Oriental
   A costa oriental da frica tambm permaneceu relativamente  margem
da economia-mundo capitalista. Foi atravs do Oceano ndico que ela estabe-
leceu suas primeiras relaes com o exterior. A ndia e, em menor medida, a


27   Ver J. F. Munro, 1976, p. 56-60.
28   At ento, os colonos brancos apenas haviam exercido fortes presses polticas e econmicas nas socie-
     dades nguni, no Zuurveld, nos anos 1780 e 1790 (C. Bundy, 1979, p. 20).
29   Ver C. Bundy, 1979, p. 44 e seg.
30   Ver D. Birmingham, 1976, p. 267-269, e J.-L. Vellut, 1975, p. 134-135. J.-L. Vellut explica assim o fato
     de o interior ter se tornado mais dependente da economia-mundo. Ver tambm W. G. Clarence-Smith
     e R. Moorsom, 1975.
31 Ver J. F. Munro, 1976, p. 51-52; W. G. Clarence-Smith, 1979a, p. 14-15.
40                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



sia do Sudoeste encontravam-se ento em curso de integrao ao sistema da
economia-mundo capitalista. Se o trfico de escravos prosperou nessa regio
no sculo XIX, foi precisamente porque a frica Oriental ainda se encontrava
fora do sistema. Entretanto, ele constituiu a, como precedentemente na frica
Central e Ocidental, uma fora dinmica de ruptura e um fator de reconstruo.
A ilha de Zanzibar foi integrada  economia-mundo graas ao seu lugar pre-
ponderante, na metade do sculo XIX, no mercado mundial do cravo-da-ndia;
integrao que passou pela criao de um sistema de plantation32. A Ilha Mau-
rcio foi coberta de plantaes de cana-de-acar, ao passo que em Madagascar
se desenvolvia a rizicultura e a criao de bovinos, a fins de exportao para a
Ilha Maurcio33. Contudo, finalmente foi a luta pela conquista da frica e suas
consequencias na frica Oriental que precipitariam as mudanas que tambm
ocorriam em outras partes da frica.
    A transformao das estruturas de produo teria sido impossvel inde-
pendentemente de uma transformao das estruturas polticas facilitadora das
mutaes econmicas e de sua legitimao. Mas em qual nvel se situaria o
encadeamento? A propsito da importncia do perodo de 1805-1820 na hist-
ria da frica, I. Hrbek observava recentemente a simultaneidade dos seguintes
acontecimentos: a jihad de `Uthmn dan Fodio, a Oeste do Sudo (bem como
outras revolues islmicas); o xito do povo zulu sob o reino de Shaka; o decl-
nio do Bunyoro e a expanso do Buganda na regio interlacustre; as revolues
fula, a Oeste do Sudo; a campanha de modernizao de Muhammad `Ali, no
Egito; a unificao do Imerina em Madagascar, sob o reino de Radama I, e o
crescimento da hegemonia omani na poca de Sayyid Sa`d. Hrbek destaca que
"todos esses fenmenos ocorreram em zonas contguas, e emanam de influncias
e de fatores externos34".


     As implicaes da integrao
    preciso parar de superestimar o papel dos fatores externos na criao dos
Estados africanos. De fato, as foras internas constituem o motor da evoluo
poltica, ao passo que o processo lgico de desenvolvimento explica a maior

32   Ver F. Cooper, 1977, p. 47-79.
33   Na verdade, foi porque a Gr-Bretanha possua interesse em assegurar uma tal produo adaptada s
     necessidades da ilha Maurcio que os britnicos apoiaram, pelo tratado de 1817, a independncia de
     Madagascar contra os intentos da Frana. Ver P. M. Mutibwa, 1972, p. 39.
34   I. Hrbek, 1968, p. 48. Ver A. Wilson, 1972, a respeito da expanso do Imprio Luba lomani nesta poca.
A frica e a economia-mundo                                                                                 41



parte dos fenmenos secundrios. Alm disso, houve Estados, constitudos nessa
poca, que estavam demasiadamente distanciados da economia-mundo (por
exemplo, o Rozwi) 35. Enfim,  claro, se considerarmos os Estados da frica
Ocidental, que no h necessariamente relaes entre a participao de uma
regio no trfico de escravos e a criao de um Estado. Se os dois fenmenos
so concomitantes no Daom e no Oyo, por outro lado, Benin  o exemplo da
criao de um Estado forte sem participao no trfico de escravos, ao passo
que o Delta do Nger nos fornece um exemplo inverso36.
    A questo se situa em um outro nvel: de fato, a participao na economia-
-mundo implicava a existncia de estruturas polticas capazes de assegurar o
funcionamento da economia, em termos de comrcio, de produo, de mo de
obra. Presses exercidas do exterior visavam impor tais estruturas37. Quando as
estruturas vigentes bastavam para desempenhar o papel esperado, de qualquer
modo que fosse, pouca presso era exercida para impor a mudana. Contudo, a
participao na economia-mundo reforava a importncia econmica de certos
agentes internos capazes de criar estruturas polticas adequadas; e foram eles que
pressionaram para obter as modificaes de estrutura38. Tal situao engendrou
uma gama de desordens que pouco beneficiava aos Estados participantes da
economia-mundo. Estes ltimos, por sua vez, esforaram-se para impor uma
estabilizao poltica ao criar Estados que participassem do sistema interestatal
e, portanto, que aceitassem as presses correlatas39. Sabe-se que esse processo
tendeu, finalmente, em grande parte da frica,  criao dos Estados coloniais.

35   Ver S. I. Mudenge, 1974.
36   A. G. Hopkins fala disso em uma obra publicada em 1973, p. 105-106. A.G. Hopkins,1973, pp. 105-6,
     trata disso.
37   W. K. Hancock, 1942, p. 163, adotando o ponto de vista de um estrangeiro que queria fazer com que os
     africanos participassem da economia-mundo,  favorvel a esta tese. Ele constata que simples presses
     econmicas se revelaram insuficientes: "O problema poltico era praticamente insolvel. Os comerciantes
     europeus, na frica Ocidental, compreenderam logo que suas atividades  apesar de uma participao
     muito espontnea dos africanos  exigiam o apoio de uma paz que a sociedade africana, assaz fraca, no
     podia garantir." Fraca demais para estabelecer a paz, talvez, mas tambm, em outros momentos, forte
     demais para permitir que se estabelecesse.
38    a prpria essncia da obra clssica de K. O. Dike: "As mudanas radicais trazidas pela abolio no setor
     econmico imediatamente repercutiram no campo social e poltico", 1956, p. 11. Ver C. Chamberlin,
     1979, p. 430. Ver tambm a anlise da poltica interna do Daom proposta por J. C. Yoder, 1974. A. G.
     Hopkins fala de uma "crise da aristocracia na frica Ocidental do sculo XIX [...], nascida da contradi-
     o entre as relaes de produo passadas e presentes", 1973, p. 143, ou seja, da passagem do trfico de
     escravos  cultura de rendimento. Ele mostra que as estruturas polticas sobreviveram, mais ou menos
     facilmente,  crise.
39   P. Ehrensaft, 1972, refere-se s vrias intervenes sucessivas dos britnicos na frica Ocidental. A. S.
     Kanya-Forster, 1969, cap. 2, faz o mesmo em relao  Frana. B. M. Magubane, 1979, cap. 2, descreve
     a situao na frica do Sul.
42                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



Do ponto de vista poltico e econmico, a abolio da escravido foi um aconte-
cimento capital nessa evoluo. De fato, a abolio do trfico e da escravido nas
plantaes emana diretamente do funcionamento da economia-mundo capita-
lista, tal como o prprio fenmeno do trfico e da escravido. No tenho a inten-
o de reiniciar aqui o debate sobre a importncia do papel dos abolicionistas,
como grupo de presso, nesse processo. Certamente, eles existiram e participaram
dessa evoluo. Mas a simples constatao da existncia e do papel de tal grupo
de presso no explica o processo; ele  apenas um aspecto que tambm deve
ser explicado.
    Para que o trabalho dos escravos nas plantaes fosse economicamente vivel,
era preciso manter os custos abaixo de um certo nvel, o qual era fortemente con-
dicionado pelo fato de os escravos serem majoritariamente recrutados por outros
meios que a reproduo da populao. J indicamos que o prprio fato do aumento
do nmero de escravos "recrutados" modificou progressivamente o carter econ-
mico do trfico de escravos na frica Ocidental, aumentando os "custos de opor-
tunidade" desse trfico e modificando, ento, a taxa mundial de acumulao.
    Esse fenmeno geral se manifestava paralelamente a um problema mais
especificamente britnico. A produtividade das plantaes de cana-de-acar
das Antilhas britnicas no parou de cair no sculo XVIII40. Logo, a ndia
ofereceu  Gr-Bretanha uma vasta zona de produo, permitindo-a paliar essa
situao41. Entretanto, tratava-se de uma regio onde a produo agrcola j
era densa e a prtica da escravido arriscava ser economicamente dispendiosa

40   Ver W. A. Green, 1974, p. 247: "A poltica da Gr-Bretanha na frica do Oeste, antes de 1850, foi
     largamente ditada pelas necessidades das ndias Ocidentais". E. Williams (1966, p. 149-150) e D. H.
     Porter (1970, p. 142-143) sustentam que a superproduo de acar foi um elemento chave em favor da
     abolio da escravido. Por outro lado, R. Anstey se mostra ctico, 1975, p. 386.
41   E. Williams (1966, p. 183-188) explica a relao entre os abolicionistas e a produo aucareira das ndias
     Orientais. Em 1791, aps a crise provocada pela revoluo em So Domingos, a produo aucareira
     das ndias desempenhou um papel de primeiro plano na poltica britnica. Grandes quantidades dessa
     produo foram vendidas entre 1794 e 1800 ( J. P. Marshall, 1968, p. 88-89). Depois, os grupos de presso
     das ndias Ocidentais conseguiram restabelecer elevadas tarifas alfandegrias, e as importaes prove-
     nientes da ndia diminuram. Mas a opinio geral era que, na ausncia de tarifas alfandegrias, "apesar
     de um frete mais elevado, as ndias Orientais podiam vender mais barato do que as ndias Ocidentais"
     (C. N. Parkinson, 1937, p. 85). A explicao  simples: dado que os "grandes financiadores possuam
     interesses nos dois lados" (ibid, p. 86), as decises parlamentares constituam um compromisso: o grupo
     de presso das ndias Ocidentais perdeu a batalha da abolio, mas ganhou a das tarifas alfandegrias
     das ndias Orientais. Quando se procedeu a uma igualdade dos direitos, em 1836, as exportaes de
     acar de Bengala conheceram um aumento vertiginoso (K. N. Chaudhuri, 1966, quadro I, p. 347).
      necessrio mencionar uma zona de produo aucareira situada na frica: a Ilha Maurcio. Exonerada
     pelos ingleses em 1826, a produo aucareira logo conquistou toda a ilha. A escravido foi abolida
     teoricamente em 1835 e os escravos foram substitudos por uma mo de obra contratual indiana. Um
     comrcio de escravos continuou a prosperar ilegalmente. Contudo, tais escravos eram originrios da
     frica Oriental. Ver B. Benedict, 1965, p. 12-19; E. A. Alpers, 1975, p. 214.
A frica e a economia-mundo                                                                             43



demais (se se quisesse reduzir a populao autctone  escravido), alm de ser
muito difcil politicamente, caso se optasse pela importao de escravos. Con-
sequentemente, desde ento, o trfico de escravos parecia, de imediato, menos
til para a produo aucareira e para as outras culturas praticadas nas zonas
de influncia britnica, e, at mesmo contraindicado se houvesse a inteno de
encorajar as culturas comerciais na frica Ocidental. Ora, a Gr-Bretanha, gra-
as  sua supremacia sobre o mundo nesta poca, encontrava-se em uma situao
poltico-militar que lhe permitia executar a abolio da escravido42.
    Compreendemos, ento, que os interesses de todos os capitalistas da
economia-mundo se encontravam condizentes com aqueles, mais particulares,
da subclasse dos capitalistas britnicos, a fim de criar um clima poltico favo-
rvel ao abolicionismo43. Claro, esse processo se chocou com a oposio de um
grupo de capitalistas menores que era afetado negativamente por essa mudana.
Ademais, essa poltica foi aplicada com uma grande flexibilidade. Nas plantaes
no britnicas, que simplesmente representavam fontes de abastecimento para
fabricantes britnicos, a Gr-Bretanha tendia a "fechar os olhos" para a escravi-
do. Tal foi o caso do sul dos Estados Unidos da Amrica, ou ainda, de Cuba e
do Brasil que, durante quase todo o sculo XIX, continuaram a adquirir escravos
na zona onde o trfico ainda era permitido, "ao sul da linha" onde, como vimos,
os aspectos econmicos da escravido permaneceram diferentes44.
    Dissemos que at a poca da partilha, o sculo XIX fora a era do "imprio
informal" ou do "imperialismo do livre-cmbio". Robinson e Gallagher resu-
mem a situao nestes termos: "Quando possvel por vias oficiosas, mas, quando
necessrio, por anexaes oficiais, os britnicos no cessaram de consolidar sua


42   Isso no significa que os esforos da Gr-Bretanha foram imediatamente coroados com sucesso, nem que
     a campanha foi conduzida com vigor desde o incio. S. Daget (1979, p. 436) constata que "a represso
     inglesa [da escravido] pouco importunou a economia do trfico de escravos realizado pelos franceses"
     antes de 1831. J. F. Munro (1976, p. 43) afirma que o comrcio de escravos no Atlntico s se tornou
     "negligencivel" por volta de 1850.
43 Ver B. K. Drake, 1976, p. 86-87.  preciso no negligenciar o papel desempenhado pela "cooperao" dos
   africanos no comrcio de escravos. C. Coquery-Vidrovitch e H. Moniot (1974, p. 311) nos lembram que
   "o trfico `legtimo' triunfou,  certo, porque a Europa nele encontrava slidas garantias, mas, tambm,
   porque as estruturas mercantis de numerosos Estados africanos eram adequadas. Em outras palavras, o
   segundo parceiro do comrcio atlntico, o africano, se no desempenhava um papel decisivo, no dei-
   xava de ser ativo, se adaptava, tirava proveito do mercado, em suma, comportava-se como interlocutor
   responsvel".
44   Ver A. G. Hopkins, 1973, p. 113; D. Eltis, 1979, p. 297. Segundo os nmeros citados por P. Curtin para
     o Brasil, a maior parte dos escravos era originria de Moambique e Angola. Parece que isso  verdade
     tambm para Cuba, 1969, p. 240, 247. Ademais, podemos dizer que a abolio no teve nenhuma
     incidncia sobre o trfico de escravos transaariano, o qual participava basicamente de um comrcio "de
     luxo". Ver R. A. Austen, 1979.
44                                                                        frica do sculo XIX  dcada de 1880



supremacia"45. Invoca-se com demasiada facilidade o livre-cmbio. Lembremos
que os comerciantes so favorveis ao livre-cmbio quando a concorrncia os
favorece no mercado, e que eles procuram limitar o livre-cmbio desde que essa
situao se inverta. Por isso, certos historiadores, constatando a diminuio do
papel das companhias de carta na frica Ocidental setecentista, falaram de um
avano do livre-cmbio. Disseram-nos, entretanto, que o desmantelamento dos
monoplios das companhias de carta foi um processo progressivo; por conse-
guinte, a adoo do sistema de livre-cmbio teve um carter muito limitado e
emanou basicamente de "motivos prticos de ordem comercial", ou seja, do fato
de tal sistema comportar menos encargos gerais e se adaptar melhor s exign-
cias do trfico de escravos em pleno avano46. Quanto ao sculo XIX, durante
o qual o sistema de livre-cmbio  ainda mais generalizado, dissemos que, sob
a presso ideolgica da noo de "comrcio legtimo", essa poca conhecera, na
verdade, uma sria limitao do livre-cmbio47.
    Se a Gr-Bretanha pde tornar-se a campe da doutrina do livre-cmbio na
frica, foi em virtude de sua hegemonia no mundo, nesses "felizes dias" em que
os produtos britnicos triunfavam face  concorrncia de todos os seus rivais, e
em que sua frota lhe garantia uma "liberdade de acesso aos mercados do mundo
todo, tal como ela jamais conhecera, e no mais conheceria depois"48. Os mer-
cados ingleses tiravam vantagem sobre todos os seus concorrentes: os beres da
frica do Sul49, os mercadores africanos da frica do Oeste50 e os franceses51.

45   J. Gallagher e R. Robinson, 1970, p. 145.
46   A. G. Hopkins, 1973, p. 93-94.
47   Ver D. D. Laitin, 1982.
48   J. Galbraith, 1970, p. 34-35.
49   A. Atmore e S. Marks tecem o seguinte comentrio a propsito da frica do Sul do sculo XIX:
     "Enquanto durou o monoplio britnico na regio  e, na metade do sculo, ningum pareceu sonhar
     em contest-lo  e enquanto os territrios continuaram subdesenvolvidos e controlados por meios no
     oficiais, no se via a necessidade de estabelecer um imprio regulamentar". 1974, p. 120.
     J. Gallagher e R. Robinson nos lembram que um tal imprio no inexistia totalmente. De fato, a anexao
     de Natal em 1843 fechou aos beres o acesso  baa de Delagoa, em 1860 e 1868, bem como  baa de
     Santa Lcia, em 1861 e 1866. Aps, houve o fracasso da tentativa de unio das duas repblicas beres,
     em 1860. Em meados do sculo, essas diferentes medidas mantiveram as repblicas beres em um estado
     de "dependncia em relao aos portos britnicos" (1970, p. 45).
50    verdade que nesta poca os "grupos de comerciantes da frica Ocidental serviram [primeiramente] de inter-
     medirios econmicos e polticos  Europa e, em particular,  Gr-Bretanha" (S. B. Kaplow, 1978, p. 20). Mas
     esta posio muito influente foi constantemente enfraquecida (cf., por exemplo, E. Reynolds, 1974b e 1975).
     At a derrocada do preo do cauri deveria ser considerada como a derrocada de uma certa independncia
     financeira para a classe comerciante da frica Ocidental (ver O. A. Nwani, 1975; A. G. Hopkins, 1970).
51 "A histria do Exclusif (campanha conduzida pela Frana para tentar manter o comrcio da frica Oci-
   dental em um sistema mercantil)  a histria de sua lenta agonia" (B. Schnapper, 1959, p. 151). Segundo
   B. Schnapper, a Gr-Bretanha tinha duas vantagens fundamentais em relao  Frana: por um lado,
   ela dispunha de capitais superiores, por outro, vendia seus produtos txteis mais barato.
A frica e a economia-mundo                                                                               45



    A Gr-Bretanha conservou essa vantagem enquanto possvel e seu declnio
foi independente dos acontecimentos sobrevindos na margem da economia-
-mundo; simplesmente, ele emerge da melhoria da qualidade dos produtos
concorrentes manufaturados no estrangeiro: Frana, Alemanha, Estados Unidos.
Foi a depresso de 1873 que provocou o desafio poltico lanado  hegemonia
britnica, na frica e no mundo todo52. Em 1879, a estrutura do imprio afri-
cano, efetivamente, no se matinha de p, e, em 1900, o continente encontra-se
colonizado quase que integralmente53.


     Concluso
    Portanto, pensamos que o processo de integrao da frica (do Norte, do
Oeste e do Sul) em um sistema histrico particular, a economia-mundo capi-
talista, remonta a 1750. Assim, a partilha do continente constitui no o incio,
mas o resultado desse processo. Entretanto, seria justo afirmar que "o papel do
comrcio, em geral, e o trfico de escravos, em particular, [...] foi sobremaneira
exagerado"54 ou, sustentar, no mesmo esprito, que o desenvolvimento das cul-
turas de rendimento na frica Ocidental no constituiu uma revoluo social,
porque ocorreu primeiramente no quadro das estruturas polticas, econmicas
e sociais existentes, as quais "se revelaram capazes de seguir as variaes da
demanda do comrcio costeiro [na poca do comrcio `legtimo'], mais por
adaptao do que por revoluo55"?



52   No  por acaso que o protecionismo francs no Senegal data de 1873 (ver C. W. Newbury, 1968, p. 345).
53   Eu estudei essa questo (I. Wallerstein, 1970, p. 403): "Para atacar a hegemonia econmica da Gr-
     -Bretanha no mundo, as outras grandes potncias em curso de industrializao compreenderam que era
     necessrio abrir suas indstrias a mercados mais vastos e a novos acessos s matrias-primas. Foi assim
     que comeou a corrida em direo  frica, e, uma vez que o movimento foi encetado, uma alternativa
     se impunha  Gr-Bretanha: participar ou perder a vantagem".
     Certamente, a Gr-Bretanha j conhecera fracassos, principalmente em consequncia da poltica seguida
     por ela antes de 1880. Referindo-se aos anos 1860, R. Olaniyan constata que a poltica hesitante da
     Gr-Bretanha em matria de proteo lhe valeu fracassos pungentes (1974, p. 37), mas que as primeiras
     "perdas" no foram severas o bastante para ocasionar uma verdadeira converso da poltica britnica.
54   J. F. Ajayi e R. S. Smith (1964, p. 124). Ver tambm R. A. Austen (1970); para um argumento contrrio,
     ver A. G. Hopkins (1973, p. 124).
55   J. F. Ajayi e B. O. Oloruntimehin, 1976, p. 214. Esta tese de modificaes econmicas e de ausncia de
     transformaes sociais  curiosamente contradita no mesmo volume por A. C. Unomah e J. B. Webster,
     que sustentam o contrrio: eles insistem nas transformaes da vida social das populaes da frica
     Oriental, 1976, p. 208. Ver tambm C. Coquery-Vidrovitch (1971, p. 121), que sublinha o fato de as
     maiores transformaes observadas no Daom  mo de obra assalariada e propriedade privada  no
     datarem apenas do regime colonial.
46                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



   No  falso dizer que uma boa parte, se no a maioria dos sistemas africanos,
"adaptou-se" s novas exigncias. Alguns simplesmente desapareceram em fun-
o disso, e quase todos acabaram sendo submetidos ao regime colonial. Porm,
a adaptao  a tese e no a anttese. Era isso que se esperava: nem mais, nem
menos. Essa adaptao da atividade a um novo quadro social apresenta-se como
a consequencia da integrao da frica, em dada poca, em um sistema histrico
particular: a economia-mundo capitalista.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                         47



                                        CAPTULO 3


    Tendncias e processos novos na frica
                do sculo XIX
                                        Albert Adu Boahen




    As oito primeiras dcadas do sculo XIX viram o desenvolvimento de um
grande nmero de novas tendncias e processos, se no por suas originalidades,
pelo menos pela rapidez com a qual se impuseram, por sua amplitude e suas
influncias. De fato,  esta caracterstica trplice que torna este perodo particu-
larmente revolucionrio e o apresenta como marco do fim da frica antiga e o
nascimento da frica moderna. Tentaremos, neste captulo, analisar essas novas
tendncias e processos, avaliar as suas influncias e determinar o curso que teria
a Histria se no houvesse acontecido interveno colonial europeia alguma, nas
ltimas dcadas desse sculo e posteriormente.


    Novas tendncias demogrficas
    A primeira dessas tendncias foi de ordem demogrfica. A frica conheceu
no sculo XIX as mudanas socioeconmicas mais radicais de toda a sua histria,
mais precisamente, a abolio e o desaparecimento do trfico de escravos. No
final do perodo que tratamos e por razes que so lembradas em outros captu-
los do presente volume, o trfico de escravos passa a pertencer definitivamente
ao passado. Se a abolio no provocou mudana sbita na taxa de crescimento
da populao, no h dvida que, principalmente durante as trs ltimas dcadas
48                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



do perodo em considerao, esta taxa teve a tendncia de crescer progressiva-
mente em vez de diminuir como acontecera at ento.
    Este crescimento populacional no foi, contudo, o nico fenmeno notvel.
Ainda mais espetacular foi a redistribuio demogrfica sob a forma de migra-
es e movimentos no interior do continente. As migraes internas dramticas
dos nguni, na frica Austral e Central, dos chokwe, na frica Central, dos
azande, na frica Oriental, dos fang na frica Equatorial e dos iorubs, na
frica Ocidental, no so mais do que exemplos tpicos. Como se ver mais
adiante, as migraes do nguni levaram este ramo dos povos bantu, a partir da
regio de Natal, a diferentes partes do Sul, do centro e do Leste do continente.
Se, frequentemente, foram a causa de devastaes, destruies e de sofrimentos
indescritveis, estas incurses tiveram tambm resultados positivos. Os nguni
venceram e assimilaram outros povos. Assim surgiram novas naes, tais como
as dos ndebele e dos sotho. A adoo de sistemas e conceitos militares e polticos
aperfeioados pelos zulu permitiram-lhes criar novos reinos, tais como Gaza,
Suzi, Ndebele, Sotho e Pedi. Estes ltimos eram, como escreveu Omer-Cooper,
"militaristas, altamente centralizados e administrados muito mais sob a autori-
dade do rei, pelos induna de origem popular, do que pelos membros da famlia
real"1. Alm disso, a presena dos nguni encorajou alguns dos povos invadidos
a se organizarem em Estados. Foi, deste modo, que os holoholo, habitantes da
margem oriental do lago Tanganica, utilizaram as tticas militares dos nguni
para criar um poderoso reino. Do mesmo modo, os hehe, da margem sul do
Tanganica, at ento divididos em mais de trinta chefias independentes, se rea-
gruparam aps as incurses dos nguni e, tendo adotado a organizao militar,
as armas e as tticas de guerra destes ltimos, conseguiram subjugar os povos
vizinhos, tais como os sanga e os bena, e criar um grande reino hehe.
    Na frica Ocidental, por razes essencialmente polticas, os iorubs deixa-
ram, por assim dizer, em massa, as vastas pradarias ao Norte da Iorubalndia
para se espalharem em direo s florestas do Sul. Estes movimentos levaram a
formao de novas comunidades, tais como a de Ibadan, Abeokuta, Oyo, Iwo,
Modakeke e Sagamu. Os iorubs, como os nguni, se lanaram em diferentes
experincias polticas e constitucionais visando resolver os problemas polticos e
ecolgicos colocados por seu novo ambiente. Destas tentativas nasceram "a dita-
dura militar de Ijaye, o republicanismo de Ibadan, o federalismo de Abeokuta e
o confederalismo dos ekiti parapo"2. O mapa das etnias do Sudoeste da Nigria,

1    J. D. Omer-Cooper, 1976a, p. 350-351.
2    O. Ikime (org.), 1980, p. 307.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                        49



tal como se apresenta hoje, resulta destes movimentos populacionais. Foi igual-
mente no sculo XIX que os fang e os grupos tnicos que lhes eram aparen-
tados, os bulu, os beti e os pahouin, empreenderam as suas grandes migraes,
deixando as savanas do Sul do atual Camares para ocupar as zonas das florestas
at o interior do pas e as regies litorneas do Gabo3.


    Revolues Islmicas
    Muito mais revolucionrias ainda foram as tendncias novas que surgiram no
plano social e estas foram mais particularmente verdadeiras no campo religioso.
Como se sabe, a difuso do islamismo na frica, a partir da Arbia, teve incio
no sculo VII. Contudo, este processo consolidou-se, exceto no Norte da frica
e no vale do Nilo, somente nos ltimos anos do sculo XVIII de modo espo-
rdico, e com algumas excees (por exemplo, os almorvidas), pacfico, tendo
se dado, sobretudo, atravs do comrcio. A partir da primeira dcada do sculo
XIX, esta propagao ao contrrio tomou um rumo fortemente conquistador e
dinmico, particularmente no Norte e no Oeste da frica. O seguinte exemplo
ilustra bem a rapidez e a amplitude deste fenmeno: a regio das savanas do
Oeste, que forma o que se conhece como Sudo Ocidental, teve somente duas
importantes jihad durante o decorrer do sculo XVIII, um no Futa Djalon,
durante a dcada de 1720, e o outro no Futa Toro, durante a dcada de 1770,
enquanto, durante o perodo que estudamos, existiram ao menos quatro jihad
de grande envergadura e diversas outras de menor importncia. As mais impor-
tantes foram liderados respectivamente por `Uthmn dan Fodio nos estados
haussas em 1804, Amadou Lobbo (Ahmad Lobbo) ou Cheikou Amadou (Seku
Ahmadu) no Macina em 1818, al-Hadjdj `Umar na regio dos bambaras em
1852 e Samori Tour na dcada de 18704.
    Um dos aspectos fascinantes das trs primeiras revolues islmicas  o fato
de que foram todas lideradas pelos torodbe (ramo clerical dos fulbes (Peul)),
povo que encontramos disseminado por todo o Sudo Ocidental. Da terem elas
sido iniciadas ento, por estes ltimos, em resposta  crise causada nesta regio
pela opresso poltica, injustia social e pela cobrana de impostos ilegais por um
lado e, por outro, pelo declnio e pelo enfraquecimento do islamismo. Os obje-
tivos visados pelos instigadores destas guerras santas eram "tornar o islamismo


3    P. D. Curtin, S. Feierman, L. Thompson e J. Vansina, 1978, p. 423-424.
4    M. Hiskett, 1976, p 125-168; ver tambm os captulos 20, 21 e 24 do presente volume.
50                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



no s um conjunto de crenas individuais, mas um direito coletivo"; varrer os
vestgios dos costumes tradicionais para criar um imprio teocrtico onde pre-
valeceriam as leis e prticas islamitas5. De todas as rebelies organizadas, a partir
da dcada de 1840, pelos juula (dyula, jula, dioula), comerciantes islamizados e
instrudos, oriundos da etnia soninke, a campanha conduzida por Samori Tour
durante a dcada de 1870 foi a que conheceu o maior sucesso e tomou maior
amplitude. As atividades de Samori Tour sero descritas com mais detalhes
no captulo 24. Contentaremo-nos em observar aqui que ele era bem menos
instrudo e menos fantico do que os instigadores das jihad precedentes. At
cerca de 1885, Samori buscou contudo converter a populao ao isl, utilizando
esta religio como um fator importante de integrao.
    Estas revolues ou jihad islmicas tiveram, no plano poltico e social, conse-
quncias de porte considervel. Politicamente, abriram o caminho para a criao
de imprios imensos, como o Imprio de Sokoto que, durante a dcada de 1820,
se estendia sobre toda a antiga regio setentrional e parte da regio ocidental da
Nigria e cuja histria, durante este sculo, ser exposta num captulo ulterior;
o Imprio do Macina que dominou a regio do Arco do Nger at ser vencido
pelo al-Hadjdj `Umar cujo imprio ia das nascentes do Senegal e do Gmbia
at Tombuctu; enfim, o vasto Imprio de Samori Tour se estendia desde o
Norte das atuais Serra Leoa e Guin at Bamako e englobava o famoso centro
comercial e islmico juula de Kankan6. Estas revolues levaram ao desapa-
recimento das antigas elites reinantes haussas e soninke em proveito de uma
nova elite composta essencialmente por clrigos fulbe e juula. Deste modo, elas
se traduziram em uma transferncia fundamental da realidade do poder pol-
tico no Sudo Ocidental. A jihad liderada por `Uthman dan Fodio provocou,
entre outros, o renascimento e a consolidao do velho reino do Borno, isto
graas essencialmente s aes do xeique Muhammad al-Kanmi, muulmano
kanambu fervoroso, a quem os dirigentes do Borno solicitaram ajuda para resis-
tirem aos exrcitos de `Uthman dan Fodio e do seu filho Bello.
    As consequncias destas revolues foram ainda mais profundas no plano
social. Em primeiro lugar, a ao educadora e o proselitismo dos instigadores
destas jihad , bem como dos seus adeptos e seus chefes militares, os quais, em sua
maioria, eram muulmanos letrados, tiveram como efeito no s a purificao
do islamismo, como tambm a difuso desta religio urbana nas zonas rurais.
Alm disso, ao passo que os chefes das duas primeiras jihad pertenciam  con-

5    J. F. A. Ajayi, 1965, p. 1; ver tambm M. Last, 1974.
6    Ver o captulo 24 do presente volume, bem como P. D. Curtin et al, 1978, p. 388-390.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                 51



fraria Qadiriyya, al-Hadjdj `Umar se dizia da confraria Tijaniyya, relativamente
recente, que atraa sobremaneira as pessoas simples. Deste modo, al-Hadjdj
`Umar conseguiu reunir inmeros adeptos e, neste sentido,  significativo que
os adeptos da Tijaniyya sejam hoje mais numerosos na frica Ocidental do
que aqueles da Qadiriyya. Em terceiro lugar, tendo os chefes das trs jihad dado
importncia  educao e aos estudos, o nvel de instruo e a taxa de alfabe-
tizao das populaes mulumanas elevaram-se consideravelmente durante o
sculo XIX. Enfim, estas jihad deram lugar, em toda a regio sudanesa, a um
sentimento de solidariedade islmica que permanece at os dias atuais.
    Em concluso, convm dizer que os instigadores das jihad e os seus porta-
-bandeiras no conseguiram estabelecer totalmente no Sudo Ocidental um
califado verdadeiro administrado de acordo com a shari`a. Faltou-lhes compor
com certas instituies e realidades sociopolticas j existentes. Tampouco viram
surgir, ao final das suas campanhas, uma cultura e sociedade islmica uniforme
e isenta de quaisquer influncias, mas uma cultura fulbe-haussa no pas haussa
e uma cultura fulbe-mande na regio do Arco do Nger. Estas eram, de todos
os modos, fortemente impregnadas dos princpios islmicos e dos ensinamentos
dos pais fundadores.
    O islamismo ganhou igualmente terreno em outras partes da frica, espe-
cialmente na atual Lbia, na Cirenaica e no Leste do Saara, e depois, mais tarde,
nas regies setentrionais do Sudo atual, onde foi propagado pelos sansi e
mahdistas; enfim, no interior da frica Oriental e sobretudo no Buganda, na
sequncia dos contatos estabelecidos com os comerciantes rabes e sualis7.


    Atividades missionrias crists
    No menos revolucionria e durvel em seus efeitos foi,  mesma poca, uma
outra cruzada religiosa que atingiu outras partes da frica, a saber: a campa-
nha empreendida pelos missionrios cristos. Ainda que as primeiras tentativas
de se implantar o cristianismo nas regies que se estendiam ao Sul do Sudo
Ocidental remontem  poca das exploraes portuguesas do sculo XV, mal se
encontravam traos desta religio na frica ao final do sculo XVIII. Todavia,
isto se alteraria radicalmente a partir dos ltimos anos daquele sculo, mais
particularmente durante as primeiras cinco dcadas do sculo XIX. Sob o efeito
principalmente do despertar, na Europa, do esprito missionrio, devido essen-

7    R. O. Collins e R. L. Tignor, 1967, p. 16-18; A. A. Boahen, 1964, p. 110-117.
52                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



cialmente  obra de John Wesley e pelo aparecimento dos ideais antiescravo-
cratas e humanitrios inspirados pelo radicalismo e pelas revolues americanas
e francesas, os esforos realizados para implantar e propagar o cristianismo
tiveram o mesmo dinamismo, seno a mesma forma conquistadora, que a onda
islmica que se alastrou no Sudo Ocidental. Desta vez, no foram utilizados
o alcoro e a espada, mas a Bblia, o arado e o comrcio. A ao dos chefes, do
clrigo e dos porta-bandeiras das jihad seriam substitudas pela de um grande
nmero de sociedades missionrias, fundadas e baseadas na Europa e na Am-
rica, e por seus representantes na frica. Deste modo, no inicio de 1800 somente
trs sociedades missionrias trabalhavam em toda a frica Ocidental, a saber:
a Society for the Propagation of the Gospel (SPG) (Sociedade para a Propagao
do Evangelho), a Wesleyan Missionary Society (WMS) (Sociedade Missionria
Wesleyana) e a Glasgow and Scottish Missionary Society (Sociedade Missionria
Escocesa de Glasgow). Em 1840, apenas quarenta anos mais tarde, elas j eram
mais de quinze. As mais importantes eram a Church Missionary Society (CMS)
(Sociedade Missionria da Igreja), a Misso da Alemanha do Norte ou a Misso
de Bremen, a Misso Evanglica de Basileia, fundada na Sua, a United Presbi
terian Church of Scotland (Igreja Presbiteriana Unida da Esccia), e a Sociedade
das Misses Estrangeiras fundada na Frana. Durante as trs dcadas seguin-
tes, mais de uma dezena de novas congregaes de origem americana vieram
engrossar esta lista.
    Na frica Oriental e Central, em 1850, havia somente uma congregao
missionria, a Church Missionary Society. Em 1873, no momento da morte de
Livingstone, contavam-se mais duas novas. Uma era a Universities Mission to
Central Africa (UMCA) (Misso das Universidades para a frica Central),
criada em 1857 para fundar ncleos de cristianismo e de civilizao que pro-
pagassem a religio verdadeira, a agricultura e o comrcio legtimo", em res-
posta ao apelo apaixonado feito, neste mesmo ano, por Livingstone  opinio
pblica britnica em um discurso pronunciado na Universidade de Cambridge;
e a segunda era a Congregao dos Padres do Esprito Santo, ordem catlica
fundada na Frana em 18688. So as viagens, bem como as circunstncias e o
impacto da morte de Livingstone, que deram o impulso decisivo para a onda
religiosa que sacudiu a frica Oriental e Central. Em apenas quatro anos, quatro
novas misses foram criadas, a Livingstone Mission criada pela Free Church of
Scotland (Igreja Livre da Esccia), em 1875; a Blantyre Mission foi criada no ano


8    R. Oliver, 1965, p. 13.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                                      53



seguinte pela Igreja oficial da Esccia, com intuito de evangelizar o atual Malaui;
a London Missionary Society (LMS) (Sociedade Missionria de Londres) que,
na sequncia a uma carta publicada pelo Daily Telegraph, na qual o explorador e
jornalista Stanley convidava as misses a se encontrarem no Buganda, estender
o seu trabalho a partir da frica do Sul at a atual Tanznia; por fim, a misso
catlica dos Padres Brancos, implantando-se neste pas dois anos aps a Church
Missionary Society9. Deste modo, a evangelizao da frica Oriental e Central
no final do sculo XVIII encontrava-se a bom caminho.
    Mas a amplitude e o sucesso das atividades missionrias foram ainda maiores
na frica Austral. Ao final das guerras napolenicas, havia no mais que duas
sociedades em atividade em toda a regio: a Misso Morave, que entrou na
provncia do Cabo uma primeira vez em 1737, retirando-se apenas seis anos
mais tarde e s regressando em 1792, e a London Missionary Society, que surgiu
na regio em 179910. Mas, a partir de 1816, um grande nmero de sociedades da
Gr-Bretanha, da Europa continental e dos Estados Unidos, tanto protestantes
como catlicas, penetraram no somente na provncia do Cabo, mas tambm na
regio de Natal e do Transvaal. Por volta de 1860, elas haviam avanado para o
Norte at as regies que so agora o Botsuana, o Lesoto, o Sudoeste africano
e a Zmbia. Elas compreendiam a Wesleyan Missionary Society; a Glasgow Mis
sionary Society; a Church Missionary Society; a sociedade missionria norueguesa;
a United Presbyterian Mission; a Sociedade de Berlin; a Sociedade do Reno; a
Misso Evanglica de Paris; a USA Mission to Zululand and Mossega; a Sociedade
Missionria de Hamburgo; e a Swiss Free Church (Igreja Livre Sua)11.
    Uma diferena importante entre a empreitada missionria na frica Austral
e aquela que teve lugar, por exemplo, na frica Ocidental, se deve  participao
direta e ativa que os missionrios tiveram, na primeira destas regies, nas ques-
tes polticas e, sobretudo, nas relaes estreitas que se instalaram entre alguns
missionrios e alguns reis africanos. Desde o incio, missionrios como Van der
Kamp e John Philip participaram ativamente da poltica local; enquanto Loben-
gula, Lewanika e Cetshwayio tornaram-se grandes amigos de Moffat, Coillard
e Colenso, respectivamente12.



9    A. J. Wills, 1964, p. 82-97; R. Oliver, 1965, p. 1-48; N. R. Bennett, 1968, p. 231-235.
10   E. Roux, 1964, p. 25-26; E. A. Walker, 1957, p 92-93, 144-146, 173-175.
11   E. A. Walker, 1957, p. 133, 144-146, 178; E. Roux, 1964, p. 24-31; C.P. Groves, 1954, vol.2, p. 118-161;
     D. Denoon, 1973, p. 26-29, 67-90; H.W. Langsworthy, 1972, p. 82, 105, 115.
12   D. Denoon, 1973, p. 96-97; C. P. Groves, 1954, p. 252, 274; E. Roux, 1964, p. 25-32.
54                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 3.1 As misses crists e o isl, 1800-1860. [Fonte: J. F. Ade. Ajayi e M. Crowder (orgs.), Historical
Atlas of Africa, 1985, Londres, Longman.]



   No incio, acreditou-se que os missionrios na frica Austral estivessem
sempre do lado dos africanos e sistematicamente defendessem sua causa. Mas
trabalhos recentes mostraram que eles eram "frequentemente empregados como
negociadores entre as autoridades coloniais e as autoridades africanas, muito
mais como diplomatas do que como evangelizadores"13, e que, se os coloni-

13   D. Denoon, 1964, p. 65.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                55



zadores os consideravam como perigosamente pr-africanos, muitos chefes
africanos viam neles (a ttulo muito justo) agentes perigosos dos colonizadores
e do imperialismo.
    Estas sociedades missionrias no se limitaram a construir igrejas, a converter
a populao e a traduzir a Bblia para as lnguas africanas. Elas consagraram
tambm muito tempo a desenvolver a agricultura criando plantaes experimen-
tais; a ensinar profisses como pedreiro, carpinteiro, grficos e alfaiates; a elevar o
nvel de vida da populao e, sobretudo, a promover o comrcio, a alfabetizao
e o ensino do tipo ocidental. Todas criaram escolas primrias, escolas tcnicas
e mesmo escolas secundrias. Na frica Ocidental, a Church Missionary Society
criou o Colgio Fourah Bay em 1827. Em 1841, ela j administrava vinte e uma
escolas primrias em Serra Leoa e, em 1842, fundou duas escolas secundrias:
uma para rapazes e outra para moas14. Em 1846, os Wesleyanos tinham tam-
bm quatro escolas para moas e vinte escolas para rapazes na Costa do Ouro
e, em 1876, abriram a sua primeira escola secundria, a Wesleyan High School,
atualmente denominada Mfantsipin School. A Church Missionary Society criou
tambm uma escola secundria, em 1859, em Lagos, enquanto os Wesleyanos
abriam a Methodist Boy`s High School em 187915. Precisa-se sublinhar que estas
escolas no foram construdas somente no litoral, sendo que algumas dentre elas
foram em cidades do interior.
    Tratando-se da frica Oriental e Central, havia, em 1890, em Livingstone
uma escola que acolhia 400 alunos, alm da misso dispor de uma oficina e
uma prensa tipogrfica que "no cessava de produzir cartilhas de alfabetizao
e coletneas das Sagradas Escrituras, de tabuadas, e de cursos elementares de
geografia e histria natural traduzidos para nyanja, tonga, nguni, nyakiusa, e
nkonde"16. Em 1835, o recenseamento da misso Livingstone registrava 4.000
alunos em suas escolas de Madagascar, e, em 1894, 137.000 crianas merina dos
altos planaltos da Grande Ilha estavam matriculadas nas escolas protestantes: ou
seja, segundo Curtin e seus colaboradores, uma proporo do nmero estimativo
da populao daquela regio "semelhante quela que se registrava na Europa
Ocidental na mesma poca"17.
    Na frica Austral, prestava-se uma ateno muito superior ao ensino do que
em outras regies da frica, em parte graas s subvenes dos governos do


14   A. A. Boahen, 1966, p. 118-123.
15   J. F. A. Ajayi, 1965, p. 152-156.
16   R. Oliver, 1965, p. 62.
17   P. D. Curtin et al, 1978, p. 414.
56                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 3.2 Igreja da misso da Church of Scotland em Blantyre (Malaui). [Fonte: H. H. Johnston, British
Central Africa, 1897, Greenwood Press, London. Foto reproduzida com autorizao do Conselho de admi-
nistrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]




Cabo e de Natal. Em 1870, os missionrios haviam registrado, segundo parece,
um sucesso muito maior no campo pedaggico do que em matria de evangeli-
zao18. Haviam criado no somente numerosas escolas primrias ou de vilarejos,
mas, tambm, desde a dcada de 1840, escolas normais e de ensino secundrio.
A Glasgow Missionary Society, por exemplo, criou a Lovedale, em Natal, em julho
de 1841, um seminrio ao qual estava anexado um departamento tcnico que
ensinava as profisses de pedreiro, de carpinteiro, fabricantes de carroas e fer-
reiros e, a partir de 1861, de grfico e de encadernador19. Em 1877, os catlicos
haviam j fundado, em Natal, um convento das Irms da Sagrada Famlia com
uma penso, uma escola primria e um asilo e um outro convento no estado
livre D`Orange. Em 1868, os missionrios franceses criaram uma escola normal
em Amanzimtote e, na metade da dcada de 1860, um pequeno seminrio para



18   M. Wilson e L. Thompson, 1969, p. 335, 385.
19   C. P. Groves, 1954, vol. II, p. 135-136; M. Wilson e L. Thompson, 1969, p. 261-262, 335.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                            57



moas em Inanda, na provncia do Natal; em 1880, os anglicanos fundaram o
St. Albans College em terras zulus20.
    A influncia daquela campanha de cristianizao foi, sem dvida, ainda mais
profunda do que a das cruzadas islmicas.
     sobre o modo de vida dos africanos convertidos que suas repercusses
foram ainda mais evidentes. Estes ltimos, alm de terem aprendido outras pro-
fisses, tinham um mnimo de ateno  sade; ao mesmo tempo, os estilos tra-
dicionais de arquitetura melhoram e o trajar de roupas ocidentais se expandiu21.
Por outro lado, ao condenar a poligamia, as crenas de seus ancestrais e de seus
deuses, e o curandeirismo, os missionrios enfraqueceram as bases tradicionais
das sociedades africanas e das suas relaes familiares.
    Uma outra consequncia da propagao desta nova f foi o aparecimento
de um pluralismo religioso e, portanto, a diviso das sociedades africanas em
grupos rivais e concorrentes. Primeiro, as sociedades africanas dividiram-se entre
convertidos e no convertidos, ou como eram chamados na frica do Sul, entre
vermelhos e pessoas educadas22. Da mesma forma que os fiis e seguidores do
islamismo dividiram-se pela existncia de confrarias rivais da Qadiriyya e da Tija-
niyya, o cristianismo cristalizou as pessoas educadas em catlicos, metodistas,
anglicanos, luteranos, congregacionistas e presbiterianos. Se em diversas partes
da frica este esfacelamento no foi causa de tenso ou de animosidade social
importante, o mesmo no se deu em outras partes da frica como Bugamba e
Madagascar, como veremos mais adiante na sequncia deste volume.


     O aparecimento de uma elite educada  moda ocidental
   A consequncia mais importante, no plano social, da revoluo feita pelos
missionrios foi, todavia, o aparecimento de uma elite instruda. A ao educa-
dora das sociedades missionrias, a partir da dcada de 1850, tal como a evo-
camos, traria o aparecimento, primeiro no litoral, e depois, em regies sempre
mais afastadas, de uma classe de africanos que, em sua maioria, estudou em
ingls ou francs.
   As regies onde esse fenmeno foi mais marcante so inegavelmente a frica
do Sul e a frica Ocidental.


20   C. P.Groves, 1954, vol. II, p. 261-265.
21   M. Wilson e L. Thompson, 1969, p. 266-267.
22   Ibid., p. 265; M.Wilson, 1971, p. 74-75.
58                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 3.3 Tiyo Soga [Fonte: C. Saunders, Black Leaders in African History, 1978, Heinemann, London
(O original encontra-se em Tiyo Soga, A page of South African Mission work, 1877, 1 edio), John Aitken
Chalmers.]
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                           59



    Segundo Leo Kuper, nada menos do que 3.448 africanos haviam passado
pela nica Lovedale Missionary Institution entre 1841, data da sua fundao, e
dezembro de 1896. Entre estes, "mais de setecentos tinham uma profisso, em
sua maioria de professores; mas contavam-se oito auxiliares de justia, dois
escrives, um mdico e dois redatores-chefes ou jornalistas; quase cem eram
secretrios ou tradutores; cerca de cento e setenta artesos; e mais de seiscentos
trabalhadores agrcolas ou lavradores23. No se pode esquecer que a Lovedale
no era a nica instituio desta natureza; havia outras no Cabo e no Natal.
Entre os ex-alunos destas instituies, dentre os quais um nmero grande, como
se ver mais adiante, teria um papel de primeiro plano no movimento religioso
de massa que se espalharia entre os bantos nas dcadas de 1880 e, principal-
mente, na de 1890. Tiyo Soga foi o primeiro Xhosa a ser ordenado ministro da
Free Church of Scotland em 1856; Nehemiah Tile estudou teologia na Healdtown
Institution; Kenyane era um eclesistico banto do Cabo; citemos tambm James
M. Divane, nascido em 1841, e ordenado em 1881, e Mangena M. Mokone24.
O mais jovem, mas tambm aquele que deveria exercer provavelmente a maior
influncia, foi John T. Javabu. Nascido em 1859, ele frequentou a Healdtown
Institution (como Nehemiah Tile), tornando-se professor diplomado em 1875,
sendo o primeiro africano a passar no exame de bacharelato em 1883 e fun-
dou o primeiro jornal em lngua banta (Imvo Zabantsundu); ele teve um papel
importante na poltica do Cabo entre 1890 e 191025.
    Todavia, em relao ao conjunto da populao negra da frica do Sul, a elite
educada  ocidental, permanecia, em 1880, numericamente insignificante. Ainda
mais nfimo era o nmero desta na frica Oriental e Central na mesma poca.
No Tanganica, por exemplo, o primeiro padre africano da UMCA, Cecil Maja-
liwa, s foi ordenado em 1890, o segundo s foi em 1894 e o terceiro em 189826.
No Qunia, foi necessrio esperar pelas primeiras dcadas do sculo XX para
que uma elite, ainda que pouco importante, composta por homens como John
Owale, R. Omulo, J. Okwiri, Harry Thuku, James Beauttah, Hesse Kariuku,
John Muchuchu, sem mencionar Jomo Kenyatta, comeasse a ter um papel
ativo na poltica local27. Se foi assim,  bem certo que as atividades de ensino
dos missionrios somente se deslancharam aps o perodo aqui considerado. Na


23   L. Kuper, 1971, p. 433-434.
24   E. Roux, 1964, p. 78-80; E. A. Walker, 1957, p. 521-522.
25   E. Roux, 1964, p. 53-77; E. A. Walker, 1957, p 394-395, 536.
26   J. Iliffe, 1979, p. 216-219.
27   B. A. Ogot e J. A. Kieran (org.), 1968, p. 266-270.
60                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



frica Ocidental, ao contrrio, e em primeiro lugar, em Serra Leoa, constituiu-
-se, desde 1880, uma elite instruda relativamente numerosa. Com efeito, so os
crioulos, como se passou a chamar as pessoas instrudas deste pas, que serviram
de ponta de lana da ao missionria e educadora em outras regies da frica
Ocidental. Trs personagens so particularmente exemplares: James Africanus
Horton, nascido em 1835, que estudou medicina na Gr-Bretanha entre 1853 e
1859, engajando-se como cirurgio auxiliar de estado maior dos servios mdi-
cos do exrcito britnico na frica Ocidental; Samuel Ajayi Crowther que foi
um dos primeiros diplomados do Fourah Bay College e o primeiro africano a ser
nomeado bispo da igreja anglicana; e finalmente, James Johnson, intelectual e
evangelizador ardoroso28.  preciso mencionar tambm Broughton Davies que
se formou em medicina em 1859 e Samuel Lewis, advogado, o primeiro africano
a ser condecorado com o titulo de cavaleiro pela rainha da Inglaterra29. A Libria
formou igualmente um nmero notvel de intelectuais, devendo ser citado, entre
eles, Edward Blyden, nascido nas Antilhas.
    Na Nigria e na Costa do Ouro, seu nmero era um pouco maior. Na Nigria
contava-se, dentre esta elite, pessoas como Essien Ukpabio; T. B. Vincent, mais
tarde conhecido sob o nome de Mojola Agbebi; H. E. Macaulay, G. W. Johnson,
R. B. Blaize e J. A. Otunba Payne30. Na Costa do Ouro, durante as dcadas de
1870 e 1880, ela era composta por J. A. Solomon, E. J. Fynn, J. P. Brown, J. de
Graft Hayford, A.W. Parker, T. Laing, J. H. Brew e John Mensah Sarbah31.
    Alm disso, ainda que na frica Ocidental e, at certo ponto, nas regies de
Moambique e Angola sob domnio portugus, uma frao desta elite instruda
tenha escolhido profisses tais como funcionrio, professor, catequista e padre ou
agente da Igreja  segundo o ltimo censo, os Wesleyanos contavam, em 1885,
com 15 padres, 43 catequizadores, 259 pregadores e 79 professores de origem
africana na Costa do Ouro32 , a maioria estabeleceu-se no comrcio por conta
prpria, obtendo crdito junto a empresas estrangeiras e comerciantes locais. So
estes ltimos "a burguesia de amanh", segundo Susan Kaplow33, que na Costa
do Ouro, em Serra Leoa e na Nigria estenderiam, como se ver adiante, uma
rede de comrcio varejista cada vez mais longe em terras interioranas durante o


28   E. A. Ayandele, 1966, p. 185-196; J. F. A. Ajayi, 1969.
29   C. M. Fyle, 1981, p. 74-76.
30   E. A. Ayandele, 1966, p. 58-59, 192-200.
31   F. L. Bartels, 1965, p. 72-100.
32   M. McCarthy, 1983, p. 110-111.
33   S. B. Kaplow, 1977, p. 313-333.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                               61




figura 3.4 Escola da vila Charlotte, Serra Leoa, cerca de 1885. [Fonte: A.T. Porter, Creoledom, 1963,
Oxford University Press, Oxford.  Domnio pblico, com autorizao da Foreign and Commonwealth Office
Library.]



perodo em estudo. Como indicado em um relatrio proveniente da Costa do
Ouro, em 1850, os mais jovens iam para o interior do pas, instalando-se como
comerciantes e empregados "provocando um acrscimo importante na demanda
junto aos fabricantes da Gr-Bretanha e desenvolvendo amplamente o comrcio
e a civilizao entre as populaes indgenas34". Uma evoluo social semelhante
ocorreu em Madagascar e na frica Oriental e Central. Deste modo, ao final do
sculo, a pirmide social africana contava com um novo escalo, uma elite ins-
truda dentre a qual alguns exerceram as profisses de mdico, padre, professor,
catequizador e empregado, enquanto outros formaram a classe dos burgueses de
amanh, ou dos chefes de empresas, como alguns preferem cham-los, composta
por negociantes e mercadores instrudos.




34   Citado em M. McCarthy, 1983, p. 126.
62                                                                        frica do sculo XIX  dcada de 1880



     O Etiopianismo
    O aparecimento desta elite instruda na frica teve duas consequncias
excepcionais e interessantes: O nascimento do etiopianismo, movimento nacio-
nalista africano poltico e religioso e a revoluo intelectual sobre a qual irrom-
peu, particularmente na frica do Sul e na frica Ocidental.  preciso sublinhar
que, at a dcada de 1850, os africanos instrudos que exerciam profisses inte-
lectuais eram tratados e vistos pelos brancos como iguais e eram remunerados
de acordo com as suas qualificaes e experincia. Uma grande parte da elite
instruda africana acreditava sinceramente que a frica somente poderia ser
civilizada se adotasse o saber, a tcnica e a religio dos europeus. Mas foi ento
que "surgiu na Europa e na Amrica, a tese pseudocientfica que interpretava a
sociedade em termos de categorias raciais imutveis nas quais era atribuda ao
negro uma classificao muito inferior35". Estas ideias racistas foram difundi-
das amplamente durante a segunda metade do sculo, graas aos trabalhos de
homens como J. A. Gobineau, Richard Burton e Winwood Reade. Elas seriam
adotadas pela maioria dos missionrios e administradores europeus na frica
que passaram a exercer, tanto nas Igrejas como no governo, uma discriminao
em relao aos africanos instrudos com vantagem para os brancos.  essencial-
mente desta discriminao racial, assim como do sentimento de humilhao e
da indignao por ela provocada, que nasceu o movimento nacionalista poltico
e religioso que se intitulou etiopianismo, tirado de um versculo da bblia: "A
Etipia ter as mos voltadas para Deus."36 Tomando como exemplo a inde-
pendncia manifestada, no incio do sculo, por ex-escravos da Nova-Esccia
instalados em Serra Leoa, esse movimento visava a instituio de igrejas crists
dirigidas pelos prprios africanos e mantendo as tradies e culturas africanas.
Nascido na frica do Sul, provavelmente no incio da dcada de 1860, ele se
desenvolveu plenamente na dcada de 1880: as primeiras igrejas separatistas
independentes etopes ou africanas foram fundadas na frica do Sul em 1884,
pelo ministro wesleyano tembu Nehemiah Tile; e, em 1888, na frica Ocidental
por um grupo de personalidades da igreja nigeriana da Southern Baptist Mission
(americana)37.  importante observar que, se Tile desejava "adaptar a mensagem
da Igreja  herana dos tembu"  acrescentando: " do mesmo modo que a rainha


35   J. A. Horton, 1969, p. xvii; P. D. Curtin, 1964, p. 28-57; R. July, 1967, p. 212-213.
36   G. Shepperson e T. Price, 1958, p. 72-74.
37   Ibid., p. 72-74; G. Shepperson, 1968, p. 249-263; E. Roux, 1964, p. 77-80; B. G. Sundkler, 1961, p. 38-47;
     D. B. Barret, 1968, p. 18-24; T. Hodgkin, 1956, p. 98-114.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                  63



da Inglaterra  chefe da Igreja inglesa, o chefe supremo dos tembu deveria ser
o summus episcopus da nova organizao religiosa"38 , T. B. Vincent, que mais
tarde se tornaria, sob o nome de Mojola Agbebi, um dos chefes do primeiro
movimento separatista da Nigria, declarou em 1889:
     para que o cristianismo se torne verdadeiramente uma religio africana,  necessrio
     que seja irrigada por mos indgenas, podada por machado indgena e nutrida por
     terra indgena [...] Seramos amaldioados se pretendssemos ficar indefinidamente
     pendurados na aba dos mestres estrangeiros, recusando o crescimento.
    Ele pretendia tambm inculcar a seus convertidos "a individualidade da raa,
a independncia da congregao, a autonomia financeira e poltica, a conser-
vao dos nomes indgenas, dos trajes indgenas, os costumes e hbitos teis
indgenas e a utilizao da lngua natal para o culto"39. Da frica do Sul, o
etiopianismo ganhou toda a frica Oriental e Central, onde exerceu uma forte
influncia entre 1880 e 1920.
    Na frica Ocidental, contudo, a elite instruda no se contentou com uma
ao poltica. Ela tambm passou a refutar e denunciar as teses e prticas racis-
tas atravs de uma srie de artigos, brochuras, livros e discursos que deram vida
ao segundo dos fenmenos excepcionais evocados acima, ou seja,  revoluo
intelectual e, com ela,  conscincia racial africana, ao pan-africanismo e  per-
sonalidade africana.
    Os pioneiros deste movimento na frica Ocidental foram sem dvida James
Africanus Horton (1835-1883), e Edward Wilmot Blyden (1832-1912). Entre
as obras de Horton sobre os tpicos em questo encontram-se Political economy
of British Western Africa with the requirements of the several colonies and settlements:
An African view of the Negro place in Nature (1865) (A economia poltica da
frica Ocidental britnica e as exigncias das diversas colnias e assentamentos:
uma viso africana sobre o lugar do Negro na Natureza); Western African coun
tries and peoples: a vindication of the African race (1868) (Pases e povos da frica
Ocidental: uma defesa da raa africana) e Letters on the political conditions of the
Gold Coast (1870) (Cartas sobre as condies polticas da Costa do Ouro). Em
sua segunda obra, Horton refuta a ideia de uma inferioridade intrnseca da raa
negra; segundo ele, a distncia existente entre o grau de civilizao de brancos
e negros resulta "totalmente de circunstncias externas". Aos que apresentavam
a hiptese da inferioridade da raa negra e concluam que esta, mais cedo ou

38   Apud T. Hodgkin, 1956, p. 100.
39   Apud E. A. Ayandele, 1966, p. 200.
64                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



mais tarde, seria varrida da face da terra pela potncia dos brancos, Horton
respondia:
     Ns constatamos que, por todos os lugares onde os membros da raa africana foram
     transplantados, eles se multiplicaram, qualquer que tenha sido o jugo destruidor e
     pesado que tenham sofrido, podemos deduzir sem grande risco de erro que o povo
     africano  um povo indestrutvel e persistente, e que as extravagncias daqueles que
     previam seu desaparecimento so destinadas ao esquecimento da mesma forma que
     o escravismo americano, hoje moribundo40.
    Refutando, enfim, o postulado segundo o qual os negros seriam incapazes de
atingir o progresso, ele escreveu: "Os africanos no so incapazes de progredir;
com a assistncia de homens bons e capazes, eles esto, ao contrrio, destinados
a figurar nos tempos futuros e a ter um papel proeminente na histria do mundo
civilizado"41.
    No prefcio das suas Letters on the political conditions of the Gold Coast (1870),
Horton escreveu novamente: "Roma no foi feita em um dia. O mais orgulhoso
imprio da Europa j foi antes mais brbaro que o so hoje as principais tribos
habitantes da costa ocidental da frica; ora, o que j foi feito pode ser realizado
novamente; isso  uma verdade irrefutvel. Se, portanto, a civilizao europeia
conseguiu atingir o apogeu que conhece nos dias atuais no cabo de uma evoluo
gradual, a frica, fortalecida pela garantia oferecida pela civilizao do Norte,
conseguir, ela tambm, uma grandeza idntica"42.
    Horton no se contentou em condenar o racismo; ele foi um dos primeiros
a defender o pan-africanismo. Como mostrou Shepperson, esse ideal nasceu
nele enquanto estudava na Gr-Bretanha em reao contra as teorias racistas
pseudocientficas. Foi ento que adicionou Africanus aos seus outros dois nomes,
James Beale; desde ento, ele simplesmente assinou a maioria dos seus escritos
como Africanus Horton.43 Por fim, convm observar que Horton se interessava,
alm dos problemas raciais e culturais, igualmente pela independncia poltica.
Com efeito, em sua obra West African countries and peoples, ele tenta no somente
"refutar numerosas teorias e afirmaes antropolgicas falaciosas e contrrias aos
interesses da raa negra", mas tambm a definir as "condies necessrias para


40   J. A. Horton, 1969, p.69; ver tambm R. July, 1967, p. 110-129; encontra-se uma biografia completa de
     J. A. Horton em C. Fyfe, 1972.
41 J. A. Horton, 1969, p. IXX.
42   Ibid., p. I.
43   Ibid., Introduo, p. XVII
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                                 65



alcanar a autonomia recomendada pela Comisso da Cmara dos Comuns em
1865".44
    Contemporneo a Horton, Edward Wilmot Blyden (1832-1912) foi ainda
mais prolfico, mais radical e to conhecido quanto ele.45 Nascido em St. Tho-
mas, Antilhas, ele muito cedo, entretanto, imigrou para a Libria onde reali-
zou os seus estudos e residiu durante toda a sua vida, ocupando as funes de
professor universitrio e diplomata at a sua morte aos oitenta anos de idade.
Ele publicou um grande nmero de livros e de brochuras, pronunciou diversos
discursos na Europa e nos Estados Unidos condenando sem descanso as teo-
rias racistas ento em voga. Entre as suas obras publicadas durante o perodo
analisado aqui, figuram African colonization (1862) (A colonizao africana);
Vindication of the Negro race (1857) (Em defesa da raa negra); A voice from
bleeding Africa on behalf of her exiled children (1856) (Uma voz da frica san-
grenta em nome dos seus filhos exilados); Hope for Africa (1861) (Esperana
para a frica); From West Africa to Palestine (1873) (Da frica Ocidental at a
Palestina); e Christianity, Islam and the Negro race (1877) (Cristianismo, Isl e
a raa negra). Em suas obras, ele defendia a palavra de ordem "frica para os
Africanos" e se tornou um defensor do pan-africanismo, da personalidade afri-
cana, do islamismo e da poligamia  mais adequada, segundo ele,  identidade
africana; ele enfatizou a necessidade de preservar a pureza e a integridade da
raa negra e, deste modo, condenou os casamentos inter-raciais; lutou em prol
do etiopianismo e, acima de tudo, pregou o orgulho de ser negro. Deste modo,
em um artigo publicado em 1874, ele fez apologia aos mande e fulbe que eram
muulmanos e que desenvolviam a ideia de uma ordem nacional e social sem
interveno positiva ou negativa dos estrangeiros. Blyden concluiu:
     Durante sculos, a raa africana participou da construo da civilizao humana
     da forma mais humilde e subalterna. Entretanto, o curso da histria produziu este
     fato interessante em que uma carreira se abre a este povo e a nenhum outro. Uma
     tarefa particular lhe foi reservada, tanto em terras de servido como nas terras de
     seus pais, que nenhum outro povo pode realizar. Quando considero suas perspectivas
     e privilgios atuais  e o trabalho duro, o sofrimento nobre e os xitos que lhe so
     prometidos , prefiro pertencer a esta raa a ter nascido grego na poca de Alexandre,
     romano  poca de Augusto ou ser anglo-saxo no sculo XIX.46

44   Ibid., Prefcio, p.VII.
45   Para maiores detalhes, ver H. L. Lynch, 1967; J. S. Coleman, 1958, p. 106-107, 175-176, 183-184; R.
     July, 1967, p. 208-233.
46   Citado em H. S. Wilson, 1969, p. 239-240.
66                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



   Foi o mesmo Blyden que, em seu famoso discurso de maio de 1880 diante
da American Colonization Society, deu ressonncia  formula "A Etipia ter as
mos voltadas para Deus" e incorporou os etopes  comunidade africana; foi ele
o primeiro a utilizar as expresso "personalidade africana" em uma conferncia
pronunciada em 19 de maio de 1893, em Freetown, descrevendo a raa africana
como " uma grande raa  grande por sua vitalidade, por sua resistncia e suas
chances de perpetuidade". Ele acrescentou:
      triste pensar que existem africanos, principalmente aqueles que tiveram as van-
     tagens de uma formao estrangeira, que permanecem cegos diante das realidades
     fundamentais da natureza humana, a ponto de dizerem: `Livremo-nos de todo senti-
     mento de se pertencer a uma raa. Livremo-nos de nossa personalidade africana e, se
     possvel, fundirmo-nos numa nova raa' [...] Pregai esta doutrina o quanto quiserdes,
     ningum os seguir. Ningum pode seguir-vos, por que uma vez abandonada a sua
     personalidade, sero desnudados de si mesmos [...]  o dever de todo homem, qual-
     quer que seja a sua raa, lutar pela sua individualidade  para preserv-la e desenvolv-
     -la [...]. Deste modo, honrai e amai a vossa raa. Se deixardes de ser vs mesmos, se
     renunciardes a vossa personalidade, no restar nada a deixar neste mundo47.
    Uma outra figura que marcou a revoluo intelectual daquela poca foi, sem
dvida alguma, James Johnson, este entusistico evangelizador crioulo de origem
iorub. Como Horton, ele nasceu em Serra Leoa e realizou os seus estudos na
escola secundria de Freetown e no Fourah Bay College e, depois, ensinou nesta
ltima instituio entre 1860-1863. Em seguida, entrou na Church Missionary
Society que, em 1874, o enviou  Nigria onde, num primeiro momento, ficou
responsvel pela clebre Breadfruit Church de Lagos. Em 1876, ele foi nomeado
diretor geral de todas as misses da Church Missionary Society instaladas em
territrio iorub, isto at 1880 quando ele foi demitido das suas funes s por
ser da "raa negra".48 James Johnson, em seus sermes, em suas cartas e em seus
artigos, tornou-se no s um defensor do nacionalismo nigeriano, mas tambm
do etiopianismo, doutrina que jamais, na frica Ocidental, teve o carter anti-
governamental e separatista que teve na frica Austral e Central, mas que se
tornou a expresso das aspiraes africanas, vangloriando e exaltando os sucessos
da raa negra e, ao mesmo tempo, uma arma na luta pela conquista do poder e
de posies no seio da Igreja e na funo pblica.



47   Ibid., p. 249-250.
48   E. A. Ayandele, 1966, p. 195-196; R. July, 1967, p. 197-207.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                   67



   Como Blyden, mas diferentemente de Crowther, James Johnson defendeu,
em seus sermes e em suas obras, a palavra de ordem "frica para os Africanos",
popularizando simultneamente o conceito do etiopianismo49. Ao contrrio de
seu contemporneo Crowther, ele foi tambm um partidrio e um defensor
apaixonado de uma evangelizao da frica pelos africanos e condenou com
vigor a tese, ento em voga, da inferioridade da raa negra. Ele desejava o apa-
recimento de uma igreja africana independente que poria fim a todo sectarismo
e uniria todos os cristos da frica, "reagrupando todos em uma nica comuni-
dade africana"50. Os ministros daquela igreja, insistia ele, deveriam ser em todos
os nveis africanos porque, de acordo com ele, "os missionrios europeus no
saberiam fazer suas as ambies e o modo de pensar prprios da raa africana".
Ele considerava tambm que a presena dos europeus entravaria o progresso
desta raa ao destruir "a superioridade fsica, a independncia viril, a coragem e
a bravura, a audcia e a autonomia, alm da vontade de enfrentar dificuldades",
todas as qualidades que possuem os africanos que jamais tiveram contato com
os europeus51. Aos que, em 1881, o acusaram de ser hostil aos brancos, Johnson
respondeu:
     Para os missionrios atuais, o africano que comprova a sua independncia de esprito
     e enuncia claramente as suas convices comete um crime grave.

     No se lhe reconhece este direito: ele deve ver sempre com outros olhos que no os
     seus e professar outras opinies que no as suas; no deve manifestar sentimento
     patritico algum;  preciso desnudar-lhe de sua humanidade e os ltimos vestgios
     de seu orgulho racial e dilapidar a sua individualidade e personalidade a fim de
     poder coexistir em paz com os missionrios e obter a graa de ser recomendado
     favoravelmente  sociedade52.
   Como se surpreender que tais opinies tenham amedrontado os missionrios
europeus a ponto de, em 1880, terem manobrado para substituir em sua funo,
no corao dos territrios iorubs, aquele que as professava?
   A mesma fermentao intelectual se manifestou em outras partes da frica,
notadamente em Angola e, como se ver mais adiante, no Egito e em outros



49   E. A. Ayandele, 1966, p. 187.
50   Ibid., p. 187.
51   Apud E. A. Ayandele, ibid., p. 191.
52   Apud E. A. Ayandele, ibid., p. 191.
68                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



Estados berberes, como testemunham os escritos de letrados egpcios, a exemplo
de Shaykh Rif`a al-Tahtwi (1801-1873)53.
   As concepes destes africanos instrudos, o saber e a cultura dos quais
seus escritos so testemunho, a sutileza de seus argumentos e a fora do seu
raciocnio, enfim, o simples volume de seus artigos, de suas publicaes e de
sua correspondncia evidenciam que se produziu uma verdadeira revoluo
intelectual, particularmente na frica Ocidental, mas de um modo geral sobre
todo o continente, revoluo que no somente deu vida ao etiopianismo e ao
pan-africanismo e defendeu a personalidade e a independncia africanas nas
instncias da Igreja e do Estado, mas tambm devolveu o seu orgulho e a sua
confiana  raa negra.


     Novas tendncias polticas
    Alm dessas comoes demogrficas e religiosas, outras duas grandes orien-
taes se desenharam na frica durante o perodo em estudo: uma no campo
poltico e outra no campo comercial. No plano poltico, as principais tendncias
novas que caracterizam este perodo so a concentrao e a consolidao cada
vez maior das naes africanas, a sua modernizao ou a sua renascena, certas
iniciativas e experincias constitucionais, a integrao s antigas estruturas pol-
ticas de uma parte da nova elite instruda e, finalmente, a confrontao entre
africanos e europeus.
    Se for verdade que um certo nmero de antigos imprios, como os reinos
Ashanti e Oyo na frica Ocidental ou o Imprio Luba na frica Central se
esfacelaram naquela poca, no  menos verdadeiro que a tendncia  unificao
e a consolidao das naes constituiu o fenmeno poltico mais interessante e
mais caracterstico deste perodo da histria africana. O Imprio de Sokoto, o
Imprio de Macina, o de al-Hadjdj Umar e, sobretudo, o de Samori Tour so
incontestavelmente exemplos tpicos das tendncias centralizadoras na poltica
africana no sculo XIX. Como j vimos, as migraes dos nguni chegaram a
um resultado semelhante. Os casos da Etipia, de Madagascar e do Buganda
so tambm caractersticos.
    No incio do sculo XIX, tanto a Etipia como Madagascar encontravam-se
divididos em estados rivais e independentes. Mas, como se ver mais adiante54,


53   Ver A. A. Boahen (org.), 1987, captulo 21; e captulo 13 do presente volume.
54   Ver os captulos 15 e 16 do presente volume.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                           69



a Etipia foi unificada antes do final do sculo, essencialmente graas s con-
quistas militares empreendidas por um dos Estados do centro, o Reino de Sho,
em que o rs Menelik II se fez proclamar negus do Imprio Etope em 1889.
Na mesma poca, e seguindo os mesmos mtodos, o reino central merina de
Madagascar subjugou e absorveu, sob a liderana esclarecida do rei Adrianam-
poinimerina (1782-1810) e de seu sucessor, a quase totalidade dos Estados do
Norte, Leste e centro da ilha. Aps estas conquistas, os estados centralizados de
ambos pases tentaram impor a sua lngua e sua cultura aos reinos subjugados,
a fim de construir verdadeiros Estados-naes, processo que, como veremos,
continuou por vrias dcadas do sculo seguinte.
    As campanhas humanitrias, abolicionistas e racistas que marcaram esta
poca fizeram surgir, na frica Ocidental, dois Estados inteiramente novos,
Serra Leoa e Libria, criados respectivamente em 1787 e em 1820, ao passo que
Libreville foi fundada na frica Equatorial. Ao final do sculo, os dois primeiros
Estados tinham, do mesmo modo, conseguido no s absorver um certo nmero
de reinos independentes situados no longnquo interior, mas tambm haviam
formado verdadeiras naes tendo cada uma a sua lngua e cultura prpria, o
ingls-liberiano e o crioulo. Serra Leoa registrou certamente, neste aspecto,
sucessos mais vistosos que a Libria, j que a cultura e a civilizao que se
desenvolveram ali no foram importadas, mas realizavam a sntese de elementos
prprios aos africanos com outros, trazidos pelos negros da Nova Esccia e da
Amrica no cadinho comum que era o ambiente de Freetown e de seus arredo-
res.55 Produtos desta cultura dinmica, os crioulos foram aqueles que, como j
vimos, tiveram um papel decisivo na renovao religiosa e intelectual da frica
Ocidental. O mesmo processo de expanso e centralizao se observa no Egito,
bem como nas regies dos Grandes Lagos onde, por motivos essencialmente
comerciais, para poder controlar os meios de produo e de troca, o Buganda, o
Burundi e o Bunyoro ampliaram seu poder e sua influncia.
    Alm desta tendncia  centralizao, o sculo XIX viu se desenvolver um
outro fenmeno interessante, totalmente novo, ou seja, a modernizao ou, como
diriam alguns, o renascimento da frica. Uma das caractersticas marcantes dos
contatos que tiveram lugar nesta poca entre africanos e europeus  contatos
que remontam ao sculo XV   que, graas essencialmente aos esforos dos
exploradores, dos comerciantes e dos missionrios, estes contatos que, at ento,
eram limitados s ao litoral, se expandiram gradualmente em direo ao interior.


55   Para maiores detalhes, ver L. Spitzer, 1974, A. Porter, 1963.
70                                                          frica do sculo XIX  dcada de 1880



Sob os efeitos da revoluo industrial, esta penetrao permitiu a introduo no
somente de armas de fogo e de plvora, mas da estrada de ferro, do telgrafo,
de equipamentos agrcolas e de minerao, de grficas, do ensino tcnico e,
sobretudo, de capital. Estas inovaes criaram certamente possibilidades novas,
mas constituram tambm outros desafios e ameaas: alguns dos fenmenos
mais novos e mais notveis deste perodo da histria africana so precisamente
devidos s iniciativas e reaes dos dirigentes africanos e de seus conselheiros
diante de tais desafios e ameaas. Parece que, na maioria dos casos, a atitude
dos africanos no era de imitar cegamente ou de adotar sem discriminao estes
aportes do estrangeiro, mas acima de tudo de adapt-los e tentar uma sntese das
duas civilizaes. Os exemplos desta modernizao da frica formam legies56.
O Egito construiu a sua primeira grfica em Blak, em 1822; a primeira prensa
tipogrfica de Luanda, ento nas mos dos portugueses, comeou a funcionar em
1841; as primeiras exploraes mineiras modernas na Arglia foram inauguradas
em 1845 e as da Costa do Ouro o foram durante a dcada de 1870. Alguns
pases, como a Etipia e a Tunsia, lanaram programas de obras pblicas; a
maioria dos Estados berberes, bem como o Egito, reformaram os seus sistemas
monetrios. Outros ainda, como o Egito de Mohammad `Ali, criaram um grande
nmero de indstrias txteis e de fiao de algodo, de serrarias, de fbricas de
vidro, bem como uma fbrica de papel.
    Todavia,  no plano militar que a modernizao teve os seus efeitos mais
profundos e mais notveis. Perante o avano incessante dos europeus, diversos
Estados africanos, em particular certos pases da frica Setentrional e Ociden-
tal, modernizaram os seus exrcitos no plano da organizao, da formao, dos
equipamentos e do recrutamento. Como se ver mais adiante, o Marrocos, por
exemplo, criou em Fez uma escola de engenharia destinada a formar artilheiros,
topgrafos, cartgrafos, alm de enviar militares para estudar no exterior. Na
poca do bey Ahmad, a Tunsia no se contentou em reorganizar o seu exrcito
segundo o modelo ocidental e em adotar as tcnicas e os mtodos correspon-
dentes, mas criou igualmente fbricas modernas para a produo de canhes
e de outros equipamentos militares de ponta. Sob os reinados de Twodros e
de Menelik, a Etipia aboliu o seu exrcito feudal, no qual o soldo era desco-
nhecido, substituindo-o por um exrcito profissional bem equipado; do mesmo
modo, criou fbricas de canhes e de morteiros. Samori Tour, por fim, reformou
e modernizou tambm o seu exrcito e o dotou com algumas das mais modernas


56   Ver os captulos 13, 15, 16 e 17 do presente volume.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                                   71



armas da poca. So estas reformas que permitiram a Tour e a Menelik resis-
tirem tanto tempo s potncias imperialistas durante as duas ltimas dcadas
do sculo. Todavia, como mostraro certos captulos, esta modernizao s foi
possvel graas aos emprstimos tomados a taxas elevadas, principalmente na
Europa; isto  que preparou o terreno ou forneceu o pretexto para as conquistas
imperialistas do final do sculo.
    O mesmo processo de modernizao manifestou-se no campo institucional.
Deste modo, constata-se que, devido ao desenvolvimento notvel da elite instru-
da e dos ulam que, naturalmente, comearam a querer se associar  adminis-
trao do pas, muitos Estados da frica lanaram-se em diversas experincias
polticas e constitucionais. De fato,  possvel igualmente interpretar as jihad
fulbe da primeira metade do sculo XIX como uma reao poltica violenta s
tenses entre a nova elite letrada dos ulam e a elite reinante tradicional e ver
nas rebelies dos juula da segunda metade do sculo, de acordo com Person,
uma revolta da classe dos comerciantes instrudos contra a elite conservadora
no poder57. Em outras regies da frica, particularmente na costa ocidental,
estas tenses no provocaram nem cruzadas nem exploses de violncia, mas
encontraram uma soluo constitucional. De fato, a elite instruda no procurou,
no sculo XIX, substituir a velha aristocracia no comando das diferentes naes,
como o faria nas dcadas de 1820 e 1830, mas tentou chegar a um compromisso
e cooperar com ela dentro do quadro do sistema existente. Ns j mencionamos
as tentativas constitucionais que se seguiram s migraes dos iorubs. Todavia,
no h exemplo melhor desta tendncia que a constituio da Confederao
fanti da Costa do Ouro, redigida em 1874. Os artigos 4, 5 e 6 desta constituio
foram redigidos como a seguir58:
     Sero eleitos um presidente, um vice-presidente, um secretrio, um subsecretrio,
     um tesoureiro e um tesoureiro-adjunto;
     O presidente ser eleito pelo colgio de reis e proclamado rei-presidente de toda a
     Confederao fanti;
     O vice-presidente, o secretrio, o subsecretrio, o tesoureiro e o tesoureiro-adjunto
     que comporo o Gabinete sero pessoas instrudas e de condio elevada.
   Os objetivos da Confederao fanti, tais como os define o texto da constitui-
o, no so menos considerveis e significativos: trata-se de assegurar relaes
amigveis entre os soberanos e chefes do Fanti, alm de sua aliana ofensiva e

57   Ver o captulo 24 do presente volume.
58   Encontra-se o texto completo em H. S. Wilson, 1969, p. 213-218.
72                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



defensiva contra o inimigo comum; de construir "uma rede rodoviria slida e
importante em todos os distritos do interior que compem a Confederao",
devendo as estradas "ter 15 ps de largura e ser margeadas por calhas suficien-
temente profundas em cada lado"; de criar escolas para a educao de todas as
crianas da Confederao, alm de "assegurar os servios de mestres competen-
tes". Outros objetivos buscados: "promover atividades agrcolas e industriais;
introduzir novas plantas que podero no futuro se tornar objeto de um comrcio
lucrativo para o pas", enfim, desenvolver e favorecer a explorao das minas e
de outros recursos do pas. Uma importncia especial foi dada  educao das
crianas dos dois sexos, como testemunha o artigo 22: "Escolas tcnicas sero
anexadas s diferentes escolas nacionais e tero por misso expressa educar e
formar os alunos nas profisses de carpinteiro, pedreiro, serrador, marceneiro,
agricultor, ferreiro, arquiteto e empreendedor de construo etc."
    Os objetivos da Confederao foram fixados de forma verdadeiramente sur-
preendente pelo seu carter progressista e moderno, enquanto o esprito no qual
a Constituio foi redigida  busca por uma relao harmoniosa entre a elite
instruda e as autoridades tradicionais  , em si, revolucionrio. Se uma chance
tivesse sido dada a estes esforos e projetos audaciosos, fortemente inspirados
nos trabalhos de Africanus Horton, de se realizarem, a histria, no somente
da Costa do Ouro, mas provavelmente de toda a frica Ocidental britnica,
teria seguido um curso diferente. Mas, por motivos que sero expostos adiante,
os britnicos tinham, desde 1873, posto um fim a esta audaciosa e notvel
iniciativa.59
    Uma experincia constitucional anloga levou  criao do Egba United
Board of Management (Conselho Unido de Administrao dos egba), fundado
em Abeokuta. De acordo com Africanus Horton, ele era encarregado expressa-
mente "de dirigir o governo autctone, de expandir a civilizao e de promover
a propagao do cristianismo, bem como de proteger os direitos de propriedade
dos comerciantes europeus e dos sditos britnicos"60. Citemos, por fim, a Cons-
tituio do reino dos grebo que, como observa Person mais adiante, foi edificada
sobre o modelo da Constituio da Confederao fanti.
    Todos estes exemplos o mostram claramente: mudanas fundamentais inter-
vieram tanto no campo poltico como nos planos religioso e demogrfico; e
inmeras questes cruciais hoje  relaes entre a elite instruda e as autori-
dades tradicionais, problemas de desenvolvimento socioeconmico, a noo de

59   Ver o captulo 25 do presente volume.
60   J. A. Horton, 1969, p. 151-153.
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                           73



independncia poltica e a concepo e a prtica do pan-africanismo, ou ainda
a discriminao racial  tm sua origem no perodo estudado neste volume.


     Novas tendncias econmicas
    No campo econmico assim como em outros, novas tendncias surgiram
no sculo XIX. A mudana mais radical, como se sabe, foi a abolio e o desa-
parecimento do trfico de escravos que foi substitudo pelas exportaes agr-
colas, qualificadas abusivamente, mas de maneira tipicamente eurocntrica,
como comrcio "legtimo". Por mais radicais que tenham sido seus efeitos,
essa mudana foi bastante lenta. De fato, ser visto que, na frica Ocidental
e Central, este trfico desumano estendeu-se e intensificou-se durante as seis
primeiras dcadas do sculo XIX61. Foi preciso esperar at os derradeiros anos
do sculo para que as exportaes agrcolas substitussem totalmente o trfico
de escravos.
    Por mais conhecida que seja esta mudana, seu verdadeiro significado esca-
pou a inmeros historiadores. No se trata da passagem de um comrcio "ileg-
timo" para um comrcio "legtimo", mas sim de uma transferncia fundamental
de renda de uma elite aristocrtica reinante para o povo. O trfico de escravos, a
principal fonte de renda dos reis, dos chefes militares e de seus conselheiros, s
a eles enriquecia. Mas, assim que foi substitudo por um comrcio baseado em
produtos naturais como o leo de palma, o amendoim, o algodo, a borracha, o
mel, a cera de abelha, a noz-de-cola etc., que o povo e, principalmente, os habi-
tantes das zonas rurais desta vez puderam cultivar e colher em estado natural,
uma redistribuio progressiva da renda se seguiu, conduzindo  criao de uma
nova classe de ricos, no somente nos centros urbanos e mercados, como nas
reas rurais.  desta poca que data o aparecimento do capitalismo rural que se
pode observar nos dias atuais.
    O desenvolvimento desta agricultura de exportao teve como outra conse-
quncia a integrao progressiva na economia capitalista mundial no somente
do comrcio exterior da frica, mas tambm de sua economia interna e de sua
economia rural. Infelizmente, esta mudana fundamental no modo de produo
no foi acompanhada em nenhuma parte da frica pela evoluo correspondente
dos meios de produo. Em outras palavras, a passagem para a agricultura de
exportao no se traduziu por uma mutao tecnolgica dos meios de produo

61   Ver o captulo 4 do presente volume.
74                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



ou do tratamento industrial dos produtos antes da sua exportao. Deste modo,
a frica encontrou-se incapaz de desenvolver, durante este perodo, uma econo-
mia que pudesse fazer frente  economia capitalista e industrializada da Europa;
da a tragdia que deveria se abater sobre ela durante as dcadas seguintes.
   A realizao da unificao comercial da frica  uma outra mudana econ-
mica notvel que sobreveio no sculo XIX, mas com frequncia negligenciada
pelos historiadores.
   Apesar da existncia de longa data de rotas comerciais atravessando o Saara
e o Drfr para chegar ao vale do Nilo, no havia at o incio do sculo XIX
nenhuma rota comercial transcontinental ligando a frica Central  frica
Oriental ou  do Norte.  somente no sculo XIX, e somente aps a terceira
dcada, que a frica Central, a Oriental e a do Norte foram ligadas por toda
uma rede de grandes rotas comerciais, graas aos esforos dos rabes, dos sualis,
dos yao, dos nyamwesi e dos kamba na frica Oriental, dos rabes do Egito e
do Sudo, dos tio, dos ovimbundu e dos chokwe na frica Central. Alm de
permitirem a unificao comercial do continente, a multiplicao dos contatos
entre as regies africanas e um crescimento considervel de empresrios, de
intermedirios e de comerciantes africanos, estas infraestruturas tiveram como
efeito a abertura progressiva do interior africano s influncias e aos produtos
manufaturados europeus rabes/sualis, abertura esta que acarretou as consequ-
ncias trgicas que acabamos de invocar e que sero analisadas em detalhe no
prximo volume.


     Concluso
    Resta-nos perguntar sucintamente o que teria ocorrido se no houvesse
acontecido o episdio colonial. No  necessrio ser profeta ou adivinho para
compreender que, sem a interveno colonial, a maioria das novas orientaes
teriam se fixado. No plano poltico, teramos assistido uma centralizao cres-
cente do poder, desembocando, a longo prazo, no desenvolvimento natural de
um nmero maior de Estados-naes e de entidades polticas do que aquele
criado pela ocupao europeia e o retalhamento correlato da frica. As tentati-
vas constitucionais, tais como a Confederao fanti e o Egba United Board teriam
sido, sem dvida, coroadas de sucesso, e a cooperao entre as elites instrudas
e as aristocracias tradicionais reinantes, a qual permanece problemtica, prova-
velmente teria se tornado uma realidade bem estabelecida. No campo social, a
propagao do cristianismo e aquela do islamismo seriam perseguidas, como foi
Tendncias e processos novos na frica do sculo XIX                           75



efetivamente o caso durante o perodo colonial. Todavia, longe de se desacelerar,
a difuso do ensinamento ocidental e a criao de escolas tcnicas e politcnicas
teriam se desenvolvido num ritmo acelerado, como assim o sugerem o programa
da Confederao fanti e as reformas na educao, adotadas pelo Egito no sculo
XIX. Mais ainda, a abertura dos grandes eixos comerciais atravs do continente
teria permitido o desenvolvimento de contatos e da comunicao entre regies
da frica, que teriam, deste modo, evoludo rumo a uma maior autonomia.
Enfim, o sentimento de identidade racial, o pan-africanismo e as palavras de
ordem do etiopianismo e aquela da "frica para africanos" teriam ganhado fora,
realizando a unidade espiritual e ideolgica do continente, se no sua unidade
poltica. Infelizmente, o episdio colonial veio aniquilar todas estas esperanas
to construtivas como fascinantes.
    Tudo que foi dito atesta que o sculo XIX foi, como evidenciado, um per-
odo notavelmente dinmico e revolucionrio que viu se desenvolver inmeras
tendncias e processos novos, cujos efeitos marcam o fim da frica antiga e
o advento da frica moderna. Outrossim, durante este perodo, os africanos
deram incontestveis provas de sua capacidade de enfrentar desafios novos, de
tomar iniciativas, de adotar e adaptar tcnicas e ideias novas e de responder s
transformaes do seu ambiente. No  menos claro que as realizaes notveis
dos africanos nos campos poltico e social e, mais particularmente no campo
intelectual, superam em muito o sucesso registrado em questes econmicas. No
final do sculo, a maioria dos Estados africanos gozava de sua autonomia e de
sua soberania, enquanto, no campo das realizaes intelectuais e de trabalhos
universitrios, os africanos mostraram-se muito acima das expectativas de seus
detratores europeus. Infelizmente, estes incontestveis sucessos sociais, intelec-
tuais e polticos ficaram longe de serem acompanhados de sucessos tecnolgicos
e econmicos equivalentes. Os africanos no puderam, tambm, lanar as bases
econmicas e tecnolgicas que lhes teriam permitido resistir  violenta tempes-
tade imperialista que, desde o final do sculo, devastaria o continente. Tal foi a
causa fundamental da tragdia que viveu, ento, a frica, dividida, conquistada
e entregue ao domnio colonial.
A abolio do trfico de escravos                                        77



                                    CAPTULO 4


             A abolio do trfico de escravos
                                     Serge Daget




    Este captulo no procura medir a profundidade de cada uma das inovaes
que o sculo XIX levou  frica. No pretende mostrar o trfico de escravos
em toda a extenso do fenmeno. Por exemplo, no faz seno rpidas aluses
aos trficos transaariano e rabe, que merecem anlises particulares de seus
eminentes especialistas. Mostra em grandes linhas as dificuldades encontradas
pelas naes do mundo ocidental para abolir o trfico de escravos negros, prin-
cipalmente para as exploraes escravagistas do lado americano do Atlntico.
Esquematiza ainda as condies do fim virtual do trfico e indica algumas con-
sequncias resultantes. Numerosas pesquisas devem ainda ser empreendidas para
chegar a um conhecimento melhor do fenmeno em seu conjunto. A tradio
oral deveria, nesse caso, ser preponderante.
    Nunca a participao africana nesse trfico foi geral. Certos povos do inte-
rior o ignoravam. Sociedades costeiras destruam os navios e saqueavam os
equipamentos dos navios negreiros. Para outras, o trfico agitava as estruturas
socioeconmicas e polticas. Outras ainda se fortaleciam com uma gesto auto-
ritria e exclusiva do sistema. Ento, os interesses negros e brancos coincidiam
num trfico florescente. Produtores e distribuidores africanos de mo de obra
exportvel prosperavam graas a este ramo da economia e ao comrcio exterior
da costa. Durante o sculo XVIII, foram comercializados cerca de 7 milhes
de indivduos contra aproximadamente 300 milhes de piastras (libras) em
78                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



mercadorias especficas no "comrcio da Guin", das quais talvez 80 milhes
em armas de fogo. No mesmo perodo, o trfico transaariano deportava mais
de 700.000 pessoas, e o comrcio pelo Oceano ndico ao redor de 200.000. Na
outra extremidade da travessia atlntica, os negociantes negreiros trocavam os 6
milhes de africanos sobreviventes  40% de mulheres e crianas  pelo produto
do trabalho dos escravos, que era vendido cada vez melhor do lado europeu do
oceano. L, entretanto, alguns intelectuais cujas sensibilidade e moral se choca-
vam com tais prticas condenavam o consumo de um acar tingido pelo sangue
dos "esquecidos de todo o universo". Eles clamavam pela abolio do trfico.
    A ideologia abolicionista no  de inspirao africana. Ela visava todos os
meios negreiros e escravagistas do mundo atlntico antes de se interessar pelos
efeitos dos trficos transaariano ou rabe. Suas manifestaes provinham de
uma filosofia moral, cujo poder de mobilizao real era muito fraco. Entretanto,
depois de meio sculo, as bandeiras das foras antinegreiras e da "civilizao" da
frica serviram de pretexto oficial s presses ocidentais cada vez mais fortes
no litoral Oeste africano. Por volta de 1860, o Ocidente instalou em definitivo
uma presena at ento pontual, subordinada, s vezes proibida. O Norte e o
Leste da frica conheceram situaes quase semelhantes, a partir de 1830 at
o fim do sculo.


     O mpeto abolicionista do Ocidente
    Ao longo do sculo XVIII, apurando a definio do direito universal ao bem-
-estar e  liberdade, antroplogos, filsofos e telogos voltaram-se para o caso
do africano e de sua condio no mundo. Sua reflexo levou-os a modificar as
noes ordinariamente admitidas at ento sobre o negro da frica e o escravo
americano: de bruto e animal de carga, eles transformaram-no em um ser moral
e social. Sua frmula, "o negro  um homem", recusava implicitamente o con-
senso sobre a honradez, a legitimidade e a utilidade da venda de negros. Suas
anlises humanitaristas desembocaram na exigncia abolicionista. Seu balano
do trfico era inteiramente negativo.
    O trfico manchava de sangue os Estados que o encorajavam ou o sub-
sidiavam. Matava dezenas de milhares de brancos e centenas de milhares de
negros. Retirava de sua terra produtores-consumidores que, reduzidos  escra-
vido americana, no representavam mais nada. Impediu a diversificao da
atividade comercial na costa. Perpetrou a barbrie no continente negro  opinio
que tinha como base unicamente as observaes dos ocidentais dotados de um
A abolio do trfico de escravos                                               79



"saber" sobre a frica, os negreiros. Ao denunciar um flagelo, o abolicionista no
pretendia converter imediatamente traficantes negros ou escravagistas brancos.
Props um programa de regenerao da frica atravs da cristianizao, da civi-
lizao, do comrcio natural e fixou etapas racionais para sua execuo: reverter
a opinio pblica do mundo cristo; levar os governos "civilizados" a tomar
posies oficiais; abolir legalmente o trfico no Atlntico.
    Na Frana, a Grande Enciclopdia e a obra do abade Raynal, revista por
Diderot, ensinou aos burgueses revolucionrios a averso  escravatura. Esta
corrente de ideias nobres e profanas apoiava indiretamente o ideal da Sociedade
Francesa dos Amigos dos Negros, que teria sido financiada pela Inglaterra. Os
revolucionrios no sentiam nem a realidade negreira nem a necessidade de
levar a opinio pblica a apoiar sua nova ideologia. Pelo contrrio, na Inglaterra,
a sensibilizao do povo para a filantropia se fazia pela explicao teolgica
que brotava de uma profunda renovao evanglica. Aps terem proibido o
comrcio de escravos entre eles, os quacres americanos persuadiram os quacres
britnicos a juntarem-se ao movimento abolicionista ingls1. Ao mesmo tempo,
uma campanha intensa tinha sido realizada nos meios polticos. Vanguarda e
porta-voz destas foras conjuntas, a Seita de Clapham levava anualmente suas
reivindicaes  Cmara dos Comuns por intermdio de William Wilberforce.
O combate contra os numerosos obstculos acumulados pelos escravagistas e
pelos negreiros durou vinte anos. Aos 25 de maro de 1807, a Inglaterra aboliu o
trfico. Foi a segunda abolio oficial, depois da Dinamarca em 1802. Os Esta-
dos Unidos generalizaram as decises individuais dos quacres em 1808. Essa
defesa dos interesses humanitrios pelos poderes polticos tinha tido por campe
a Gr-Bretanha, nao cujos negreiros haviam importado cerca de 1.600.000
africanos em suas colnias americanas ao longo do sculo precedente.
    A hagiografia, segundo a qual a revoluo humanitria abriu uma "das mais
nobres pginas" da histria inglesa, foi abalada, em 1944, por uma tese fundada
no materialismo histrico. Segundo Eric Williams, a abolio servia poderosa-
mente aos interesses econmicos da Inglaterra industrial nascente2. Com cer-
teza, esta abordagem frtil no negava inteiramente o papel da filosofia moral
nem o de um humanitarismo ideal e triunfante. Mas fez aparecer severas con-
tradies entre o pensamento terico e a realidade prtica: entre os principais
dirigentes do movimento abolicionista figuravam numerosos banqueiros (o
caso vale tambm para a Sociedade Francesa dos Amigos dos Negros), ou seja,

1    R. Anstey, 1975, cap. 9.
2    E. Williams, 1944.
80                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



a abolio do trfico servia aos interesses do capital. Mais tarde, as ideias teri-
cas revelar-se-iam impotentes para dominar o fluxo bem real de escravos para
exploraes escravagistas em pleno desenvolvimento, em Cuba e no Brasil; e as
foras ditas humanitrias no conseguiriam dominar a equalizao dos direitos
sobre o acar, cuja consequncia eventual, numa poca em que a mecanizao
das plantaes estava ainda bem longe de ser efetuada, seria o aumento da
demanda de mo de obra negra. O principal mrito da interessante tese de Eric
Williams foi talvez o de ter dado um impulso s novas pesquisas, enquanto o
debate econmico prosseguia. Seymour Drescher mostrou assim que a abolio
era um "econocdio", e Roger Anstey, que a f e a benevolncia estavam na ori-
gem da filantropia inglesa3. Os historiadores divergem talvez menos na crtica
dos fatores polticos da abolio.
   Proposies de abolio coletiva, lanadas pela Inglaterra em 1787, depois
em 1807, haviam fracassado. Em 1810, Portugal fez vagas promessas em troca
de aberturas para o mercado britnico. Um mundo desmoronou com o fim das
guerras napolenicas. A paz de 1815 devolveu o Mediterrneo, o Oceano ndico
e o Atlntico ao comrcio martimo, e os reabriu ao trfico negreiro. No Con-
gresso de Viena, buscando uma condenao explcita do trfico, a diplomacia
inglesa obteve uma declarao platnica e temporizadora, retomada em Verona.
A partir de 1841, esta aparncia de moral abolicionista oficial autorizou da por
diante todas as estratgias combinadas do Foreign Office e do Almirantado nos
negcios negreiros mundiais. Em trs pontos, Londres props s naes um
procedimento pretensamente radical contra o trfico internacional: legislaes
internas proibindo o trfico negreiro aos nacionais; tratados bilaterais conferindo
s marinhas de guerra o direito recproco de visitar e prender no mar os navios
de comrcio de cada nao contratante pega no trfico ilegal; e colaborao nas
comisses mistas habilitadas a condenar os negreiros presos e a libertar os negros
encontrados a bordo. Tais disposies funcionariam tambm no Oceano ndico,
especialmente entre Maurcio e Bourbon (a atual Ilha da Reunio).
   Este projeto agradou a um pblico de perfil liberal ou filantrpico. Por outro
lado, nenhuma economia nacional podia negligenciar a clientela ou as fabrica-
es inglesas. Ademais, para os governos novos ou em dificuldade que buscavam
a aprovao ou a passividade de Londres, um gesto abolicionista equivalia a
um verdadeiro gesto de cooperao. Inversamente, o projeto ingls s podia
suscitar a resistncia dos interesses que a supresso do trfico pela fora lesaria.


3    S. Drescher, 1976, p. 427; R. Anstey, 1975, cap. 1 e 2.
A abolio do trfico de escravos                                                                      81



Resistncia dos Estados, em nome de sua soberania nacional: direito de visita e
comisses mistas pressupunham um abandono parcial desta soberania. Resistn-
cia dos clssicos "interesses superiores", a fim de fazer frente ao "maquiavelismo"
e s ambies hegemnicas que repousavam sobre a preponderncia absoluta
da Royal Navy. Resistncia  runa das marinhas, das colnias, dos comrcios
nacionais. Portugal, Espanha, Estados Unidos e Frana consumiam e distribu-
am algodo, acar, caf e tabaco de produo escravagista ligada  importao
de africanos no Brasil, em Cuba, nos Estados do Sul dos Estados Unidos e
nas Antilhas. Diretamente envolvido, o empreendedor martimo drenava os
investimentos e oferecia emprego aos pequenos setores econmicos locais que
tiravam proveito do trfico.
    Sempre escravagistas nas colnias menores, a Dinamarca, a Holanda e a Su-
cia subscreveram  represso recproca4. Substancialmente indenizados, Portugal
e Espanha aceitaram-na em 1817. Mas Portugal conservou um trfico essen-
cialmente lcito no Sul do Equador, que no se atenuaria seno em 1842, sob a
ameaa de severas sanes militares inglesas. A Espanha reforou sua legislao
antinegreira e suas convenes com Londres; mas Cuba continuou o trfico at
1866, ano da terceira lei abolicionista espanhola: Cortes Gerais, o Conselho de
Estado e a Tesouraria cederam  chantagem para a fidelidade ou para a seces-
so dos plantadores da Ilha5. A chantagem dos ingleses para o reconhecimento
jurdico do Brasil obrigou o novo imprio ao tratado repressivo de 1826. Mas
o trfico brasileiro cresceu at 1850. No ano seguinte, ele cessou, mas somente
por que a Royal Navy violou as guas territoriais do Brasil para purg-las dos
negreiros: o caf dependia do mercado britnico; os fazendeiros se arruinaram
para reembolsar suas dvidas aos mercadores de escravos; e a populao branca
temia um superpovoamento negro6.
    s presses inglesas, os Estados politicamente mais fortes responderam de
modo diferente. Sedenta de prestgio, a Frana adquiriu sua autonomia por um
simulacro de legislao e de cruzeiros de represso, inofensivo, fosse na metr-
pole ou na costa. Entre 1815 e 1830, o trfico ilegal francs mobilizou 729 expe-
dies negreiras para as costas Oeste e Leste da frica. Mas quando se tornou
evidente que tais operaes no constavam mais do balano social e financeiro
dos portos, o governo assinou uma conveno de visita recproca. Outra razo
foi o fato de a monarquia oriunda da revoluo de 1830 ter tido interesse em se

4    S. E. Green-Pedersen, 1975; E. Ekman, 1975; P. C. Emmer, J. Mettas e J.-C. Nardin (org.), 1976.
5    A. F. Corwin, 1967.
6    L. Bethell, 1970, cap. 11 e 12.
82                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



reconciliar com a Inglaterra7. Esta mudana de atitude levou  adeso de muitos
pequenos Estados s convenes de 1831-1833. A Gr-Bretanha aproveitou-se
para renovar suas tentativas de internacionalizao. Estendeu a represso naval
a todo Atlntico e ao Oceano ndico. Uma clusula de "equipamento" permi-
tiu a captura de navios manifestamente armados para o trfico, mesmo vazios
de carregamentos humanos. Os negreiros dos Estados Unidos permaneceram
invulnerveis. Durante quarenta anos, a diplomacia norte-americana escapou
a qualquer compromisso srio. Em 1820, o trfico foi legalmente assimilado 
pirataria; em 1842, acrescentou-se o compromisso da "verificao do pavilho",
que preservou os norte-americanos da represso inglesa; cruzeiros repressivos
de "80 canhes" salvaguardaram a dignidade nacional, embora fossem medidas
formais. Nos anos 1840, os plantadores sulistas reclamaram a reabertura legal do
trfico. Todavia, tomaram suas prprias medidas ao criarem escravos para venda
interna em ranchos especializados8. Durante a Guerra Civil, a Administrao
Lincoln admitiu o direito de visita, suspenso desde 1820. Cessou ento o trfico
norte-americano.
    Assim, durante meio sculo, a multido dos textos acumulados provou sobre-
tudo a inanidade dos compromissos assumidos. Nesta avalanche verbal, a frica
e os africanos so muito raramente mencionados, como se no existissem. O tr-
fico ilegal era proveitoso aos empreendedores martimos, cujos benefcios eram
mais importantes do que na poca do trfico legal e protegido9. As exploraes
escravagistas estocavam mo de obra.
    Os plantadores resistiam  abolio por razes diferentes. Impermevel s
ideias difundidas pelos organismos abolicionistas, sua psicologia apela invaria-
velmente aos esteretipos raciais e aos postulados civilizadores. A abolio no
ajudaria "a raa escrava e embrutecida a sair de sua sorte10". O prestgio social
ligado  posse de escravos e os hbitos demogrficos ligados  ausncia de
imigrao branca contriburam para a justificao do sistema. A resistncia se
explicou sobretudo pela contradio percebida entre o crescimento da demanda
ocidental em produtos do trabalho dos escravos e a interdio ocidental de
importar os escravos julgados indispensveis para aumentar a oferta destes pro-
dutos. A exportao de caf brasileiro decuplicou entre 1817 e 1835, e triplicou
de novo at 1850. A exportao de acar cubano quadruplicou entre 1830


7    S. Daget, 1983.
8    E. D. Genovese, 1968, p. 131-132.
9    P. E. Leveen, 1971, p. 27, tabela 3; R. Anstey, 1976, comunicao pessoal.
10   Citado em S. Daget, 1973.
A abolio do trfico de escravos                                                                       83



e 186411. Em 1846, as medidas inglesas de livre comrcio pareciam atribuir
uma preferncia  produo escravagista, uniformizando os direitos de entrada
dos diversos acares no mercado britnico. Os historiadores no chegaram a
um acordo quanto  incidncia dessa iniciativa no recrudescimento do trfico
negreiro12. Mas em Cuba, onde o trfico estava regredindo, a importao dos
negros novos (bozales) ultrapassou em 67%, nos anos 1851-1860, a dos anos
1821-1830. Durante os cinco anos de uniformizao dos direitos na Inglaterra,
a introduo dos negros no Brasil aumentou 84% com relao aos cinco anos
precedentes, 1841-184513. Alm disso, o explorador americano rentabilizava a
importao de mo de obra nova enquanto seu preo de compra era inferior a
600 dlares por cabea. Isto at 186014.


     A represso
    Os navios de guerra no agiam somente na costa africana. Desde 1816, na
Conferncia de Londres, proposies francesas contra o trfico dito "berbere"
tinham sido rechaadas: alis, elas no representavam seno uma tentativa para
tornar menos urgente a represso militar no Atlntico. Mas em 1823, a Frana
adotou uma disposio proibindo a seus navios o transporte de escravos pelo
Mediterrneo. Esta deciso inscrevia-se em um contexto poltico que no tinha
muito a ver com o trfico: guerra da Espanha, libertao dos Gregos, apoio ao
Egito de Muhammad `Al  enfim, tentativa de domnio deste mar fechado,
antes mesmo da interveno direta francesa na Arglia. Momentaneamente
a Inglaterra havia sido ultrapassada. Entretanto, as operaes dos navios no
tiveram resultados visveis. A represso militar era mais sria em algumas guas
do Oceano ndico, principalmente entre a ilha Maurcio, Madagascar e a Reu-
nio. L, navios ingleses capturavam navios franceses; e  verossmil que alguns
negreiros ingleses de Maurcio tenham ido procurar escravos em Madagas-
car, onde o chefe Jean-Ren exercia seu domnio sobre Tamatave. Em caso de
tomada "internacional", regularizava-se o assunto restituindo o navio, mas no
os africanos que ele transportava. Em caso de apreenso por um navio nacional,


11   L. Bethell, 1970, p. 73, nota 4 e p. 284; F.W. Knight, 1970, p. 44.
12   F.W. Knight (1970, p.55) no acredita na incidncia da medida, contrariamente a P. E. Leveen, 1971, p.
     78-80; H. Temperley, 1972, p. 164; D. R. Murray. 1971, p. 146.
13   D. R. Murray. 1971, p. 141-147. Ver H. S. Klein, 1976; L. Bethell, 1970, p. 388-395.
14   P. E. Leveen, 1971, p.10, 72ss; F. W. Knight, 1970, p. 29; A. F. Corwin, 1967, p. 135-144.
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havia adjudicao judiciria, o que no significava que os negros a bordo eram
libertados. Na maior parte das vezes, eles incorporavam as plantaes  enquanto
as autoridades aduaneiras fechavam os olhos a essas operaes.
    Nas guas americanas, os franceses capturaram alguns negreiros nacionais e
os levaram a julgamento em Guadalupe e em Martinica. Os escravos "captura-
dos" eram escoltados para Caiena sob a ordem de Paris que era obcecada pela
ideia de colonizar a Guiana. Quando medidas de represso foram previstas nos
tratados bilaterais, foram os navios negreiros  no os homens  que foram julga-
dos perante as comisses mistas instauradas pelos acordos. Sua eficcia do lado
americano do Atlntico dependia da mentalidade dominante nas exploraes
escravagistas. Em Cuba, apenas 45 negreiros foram condenados pela Comisso
hispano-britnica, dos 714 conhecidos entre 1819 e 1845. Um prmio pela
captura destinado aos integrantes da marinha espanhola local levou  apreenso
de 50 navios nos dez ltimos anos do trfico. Os resultados das comisses do
Suriname e do Brasil no foram melhores15. Um navio a cada cinco foi capturado
nas guas americanas. Entretanto, por volta de 1840, cerca de 70 embarcaes
de guerra de diversas nacionalidades foram expedidas para a represso.
    O efetivo foi bem menor na costa ocidental africana. Os cruzeiros holan-
deses, portugueses e americanos eram episdicos. Os cruzadores americanos
eram muitas vezes comandados por sulistas. Baseados no Cabo Verde, estavam
distante do trfico. Esta situao que prevaleceu no momento do nascimento
da Libria no mudou at 1842. O acordo concludo com os ingleses exigiu
a presena de quatro ou cinco navios  mas isto permaneceu terico. Entre
1839 e 1859, dois negreiros americanos foram apreendidos com sua carga. Sete
capturas aconteceram em 1860; os escravos que se achavam a bordo dos navios
apreendidos foram povoar a Libria.
    Duas foras martimas operaram permanentemente. Em 1818, a Frana
estabeleceu seu cruzeiro, que permaneceu independente at 1831. Partindo de
Gore, que no era mais um centro de distribuio negreiro desde 1823-1824,
mas que se tornou o quartel geral das operaes de represso francesas, entre trs
e sete navios de guerra inspecionavam alguns negreiros, sem jamais reprimir nos
quatro primeiros anos. A incerteza reinava sobre as intenes reais do governo.
Londres acusava os franceses de subtrair-se a seu dever e a toda obrigao moral.
Os abolicionistas franceses acusavam o ministrio de conluio com os interesses
negreiros. Em 1825, a marinha reagiu decidindo pela atribuio de um prmio


15   D. R. Murray, 1971; P. C. Emmer, 1976, p. 245-251; L. Bethell, 1970, p. 200-213.
A abolio do trfico de escravos                                            85



de 100 francos por escravo "apreendido". Cerca de trinta negreiros capturados
no mar passaram pela justia, elevando a uma centena o nmero de condenados.
Teoricamente, isto deveria ter salvado alguns milhares de africanos da escravi-
do americana. Mas, na realidade, quando no foram enviados a Caiena, foram
"empregados" no Senegal para as obras pblicas da colnia. As convenes
de 1831-1833 foram pouco a pouco minadas pelas rivalidades e pelo orgulho
nacional dos parceiros16. A Marinha francesa procurava assegurar um equilbrio
entre o nmero de seus cruzadores e os da Royal Navy. Havia entre trs e seis
em 1838, e quatorze de cada lado em 1843-1844. Em 1845, como consequncia
indireta do tratado anglo-americano, as convenes francesas foram emendadas,
e o nmero de embarcaes destinadas  represso foi fixado em vinte e seis de
cada lado. Desde ento, contando com os cinco cruzadores americanos e os seis
navios portugueses nas costas do Congo, uma verdadeira fora naval parecia
direcionada contra o trfico. Em 1849, a Frana no cumpriu com algumas
obrigaes que no podia assumir. Durante sete anos, o segundo Imprio favo-
receu os "contratos livres" de mo de obra africana. Foi um trfico mascarado
que a Inglaterra e a Holanda praticaram por sua conta. O cruzeiro francs em
quase nada interferiu, mas fez tremular sua bandeira ao longo da costa, o que
era talvez seu principal objetivo.
    O Almirantado britnico encarregou-se da polcia humanitria, mas o fez
sem entusiasmo. Os meios materiais progrediram, passando de 3 a 26 navios,
mal adaptados a esta misso especial. Pesados, incapazes de subir os rios, des-
tacavam botes, vulnerveis aos ataques das feitorias negreiras e dos barcos que
os esperavam. Lentos, eles eram ultrapassados no mar pelos brigues rpidos e
leves, antes de s-lo pelos clperes americanos. Na falta de vapores, no incio,
a administrao colonial da Serra Leoa comprou alguns navios condenados,
destinando-os  represso por suas qualidades nuticas. A esquadra estacionava
e abastecia-se na colnia, nos fortes da Costa de Ouro e fazia escala na ilha da
Ascenso. As ofertas de compra de Fernando P  Espanha, a fim de melhor
reprimir o trfico no golfo de Biafra, no obtiveram xito.
    A eficcia dependia dos homens. Embebida no esprito metropolitano, a
conscincia abolicionista do marinheiro ingls era inegvel. Era igualmente
vlido para seu complexo de poder. A servio da humanidade, conduzia a Royal
Navy a nem sempre obedecer s ordens do Almirantado e a desprezar o direito
martimo internacional. Ilegalmente, a Royal Navy visitou e prendeu franceses


16   S. Daget, 1981.
86                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 4.1 "Mapa da costa ocidental da frica, compreendendo todos os territrios onde ainda se faz o
trfico dos escravos, reproduzido de acordo com documentos recentes para a inteligncia dos cruzadores ou
dos bloqueios a estabelecer nos focos do trfico pelo comandante barco E. Bout-Willaumez" (Mmoires et
documents Afrique, 30, p. 415). [Fonte: documento de arquivos do Ministrio dos Assuntos Exteriores, Paris.
Publicado com a amvel autorizao de S. E. o Ministro dos Assuntos Exteriores da Repblica Francesa.]



e americanos antes dos acordos bilaterais, acarretando medidas de protesto e de
reparao diplomticos. Um prmio pelas capturas, muito elevado no incio, fez
com que os marinheiros da Inglaterra fossem acusados de se preocuparem antes
pelo proveito garantido pela captura de um navio que pelo estado dos africanos
amontoados a bordo. Com efeito, a mortalidade era severa entre a apreenso e
a liberao em Serra Leoa, em Santa Helena ou em Maurcio. Os marinheiros
tambm morriam de doena ou em servio. Houve combates mortferos entre
cruzadores e negreiros17.

17   C. Lloyd, 1968; S. Daget, 1975.
A abolio do trfico de escravos                                             87



    Estes ltimos utilizavam com habilidade a incoerncia das condies inter-
nacionais da represso. Na costa, muito bem informados sobre os movimentos
dos cruzadores, os negreiros evitavam-nos, talvez quatro a cada cinco vezes.
Iando falsos pavilhes e empregando falsos documentos de bordo comprados
nas Antilhas, agiam como piratas. Apesar das leis, at ento no sofriam sanes.
Abandonaram seus disfarces no momento do reforo dos acordos repressivos: os
documentos franceses no mais os protegiam, depois de 1831; e os portugueses,
depois de 1842. Mas a manuteno da soberania americana salvaguardou efi-
cazmente o trfico com pavilho dos Estados Unidos at 1862.
    A resposta a estes estratagemas foi a escalada da violncia. Os comandantes
de cruzadores e os governantes locais das implantaes ocidentais chegaram a
empregar espontaneamente a fora militar. Praticaram "expedies punitivas"18
em terra, especialmente onde o poder africano parecia desorganizado. Na zona
de influncia americana da Libria, o governador, reverendo Jehudi Ashmun,
atuou contra as feitorias do cabo Mount. Perto da Serra Leoa, em 1825, a
campanha do governador Turner expurgou por um tempo as ilhas da pennsula
 sobretudo, estabeleceu definitivamente uma longa faixa costeira sob domnio
ingls. Foram operaes de comando repetidas no rio Gallinas, depois no rio
Sherbro e no rio Pongo. No Sul do equador, foi o bombardeamento sistemtico
dos negreiros nas guas "portuguesas" de Cabinda e Ambriz. As expedies aca-
baram com o incndio dos barracons, das aldeias dos empreendedores africanos,
reconstrudas rapidamente um pouco mais distante. Os escravos presos eram
libertados e enviados para a Serra Leoa, para a Gmbia ou para Maurcio por
causa do prmio. Alguns ali se estabeleceram. Muitos foram alistados nas tropas
coloniais negras. A outros foram propostos contratos livres como trabalhadores
nas Antilhas19.
    Extirpando o mal "pela raiz"20, estas operaes foram tidas como decisivas
na Frana e na Inglaterra. Introduziram duas modalidades novas: de um lado, a
assinatura de "tratados" com os chefes locais, na costa, que se comprometeram
a suprimir o trfico nos territrios sob seu controle (tratados mais ditados que
discutidos, mais impostos que desejados); por outro lado, a represso atravs do
bloqueio duradouro de grandes centros de exportao, e isso constituiu o incio
de uma poltica de diplomacia armada e intervencionista. A dcada 1841-1850



18   C. Lloyd, 1968, p. 93-100.
19   C. Fyfe, 1962; J. U. J. Asiegbu, 1969.
20   C. Lloyd, 1968; P. J. Staudenraus, 1961; C. Fyfe, 1962, loc. cit.
88                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



foi decisiva para a costa oeste africana que, at ento, permanecera o principal
foco do trfico.
    Esta dcada foi tambm importante no que concerne ao trfico transaariano.
Apesar dos esforos do cnsul abolicionista Warrington, a Inglaterra continuava
ainda indiferente ao trfico em direo  frica Setentrional. Em teoria, todas as
partes que a compunham estavam sob a dependncia dos Turcos de Constanti-
nopla, com exceo do Marrocos. Na verdade, h muito tempo, as fraes consi-
deravam insignificante a suserania dos Kramnl, e agiam de modo autnomo.
Um primeiro fator foi, em 1830, a conquista militar francesa, transformada em
colonizao a partir de 1842, que abalou a Regncia de Argel. Foi uma coloni-
zao de povoamento branco que pouco desejava escravos. Encontrando-se entre
presses francesas e britnicas, a Regncia vizinha de Tunis, aboliu o trfico entre
1840 e 1842. A Leste, a Regncia de Trpoli encontrou mais dificuldades, porque
precisava receber a concordncia dos chefes do interior, alguns dos quais eram
poderosos distribuidores de escravos provenientes do Borno ou de Sokoto. Mas
em 1842, o shaykh `Abdul-Djall, que de Murzuk dominava o Fezzn, consentiu
a abolio do trfico, mas foi assassinado. A Turquia restabelecera sua suserania
direta sobre Trpoli e a Cirenaica desde 1835; e doravante precisava contar com
ela para realizar uma abolio efetiva do trfico. O sulto de Constantinopla
proibiu o trfico em 1857; mas este no se interrompeu de fato em lugar nenhum,
nem mesmo em um Egito j fortemente ocidentalizado.
    Em 1870, o viajante alemo Georg Schweinfurth, que chegava "do corao
da frica", se perguntava que "proteo [...] a abolio do trfico podia receber
do Kediva"21. O Marrocos, por fim, apresentava uma situao excepcional. Dos
pases do Magreb, ele era a nica nao que os Europeus consideravam uma
potncia real: a ele no pensava em impor ou mesmo sugerir uma atitude que
fosse. As tentativas diplomticas e as persuases humanitrias fracassaram at
1887. Mesmo quando o trfico pelo Oceano Atlntico comeava a dar sinais de
decrscimo, ainda existiam, no quadro do trfico transaariano, eixos slidos para
a exportao e a distribuio de escravos: para o Marrocos, onde, em meados do
sculo XIX, entre 3.500 e 4.000 africanos negros eram importados anualmente,
e ainda 500 por ano nos anos 188022; para o Mar Vermelho e para o Oriente
Prximo, como o estudaremos mais adiante. Contra esse trfico transaariano,



21   G. Schweinfurth, 1873, cap. IX; A. A. Boahen, 1964; J.-L. Mige, 1961-1963, vol. III; F. Renault e S.
     Daget, 1980.
22   J.-L. Mige, 1961-1963; F. Renault e S. Daget, 1980.
A abolio do trfico de escravos                                            89



totalmente nas mos dos africanos, por se tratar de um trfico inteiramente
interno  frica, no havia qualquer meio ocidental de represso.
   Os abolicionistas sustentavam que, se no tivesse havido compradores de
escravos, no teria havido vendedores. Invertendo a ordem dos termos, os escra-
vagistas afirmavam que sem oferta africana de escravos, no haveria demanda
ocidental; sua boa conscincia, fundavam-na em uma tcita cumplicidade da
prpria frica.


     As reaes africanas
    Entre 1787 e 1807, fase pr-abolicionista ocidental, mais de um milho de
africanos foram deportados para as Amricas. A este nmero acrescentam-se
uma mortalidade aproximada de 15%, na travessia do Atlntico, e o nmero
desconhecido de mortes provocadas pelos deslocamentos para a costa e durante
as operaes locais de produo de cativos pelos africanos "pescadores de
homens"23.
    A abolio estava longe de perturbar de imediato a vitalidade do mercado
de exportao ao longo da costa. A indeciso abolicionista deixou a Portugal
e ao Brasil o lazer de traficar ilegalmente ao Sul do equador, e o lucro era to
alto quanto no sculo XVIII. Combatido seriamente aps 1842, o trfico no
desapareceu das costas de Loango antes dos anos 190024. Ao Norte do equador,
a abolio imposta aos estabelecimentos europeus suprimiu postos de trfico
tradicionais, na Senegmbia, em Serra Leoa, na Libria e na Costa do Ouro.
Mas o efeito real quase no passou da periferia da implantao onde a autori-
dade poltica era fraca. s vezes ainda negreiros continuavam operando nestas
paragens. Porm, desapareceram progressivamente. A produo e a distribuio
de mo de obra exportvel estavam doravante nas mos dos africanos.
    Nas fronteiras da Serra Leoa, a geomorfologia favorecia ativas feitorias
negreiras inglesas e espanholas, ou pertencentes a mulatos, nos rios Nuez e
Pongo, no Noroeste, e no rio Gallinas, no Sudeste. As regies produtoras, s
vezes separadas umas das outras por 400 ou 500 quilmetros, estavam geral-
mente situadas prximas  costa. As transaes eram pessoais, entre dirigentes,
caravaneiros, agentes e feitores. Em Daom, ao contrrio, o trfico era um dos
suportes do poder poltico, que delegava a gesto dele a seus mais importantes


23   R. Thomas e R. Bean, 1974.
24   G. Dupr e A. Massala, 1975, p. 1468.
90                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



parceiros. Devedor ao mulato Francisco Flix da Souza, Ghezo fixou-o, em
1818, como chacha, "chefe dos brancos", conselheiro econmico e administrador
do trfico em Uid. Este cargo sobreviveria  morte do primeiro chacha, em 1849,
e o filho de Ghezo o herdaria. Tratava-se de uma gesto em grande escala: esto-
cagem das mercadorias ocidentais, liquidao das dvidas e crditos, embarque
rpido de cargas previamente preparadas, arrecadao das taxas, filtragem dos
estrangeiros brancos e divertimento da clientela. Estas funes econmicas eram
capazes de adaptar-se a outros tipos de produo. A do trfico, que pertencia aos
chefes de guerra, era assegurada por expedies militares anuais, nem sempre
vitoriosas, contra os pases vizinhos, e sobretudo os iorubs. Provinha igualmente
do Sudo Central que distribua tambm cativos para o Norte e para o Egito,
dirigindo sua carga pelos confins do Estado: bom portador, o indivduo devo-
tado  exportao era conservado e integrado  equipe ordinria de transporte25.
Mais a Leste, de Badagri s fronteiras do reino do Benin, os tumultos internos
do povo iorub sobrecarregaram um mercado ligado com Uid. Poderes locais,
negreiros negros e brancos das lagunas atendiam as fortes demandas portugue-
sas e brasileiras, que ali encontravam a maior parte de seus recursos antes de se
adaptarem  nova realidade26.
    A Leste do Cabo Formosa, nas margens do delta do Nger, de Nun ao
Velho Calabar, os notveis mecanismos adotados no ltimo tero do sculo
XVIII continuavam administrando o trfico negreiro, mas j se aplicavam a
outras atividades comerciais exploradas simultaneamente. As foras religiosas
e sociopolticas locais, o orculo Arochuku, as "Casas de Canoas" e a sociedade
ekpe mantinham um mercado que representava a metade do trfico negreiro ao
Norte do equador, cerca de 200.000 unidades. A produo chegava de Sokoto, da
Bnou, do Nupe, do Noroeste camarons e das regies interiores do delta, onde
era conseguida com mtodos clssicos, guerra ou rapto, pagamento de dvidas
ou tributo de proteo, expurgao social da comunidade, simples compra nos
mercados e simples brindes. Uma sucesso de negociantes ou as redes habituais
de escoamento encaminhavam-na para os pontos de distribuio27. L, mtodos
bem corriqueiros tambm presidiam s transaes. O preo unitrio das cargas
era previamente fixado na moeda de clculo local, a barra de cobre, equivalente
a certa quantidade de mercadorias  no diferente daquela dos perodos ante-
riores. Em 1825 e em 1829, homens e mulheres valiam 67 barras; e o preo

25   C. Coquery-Vidrovitch, 1971, p. 109-111; P. Manning, 1979; M. Adamu, 1979.
26   P. Verger, 1968, cap. XI e XII.
27   K. O. Dike, 1956; P. D. Curtin, 1969, p. 254-255; M. Adamu, 1979.
A abolio do trfico de escravos                                                       91



podia baixar at a 45 ou 50. Quando do desembarque da carga, o preo de cada
indivduo era de 33 dlares espanhis, sendo 8 a 10% o valor da comisso dos
distribuidores. Em Duke Town, a cidade de Duke Ephram, no Antigo Calabar,
chefes de outras casas mais ou menos rivais, Egbo Eyo, Tom Honesty, Ogan
Henshaw, contribuam para completar os carregamentos de escravos ou comes-
tveis. 40.000 inhames se pagavam com 2.000 barras, valor de 40 indivduos. Por
volta de 1830, a maior parte do trfico se realizaria em Bonny28.
    A estimativa do trfico negreiro ao longo dos sessenta anos da era abolicio-
nista pertence ao domnio dos valores aproximados. De 1807 a 1867, entre o
Senegal e Moambique, 4.000 navios europeus ou americanos realizaram por
volta de 5.000 expedies negreiras, deslocando 1 milho de toneladas mtricas
de carga. Mercadorias com o valor de cerca de 60 milhes de piastras ou dlares
foram negociadas por um total de 1.900.000 africanos, efetivamente embarcados
nos entrepostos de exportao. 80% desse total teria sido embarcado no Sul do
equador.29 Do comeo do sculo aos anos de 1880, o trfico transaariano, de um
lado e o trfico rabe, de outro, exportavam em torno de 1.200.000 africanos
negros no que se refere ao primeiro e 800.000 no que diz respeito ao segundo30,
indivduos capturados no imenso arco compreendido entre o pas Bambara, no
Oeste e Sul de Moambique.
    Cliometristas, socilogos e historiadores admitem que o trfico foi uma
catstrofe global para a frica. A observao cientfica juntar-se-ia assim ao
sentimento popular. Mas o propsito merece uma explicao. A ideologia huma-
nitria era ocidental.  provvel que no tenha havido o menor sentido no
esprito dos distribuidores africanos da poca  salvo rarssimas excees. O que
no quer dizer que eles fossem visceralmente incapazes de no mais praticar o
trfico, como os escravagista ocidentais o pretendiam. A permanncia da oferta
africana de mo de obra exportvel deve ser analisada em termos de racionali-
dade econmica. Distribuidor negro e exportador branco no mudavam nada
em uma atividade pagadora, aproveitvel s duas partes interessadas, que no
visavam outra coisa alm do ganho. Assim foi no estgio elementar. A constante
oferta se explicava pelo bom funcionamento de um sistema integrado. Se havia
resistncia africana, era contra o desmoronamento desse sistema. Inicialmente
arruinaria os interesses constantes dos distribuidores no preparados31, sem falar

28   S. Daget, 1983, ver, entre outros, os navios Le Charles, 1825, e Le Jules, 1829.
29   P. D. Curtin, 1969, tabelas 76 e 77.
30   R. A. Austen, 1979, tabelas 2.8 e 2.9.
31   G. N. Uzoigwe, 1973, p. 201.
92                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



das repercusses que viriam a seguir sobre o organismo social e poltico prximo
ou distante. Em resumo, enquanto o movimento de trocas entre o interior e a
costa e o comrcio externo desta no ofereciam alternativa decisiva ao trfico,
a "resistncia" dos negreiros africanos  sua supresso era severamente deter-
minada pela necessidade de evitar um caos comercial32. A suposta cumplicidade
dos distribuidores africanos no era seno uma resposta adaptada  realidade
econmica imediata. Isto explica, alis, a tendncia  queda dos preos de venda
de mo de obra exportvel como defesa do mercado contra as crescentes presses
das foras repressivas. Estas teriam, portanto, sua parte em um balano negativo.
Tal argumentao precisa ser equilibrada quanto  deportao dos africanos para
o Norte ou para o Leste. Se o interesse econmico dos captores e distribuidores
de escravos permanecia evidente, concebe-se dificilmente que os pases arruina-
dos tenham recebido qualquer compensao econmica. Certas personalidades
poderosas instalaram seu poder, Tippu Tip ou Rbah, por exemplo. Mas, se exis-
tiu de sua parte uma contribuio positiva para as regies que eles controlavam,
o estudo desse aporte ser da competncia dos especialistas.


     Serra Leoa e Libria
   Um cliometrista acha que a represso salvou 657.000 pessoas da escravido
americana33. Outro especialista estima que este nmero  por demais elevado, e o
reduz a 40.000 indivduos para o perodo que vai de 1821 a 184334. As opinies
no so muito mais precisas quanto ao total de navios negreiros apreendidos
pelas foras repressivas. Entre 1.000 e 1.200 embarcaes, cerca de um quarto
das expedies provveis para o trfico ilegal constituiriam uma avaliao razo-
vel35. As cortes de vice-almirantado britnicas, os tribunais franceses, os cruzei-
ros americanos e, sobretudo, as comisses mistas (tornadas sem objetivo, seriam
dissolvidas entre 1867 e 1870) liberaram por volta de 160.000 africanos.
   Considerados "escravos", isto , bens mveis, sua libertao no era auto-
mtica: exigia um julgamento das autoridades martimas ou coloniais, ou das
comisses, para livr-los da condio de escravos. Arrancados de suas razes,
alguns milhares de libertos viviam uma vida precria e ameaada no cerne das


32   Ibidem, B. O. Oloruntimehin (1972b, p. 40) diz: "uma verdadeira crise de adaptao".
33   P. E. Leveen, 1971, p. 75.
34   D. Eltis, 1978.
35   C. Lloyd, 1968, apndice A; S. Daget, 1983.
A abolio do trfico de escravos                                                           93



exploraes escravagistas do Brasil e de Cuba, o que colocou o problema de sua
integrao socioeconmica36. Algumas centenas encontraram uma condio
ambgua nos estabelecimentos franceses da Guiana, do Senegal e do Gabo.
Outras adquiriram uma real existncia poltica, como na Libria ou em Serra
Leoa. Em Freetown, os 94.329 homens, mulheres e crianas recenseados nos
registros do Departamento dos Africanos Libertados37 deram as primeiras res-
postas positivas e originais s questes da supresso do trfico.
    Em 1808, a Coroa britnica se encarregava de Serra Leoa, para encobrir o
fracasso do estabelecimento filantrpico fundamentado vinte anos antes sobre
os critrios do abolicionismo: cristianizao, civilizao e comrcio. Em trs
fluxos de povoamento voluntrio, proveniente da Inglaterra, da Nova Esccia e
da Jamaica, 2.089 ex-escravos e fugitivos colonizaram o Nordeste da pennsula.
Estes estrangeiros no mantinham boas relaes com seus vizinhos africanos.
Os franceses devastaram suas plantaes. Alguns ambicionaram o poder pessoal.
As condies climticas e sanitrias dizimaram os colonos. De modo especial, a
companhia comercial de tutela revelou-se impotente de manter suas promessas
sobre o direito e a extenso da propriedade do solo. Em 1802, a descendncia dos
pioneiros estava reduzida a 1.406 pessoas. A funo repressiva e humanitria que
lhe foi atribuda em 1808 salvou a colnia. Em 1811, a populao era de 4.000
indivduos. Aps vinte anos de colonizao oficial, 21.000 africanos viviam
nos vilarejos das montanhas ou em Freetown. Em 1850, a cidade contava com
16.950 habitantes, o interior cerca de 40.000. Havia 89 brancos. Nesta poca,
recm-chegados inseriram-se na terceira gerao de homens livres, praticamente
autnomos.
    A primeira gerao passou pelos obstculos de uma criao total. Entre 1816
e 1823, o impulso veio do governador Charles MacCharthy, administrador-
-construtor de alma missionria. O crescimento contnuo da populao e sua
sede de criar razes levaram a melhor organizar a instalao. Sede do governo
colonial e de um vice-almirantado, centro de abastecimento da frota naval e
terra de libertao oficial pelas comisses mistas, Freetown e o interior gozaram
da injeo mais ou menos regular de subsdios. MacCharthy reorganizou os
primeiros vilarejos e criou novos, onde, adotados, os que chegavam se adap-
tavam entre irmos. s concepes europeias de comunidades-modelo mal
definidas os africanos opuseram seus valores, seu modo de vida e suas atividades
tradicionais. Na cidade, terras e construes adquiriram preo e o artesanato e

36   A. F. Corwin, 1967, p. 166; F. W. Knight, 1970, p. 29; L. Bethell, 1970, p. 380-383.
37   R. Meyer-Heiselberg, 1967; J. U. J. Asiegbu, 1969, apndice VII.
94                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



o comrcio permitiram xitos individuais. Por volta de 1828, personalidades
empreendedoras adquiriram os meios de entrar no novo tipo de economia da
costa. A colnia abriu-se ao comrcio externo em 1831. Governantes e crdi-
tos ingleses tornaram-se medocres: os prprios serra-leoneses assumiram seu
destino, mesmo mantendo-se no quadro de uma situao colonial. Nestes bal-
bucios, a contribuio ocidental, em que se inscrevia a dos missionrios, tinha
sido essencial.
    As elites sociais e polticas inglesas financiavam as igrejas e as associaes
de culto. Estas no estavam nada preparadas na experincia abolicionista e mis-
sionria. Serra Leoa tornou-se terra de treinamento. Alm da propagao do
cristianismo e da civilizao, as misses tinham que combater o trfico, especial-
mente no rio Pongo. Mas os negreiros locais, suspeitando que estes personagens
espionavam a servio do governo colonial, queimaram a Church Missionary
Society, que abandonou o territrio. Na colnia propriamente dita, onde a auto-
ridade poltica era sensvel a sua misso humanitria, os missionrios no eram
insensveis  poltica. McCarthy confiou-lhes a superintendncia das aldeias de
escravos libertos. No seio do poder administrativo, apesar das fortes rivalidades
de pessoas ou de doutrinas, a cooperao de personalidades poderosas com a
autoridade governamental produziu resultados slidos a longo prazo. Escolas
foram abertas, nas quais por intermdio do ingls que evolua para um crioulo
nacional, um sem-nmero de grupos tnicos diferentes interpenetraram-se. Se
o sincretismo religioso no se realizou, pelo menos o cristianismo, a religio
tradicional africana e o Isl coexistiam estreitamente.
    A segunda gerao resolveu as dificuldades de crescimento. Os africanos
libertos ascenderam ao poder interno, em concorrncia, e depois junto aos fun-
dadores e seus descendentes. Nos primeiros tempos, nem o entendimento nem
a fuso eram perfeitos. Os velhos tentavam impor uma clivagem social e cultu-
ral. Durante as duas primeiras dcadas de forte represso do trfico, a situao
complicou-se com a chegada anual de 2.000 pessoas. Por mais que pesassem as
perdas devidas  mortalidade, todas estas pessoas no foram integradas. Algumas
delas foram recrutadas pelo exrcito britnico. Um dcimo emigrou  fora para
a Gmbia. Um programa oficial de emigrao para as Antilhas permitia, em teo-
ria, a liberdade de deciso e garantia a repatriao. Mas, pelo dirigismo, evocava
os antigos horrores. Os africanos libertos preferiam as dificuldades da mata ou a
segurana da aldeia tradicional. Em sentido inverso, ajudados pelos missionrios,
alguns milhares retornaram a suas regies de origem, principalmente nos pases
iorubs, onde manifestaram experincia e competncia adquiridas.
A abolio do trfico de escravos                                                                           95



   Do ponto de vista econmico, no se podia esperar um "boom" espetacular.
Entretanto, desde 1827, um processo de desenvolvimento encetou-se. Ligou-se
primeiramente  produo de gneros alimentcios, sobretudo arroz; mas visava
igualmente  produo de culturas de exportao e a explorao das riquezas
locais existentes: entre as primeiras, acar, gengibre e ndigo; entre as segundas,
caf e madeiras exticas. Uma variedade local de caf tinha sido reconhecida
desde o comeo do povoamento e transformada em cultura. Em 1835, tornou-
-se um argumento econmico para reforar os meios de pr fim ao trfico em
volta do rio Nuez ou do rio Gallinnas: em Londres, em apenas dezoito meses,
uma casa de comrcio tinha recebido cerca de 65 toneladas; o que provava que
era preciso proteger a cultura e a explorao. Estabelecimentos serra-leoneses
para a exportao de madeiras exticas, em particular uma variedade de intule,
comeavam a enriquecer. L ainda, o principal interesse residia na criao de
um substituto econmico vlido para o trfico de escravos: em 1824, cinquenta
navios ocidentais carregaram, no esturio de Serra Leoa, 200.000 dlares em
madeira38. Condies favorveis conjugavam-se para criar uma riqueza (ainda
no se podia falar de um capital) no interior da colnia. Suas embarcaes
comeavam a cortar as guas da costa do Oeste africano at o golfo de Biafra.
Os navios estrangeiros encontravam, a partir de agora, no esturio, uma escala
segura para este comrcio legtimo to desejado pelos abolicionistas. Todavia,
convm no exagerar o alcance de tal "encetamento": demonstrava simplesmente
que a experincia era vivel, com um mnimo de suporte administrativo da
metrpole europeia.
   Em uma palavra, em 1853, quando o governo britnico fez dos serra-leoneses
sditos da Coroa, reconheceu implicitamente que uma formidvel mistura de
culturas fundiu-se em uma sociedade crioula vivel. Uma nao "civilizada"
construiu-se, no segundo um modelo utpico europeu, mas pelo dinamismo
de seu prprio gnio39. A evidente contribuio dos abolicionistas ingleses no
ocultou a qualidade das solues africanas.
   A experincia liberiana foi pouco diferente. No que tange ao direito, o esta-
belecimento da American Colonization Society no cabo Mesurade, em 1821,
era empreendimento privado. O governo federal dos Estados Unidos no se
envolveu, mas estabeleceu um escritrio, no colonial e temporrio, cujos agentes


38   Public records do Fourah Bay College, Freetown, e British parliamentary papers, Correspondence returns,
     frica Ocidental, 1812-1874, p. 135-146; C. Fife, 1962, ver "timber".
39   C. Fyfe, 1962; J.Peterson, 1969; J. U. J. Asiegbu, 1969; J. F. A. Ajayi, 1969, cap. 2; S. Jakobsson, 1972,
     primeira parte.
96                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



recebiam a investidura da sociedade. Confiava ao estabelecimento os africanos
libertos pelo cruzeiro, contribuindo assim para o povoamento. A criao da
Libria resultou de aspiraes filantrpicas e civilizadoras, mas tambm da
preocupao de diminuir, mesmo nos Estados Unidos, a expanso da populao
negra, considerada perigosa.
    Um punhado de colonos defendeu sua implantao contra a resistncia dos
poderes autctones. Estes discutiram tanto o contrato de cesso das terras e a
soberania, quanto  pretenso dos estrangeiros negros em reduzir a atividade
dominante do comrcio exterior local, o trfico negreiro. A esta resistncia, o
reverendo Jehudi Ashmun ops a de 450 colonos, dos quais 200 eram africanos
libertos. A ao defensiva fez durar o estabelecimento. Em 1824, recebeu o nome
de Libria, tendo por centro Monrvia. Elaborado na Amrica, um estatuto
poltico foi administrado pelo governador local, segundo seu entendimento. Aos
navios que se apresentavam, americanos ou no, Ashmun impunha o comrcio
"legtimo" do marfim, da madeira, das peles e do leo, trocados por mercadorias
ocidentais clssicas. Em 1826, o comrcio tornar-se-ia oficialmente benefici-
rio, mas pode-se duvidar disso. Em 1830, alm de 260 africanos libertos, o
estabelecimento compreendia 1.160 colonos, provenientes em sua maior parte
das plantaes sulistas, escravos emancipados por seus proprietrios para fins
propagandsticos e pioneiros. Os negros americanos nascidos livres no eram
to numerosos: chegariam mais tarde. A poltica americana da sociedade me
era ambgua: para os americanos do Norte, valorizava a vantagem evanglica
alcanada com a repatriao; para os sulistas, fazia vislumbrar uma purificao
de sua sociedade, desembaraando-se dos negros.
    Os fatores do xito eram de trs ordens. Outras sociedades de colonizao
procederam da sociedade-me e fundaram trs estabelecimentos, em Bassa
Cove, em Sino e no cabo das Palmas  este chamado Maryland na Libria,
sendo incorporado ao territrio nacional somente em 1856. A gesto continuou
autnoma, subordinando as sociedades americanas aos estabelecimentos, e no
no sentido inverso. A populao mostrou-se corajosa em um meio hostil tanto
ecologicamente quanto politicamente. As terras no eram excelentes e, alm
disso, eram trabalhadas com mtodos arcaicos. Faltavam negcios e capital, e o
trabalho livre era caro. Mas havia engenheiros que sabiam edificar construes
duradouras. As instalaes na zona costeira caaram os negreiros e fizeram
cessar o trfico. Alcanou-se o objetivo filantrpico e colonizador. O segundo
fator  o do valor individual dos dirigentes. Educados na religio e na cultura
anglo-saxnicas, bem adaptados ao meio escolhido, mas realistas, acabaram
formando um embrio de conscincia nacional. A Constituio trazida dos
A abolio do trfico de escravos                                               97



Estados Unidos por Thomas Buchanan em 1839 foi reformada para adaptar-se
ao caso particular da Libria. John B. Russwurm, governador do Maryland de
1836 a 1851, fez nascer esta terra onde o racismo no podia existir. J. J. Roberts,
governador da Libria, em 1841, e em seguida presidente de 1847 a 1856, agiu
como homem de Estado. As superestruturas estavam em condies de uma
independncia de fato.
    Uma contestao inglesa da existncia jurdica do pas acaba levando 
independncia de direito. Comerciantes e marinheiros britnicos recusaram os
atributos da soberania manifestada por Monrvia: controle da atividade eco-
nmica, taxao e bandeira nacional. O litgio de origem econmica recebeu
uma resposta da diplomacia internacional, quando os Estados Unidos deixaram
clara para a Gr-Bretanha a natureza de suas relaes com os estabelecimentos.
A Libria no foi uma colnia americana, mesmo tendo o apoio dos Estados
Unidos. O desafio do governador Roberts foi de levar os colonos a superarem
sua pusilanimidade e a provarem sua maturidade poltica. Uma simples, mas
peremptria declarao de independncia inscreveu a Libria entre os poderes
soberanos, no dia 26 de julho de 1847. Tinha nascido a primeira repblica afri-
cana, cuja Constituio, ao estabelecer os trs poderes, legislativo, executivo e
judicirio, outorgou nacionalidade unicamente aos cidados de raa negra. Em
1860, 6.000 deles eram escravos emancipados, 5.700 escravos libertados pela
marinha americana, 4.500 eram nascidos livres nos Estados Unidos e 1.000
tinham comprado sua liberdade. A Repblica tinha ainda que se firmar em seu
prprio solo, combater o sistema francs de recrutamento de "engajados livres",
defender suas fronteiras, e estender-se40. Isso, porm, j era o futuro.
    No que se refere a este perodo, parece que no se pode falar de um relativo
desenvolvimento econmico da Libria comparvel ao da Serra Leoa. O francs
douard Bout-Willaumez, comandante da esquadra de represso do trfico, pas-
sou vrias vezes ao longo da costa liberiana e ficou impressionado com a pobreza
de seus habitantes41. Este juzo de ordem econmica contrasta com o julgamento
qualitativo pronunciado na mesma poca pelo americano Horatio Bridge, segundo
o qual a Libria podia ser considerada como "o paraso do homem negro"42. Cada
uma dessas opinies vinha marcada pela personalidade do homem que a proferia:
juzos de brancos cada vez mais marcados pela mentalidade colonizadora. Con-
tudo, em termos de significado histrico, seria provavelmente irracional, e certa-

40   P. J. Staudenraus, 1961; J.-C. Nardin, 1965, p. 96-144.
41   E. Bout-Willaumez, 1846, cap. 4, p. 90-92.
42   H. Bridge, 1845, cap. 20.
98                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



mente anacrnico, apresentar as experincias da Serra Leoa e da Libria no sculo
XIX como elementos precursores dos movimentos de libertao do sculo XX.
A prpria ideia de se poderem criar novas naes africanas numa costa assolada
por duzentos e cinquenta anos de um trfico negreiro sem freios, bem como a
realizao desta ideia, constituram acontecimentos que merecem ser destacados.
    Ponto de partida de condies diferentes, as experincias da Serra Leoa e da
Libria no foram suficientes para as novas geraes abolicionistas. Opunham-
-se quanto aos mtodos e quanto s prioridades a serem adotados para desman-
telar a escravido americana ou o trfico africano. O fracasso de uma colonizao
filantrpica no Nger, patrocinada por T. F. Buxton em 1841, provocou crticas
ao insucesso abolicionista e uma denncia da falncia global da represso. Com-
bates de retaguarda, na contracorrente, pois, apesar das repugnncias oficiais,
a ideia de sociedades de colonizao avanava nos meios privados. A costa do
Norte do equador, particularmente, estava francamente aberta s inovaes.


     A proteo do novo comrcio
    Os cruzeiros martimos eram muito menos atrados pela ao repressiva
do que pela misso de proteger o comrcio "legtimo" dos nacionais. Desde
as primeiras dcadas do sculo XIX, a costa atendia as demandas americanas,
francesas e inglesas de produtos naturais da frica. Tais compras cresciam. Em
1838, o francs Bout-Willaumez, futuro governador do Senegal, precursor da
colonizao, comandou uma explorao sistemtica das possibilidades comer-
ciais entre o Senegal e o Gabo. Ainda que de fraco rendimento, o comrcio
no negreiro desenvolveu-se paralelamente  no em concorrncia  ao trfico.
A concorrncia existia entre as naes ocidentais que definiam uma reparti-
o "informal" das zonas de influncia econmica, tolerada pelos dirigentes
africanos. A Frana predominava no Norte da Serra Leoa, em alguns pontos
da Costa do Marfim e do Gabo, onde ela instalou Libreville43, no modelo de
Freetown. Americanos e europeus chegaram  costa, tolerados no que, de fato,
constitua um domnio econmico ingls. Assistia-se a alvorada das mudanas.
A modernidade que nascia por meio das revolues tecnolgicas e industriais,
na Inglaterra e na Frana, avanando sobre outras naes, criava necessidades
novas. Visto da costa, a principal foi aquela dos corpos graxos, como lubrificante


43   B. Schnapper, 1961; H. Brunschwig, 1963, especialmente o cap. 7, p. 19; E. M'Bokolo, 1981; H. Des-
     champs, 1965.
A abolio do trfico de escravos                                                99



de mquinas, matria-prima do sabo e dos meios de iluminao. O oleaginoso
africano passou a fazer parte do mercado ocidental.
    A costa tinha sempre exportado o leo de palma, mas em quantidades nfimas.
A importao da Inglaterra passou de 982 toneladas em 1814 a 21.000 toneladas
em 1844, permaneceu estvel por uma dcada e dobrou em seguida por volta de
1870. A Frana importava em mdia 4.000 toneladas anuais entre 1847 e 1856;
2.000 toneladas na dcada seguinte. Compensava com a importao mdia anual
de 8.000 toneladas de amendoim do Senegal e da Senegmbia, mais 25.000
toneladas de nozes de "toloucouna", para a fabricao do sabo de Marselha: em
1870, tudo isso representava 35 milhes de francos- ouro. O que por muito tempo
constituiu um ideal abstrato e utpico  uma alternativa ao trfico dos escravos
e um substituto do homem como valor de troca  materializou-se enfim. Ainda
restava a necessidade de criar uma produo em escala industrial: atingiu-se em
um perodo to breve quanto o que foi preciso s produes cubanas ou brasileiras
para atingir o pleno rendimento em caf e em acar. As grandes zonas produtoras
evocavam aquelas das mais altas exportaes de homens, do Daom44 aos rios do
delta do Nger e do Camares. Uma das condies fundamentais da converso
residiu na mobilizao da mo de obra nas terras de colonizao interiorana. Seu
modo de produo foi certamente escravagista, mas na ordem social e econ-
mica africana. Na verdade, o desenvolvimento real desta novidade econmica no
interrompeu imediatamente a economia institucionalizada: trfico de escravos e
de leo coexistiam. Um sistema de troca mais vasto irradiava para o interior. Na
costa, alis, os agentes habituais do comrcio ocidental sempre detiveram os meios
comerciais. Sabendo comprar, repartiram o crdito, expandiram os instrumentos
de pagamento clssicos introduziram a moeda metlica. A ampliao do nmero
de concorrente na atividade econmica acarretou deslocamentos forados, sola-
pando os equilbrios internos45. A mudana econmica foi acelerada por outros
fatores desnaturantes, religiosos e culturais, raramente muito distanciados do pol-
tico, mas que contriburam para o desaparecimento do trfico.
    Um pequeno nmero de homens e mulheres das misses catlicas e protes-
tantes se tornaram agentes importantes da penetrao ocidental. No Senegal,
prefeitura apostlica que sobreviveu aps a reocupao francesa de 1817, a madre
Javouhey definiu a funo primeira do apostolado: formar um clero africano.
A educao dispensada aos filhos dos cristos e a alguns africanos no cristos
fracassou diante da escola cornica. O Islamismo cresceu ao longo do sculo.

44   C. Coquery-Vidrovitch, 1971.
45   K. O. Dike, 1956; K. K. Nair, 1972, cap. 2.
100                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Em 1844, educado na experincia liberiana, Monsenhor Bessieux instalou no
Gabo a misso do Sagrado Corao de Maria. Qualificando as crenas locais
de "ridculas invenes", lutou, batizou, porm ensinou pouco, mais motivado
pela converso que pelo convertido. O xito ficou para a misso americana do
reverendo Wilson. Em Dakar, na Repblica Lebu, os laos pessoais e o respeito 
cultura  aplicao do lema "ser negro com os negros"46  no fizeram esquecer a
espiritualidade inadequada da misso que a separou do mundo real. Desprovido
de solues prticas, o missionrio tinha conscincia de sua pequenez face ao
islamismo fortemente africanizado e difundido. Buscou a formao de elites,
mesmo que fosse ao desarraig-los e alien-los de sua cultura. Em Grand-
-Bassam, a autoridade africana recusou a misso. Em Uid, o vicariato apostlico
confiado s Misses africanas de Lyon foi erguido em 1868. Sua primeira escola
funcionou em 1873, com a de Porto Novo, j sob tutela francesa.
    As ideias de Buxton fermentaram atravs das misses protestantes. In loco, o
sucesso da Serra Leoa e dos africanos libertados forneceu-lhes propagandistas
eficazes. Alguns eram profissionais, como Samuel Ajayi Crowther, que, captu-
rado aos quinze anos e libertado, se tornaria pastor, bispo e construtor de nao.
Outros praticavam o comrcio legtimo. A maioria, migrando para suas regies
de origem, guiava os missionrios, abrindo-lhes o caminho. Estes se instalaram
no litoral, entre a Costa do Ouro e o Camares, exceto no reino do Benin,
no seio de naes em que o sentimento religioso era forte, mas politicamente
sujeitas a "crises de ajuste". Chegaram a Badagri, em 1842, a Uid em 1843 e
em Calabar em 1845. No interior o posto de vanguarda era a grande cidade de
Abeokuta, no novo pas Egba.
    Ao contrrio das misses catlicas, as misses protestantes buscavam a influn-
cia temporal. A cristianizao era concebida como um todo, que inclua educao e
cultura, funo socioeconmica e opo poltica. Expandiu o ingls falado e escrito
e o clculo em meios preparados h muito tempo. As tcnicas de arquitetura, a
imprensa e a medicina foram ensinadas por especialistas vindos da Serra Leoa.
O saber pertencia ao povo que frequentava a misso. O benefcio da participao
criou privilegiados. Verificaram os modelos inculcados na experincia superior dos
chefes locais, que no foram unnimes em aprov-los. Alguns, entretanto, exibiam
um ocidentalismo de fachada atravs da vestimenta, da habitao, do alimento, da
bebida e do modo de vida. O objetivo sociopoltico era criar uma classe mdia,
para destacar uma elite. Formada nos esquemas ocidentais, esta classe deveria


46    Apud P. Brasseur, 1975a, p. 264, nota 22; 1975b, p. 415-446.
A abolio do trfico de escravos                                              101



normalizar e estender a dupla corrente do comrcio, advinda da costa ou a ela
destinada. A difuso da civilizao seria um resultado anexo, que o comrcio de
leo por si, limitado s transaes costeiras, foi incapaz de atingir47.
    Desse modo, bem ancoradas no mundo, as misses protestantes assumiram
um papel reformador que compreendia a ingerncia nas estratgias polticas e
militares. Os missionrios de Abeokuta pediram  Inglaterra o estabelecimento
de uma estrada at o mar, a fim de acelerar as trocas  e a entrega do material
blico. Apelaram para a assistncia tcnica dos militares ingleses contra os dao-
meanos. Em Calabar, sua influncia nas cidades-Estados obteve, por contrato,
o fim das tradies locais. Poderosas, as misses no condenaram a intromisso
concorrente da administrao ocidental, que elas contrabalanaram aliando-se
ou opondo-se ao comrcio estabelecido. Por volta de 1850, um movimento
irreversvel engajou misses, comrcio e administrao poltica em um processo
de protocolonizao efetiva. A introduo de cnsules com fins expansionistas
avanou pari passu com os bloqueios militares e os protetorados. Para a diplo-
macia internacional, os pretextos eram sempre a supresso radical e definitiva do
trfico de escravos. Os meios humanitrios tornaram-se instrumentos de poder
econmico, militar e poltico.


     Concluso
    Podemos j estabelecer uma espcie de cronologia do desaparecimento do
trfico, tendo em mente que, em nenhum lugar, este desaparecimento foi abso-
lutamente definitivo durante este perodo.
    O trfico cessara desde 1824 no Senegal e em Gore, quartel general da
base naval francesa antiescravagista. A influncia e os progressos em Serra Leoa
tornavam-se benficos nesta regio por volta de 1830; entretanto, operaes
espordicas continuavam nos rios Pongo e Nuez at os anos de 1866-1867.
Em 1848-1850, a Libria independente pedia o concurso de navios de guerra
franceses contra os negreiros internacionais, e recusava-se a alimentar por muito
tempo o sistema de trfico dissimulado sob o nome de engajamentos livres. A
Costa do Marfim e a Costa do Ouro pouco tinham sofrido com o trfico ilegal
durante todo este perodo; pesquisadores marfinenses mostraram que, se subsis-
tiam correntes de trfico, elas no se destinavam aos navios da costa, mas  satis-
fao das necessidades domsticas regionais ou inter-regionais  os documentos

47   J. F. A. Ajayi, 1969; K. K. Nair, 1972.
102                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 4.2 Um grupo de mulheres oromas a bordo do HMS Daphne depois de sua libertao de um
veleiro leste-africano. [Fonte: G. L. Sullivan, Dhow chasing in Zanzibar waters, 1873, Frank Cass Publishers,
London. Reproduzido com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de
Cambridge.  Frank Cass Publishers.]




figura 4.3 Escravos libertados no domnio da Misso das universidades em Mbweni, perto de Zanzibar 
pagamento dos salrios. [Fonte: S. Miers, Britain and the ending of the slave trade, 1975, Londres, Longman.
 The Illustrated London News Picture Library.]
A abolio do trfico de escravos                                            103



de arquivo confirmam esta situao. Mais a Leste, de Uid a Lagos, a situao
era mais confusa. Operaes de trfico, ou operaes de engajamentos "livres",
ainda aconteciam nos anos 1853-1855, e at 1860. Em certos casos, os africanos
eram embarcados em navios a vapor de grande capacidade  cita-se o caso do
Nordaqui que deportou 1.600 escravos, o que nunca havia acontecido. Entre-
tanto, os esforos diplomticos e as polticas coercitivas da Frana e da Ingla-
terra levaram a uma forte restrio ao trfico de escravos. Do Benin ao Gabo
prevalecia uma poltica de tratados e de ocupao do solo, cuja consequncia
era entravar seriamente o escoamento de escravos. O tratado anglo-portugus
de 1842, inaugurando finalmente a visita de navios negreiros ao Sul do equador,
tinha efeitos anlogos do Congo at a colnia portuguesa de Angola. Contudo,
no foi seno gradualmente, em um ritmo diferente de acordo com o setor da
costa, que o trfico desapareceu quase por completo entre 1860 e 1870.
    Em 1867, o almirante francs Fleuriot de Langle, em misso de inspeo, se
disse positivamente impressionado pelo que tinha visto, "com algumas poucas
excees". Alis, sua constatao destacou a gravidade da renovao do trfico
na costa oriental da frica. Nos anos 1860-1870, entre 30.000 e 35.000 escra-
vos chegaram aos portos que dependiam de Zanzibar; parte foi retida a para
trabalhar nas plantaes de cravos-da-ndia. O restante foi expedido para a
Somlia e para Oman, que recebia, por volta de 1870, 13.000 escravos por ano,
parte dos quais partia rumo ao Golfo Prsico e  Prsia,  Mesopotmia ou ao
Beluquisto e s ndias48. Em 1873, um tratado entre a Inglaterra e o sulto
de Zanzibar introduziu o direito de visita, com a possibilidade de captura dos
veleiros rabes. Mas isto no teria grande efeito  no mais do que teria tido o
tratado anglo-portugus de 1842 sobre o comrcio de escravos de Moambique
para Comores e Madagascar. Nestas costas imensas, nestes vastos territrios, o
trfico de escravos no desapareceu de fato, seno com o estabelecimento das
administraes coloniais, diz Franois Renault49, isto , muito depois do fim
do trfico atlntico. Pode-se provavelmente explicar este atraso pelo fato de o
mundo abolicionista ocidental no haver sido realmente sensibilizado com os
efeitos do trfico rabe, antes que Livingstone os descobrisse ao longo de suas
exploraes.  preciso acrescentar a isso o tempo necessrio para as tomadas
de conscincia.
    Assim, antinmica aos tpicos nacionais ou privados dos escravagistas oci-
dentais, a teoria abolicionista introduziu os processos mentais de identificao

48   F. Renault e S. Daget, 1980; R. Coupland, 1939.
49   F. Renault e S. Daget, 1980, p.43-69.
104                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



do escravo africano com o homem e da abertura da frica ao mundo. Atingiu
seus objetivos por volta de 1870: salvo excees, o trfico atlntico terminou.
Ora, este resultado no era obra unilateral de ocidentais por muito tempo refra-
trios e ainda pouco convencidos do interesse dos meios postos a servio da
moral universal. De outra maneira, o esforo foi absolutamente o mesmo para
os africanos do interior e da costa. Em um difcil contexto interior, eles assumi-
ram, ao mesmo tempo, a resistncia  desintegrao econmica e a integrao
rpida  inovao. A resposta africana  extremamente rpida   hiptese
abolicionista resultou de uma extraordinria faculdade de adaptao. Tempora-
riamente, o produto foi to positivo quanto o das decises ocidentais. Quanto 
nova abordagem dos ocidentais, procedeu da incapacidade de o homem branco
supor a existncia de outros valores fora os seus. Seu interesse pela civilizao
africana foi o de um cientista por uma amostra de laboratrio. Sua boa consci-
ncia, consequncia de um sculo de combate abolicionista, levou o Ocidente a
impor seus valores  inclusive  fora, se preciso fosse. No foi de todo negativo.
Mudanas se verificaram, apareceram rachaduras na estrutura, de modo que esta
se deslocou ou se afundou, abrindo o caminho do futuro.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                       105



                                       CAPTULO 5


        O Mfecane e a emergncia de novos
               Estados africanos
                                      Leonard D. Ngcongco




   Sabemos como sociedades de migrantes de lngua banta, criadores de gado e
cultivadores, familiarizados com o trabalho do ferro e seus usos, se estabeleceram
em diversas regies da frica Austral, ao Sul do Limpopo, entre a metade e o
final do primeiro milnio da era crist1. A penetrao das regies situadas ao
Sul do Limpopo pelo ramo sotho-tswana dos bantos do Sul no ultrapassou,
em geral, os limites do planalto, estendendo-se a Oeste do eixo formado pelos
montes Lebombo e pela cordilheira do Drakensberg; por sua vez, os grupos
de lngua nguni, estabeleceram-se na zona estreita entre essas montanhas e o
Oceano ndico.
   No incio do sculo XIX, nesta regio do Sul do Limpopo, havia dez a
quinze sculos que essas comunidades de lngua banta estavam desenvolvendo
uma prspera civilizao da Idade do Ferro, caracterizada por conglomerados de
pequenos Estados organizados sob a dominao poltica de linhagens e dinastias
reais. De modo geral, tais Estados eram povoados por camponeses que sabiam
fundir e utilizar o ferro, tambm eram produtores de gneros agrcolas (sobre-
tudo de sorgo e milhete), sendo poucos os caadores, e, alm disso, praticavam
o escambo e o comrcio  longa distncia2.


1   D. W. Phillipson, 1969; R. R. Inskeep, 1969, p. 31-39.
2   M. Wilson, 1969a; R. J. Mason, 1973; L. D. Ngcongco, 1982b.
106                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Os primeiros decnios do sculo XIX foram marcados por uma poderosa
revoluo social e poltica, que, simultaneamente, teve por efeito a destruio e a
reedificao da organizao dos Estados na frica Austral de lngua banta, bem
como a transformao das condies de existncias de numerosas comunidades
nos territrios que vo dos confins da Zululndia (Natal) at o Sul da Tanznia.
Esta revoluo, denominada Mfecane (esmagamento) na lngua nguni, tambm
 conhecida sob o nome de Difaqane (golpe de martelo) em sotho-tswana.
    Durante o Mfecane, vrios Estados antigos foram vencidos, conquistados e
anexados a outros. Alguns Estados foram arrancados de seus territrios tradi-
cionais e forados a se implantar alhures. Muitos se encontraram, ento, empo-
brecidos e enfraquecidos. Em certos casos, as antigas dinastias reinantes foram
suplantadas, ao passo que, em outros lugares, as populaes de aldeias inteiras
eram aniquiladas ou capturadas. Entretanto, essa mesma revoluo assistiu ao
avano de vastos reinos centralizados em diversas partes da frica Austral. Ela
tambm assistiu ao nascimento de "imprios" e de reinos servidos por organi-
zaes militares e burocrticas de um novo tipo3.
    Por outro lado, o Mfecane teve como efeito a despovoao de considerveis
pores do territrio da frica Austral, o que facilitou, em seguida, a apropriao
da terra africana pelas comunidades migrantes de colonos brancos. No somente
estes colonos beres colocaram as mos nas partes mais ricas do solo africano,
mas tambm, lanaram-se imediatamente em campanhas sistemticas de roubos
de rebanhos e organizaram a escravido dos africanos recorrendo quilo que, por
eufemismo, chamavam de "aprendizagem".
    De um outro ponto de vista, o Mfecane teve repercusses profundas no inte-
rior dos prprios Estados africanos, estimulou o esprito inventivo dos chefes
polticos africanos e os obrigou a se adaptarem, tanto no plano da ttica militar
quanto no que concerne  organizao poltica e  administrao dos negcios.
Sob alguns aspectos, o Mfecane pode incontestavelmente ser considerado um
acontecimento desastroso, mas, por outro lado, podemos ver nele um conjunto
de circunstncias cujo carter positivo e criador se faria sentir por geraes.
Certos Estados aos quais ele deu nascimento sobreviveram at nossos dias e
agora fazem parte da comunidade internacional. Se considerarmos a amplitude
do fenmeno, o nmero de reinos e a diversidade dos povos cujo futuro foi
transformado pelos redemoinhos da grande onda do Mfecane, e se percebermos
bem o carter fundamental e a qualidade das mudanas que ele produziu no


3     T. R. H. Davenport, 1978, p. 56; D. Denoon, 1973, p. 23-24, 32-33; J. D. Omer-Cooper, 1966, cap. 12.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                          107



modo de vida e de organizao da maioria dos grupos tocados por ele, somos
obrigados a admitir que o Mfecane, at uma poca recente, foi um aconteci-
mento negligenciado pela historiografia da frica Austral; e diremos com o J.
D. Omer-Cooper que, "em comparao, o Grand Trek pode ser considerado
como peripcia"4.
    O presente captulo analisa a natureza da revoluo surgida entre os nguni
e tornada clebre pelas campanhas militares e pelas transformaes sociopolti-
cas conduzidas pelo rei zulu Shaka. Essas, de diversas maneiras, foram levadas
adiante por alguns dos antigos generais do rei e por outros contemporneos, em
um vasto territrio do Sul e, at mesmo, do Leste africano. A fim de compreen-
der bem a trama desta grande revoluo, primeiramente,  essencial examinar de
perto as caractersticas fsicas do meio no Norte da regio nguni; observar como
as sociedades adaptaram-se s mudanas que l intervieram, como suas prprias
atividades contribuiu para transformar o meio em quem viveram, meio esse que,
por sua vez, estimulou a reao delas. Importa tambm observar a maneira com
que os chefes de certos Estados nguni garantiram o domnio dos processos de
produo e de reproduo, a fim de poderem dispor do excedente de foras vivas,
indispensvel ao poder do rei e  independncia do Estado.


    Os pases e os mtodos de cultivo dos nguni do Norte
    Aps sculos de implantao e de prtica agrcola, os cultivadores das comu-
nidades nguni do Norte estavam bem adaptados ao meio fsico das regies nas
quais haviam se estabelecido.
    O territrio ocupado pelos nguni do Norte (ou protozulu) pode ser aproxi-
mativamente definido como a regio delimitada por trs cursos de gua: a Norte,
o Pongolo; a Sul, o Tugela, e a Oeste, o vale do Bfalo (Mzinyathi)5. Trata-se
de uma regio de relevo elevado, na qual vrios cursos de gua entalharam pro-
fundos vales. Os principais rios so o Tugela, o Mhlatuze, o Mfolozi, o Mkuze
e o Pongolo, que, junto com seus afluentes, penetram nas terras altas. Entre os
leitos destes cursos de gua, a elevao do terreno atinge frequentemente 1.000
metros acima do vale6. Tais vales fluviais penetram profundamente rumo ao
Oeste, no interior do pas.


4   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 4.
5   J. Guy, 1980.
6   Ibid.
108                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    As variaes de altitude, em razo deste relevo cortado, fazem com que as
precipitaes e as temperaturas variem consideravelmente de um lugar a outro.
Da mesma forma, a vegetao  muito diversa; isso ocasiona o surgimento de
"uma certa quantidade de tipos de vegetao que se imbricam uns nos outros
pela extenso do pas"7. A chegada e o estabelecimento de cultivadores e de
criadores na regio provocaram efeitos na vegetao natural.
    Em uma obra tratando dos efeitos da instalao do homem no meio fsico
em toda a frica Austral, o ecologista J. P. H. Acocks indica que a vegetao
da maior parte do territrio compreendida entre o Drakensberg e o Oceano
ndico, em outros tempos, era provavelmente constituda de florestas e de matas,
ao passo que as terras baixas dos vales eram cobertas pela savana8. Desde os
primeiros tempos de sua instalao na regio, os camponeses nguni protozulu,
agindo com abates e queimadas, devastaram a floresta e modificaram conside-
ravelmente as formas naturais da vegetao. Durante um sculo e meio, o fogo,
a enxada o machado dos camponeses nguni empurraram os limites da floresta
at os cumes das altas cadeias de montanhas, e a selva apenas se manteve nos
declives mais midos que bordejavam os cursos de gua9. Estes mtodos permi-
tiram aos agricultores aumentar, para benefcio prprio, as superfcies cobertas
pela savana e por outras vegetaes do mesmo tipo.
    J. Guy afirma que, no local onde a mata foi destruda, gramneas se propaga-
ram a partir do fundo dos vales irrigados, ao passo que a diminuio dos setores
arborizados aps as queimadas regulares favorecia a cobertura ervosa10. Sculos
de manipulao da vegetao finalmente produziram um conjunto complexo de
modificaes que tenderam a entrelaamentos de pastos de tipo pastos doces
(sourveld) e pastos amargos (weetveld), cujo desenho  determinado principal-
mente pelo volume das precipitaes e a topografia locais11.
    Nas zonas de fortes precipitaes a erva tende a ser do tipo sourveld. Trata-
-se de uma variedade cujo valor nutritivo e sabor so mais elevados, logo aps
as primeiras chuvas de primavera e no incio do vero. Mas, essas qualidades
vo decrescendo  medida que a erva amadurece. Portanto, o sourveld constitui
geralmente bons pastos aproximadamente por quatro meses, aps o que comea
a perder tanto o sabor quanto o valor nutritivo. O sweetveld  mais caracters-


7     Ibid.
8     J. P. H. Acocks, 1953.
9     J. Guy, 1977.
10    Ibid., p. 4.
11    Ibid.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                           109



tico das zonas secas, nas quais encontramo-lo geralmente associado a rvores
dispersas em savanas, onde forma o tapete vegetal. Ele  esparso e frgil, porm
conserva suas qualidades nutritivas e seu sabor durante toda a estao seca. Logo,
o sweetveld desempenha um papel particularmente importante como pasto de
inverno. Entre os dois extremos do sweetveld e do sourveld, encontramos zonas
mistas onde se misturam dois tipos de vegetao; elas podem servir de pastagem,
de seis a oito meses por ano12.
    Outras regies da frica Austral, tais como aquelas habitadas pelas comu-
nidades sotho-tswana, no atual Highveld do Transvaal, tambm eram cobertas
de grandes extenses de sweetveld. Mas faltava-lhes uma rede de cursos de gua
como aquela dos pases nguni do Norte, graas a qual as partes pouco irrigadas
da regio apresentavam um carter paradoxal, pois eram secas e, entretanto,
amplamente ricas em gua13. Ademais, as zonas de sweetveld, que formam os
pastos do Highveld, eram frequentemente infestadas de moscas ts-ts, propa-
gando a doena do sono entre os homens e os animais.
     preciso acrescentar que os camponeses que viviam no Highveld nos tem-
pos pr-coloniais no se beneficiavam com uma alternncia de sweetveld e de
sourveld, como a que caracterizava os declives montanhosos da regio nguni do
Norte. Os modos de ocupao dos solos adotados pelos sotho-tswana, com suas
aldeias separadas, suas terras arveis e seus currais, eram bem adaptados  exis-
tncia de espaos disponveis, muito mais vastos e mais abertos do que aqueles
dos quais dispunham os nguni do Norte. Parece que as sociedades sotho-tswana,
embora formadas por criadores e cultivadores, no tiveram que suportar o peso
de populaes de densidades comparveis quelas que acabaram tornando-se
um fardo para os destinos dos grandes Estados nguni do Norte. A estrutura de
habitat agrupado, prpria de tais sociedades,  contrastando com o habitat dis-
perso dos nguni , deveu-se mais  aglomerao de comunidades inteiras perto
de fontes de guas raras e esparsas do que a uma presso demogrfica.
    Enquanto pudesse ser mantido um delicado equilbrio entre o crescimento
da populao e dos rebanhos, de um lado, e as possibilidades de acessos aos
diversos tipos de pastos, de outro, a estabilidade da regio parece no ter sido
realmente ameaada. Porm, por volta do final do sculo XVIII, a capacidade
dos homens de aumentar os recursos em terras de cultura e de pasto atingiu um
limite. O inchao da populao, acrescido sensivelmente pela adoo do milho


12   J. Guy, 1980, p. 7.
13   Ibid.
110                                                           frica do sculo XIX  dcada de 1880



como uma das principais culturas da regio, sem dvida exerceu uma enorme
presso nos acessos  terra e aos recursos conexos14.
    Embora a estreiteza do corredor compreendido entre o escarpamento do
Drakensberg e o Oceano ndico tivesse sempre limitado estritamente as possi-
bilidades de expanso das comunidades que viviam nesse territrio, as chefias
nguni do Norte gozavam de um certo nmero de vantagens prprias da regio.
Durante sculos, essas populaes tiraram proveito de um meio fsico favorvel,
aprendendo a explor-lo com habilidade. Na primavera e no incio do vero, os
pastores nguni podiam conduzir seus rebanhos para pastar no sourveld das terras
altas e, a partir da metade do vero, eles desciam com seus animais at o fundo
dos vales atapetados de ervas tenras. A diversidade do clima tambm permitiu
a tais agricultores escolher as terras mais apropriadas  cultura do sorgo, do
milhete ou do milho. Hoje sabemos que o milho foi introduzido na regio no
sculo XVIII, e que rapidamente ele substituiu outras culturas de subsistncia
tradicionais como alimento de base. Em uma zona de chuvas abundantes, o
surgimento do milho como gnero alimentcio de base talvez tenha estimulado
o crescimento natural da populao e, por consequncia, aumentado a presso
sobre as terras. Sem dvida, isso contribuiu com o aumento da instabilidade e
da violncia quando os inmeros pequenos Estados da regio comearam real-
mente a rivalizar e a lutar pela posse de recursos em vias de diminuio.
    Tambm  provvel que esta evoluo das condies de existncia, no territrio
povoado pelos nguni do Norte, tenha sido fortemente amplificada por uma terrvel
fome, da qual ainda se fala, sob o nome de Madlathule. Parece que essa causou
estragos entre o ltimo decnio do sculo XVIII e o primeiro do XIX15. Conta-se
que, nesses tempos difceis, o pas era percorrido por bandos de esfomeados que
pilhavam as reservas de vveres.  incerta a poca exata da fome Madlathule, mas
a situamos aproximadamente no mesmo momento em que uma outra fome caiu
sobre o pas sotho, dando lugar, diz-se, a uma onda de canibalismo.


      A estrutura da sociedade nguni do Norte
   Hoje, no h mais dvidas que os modos de cultura e de produo dos zulus
esto na origem de um aumento regular da populao dessa regio. Nada parece
indicar que, de fato, o crescimento da populao tenha sido devido a um afluxo


14    S. Marks, 1967a; M. Gluckman, 1963, p. 166.
15    J. Guy, 1980, p. 9, 15; A. T. Bryant, 1929, p. 63-88.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                                                   111



massivo de imigrantes na regio. Portanto, a populao provavelmente aumen-
tou em funo de um crescimento natural que no foi moderado por nenhuma
expanso do territrio ou de outros recursos importantes. Logo se tornou cada
vez mais difcil para as comunidades continuar as prticas ancestrais que con-
sistiam em deslocar os rebanhos de um pasto a outro, ou converter a floresta em
savana; por isso, algumas comunidades decidiram se apropriar, pela fora, das
terras e dos pastos anteriormente detidos por outras.
    Certos chefes destes pequenos Estados tinham comeado a adotar estra-
tgias visando a lhes assegurar o domnio da produo e da reproduo. Para
compreender bem tal processo,  preciso considerar atentamente a estrutura da
sociedade nguni da poca pr-colonial. A sociedade estava dividida em milhares
de exploraes familiares, cada uma sob a autoridade patriarcal de um chefe
de famlia. Geralmente, cada chefe tinha duas ou trs mulheres, segundo sua
classe social. Cada uma das mulheres vivia com seus filhos em sua prpria
casa e produzia, com suas crianas, o alimento necessrio para sua subsistncia.
Habitualmente, havia uma diviso do trabalho segundo o sexo; os homens se
ocupavam da produo animal e caavam, enquanto as mulheres se encarrega-
vam sobretudo das culturas.
    Os estabelecimentos reais  podia existir vrios deles em cada Estado  eram
organizados diferentemente. Alm das atividades normais de produo que
empregavam os membros de cada casa, bem como seus parentes e seus criados,
os diferentes estabelecimentos reais comportavam tambm acantonamentos
militares, sobretudo a partir do fim do sculo XVIII. Os regimentos de homens
recrutados em diferentes regies do pas tinham a seus quartis e trabalhavam a
servio do rei, inclusive na agricultura. As mulheres arregimentadas no tinham
acantonamentos nessas aldeias militares, mas residiam na casa de seus pais. At
que o rei lhes desse permisso, nem os homens nem as mulheres arregimentados
tinham o direito de se casar, podendo ficar at dez anos em um regimento antes
de serem liberados para o casamento. Notadamente, essa regra tinha por efeito
permitir aos reis dos Estados nguni do Norte agir, simultaneamente, sobre os
ndices de produo e de reproduo.
    No se sabe muito bem em qual poca esse sistema entrou em vigor entre os
nguni do Norte. Atualmente, a origem destas mudanas  situada mais frequen-
temente sob o reinado de Dingiswayo, rei dos mthethwa, e o aperfeioamento
delas situa-se sob o reinado de Shaka, rei dos zulus16. Durante sculos, antes

16   Ver S. Marks, 1967b, p. 532, no que concerne  tese segundo a qual o processo de edificao do Estado
     comeou mais cedo entre os hlubi, os ngwane e os nolwande.
112                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



de essas mutaes serem instauradas, tendia-se a tratar a iniciao como uma
questo coletiva e poltica mais entre os sotho-tswana do que entre os nguni.
 provvel que essa mudana tenha sido ligada a importantes transformaes
na vida socioeconmica dos nguni. Tambm  possvel que, na poca em que
comeou a expanso dos Estados maiores, esses tenham incorporado enclaves de
populaes sotho, e que os chefes nguni tenham emprestado dessas populaes
certas prticas coletivas ligadas  iniciao, adaptando-as para fins de dominao
poltica.
    Se examinarmos atentamente os fatores ecolgicos junto  natureza da orga-
nizao social e da produo entre os nguni do Norte, seremos levados a concluir
que, a partir do ltimo quarto do sculo XVIII e durante os primeiros decnios
do XIX, a exploso demogrfica atiou a luta pela posse de recursos em vias
de diminuio, produto dos esforos de vrias geraes. Max Gluckman foi o
primeiro a ter claramente analisado o fator que constitui a exploso demogr-
fica; e vrios outros o tem seguido17. Hoje, parece indiscutvel que o aumento
populacional e seu cortejo de penrias, notadamente de terras, muito contribu-
ram com o clima de violncia que se estabeleceu no Norte do pas nguni nos
primeiros anos do sculo XIX.
    Outras explicaes foram dadas a respeito da revoluo conhecida sob os
nomes de Mfecane ou de Difaqane. Algumas parecem muito sustentveis e
mesmo plausveis aos olhos do leitor crtico: outras, pelo contrrio, parecem bem
arriscadas e, manifestamente, brotadas da imaginao. Segundo uma dessas teses,
por exemplo, a reorganizao interna e as reformas militares que estruturaram
as fundaes dos grandes Estados nacionais, como aqueles dos mthethwa e dos
zulus, teriam ocorrido pelo fato de os fundadores  em particular, Dingiswayo
 terem deliberadamente imitado os europeus, que eles teriam observado ao
longo das peregrinaes que precederam sua ascenso ao poder18. Essa assero,
grosseiramente racista, no merece outro comentrio alm do julgamento de
um crtico que atribuiu aos propagadores deste tipo de ideias a vontade de "se
enfeitar com os reflexos da glria das vitrias zulu"19; impresso confirmada, diz


17    M. Gluckman, 1963, p. 166; J. D. Omer-Cooper, 1966, cap. 1 e 2 passim.
18 H. Fynn, em um artigo redigido aproximadamente em 1939, emitiu primeiro a discutvel opinio,
   segundo a qual as inovaes de Dingiswayo foram provavelmente o fruto de sua associao com os
   brancos e, particularmente, com um certo Dr. Cowan (1888, vol. I, p. 62-63). Mais tarde, A. T. Bryant
   (1929, p. 94) destacou essa hiptese sem fundamento em termos, lembrando a "hiptese camtica", hoje
   totalmente desacreditada. Tais autores deram o tom a toda uma linha de mulos pouco escrupulosos que
   retomaram, por conta prpria, esta ideia falsa, como se se tratasse de um fato estabelecido.
19 D. Denoon, 1973, p. 19.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                          113



ele, pelo fato de tais declaraes no se apoiarem em nenhuma espcie de prova
material. Ademais, observamos que no h praticamente nenhum ponto em
comum entre os Estados organizados por Dingiswayo e Shaka e os territrios
da regio que, na mesma poca, encontravam-se sob administrao europeia.
    Um outro fator sugerido para explicar as origens do Mfecane foi o impulso
para o Leste, encetado de forma progressiva, mas determinado pelos imigrantes
beres do sculo XVIII, em busca de terras para colonizar (trekboers) a partir do
Oeste da regio do Cabo, e a barreira imposta em consequncia do avano, em
sentido contrrio, dos pastores nguni do Sul. Segundo os defensores dessa tese,
tal corrente migratria de criadores beres criou as condies para uma carncia
de terras, bloqueando a via de expanso natural dos pastores nguni do Sul; nesse
momento, engendrou-se uma crise que repercutiu at os nguni do Norte20. No
h dvida que a presso demogrfica desempenhou um papel importante entre
os nguni em geral, e, nesse sentido, o argumento  convincente; no obstante,
ligando-o  migrao dos trekboers sados do Cabo rumo ao Leste, no  expli-
cado por que a revoluo social desenrolada por estas presses demogrficas no
ocorreu entre os Estados xhosa ou nguni do Sul, que estavam diretamente blo-
queados pelo avano dos trekboers. Formulada nestes termos, a questo da pres-
so demogrfica suscita uma outra. Seria preciso provar de forma convincente
que, at o impulso ber ter atingido o rio Great Fish, por volta da metade do
sculo XVIII, o problema da superpopulao entre os nguni do Norte (aqueles
que estavam fixados no Norte do Tugela) podia ser, ou foi, frequentemente resol-
vido com a partida de grupos que migraram em busca de uma terra acolhedora,
em direo ao Sul, ao atravessarem as zonas povoadas por comunidades nguni
de lngua xhosa e se fixarem entre esses ou em territrios situados mais ao Sul.
Nesse sentido, a barreira fsica do Drakensberg teria constitudo um obstculo
menos dissuasivo do que a massa densamente povoada das comunidades de
lngua xhosa, estabelecidas no Sul da regio hoje chamada Natal21.
    Outra explicao interessante e importante: os grandes Estados das regies
nguni do Norte queriam garantir o domnio do comrcio  sobretudo o do
marfim , com o porto sob o controle portugus da baa de Delagoa, na costa
leste. A hiptese foi colocada pela primeira vez por Mnica Wilson e recebeu
o apoio de Allan Smith22. Bem antes do final do sculo XVIII, Estados, como
os dos ndwadwe-hlubi e dos ngwane, participavam do comrcio com os por-

20   R. Oliver e J. D. Fage, 1962, p. 163.
21   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 169.
22   M. Wilson, 1958, p.172; A. K. Smith, 1969.
114                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880



tugueses, sobretudo atravs de intermedirios tsonga. Quando de sua ascenso
ao trono dos mthethwa, Dingiswayo criou, de fato, uma rota do comrcio de
marfim com a baa de Delagoa, conquistando, nesse momento, vrios cls para
abrir o acesso ao porto do Oceano ndico23. Dingiswayo teria sido imitado por
Zwide e Sobhuza, que tambm tentaram uma abertura em toda a extenso do
Pongolo, a fim de estabelecerem uma ligao comercial com a baa de Delagoa24.
Alguns historiadores colocaram em dvida a importncia do fator comercial na
condio de estimulador da expanso dos Estados, mas o debate continua em
aberto.
   Em todo caso,  difcil levar muito a srio as explicaes fundadas basica-
mente na personalidade ou nas qualidades individuais dos chefes da revoluo.
 bem mais instrutivo tentar compreender porque chefes como Dingiswayo,
Shaka, Mzilikazi e outros subiram ao poder e brilharam na mesma poca e na
mesma grande regio. Uma reflexo deste tipo pode nos ajudar a evitar mitificar
o papel de um ou outro dos principais atores desta grande tragdia humana e
a ver neles, de forma mais razovel, o produto de um meio socioeconmico
particular.
   Portanto, por volta do final do sculo XVIII e, sobretudo, durante os pri-
meiros anos do XIX, um conjunto de fatores, centrados principalmente na falta
de terras cada vez mais sensvel em razo do crescimento demogrfico, esteve
na origem de uma agitao que tendeu, mais tarde, a uma exploso de violncia
na maioria dos Estados nguni do Norte. Mudanas revolucionrias intervieram
progressivamente no tecido social e cultural de sociedades inteiras. Sob a pres-
so da guerra que perturbava as condies de vida em toda a regio, os Estados
foram obrigados, um aps o outro, a modificar ou abandonar prticas consa-
gradas pelo tempo, tal como a lida com rebanhos, baseada em um emprstimo,
ou cerimnias tradicionais, como a iniciao associada  circunciso; costumes
cuja perpetuao arriscava comprometer a capacidade de reagir com eficcia s
exigncias de uma situao em rpida evoluo. Por exemplo, a iniciao dos
meninos, que comportava a circunciso e perodos de vida reclusa, podendo
chegar at seis meses, arriscava, nesses momentos crticos, impedir a conscrio
de centenas de jovens para o servio militar. Assim, as mudanas e as adaptaes
trazidas aos costumes sociais e s prticas tradicionais conduziram, na ordem
militar, a inovaes tcnicas e a uma modernizao da organizao. Dentre os


23    A. T. Bryant, 1929, p. 97; A. K. Smith, 1969, p. 182-183.
24    A. T. Bryant, 1929; A. K. Smith, 1969, p. 185.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                         115



maiores inovadores e modernizadores deste perodo,  preciso citar Zwide, rei
dos ndwandwe; Dingiswayo, rei dos mthethwa, e Shaka, rei dos zulus25.
    Em virtude das guerras conduzidas por estes numerosos Estados nguni,
das migraes que elas provocaram, das anexaes e das incorporaes diver-
sas que resultaram delas, trs poderosos grupos se destacariam, dominando
assim a regio. O primeiro, o dos ngwane-dlamini (chamados, em seguida, de
swazi) comandados por Sobhuza, estava estabelecido nas margens do Pongolo.
O Pongolo, o Mfolozi e o Oceano ndico delimitavam o territrio do segundo
grande grupo, a confederao ndwandwe, a qual reinava o rei Zwide. A Oeste
dessa ltima encontravam-se chefias mais modestas como a dos khumalo. O
terceiro grande grupo, a confederao mthethwa, colocada sob a autoridade de
Dingiswayo, ocupava aproximadamente, mais ao Sul, o tringulo compreendido
entre o Oceano ndico e os cursos inferiores do Mfolozi e do Mhlatuze26.
    Os chefes desses trs grandes Estados, na verdade, eram monarcas supremos
que recolhiam tributo em um conglomerado de pequenos Estados, chefias e cls.
Os Estados vassalos gozavam, em geral, de uma autonomia considervel para
os assuntos da vida cotidiana, reconhecendo a autoridade suprema do suserano
nos campos to importantes quanto os rituais das primcias, as cerimnias de
iniciao, o pagamento do tributo e a conduo da guerra.
    A luta pela supremacia ops, primeiramente, os ngwane-dlamini de Sobhuza
aos ndwandwe de zwide. A disputa era pela posse das terras frteis do vale do
Pongolo, para o cultivo do milho. O Estado ndwandwe, que adquiriu muita
importncia por volta da metade do sculo XVIII, no princpio, fazia parte de
um aglomerado de chefias nguni-embo que havia emigrado para o Sul, deixando
o reino de Thembe no interior da baa de Delagoa, aproximadamente no final do
sculo XVII. Associados a outros grupos oriundos dos nguni-embo, tais como
os ngwane, os dlamini e os hlubi, eles finalmente se fixaram no vale do Pongolo
na poca em que seu chefe era Langa II, ou talvez seu predecessor, Xaba. Os
ndwandwe se estabeleceram principalmente nos contrafortes do Ema-Gudu,
que domina o Sul do vale do Pongolo. Foi a partir de seu novo domnio que os
chefes ndwandwe empreenderam a extenso de seu poder poltico, submetendo,
uma aps outra, vrias chefias de menor importncia, estabelecidas na vizi-
nhana. Estes pequenos Estados compreendiam algumas comunidades ngwane
e ntungwa do vale do Pongolo, bem como um grupo de cls khumalo sob a
autoridade de Mashobane. Foi a tambm, quando seu Estado se solidificou e

25   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 27; J. Bird, 1888, vol. I.
26   A. T. Bryant, 1929, p. 160.
116                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



prosperou, que eles tomaram o nome de ndwandwe, a fim de se distinguirem de
outros nguni-embo, dentre os quais alguns tinham se estabelecido na margem
norte do Pongolo, e outros, a Oeste da chefia ndwandwe27.
    A autoridade poltica dos soberanos ndwandwe cresceu enormemente 
medida que impunham sua suserania a um nmero crescente de pequenos Esta-
dos. Sob o reinado de Langa II e de seu filho Zwide, as fronteiras do Estado
estendiam-se ao Norte at duas margens do Pongolo e, ao Sul, at o vale do
Mfolozi Negro; a Oeste, atingiam os acessos da floresta de Ngome e, a Leste,
a baa de Santa Lcia, no Oceano ndico28. Os soberanos ndwandwe foram,
portanto, os primeiros chefes nguni a congregar um grande nmero de pequenas
chefias para constituir um grande Estado. Ao explorar habilmente os costumes e
as prticas antigas e organiz-los de forma a servirem a novos propsitos e sem
hesitar em empregar, se fosse preciso, toda a fora das armas, os chefes nwandwe
conseguiram criar, na zona de confluncia do Usutu e do Pongolo, uma pode-
rosa confederao que recolhia tributo em inmeras pequenas chefias da regio.
Zwide subiu ao trono por volta de 1790. Seu poder atingiu o apogeu aproxima-
damente na mesma poca que Dingiswayo, rei da confederao dos mthethwa,
vizinha e rival dos ndwandwe29. A honra de ter erguido o essencial da poderosa
confederao ndwandwe recai sobre ele. Entretanto,  preciso reconhecer que
Zwide construiu sobre as fundaes edificadas por seu pai e seu av, e que ele
explorou instituies, costumes e prticas que vigoravam em toda regio, mesmo
entre os sotho-tswana que viviam a Oeste do Drakensberg.
    Como vrios outros Estados nguni da regio, o reino ndwandwe apoiava-se
muito no desdobramento de regimentos militares, recrutados na ocasio do rito
tradicional de iniciao dos meninos e meninas, pertencentes, aproximadamente,
 mesma faixa etria. Para os meninos, o antigo rito de iniciao era acompa-
nhado da circunciso. Parece que, dentre os primeiros chefes nguni, Zwide e
seus predecessores foram os primeiros a perceberem o uso poltico que se podia
fazer da prtica sotho-tswana de coordenar e organizar a circunciso, e os ritos
conexos de iniciao, em escala da comunidade ou da chefia e no no nvel das
famlias. Em seguida, foi fcil ampliar o princpio. Os chefes vassalos podiam
continuar reinando sobre seus prprios sditos, mas no podiam mais organizar
e presidir suas prprias cerimnias de iniciao como no passado. Doravante,
essas cerimnias eram organizadas a partir do centro, e os jovens de todas as

27    Ibid., p. 158-161.
28    Ibid., p. 160.
29    Ibid.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                                                 117



comunidades estabelecidas no territrio ndwandwe eram alistados como mem-
bros de regimentos nacionais correspondentes a sua faixa etria30. Obviamente,
tal disposio facilitava o uso posterior desses regimentos para fins militares.
    Alm do uso que fizeram desses regimentos de recrutas para amalgamar as
diferentes partes de seu Estado "nacional", os reis ndwandwe teriam recorrido
amplamente s influncias mgico-religiosas para reforar sua prpria autoridade
e contribuir para criar o mito do monarca todo-poderoso e invencvel. Alm da
tradicional cerimnia anual das primcias, Zwide, em particular, cercou-se dos
servios de um impressionante arepago de feiticeiros e de mgicos reais, cujo
renome servia para repercutir o temor ao seu poder pelas inmeras chefias das
redondezas. Zwide tambm recorreu a casamentos diplomticos para nutrir
relaes com certos Estados da regio ou para torn-los mais serenos. Foi assim
que ele ofereceu a mo de sua irm Ntombazana ao rei mthethwa Dingiswayo.
Talvez fossem consideraes da mesma ordem que finalmente o levaram a acei-
tar que uma de suas filhas, Thandile, esposasse Sobhuza, rei dos ngwane (swazi),
que a chamavam de Lazidze, a filha de Zwide.
    Entretanto, Zwide no tinha a menor inteno de deixar que tais casamen-
tos travassem seus objetivos expansionistas. Isso foi bem evidenciado quando
Sobhuza fez valer seus direitos  utilizao das frteis terras arveis do vale do
Pongolo. Zwide respondeu atacando a capital de Sobhuza, na fronteira meridio-
nal da atual Suazilndia31. O exrcito ndwandwe venceu uma srie de confrontos
e expulsou os partidrios de Sobhuza do vale do Pongolo, rechaando-os para o
Norte. Foi a, no meio do macio montanhoso, hoje localizado no territrio da
Suazilndia, que Sobhuza (conhecido tambm pelo nome de Somhlolo) edificou
as fundaes da nao swazi.


     Os swazi
   O grupo original ngwane era formado de um aglomerado de cls nguni-
-embo e de alguns grupos de origem nguni-ntungwa, mais alguns cls tsonga
conduzidos por elementos da linhagem real dos dlamini. Esses cls uniram-se
para constituir o substrato da sociedade ngwane no distrito de Shiselweni e



30   J. D. Omer-Cooper, 1966.
31   J. S. M. Matsebula, 1972, p. 15-16; H. Kuper, 1947, p. 13; J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 29-49; A. T.
     Bryant, 1964.
118                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



seriam conhecidos pelo nome de bemdzabuko, ou verdadeiro Swazi32. Na parte
central da atual Suazilndia, Sobhuza colocou sob sua autoridade poltica
vrios outros cls estabelecidos na vizinhana. Tratava-se, na sua maioria, de
pessoas de origem sotho (pedi), que haviam se misturado a pequenas comu-
nidades de nguni-embo e de ntungwa. As comunidades sotho que Sobhuza
integrou a seu reino possuam um sistema bastante evoludo de regimentos
constitudos por faixas etrias. Para distinguir estes novos swazi daqueles que
vieram do Sul, eram geralmente chamados de emakhandzambili [aqueles que
foram encontrados]33.
    Antes mesmo de ser expulso do vale do Pongolo, o povo de Sobhuza tinha,
como o de Dingiswayo, adotado o sistema de faixas etrias. Isso facilitou muito
a integrao das novas comunidades do centro da Suazilndia. Como nas comu-
nidades sotho, as faixas etrias swazi apenas funcionavam sob a forma de regi-
mentos militares em tempos de guerra. Os jovens dos cls conquistados foram
incorporados ao sistema de iniciao ngwane e enviados para o combate lado a
lado com seus conquistadores nos mesmos regimentos34, ao passo que os chefes
dessas comunidades sotho, longe de serem eliminados, obtiveram uma larga
autonomia para a gesto dos negcios locais. Sem dvida, os cls sotho ocupa-
ram, no incio, uma posio sensivelmente inferior na sociedade ngwane; mas
 medida que o tempo passava e que sua lealdade para com o Estado no era
mais colocada em dvida, eles obtiveram o mesmo tratamento que os membros
nguni do Estado swazi.
    No somente Sobhuza aliviou o jugo da sujeio dos cls sotho dominados
por ele, outorgando a seus chefes uma boa margem de autonomia local e conce-
dendo aos jovens sotho uma grande mobilidade no seio do exrcito swazi, mas
tambm procurou consolidar sua prpria posio e garantir a segurana de seu
novo reino mantendo relaes amigveis com seus vizinhos. Embora Zwide o
tivesse expulsado de seu antigo feudo e o perseguido at a atual Suazilndia,
Sobhuza conservou relaes amigveis com os ndwandwe e quis consolidar
essa amizade esposando uma das filhas de Zwide, para fazer dela sua nkosikati
(primeira esposa). A fim de cair nas graas de Shaka, o zulu, Sobhuza lhe enviou
um tributo em meninas, dentre as quais, princesas de sangue real. Apesar de
Shaka ter matado algumas dessas mulheres quando elas engravidaram, Sobhuza



32    J. S. M Matsebula, 1972; H. Kuper, 1947, p. 14.
33    Ibid.
34    H. Kuper, 1947, p. 15-17; H. Beemer, 1937.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                                        119



continuou com sua poltica de conciliao35. Isso valeu a seu reino a relativa
permanncia ao abrigo das exaes dos regimentos de Shaka.
    Sobhuza morreu em 1840. Seu filho Mswati (Mswazi) sucedeu-lhe e foi
nesse momento que o povo ngwane-dlamini tomou o nome de swazi. Como
antes fizera seu pai, Mswati teve que defender o novo Estado contra as suces-
sivas invases vindas do Sul, sem contar as revoltas que explodiram no interior.
Mswati, que era relativamente jovem quando da morte de seu pai, primeiro teve
que enfrentar vrias tentativas que visavam a desaposs-lo do poder. A primeira
foi a rebelio de Fokoti, que contou com numerosos apoios no Sul da Suaziln-
dia. Mas Mswati foi salvo graas ao apoio dos regimentos reais de Malunge.
    Aps a rebelio de Fokoti, Mswati se incumbiu do dever de reforar sua
posio com medidas tais como uma maior centralizao dos regimentos cons-
titudos por faixas etrias, a criao de uma rede mais estendida de aldeias reais
e a reorganizao da cerimnia do incwala (primcias) no sentido de um reforo
das prerrogativas reais. Todavia, tais reformas no impediram que um outro filho
de Sobhuza, o regente Malambule, se rebelasse em 1846, pouco aps Mswati ter
se submetido ao rito da circunciso. Missionrios brancos estavam implicados na
revolta, bem como agentes do imperialismo zulu. Por fim, Mswati foi obrigado
a estabelecer uma aliana com os beres do Transvaal para abafar o perigo de
invaso representado pelas foras zulu de Mpande. O tratado que permitiu livrar
os swazi das garras do drago zulu foi assinado em 26 de julho de 184636.
    Uma personagem chave na derrota da insurreio de Malambule foi um
outro irmo de Mswati, Somcuba (Somquba). Seu status privilegiado de pri-
mognito de Sobhuza foi ainda reforado pelo papel que ele desempenhou na
represso da insurreio de Malambule, bem como na negociao do tratado
de 1846 com os beres de Ohrigstad. Entretanto, por volta de 1849, Somcuba
insurgiu-se, por sua vez, contra a autoridade de Mswati e at mesmo tentaria
fundar um Estado rival atravs de "um amlgama de pequenos cls pai e sotho,
na regio do rio Crocodile"37, e usurpar as prerrogativas reais praticando suas
prprias cerimnias de incwala. Em 1856, as campanhas conduzidas por Mswati
contra o rebelde e os beres de Lydenburg que o apoiavam levaram  morte
de Somcuba, com um novo tratado de cesso com os beres de Lydenburg e 
restaurao de condies normais de existncia na regio38.


35   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 50.
36   J. S. M. Matsebula, 1972; A. T. Bryant, 1929, p. 325-328; H. Kuper, 1947, p. 19-20.
37   J. A. I. Agar-Hamilton, 1928, p. 60-61; H. Kuper, 1947, p. 20.
38   H. Kuper, 1947; G. M. Theal, 1891, vol. IV, p. 456.
120                                                                        frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A poltica interna de Mswati foi mais feliz que suas aventuras estrangeiras.
Ele se lanou em uma poltica de casamentos diplomticos com princesas esco-
lhidas entre numerosas linhagens das comunidades recentemente integradas 
sociedade swazi. Paralelamente, oferecia esposas de sangue real aos chefes dos
diversos cls e linhagens. O povo rapidamente tomou tais prticas como modelo
e, graas a numerosos casamentos cruzados, grandes mudanas foram introdu-
zidas na sociedade swazi, cujas divises tnicas logo desapareceram39.


      Os mthethwa
    A evico dos ngwane-dlamini do vale do Pongolo colocou frente a frente, no
pas nguni do Norte, dois reis e seus povos: Zwide, o ndwandwe, e Dingiswayo,
o mthethwa. Zwide tornou-se rei dos ndwandwe por volta de 1790.  a ele que
podemos atribuir a edificao de um grande Estado ndwandwe, cuja potncia
apoiava-se na arrecadao do tributo imposto aos Estados vassalos; na utilizao
de um exrcito formado de regimentos constitudos por faixas etrias; no mito
de um poder real sagrado, organizado em torno do incwala, cerimnia anual das
primcias, e no domnio das rotas comerciais em direo  baa de Delagoa.
    O reino mthethwa tornou-se clebre sob o reinado de Dingiswayo, filho
de Jobe e neto de Kayi (geralmente considerado como o fundador do reino
mthethwa)40. Como no caso dos Estados ndwandwe, ngwane e, mais tarde, dos
zulus, a potncia do Estado mthethwa repousava sobre a arrecadao do tributo,
as razias aos rebanhos e sobre um exrcito formado de regimentos de recrutas
incorporados por faixas etrias. Os mthethwa tambm mantinham relaes
comerciais com a baa de Delagoa.
    Como j vimos, regimentos constitudos por faixas etrias estavam geral-
mente estacionados em todos os principais Estados nguni da regio, e a maioria
desses Estados parece ter sido influenciada pelos pedi e por outros grupos sotho
da vizinhana41. Entretanto, Dingiswayo parece ter aplicado sua seriedade e sua
imaginao habituais  reorganizao daquilo que era uma prtica generalizada
na regio. Ele colocou um fim ao rito da circunciso que acompanhava habitual-
mente a formao das faixas etrias, a fim de suprimir os perodos de vida reclusa
que tais ritos exigiam. Adotou para seu exrcito a formao chamada de "peitoral


39    H. Beemer, 1937.
40    T. Shepstone, 1988, vol. I, p. 160-164; A. T. Bryant, 1929, p. 95.
41    J. D. Omer-Cooper, 1969, p. 211-213.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                              121



e cornos". Ele tambm fez aliana com o reino de Maputo, na baa de Delagoa.
Assim, mais tarde, quando conquistou e incorporou o Estado de Qwabe, diz-
-se que foi ajudado por soldados armados de mosquetes vindos do reino aliado
de Maputo, e no, como disse Fynn, por uma companhia de soldados enviados
pelos portugueses42. O reino mthethwa de Dingiswayo arrecadava tributos junto
a mais de trinta chefias da regio, dentre as quais se encontrava uma pequena
chefia comandada por Senzangakhona: o Estado zulu. Mais tarde Shaka, o filho
de Senzangakhona, tornou-se general do exrcito de Dingiswayo.


     Os zulus
    A expanso dos mthethwa de Dingiswayo foi represada por Zwide e seus
regimentos ndwandwe. Vrias guerras foram travadas pelos exrcitos rivais.
Em 1818, Dingiswayo foi capturado por Zwide e morto. Em razo do car-
ter pessoal do reinado de Dingiswayo, sua morte criou um vazio  frente dos
mthethwa. Shaka, que rpido subiu na estima de Dingiswayo (e tinha se tor-
nado, com a ajuda desse, o chefe da pequena chefia zulu), logo se engolfou na
brecha: tomou o lugar de Dingiswayo  frente da confederao das chefias
mthethwa. Na verdade, ele acabou herdando o "imprio" mthethwa. Mas tal
como Bismarck arquitetou para que a Alemanha fosse absorvida pela Prssia,
Shaka "incorporou" o imprio mthethwa ao Estado zulu, de forma que os
mthethwa, a partir de ento, passaram a fazer parte da nao zulu. Ele auto-
rizou da mesma forma a manuteno do sistema de governo tradicional dos
mthethwa, sob a conduo de um filho menor de Dingiswayo e de um regente
submetido  figura do monarca zulu, ou seja, a ele mesmo43. No que concerne
aos outros grupos, parece que Shaka mais imps uma integrao total do que
uma simples suserania.
    No tempo em que ele era apenas chefe do Estado zulu, vassalo de Dingiswayo,
Shaka j havia comeado a reorganizar seu exrcito segundo um processo de
racionalizao das instituies sociais para fins militares, que doravante seria con-
duzido at sua concluso lgica. Alm disso, ele revolucionou as prprias tcnicas
militares. Os longos dardos foram substitudos por uma azagaia curta de lmina
larga, muito mais eficaz no combate corpo a corpo desde que o inimigo tivesse
perdido seus prprios dardos. Os combatentes zulus se protegiam, a partir de


42   A. K. Smith, 1969, p. 184.
43   A. T. Bryant, 1929, p. 158-167, 202-203; E. A. Ritter, 1955, p. 113-116.
122                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



ento, com altos escudos e no portavam mais sandlias, a fim de ganharem velo-
cidade e mobilidade. Como Dingiswayo antes dele, Shaka mantinha em alerta
um exrcito permanente de regimentos constitudos de homens de menos de
quarenta anos, porm, contrariamente a Dingiswayo, acantonava tais regimentos
em casernas onde permaneciam a cargo do Estado. Os homens eram sujeitados
ao celibato at que fossem liberados de suas obrigaes militares. Vivendo na
caserna, os regimentos de Shaka eram bem treinados, eficazes e sempre prontos
para entrar em ao44.
    O exrcito de Shaka dominava vrias tticas militares, das quais a dos "cor-
nos da vaca" era apenas a mais espetacular. O treinamento dos soldados tornava
os guerreiros endurecidos e impiedosos com o inimigo. Diferentemente de
Sobhuza ou de Dingiswayo, Shaka com frequncia aniquilava as elites dirigen-
tes dos povos conquistados e se esforava para incorporar completamente os
grupos capturados ao sistema zulu, colocando  sua frente membros da famlia
real zulu a fim de substituir os chefes eliminados. Quando se tratava de grupos
muito numerosos, seus chefes eram por vezes mantidos no lugar e continuavam
a exercer localmente sua autoridade sobre o seu prprio povo.
    Durante as guerras decisivas pela dominao do que se tornaria a Zululndia,
Shaka regulou e aperfeioou algumas das tcnicas e das tticas, as quais foram
aludidas anteriormente. Levado pela ambio de se tornar senhor de todos os
grupos que viviam no territrio dos nguni do Norte, ele entrou em conflito
direto com os ndwandwe de Zwide. Este ltimo fora vencido por Shaka no
curso de duas batalhas sucessivas em 1819 e 182045.
    A vitria de Shaka sobre o exrcito ndwandwe em Mhlatuze no s foi um
desastre militar para o prprio Zwide, mas marcou tambm o desabamento
do Estado ndwandwe, confederao flexvel que fora criada pela subordinao
sistemtica de numerosos pequenos Estados dos vales do Mkuze e do Pongolo.
Tomados pelo pnico, elementos da populao do Estado ndwandwe fugiram
para o Norte, conduzidos pelos antigos generais de Zwide, e encontraram ref-
gio no Moambique atual. Os chefes desses grupos residuais eram Soshangane,
Zwangendaba e Nqaba. Quanto  massa do povo ndwandwe, a partir de ento,
completamente submissa, acabou formando, sob a autoridade de Sikunyane, um
Estado vassalo do soberano zulu46.



44    J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 35-37.
45    L. Thompson, 1969a, p. 344; E. A. Ritter, 1955, p. 129-149.
46    J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 57-58; H Fynn in J. Bird, 1888, Vol. I, pp. 86-90.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                             123



     O reino de Gaza
    Soshangane foi o primeiro dos generais de Zwide a se retirar, seguido de um
pequeno grupo de fiis, e a se estabelecer no pas tsonga, no longe da baa de
Delagoa, onde parece ter vencido e sujeitado tranquilamente vrios pequenos
grupos, tais como os manyika, os ndau e os chopi, por ele incorporados aos seus
partidrios. Em Moambique, os partidrios de Soshangane, geralmente, eram
denominados shangana, segundo seu nome. Foi a que ele tentou fundar seu
prprio reino, chamado Gaza. Em todas as direes, enviou seus regimentos em
expedies para capturar gado, jovens (homens e mulheres) e gros. Solidamente
estabelecida, a potncia econmica do reino de Gaza tinha por base o controle
do comrcio entre o interior e os estabelecimentos costeiros dos portugueses
na baa de Delagoa47. Este comrcio j estava florescendo antes da formao do
reino de Gaza. De fato, a baa de Delagoa, feitoria portuguesa, j atraa os navios
mercantes de outras naes estrangeiras, notadamente, ingleses e austracos48. A
baa de Delagoa servia, sobretudo, de escoadouro do marfim e de outros produ-
tos exportados do reino de Nyaka e dos Estados thembe e maputo49.
    O novo reino de Gaza assegurou, pois, o controle de um comrcio que alcan-
ava uma boa parte de Natal e atingia, muito provavelmente, os limites orientais
da colnia do Cabo50. Mas o reino de Gaza contava demasiadamente com suas
expedies militares e com a guerra. A partir de sua capital, Chaimaite, no
Mdio Sabi, os regimentos de Soshangane combatiam as chefias das redondezas
e perseguiam os Estados shona do Leste. A maioria desses ataques foi dirigida
contra os povos do Sul de Moambique, notadamente, os tsonga51. Houve um
reforo do elemento nguni na sociedade gaza em 1826, no momento em que
os homens de Soshangane juntaram-se aos ndwandwe derrotados, vindos do
Norte da Zululndia, aps a derrota de Sikunyane, o filho de Zwide, vencido
por Shaka52.
    As comunidades tsonga submetidas foram incorporadas a uma estrutura
correspondente s formas caractersticas do Estado zulu. Gaza estendia-se do
Zambeze inferior at o Sul do Limpopo. A autoridade do rei apoiava-se em um


47   A. T. Bryant, 1929, p. 313; J. D. Omer-Cooper, 1966, cap. 4.
48   A. K. Smith, 1969, p. 176-177.
49   S. Marks, 1967b.
50   A. K. Smith, 1969, p. 169.
51   J. Stevenson-Hamilton, 1929, p. 169.
52   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 57.
124                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



exrcito organizado em regimentos alistados por faixas etrias e utilizando as
tcnicas de combate do exrcito zulu. O ncleo de origem dos nguni oriundos
do Sul formava uma espcie de classe social superior designada pelo nome de
"ba-nguni", ao passo que os cidados incorporados recentemente eram chama-
dos "ba-tshangane". Contrariamente a vrios de outros fundadores de Estados
oriundos do Mfecane, Soshangane no utilizou seus regimentos constitudos
por grupos etrios para unificar as comunidades sujeitadas e o ncleo nguni.
Segundo J. D. Omer-Cooper, os homens de grupos vassalos eram formados
em regimentos distintos daqueles dos nguni, mas colocados sob o comando de
oficiais "ba-nguni". Ele aponta tambm que se considerava que tais regimentos
pudessem ser sacrificados e que, no campo de batalha, eram sempre engajados
na linha de frente53.


      Os ndebele
    Mzilikazi, o fundador do Estado ndebele, era filho de Mashobane, chefe de
um pequeno principado khumalo estabelecido nas margens do Mfolozi Negro,
que pagava um tributo a Zwide, o monarca ndwandwe. Nascido em 1796, Mzi-
likazi tornou-se o chefe de seu povo em 1818, quando Zwide encomendou a
morte de Mashobane, sob a suspeita de traio. Na condio de filho da pri-
meira esposa de Mashobane (filha de Zwide), Mzilikazi, o herdeiro oficial, foi
devidamente instalado por Zwide  frente da chefia khumalo.
    Pouco tempo aps a vitria de Shaka sobre Zwide na batalha do Mfolozi
Branco, Mzilikazi traiu seu av Zwide e fez aliana com Shaka. Enviado por este
ltimo em expedio contra um grupo sotho vizinho, em 1822, Mzilikazi desa-
fiou Shaka recusando-se a lhe entregar o gado capturado. Tendo ento reunido
seus khumalo no cume da colina de Ntumbane, ele rechaou um regimento zulu
que fora enviado para puni-lo. Um segundo regimento conseguiu desaloj-lo de
sua fortaleza, tida como impenetrvel, e infligiu uma punio severa aos regi-
mentos khumalo. Mzilikazi escapou pelas montanhas do Drakensberg,  frente
de um pequeno grupo de aproximadamente 200 homens, mulheres e crianas.
Segundo a descrio de um autor:
      Tendo perdido uma grande parte de mulheres, crianas e gado, e apoiado somente
      por algumas centenas de soldados a p, dotados de armas de punho, Mzilikazi



53    J. Stevenson-Hamilton, 1929, p. 169.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                              125



     encontrava-se no limiar de uma odisseia que o levaria a percorrer mais de 2.500
     quilmetros em vinte anos, por muitas regies desconhecidas.
    Mzilikazi conseguiu escapar dos regimentos zulus que o perseguiam, abrindo
caminho atravs de vrios pequenos grupos sotho do Highveld. Quando de sua
travessia do Vaal, capturou gado, homens, mulheres e crianas. Sua tropa tam-
bm aumentou com os grupos isolados nguni que, antes deles, atravessaram o
Drakensberg para viverem entre as comunidades sotho do Highveld. Em 1824,
ele se estabeleceu nas ribanceiras do Olifants, em uma regio habitada principal-
mente pelos pedi, grupo sotho-tswana que, at 1820, fora chefiado por Thulare.
Seu estabelecimento foi chamado de Ekupumleni. As campanhas militares que
Mzilikazi empreendeu contra os pedi e outros grupos sotho, fixados principal-
mente no Norte e no Leste do que hoje  o Transvaal, tiveram como efeito no
s o enorme aumento do efetivo de seus rebanhos, mas tambm a multiplicao
do nmero de seus vassalos: ele recolheu habitantes de regies conquistadas,
alm de refugiados que fugiam de Shaka. No Highveld do Transvaal, habitado
sobretudo por comunidades sotho-tswana, os nguni de Mzilikazi foram desig-
nados sob o nome de ndebele. Por volta de 1825, os regimentos ndebele com-
bateram as comunidades sotho-tswana em todo o Highveld e atacaram a Oeste,
at o Botsuana Oriental. No espao de dois ou trs anos, o reino de Mzilikazi
se tornou o mais poderoso e o mais rico do Highveld.
    A notcia da fortuna de Mzilikazi se propagou e atraiu bandos de aventu-
reiros e saqueadores, como aqueles comandados por Moletsane, o taung (cuja
base encontrava-se no Vaal), ou Jan Bloem, cujos cavaleiros mestios, equipados
com armas de fogo, perseguiam, h algum tempo, vrios Estados africanos da
regio de Trans-Orangia. Eles atacaram os enormes currais de Mzilikazi, perto
do Vaal, dividindo entre eles parte dos imensos rebanhos desse ltimo54. Essa
situao, agravada pelos ocasionais ataques dos regimentos zulu e a ameaa de
um possvel ataque da parte de Zwangendaba e de Nqaba55  ambos antigos
generais de Zwide , incitou Mzilikazi a deslocar sua capital, em 1827, para
estabelec-la nos declives setentrionais dos montes Magaliesberg, perto da fonte
do rio Odi (Crocodile), ou seja, no corao do pas kwena e kgatla, lugar que
constitui agora a provncia do Tranvaal. Foi a, no distante da atual Pretria,
que Mzilikazi instalou seu novo quartel general, Mhlahlandlela, a partir do qual,
durante cinco a sete anos, seus regimentos lanaram ataques sistemticos contra


54   J. D. Omer-Cooper, 1966, cap. 9 passim.
55   Ibid.
126                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



os Estados kwena e kgatla do centro do Transvaal. Os regimentos de Mzilikazi
partiram em expedies para o Norte, para alm do Limpopo; para o Sul, alm
do Vaal e para o Oeste at os acessos do deserto de Kalahari. Em Mhlahlandlela,
Mzilikazi construiu as fundaes de uma nao bem organizada em torno de
sua capital e das duas aglomeraes satlites de Gabeni e Nkungwini. Entre-
tanto, a perseguio continuava. Os koranna, armados e comandados por Jan
Bloem, reforados por alguns regimentos sotho-tswana, atacaram seus reba-
nhos em 1828, apoderando-se de milhares de cabeas de gado e massacrando
muitas outras. Os regimentos de Mzilikazi, que operavam alhures, lanaram-se,
rapidamente, na perseguio dos saqueadores, os quais se dirigiam para o Sul.
Esses, no momento em que deixavam o territrio ndebele, foram pegos, mortos,
em sua maioria, e muitas cabeas de gado foram recuperadas. Um ano mais
tarde, um ataque anlogo conduzido contra seus currais por um forte partido
griqua e sotho, comandado por Barend Barends, foi igualmente rechaado. Mas
Mzilikazi ainda vivia com medo de um ataque zulu. Em 1832, ele levantou
acampamento e partiu para o Oeste a fim de se estabelecer em Mosega, no
Marico (Madikwe). Desta nova base, atacou a maioria dos grupos tswana do
Transvaal Ocidental e aqueles que povoavam o atual Botsuana, at o dia em que
foi derrotado e expulso de Mosega por uma fora composta de beres, tswana
e griqua, em 183756.
    Mzilikazi iria estabelecer seus quartis em Bulawayo. Seus regimentos impu-
seram facilmente sua autoridade s chefias kalanga e shona instaladas na regio.
A potncia dos Estados shona tinha sido minada pelas batalhas contra os nguni
de Zwangendaba e Nqaba. A partir de Bulawayo, os regimentos ndebele lan-
avam frequentes ataques contra os shona para capturar o gado. Muitas chefias
shona se submeteram e tornaram-se Estados vassalos, pagando tributo, ao passo
que outras resistiram bravamente. Certos grupos shona, em particular os que
viviam a Leste do Sabi e do Hunyani, nunca se submeteram verdadeiramente
 autoridade dos ndebele. Por outro lado, as chefias kalanga estavam muito
dispersas para resistirem, e seus habitantes foram incorporados  sociedade
ndebele. Alguns foram obrigados a emigrar para o Sul e para o sudoeste, e se
estabeleceram no atual Botsuana.
    Em seu novo domnio, Mzilikazi se sentia menos ameaado por inimigos
poderosos. Desde ento, esforou-se menos nas expedies militares do que na
consolidao de seu reino. Mas, como o Estado ndebele era basicamente um


56    L. D. Ngcongco, 1982a, pp.161-71.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                                         127



Estado militarista e expansionista, ele precisava garantir uma massa regular de
tributos sob a forma de gado, gros, utenslios, armas de ferro, adornos indivi-
duais, artigos de couro; ou ainda, sob a forma de mo de obra e de servios. Os
regimentos continuaram, portanto, com suas expedies para o Norte e Leste,
contra as comunidades de lngua shona e, tambm, contra alguns Estados sotho-
-tswana do Sul. Certos tswana, como os bakaa, foram poupados e encarregados
de vigiar o rebanho de Mzilikazi57. Entretanto, em 1842, o rei ngwato Sekgoma
desafiou um regimento de invasores ndebele. No ano seguinte, os arrecadadores
de tributos de Mzilikazi foram mortos pelos ngwato58. Teria seu ardor militar
se abrandado ou teria ele considerado que no era necessrio reagir imediata-
mente? Surpreendentemente ele esperou vinte anos antes de punir os ngwato
por esse insulto.
    Em todo caso, Mzilikazi se mostrou mais vido por vingana aps sua der-
rota no Zambeze, diante dos kololo de Sebetwane, em 1839. Enviou contra eles
duas expedies, uma em 1845, e outra cinco anos mais tarde. Mas, como ambas
foram um desastre, ele renunciou a qualquer nova empreitada ao encontro de
um inimigo to temvel. Por outro lado, em 1847, os ndebele foram surpreen-
didos pela incurso de um comando ber, sob as ordens de Hendrik Potgieter
e apoiado por auxiliares pedi. A expedio foi um fracasso total. Tal como
fizera contra os bandos griqua e koranna, uma vintena de anos atrs, Mzilikazi
destacou um regimento para perseguir o comando que tinha conseguido rou-
bar milhares de cabeas de gado ndebele. O regimento de elite zwangendaba
apanhou os saqueadores em seu acampamento, massacrou os guardas pedi e
retomou a posse do gado.
    A partir de 1850, um decnio inteiro passou sem que Mzilikazi se lanasse
em uma guerra importante. Querendo nutrir boas relaes com os europeus,
ele assinou com os beres, em 1852, um tratado que lhes permitia caar em
seu territrio. Tambm, por trs vezes, recebeu a visita do missionrio Robert
Moffat  em 1854, 1857 e 186059. Tais visitas prepararam a entrada dos europeus
no reino ndebele. Moffat obteve de Mzilikazi a permisso para os mission-
rios desenvolverem suas atividades em seu pas60. A partir deste momento, os
europeus comearam a penetrar em nmero crescente no reino ndebele. Eram
caadores, mercadores e missionrios, todos precursores de Ccil J. Rhodes e


57   A. Sillery, 1952, p. 118.
58   R. K. Rasmussen, 1977, p. 35; A. Sillery (1952, p. 118) data esse incidente de 1838.
59   R. Moffat, 1945, vol. I, p. 225.
60   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 153.
128                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



da British South Africa Company61. O movimento se acentuou a partir de 1867,
quando os europeus tomaram conhecimento da existncia das antigas minas de
ouro de Tati, no pas kalanga62. Nesta poca, Mzilikazi j estava muito doente.
Ele morreu no incio do ms de setembro de 1868.
    O reino ndebele era um Estado militarista. Seu estabelecimento na regio
que hoje corresponde ao atual Zimbbue marcou o desabrochamento de um
sistema poltico que lentamente tinha amadurecido no Transvaal. Para cons-
truir seu reino, Mzilikazi retomou certos traos do Imprio Zulu, do qual o seu
prprio principado khumalo fora apenas um elemento menor. Ele utilizou regi-
mentos constitudos por faixas etrias como principal instrumento para integrar
as populaes conquistadas e para amalgamar as camadas sociais que, pouco a
pouco, se constituram na sociedade ndebele, no Norte do Limpopo.
    Aps 1840, eram trs o nmero de tais camadas sociais. A primeira era
constituda pelos grupos de parentes dos primeiros companheiros de Mzilikazi,
originrios da regio de Natal-Zululndia e dos que se juntaram a eles no Sul
do Vaal. Eram chamados de zansi. O segundo grupo, pela ordem decrescente
de prestgio, era composto de pessoas que foram incorporadas ao longo das
peregrinaes no Norte do Vaal. Eram chamados de e-nhla. Por fim, a base da
hierarquia era ocupada pelo grupo dos hole, constitudo pelas populaes con-
quistadas no Norte do Limpopo63. O prestgio que se atrelou  posio social
dos zansi incitava os outros grupos a se esforar para imitar os modos de vida
dos primeiros, falar sua lngua e adotar sua cultura. Os casamentos entre pes-
soas de classes sociais diferentes no eram vistos com bons olhos64. Entretanto,
os indivduos que conseguiam se exprimir com destreza em sindebele e que se
distinguiam na guerra escapavam ao ostracismo social e at podiam ascender na
hierarquia militar. O sistema dos regimentos constitudos por faixas etrias tinha
como efeito a mistura dessas classes sociais e a facilitao de uma integrao
mais rpida dos jovens dos pases conquistados. Ele permitia impregnar tais
jovens dos costumes ndebele, da lngua sindebele e da fidelidade a Mzilikazi.
    Em virtude de sua posio, o rei desempenhou um papel capital no dispo-
sitivo que ligava estes diferentes grupos de sujeitos entre si. Notadamente, isso
aparecia na cerimnia anual do incwala. Mais do que qualquer outro rito, tal
cerimnia evidenciava o papel primordial da figura do rei na vida da nao.

61    Ibid., p. 152.
62    L. Thompson, 1969b, p. 446.
63    A. J. B. Hughes, 1956.
64    Ibid.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                          129



Segundo a anlise feita por um antroplogo, a cerimnia das primcias ritua-
lizava a funo real e servia para proteger toda a comunidade, "apaziguando as
foras malficas que poderiam prejudicar o seu chefe e consolidando, ao redor
dele, a unidade poltica da nao"65. A cerimnia reunia todos os sditos do rei
e ocorria na capital66. Em princpio, sendo o proprietrio de todo o gado do
reino ndebele, Mzilikazi podia conceder ou recusar a seus sditos os meios de
contrair casamento. Alm de ser o guardio do rebanho nacional, tambm o era
de todas as jovens capturadas. Em outros termos, era senhor, ao mesmo tempo,
da capacidade de produo econmica e do potencial de reproduo biolgica
de seus sditos. Ele prprio ligou-se, pelo casamento, a um grande nmero de
seus sditos.
    Dado que o reino ndebele era um Estado fundado na conquista, a organi-
zao de seu numeroso exrcito recortava, em parte, a organizao poltica e
administrativa do Estado e at mesmo tendia a tomar a frente desta ltima. Este
exrcito de aproximadamente 20.000 homens, nos ltimos anos do reinado de
Mzilikazi, foi dividido em regimentos, sendo cada um deles comandado por um
induna. Os prprios induna eram controlados por quatro induna divisionrios,
todos subordinados a Mizilikazi, que reinava no cume da pirmide.
    Quase todos os homens adultos faziam parte do exrcito e pertenciam, por
consequncia, a um regimento. Tais regimentos estabeleciam-se em cidades
guarnio. Os militares casados eram autorizados a viver na cidade guarnio
com suas mulheres e seus servos. Constituam uma espcie de fora de reserva
que poderia ser chamada ao combate, em caso de urgncia. Os filhos eram alis-
tados no mesmo regimento de seus pais. Assim, em vez de serem os jovens de
todas as comunidades do Estado incorporados a um mesmo regimento (como
era o caso entre os sotho-tswana), o pertencimento a uma cidade guarnio
tornava-se hereditrio. Por vezes, quando o aumento da populao o requeria,
Mzilikazi escolhia jovens em diversas cidades guarnio para formar um novo
regimento, sob o comando de seu prprio induna, o qual recebia a autoriza-
o de construir uma nova cidade. Cada cidade guarnio encontrava-se sob a
dupla responsabilidade do induna de seu regimento e de uma das esposas de
Mzilikazi.
    Se o sistema regimentar funcionava desta maneira visando  integrao dos
jovens, nem todos os habitantes dos pases conquistados viviam em cidades
guarnio. Havia no reino ndebele aldeias ordinrias cujos habitantes continu-

65   H. Kuper, citado em T. R. H. Davenport, 1978, p. 45.
66   R. K. Rasmussen, 1977.
130                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



avam vivendo segundo seus costumes. Contudo, tais aldeias encontravam-se, em
geral, ligadas s cidades guarnio.
   Enfim, no reino ndebele, o prprio Mzilikazi concentrava sobre sua pessoa
a totalidade do poder poltico. Nomeava todos os induna e todos os chefes de
aldeia, e recebia deles relatrios detalhados. Mzilikazi, frequentemente ia s
diferentes cidades guarnies e fazia visitas inopinadas de inspeo nas cidades-
-satlites. Em um intervalo de tempo relativamente curto, ele chegou a edificar
um reino solidamente implantado, no qual os povos conquistados  dentre os
quais alguns eram associados ao Estado, porm sem fazer realmente parte dele
 adotaram a lngua e a cultura ndebele. Inversamente, os ndebele tornaram-se
adeptos da religio shona mwari/mlimo, cujos sacerdotes pronunciavam orculos
e praticavam o espiritismo67.


      Os sotho
   O reino de Lesoto  outro Estado que nasceu da efervescncia do Mfecane,
constituindo-se a partir de uma constelao de pequenas comunidades aut-
nomas de lngua sotho, as quais se encontravam largamente dispersas pelas
plancies que se estendiam a Norte e a Oeste da cadeia do Drakensberg. A
maioria destas comunidades compreendia vrios cls e linhagens pertencentes
aos grupos kwena e fokeng das sociedades sotho-tswana.
   As guerras mortferas lanadas pelas campanhas dos hlubi e dos ngwane
contra essas comunidades de lngua sotho do Highveld de Trans-Orangia for-
neceram a Moshoeshoe uma boa oportunidade para exercer seus talentos de
chefe e de organizador. Moshoeshoe era o filho do chefe relativamente obscuro
do pequeno cl mokoteli, ramo menor de uma das chefias kwena da regio. A
tradio atribui certas realizaes de Moshoeshoe  tutela e  influncia de um
eminente "rei filsofo" do mundo sotho, Mohlomi, rei dos monaheng, um outro
ramo da confederao kwena das chefias do Highveld. Os Estados de lngua
sotho de Trans-Orangia dispensava um imenso respeito a Mohlomi devido a sua
sabedoria e a sua reputao de fazedor de chuva. As frequentes viagens feitas por
este ltimo a tais Estados e os numerosos casamentos diplomticos contrados
por ele com filhas de chefes teriam, segundo alguns, preparado o terreno para a
unificao desses Estados concluda mais tarde por Moshoeshoe68.


67    Ibid.; A. J. Wills, 1967, p. 155.
68    J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 99; D. F. Ellenberger e J. MacGregor, 1912.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                           131



    Entretanto, no seria preciso exagerar a influncia do sbio Mohlomi sobre
o carter e os xitos de Moshoeshoe. Este era dotado de incontestveis quali-
dades de chefe. Primeiramente, aps ter se destacado por suas iniciativas entre
os camaradas de sua mesma idade durante a iniciao, ele provou amplamente
essas qualidades no momento em que as incurses dos hlubi e dos ngwane pro-
vocaram o desabamento geral da maioria das chefias sotho de Trans-Orangia69.
No incio de sua carreira, Moshoeshoe tomou conscincia das possibilidades
defensivas que ofereciam as montanhas tabulares. Portanto, ele transformou
uma dessas montanhas, o monte Bhuta-Bhute, em fortaleza para si prprio,
sua famlia e alguns companheiros, e fortificou os estreitos desfiladeiros, dando
acesso ao cume, com muros de pedras e postes de guarda situados em pontos
estratgicos70.
    A partir dessa base, Moshoeshoe pde lanar ataques contra alguns de seus
vizinhos, bem como defender os seus contra os tlookwa de Mma-Nthatisi,
vencido por ele na "batalha dos potes". Em 1824, quando os tlookwa voltaram
e sitiaram demoradamente o monte Butha-Bhute, quase venceram a obstinada
resistncia de Moshoeshoe e dos seus. No fim de suas foras e de suas vidas,
foram salvos pelo surgimento de um exrcito ngwane71, que atacou os tlookwa,
forando-os a abandonarem o stio. Mais tarde, durante este ano, Moshoeshoe
movimentou-se para o Sul com os seus, por uma regio infestada de canibais72,
para se estabelecer em uma nova montanha que havia sido previamente mar-
cada por seus exploradores. Essa nova fortaleza de montanha, Thaba Bosiu,
encontrava-se acima do curso do Pequeno Caledon e era mais fcil de ser defen-
dida. Moshoeshoe, seu pai e alguns de seus companheiros prximos construram
suas moradias no cume plano dessa montanha tabular de cerca de 500 hectares,
coberto de ervas de boa qualidade e amplamente provido de gua devido s fon-
tes perenes73. Um trabalho considervel foi concludo para fortificar os diversos
acessos de Thaba Bosiu74.
    Sentindo-se seguro em sua montanha quase impenetrvel, Moshoshoe se viu
no dever de construir uma nova nao a partir do que restava dos vrios povos
reduzidos em migalhas. Rapidamente ele derrotou None, o chefe dos bamant-


69   L. Thompson, 1969b, p. 399.
70   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 100-101.
71   Ibid., p. 101.
72   D. F. Ellenberger e J. MacGregor, 1912, p. 146.
73   L. Thompson, 1969b, p. 399.
74   G. Tylden, 1950, p. 5; D. F. Ellenberger e J. MacGregor, 1912, p. 147.
132                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



sane, que estava instalado nas terras ao redor de Thaba Bosiu. Nesse intervalo de
tempo, vrios grupos sotho e nguni juntaram-se a Moshoeshoe e se colocaram
sob a sua proteo. Ele colocou alguns desses grupos sob a responsabilidade de
seus irmos e, mais tarde, tambm sob a de seus filhos. No que concerne aos
grupos mais importantes como os phuting de Moorosi, os taung de Moletsane
e os rolong de Moroka, ele tolerou a sobrevivncia do poder local exercido pelos
chefes tradicionais, com a condio de que eles reconhecessem sua autoridade
de chefe supremo.
    Para afastar a ameaa de seus poderosos e perigosos vizinhos, Moshoshoe
recorreu  ttica que consistia no cultivo da amizade, enviando-lhes um tributo.
Assim, ele se protegeu dos ataques dos ngwane-ama, pagando regularmente um
tributo a Matiwane. Na mesma poca, enviou a Shaka um tributo de plumas
de grou-azul. Finalmente, os sotho comearam seriamente a se inquietar com
o risco de ver os ngwane ficarem indefinidamente na vizinhana. Devido  ins-
tigao de Moshoeshoe, os ngwane foram, pois, atacados por um exrcito zulu
em 1827 e rudemente prejudicados sem, entretanto, serem expulsos da regio
de Trans-Orangia. A ttulo de represlias, os ngwane de Matiwane atacaram
Moshoeshoe em seu bastio montanhoso de Tabha Bosiu em julho de 1827,
mas foram derrotados e rechaados75. A derrota dos ngwane de Matiwane, que
eram muito temidos, propagou a reputao de Moshoeshoe ao longe. A maio-
ria dos ngwane se dirigiu para o atual Transkei e foi vencida em Mbolompo.
Novos grupos de povos dizimados afluam junto aos ps de Moshoeshoe. Sua
vitria sobre os ngwane demonstrara a sabedoria da escolha de Thaba Bosiu
como capital.
    Para acrescentar a sua reputao, Moshoeshoe lanou suas tropas em uma
operao conjunta com os taung de Moletsane contra os thembu, para se apossar
do gado desses ltimos. Um vitorioso contra-ataque tambm permitiu a Mosho-
eshoe rechaar uma invaso dos regimentos de Sikonyela e, no momento certo,
colocar um fim nas perseguies dos tlookwa. A capital que Moshoeshoe havia
edificado nas alturas teve a oportunidade de demonstrar sua potncia quando
regimentos ndebele penetraram em Trans-Orangia para uma expedio puni-
tiva contra Moletsane e seus taung76. O exrcito ndebele penetrou no Lesoto e
tentou pegar de surpresa Thaba Bosiu, mas foi rechaado e forado a se retirar.
Como diplomata experiente, Moshoeshoe despachou, para o exrcito em reti-
rada, uma pequena tropa de animais de corte como presente e garantia de paz,

75    J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 102.
76    E. Casalis, 1861, p. 22-24; L. Thompson, 1969b, p. 400.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                           133



declarando-se convencido de que era a fome que os impulsionara a atacar. Os
ndebele partiram cheios de respeito para com o grande rei da montanha e nunca
mais voltaram a atac-lo77. A notcia do sucesso da ttica defensiva utilizada por
Moshoeshoe contra um inimigo to temvel quanto os ndebele se propagou em
todo o mundo sotho, aumentando imensamente o prestgio desse rei. Tal sucesso
tambm foi uma lmpida ilustrao de sua estratgia defensiva, consistindo em
combater, se necessrio, seus poderosos inimigos e em se reconciliar com eles
sempre que possvel78.
   Depois disso, afastado o perigo ndebele, o reino de Moshoeshoe teve que
enfrentar um novo flagelo, sob a forma de uma srie de ataques conduzidos
contra as aldeias sotho por bandos de cavaleiros armados. Estes bandidos griqua
e koranna tinham lanado seu primeiro ataque contra os shoto no incio de 1830.
Seus assaltos se multiplicaram e tornaram-se cada vez mais alarmantes. O per-
ptuo estado de guerra na Trans-Orangia tinha enfraquecido e empobrecido a
maioria dos Estados da regio. O reino de Moshoeshoe era uma notvel exceo,
em particular pelo fato de os sotho possurem numerosos rebanhos. Os saquea-
dores griqua e koranna lanavam-se sobre as aldeias e os rebanhos com a velo-
cidade de um relmpago. Atacavam em pequenas esquadras, mas, deslocando -se
a cavalo, tinham uma grande mobilidade como vantagem. Tambm estavam
armados de mosquetes cujo alcance era maior do que qualquer espcie de arma
de arremesso. Bons atiradores, eles eram especialistas no ataque surpresa. Os
sotho responderam preparando contra-emboscadas e incurses noturnas contra
seus acampamentos, matando os homens e apossando-se dos cavalos e dos fuzis.
No final de certo tempo, os sotho comearam a criar uma raa de cavalo local,
o "pnei sotho", e se transformaram em "uma nao de fuzileiros montados"79.
Este foi um grande passo na defesa da nao em vias de edificao.
   Atravs de um griqua cristo, Adam Krotz, Moshoeshoe entrou em contato
com missionrios brancos. Em 1833, ele enviou gado  misso de Philippolis
"para comprar missionrio". Sua demanda coincidiu com a chegada de um
pequeno grupo de missionrios franceses cujas esperanas em trabalhar entre os
hurutshe foram contrariadas pelas notcias concernentes aos repetidos ataques
conduzidos por Mzilikazi contra eles e outros povos tswana das cercanias80.
Estes missionrios franceses foram persuadidos que era a Providncia que os


77   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 103; L. Thompson, 1969b, p. 400.
78   G. Tylden, 1950, p. 8-10; L. Thompson, 1969b, p. 400.
79   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 104.
80   Ibid.
134                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



instrua a comear antes seu apostolado entre os sotho de Moshoeshoe. Esse os
instalou em Makhoarane, batizada pelos missionrios de Morija. Pouco depois,
outras misses foram abertas em Beersheba e Mekuatling. A introduo de
missionrios no reino sotho fazia parte de um plano defensivo. Esperava-se
que eles ajudassem Moshoeshoe a defender seu reino cercando-o dos melhores
conselheiros, ajudando-o a obter armas de fogo e a entrar em contato com
poderosos Estados brancos, com os quais Moshoeshoe pensava poder nutrir
ligaes de amizade e aliana.
    A tcnica utilizada por Moshoeshoe para edificar uma nao no tardou a
dar frutos: vrios grupos expulsos da regio em que viviam pelos transtornos do
Mfecane aglomeraram-se a seu reino. Os tlaping, conduzidos por Lepui, vieram
estabelecer-se junto aos missionrios franceses na misso de Bthulie. Em 1836,
os taung de Moletsane foram viver em Beersheba, antes de partirem novamente,
dois anos mais tarde, para Mekuatling; em 1833, os rolong de Moroka foram
autorizados a se estabelecer em Thaba Nchu com seus missionrios wesleya-
nos. Em seguida, imigrantes thembu, fugindo dos rigores da sexta guerra cafre,
colocaram-se sob a proteo de Moshoeshoe.
    A invaso dos beres no territrio ocupado pelos sotho, que progredia ao
longo dos anos 1830, atingiu o seu apogeu aps 1836, ano do xodo ber, cha-
mado comumente de "Grande Trek". Seguiram-se numerosos choques entre os
intrusos beres e os camponeses sotho desapossados. Certos conflitos estou-
raram em razo da posse da terra, outros foram causados pelas reivindicaes
relativas ao gado roubado e pelos litgios por questes de trabalho. Diante da
frequncia e da violncia crescente desses conflitos, o Governo britnico se viu
obrigado a intervir, mas, aps duas infrutferas tentativas de resoluo81, acabou
abandonando a batalha, e reconheceu uma repblica ber independente no
corao do pas de Moshoeshoe. Aumentando com uma afronta a injustia
cometida, a Conveno de Bloemfontein, pela qual a Gr-Bretanha legitimava
a expropriao do territrio sotho em benefcio dos beres, compreendia entre
suas disposies um artigo que interditava a venda de armas e de munies aos
sotho e a outros Estados negros, ao passo que os beres tinham toda liberdade
para se armar.
    Nessas condies no  de se surpreender que o Estado livre de Orange
tenha se lanado em uma poltica estrangeira agressivamente expansionista que


81    As tentativas em questo foram o Sistema dos Tratados (Treaty System) de 1843-1845, no quadro do
      qual um tratado foi assinado com Moshoeshoe, em 1845, e a criao em 1848 de um enclave ber sob
      administrao britnica denominado Orange River Sovereignty.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                                                    135



ameaava acabar com toda a obra de Moshoeshoe e, at mesmo, aniquilar o reino
do Lesoto, em seu esforo frentico para abrir um acesso para o mar, at Port
Saint Johns82. Lesoto teve que conduzir duas guerras, em 1858 e 1865, contra
o Estado livre de Orange, antes que seus destinos passassem aos cuidados, em
nome do Governo britnico, do governador Wodehouse.
   O requerimento feito por Moshoeshoe, diante  anexao de seu pas pelo
governo de Sua Majestade britnica, era uma ao defensiva que visava pre-
servar a nao, que ele tanto trabalhara para criar, e impedir a incorporao de
seu reino  repblica ber do Estado livre de Orange. Quando Moshoeshoe
morreu, em maro de 1870, ele havia no s salvado seu reino da desintegrao,
mas tambm, lanado as bases de um Estado independente que sobreviveu at
os nossos dias.


     Os kololo
    Os kololo eram fokeng do ramo patsa. Antes do desencadeamento do Mfe-
cane, eles viviam nos acessos do macio de Kurutlele, na margem esquerda do
Vet (Tikoane), tendo por vizinhos os taung de Moletsane83. Um ataque sbito
lanado contra eles pelos tlookwa de Mma-Nthatisi e a captura da maior parte
de seus rebanhos transformaram tais fokeng patsa em desenraizados. Reduzidos
 misria, eles procuraram fugir atravessando o Vaal e foram acrescidos por um
grupo mais abastado de fokeng, aumentando, assim, seu nmero84. Numerosas
pequenas comunidades sotho, fugindo das guerras dos hlubi e dos ngwane, com
efeito, atravessaram o Vaal e abandonaram a regio de Trans-Orangia. Sebe-
twane, um prncipe da casa patsa, assumiu o comando do conjunto do grupo
fokeng.
    Ele e seus companheiros erraram por muito tempo em busca de um novo
territrio e de gado para substituir seus rebanhos perdidos. Suas peregrinaes
os conduziram ao Oeste, em direo ao pas dos tlaping. Nessa regio, encon-
traram dois outros grupos de desenraizados reduzidos  errncia, os phuting e
os hlakoana. Aps uma primeira escaramua entre os fokeng e os phuting, os
trs grupos decidiram reunir suas foras para lanar um ataque conjunto contra


82   G. Tylden, 1950; D. F. Ellenberger e J. MacGregor, 1912, p. 306.
83   E. W. Smith, 1956, p. 50.
84   Este grupo de fokeng outrora havia sido atacado pelos taung de Moletsane e despojado de seus rebanhos,
     ver D. F. Ellenberger e J. McGregor, 1912.
136                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



Dithakong, a capital tlaping, aos 26 de junho de 182385. Robert Moffat, um
agente da London Missionary Society, que residia em Kuruman entre os tlaping,
obteve ajuda de capites griqua fiis aos missionrios de Griquatown e de outros
chefes mestios estabelecidos em aglomeraes vizinhas. Uma fora de uma
centena de cavaleiros armados de fuzis foi rapidamente reunida e enviada como
reforo para defender Dithakong.
    No dia da batalha, os invasores sofreram uma grande derrota, foram recha-
ados, passando por perdas sangrentas e impelidos  fuga pelos fuzis dos cava-
leiros griqua86. Aps a desastrosa derrota de Dithakong, a horda heterognea
se dissociou. Os phuthing e os hlakoana se dirigiam para o Leste87, enquanto
Sebetwane conduzia seus partidrios, rebatizados makololo, para o Norte, pelo
pas dos rolong.
    Nestas campanhas contra os diversos elementos do povo rolong, diz-se que
Sebetwane se aliou ao velho bandido, Moletsane, chefe dos taung88. Eles con-
duziram suas incurses at o pas hurutshe, onde saquearam e destruram a
capital Kaditshwene (Kureechane), dispersaram seus habitantes e assassinaram o
regente Diutlwileng. Em seguida, os dois aliados combateram os kgatla-kgafela
perto da confluncia do Api e do Crocodile89; mas sua atividade belicosa nessa
regio lhes valeu o ataque do exrcito de Mzilikazi, provavelmente porque eles
haviam invadido aquilo que os ndebele consideravam o seu prprio palco de
operaes90. Ento, Sebetwane e Molestane se separaram; este ltimo foi para
o Sul, rumo a Matlwase (Makassie)91.
    Nessas circunstncias, os makololo lanaram-se ao ataque em Borithe contra
a frao mais importante do reino dividido dos kwena, na qual reinava Moru-
akgomo. (Os kwena estavam, de fato, enfraquecidos pelas lutas de sucesso que
os haviam dividido em trs partes)92. Depois disso, Sebetwane se voltou para
os ngwaketse, formadores do mais poderoso Estado tswana da regio. Ele os
venceu em Iosabanyana, em 1824, em uma batalha na qual foi morto o velho
guerreiro dos ngwaketse, o rei Makaba II. Sebetwane voltou-se, mais uma vez,


85    J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 94; E. W. Smith, 1956, p. 52-53.
86    R. Moffat e M. Moffat, 1951, p. 87-88, 91-97.
87    S. Broadbent, 1865, p. 128-133.
88    J. D. Omer-Cooper, 1966.
89    Ibid., p. 116; D. F. Ellenberger e J. MacGregor, 1912, p. 308.
90    D. Livingstone, 1857, p. 85.
91    S. Broadbent, 1865, p. 128-133.
92    A. Sillery, 1954.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                                     137



aos kwena, derrotou os ltimos ncleos de resistncia constitudos pelas fortale-
zas do Dithejwane e capturou numerosas cabeas de gado. Estabeleceu-se, ento,
em Dithubaruba, a antiga capital kwena, que, ao que parece, deveria ser uma
estadia, se no permanente, pelo menos prolongada. Mas, no ano seguinte, em
1826, um ataque surpresa executado com maestria pelo rei ngwaketse, Sebego,
filho do falecido rei Makaba II, venceu a resistncia de Sebetwane, desalojou-o
das colinas do Dithejwane, onde numerosos mortos e quase todo o gado dos
kololo foram abandonados por Sebego93.
    Mais uma vez, Sebetwane e seus kololo reduzidos  misria tiveram que reto-
mar a estrada. Subindo ao Norte, chocaram-se, por duas vezes, com os ngwato
de Kgari, os venceram e roubaram quase todo o gado. Porm, querendo chegar
ao lago Ngami, perderam-se no deserto e l deixaram uma grande parte do gado
dos ngwato94. Entretanto, uma vez que chegaram ao pas tawana, prximo do
lago Ngami, no tiveram problemas em vencer os habitantes e desaposs-los de
seus rebanhos95.
    Sebetwane, ento, empreendeu a travessia do deserto do Kalahari para alcan-
ar a costa oeste. Vencido pelos rigores do deserto e pela resistncia obstinada de
seus habitantes96, ele se viu obrigado a voltar para o lago Ngami. Impelido para
o Norte, novamente engajou o combate contra os tawana, alcanou a vitria,
apoderou-se da nova cidade e tomou posse do governo. Em seguida, os tawana
tiveram que retornar ao seu territrio de origem, perto do lago Ngami97. No
trmino de uma difcil viagem, eles se estabeleceram perto da confluncia do
Zambeze e do Kafue. Logo que se instalaram, tiveram que rechaar as incurses
de regimentos nguni, sendo que uma delas era comandada por Nqaba, o chefe
dos nguni-msene. As outras duas foram realizadas pelos ndebele de Mizilikazi,
que tambm estavam em busca de um porto seguro ao longo do Zambeze.
    Sebetwane e seus kololo conseguiram rechaar todas estas incurses, mas, a
voz da experincia os incitou a se estabelecerem mais a Oeste, no planalto do
Kafue. Tal como no caso dos kwena, no pas dos tswana, o triunfo de Sebe-
twane sobre os lozi foi facilitado pela guerra civil que destruiu esse reino, aps
um litgio de sucesso. Sebetwane se tornou o senhor da maior parte dos lozi,



93   A. G. Bain, 1949, p. 51-71.
94   D. Livingstone, 1857, p. 85.
95   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 119; D. F. Ellenberger e J. MacGregor, 1912, p. 310.
96   D. Livingstone, 1857, p. 163-173.
97   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 119.
138                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



exceto de um pequeno grupo que fugiu, exilando-se sob o comando de alguns
membros da famlia real98.
    Conseguindo se livrar da ameaa dos ndebele, Sebetwane se viu no dever de
consolidar seu novo reino. As proezas militares realizadas por ele ao rechaar
as invases dos nguni e, em particular, aquelas dos ndebele, aumentaram enor-
memente seu prestgio; aos olhos de numerosas comunidades da regio, ele se
tornou o chefe que, a partir de ento, merecia ser seguido.
    O reinado de Sebetwane trouxe prosperidade ao Estado kololo. Ele liderou
com imaginao e vigor a tarefa de edificar uma unidade nacional, mostrando o
caminho da unidade ao escolher esposas entre os lozi e outros povos conquista-
dos e ao encorajar seus companheiros kololo mais prximos a fazerem o mesmo.
Sebetwane gostava de repetir que todos os sditos de seu reino eram filhos do
rei. Ele manteve em suas funes numerosos chefes lozi e substituiu os prncipes
que haviam fugido por funcionrios lozi. Alguns chefes lozi foram cooptados
no conselho de Sebetwane, que os consultava regularmente99.
    Sebetwane no imps a iniciao por grupos etrios nem aos lozi nem aos
outros povos conquistados por ele. Por outro lado, quis que a lngua kololo fosse
falada em todo o reino. Respeitou o sistema poltico lozi e no o substituiu, antes,
permitiu-lhe, o quanto possvel, coexistir com o novo sistema kololo at que os
dois, interpenetrando-se, acabassem fusionando. No obstante, no plano poltico
e social, os kololo constituam a aristocracia reinante. Sebetwane inaugurou um
sistema original de administrao local, no qual as cidades foram reagrupa-
das em um quadro de "provncias" ou, no mnimo, de "distritos". Funcionrios
kololo eram colocados  frente dessas unidades administrativas e encarregados,
entre outros deveres, da coleta do tributo junto aos sditos do rei. Esse ltimo
apropriava-se de uma parte desse tributo e distribua o restante. Em cada aldeia,
Sebetwane colocou pelo menos duas famlias kololo como senhores da terra100.
    Contrariamente  tradio e  religio lozi, que exigiam que o rei vivesse
separado do povo, Sebetwane quis se colocar ao acesso de todos os seus sditos,
independente do status social, poltico ou econmico deles. Deste modo, ele no
s parecia ser o pai de todo o seu povo, mas, alm disso, mudou fundamental-
mente o carter da monarquia lozi. Quando de sua morte, em julho de 1851,
a maioria de seus sditos, inclusive os lozi, chegaram a se considerar kololo.
Sekeletu sucedeu-o no trono.

98    Ibid., p. 121.
99    D. E. Needham, 1974.
100 Ibid.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                         139



   Os membros da famlia real lozi que, como Masiku e Sipopa, haviam fugido,
subindo o rio Leambye no momento em que Sebetwane conquistara o Estado
lozi, limitavam-se a manter a uma espcie de governo no exlio, fazendo o
mximo para manter a chama do "nacionalismo" lozi. Entretanto, o implacvel
jugo do reinado de Sekeletu, consequentemente, atiou o fogo escondido sob
as cinzas, transformando-o logo em uma furiosa fogueira. A morte do rei dos
kololo, em 1864, e a crueldade ainda maior de seus sucessores deram incio 
rebelio lozi. A fim de marchar contra os kololo, Sipopa liderou um exrcito,
cujas fileiras foram engrossadas por numerosos habitantes da plancie e do pla-
nalto toka. Os kololo foram vencidos e sua dominao caiu por terra. Houve,
ento, a restaurao da dinastia lozi101.
   Ao longo de suas viagens at Angola e de sua descida do Zambeze, Livings-
tone havia recrutado carregadores kololo. Quando, em 1860, novamente passou
pelo pas natal deles, levou a maioria dos kololo consigo, exceto uma quinzena
que ele deixou no vale do Shire, onde estes se casaram e queriam construir sua
sede. Tais jovens possuam fuzis, tambm tinham adquirido uma grande expe-
rincia nos mtodos de organizao militar e poltica dos kololo e, em geral,
mostravam-se muito orgulhosos dos xitos do Estado kololo. Organizaram os
povos manganja do vale do Shire em vrias aldeias cercadas de paliadas, das
quais eles se instituram os chefes. Nesta poca, os manganja eram vtimas de
razias cruis e devastadoras da parte dos mercadores de escravos. Estas chefias
kololo defenderam os manganja contra os traficantes de escravos nguni, yao e
portugueses. Mais tarde, as aldeias foram agrupadas em dois reinos cujos sobe-
ranos eram Molokwa e Kasisi, os mais capazes desses chefes, que nomearam
outros chefes kololo nos pontos estratgicos do vale, acolheram bem a misso
de Livingstone e cooperaram com ela. Os kololo acabaram mantendo relaes
cordiais com os yao, mas os nguni continuaram criando-lhes dificuldades. Estes
chefes kololo do vale do Shire conservaram sua influncia, apesar dos violentos
assdios dos nguni, at o momento em que ocorreu a partilha colonial, nos anos
1890.


    Os Estados nguni transzambezianos
   Aps a derrota dos ndwandwe na batalha de Mhlatuze, os cacos desta con-
federao foram dispersos em todas as direes. Zwangendaba e Nqaba (Nxaba)

101 J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 124.
140                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



conduziram os nguni que os seguiam ao Sul de Moambique, no longe da
baa de Delagoa, onde Soshangane os havia precedido e estava estabelecendo o
seu reino. No final de uma luta a trs pela supremacia, Soshangane, sucessiva-
mente, tomou a frente de Zwangendaba e de Nqaba, forando-os a abandonar a
regio. Depois, ele consolidou a organizao de seu reino  custa dos autctones
tsonga.
    Zwangenbaba, seguido de seus nguni-jere, atravessou o Limpopo e avanou
pelo pas rozwi, atacando a maioria dos Estados shona da regio e destruindo,
pelo caminho, o Imprio Changamire. Perto da atual localidade de Bulawayo,
em Thaba Zika Mambo, os regimentos de Zwangendaba atacaram o exrcito
rozwi, os desafiaram ao combate e mataram o ltimo dos mambo, Chirisa-
mhuru. Ento, Zwangendaba levou consigo seus regimentos para o outro lado
Zambeze, no pas Nsenga. Aos 20 de novembro de 1835, atravessaram o rio
perto do Zumbo102.
    Progredindo para o Norte, a Oeste do lago Malaui, os nguni de Zwan-
gendaba lanaram-se em numerosas batalhas contra as comunidades chewa e
tumbuka, fazendo muitos prisioneiros e detendo-se alguns anos aqui e ali, antes
de partirem novamente. Prosseguiram sua marcha rumo ao Norte, at atingirem
Mapupo, no planalto de Fipa, situado entre a extremidade norte do lago Malaui
e a ponta sul do lago Tanganica103. Os efetivos de sua tropa encontravam-se
enormemente reforados pela juno dos numerosos recrutas, fornecidos por
todos aqueles que foram vencidos durante sua longa marcha.
    Aps a morte de Zwangendaba, por volta de 1848, seus nguni se dividiram
em vrias faces que se lanaram, cada uma por si, em campanhas de invaso
dirigidas contra vrios Estados da regio. Seu palco de operaes se estendia do
Norte at as ribanceiras meridionais do Lago Vitria e do Leste at o Oceano
ndico. A partir de Moambique, Nqaba conduziu seus nguni-msene  regio
correspondente ao atual Zimbbue, onde, a exemplo dos nguni-jere que os
haviam precedido, semearam a confuso e a desordem, guerreando sucessiva-
mente contra diversos grupos da regio. Uma breve escaramua ops os jere de
Zwengendaba aos msene de Nqaba. Esses ltimos levaram vantagem, aps o
que, partiram para o Oeste, rumo ao pas dos lozi. A, lanaram-se na batalha
contra os kololo de Sebetwane, mas foram vencidos, dispersados e seu chefe foi
morto104.

102 R. Gray, 1965; L. Thompson, 1969a, p. 347; D. R. Hunt, 1931, p. 284.
103 J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 123-124.
104 E. W. Smith, 1956, p. 71.
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                            141



    Os nguni-maseko, sob o comando de seu chefe Ngwane, tambm emigra-
ram de Moambique para o Zimbbue, atravessando o Zambeze, entre Sena
e Tete, em 1839. Atravessando o Sul do Malaui e contornando a extremidade
meridional do lago Malaui, os maseko penetraram o sudeste tanzaniano. Foi
a, no distrito de Songea, que eles fundaram um poderoso Estado dirigido por
Mputa, o sucessor de Ngwane105.


    Concluso
    Retrospectivamente, o Mfecane aparece, de forma clara, como o resultado de
mudanas sociopolticas radicais intervindas na maioria dos Estados nguni do
Norte. Ele foi ativado pela conjuno de uma exploso demogrfica e de uma
carestia de terras, bem como pelas mutaes fitoclimticas que romperam o
delicado equilbrio ecolgico existente entre os pastos de sweetveld e de sourveld,
alis, aos quais uma populao humana e de rebanhos bovinos em constante
crescimento impunha uma carga crescente. Parece que essa situao crtica foi
exacerbada pela seca Madlathule que certamente levou ao seu apogeu a luta
intensa na qual se lanaram os habitantes da regio por recursos em rpida dimi-
nuio. Alm disso, certos ndices parecem indicar que o comrcio recente das
mercadorias importadas pela baa de Delagoa, na conjectura, desempenhou um
papel suscitando rivalidades que, talvez, tiveram um peso maior do que aquele
at ento admitido pelos historiadores.
    No obstante,  evidente que as grandes mudanas que perturbaram, de forma
to eficaz, a organizao poltica e militar destes Estados nguni procederam de
um dinamismo estritamente interno. A revoluo zulu no foi, certamente, o
resultado da transplantao ou da adaptao em bloco a condies locais de
ideias emprestadas do exterior. Mas os Estados zulus da gerao seguinte 
Swazi, Gaza, Ndebele e os diversos reinos nguni  apresentavam, todos eles,
as mesmas caractersticas bsicas, aquelas da organizao revolucionria do
Estado zulu, a saber, uma formidvel mquina de guerra baseada no sistema
dos regimentos constitudos por faixas etrias. Em todos estes novos Estados, o
sistema regimentar tornou-se a instituio central, ou principal, utilizada para
unir entidades tnicas heterogneas.
    Os reinos de tipo sotho, como o de Moshoeshoe e, em menor grau, o de
Sebetwane, mantendo a circunciso por faixas etrias no seio dos grupos funda-

105 J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 73.
142                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



dores ou de seu ncleo original, no expandiram o sistema e no o impuseram
s comunidades recentemente incorporadas, visando cimentar a unidade do
Estado-nao. Eles se dedicaram mais a procedimentos, como os casamentos
diplomticos ou a um enquadramento de tipo proconsular (assegurado seja pelos
chefes tradicionais dos Estados incorporados, seja por membros das famlias
reais conquistadoras), que permitia manter uma autonomia local considervel
e incorporar, em grande medida, os mecanismos de consulta, tanto individual e
direto quanto atravs de um conselho.
    A revoluo do Mfecane deu  luz a novos Estados no Sul, no centro e no
Leste da frica. O reino zulu emergiu das cinzas das confederaes mthethwa
e ndwandwe, bem como dos destroos de numerosas chefias nguni pr-Mfecane
da regio Zululndia-Natal. O reino zulu sobrevive hoje como base mutilada
e consideravelmente reduzida de um dos bantustes da frica do Sul. Os rei-
nos da Suazilndia e do Lesoto, oriundos das entidades pr-coloniais criadas
respectivamente por Sobhuza e Moshoeshoe, tm sobrevivido at os nossos
dias. Ilhotas de salubridade em um mar de racismo sistemtico, hoje eles so
membros respeitados da comunidade internacional. O reino ndebele de Mzili-
kazi subsistiu apenas por um espao de meio sculo, antes de ser tragado pela
onda de colonizao que, atravs das companhias de carta britnicas, inundou
regies inteiras da frica Austral e Oriental, em um poderoso movimento que
constituiu o apogeu do colonialismo europeu. O reino kololo de Sebetwane
revelou-se no ser muito mais do que uma criao pessoal, que se desintegrou
rapidamente nas mos de sucessores de menor envergadura. Ele no sobreviveu
muito tempo aps a morte de seu fundador.
    Se o Mfecane fez surgir novos Estados, tambm ocasionou o desapareci-
mento de uma multido de pequenos reinos; temporariamente, apenas para
alguns deles (como o Estado tawana de Moremi I e o reino luyi (lozi)); para
sempre, para outros como os reinos hlubi, ngwane, mthethwa, ndwandwe, zizi
bhele, e ainda outros. Estados e chefias foram reduzidos a migalhas e enfra-
quecidos pelo Mfecane, de forma considervel. Foi esse, em particular, o caso
dos Estados tswana. Um pequeno nmero de Estados localizados no corao
da zona de turbulncia do Mfecane saiu inclume da tormenta e, poderamos
dizer, at mesmo reforados, como, por exemplo, os dos pedi, dos tlaping e dos
tlharo.
    Parecia possvel dividir os Estados do Mfecane em vrias categorias. Houve
os Estados no militarismo ofensivo de carter agressivo, representados pelos rei-
nos zulus, ndebele e gaza. Os diversos Estados nguni da regio trans-zambeziana
podem igualmente ser alocados nessa categoria. Tais Estados, que utilizavam o
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                            143



aparelho militar para conquistar e dominar os outros, tendiam tambm a fazer
uso da espada ou do fuzil para garantir a fidelidade dos Estados dominados.
Sua poltica expansionista ou imperialista exigia que eles mantivessem em alerta
exrcitos profissionais, ou semiprofissionais, acantonados em "casernas" ou aldeias
de guarnio. Os regimentos deviam partir regularmente em expedies para
coletar o tributo e as taxas em regies perifricas do reino. Esses exrcitos eram
formados a partir de regimentos constitudos por faixas etrias que, no caso dos
zulus e dos ndebele, representavam o principal instrumento de integrao dos
jovens dos povos dominados. O Estado gaza, por sua vez, incorporava tambm
jovens dos territrios conquistados, mas, em regimentos distintos daqueles dos
jovens nguni, mesmo se seus comandantes fossem recrutados entre o grupo dos
conquistadores. A instituio regimentar no contribuiu, pois, no Estado gaza,
com a unificao nacional. Em razo da flagrante discriminao da qual eles
eram vtimas, os "ba-Tshangane" (nome dado aos tsonga dominados) no foram
assimilados no Estado gaza. Este fator, mais do que qualquer outro, explica a
fragilidade das conquistas sobre as quais repousava o Estado gaza e permite-nos
compreender como ele desmoronou sob os golpes dos portugueses. Os Esta-
dos formados de territrios conquistados tendiam a ter mais administradores
plebeus e militares do que membros das famlias reais. No Estado ndebele, os
comandantes de regimento no s eram responsveis por esse ltimo, mas, com
uma das esposas de Mzilikazi, representavam o rei em sua cidade guarnio.
    Entre os Estados do Mfecane que edificaram naes de carter defensivo,
podemos citar os reinos do Lesoto, dos swazi e, em certa medida, dos kololo.
Nesses Estados, a iniciao por grupos etrios era praticada, mas no explorada
como instrumento de incorporao dos jovens das comunidades conquista-
das. Esses Estados no eram fundamentalmente militaristas ou expansionistas.
Quando empreendiam campanhas militares, o faziam seja para se defende-
rem, seja impelidos pela necessidade de definir ou delimitar suas fronteiras
geogrficas, ou para obterem gado. Os fundadores destes Estados atrelaram a
maior importncia ao estabelecimento de posies slidas e fceis para defender.
Moshoeshoe construiu sua capital sobre uma montanha tabular (ghobosheane),
Sobhuza estabeleceu a sua em uma regio montanhosa inacessvel e Sebetwane
escolheu a pantanosa plancie do Kafue, com suas perigosas ilhas, cuja aproxi-
mao se revelou muito desastrosa para os inimigos no advertidos.
    Estes reinos defensivos no possuam exrcitos sob alerta. A iniciao das
faixas etrias servia para formar unidades militares em tempos de guerra. Os
reis no hesitavam em esposar mulheres dentre seus sditos, a fim de forjar
ligaes mais estreitas, em particular, com as famlias predominantes, tanto no
144                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



grupo fundador quanto nas comunidades recentemente incorporadas. Cabeas
de gado eram emprestadas (sistema mafisa) aos sditos, ou at mesmo, a chefias
inteiras que se desejava favorecer. Para administrar a suscetibilidade dos elemen-
tos heterogneos que o compunham, o Estado os consultava frequentemente
e concedia-lhes uma larga margem de autonomia local. Tais Estados tambm
atraam missionrios e fizeram grandes esforos para obterem fuzis e munies
para fins de defesa. Mesmo os Estados conquistadores acabaram admitindo
missionrios entre eles.
    Em todos os Estados do Mfecane, a linha de parentesco era a matriz social
sobre a qual se forjava, definitivamente, o Estado. Da mesma forma ocorria com
a instituio da realeza. Tanto os Estados conquistadores quanto os defensivos
exploravam a cerimnia das primcias como um ritual que servia para reforar
a monarquia. Mas, durante o Mfecane, a evoluo do sistema estatal africano
reduziu progressivamente a importncia das ligaes de parentesco em benefcio
das noes de servio, funcionalismo e territorialidade. Certos Estados, como
aquele dos kololo, fizeram com que uma mesma lngua fosse falada no con-
junto do reino; outros, como o Estado ndebele, no impuseram a lngua, mas a
faculdade de expresso na lngua dos chefes podia ser a chave para o acesso ao
poder. Mesmo depois que o reino kololo oficialmente deixou de existir, a lngua
e a cultura dos kololo permaneceram. Deste modo, no Estado ndebele muitos
kalanga e shona tornaram-se ndebele aculturados.
     preciso notar que as numerosas guerras do perodo do Mfecane reduziram
consideravelmente o nmero das populaes africanas, em particular, nas regies
de Natal e do Estado livre de Orange. De um lado, o Mfecane enfraqueceu
muitos Estados africanos e reduziu sua capacidade de enfrentar ou resistir a
um segundo Mfecane ainda mais destruidor que o primeiro, aquele que os
fazendeiros beres desencadeariam, a partir de ento, invadindo impunemente
os territrios africanos a fim de se apossarem no s das terras, mas tambm
do gado e das crianas.
    Ademais, o Mfecane teve por efeito uma redistribuio das populaes na
frica Austral. Provocou fortes concentraes em certos lugares, deixando
"espaos vazios" em outros. Tambm engendrou uma pliade de notveis chefes,
tais como Shaka, Mzilikazi, Sobhuza, Zwangendaba e Sebetwane. Como bem
observou Omer-Cooper, tais homens
      provaram no s coragem, qualidades de chefe e talento militar, mas ainda
      uma capacidade de pensamento e de ao originais, de aptido a imaginar
      ou adotar instituies e tcnicas novas a fim de resolver problemas novos;
O Mfecane e a emergncia de novos Estados africanos                            145



    qualidades que lhes conferiram uma estatura de homens de Estado, capazes
    de ir alm de uma estreita viso tribal. Eles provaram que os bantos no se
    furtavam s circunstncias e que a educao tribal tradicional tinha um efeito
    muito menos paralisante no desenvolvimento da personalidade humana do
    que alguns tm suposto106.




106 Ibid., p. 180.
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                                 147



                                      CAPTULO 6


                O impacto do Mfecane sobre
                    a colnia do Cabo
                                   Elleck K. Mashingaidze




    O progresso da nao zulu sob a liderana de Shaka, durante o primeiro
quarto do sculo XIX, foi seguido de grandes guerras e de turbulncias na frica
do Sul. Os povos mais afetados foram os nguni e os grupos de lngua sotho,
os quais ainda chamam este perodo de destruio de mfecane (esmagamento
ou fragmentao, em nguni) ou lifaqane/difaqane (em sotho)1. Este movimento
expandiu-se rapidamente na regio at a margem meridional do Lago Vitria.
A importncia de tal movimento para a histria posterior da frica do Sul
pode ser comparada  influncia, na histria do Sudo Ocidental durante o
mesmo perodo, da difuso do esprito reformista entre os fulbe e das jihad
que a acompanharam. Como as jihad fulbe, o Mfecane transformou as mais
meridionais das sociedades africanas como nenhum outro movimento o fizera
desde o incio da idade do ferro. Este captulo analisar qual foi o seu impacto
sobre a colnia do Cabo2.
    A zona de atuao original do Mfecane no foi no Cabo, mas no pas dos
nguni, no atual Natal.  necessrio notar que, embora o incio do Mfecane parea
ter-se dado por um acontecimento sbito, a fermentao que provocou a sua eclo-
so constituiu um longo processo de incubao de vrias geraes. Este processo

1   W. G. A. Mears, 1970, p. 5.
2   Eis os autores que estudaram o Mfecane em seu conjunto: J. D. Omer-Cooper, 1966, 1969; L. Thompson,
    1969b; W. F. Lye, 1967.
148                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



implicou, tambm, na transformao dos nguni  povos agrcolas e pastoris  de
pequenas comunidades clnicas em Estados mais amplos. A apario destes Esta-
dos parece ter sido o resultado da necessidade de enfrentar a carncia crescente de
pastagens e de terras. Ao final do sculo XVIII, este processo levou  constituio
de inmeras chefias ndwandwe, ngwane, mthethwa e outros, lideradas por pode-
rosos chefes militares. A fim de proteger seus povos e de defender seus interesses,
estes chefes estenderam o seu controle sobre os mais fracos dos territrios vizi-
nhos. Alm disso, por volta de 1780, as pequenas chefias dificilmente conseguiam
manter a sua independncia e uma identidade distinta.


      A colnia do Cabo nas vsperas do Mfecane
    Antes de analisar a situao da colnia do Cabo na vspera do Mfecane, 
preciso defini-la, apresentar um quadro sucinto da distribuio da sua populao
e das relaes entre os diferentes grupos e dizer, por fim, uma palavra sobre sua
situao econmica.
    Definir a colnia do Cabo  difcil na medida em que as suas fronteiras nunca
foram fixas. A fronteira oriental, em particular, era conhecida por ser mvel e
incerta3. Por exemplo, at 1771 era formada, grosso modo, pelo rio Gamtoos e
oito anos mais tarde, 1779, havia mudado para o rio Great Fish, sendo ali esta-
belecida s vsperas do Mfecane. O Great Fish constitua, deste modo, a linha
de separao entre os brancos ao Sul e a Oeste e os negros a Leste e ao Norte. A
maioria dos africanos era chamada coletivamente pelo nome de nguni do Cabo4,
ou s vezes pelo nome de nguni do Sul5 e habitava as terras situadas entre o
Keiskamma e o Umzimkulu. Os nguni do Cabo dividiam-se em trs categorias:
os xhosa, os tembu e os mpondo6. A classificao mais ampla de Derricourt
inclui, entre os grupos principais, os mpondomisi e os bomvana7. Os vizinhos
dos nguni do Cabo eram os khoisan  os quais viviam a Oeste do rio Kei.
    Neste captulo, a colnia do Cabo ser definida de maneira a incluir o terri-
trio habitado pelos brancos, bem como aquele habitado pelos africanos a Oeste


3     Foi descrita alhures como a "fronteira mvel". Ver W. M. Freund, 1974.
4     J. J. Van Warmelo, 1935, p. 60.
5     Os nomes "nguni do Cabo" e "nguni do Sul" so de fato geogrficos e aplicam-se aos povos da lngua
      nguni que viviam ao Sul do Umzimkulu. Os povos da lngua nguni e habitantes ao Norte deste curso
      d'gua so chamados de "nguni de Natal" ou simplesmente de "nguni do Norte".
6     J. J. Van Warmelo, 1935, p. 60.
7     R. Derricourt, 1974.
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                  149



do rio Great Fish at o Umzimkulu. Esta definio se justifica pelas estruturas
socioeconmicas e pela natureza das novas relaes que se instauraram aps o
Mfecane e que so, ns o veremos, a sua consequncia.
    No conjunto, as relaes entre os diversos povos que falam o nguni eram
relativamente pacficas. Podemos dizer o mesmo para aquela entre os nguni e
os seus vizinhos khoisan. Isto no significa, contudo, que no houvesse conflitos
entre os dois grupos ou entre os prprios nguni. Por exemplo, os embates entre
nguni e khoisan eram frequentes, em particular na zona compreendida entre o
curso superior do Kei e o Amathole, no Noroeste do Transkei8. Estes conflitos
eram geralmente provocados pelos ataques dos San contra o rebanho, ataques
que levavam a expedies de represlias dos nguni. Todavia, estes conflitos 
seja entre os nguni e os khoisan, seja entre as chefias nguni  eram geralmente
localizados e muito confinados.
    O que se chamava de fronteira oriental do Cabo constitua, contudo, uma
zona de tenso entre negros e brancos, chegando com frequncia a conflitos
abertos devidos a vrios fatores. Em primeiro lugar,  necessrio lembrar que,
h sculos, as comunidades que falavam o nguni moveram-se lentamente para
o Sul do continente a partir de Natal. Do outro lado, a expanso branca na
frica do Sul que seguiu a direo oposta comeara em 1652 quando Jan van
Riebeeck fundou uma colnia holandesa no Cabo. Os dois movimentos deve-
riam fatalmente se colidir em algum momento. Eles se opuseram naquilo que a
historiografia sul-africana chama "as guerras cafres".
    Em segundo lugar, o Great Fish, ainda que reconhecido pelo governo do
Cabo como a linha de fronteira, era frequentemente cruzado por aqueles que
ele deveria separar e manter distanciados. Os colonos e, mais especialmente, os
pecuaristas violavam este limite na busca de mais pastagens. Quanto aos africa-
nos, eles nunca tiveram a inteno de reconhecer esta fronteira e, menos ainda,
de respeit-la, j que, quando foi instituda pelo governo do Cabo, inmeras
comunidades xhosa estavam estabelecidas a Oeste do Great Fish. A regio
fronteiria era, assim, considerada por inmeros xhosa como parte integrante
de suas terras ancestrais, das quais eles haviam sido privados pela expanso
contnua da colnia. Esta  a razo pela qual vrios dentre eles continuaram a
pastorear e levar o rebanho a beber gua ao longo do Great Fish, desafiando,
assim, as autoridades do Cabo. Os caadores xhosa caavam sempre a Oeste
do rio.


8   Ibid., p. 49.
150                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A terceira razo pela qual a linha de fronteira ao Leste permanecia uma zona
de tenso e de violncia entre brancos e negros era o fato de os dois grupos
tnicos perseguirem atividades econmicas semelhantes, como a pecuria e a
agricultura, as quais constituam as atividades essenciais de cada lado da fron-
teira. A isto se juntou a existncia de sistemas fundirios totalmente opostos.
    Enfim, no sculo XVIII e no incio do sculo XIX, a expanso para o sudoeste
dos nguni foi provocada por um dilema real cuja origem deve ser procurada entre
os acontecimentos que se produziram no Norte do seu territrio. Estes aconteci-
mentos impediram os nguni do Cabo de se dirigirem rumo ao Nordeste.
    Na medida em que os xhosa formavam a vanguarda da expanso dos nguni do
Cabo para o Oeste e o Sul, eles pagaram o preo da guerra entre brancos e negros
na fronteira. Esta  a razo pela qual este grupo no  somente aquele sobre o
qual mais se tenha escrito, mas permanece tambm o grupo de nguni do Cabo o
mais vilipendiado e o mais odiado na historiografia colonial desta regio9.
    Como j dissemos, os xhosa no reconheciam o Great Fish como fronteira
e o cruzavam para pastorear as suas manadas. Estas "violaes" fronteirias
eram, s vezes, acompanhadas de roubos de gado, aos quais os colonos do Cabo
replicavam frequentemente com ataques de represlia nas terras do xhosa sob o
pretexto de recuperar os seus bens. Era, entretanto, frequente que as atividades
dos comandos ultrapassassem os objetivos fixados.
     portanto evidente que as relaes entre negros e brancos na regio no
eram pacficas s vsperas do Mfecane. Ns analisaremos neste contexto a situ-
ao da colnia s vsperas deste movimento.


      A situao e as perspectivas econmicas
   Quando a colnia do Cabo, durante os anos de 1822-1823, soube da exis-
tncia das turbulncias em Natal, no vale do Caledon e no Highveld, inmeros
colonos s se encontravam l no mximo h dois anos. Entre eles se encontra-
vam ingleses levados para o Cabo em 1820 para aumentarem uma populao
ainda esparsa e essencialmente holandesa. A maioria destes colonos  aproxi-
madamente 5.000  tinha sido enviada ao distrito de Albany onde exploravam
quase 100 acres cada. Ainda que talvez no intencional, um dos objetivos prin-

9     De fato, as guerras da fronteira oriental do Cabo so geralmente chamadas as "guerras cafres" nos livros
      de histria sul-africanos. Os xhosa eram considerados "selvagens que s temiam a fora e o castigo" (C.
      W. De Kiewiet, 1968, p. 51). Os xhosa eram considerados incorrigveis ladres de rebanho que deviam
      ser combatidos (E. A. Walker, 1957, p. 116-119).
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                 151



cipais do povoamento de Albany, para o governador Somerset, era fazer com
que os colonos participassem da defesa e da estabilizao da fronteira oriental
de triste reputao.
    As perspectivas econmicas da colnia do Cabo nunca tinham sido muito
brilhantes. A perigosa situao militar da fronteira somente agravava os pro-
blemas econmicos. A situao dos colonos em 1820 era pior do que aquela
dos fazendeiros holandeses dos antigos distritos da colnia. A agricultura, tida
como principal atividade econmica de Albany e fonte essencial de subsistncia,
apresentava, em 1823, todos os sinais de desmoronamento. Em primeiro lugar,
vrios fazendeiros estavam pouco qualificados para o trabalho ao qual tinham
sido destinados na frica. Reclamava-se comumente do pequeno tamanho dos
lotes de terra. Depois, em 1822, houve inundaes que destruram todas as
lavouras. Em 1823, inmeros fazendeiros haviam abandonado as suas terras e os
que haviam permanecido tinham perdido o entusiasmo e estavam desanimados.
As poucas poupanas trazidas da Inglaterra diminuam rapidamente; inmeros
fazendeiros estavam pesadamente endividados com o governo ou beiravam
a misria. O alcoolismo aumentava rapidamente, j que mais de um homem
arruinado tentava esquecer os seus dissabores na bebida10.
    Em 1823, somente restava um tero dos fazendeiros de Albany em suas
terras. Eles tinham que enfrentar problemas imensos e o futuro agrcola do dis-
trito parecia muito incerto. Como j assinalamos, os outros fazendeiros tinham
abandonado suas terras: alguns tinham optado por outras formas de emprego
nos centros urbanos; outros se tornaram comerciantes; e a maioria se tornou
pecuarista.
    Os fazendeiros dos assentamentos mais antigos, assim como os Albany,
enfrentavam um problema ainda mais grave: a ausncia de mo de obra. Mesmo
a este respeito, a situao dos colonos em 1820 era pior do que aquela dos
colonos holandeses. Ao passo que estes ltimos podiam empregar os xhosa, os
khoisan, ou at escravos, os colonos de 1820 no tinham o direito de recorre-
rem a este tipo de mo de obra11. Os fazendeiros do "Anglosto", como Buttler
chama o distrito de Albany, deveriam empregar a mo de obra livre, vinda da
Gr-Bretanha. Mas a maioria dos trabalhadores agrcolas enviados da Inglaterra
fugiu de seus senhores ao chegar  frica do Sul para os centros urbanos onde
as perspectivas lhes pareciam melhores. Esforos desesperados foram feitos para
incentivar novamente a imigrao para a colnia. Entre os que responderam a

10   G. Butler, 1974, p. 176; E. A. Walker, 1957, p. 157.
11   E. A. Walker, 1957, p. 157.
152                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 6.1 Bonecas  venda no Cabo no incio do sculo XIX, representando um homem e uma mulher
san. [Fonte: J. Vansina, Art history in Africa, 1984, Londres, Longman.  Staatl. Museum fr Vlkerkunde,
Munique.]
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                                     153



este apelo  em sua maioria, irlandeses , somente alguns poucos punhados deles
chegaram aos distritos da fronteira oriental. Muitos compraram a sua liberdade
ao chegarem ao Cabo e partiram para fazer carreira em outros lugares. Nestas
condies, os novos colonos foram obrigados a contar consigo mesmos, suas
mulheres e filhos para realizar "as tarefas mais baixas", normalmente executadas
unicamente pelos trabalhadores agrcolas e escravos12. Todas estas dificuldades
foram ainda agravadas pela obrigao dos fazendeiros e dos homens mais vigo-
rosos de se dirigirem para a fronteira oriental a fim de defend-la.
   Para diminuir as dificuldades financeiras dos colonos em penria, algumas
pessoas criaram uma organizao destinada a coletar fundos. Esta Sociedade
para o alvio dos colonos em penria coletou efetivamente recursos, de modo
que, em 1824 ela pde ajudar alguns fazendeiros e fornecer-lhes o capital, do
qual tinham muita necessidade. Mas nenhuma ajuda financeira poderia eliminar
as duas dificuldades crnicas que oprimiam a colnia: a ausncia de mo de
obra e a situao mvel da fronteira oriental. Estes problemas ainda no haviam
sido resolvidos quando, cerca de 1822-1823, os efeitos do Mfecane atingiram a
colnia do Cabo atravs de Orange e Natal.


     O Mfecane
   Os detalhes dos acontecimentos ocorridos no Norte do territrio nguni,
no vale do Caledon e no Highveld, no nos dizem respeito aqui.13 Queremos
somente analisar como estes acontecimentos acabaram por afetar a regio nguni
do Cabo e a prpria colnia. Tentaremos precisar quais foram as novas formas
sociais, as novas relaes entre os diferentes grupos da regio e as novas formas
socioeconmicas que o Mfecane suscitou.
   Como j vimos, o movimento se iniciou em Natal, entre os grupos do Norte
que falavam a lngua nguni. As causas exatas do Mfecane no so conheci-
das. Parece, todavia, que a populao desta regio aumentara muito em poucas
geraes. Esta tendncia tinha levado a uma superpopulao, tendo em vista
os mtodos agrcolas  poca. Como resposta a este problema, novas formas
de organizao poltica foram implementadas. Nas ltimas dcadas do sculo
XVIII, um certo nmero de chefias poderosas apareceu  as mais conhecidas
foram as dos ndwandwe, ngwane e mthethwa. Nas duas primeiras dcadas do


12   G. Butler, 1974, p. 178; G. M. Theal, 1891, p. 238-239.
13   Estes detalhes so o tema do captulo 5 deste volume. Ver tambm a nota 2 neste captulo.
154                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



sculo XIX, todas estas chefias  inclusive a dos zulus  tinham se transformado
em poderosos Estados militares liderados por chefes semimonrquicos: respec-
tivamente, Zwide, Sobhuza, Dingiswayo e Shaka.
    Se este novo sistema de estado no tivesse sido acompanhado de uma revo-
luo dos mtodos e das estratgias militares, a tenso e os violentos conflitos
abertos que caracterizavam as relaes entre os Estados meridionais nguni a partir
de cerca de 1815 certamente no teriam conduzido a guerras de grande escala. 
possvel tambm que, sem a eficcia da estratgia militar empregada mais tarde
pelos diversos exrcitos nguni do Norte  e, em particular, os zulus  os aconteci-
mentos no tivessem afetado as regies situadas alm das terras nguni do Norte.
    Pelo que se sabe, o primeiro grande conflito aberto comeou em 1815 entre
os ndwandwe de Zwide e os ngwane de Sobhuza. Os ngwane foram vencidos
e obrigados a cruzar o Pongolo, regio onde eles estabeleceram as fronteiras da
nao swazi. De acordo com J. D. Omer-Cooper, este conflito marcou o incio
do Mfecane. Com a partida de Sobhuza, o conflito entre Zwide e Dingiswayo
tornou-se quase inevitvel. De fato, no fim de 1817, o conflito entre os ndwandwe
e os mthethwar teve lugar. Dingiswayo, o rei dos mthethwa foi morto durante
esta guerra, deixando o seu povo desmoralizado, disperso e privado de chefe.
    Se uma nova potncia no tivesse surgido sob o patrocnio de Dingiswayo,
aps a queda deste, os ndwandwe teriam obtido uma vitria total e o dom-
nio de todo o territrio situado entre o Tugela e o Pongolo. Tratava-se de
Shaka, o filho de Senzangakhona, o chefe de um grupo zulu, at ento muito
insignificante. Em sua juventude, Shaka formara-se em um dos regimentos
mthethwa de Dingiswayo. Graas a sua inteligncia e a sua capacidade de ini-
ciativa, ele foi rapidamente promovido aos altos escales do exrcito. Quando
do conflito entre os Ndwandwe e os Mthethwa, Shaka no era somente um
oficial superior do exrcito mthethwa: ele sucedera a seu pai como chefe de
um pequeno grupo zulu at ento colocado sob o comando dos mthethwa.
Quando Zwide matou Disginswayo, Shaka e seus zulus constituram o nico
centro de resistncia sria contra ele e os ndwandwe. Shaka se preparou para
um confronto decisivo com Zwide fazendo passar para o seu controle diversas
chefias, entre elas os mthetwa desmoralizados. Ele aperfeioou tambm os
seus novos mtodos de guerra e arrolou para o seu exrcito todos os jovens
com idade para a escola de iniciao. Esta foi abolida e substituda por centros
de treinamento para a juventude.
    A famosa guerra entre os ndwandwe de Zwide e Shaka aconteceu em 1818 e
Zwide foi completamente derrotado aps uma srie de campanhas. J. D. Omer-
-Cooper muito justamente descreveu a derrota dos ndwandwe como um marco
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                                             155



na carreira de Shaka e na histria do Mfecane14. Sem encontrar oposio sria
nas terras nguni do Norte, Shaka prosseguiu as suas campanhas para edificar seu
Estado militar zulu. Seu principal meio de expanso foi a conquista e a integra-
o das chefias vencidas  nao zulu. Inmeras chefias menores foram tambm
subjugadas. Mas um grupo ainda maior se formou para evitar o domnio de Shaka
fugindo da regio de Natal. Nos anos que se seguiram  morte de Zwide, em
1818, numerosas chefias vencidas e dispersas, famlias ou indivduos desterrados
fugiram para o Oeste, do Drakensberg ao Highweld, o que deslanchou uma onda
de migraes  medida que as terras eram devastadas e as lavouras destrudas.
Outros nguni do Norte se locomoveram para o Sul pelo Tugela e o Umzimkulu.
Em 1822-1823, este movimento migratrio de pessoas perdidas, esfomeadas e
miserveis que vinham do Nordeste chegara s terras dos mpondo e dos tembu,
semeando o terror e a destruio por todo lugar onde passavam os grupos de
fugitivos. Em 1823, as terras mpondo foram particularmente perturbadas com a
chegada dos imigrantes nguni do Norte. Os tembu do Norte se instalaram por l,
com seu chefe Ngoza, um pouco antes de retornar s terras zulus. Na No Man's
Land (Terra de ningum), a Oeste das terras dos mpondo, se encontravam os bhele
de Mdingi, aos quais se juntaram mais tarde os wushe e os bhaca, comandados
por Madikane. Depois, aconteceu a invaso zulu s terras mpondo em 1823-1824.
Embora Faku, muito sabiamente, tenha impedido o seu povo de atacar os zulus,
os invasores levaram consigo uma grande parte do rebanho mpondo.
    Quando as novas dos acontecimentos chegaram ao Cabo  onde os refu-
giados nguni do Norte, os vagabundos e os invasores tornaram-se conhecidos
pelo nome de fetcane , a colnia j havia sido ocupada em sua poro seten-
trional pelos grupos de fugitivos. Diferentemente dos fetcane, os refugiados
que chegavam  colnia tinham perdido toda coeso e toda identidade. Como
os primeiros, eles eram miserveis, desmoralizados, esfomeados e dispersos. Os
mantatees15 ou bechuana, como eram geralmente chamados, tinham fugido do

14   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 33.
15   As expresses "Mantatees" (escrita tambm "Mantatis") e "Fetcane", tal como as utilizaram os colonos
     brancos, os escritores e os funcionrios do governo do Cabo, exigem algumas explicaes resumidas. Na
     boca destas pessoas, estas expresses se aplicavam aos agentes do Mfecane. A expresso "Mantatees", tal
     como a emprega, por exemplo, Robert Moffat, se refere coletivamente a grupos como os gatunos phuting,
     hlakoana e fokeng, os quais invadiram a capital tlaping de Dithakong em 1823. Denominar estes grupos
     deste modo pode levar ao equvoco, na medida em que no tinham elo algum com Mma-Nthatisi, a
     qual era a chefe dos Tlookwa. Mais tarde, esta expresso foi de novo empregada de maneira errnea
     para designar os refugiados tswana e sotho que afluam na colnia, vindo do Orange e do Caledon 
     particularmente aps Dithakong. "Fetcane" ou "Mfecane", por outro lado, quando eram aplicados a estas
     pessoas, se referiam aos invasores nguni do Norte, isto , aos zulus e aos ngwane de Matiwane. Ver J. D.
     Omer-Cooper, 1966, p. 93-96; W. G. A. Mears, 1970, p. 5-13; L. Thompson, 1969b, p. 393; G. Butler,
     1974, p. 182; R. H. Dugmore, 1958, p. 44.
156                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



vale do Caledon e da Trans-Orangia aps as invases ngwane e hlubi, e os efeitos
devastadores das operaes tlookwa, dirigidas por uma mulher, Mma-Nthatisi.
Alguns vinham tambm de locais do Norte, to distantes quanto o Vaal, expul-
sos pelos invasores do Mfecane. Inmeros refugiados tswana tinham deixado as
suas regies do Botswana aps o ataque da capital tlaping de Dithakong pelos
phuting, pelos hlakoana e os fokengs em 1823.
   Os refugiados se acumularam em distritos como Graaff-Reinet e Albany.
Eles no constituam uma ameaa militar, j que estavam desarmados e sem
chefias. Tudo o que buscavam era um pouco de ajuda e proteo.


      A reao inicial do Cabo (18231828)
    A reao inicial do governo colonial do Cabo e dos colonos em relao ao
afluxo de refugiados deve ser compreendida e analisada  luz das duas necessi-
dades mais prementes da colnia s vsperas do Mfecane: garantir a segurana
da fronteira e obter mo de obra a baixo custo. A escassez de mo de obra, em
particular, tinha forado inmeros fazendeiros a escolherem outras formas de
trabalho e a abandonar a agricultura.
    Tornou-se evidente muito rapidamente para os fazendeiros inquietos e um
pouco assustados dos distritos de Graaff-Reinet e de Albany que as centenas de
mantatees e de bechuana (tswana) que atravessaram o Orange no iriam sequer
criar problemas de segurana. Os seus portes amveis e quase tmidos, o fato
de que a maioria dentre eles perdera todo elo e toda coeso de grupo, levaram
os colonos a pensarem que os refugiados sotho e tswana poderiam se tornar
"serventes dceis e devotados"16, satisfazendo, assim, uma das necessidades mais
urgentes da colnia. Este juzo se revelou acertado j que a colnia do Cabo
lucrou finalmente com os efeitos destruidores do Mfecane. De fato, o gover-
nador decidiu, em 1823, que os refugiados deveriam servir como trabalhadores
agrcolas para os colonos que os solicitassem, durante um perodo de, pelo
menos, sete anos17. Os fazendeiros dos distritos de Graaff-Reinet e de Albany
aprovaram esta deciso na medida em que lhes faltava mo de obra.
    As opinies da poca quanto  qualidade dos trabalhadores sotho e tswana
no so unnimes. Em 1834, um naturalista e explorador sul-africano, o Dr.


16    Ver, por exemplo, as representaes (e as legendas que as acompanham) dos dois supostos "Mantatees",
      em G. Butler, 1974, p. 228 e tambm p. 181-182.
17    G. M. Theal, 1891, p. 240; G. Butler, 1974, p. 182; W. F. Lye (org.), 1975, p. 20.
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                  157



Andrew Smith, constatou que alguns fazendeiros achavam os seus empregados
"lentos" e muitos dentre eles "extremamente vidos, at mesmo desonestos e todos
muito preguiosos"18. Por outro lado, um outro explorador, George Thompson,
observou que "a repartio de algumas centenas de refugiados mantatees nas
famlias mais honradas, como domsticos e pastores" revelou-se "uma grande
vantagem"19. O ponto de vista de Thompson no difere, contudo, das opinies
e observaes de Andrew Smith, segundo as quais, apesar do que diziam os
fazendeiros a respeito dos seus empregados, a presena dos sotho e dos tswana
na colnia era "desejvel na medida em que eles [...] supriam a falta de pessoal,
devido ao fato que os hotentotes tinham preferido, nos anos anteriores, outras
vocaes do que o servio dos fazendeiros"20. De fato, a maioria dos khoi do
Cabo mudou-se para os centros urbanos onde vivia sob a proteo das misses
crists a fim de evitar a humilhao de trabalhar para aqueles que lhes haviam
tomado as suas terras ancestrais.
     impossvel dar o nmero exato de refugiados tswana e sotho que encon-
traram asilo na colnia do Cabo. Poderia tratar-se de vrias centenas, talvez
de milhares de homens. Alm disso, este afluxo durou enquanto persistiram os
distrbios no interior, e s no fim de 1828, alguns refugiados tswana e sotho
comearam a retornar para casa. O nmero dos que retornaram cresceu na
metade da dcada de 1830, uma vez que a paz e a estabilidade estavam resta-
belecidas por chefes como Moshoeshoe, o fundador da nao sotho21. Durante
os primeiros cinco anos do Mfecane, parece que outros refugiados penetraram
o territrio da colnia. George Thompson teria estimado em mais de mil o
nmero de refugiados tswana e sotho na colnia em 182622. Isto aconteceu trs
anos aps a chegada da primeira onda dos desterrados.
    Qualquer que tenha sido o nmero destes refugiados, vrios pontos so
indiscutveis. Em primeiro lugar, como j sublinhamos, os problemas dos povos
de Natal, do vale do Caledon, do Orange e do Highveld foram  ironicamente
 uma beno para a colnia do Cabo. Isto forneceu mo de obra barata a uma
comunidade agrcola que a falta de pessoal ameaava arruinar. A chegada desta
fora de trabalho deu um novo impulso na agricultura nos setores orientais da
colnia. Em segundo lugar, pode-se dizer que, em Albany e Graaff-Reinet, o


18   W. F. Lye (org.), 1975, p. 21.
19   Citado em G. Butler, 1974, p. 182.
20   W. F. Lye (org.), 1975, p. 21.
21   W. F. Lye, 1969, p. 203.
22   Ibid., p. 202-203, citando G. Thompson.
158                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



perodo "inteiramente branco" da colonizao  durante o qual os fazendeiros
europeus, suas mulheres e seus filhos deviam executar as tarefas as mais "baixas"
 acabou com a chegada dos trabalhadores africanos. Diz-se que esta mudana,
ocorreu antes do fim da dcada de 182023. Contribuiu para minar um dos prin-
cpios fundamentais que tinham presidido a criao do "Anglosto" ou Albany,
e segundo o qual os colonos brancos apenas podiam contar com suas prprias
foras para sobreviverem. A partir deste momento, a importncia da mo de obra
negra no desenvolvimento econmico da colnia destacou-se nitidamente.
    O terceiro ponto indiscutvel relaciona-se ao afluxo dos tswana e dos sotho
na colnia. Este afluxo permitiu encontrar uma mo de obra barata, o que minou
um dos princpios dos colonos de Albany e de Graaff-Reinet, o da agricultura
intensiva. Em parte devido aos fazendeiros que exigiam mais terras, em parte
devido  disponibilidade de uma mo de obra barata, as fazendas de 40 hectares
se transformaram em propriedades mais vastas por volta de 182524.
    Por seu lado, os tswana e os sotho lucraram igualmente com a sua estadia
temporria na colnia. De um lado, lhes foi permitido estabelecerem moradias
nas terras de seus empregadores. De outro, segundo os termos do seu "aprendi-
zado", eles eram pagos em cabeas de gado e em outros produtos25. Deste modo,
muitos puderam adquirir bens pessoais que podiam levar para seu pas.
    A presena dos sotho e dos tswana na colnia no resolveu, contudo, a outra
necessidade dos colonos. Ela no mudou em nada a natureza das relaes entre
estes e os seus vizinhos, os nguni do Sul. Tenses, conflitos fronteirios, roubos
de gado, e represlias: tudo continuou como o fora no passado.
    Este quadro das relaes entre brancos e negros na colnia deve, contudo,
ser equilibrado para que o leitor no tenha a impresso de uma ausncia total
do intercmbio pacfico. Apesar das disputas e escaramuas relacionadas aos
direitos de caa e de pastagens, existia um desejo mtuo de promoo das
relaes comerciais, pois cada grupo possua produtos que o outro no tinha.
Por exemplo, os xhosa dispunham de marfim, chifres, couros, bois e borra-
cha, produtos muito procurados pelos comerciantes coloniais. Por sua vez, eles
tinham necessidade de cobre, contas, botes, plvora e lcool  em particular,
a aguardente , coisas que s os comerciantes poderiam lhes fornecer. Assim,
apesar das hostilidades entre africanos e colonos, existia um sistema de troca.
Nenhuma forma de controle militar ou jurdico poderia acabar com ele. De

23    G. Butler, 1974, p. 181.
24    As fazendas foram aumentadas em 1825, de acordo com G. M. Theal, 1981, p. 239.
25    W. F. Lye (org.), 1975.
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                                         159



fato, apesar dos embates entre brancos e negros na fronteira oriental, as trocas
comerciais prosseguiram a despeito da poltica oficial do governo. O controle
estrito exercido na fronteira pelas autoridades s incentivava a cooperao entre
brancos e negros em um sistema de contrabando.
    E foi por que este contrabando prosperou que o governador, sir Rufane
Donkin, decidiu em 1821 regularizar as trocas entre a colnia e os xhosa26.
Tratava-se de instituir uma feira regular  at mesmo vrias   beira do
Keiskamma. De incio oposto a este projeto, o governador aceitou em seguida a
realidade da situao e uma feira foi criada em Fort Willshire. Ela acontecia, de
incio, anualmente, e desenvolvendo-se rapidamente, chegou a quatro vezes ao
ano, depois se tornou mensal e, em 1824, semanal27. Os comerciantes da col-
nia e os comerciantes xhosa iam aos milhares para trocar os seus produtos. Os
negociantes africanos  homens e mulheres - chegavam a Willshire de regies
to longnquas quanto aquela situada entre o Keiskamma e o Kei28. Traziam
chifres, marfim, couros, borracha e bois e levavam contas, botes, fios de cobre,
aguardente e toda uma gama de produtos europeus.
    A feira de Willshire era tambm um local de encontro. O dia da feira era a
ocasio para brancos e negros tentarem se comunicar. Ao comerciar, cada um
tentava se fazer entender pelo outro falando em sua lngua. Como diz Dug-
more, "falava-se um cafre bizarro [...] e um ingls e um holands no menos
bizarros"29.
    Todavia, o mercado de Willshire permaneceu uma fachada  talvez neces-
sria. Ele no podia esconder a realidade profunda das relaes entre brancos e
negros. Com efeito,  preciso sublinhar que Willshire era antes de tudo um posto
de defesa fronteirio, localizado numa frente violenta onde tudo testemunhava
a existncia do conflito. O dia da feira era realizado em uma atmosfera militar:
a multido matizada, branca, morena e negra, era atravessada pelos uniformes
vermelhos, verdes e azuis dos regimentos de linha, de fuzileiros e artilheiros,
como observou Dugmore.
    O comrcio florescente que se estabelecera entre negros e brancos no podia
fazer que os xhosas se esquecessem que as suas terras ancestrais encontravam-se
no momento nas mos dos colonos brancos. Assim, mesmo que negros e bran-


26   G. Butler, 1974, p. 197.
27   G. M. Theal, 1891, p. 237.
28   R. H. Dugmore, 1958.
29   Quando das duras negociaes comerciais, os comerciantes ingleses e holandeses tentavam se expressar
     em xhosa, enquanto que os comerciantes xhosa tentavam se expressar nas duas lnguas europeias.
160                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



cos comerciassem em Willshire sob o olhar atento das autoridades, em terras
xhosa o trfico de armas de fogo entre contrabandistas brancos e compradores
xhosa era florescente. Estes ltimos compravam fuzis para se preparar para o
grande confronto que, segundo eles, no tardaria a acontecer. A guerra explodiu
efetivamente em 1834-1835; esta no foi a ltima e nem a primeira. Outros
fatos lembram a realidade violenta das relaes entre os xhosa e os colonos: ao
mesmo tempo em que as transaes comerciais se realizavam em Willshire e
no pas xhosa, viajantes brancos solitrios e jovens pastores europeus vigiando o
rebanho de seus pais foram assassinados por xhosa descontentes30.


      A ameaa externa e a reao orquestrada
      por brancos e negros
     evidente, ento, que, at 1828, os acontecimentos do Mfecane no tinham
ameaado seriamente a estabilidade e o equilbrio das relaes entre brancos e
negros do Cabo. Como j vimos, os refugiados tswana e sotho que afluram na
parte branca da colnia foram rapidamente integrados  sua vida econmica.
No Nordeste, os mpondo de Faku tinham, quase por si mesmos, impedido os
regimentos de Shaka de avanar alm das terras mpondo.
    Esta situao mudou, entretanto, em 1828. Um outro tipo de refugiado fez
de repente a sua apario nas regies da colnia que se estendiam a Leste do
Kei. Diferente dos sotho e dos tswana, estes refugiados semearam o terror entre
os tembu e os xhosa de Hintsa. Eram igualmente diferentes, pois, ao contrrio
dos sotho e dos tswana, eles haviam mantido quase intacta a sua coeso poltica,
sua lealdade pelos seus e suas capacidades militares. Tratava-se dos ngwane,
comandados por Matiwane, um guerreiro experiente que j aterrorizara vrios
Estados  inclusive aquele dos sotho de Moshoeshoe.
    Os ngwane, os quais naquele momento incluam elementos hlubi, atravessa-
ram o Orange vindo do Lesoto e penetraram as terras dos tembu entre janeiro
e fevereiro de 1828. A sua chegada coincidiu com a dos regimentos de Shaka
em terras mpondo, criando um sentimento de inquietude entre os colonos,
os tembu e os xhosa. Deste modo, toda a zona desde os distritos orientais
at o Umzimvubu no Nordeste estava cheia de rumores relativos ao "Fetcane"



30    Por exemplo, os filhos de Garbett e Sloman, as vtimas de Clay Pitt, o partido irlands etc. encontravam-
      -se entre as vtimas da clera xhosa.
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                                      161



ou "Mfecane"31, como se chamavam os regimentos zulus32. Os regimentos de
Shaka em terras mpondo tentaram avanar mais ao Sul para abrir a via para o
Cabo. Shaka queria, realmente, estabelecer relaes diplomticas com a colnia.
Embora estivessem decididos a combater todos os Estados nguni do Sul que
se encontrassem em seu caminho, os zulus receberam a ordem muito estrita de
evitarem confrontos com os ingleses.
    Voltemos aos ngwane. Desde que penetraram em terras tembu, encontraram-
-se face a face com uma coluna avanada das foras da colnia que acreditou
que estes fossem zulus. Seguiram-se escaramuas, cujas consequncias eram
incertas. Os colonos se prepararam para uma batalha maior e mais decisiva.
O governador Somerset, Hintsa, o chefe dos gcaleka, e Vusani, o chefe tembu,
cooperaram para este fim. Uma fora composta por tropas britnicas, colonos,
regimentos xhosa e tembu foi colocada em prontido para a batalha final que
aconteceu em Mbolompo. Os ngwane foram completamente derrotados e mui-
tos dentre eles foram mortos. Alguns dos sobreviventes se juntaram aos tembu
e aos xhosa, aumentando a populao mfengu nesta zona. Outros recuaram em
direo ao Lesoto com Matiwane e Moshoeshoe permitiu-lhes se estabelecerem.
Entretanto, a saudade do pas empurrou Matiwane e seus partidrios de volta a
Natal.  l que foi morto por Dingane que havia sucedido a Shaka como chefe
dos zulus.
    A derrota decisiva dos ngwane em Mbolompo conduziu  eliminao de
um dos agentes mais poderosos e mais destruidores do Mfecane. Assim, aps
Mbolompo, a colnia e as regies tembu e xhosa no sofreram mais ameaas
externas srias. Esta ao orquestrada contra os ngwane de Matiwane significou
a formao de uma aliana temporria entre os ingleses, os xhosa e os tembu.
Isto exigira, naturalmente, a suspenso das hostilidades entre britnicos e os
xhosa.
    Mas, enquanto a ao orquestrada dos xhosa e dos tembu pode ser explicada, o
engajamento britnico no  to fcil de compreender. Quais consideraes os nor-
tearam? O territrio ingls no corria o risco de ser invadido pelos ngwane. Alm
disso, mesmo se eles ainda tivessem a impresso de que os invasores das terras tembu
fossem os zulus de Shaka, este ltimo nunca dera o menor motivo para se acreditar
numa invaso de sua parte. Temeriam eles, talvez, que os distrbios contnuos em
terras tembu chegassem  regio xhosa, forando-os a fugir em direo Oeste para


31   Ver nota 15 neste captulo.
32   Os rumores relativos  presena dos zulus no eram desprovidos de fundamento, j que um regimento
     zulu avanava em direo ao Sul atravs das terras mpondo.
162                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



o distrito oriental, semeando deste modo a inquietude entre os fazendeiros? Ou,
como j foi sugerido por outros, seria o engajamento britnico calculado e motivado
por consideraes diplomticas, muito mais do que pela crena de uma invaso?
Tal ponto de vista significaria que o governo e os crculos da colnia pensavam
que a ajuda militar fornecida aos xhosa e ao tembus faria com que os primeiros se
esquecessem do fato de que as suas terras ancestrais estavam nas mos de europeus
e contribuiria, assim, a desenvolver relaes pacficas entre brancos e negros.
    Quaisquer que tenham sido as razes do engajamento britnico na campa-
nha "Fetcane" de 1828, um ponto importante deve ser mencionado. O combate a
Matiwane forneceu um exemplo de um caso onde brancos e negros enterraram o
machado da guerra para enfrentarem um inimigo comum. Podemos somente con-
cluir que, a despeito da tenso e dos conflitos abertos que caracterizavam as relaes
entre xhosa e colonos, reinava no Cabo uma certa estabilidade, um certo equilbrio;
brancos e negros se sentiram ameaados em 1828 e se esforaram em defender-se.


      Os Mfengu
    Um dos resultados mais importantes e mais durveis do Mfecane foi o apa-
recimento de novas unidades sociais, de novos Estados polticos, quando as
vtimas dispersas e desalojadas pelos distrbios se reagruparam, com frequncia
em novas regies e em meios diferentes. Na maioria dos casos, os novos grupos
eram constitudos de elementos diversos que, graas s qualidades de liderana
de alguns indivduos, foram reagrupados no seio de entidades polticas iden-
tificveis. Os swazi, os gaza e os ndebele so bons exemplos de tais entidades.
Inmeros sobreviventes das guerras juntaram-se a estes chefes para reforar os
quadros destes novos Estados ou foram absorvidos pelos grupos polticos j exis-
tentes. Eis como Moshoeshoe, por exemplo, edificou uma grande nao sotho.
    Ainda mais numerosos foram os refugiados que restaram sem chefes, errantes
e miserveis; s vezes recebidos por alguns dirigentes, nunca foram totalmente
assimilados pelas comunidades que os acolhiam33. Este foi o caso de vrios
elementos originrios de Natal que penetraram na regio nguni do Cabo. Eles
chegavam em grupos mais ou menos grandes ou, s vezes, isoladamente. Alguns
vinham do Norte das terras nguni, outros da regio do vale do Caledon. Como
eram famintos e miserveis, viviam da mendicncia, ukufenguza, expresso da


33    Ver o testemunho ocular de um dos participantes, Bertram Bowker (1810-1907), em G. Butler, 1974, p.
      252-254. E tambm R. H. Dugmore, 1958, p. 44; J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 92.
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                                            163



qual deriva aquela de amamfengu (Fingo). Parece que este nome lhes foi dado
pelos seus anfitries tembu, xhosa e mpondo. , deste modo, aplicado coleti-
vamente aos refugiados ou aos emigrantes da poro setentrional do territrio
nguni e, essencialmente, mas no exclusivamente, aos hlubi, bhele, ngwane e zizi,
aos quais deu-se asilo na regio do Cabo aps terem sido deslocados e dispersos
pelo Mfecane34. Estes fugitivos comearam a refluir em direo ao Cabo quase
no incio das guerras que se desenrolaram na poro setentrional do territrio
nguni; o seu nmero no parou de crescer entre 1822 e 1828. A derrota dos
ngwane de Matiwane, em 1828, forou um grande nmero de sobreviventes a
se juntarem  populao mfengu da regio nguni do Cabo.
    A reao dos chefes tembu, xhosa e mpondo s solicitaes dos refugiados
foi positiva. Eles os receberam como pessoas, humanamente, e os proveram de
terras, alimentos e gado. De acordo com o costume, os chefes que os recebiam
conservavam a propriedade do gado, mas os mfengu podiam consumir o leite
das vacas e utilizar os animais para as suas tarefas domsticas.
    Como a maioria dos mfengu era muito trabalhadora, muitos puderam se
estabelecer rapidamente e at mesmo adquirir bens. Eles produziam alimentos
suficientes para a sua subsistncia e at excedentes para o mercado. Os mfengu
eram, entre outros, especializados na lavoura do tabaco, o qual trocavam por
gado. Participaram tambm no comrcio da fronteira com os colonos e se mos-
traram excelentes negociantes35.
    Se, de uma maneira geral, os mfengu que viviam em terras tembu e mpondo
pareciam estar felizes e serem, em grande medida, integrados s comunidades
que os acolhiam, os mfengu da regio xhosa continuaram a sentirem-se exclu-
dos.  por isso que no puderam se integrar  comunidade xhosa.  verdade
que aprenderam rapidamente a falar  ainda que com um sotaque  a lngua
dos seus anfitries, mas, como continuavam a serem considerados, tanto por
eles mesmos como pelos xhosa, um grupo separado e dominado, nenhuma
integrao total foi possvel.
    Esta falha provocou relaes hostis entre as duas comunidades e contribuiu
para tencionar as relaes dos ingleses e dos xhosa, j difceis. Como j disse-
mos, no incio, as relaes dos xhosa e dos mfengu eram calorosas  o que teria
permitido a integrao destes ltimos. Entretanto, comearam a se degradar e
os mfengu se puseram a buscar outras solues e uma situao mais favorvel. O


34   Esta definio no inclui geralmente os imigrantes voluntrios de Natal que se instalaram no territrio
     dos nguni do Cabo aps o Mfecane. Ver tambm J. J. Van Warmelo, 1935, p. 65.
35   J. Ayliff e J. Whiteside, 1962, p. 20.
164                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



que provocou tal degradao? No se sabe exatamente, mas  claro que a falha no
processo de integrao foi explorada por foras externas que buscaram exacerbar
e perpetuar todas as diferenas culturais, polticas e econmicas existentes entre
os dois povos. Os fatores externos mais importantes da diviso foram a Wesleyan
Methodist Missionary Society (Sociedade Missionria Metodista Wesleyana), os
colonos brancos e o governo da colnia do Cabo.
    A Wesleyan Methodist Missionary Society trabalhava entre os xhosa de Gcaleka
desde julho de 1827, quando Hintsa permitiu que William Shaw instalasse uma
misso nesta zona. Aps as negociaes, uma misso foi estabelecida em But-
terworth, perto da capital de Hintsa, por W. J. Shrewsbury. Ainda que a presena
da misso no entusiasmasse Hintsa, este a protegeu e ajudou Shrewsbury e sua
esposa. Ele autorizou tambm os mfengu a assistirem os servios religiosos36.
    O aparecimento dos missionrios wesleyanos nesta poca interferiria com
o processo de assimilao e de integrao dos mfengu em terras xhosa. As
atitudes de vrios missionrios com relao s reclamaes dos mfengu  reais
ou imaginrias  se revelaram cruciais. Os mfengu sentiam-se excludos, poli-
ticamente oprimidos e economicamente explorados pelos seus anfitries xhosa.
 esta relao "chefe/sdito" entre os xhosa e os mfengu que foi transformada
abusivamente em relao "senhor/escravo" por John Ayliff, o sucessor de Shrews-
bury e, mais tarde, retomada pelos funcionrios do governo do Cabo. O mito da
escravido  ligado quele no qual o Mfecane tinha completamente aniquilado
o poder militar dos mfengu  teve, segundo R. A. Moyer37, alguns efeitos sobre
as relaes entre os dois grupos. Primeiro, apresentavam-se os mfengu como
seres dignos de piedade que mereciam a simpatia do governo do Cabo, dos
missionrios e dos filantropos. Em seguida, na medida em que se exagerava
a impotncia militar dos mfengu e o fato de os xhosa os "oprimirem", os dois
mitos levaram os missionrios e as autoridades do Cabo a pensar que eles eram
obrigados a defender os direitos dos mfengu e de "livr-los" da "tutela" xhosa.
Enfim, os dois mitos parecem ter sido rapidamente assimilados pelos prprios
mfengu que continuaram a se sentir muito diferentes dos xhosa.  a razo pela
qual comearam a ver os missionrios, os colonos e o governo do Cabo como
libertadores e tiveram a tendncia de identificar os seus prprios interesses, aspi-
raes, esperanas, temores e ansiedades com aqueles destes grupos externos.
    As foras externas, das quais falamos, tinham boas razes para incentivar o
desenvolvimento destes mitos. Quanto mais os mfengu se consideravam opri-

36    Ibidem, p. 20.
37    R. A. Moyer, 1974.
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                     165



midos e explorados, mais eles dependiam dos missionrios para a defesa da sua
causa. Esperava-se que, em recompensa pela ajuda destes ltimos, fossem mais
receptivos aos ensinamentos cristos. Quanto mais os mfengu se consideravam
explorados economicamente pelos xhosa, mais fcil era recrut-los como mo
de obra agrcola barata.
    Mais grave ainda: considerando-se diferentes dos xhosa e identificando seus
temores e seus interesses com os dos colonos britnicos, os mfengu foram levados
a se distanciarem dos xhosa e se juntarem  colnia na primeira oportunidade.
Esta oportunidade foi finalmente fornecida pela sexta guerra fronteiria (1834-
-1835), quando os mfengu tiveram que decidir sobre a posio a ser adotada
numa guerra que, para comear, eles consideravam como um conflito entre os
ingleses e os xhosa. Na ocasio de uma reunio realizada logo aps o incio das
hostilidades, eles decidiram, de um lado, que nenhum mfengu participaria da
invaso da colnia e, de outro lado, que na medida do possvel eles defenderiam
e protegeriam os missionrios e os comerciantes. Por fim, eles tiveram o papel
de mensageiros britnicos ao encaminhar as mensagens que John Ayliff dirigia
ao comandante do exrcito ingls para o manter informado dos movimentos e
das intenes das foras xhosa.
    De fato, do incio da guerra em dezembro de 1834, at maio, de 1835 
quando deixaram as terras xhosa e foram se instalar nos territrios controlados
pelos britnicos , os mfengu realizaram uma tarefa de espionagem consider-
vel. No somente encaminharam as mensagens de Ayliff e do comandante do
exrcito, como tambm informaram o primeiro das atividades dos xhosa Gaika e
Gcaleka. Ayliff, em Butterworth, transmitia estas informaes ao juiz-comissrio
civil de Grahamstown. Os mensageiros mfengu percorriam regularmente os
250 kilometros que separavam Grahamstown do territrio xhosa38. Ainda que
a maioria destas misses de ligao fosse realizada  noite, Hintsa, o chefe dos
Gcalekas, as descobriu muito rapidamente e decidiu acabar com esta traio.
    Durante as semanas que se seguiram ao incio das hostilidades, inmeros
centros brancos isolados foram destrudos pelos xhosa que mataram, igualmente,
fazendeiros e comerciantes. O governador, Benjamin D'Urban, teve que ir at a
zona de conflito para organizar a defesa da colnia. Foi, ento, ao acampar perto
de Butterworth que Ayliff e seus protegidos mfengu lhe solicitaram que fossem
declarados como "sditos britnicos" para os "livrar" da "tutela" xhosa. Esta solici-
tao recebeu uma resposta positiva em 3 de maio de 1835 e os mfengu  16.000


38   J. Ayliff e J. Whiteside, 1962, p. 23-24.
166                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



homens, mulheres e crianas, com as suas 15.000 cabeas de gado e milhares de
cabras, tudo pertencendo aos chefes xhosa  deixaram as terras xhosa escoltados
por tropas britnicas39. O trajeto comeou em 9 de maio e colocou efetivamente
um fim ao processo de assimilao e de integrao que tinha se desenvolvido aps
a chegada dos mfengu no territrio xhosa. A viagem terminou em 14 de maio,
quando o ltimo homem e o ltimo animal atravessaram o Keiskamma e tocaram
a "terra prometida", o distrito de Peddie, que o governador D'Urban havia reser-
vado aos mfengu. Aps a entrega oficial das terras aos oito chefes mfengu, cada
homem teve que jurar ser fiel a Deus e leal ao rei da Inglaterra; que cooperaria
com os missionrios enviando-lhes seus filhos. Os mfengu no deveriam esquecer
a "tutela" da qual o governo do Cabo e os missionrios os haviam "livrado".
    A evacuao dos mfengu da regio xhosa se deu em meio  sexta guerra fron-
teiria e, como j sublinhamos, ela se fez sob algumas condies. Por exemplo,
os mfengu deveriam ajudar os ingleses contra os xhosa  o que fizeram ime-
diatamente aps a sua chegada em seu novo territrio. Quase 500 mfengu se
juntaram ao exrcito britnico e contriburam muito amplamente para expulsar
os xhosa do vale do Bfalo. Eles se encarregaram igualmente de vigiar todas as
passagens que levavam  colnia e de recuperar o gado roubado pelos xhosa.
    Uma outra condio de sua "libertao" foi que fornecessem a mo de obra
barata para a colnia: ideia muito bem acolhida no Cabo, tendo em vista que
nesta poca inmeros tswana e sotho retornavam para casa aps terem con-
cludo seu "aprendizado"  e por que a paz regressava s suas prprias terras40.
No tocante a cooperao com os missionrios, os mfengu desejavam que estes
educassem os seus filhos e vrios adultos assistiam aos servios religiosos.
    Sobretudo, a evacuao dos mfengu foi calculada de modo a enfraquecer os
xhosa quando dos futuros conflitos com os brancos. A regio onde os mfengu
foram instalados tinha sido escolhida por que ela constitua uma zona tampo
entre os xhosa e a colnia britnica.


      Concluso
  O Mfecane trouxe mudanas militares, polticas, sociais, econmicas e at
mesmo, culturais entre os povos de diversas partes da frica que ele afetou. A
amplido de sua influncia dependia muito de fatores como, por exemplo, a


39    Ibid., p. 28-29.
40    Ver nota 17 neste captulo.
O impacto do Mfecane sobre a colnia do Cabo                                 167



natureza dos agentes do movimento e seus objetivos, bem como de fatores locais,
tais como as condies militares, polticas e sociais.
    Como j vimos, trs tipos de agentes do Mfecane penetraram na zona defi-
nida como a colnia do Cabo. Trata-se, primeiramente, dos refugiados mise-
rveis e esfomeados  sotho, tswana e nguni do Norte  que vinha procurar
alimento, ajuda e proteo. A maioria dos tswana e dos sotho foi empregada
pelos fazendeiros europeus; quanto aos nguni do Norte, os quais vinham de
Natal, foram acolhidos pelos chefes xhosa, tembu e mpondo. Houve em seguida
os regimentos zulus de Shaka, que invadiram o territrio mpondo, mas no
puderam ir alm devido  resistncia mpondo. Enfim, havia povos to fortes
e destruidores quanto os zulus, como os tembu setentrionais de Ngoza e os
ngwane de Matiwane. Os tembu de Ngoza penetraram as terras mpondo em
1822-1823, mas, como os zulus que os seguiram, eles no ultrapassaram o Umzi-
mkulu devido  resistncia mpondo.
    As nicas foras realmente perigosas que parecem ter avanado mais ao Sul
foram os ngwane de Matiwane, os quais provocaram uma grande inquietao
na regio situada entre o Umzimvubu e o Gamtoos quando invadiram as terras
tembu a partir do Lesoto. Por serem confundidos com os zulus de Shaka e
porque pareciam ameaar a estabilidade e o equilbrio da colnia  apesar dos
embates fronteirios entre xhosa e europeus , eles foram combatidos por uma
fora conjunta inglesa, xhosa e tembu. O impacto militar da invaso ngwane
foi, de todos os modos, muito limitado, j que tal invaso foi rpida e eficaz-
mente impedida por esta fora conjunta. Quanto  aliana entre ingleses, xhosa
e tembu, destinada a defender interesses comuns contra uma ameaa externa,
foi igualmente muito breve j que acabou com o desaparecimento da ameaa
ngwane.
    Parece, entretanto, que a influncia econmica, social e cultural do Mfecane
fora maior e mais duradoura do que suas consequncias militares ou polticas.
Isto  ainda mais interessante porque os grupos que exerceram mais impacto
nestes campos foram os mais fracos: os grupos de miserveis e mendigos for-
mados pelos tswana, sotho e mfengu, os quais eram militarmente inofensivos.
Como j visto,  graas  chegada dos refugiados tswana e sotho, em 1823, que
as comunidades agrcolas de Graaff-Reinet e Albany escaparam da catstrofe
provocada pela carncia de mo de obra barata. A presena desta fora de tra-
balho minou igualmente os princpios nos quais a agricultura colonial havia sido
originalmente baseada: a autossubsistncia e a lavoura intensiva. A chegada dos
mfengu no distrito de Peddie, em 1835, iria assegurar aos fazendeiros uma fonte
inesgotvel de mo de obra barata.
168                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Devido  sua origem  as terras nguni do Norte  e do mesmo modo pelo
seu nmero, os mfengu constituam potencialmente uma fora poltica, social e
cultural. Mas a sua influncia poltica sobre os seus anfitries nguni foi enfra-
quecida pela sua partida, em 1835, da regio xhosa. Como sditos britnicos,
eles participaram das guerras que os ingleses travavam contras os xhosa. Todos
os acordos concludos no final destas guerras s diziam respeito aos ingleses,
e no aos mfengu. Por exemplo, a participao e o sacrifcio dos mfengu nas
guerras de 1834-1835, 1846 e 1851-1853 contra os xhosa foram to impor-
tantes quanto os dos soldados da colnia; mas estas guerras permaneceram um
assunto anglo-xhosa no qual os mfengu no ocupavam mais do que uma posio
secundria.
    A influncia cultural dos mfengu sobre os nguni do Cabo e sobre os colo-
nos brancos no  fcil de mensurar. Ademais, os nguni do Cabo e os nguni
de Natal eram bastante semelhantes culturalmente. Existe, contudo, um campo
no qual a influncia mfengu foi importante. Como aceitaram o cristianismo, a
educao, a agricultura e o trabalho europeus bem antes do nguni do Cabo, os
mfengu tiveram um papel essencial como agentes da modernizao em outras
comunidades africanas do Cabo. Foram eles que forneceram os primeiros pro-
fessores africanos, os primeiros padres, os primeiros representantes agrcolas e
os primeiros secretrios.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880        169



                                          CAPTULO 7


  Os britnicos, os beres e os africanos na
          frica do Sul 1850-1880
                                             Ngwabi Bhebe




    Entre 1850 e 1880, quando se falava da frica do Sul, tratava-se ainda de
uma simples expresso geogrfica sem significado poltico que designava um
territrio dividido em colnias britnicas, repblicas beres e Estados africanos.
At a dcada de 1870, a Gr-Bretanha, que buscava a supremacia sobre o sub-
continente, hesitava em realizar as suas ambies de ter o controle poltico do
conjunto da regio. Na regio, eram numerosos os funcionrios britnicos que
exortavam o seu governo a dar este passo, enfatizando que o melhor meio de ser-
vir aos interesses nacionais, tratando equitativamente os diversos povos da frica
do Sul, era colocar toda a regio sob a administrao britnica. O governo era
criticado devido s despesas que isto traria. Com efeito, seria preciso conquistar
um grande nmero de Estados africanos; vencer as repblicas beres bravamente
apegadas  sua independncia; persuadir as colnias britnicas a se associarem
a estes Estados e, por fim, custear a administrao do pas, ento muito pobre.
A partir de 1870, todavia, com o surgimento do "novo imperialismo" europeu,
a descoberta das jazidas de diamantes e de ouro e a expanso concomitante
dos seus investimentos na regio, os britnicos mudaram de opinio e agiram
energicamente na afirmao da sua hegemonia sobre todo o subcontinente.
Por volta de 1880, inmeras comunidades africanas haviam sido conquistadas
e anexadas, concedendo proteo a umas e humilhando, pela fora das armas,
a mais rebelde e mais poderosa entre elas, a dos zulus. O desejo de dominar
170                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



com mais firmeza as sociedades sul-africanas fez, da mesma maneira, com que
os britnicos entrassem em guerra com os beres. No final destas guerras e
com os acordos que delas advieram e que previam fosse uma anexao pura
e simples, fosse um certo grau de soberania, a Gr-Bretanha pde, a partir de
1991, reivindicar com justia, diante das outras potncias europeias, a posse de
algo mais do que uma simples zona de influncia na frica do Sul. Do ponto
de vista da prpria frica do Sul, este perodo viu as colnias britnicas terem
acesso a um certo grau de autonomia, os beres consolidarem sua unidade e os
africanos perderem progressivamente as suas terras e sua soberania em proveito
destes e daqueles.


      Os britnicos se retiram do interior
     No incio da segunda metade do sculo, os britnicos se retiraram do interior
da frica do Sul. Sir Harry Smith, enrgico e presunoso governador e alto-
-comissrio, iniciou as suas funes em 1847, tinha em pouco tempo, desde a sua
chegada, expandido de modo muito espetacular a zona dominada pelos britni-
cos. Convencido das virtudes pacficas e estabilizadoras da ordem britnica, bem
como da necessidade de levar aos africanos "os benefcios" da civilizao indus-
trial e da cultura britnica, ele anexou o pas xhosa entre o Keiskamma e o Kei,
denominando-o de Cafraria britnica e a totalidade do territrio habitado pelos
beres e africanos situado entre o Vaal e Orange que se deu o nome de colnia
do rio Orange. Smith imaginava que a administrao destas novas conquistas
seria financiada com receita local e que no representaria, consequentemente,
um peso financeiro para os britnicos. A sequncia dos acontecimentos mos-
traria o seu erro. Sua poltica provocou guerras que custaram muito caro finan-
ceiramente, em vidas humanas e destruio. De fato, os beres no aceitaram
serem anexados, ao passo que os africanos rejeitavam as medidas "civilizadoras"
e se rebelavam para recuperar as terras confiscadas e a soberania perdida.
    Os primeiros a iniciar a resistncia armada foram os beres sob a liderana de
Andries Pretorius. Em 1848, ele reuniu uma tropa de 12.000 homens e expulsou
da colnia do rio Orange o residente britnico (o major Harry Warden) e seus
colaboradores. Mas os beres foram incapazes de usufruir de sua vitria. No
tardaram a se dispersar, deixando Pretorius com poucos homens, facilmente
derrotados por Smith em 29 de agosto de 1848.
    Tendo Smith restabelecido a tutela britnica e apoiado por uma pequena fora
militar, retornou apressadamente ao Cabo, deixando a Warden a tarefa delicada
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880           171



e temvel de delimitar os territrios da colnia do rio Orange, reivindicados por
grupos rivais. As partes presentes eram o poderoso reino de Moshoeshoe, os
Estados mais modestos dos taung de Moletsane, dos tlookwa de Sikonyela, dos
rolong de Moroka e, por fim, os beres, os kora e os griqua. A populao do
reino de Moshoeshoe cresceu muito rapidamente com o afluxo dos refugiados
fugindo das exigncias dos invasores beres. Moshoeshoe precisava, para o seu
povo, da maior parte das terras do vale do Caledon, desde a sua nascente at a
confluncia com o rio Orange. Ao se espalharem, deste modo, sobre as terras
frteis e arveis que se estendiam alm das fronteiras setentrional e ocidental
do seu pas, as populaes sobre as quais reinava Moshoeshoe entraram em
conflito violento com os seus vizinhos que igualmente desejam estas terras. Os
britnicos tentaram mediar estes conflitos traando as fronteiras. Mas Warden
agravou a situao, j que as suas fronteiras favoreciam os beres e os Estados
menores, em detrimento dos sotho de Moshoeshoe. Ademais, o simples fato de
anunciar que as fronteiras seriam traadas provocou uma competio intensa
entre todos os grupos populacionais para a ocupao das terras, o que levaria ao
recrudescimento dos saques ao rebanho.
    Toda esta crise deixou Moshoeshoe numa situao difcil, j que este s
sobreviveria abstendo-se de tomar uma posio. Ele no desejava colidir de
frente com os poderosos britnicos que doravante impunham sua lei aos beres.
Na eventualidade de uma guerra com seus vizinhos brancos, Moshoeshoe gosta-
ria de poder contar com o apoio deles. Mas os britnicos o incomodavam. Ele j
havia acolhido favoravelmente a chegada deles na regio, esperando que pudes-
sem dissuadir os beres de tomarem as suas terras. Infelizmente, os beres as
tomaram em conivncia com os britnicos. O seu povo tinha a impresso de que
ele colaborava com os britnicos ao ceder-lhes pores do pas, sendo por isso
muito criticado. Nestas condies, ele no podia efetivamente impedir os seus
sditos de violarem as fronteiras de Warden. Sobrava-lhe desaprovar aqueles que
no respeitavam tais fronteiras e, ao mesmo tempo, aproveitar todas as ocasies
para protestar junto s autoridades britnicas contra estas fronteiras inquas.
Mas seus sditos no faziam o menor caso de suas reprimendas. Instalavam-se
onde desejavam e continuavam, por vingana ou mesmo sem serem provocados,
a atacar os rebanhos dos Estados vizinhos.
    Warden, o residente britnico, tampouco podia conseguir a paz na regio.
Suas foras militares eram insuficientes e ele preferiu ignorar as reivindicaes
territoriais de Moshoeshoe. Ao dar uma fronteira aos tlookwa, ele exacerbou o
nacionalismo dos sotho de Moshoeshoe que somente esperavam uma ocasio
propcia para aniquilarem os tlookwa e recuperarem as terras que estes ltimos
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                                                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880
figura 7.1   Mapa da frica do Sul indicando os Estados e os povos, 1850-1880 (segundo N. M. Bhebe).
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            173



haviam conquistado durante a poca em que o reino de Moshoeshoe era ainda
mais frgil. Warden imps at mesmo aos taung de Moletsane uma fronteira
que eles nunca haviam solicitado, j que sabiam que as terras ocupadas por
eles pertenciam a Moshoeshoe. Este e seu povo tampouco podiam tolerar que
invasores recentes, como os kora de Taaibosch, fossem generosamente provi-
dos com terras por Warden. Alis, este ltimo buscava enfraquecer o reino de
Moshoeshoe e assegurar o apoio dos pequenos Estados, a fim de compensar a
fragilidade militar dos britnicos na regio1.
    Efetivamente, quando a guerra irrompeu na sequncia de toda uma serie de
ataques e contra-ataques entre os taung e tlookwa, Warden conseguiu reunir
uma tropa bastante importante composta por alguns beres que o apoiavam,
griqua, rolong e kora. Ele tambm socorreu os tlookwa, dispersou o exrcito
taung nas colinas de Viervoet e completou a sua vitria apropriando-se de 3.468
bovinos e de um certo nmero de ovinos. O temvel Moshoeshoe entrou no
conflito ao lado dos seus aliados, os taung de Moletsane e, juntos, infligiram uma
derrota arrasadora a Warden e a seus aliados africanos. Deste modo, em junho
de 1851 ruiu a administrao britnica na colnia do rio Orange2.
    Warden obteve no mais do que uma ajuda mnima dos beres da regio
e dos britnicos da colnia do Cabo. Os beres solicitaram assistncia queles
entre os seus que tinham se estabelecido na outra margem do rio Vaal, ou busca-
ram conseguir um acordo pacfico com os vencedores, Moshoeshoe e Moletsane.
Na colnia do Cabo, as foras britnicas eram monopolizadas pela guerra contra
os xhosa, que iniciara em dezembro de 1850. De fato, foram estas duas guerras
na frente oriental e na colnia do rio Orange que obrigaram os britnicos a
abandonarem a poltica expansionista de Smith na frica do Sul.
    A guerra de 1850-1853 entre britnicos e xhosa foi provocada pelos esfor-
os que Smith empregou para privar os xhosa de sua independncia. Em 1848,
ele se apoderou de vastos territrios xhosa ao anexar  colnia do Cabo a regio
compreendida entre o Great Fish e o Keiskamma, depois proclamando colnia
britnica da Cafraria o territrio compreendido entre o Keiskamma e o Kei.
Inmeros xhosa foram impedidos de se estabelecerem em suas antigas terras,
a Oeste do Keiskamma, que haviam sido repartidas entre os mfengu lealistas
e os agricultores brancos. Na prpria Cafraria, os xhosa foram divididos entre
diferentes "reservas"; os poderes de seus chefes foram fortemente limitados
pelo fato que tiveram de se submeter ao controle dos magistrados brancos.

1    P. Sanders, 1975, p. 149-150 e p. 159.
2    Ibid., captulo 14.
174                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



Costumes tais como o da labola (dote), e as acusaes de feitiaria foram pos-
tos fora da lei como contrrios ao direito britnico. Ademais, os magistrados
brancos pouco sabiam das leis em vigor no Cabo e, absolutamente, nada do
sistema jurdico xhosa; assim, eles se deixavam guiar por seus sentimentos
pessoais para solucionar os litgios xhosa que lhes eram apresentados. Os
quinhentos membros da polcia africana, na qual se apoiavam os magistrados,
no tinham recebido formao alguma e eram to orgulhosos em executar as
ordens dos brancos que tratavam os seus compatriotas com arrogncia. Todos
estes ressentimentos levariam os xhosa a tentarem se desvencilhar do domnio
britnico.
    Smith ateou fogo  plvora ao tratar o chefe supremo deles com desenvol-
tura, sem levar em conta o apego da populao a seus dirigentes e suas insti-
tuies. Ele convocou o chefe, Sandile, para uma reunio em King William`s
Town. Sandile se recusou a comparecer, pois, alguns anos antes, os britnicos
o haviam detido traioeiramente quando ele atendeu a uma convocao seme-
lhante. Smith deps Sandile e tentou substitu-lo por sua prpria me, associada
a um chefe branco; mas ambos foram rejeitados pelos xhosa. Smith colocou
Sandile na ilegalidade e tentou prend-lo. Em dezembro de 1850, os xhosa no
mais suportaram as ingerncias do governador em suas vidas e comearam a
atacar as foras e as instalaes militares britnicas na regio. Eles liquidaram
vrios postos militares.
    A causa de Sandile foi amplamente sustentada por seus vizinhos africanos.
A Leste do Kei, ele recebeu o apoio moral dos sditos do chefe Sarili. Vrios
membros da polcia africana e dos Cape Coloured Mounted Riflemen (Policia
Montada da Colnia do Cabo, constituda por mestios armados com fuzis)
desertaram e juntaram-se s suas tropas. Os khoi-khoi e alguns tembu com-
bateram tambm ao lado de Sandile. Muitos fazendeiros brancos e africanos
que haviam se colocado ao lado dos britnicos foram mortos, o seu gado cap-
turado e as suas propriedades destrudas. Smith s pde se apoiar nos aliados
africanos porque os fazendeiros brancos da colnia do Cabo no estavam
dispostos a entrarem em guerra. Mesmo com os reforos recebidos do governo
britnico em maro de 1852, Smith no conseguiu conter a sublevao dos
xhosa. A guerra s chegou ao final com o seu sucessor, Sir George Cathcart,
que se assegurou do apoio dos fazendeiros brancos do Cabo ao prometer-lhes
uma parte do rebanho espoliado. De fato, quando os xhosa foram vencidos, em
outubro de 1852, os sditos de Sandile, bem como os de Sarili, que viviam a
Leste do Kei e tinham, sobretudo, dado um apoio moral aos seus irmos do
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880                              175



Oeste, perderam rebanhos enormes, confiscados como presas de guerra pelos
britnicos3.
    O custo da guerra contra os xhosa e a desorganizao total da adminis-
trao britnica na colnia do rio Orange induziram os britnicos a renun-
ciarem  poltica radical de Smith. Eles nomearam dois comissrios, o major
William Hogge e Charles Owen, que foram encarregados de preparar a sada ao
Norte do Orange. Para enfrentar a situao na colnia sem serem incomodados
pelos beres estabelecidos ao Norte do Vaal, os comissrios os compraram ao
assegurar-lhes a sua independncia. Andries Pretorius conseguiu, a despeito da
disperso dos beres do Transvaal e de suas divises em faces rivais, constituir
uma delegao que, com dificuldade, conseguiu se entender com os britnicos e
concluram a Conveno de Sand River, em 17 de janeiro de 1852.
    Nos termos desta conveno, os britnicos reconheciam a independncia do
Transvaal e denunciaram unilateralmente todo tratado de aliana com Esta-
dos africanos situados ao Norte do Vaal. O Transvaal comprometia-se a no
intervir nas questes das colnias britnicas, a no praticar a escravido e nem
comerciar escravos. Alm disso, os britnicos e os beres do Transvaal exclu-
ram de comum acordo, as sociedades africanas dos dois lados do Vaal, dos seus
mercados de armas de fogo e munies, enquanto os beres teriam livre acesso
aos mercados britnicos de armas4. Mesmo que os africanos pudessem comprar
alguns fuzis, recorrendo a meios clandestinos e aos comerciantes britnicos "sem
escrpulos", o embargo anglo-ber de armas impediu efetivamente aos Estados
africanos de constiturem estoques de armas importantes e de adquirir materiais
militares mais modernos disponveis no mercado britnico e em outros merca-
dos europeus. Em resumo, graas a tal acordo, os brancos garantiam para si a
superioridade militar sobre os africanos e tornaram tecnicamente inevitveis as
suas conquistas posteriores.
    Uma vez resolvido o problema do Transvaal, os comissrios abordaram o da
colnia do rio Orange. Cathcart, o novo alto-comissrio, queria restabelecer o
prestgio militar britnico, singularmente manchado aos olhos africanos, infli-
gindo uma derrota eloquente a Moshoeshoe.  frente de importantes foras
de infantaria e de cavalaria, ele encontrou-se com este ltimo em Platberg em
15 de dezembro de 1852 e deu-lhe um ultimato ao qual era impossvel se sub-
meter. Moshoeshoe deveria entregar, num prazo de trs dias, 1.000 cavalos e
10.000 bovinos, para compensar as perdas materiais tidas pelos beres durante

3    E. A. Walker, 1957, p. 250-254; C. Brownlee, 1896, p. 306-319; M. Wilson, 1969b, p. 256.
4    E. A. Walker, 1957, p. 252-253; L. Thompson, 1969b, p. 420-421.
176                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



a guerra lanada por Warden e financiar a cara expedio de Cathcart. Como
Moshoeshoe, incapaz de responder to rapidamente as exigncias, solicitou um
prazo suplementar, Cathcart no se importou com as suas explicaes e ordenou
a invaso do territrio que constitui atualmente o Lesoto. Mas ele enfrentou
uma resistncia forte da infantaria e cavalaria sotho e preferiu retirar-se, quando
Moshoeshoe manifestou uma atitude diplomtica de submisso, atravs de uma
carta de 20 de dezembro de 1852. Moshoeshoe suplicava ao alto-comissrio
que se desse por satisfeito com um botim de mais de 5.000 bovinos que as
suas tropas haviam conseguido capturar. Ele se considerava suficientemente
punido e verdadeiramente muito impressionado com a potncia britnica; ele
solicitava, assim, humildemente a paz. Ele trataria igualmente, no futuro, de
evitar que os seus sditos causassem problemas. No dia seguinte ao recebimento
daquela carta, o alto-comissrio e as suas tropas abaladas (38 mortos e 15 feri-
dos) apressaram-se a se retirar deste perigoso reino5.
    As vicissitudes de Cathcart reforaram a convico dos britnicos de que
a regio no poderia ser preservada seno a custos altos. Sir George Clerk
foi, assim, enviado para conseguir retirar com segurana os britnicos da zona
situada ao Norte do Orange. Tendo sabido da eminncia da partida deles,
Moshoeshoe preparou o terreno para a longa luta com os beres que o esperava
irremediavelmente, aniquilando os seus aliados potenciais, os tlookwa, os griqua
e os kora que viviam a Noroeste do seu reino. Todos os sotho do Sul, os quais
viviam s margens de seu reino, j estavam sob seu domnio, exceto a chefia de
Moroka, cuja populao se reduzira a pouco mais de mil almas apenas durante
a guerra precedente.
    Nesse meio-tempo, Clerk conseguiu, no sem algumas dificuldades, reunir
os beres dispostos a negociar a independncia com ele e, em 23 de fevereiro
de 1854, concluiu a Conveno de Bloemfontein, cujos termos eram mais ou
menos semelhantes s disposies da de Sand River. Ela conferia aos beres
uma independncia total. Os britnicos renunciavam a toda aliana com os
chefes africanos ao Norte do Orange, exceto com Adam Kok. O tratado com
o prprio Adam Kok, pelo qual estava limitada a quantidade de terras que os
beres poderiam comprar dentro de seu pas, foi ao final das contas modificado
de maneira a permitir aos brancos comprarem todas as terras. Clerk se recusava,
tambm, a deixar-se levar por Moshoeshoe em qualquer discusso relativa 
fronteira entre o territrio que, em breve, se chamaria de Estado livre de Orange


5     P. Sanders, 1975, p. 185-193; E. A. Walker, 1957, p. 254-255; L. Thompsom, 1969b, p. 421-422.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            177



e seu reino6. Ao se retirarem, os britnicos abriram ento a via para o monoplio
das terras de Adam Kok pelos fazendeiros brancos e aos conflitos territoriais
entre os beres e os sotho.
    Com relao  fronteira oriental da colnia do Cabo, a preocupao primor-
dial de Cathcart era impedir os xhosa de perturbarem a paz. Aps a guerra de
1850-1853, ele considerou uma grande parte dos xhosa de Sandile, dos tembu
e dos khoi-khoi como rebeldes e, consequentemente, confiscou as suas terras
a Oeste do Keiskamma, nos vales do White Kei e do Kat, nos contrafortes do
Mathole e ao redor dos postos militares britnicos. As terras confiscadas foram
vendidas aos fazendeiros brancos ou doadas aos "lealistas" mfengu. Ele esperava
neutralizar suficientemente a regio, de modo que ela constitusse um tampo
entre o Leste, predominante negro, e a colnia branca do Cabo, a Oeste. Cath-
cart modificou tambm os aspectos polticos da ao de Smith. Ao passo que
este reduzira fortemente os poderes dos chefes xhosa, Cathcart os deixou exercer
uma jurisdio ilimitada dentro das "reservas" superpovoadas e reduziu o papel
dos magistrados britnicos ao de "simples diplomatas sem poder"7.
    Em 1854, assim que Cathcart deixou a frica do Sul, os britnicos se
retiraram do interior, deixando beres e africanos frente a frente. Mesmo
a Cafraria britnica que decidiram preservar no era considerada por eles
mesmos como uma colnia "normal" a ser desenvolvida no interesse dos seus
habitantes e no da Gr-Bretanha, mas, sobretudo, como um elemento do
sistema de defesa da colnia do Cabo, onde s parecem dignos de ateno
os meios indispensveis para responder aos imperativos logsticos. A Gr-
-Bretanha simplesmente no estava disposta a fazer mais do que o necessrio
para permanecer em possesso da sua base naval do Cabo. Este objetivo
parecia possvel de ser atingido preservando-se a colnia do Cabo e de Natal,
de modo a interditar aos beres, frgeis e desunidos, qualquer via de acesso
independente ao mar. O custo das duas colnias brancas, para a ptria me,
deveria ser mantido no nvel mais baixo possvel, outorgando-lhes um certo
grau de autonomia, a fim de que aceitassem pagar pela maior parte dos custos
necessrios para assegurar a sua administrao e sua defesa. Uma constitui-
o assegurando  colnia do Cabo instituies parlamentares foi, ento,
promulgada em 1853. Quanto a Natal, o qual fora inicialmente anexado em
1845 como distrito da colnia do Cabo, foi desassociado desta e dotado do
seu prprio conselho legislativo em 1856.

6    P. Sanders, 1975, p. 200-201.
7    E. A. Walker, 1957, p. 286.
178                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



      A colnia do Cabo e o Natal antes de 1870
    A necessidade de economizar no foi certamente a nica razo que motivou
o governo britnico a conceder, em 1853, instituies representativas  colnia
do Cabo8. A constituio do Cabo foi promulgada no momento em que os
britnicos abandonavam o sistema mercantilista, adotando o livre comrcio. Na
Gr-Bretanha, as escolas de Manchester e de Wakefield que tinham um papel
preponderante nas discusses relativas  poltica colonial, preconizavam ambas,
por razes opostas, que um estatuto de autonomia fosse concedido s colnias.
Lorde Grey, o Secretrio das colnias que em 1846 se engajou no processo em
prol de conferir autonomia  colnia do Cabo, era, de fato, um adepto do livre
comrcio. Alm disso, os prprios colonos tiveram um papel ativo neste sentido:
durante dcadas, eles enviaram vrias peties ao governo britnico reclamando
instituies representativas; a criao, em 1834, de um Conselho legislativo
composto do governador, de funcionrios e civis notveis a serem designados
no os satisfez. Diversos fatores  as presses dos colonos, a doutrina do livre
comrcio, a necessidade de economizar  convergiram para forar os britnicos
a concederem  colnia do Cabo um certo grau de autonomia.
    A constituio de 1853 foi concebida de maneira a proteger os interesses da
minoria dos ricos comerciantes ingleses, embora permitisse uma participao
poltica limitada da maioria  beres, mestios e africanos, em sua maioria
pobres , ligando o direito ao voto e a elegibilidade das duas cmaras do Par-
lamento  riqueza. Somente os ricos podiam ser eleitos para a Cmara alta, j
que, para ser elegvel, era necessrio ser sdito britnico, ser eleitor e dispor de
bens no hipotecados com um valor de 2.000 libras ou de bens hipotecados com
valor de 4.000 libras. O direito ao voto e  elegibilidade para a Cmara baixa
foi concedido a todos os sditos britnicos do sexo masculino que possussem
bens com valor de 25 libras ou recebessem uma renda anual de 50 libras. Este
dispositivo permitiu a um pequeno nmero de beres e de mestios votar. Mas,
ao tornar o ingls a lngua oficial do Parlamento, a Constituio eliminou cerca
de 70% dos beres rurais que, at a dcada de 1870, mal falavam esta lngua9.
    Duas questes dominaram os debates do Parlamento do Cabo: a solicita-
o da partio da colnia e os conflitos entre o executivo e o legislativo. Os
distritos orientais, anglfonos em sua maioria, queriam separar-se dos distritos


8     S. Trapido, 1964; E. A. Walker, 1957, p. 233-245; T. R. H. Davenport, 1969, p. 321-324; C. F. J. Muller
      (org.), 1974, p. 183-184.
9     F. A. Van Jaarsveld, 1975, p. 154-157.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            179



ocidentais onde o holands era a lngua principal, por temer serem dominados.
A Constituio suscitava conflitos ao tentar combinar autocracia e democracia.
Em vez de ministros responsveis, ela previa que os departamentos fossem
chefiados por burocratas nomeados pelo secretrio das colnias e dependentes
do governador. Este definia as polticas sobre as quais as duas cmaras se pro-
nunciariam em seguida, aps debate. O bom funcionamento de tal constituio
dependia da personalidade do governador e da situao econmica da colnia.
O mandato de Sir George Grey coincidiu com um perodo de relativa prospe-
ridade econmica (1854-1862), e suas relaes com os parlamentares do Cabo
foram facilitadas por seu tato. Portanto, nunca colidiu seriamente com as duas
cmaras, o que nunca aconteceu com o seu sucessor, Sir Philip Wodehouse
(1862-1872). Autoritrio, dogmtico, totalmente indiferente aos sentimentos
separatistas dos orientais, ele teve que enfrentar faces auladas e as cmaras,
geralmente hostis, que estavam prontas a fazer-lhe oposio com a nica arma
a sua disposio: a recusa de votar impostos novos. Seus problemas foram ainda
agravados pela depresso econmica da dcada de 1860, o que causou dficits
oramentrios considerveis. As frequentes crises constitucionais do Cabo foram
apenas parcialmente resolvidas com entrada em vigor, em 1872, de um sistema
de governo responsvel. Mesmo assim, as prerrogativas e as funes do gover-
nador continuaram a causar conflitos entre este e o gabinete.
    Foi na poca de Sir George Grey e de seu sucessor que os xhosa da Cafra-
ria (regio do Ciskei) acabaram por perder a sua independncia. Sir Grey, em
particular, exerceu presses enormes sobre os xhosa do Ciskei com sua poltica
pretensamente civilizadora. Ele criou o que se pode chamar de "um tabuleiro
de brancos e negros" ao implantar colonos brancos entre os xhosa. Ele reduziu
os poderes dos chefes xhosa ao permitir-lhes atuar somente nas questes civis e
confiando todo o resto aos magistrados brancos. Foram atribudos salrios para
que pudessem renunciar s multas, as quais foram, a partir de ento, arrecadadas
pelos funcionrios britnicos. Um imposto sobre as casas foi criado para contri-
buir com o financiamento da administrao da colnia. A populao foi obri-
gada a trabalhar nos canteiros de obras pblicas por uma remunerao mdica.
O trabalho obrigatrio, as exigncias financeiras e a presso demogrfica causada
pela instalao de um grande nmero de colonos brancos levaram os xhosa que
no tinham nenhum outro recurso, a tentarem se libertar seguindo as receitas de
uma doutrina milenarista. Embora o peso do imperialismo casse em primeiro
lugar sobre os ombros dos xhosa de Sandile e de seus vizinhos tembu, os xhosa
de Sarili, a Leste do Kei (no atual Transkei), encontraram-se expostos a uma
enorme presso demogrfica provocada pelo afluxo contnuo de refugiados que
180                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



buscavam voluntariamente fugir da explorao e opresso diretas dos britnicos,
ou que foram expulsos do Oeste sob o pretexto de rebelio.
     no perodo de 1856-1857 que os povos xhosa e tembu efetivaram a sua
ao. Em maro de 1856, uma jovem chamada Nongqause, que estava apa-
rentemente sob a tutela religiosa de Mhlakaza, um dos conselheiros de Sarili,
profetizou que, se o povo matasse todo o rebanho, destrusse as reservas de gros
e no plantasse lavoura alguma naquele ano, aconteceria um tornado que var-
reria os opressores ingleses e os jogaria no mar. Alm disso, os heris nacionais
ressuscitariam e trariam imensos rebanhos, enormes quantidades de gro e at
mesmo produtos fabricados pelo homem branco. Os xhosa e os tembu assim o
fizeram. Na data prevista, nada aconteceu. Muitos morreram de fome, em 1857,
nas duas margens do Kei. Um grande nmero de xhosa do Ciskei migrou para
a colnia do Cabo na busca de um emprego entre os brancos porque no tinha
outro meio de sobreviver. Este episdio  de difcil compreenso. Tentou-se,
em vo, explic-lo por meio de fatores ocultos. E. A. Walker estava convencido
que Moshoeshoe, o qual desejava a retirada dos britnicos do Estado livre de
Orange onde ele encontrava-se em luta contra os beres, sugeriu aos xhosa
esta ao suicida de modo que o desespero os rebelasse contra os britnicos10.
Alguns pensam que se tratara de um compl urdido por um branco para os
xhosa se autodestrurem. No se dispe de provas que deem suporte a nenhuma
destas teses. Monica Wilson talvez tenha razo ao interpretar o massacre dos
xhosa de seu prprio rebanho como um movimento milenarista anlogo aos
que marcaram a histria da Europa, da Amrica e de outras partes da frica.
Esta foi, nos que diz ela, uma ao pela qual o povo buscava se livrar de um
domnio estrangeiro e recuperar as terras que tinham sido monopolizadas pelos
colonos brancos11.
    Grey soube tirar proveitos destes acontecimentos e do subsequente enfra-
quecimento dos xhosa e tembu. Ele confiscou vastas extenses de terra de um
grande nmero de chefes de Sandile que ele supunha fomentar a rebelio contra
os britnicos. Os chefes desapossados e os sditos de Sarili foram ento expulsos
para a outra margem do Mbashe, de modo a deixar uma zona vazia, percor-
rida pela polcia britnica, entre o Kei e o Mbashe. Ele incitou, igualmente, os
imigrantes brancos a se instalarem nas terras confiscadas. A populao negra e
branca foi administrada como um distrito separado, tendo o seu prprio vice-
-governador. Em 1865, Wodehouse concluiu que o Ciskei era muito pobre e de

10    E. A. Walker, 1957, p. 289.
11    M. Wilson, 1969b, p. 256-260. Ver tambm C. Brownlee, 1896, p. 135-170.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            181



administrao muita cara para se constituir em uma colnia distinta. Por isso
foi integrado  colnia do Cabo.
    Os brancos de Natal fizeram tambm, antes de 1870, progressos no plano
constitucional. Alguns anos aps a sua anexao, numerosos beres cruzaram
o Drakensberg para chegarem ao planalto, protestando, deste modo, contra o
no reconhecimento pelos britnicos de suas reivindicaes territoriais, contra
a poltica africana da Gr-Bretanha e contra as novas disposies polticas que
os excluam completamente de qualquer participao. Ao mesmo tempo, Natal
contava com uma importante populao africana composta, em boa parte, de
exilados de volta  regio de onde eles haviam sido expulsos durante o Mfecane.
    Em primeiro lugar, a frgil administrao colonial de Natal teve que respon-
der  questo de como governar os africanos. As solues foram levadas pela
comisso de 1846 e aperfeioadas por Theophilus Shepstone, agente diplom-
tico e secretrio das relaes africanas (1853-1875). A comisso recomendou a
criao de reservas ou de zonas onde os africanos poderiam se estabelecer. Em
1860, as terras, totalizando de 810.000 hectares, haviam sido delimitadas neste
sentido, mas elas situavam-se, em sua maioria, em regies acidentadas, ridas e
selvagens que no eram apropriadas para a agricultura. A comisso fez outras
recomendaes relacionadas, em particular  educao dos africanos,  adminis-
trao de cada um dos territrios que lhes foram reservados por um funcionrio
branco apoiado por uma fora policial formada por brancos e negros, alm da
substituio do direito africano pelo direito romano holands. Algumas destas
recomendaes jamais foram implementadas, por falta de crditos. Deste modo,
a educao dos africanos continuou a ser amplamente, se no exclusivamente,
confiada aos missionrios que dispunham de meios financeiros e materiais insu-
ficientes. Quanto  administrao, ela foi assegurada por Shepstone.
    Falando correntemente as lnguas nguni e tendo vivido entre os xhosa, Sheps-
tone conseguiu estabelecer algumas relaes funcionais com as comunidades
africanas. Todos os africanos vivendo nas reservas foram colocados sob a res-
ponsabilidade dos chefes principais e ordinrios, ainda que fosse necessrio criar
esta segunda categoria de chefes onde antes no havia. As leis africanas foram
mantidas, exceto aquelas relativas  feitiaria. Para financiar a sua administra-
o, Shepstone instituiu um imposto sobre as moradias, pagvel em dinheiro
ou em rebanho que poderia ser vendido aos fazendeiros brancos para conseguir
dinheiro. Esta administrao foi constantemente exposta  hostilidade dos colo-
nos brancos que lhe reprovavam por haver assegurado a autonomia financeira
aos africanos, evitando, deste modo, que eles se tornassem trabalhadores agrco-
las nas fazendas e plantaes. Mas no era porque ele os amava que Shepstone
182                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



manteve os africanos nas reservas. Ele compreendeu, simplesmente, que ao ten-
tar fazer deles,  fora, trabalhadores agrcolas, eles suscitaria uma resistncia que
a administrao colonial de Natal, relativamente frgil, no poderia enfrentar.
Os colonos descontentes parecem haver esquecido a contribuio dos africanos
s receitas dos proprietrios de terras que viviam de aluguis desembolsados
por mais da metade dos negros assentados como "meeiros" nas exploraes dos
brancos; esqueceram tambm das receitas geradas para a colnia pelo imposto
sobre as casas. De fato, Shepstone havia estruturado uma administrao de
baixo custo que permitia  sociedade colonial branca explorar os africanos e seus
recursos naturais num clima de paz e de segurana relativo12.
    A sociedade branca era principalmente de origem britnica. Aps o vazio
deixado pela emigrao dos beres, a populao branca foi acrescida regular-
mente com a chegada de britnicos que fugiam dos problemas sociais provo-
cados na Gr-Bretanha pela crise econmica de 1847-1851. Cerca de 5.000
colonos brancos, financiados por especuladores, deixaram nesta poca a Gr-
-Bretanha por Natal. Em 1870, os brancos eram 18.000. O crescimento do
nmero de colonos brancos ia junto com algumas mudanas constitucionais.
Em 1856, Natal tornou-se uma colnia distinta com um Conselho legislativo.
O direito de votar era atribudo, sem distino de cor, a todo sdito britnico
do sexo masculino que possusse um mnimo de bens/recursos de um valor
de 50 libras ou alugando tais bens de um valor de 50 libras por um aluguel
anual de 10 libras. Mas os brancos fizeram com que os africanos no pudessem
satisfazer as condies necessrias para votar. Uma lei, promulgada em 1865,
permitia aos africanos que soubessem ler e escrever e que possussem algum
bem solicitarem ao vice-governador a iseno das disposies do direito cos-
tumeiro africano. O vice-governador podia rejeitar a solicitao, mesmo se o
africano preenchesse as condies necessrias. Alm do mais, para ter o direito
de votar, o africano isento devia provar que residia h mais de sete anos em
Natal e apresentar uma solicitao apoiada por trs eleitores brancos e ava-
lizada por um juiz ou por um outro funcionrio branco tido como aceitvel.
Mesmo assim, o vice-governador poderia rejeitar a solicitao. Consequen-
temente, at 1903-1905, somente trs africanos puderam obter o direito de
votar em Natal e na Zululndia13.
    Do ponto de vista econmico, Natal tornou-se dependente da indstria
aucareira que exigia mo de obra abundante. Os esforos empregados para

12    E. H. Brookes, 1974, p. 41-57; J. Guy, 1980, p. 41-44.
13    E. H. Brookes, 1974, p. 55-57; E. H. Brookes e C. de B. Webb, 1965, p. 75-77.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880             183



obrigar os africanos a fornecerem esta fora de trabalho foram em vo, devido
s condies de trabalho medocres e aos baixos salrios oferecidos pelos plan-
tadores. Estes ltimos, com a ajuda do seu governador, recorreram  importao
de mo de obra indiana. O sistema era o seguinte: aps ter trabalhado dez anos
em Natal, o trabalhador indiano podia escolher entre retornar a ndia, com a
viagem paga, ou se instalar definitivamente em Natal em terras que lhe eram
atribudas. Os primeiros trabalhadores indianos chegaram em 1860. Por volta
de 1870, eles eram 6.000 em Natal, dos quais muitos escolheram permanecer
na frica do Sul. Graas a esta mo de obra, a indstria aucareira do Natal
foi implantada solidamente e se desenvolveu a ponto de fornecer, entre 1861 e
1871, o produto de exportao mais importante da colnia.
    Assim, fica claro que, no incio da dcada de 1870, o poder, tanto em Natal
quanto na colnia do Cabo, concentrou-se pouco a pouco nas mos dos colonos
brancos graas a um sistema de disposies constitucionais. Na colnia do Cabo,
onde vivia uma maioria de brancos no anglfonos, a Constituio foi alm
dos nicos critrios dos recursos financeiros para que o poder permanecesse
nas mos dos ingleses. Quanto aos africanos, tanto em Natal quanto no Cabo,
foram amontoados nas reservas onde eram submetidos ao imposto, a fim de
obrig-los a se engajar como trabalhadores nas empresas dos brancos e assegurar
o financiamento da sua prpria administrao. Alm dos prprios obstcu-
los financeiros, os colonizadores procuraram sistematicamente transformar os
africanos em proletrios, recorrendo para isto a diversos meios: educao com
orientao tcnica; ruptura da sua coeso social ao despojar os chefes de seus
poderes; aplicao das leis europeias; limitao das terras postas  sua disposio
e, sobretudo, s atividades missionrias crists.


    As repblicas beres antes de 1870
    Enquanto entre 1850 e 1860 as duas colnias britnicas progrediram cons-
titucionalmente e estabeleceram, com ajuda da potncia imperial britnica, os
mecanismos apropriados para garantir a supremacia poltica branca, para privar
os negros de seus recursos econmicos e explor-los, os beres se esforaram
tambm para alcanar a unidade interna e subjugar as comunidades africanas do
interior. Quando os britnicos se retiraram da margem norte do rio Orange, os
beres estavam divididos em diversos grupos. A principal destas divises seguia
o curso do Vaal e por isso surgiram as duas repblicas beres: o Estado livre de
Orange ao Sul e o Transvaal (Repblica Sul-africana) ao Norte.
184                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Em 1854, quando foi assinada a Conveno de Bloemfontein,  provvel que
um grande nmero de habitantes do Estado livre de Orange tenha desejado a
independncia, mas apenas um pequeno nmero dentre eles estava preparado.
Alm da pobreza, ignorncia, fragilidade militar e a ausncia de infraestrutura
administrativa, o Estado livre temia o seu poderoso vizinho, o reino sotho de
Moshoeshoe, com o qual no tinha fronteiras definidas. Alm disso, permane-
ceu fundamentalmente dividido, durante diversas dcadas, entre os partidrios
da fuso com a colnia do Cabo, ao Sul, e aqueles que desejavam integrar-se 
repblica irm, ao Norte. Ele se exps deste modo a frequentes ingerncias de
seus dois vizinhos.
    Foram principalmente os Trekboers e os Voortrekkers que se enfrentaram
nesta questo. Os primeiros foram os beres que tinham atravessado o Orange
em busca de terras, antes do Grande Trek. Eles, em sua maioria, tinham se fixado
ao Sul do territrio que se tornaria o Estado livre de Orange. Todas as vezes
que se encontravam em guerra com seus vizinhos africanos, tendiam a se voltar
para o Sul para obter ajuda. Foram reforados pelos britnicos  comerciantes
e especuladores fundirios  que se estabeleceram em Bloemfontei durante o
breve perodo de anexao. Eram chamados de "lealistas" ou "reanexionistas".
Os beres que viviam no Nordeste da repblica, principalmente no distrito de
Wimburg e de sua periferia, eram muito diferentes deste grupo. Eram produtos
do Grande Trek, homens e mulheres que tinham deixado a colnia do Cabo por
se ressentirem diante do governo britnico. Estes Voortrekkers, "fiis maatscha
ppijers" ou ainda patriotas republicanos, de acordo com os diversos nomes que
lhes foram dados, foram sempre partidrios da independncia completa com
relao aos britnicos. Quando se encontraram em dificuldade, foi ao Transvaal
que solicitaram ajuda14. Esta diviso contribui para explicar o fato de Sir George
Grey, o governador e alto-comissrio federalista, haver facilmente incitado o
Estado livre de Orange, em 1858, a pensar sobre a ideia da fuso com a colnia
do Cabo; o fato de os habitantes do Estado livre terem elegido como presidente
do Transvaal Marthinus Wessel Pretorius (1860-1863); e o fato de este Estado
ter permanecido neutro durante a guerra anglo-ber de 1880-1881. A despeito
de todas estas fragilidades, o Estado livre de Orange conseguiu apresentar algu-
mas caractersticas de um Estado bem antes do Transvaal. O prprio comit,
o qual tinha negociado a independncia com os britnicos, tomou as medidas
necessrias para a formao do primeiro governo e produziu uma constituio


14    F. A. Van Jaarsveld, 1961, p. 29.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            185



inspirada na dos Estados Unidos. O regime tinha um presidente, detentor do
poder executivo e um Volksraad (corpo legislativo). Os beres no buscavam
disfarar o seu racismo ao tornar o direito ao voto dependente de critrios
materiais difceis de serem satisfeitos, como aquele praticado pelos britnicos
em suas colnias: os negros no eram cidados e no podiam votar. Somente os
brancos aps seis meses de residncia tornavam-se cidados e todo branco que
se inscrevesse no servio militar poderia votar15.
    O primeiro presidente, Josias P. Hoffmann, no permaneceu muito tempo
no poder j que os beres concluram que ele tinha muito boas relaes com
Moshoeshoe e com os colonos ingleses. Ele teve que se retirar. Johannes Nicolaas
Boshof, que tinha grande experincia administrativa e era partidrio da indepen-
dncia total da repblica, foi eleito para suced-lo. Ele criou um slido quadro
de funcionrios e organizou as finanas pblicas em bases slidas16. A sua gesto
tampouco foi um perodo de menor instabilidade, em virtude das contestaes
de fronteiras com o Lesoto e das tenses entre os maatschappijers e os lealistas
que levaram  interveno de Sir George Grey e de Pretorius. Em outubro de
1855, Sir George Grey conseguiu organizar um encontro entre Moshoeshoe e
Boshof para que assinassem um acordo enunciando os procedimentos para a
resoluo de litgios entre seus povos. Nenhuma fronteira foi fixada, e Mosho-
eshoe declarou mais tarde que ele havia apenas assinado o tratado por respeito
a Sir George Grey17. Deste modo, nada fez para impedir disputas entre seus
sditos e os beres. Sempre s voltas com os problemas fronteirios, Boshof
teve que enfrentar Pretorius, que desejava unir as duas repblicas beres. Persu-
adido erroneamente de que a maioria dos habitantes do Estado livre de Orange
desejava a fuso com os seus irmos do Norte e afirmando ter herdado de seu
pai, Andries Pretorius, a qualidade de dirigente do Estado livre, ele entrou em
Bloemfontein em 22 de fevereiro de 1857; no dia seguinte, anunciou que tinha
a inteno de tomar a direo do Estado e declarou o governo de Boshof fora
da lei. Rejeitando as suas pretenses, o governo de Boshof o expulsou e acusou
os seus partidrios de revolta. Este incidente provocou, nas duas margens do
Vaal, a mobilizao de grupos armados que, em 25 de maio, chegaram cada qual
em uma das margens do rio Rhenoster. Pretorius tinha contado que inmeros
maatschappijers abandonariam Boshof e se juntariam ao seu exrcito. Ele ficou
surpreso em ver que as defeces em seu favor no eram numerosas e que ele se

15   L. Thompson, 1969b, p. 429-430; C. F. J. Muller, 1975, p. 233-235.
16   C. F. J. Muller, 1975, p. 255.
17   G. M. Theal, 1900, p. 16-18.
186                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



encontrava, alm disso, ameaado em sua retaguarda por um novo inimigo, mais
perigoso: Stephannus Scheman, o comandante do Zoutpansberg que, como
ele, buscava ser o principal dirigente do Transvaal e que tinha concludo uma
aliana com o Estado livre. Temendo ser completamente aniquilado, Pretorius
aceitou, em 1 de junho de 1857, assinar um acordo no qual as duas repblicas
reconheciam mutuamente a sua autonomia18. Este episdio, todavia, revelou
claramente que os beres estavam profundamente divididos.
    O acordo no aliviou as tenses existentes entre as trs faces que tinham se
constitudo no Estado livre de Orange. A saber: os lealistas, favorveis  reuni-
ficao com a colnia do Cabo, os partidrios de Boshof, favorveis  indepen-
dncia do Estado livre de Orange e os unionistas, que desejavam a incorporao
ao Transvaal. As tenses exarcebaram-se de tal modo que Boshof foi, por ttica,
obrigado a renunciar em fevereiro de 1858, e assim que ele retirou a sua renncia,
vrios membros do Volksraad deixaram as suas cadeiras em sinal de protesto. A
estes conflitos internos juntaram-se as querelas de fronteiras cada vez mais fre-
quentes com o Lesoto. Boshof decidiu acabar com a situao invadindo o Lesoto
em maro de 1858. Ao se dirigir para Thaba Bosiu, a fortaleza de Moshoeshoe,
os comandos beres deixaram sua retaguarda sem defesa, e esta foi atacada pelo
exrcito de Lesoto. Abandonando a luta, voltaram para casa para defender suas
famlias e os seus bens. Antes mesmo de esta invaso do Lesoto, empreendida
sem muita convico, evidenciar a fragilidade militar do Estado livre de Orange,
Boshof j tinha conscincia de tal fraqueza e solicitara ajuda militar de Preto-
rius e de Sir George Grey19. Em resposta, Grey organizou um encontro entre
Moshoeshoe e Boshof em 29 de setembro de 1858, eles assinaram o tratado de
Aliwal North que confirmava as fronteiras de Warden20.
    Pretorius, ao contrrio, viu nisso uma ocasio para tentar novamente unificar
as duas repblicas beres. O Transvaal indicou claramente que no poderia aju-
dar o Estado Livre de Orange caso esse se deixasse absorver. A perspectiva de
unificao das duas repblicas alarmou Grey que sonhava j com uma federao
reagrupando as repblicas, individualmente, com as colnias britnicas. Desde
1857, Grey chegara  concluso que a Gr-Bretanha tinha cometido um erro
ao se retirar do interior da frica do Sul. Ele comeou a exigir a suspenso das
convenes e o restabelecimento da autoridade britnica no seio de uma forma
de federao. Ele temia que, fragmentados como estavam, os brancos fossem

18    Ibid., p. 40-45.
19    Ibid., p. 50-60; P. Sanders, 1975, p. 203-236; L. Thompson, 1969b, p. 432.
20    P. Sanders, 1975, p. 233-241.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            187



enfraquecidos em relao aos Estados africanos de toda a regio. Ele receava
que as repblicas beres se unissem e mantivessem relaes com potncias
estrangeiras, ameaando assim as colnias e importantes bases navais britni-
cas. Alm disso, Grey pensava que os inmeros conflitos entre beres e estados
africanos constituam um perigo potencial para as colnias britnicas, que cer-
tamente teriam que se envolver. Por conseguinte, Grey empenhou-se em conter
as veleidades de unificao dos beres informando-lhes que, caso se unissem, a
Gr-Bretanha se consideraria livre de suas obrigaes baseadas nas convenes,
que ela negociaria, alianas com os Estados africanos e iria mesmo vender-lhes
armas. Os habitantes do Transvaal, para salvaguardar a independncia de sua
regio, renunciaram a transpor o Vaal, deixando Grey encorajar o Estado livre
a tomar medidas para se unir com a colnia do Cabo. Mas, em junho de 1859,
quando tentava incitar o Parlamento do Cabo a discutir a oferta de unio feita
pelo Estado livre, o governo britnico o excluiu da frica do Sul.
    O fracasso do projeto de federao desprestigiou Boshof e seus partidrios,
que tinham apoiado com entusiasmo as tentativas de reunificao. O presidente
renunciou. Aquilo reforou os unionistas que elegeram Pretorius  presidncia.
Mas o desejo de unidade do Estado livre de Orange no tinha equivalncia no
Transvaal, onde dominava o temor de uma denncia da Conveno de Sand
River e de uma reanexao pelos britnicos. O Volksraad do Transvaal forou
Pretorius a renunciar  presidncia desta repblica, mas ele continuou por trs
anos ainda a trabalhar pela causa da unidade por intermdio de seus partidrios
do Transvaal. Em 1863, tendo fracassado mesmo no Estado livre de Orange, ele
se retirou do territrio de sua repblica.
    O fracasso das tentativas de unificao com o Cabo ou o Transvaal incitou a
populao do Estado livre a se encarregar do destino nacional, Johannes Hen-
ricus Brand, jurista e parlamentar experiente do Cabo, foi eleito presidente. Ele
permaneceria neste cargo por vinte e cinco anos. Mas antes de tratar das relaes
do Estado livre com os seus vizinhos sob a presidncia de Brand,  conveniente
examinar a maneira pela qual o Transvaal se transformou em Estado.
    O Transvaal demorou muito mais que o Estado livre de Orange para alcanar
este estgio. Ao Norte do Vaal, os beres eram muito dispersos. Eles estavam
divididos tambm por divergncias religiosas. M. W. Pretorius, que sucedeu
seu pai em 1853 e, como vimos, no cessou de combater pela unificao das
duas repblicas situadas em ambos lados do Vaal, foi tambm o grande defen-
sor da unificao do Transvaal. Ele lutou contra diversos grupos separatistas,
notadamente os Zoutpansbergers estabelecidos no Norte, ao redor da vila de
Schoemansdaal; os Lydenburgers e W. F. Joubert a Leste; e os beres do distrito
188                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



de Utrecht, ao longo do Bfalo. O grupo mais importante era o do prprio
Pretorius na regio de PotchefstroomMaricoRustenburg.
    Uma certa forma de unidade foi estabelecida em 1849 com a adoo dos
trinta e trs artigos de 1844 como constituio21. Os artigos no eram mais
do que regras e leis gerais regendo a administrao da justia e a eleio dos
membros do Volksraad. A sua deficincia mais grave era a ausncia de distino
entre as funes legislativas e executivas, de modo que o Volksraad esforava-se
em exercer ambas. Alm disso, como no havia capital, o Volksraad se reunia em
diferentes vilarejos onde o quorum nunca era alcanado, de modo que precisou
cooptar, no local, pessoas que no eram membros dele. Pretorius se esforou pela
adoo de uma verdadeira constituio prevendo um legislativo e um executivo.
Sobre este ponto, ele se ops aos Lydenburgers, que desconfiavam extremamente
de toda concentrao do poder executivo nas mos de um s homem, por exem-
plo, o presidente, por temor que ele fosse tentado a tornar-se um autocrata.
    Estas divergncias foram agravadas pelas disputas religiosas. Para romper
completamente seus laos com o Cabo, Pretorius pressionou a comunidade de
Potchefstroom para se retirar do snodo da Nederduitse Gereformeerde Kerk do
Cabo (Igreja Reformada da Holanda). A comunidade de Potchefstroom cons-
tituiu, deste modo, uma Igreja independente, a Nederduitse Herewormde Kerk
(NHK), cujos pastores deveriam ser recrutados na Holanda. Os Lynderburgers
mantiveram os seus laos com a colnia do Cabo, enquanto uma ciso da NHK
produziu uma nova congregao, a Gereformeerde Kerk van SuidAfrica, que se
caracterizou pela recusa de cantar os cnticos na igreja.
    Apesar de todas estas diferenas, em janeiro de 1857, foi apresentado um
projeto de constituio prevendo um presidente, um poder legislativo, um poder
judicirio e um exrcito. O Volksraad, que era dominado pelos partidrios de
Pretorius, elegeu este para presidente e Johannes Scheman, o dirigente do Zou
tpansberg, para chefe do exrcito. Scheman rejeitou a constituio e recusou as
funes militares que lhe foram ofertadas. Ele formou um comando para atacar
os partidrios de Pretorius no distrito de Rustenburg. As duas partes concor-
daram em constituir um comit encarregado de emendar a Constituio a fim
de levar em conta os votos dos Zoutpansbergers, e a guerra foi evitada. Uma vez
que a Constituio foi adotada, em 1858, Pretorius e Scheman tornaram-se,
respectivamente, presidente e comandante-em-chefe; em 1860, os Lydenburgers
foram persuadidos a se integrarem  repblica.


21    G. M. Theal, 1900, p. 413-417, para a traduo inglesa dos artigos.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880             189



    Entretanto, como j vimos, Pretorius, ao aceitar a presidncia do Estado livre
de Orange, lanou a repblica nascente ao caos. Temendo colocar em risco a
independncia do Transvaal, o Volksraad exigiu que Pretorius escolhesse entre
as duas presidncias; ele renunciou  do Transvaal. Todavia, ele continuou a
intervir nos assuntos daquela repblica, atravs de Schemann e da populao de
Potchefstroom, que era a mais determinada a apoi-lo. Criaram uma comisso em
que os poderes e as funes fizessem concorrncia com o Volksraad. Este ltimo
nomeou, por sua vez, seu presidente e seu comandante-em-chefe, e os dois
governos declararam um e outro ser o da repblica. A paz somente chegou ao
Transvaal em 1864, quando Pretorius renunciou as suas funes no Estado livre
de Orange e foi reeleito presidente do Transvaal. Ele governou at o momento
em que, na dcada de 1870, foi obrigado a renunciar por ter defendido mal as
reivindicaes da repblica em relao aos campos diamantferos.


    A relao entre os beres e os africanos antes de 1870
    No Transvaal como no Estado livre de Orange, inmeras comunidades afri-
canas haviam sido ou destrudas e absorvidas pelos Estados efmeros oriundos
do Mcfane, como o reino ndebele de Mzilikazi, ou foradas a se refugiar em
regies de difcil acesso e facilmente defensveis. A partir de ento, os chefes
engenhosos, como Moshoeshoe, conseguiram reunir ao seu redor inmeros
refugiados e constituir naes poderosas, na dcada de 1840, aps a expulso
dos ndebele da regio pelos beres. Estes Estados, como j vimos no caso do
Lesoto, eram suficientemente fortes para enfrentar ao mesmo tempo os inva-
sores beres e os britnicos.
    Aps a expulso dos ndebele, vrios grupos pequenos que eram submissos
a Mzilikazi, mas no tinham sido totalmente incorporados  sua nao, bem
como outros que se subtraram aos ndebele colocando-se fora das reas de
suas frequentes escaramuas, recuperaram os territrios onde viviam antes. Um
grande nmero destas populaes foi subjugado pelos beres e incorporado aos
seus Estados antes que pudessem se dotar de meios necessrios para se defender.
Foram os africanos que sofreram a explorao econmica direta dos beres, nos
prprios termos das leis promulgadas por estes ltimos em matria de cidadania,
de trabalho etc. A Constituio do Transvaal, por exemplo, rejeitou toda noo
de igualdade entre negros e brancos. Para excluir toda possibilidade de resistn-
cia real dos africanos, os povos incorporados se viram interditados da posse de
armas de fogo ou de cavalos e obrigados a trazer consigo, permanentemente, um
190                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



passe livre fornecido pelos seus empregadores ou por representantes dos poderes
pblicos. Cada fazendeiro tinha o direito de manter em suas terras um certo
nmero de famlias africanas que lhe forneciam, regularmente, mo de obra
gratuita. "No tocante aos indgenas, vivendo na zona europeia sob a proteo
direta dos beres, o trabalho regular seria considerado como um servio prestado
a ttulo de retribuio pelas terras que lhes foram atribudas22".
    Os africanos que no viviam nas fazendas eram subordinados aos chefes, e as
reas dos chefes eram estabelecidas em stios ou reservas que lhes eram atribu-
dos. Estes stios eram muito dispersos e cada um era localizado o mais perto pos-
svel de uma zona cultivada pelos brancos. Estas disposies visavam dividir os
africanos de forma a impedir qualquer risco de rebelio orquestrada e de modo
que cada fazendeiro branco tivesse facilmente acesso a um reservatrio de mo
de obra negra. Cada chefe pagava um imposto em rebanho e em mo de obra.
De fato, uma das tarefas importantes dos landdrosts (magistrados) e dos fieldcor
nets (comandantes dos postos militares) consistia em requisitar trabalhadores
dirigindo-se aos chefes dos seus distritos e em reparti-los entre os fazendeiros
brancos sob contratos de um ano. Os chefes deviam tambm fornecer homens
aos beres para lhes servirem como apoi-los em tempos de guerra.
    O Transvaal praticou um outro sistema contestado de aprendizado seme-
lhante ao em vigor na colnia do Cabo. As crianas africanas capturadas durante
as guerras eram distribudas aos fazendeiros para os quais eles trabalhavam at a
idade de vinte e cinco anos se fossem meninos e at os vinte e um anos se fossem
meninas. Em troca de favores ou de uma quantia nfima de dinheiro, os pais
africanos incorporados foram de incio persuadidos e depois forados a oferecer
seus filhos aos fazendeiros, que os criavam como aprendizes. No era raro que os
beres organizassem incurses contra os Estados africanos vizinhos com o nico
fim de capturar crianas. Embora a venda destas crianas entre os fazendeiros
fosse proibida pelas leis do Transvaal, todo este dispositivo se assemelhava 
escravido e foi denunciado como tal pelos missionrios e comerciantes23.
    Os beres tinham a pretenso de serem os donos legtimos do Transvaal e
de seu povo, pois tinham conquistado esta regio e expulsado os ndebele. Eles
consideravam, assim, terem o direito de exigir a submisso e os servios de todos
os africanos ao Sul do Limpopo. Suscitaram deste modo uma resistncia ferre-
nha dos tswana a Oeste, dos sotho e dos venda ao Norte e dos pedi a Leste. Os


22    W. Kistner, 1952, p.213.
23    L. Thompson, 1969b, p. 435-437; para o sistema colonial do Cabo, durante as suas primeiras dcadas,
      ver A. Atmore e S. Marks, 1974, p. 116.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880          191



kwena de Sechele ao redor de Dimawe e os ngwaketse do chefe Gaseitsiwe, ao
redor de Kenye, por exemplo, compraram fuzis dos missionrios e dos comer-
ciantes e os utilizam na resistncia aos beres. Assim, puderam preservar a sua
independncia, de modo que seus territrios serviram de via de passagem aos
missionrios e aos comerciantes desejosos de chegarem ao Norte, j que no
estavam autorizados a passar pelo Transvaal.
    No Leste, os pedi resistiram  presso militar dos beres de Ohrigstad e de
Lydenburg at 1857, data em que uma fronteira foi traada entre as duas comu-
nidades ao longo do rio Steelport. Entretanto, os pedi no demoraram a perceber
a importncia e a eficcia dos fuzis, particularmente quando se entrincheiravam
em suas fortalezas do monte Lulu. Antes de 1860, j se esforavam em constituir
estoques importantes de armas de fogo, comprando-as dos comerciantes. A fim
de pag-las, foram trabalhar em Natal, na colnia do Cabo e na Griqualand
Ocidental, quando da abertura das minas de diamantes24.
    Ao Norte, foram os venda, os ndebele do Transvaal e os sotho que resistiram
 expanso dos beres. Em 1854, por exemplo, homens do chefe sotho Maka-
pane, a Leste dos montes Watberg, mataram doze brancos pertencentes a um
grupo de caadores liderados pelo comandante ber Hermanus Potgieter. Tais
brancos tinham tratado o chefe Makapane com arrogncia, aparentemente "ao
exigir que bois e carneiros a serem abatidos lhes fossem doados e ao forar os
negros a dar-lhes diversas crianas como escravos"25. Quaisquer que tenham sido
as razes exatas de suas mortes, est claro que Makapane no queria os brancos
em suas terras, talvez porque temia que estes lhe fizessem concorrncia na caa
ao marfim. A execuo dos caadores brancos deu o sinal para um ataque gene-
ralizado contra os estabelecimentos brancos ao Sul do Zoutpansberg. Todas as
comunidades beres da regio e mesmo aquelas mais ao Sul, at Potchefstroom
e Rustenburg, colocaram as suas famlias em abrigo nos laagers. Um comando
ber com mais de 500 homens foi arregimentado em todos os distritos do Trans-
vaal, exceto em Lydenburg, invadindo o territrio Makapane sob o comando
conjunto de H. Potgieter e do presidente Pretorius. Avisados da aproximao
dos invasores, os sotho se refugiaram em uma gruta aos arredores e se prepa-
raram para atirar no inimigo. No podendo desaloj-los, os beres bloquearam
a entrada da gruta com paus e pedras, montando guarda durante vinte e cinco
dias para que ningum pudesse escapar. Calcula-se em 900 o nmero de sditos


24   P. Delius, 1980.
25   G. M. Theal, 1900, p. 27.
192                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



de Makapane mortos tentando fugir e em mais do dobro deste nmero os que
morreram de fome e sede dentro da gruta26.
    Os beres se retiraram, convencidos de que o massacre seria suficiente para
dissuadir os sotho e os venda do Norte de continuarem a resistncia. Todavia,
uma outra rebelio se deu em 1859, um pouco mais longe ao Norte, em torno
da vila ber de Schoemansdaal. A administrao ber deste vilarejo tratava
muito duramente os africanos locais, apoiando rebeldes, aumentando os tributos
e lanando contra chefias, que no a provocavam de forma alguma, expedies
armadas destinadas a capturar escravos. Os africanos foram vencidos, mas a
administrao ber perdeu na sequncia o seu controle sobre os negros.
    Em 1860, os venda do Zoutpansberg tinham aprendido a usar as armas
de fogo para a guerra e para a caa. Seu pas, cheio de elefantes, era ponto
frequente de encontro de caadores e comerciantes brancos. Muitos dentre
os venda colocavam-se a servio dos caadores e tornaram-se especialistas no
manuseio e na manuteno dos fuzis. Quando os caadores, ao seguirem os
elefantes, avanavam at o vale do Limpopo, o qual era infestado pelas moscas
ts-ts, eram obrigados a abandonarem seus cavalos e seguirem a p. Eram
ento os africanos que caavam com os fuzis que os comerciantes brancos lhes
emprestavam. Eram chamados de swartskuts (atiradores negros). Muitos des-
tes fuzis no foram entregues aos seus proprietrios brancos, mas serviram, de
fato, para caar os colonos beres de Schoemansdaal. Um dos dirigentes da
rebelio de 1867, o chefe venda Makhado, era tambm um antigo swartskut.
A revolta de 1867 teve tal sucesso que os beres abandonaram o distrito do
Zoutpansberg27.
    Durante este tempo, os beres do Estado livre de Orange tinham, sobretudo,
que enfrentar os sotho do Sul, sobre os quais reinava Moshoeshoe, os rolong de
Moroka e os griqua de Adam Kok. Este ltimo deixou de ser um problema em
1861, ano em que vendeu os seus direitos territoriais ao Estado livre de Orange,
emigrou para a No Man's Land, e fundou a Griqualand Oriental. Moroka per-
maneceu tambm um fiel cliente do Estado livre de Orange.
    Os sotho de Moshoeshoe permaneceram determinados a resistir  expanso
dos beres. Embora o rei tenha assinado o tratado de Aliwal North em 1858,
aceitando assim a fronteira traada por Warden, ele no tinha inteno alguma
de imp-lo ao seu povo, que continuou a viol-lo. A partir de 1860, todavia, os
beres tornaram-se mais poderosos do que os sotho. O rei estava velho e no

26    Ibid., p. 23-31.
27    L. Thompson, 1969b, p. 440-442; R. Wagner, 1980, p. 330-336.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            193



tinha controle algum sobre seus filhos, os quais disputavam sua sucesso. O
Estado livre estava, ao contrrio, cada vez mais forte. A economia tornava-se to
florescente que os fazendeiros faziam de tudo para melhorar o seu rebanho, cujos
produtos eram facilmente vendidos em Natal e na colnia do Cabo. A popula-
o estava em expanso graas  chegada de imigrantes vindos das colnias. A
partir de 1863, os cidados do Estado livre eram, tambm, muito ligados  sua
independncia, de modo que o presidente Brand podia contar com o seu zelo
patritico para entrar numa guerra de longa durao. Tambm, quando a guerra
de 1865 irrompeu, aps inmeras violaes de fronteiras cometidas por ambos os
lados, os beres puderam sustentar uma campanha impiedosa contra o Lesoto;
e foram, ao contrrio, os sotho que deram os sinais de desunio. Molapo, o filho
de Moshoeshoe, o qual governava o Norte do pas, concluiu um tratado de paz
bilateral com os beres. Esta falta de unidade forou Moshoeshoe a assinar, em
1866, o tratado de Thaba Bosiu, nos termos do qual ele teve de ceder muitas de
suas terras arveis ao Estado livre de Orange. Mas Moshoeshoe buscava, assim,
somente ganhar tempo, a fim de reorganizar o seu povo; uma outra guerra
irrompeu em 1867. Ela se arrastou at que os ingleses interviessem.
    Desde 1861, Moshoeshoe solicitara a proteo dos britnicos. Ele reiterou
sua solicitao em 1865 por intermdio do governador e alto-comissrio, Sir
Philip Wodehouse. Este, partidrio de uma expanso britnica na frica do
Sul, viu na anexao do Lesoto um passo  direo certa. Enquanto se punha a
dissuadir o governo branco de concordar com a solicitao de Moshoeshoe, ele
tomou medidas para cortar o fornecimento de armas para os beres, de modo
que o Estado livre de Orange no pudesse se apoderar do Lesoto. Em 12 de
maro de 1868, tendo sido autorizado pelo governo britnico a conquistar o
Lesoto, ele o anexou como colnia da Coroa.


    A expanso britnica na frica do Sul, 18701880
    A anexao do Lesoto representava uma mudana em relao  poltica
britnica de retirada das regies situadas ao Norte do Orange. Esta mudana
tornou-se mais aparente ainda com a recusa de aceitar a expanso territorial
do Transvaal, em 1868, e a anexao da Griqualand Ocidental, em 1871. A
expanso britnica coincidiu com a poca em que os recursos minerais foram
descobertos na frica Austral. Em 1867, um diamante foi retirado em Hope
Town, na colnia do Cabo, e, no ano seguinte, a explorao dos garimpos alu-
viais e eluviais comeou ao longo do Vaal, em direo a sua confluncia com o
194                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



Orange. Ainda em 1868, um caador de elefantes chamado Henry Hartley e
um gelogo chamado Carl Mauch marcaram as jazidas de ouro entre as terras
dos ndebele e a dos ngwato, bem como na Mashonaland. Embora as descobertas
de ouro se revelassem, em sua maioria, ilusrias, elas suscitaram inicialmente
um interesse forte, tanto na frica do Sul como na Gr-Bretanha; quanto 
explorao do diamante, rapidamente ocupou um lugar de proeminncia na
economia sul-africana.
    O presidente Pretorius, cujo Estado parecia padecer de uma pobreza crnica,
pensara em remedi-la expandindo o seu territrio de modo a englobar a maior
parte das jazidas minerais conhecidas e assegurar uma sada para o mar. Em abril
de 1868, ele anunciou que a sua repblica se estendia ao Norte e a Oeste at
o Lago Ngami e a Leste at uma parcela do litoral ao Sul da baa de Delagoa.
Os portugueses detentores, perto desta baa, da pequena vila de Maputo, pres-
sionaram o governo a se opor  expanso ber e se juntaram aos missionrios
e comerciantes britnicos  os quais temiam no mais poder atingir a frica
Central  para protestar com veemncia junto a Pretorius que, em 1869, havia
renunciado s suas ambies territoriais.
    Entretanto, a descoberta dos diamantes levava o Transvaal, o Estado Livre de
Orange, a Griqualand Ocidental de Waterboer, os rolong e os tlaping a disputa-
rem os territrios. O Transvaal e o Estado livre de Orange reivindicavam ambos
a zona compreendida entre o Harts e o Vaal; o presidente Brand retirou-se em
favor do presidente do Transvaal, Pretorius. Este ltimo e os Estados africanos
submeteram as suas divergncias  arbitragem do vice-governador de Natal,
Robert Keate, o qual deu razo aos africanos. Brand, por sua vez, exigiu uma
arbitragem dos seus conflitos territoriais com a Griqualand Ocidental, mas os
britnicos se recusaram, com medo de que a sua posio de potncia prepon-
derante na frica do Sul fosse colocada em questo. Waterboer decidiu, ento,
se colocar sob a proteo dos britnicos que anexaram no s a Griqualand
Ocidental, como tambm os demais campos diamantferos, em 27 de outubro
de 1871.
    A declarao tornando o Lesoto um protetorado que, segundo Brand, inter-
veio no momento oportuno para impedir os beres de conquistar e absorver este
pas, assim como os limites impostos  expanso do Transvaal e a tomada dos
campos diamantferos causaram aos beres um desgosto tal que, durante muitos
anos, recusaram qualquer cooperao com os britnicos. Estas medidas refor-
aram igualmente sua resistncia a todas as tentativas dos britnicos de estabe-
lecerem sua hegemonia pela fora. O perodo de expanso britnica na frica
Austral, que comeou ento, j foi objeto de inmeras discusses entre os histo-
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880                                     195



riadores. Shula Marks e Antony Atmore28, em particular, criaram um inventrio
sucinto das interpretaes que so normalmente dadas e depois apresentaram
algumas ideias novas, as quais por sua vez suscitaram novas pesquisas29.
    Os dois historiadores dizem que os autores que se baseiam amplamente
nos "arquivos oficiais", como Robinson, Gallagher etc., reconhecem, em termos
gerais, a importncia dos fatores econmicos para explicar o imperialismo brit-
nico nas ltimas dcadas do sculo XIX, "mas se abstm de aludir a toda anlise
econmica mais profunda e mais precisa dos acontecimentos que descrevem, seja
na frica do Sul ou alhures". Em vez disso, os historiadores que se colocam na
"perspectiva oficial" consideram, no final das contas, que a expanso britnica
interveio quando os responsveis polticos foram levados ao interior da frica
(inclusive a frica do Sul) para enfrentar "crises ou a situaes de emergncias"
na "fronteira" ou na "periferia" de suas colnias ou de sua zona de influncia.
Eles esquecem, observam Atmore e Marks, de realizar uma anlise exaustiva
destas crises que, em definitivo, tinham um papel to decisivo na formao do
imprio britnico. Com efeito, quando se estudam estas crises, percebe-se que
elas foram, na realidade, "ligadas ao colapso das autoridades indgenas sob o peso
das exigncias de uma Gr-Bretanha cada vez mais industrializada". No incio
do sculo XIX, estas presses foram exercidas principalmente na frente oriental
da frica do Sul onde os agentes oficiosos da Gr-Bretanha industrial  mis-
sionrios, comerciantes e administradores  mostraram-se ativos. Mas no final
do sculo, quando os recursos minerais do interior foram descobertos, o apetite
da Gr-Bretanha industrial voltou-se rapidamente para esta regio, e tanto os
Estados africanos quanto as repblicas beres foram vtimas desta ganncia.
Deste modo, embora a importncia estratgica do Cabo na rota martima da
ndia restasse, no final do sculo XIX, um dos fatores que influenciava a poltica
imperial da Gr-Bretanha na frica do Sul, foram os seus interesses econmicos
crescentes que mais pesaram.
    As empresas britnicas deviam desde j dispor de uma abundante mo de
obra africana que era impossvel de se obter de pases independentes e econo-
micamente autnomos. Os reinos deveriam, ento, ser desmantelados e os seus
povos transformados em proletrios. A industrializao rpida da frica do Sul
passou tambm pela subordinao dos Estados brancos j que as colnias, como


28   A. Atmore e S. Marks, 1974; ver tambm C. de B. Webb, 1981, onde uma distino  feita entre as
     interpretaes "radicais" de Marks e Atmore e aquelas dos "conservadores" e dos "liberais".
29   Ver, por exemplo, as contribuies reunidas e a introduo muito esclarecedora em S. Marks e A. Atmore
     (org.), 1980.
196                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



as repblicas beres, eram incapazes de "desempenhar eficientemente o papel de
colaboradores". Isto resultou numa situao extremamente "complexa e confusa".
A Gr-Bretanha buscava, entre outras coisas, se assegurar que seus interesses
seriam bem cuidados ao implantar na frica do Sul uma confederao a ela
subordinada. Os historiadores que se colocam na "perspectiva oficial", da qual
C. F .Goodfellow30 se tornaria o mais tpico representante, explicaram a gnesis
e as modalidades da poltica de confederao  que terminou com a anexao
do Transvaal, o que levou  queda do reino zulu e a destruio do Estado pedi
 pela personalidade do secretrio britnico para as colnias, Lorde Carnarvon,
e do governador e alto-comissrio, Sir Bartle Frere. Atmore e Marks mostram
que se esta anlise pode efetivamente ser correta, as possibilidades oferecidas
pela poltica de confederao correspondiam particularmente bem aos interesses
e s exigncias socioeconmicas da Gr-Bretanha na frica do Sul.
     possvel, consequentemente, que o Transvaal tenha sido anexado para
liberar a mo de obra africana bloqueada pelos pass laws (leis dos passes) de
1873 e 1874, a fim de que ela pudesse afluir livremente s minas de diamantes
e aos canteiros de construo da estrada de ferro na colnia do Cabo. Ademais,
o Transvaal obstrua a livre circulao da mo de obra africana ao permitir
aos especuladores imobilirios  britnicos e colonos viverem da receita dos
aluguis que lhes eram pagos pelos meeiros africanos instalados em suas terras.
Estes meeiros no tinham a menor inteno de vender os seus servios aos
proprietrios das minas ou a outros empregadores brancos, pois tinham terras
o suficiente para sustentarem suas necessidades e pagarem seus impostos, ven-
dendo os produtos excedentes. Esta  a razo pela qual o Transvaal, bem como o
reino zulu, cujo sistema militar imobilizara os trabalhadores potenciais, estavam
condenados a desaparecer.
    Deste modo, Norman Etherington31 confirma a teoria de Marks e Atmore,
ao mostrar que, aps a descoberta dos diamantes, a mo de obra africana fora
drenada de toda a sub-regio, compreendidos tambm os territrios que cons-
tituem hoje Moambique e o Zimbbue, e que o Transvaal, o Estado livre de
Orange e o reino zulu faziam obstruo  sua livre passagem. Alm disso, Sheps-
tone, a principal fonte de informao dos homens que conceberam e executaram
a poltica britnica durante a dcada de 1870, no se preocupou somente em
buscar a mo de obra para os capitalistas britnicos; ele considerou, de maneira
geral, que, para resolver este problema, era necessrio criar uma federao dos

30    C. F. Goodfellow, 1966.
31    N. A. Etherington, 1979.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880             197



Estados brancos executando uma poltica africana comum. Est claro, conse-
quentemente, que alguns historiadores negligenciaram, ao falar do imperialismo
britnico na frica do Sul, a importncia econmica crescente da regio para
a Gr-Bretanha, situao que se tornou, contudo, manifesta por volta de 1870,
com a descoberta dos diamantes e as primeiras indicaes referentes s jazidas
de ouro; e bastante evidentes na dcada de 1880 quando comeou a extrao
do ouro do Witwatersrand.
    Entre 1871 e 1874, entretanto, a Gr-Bretanha tentou construir uma fede-
rao dos Estados sul africanos e garantir, assim, pela persuaso, seus interesses
na frica do Sul. Quando concedeu  colnia do Cabo uma certa autonomia,
sob a forma de um governo responsvel, era com esperana de que a colnia
tomasse o controle do reservatrio de mo de obra do Lesoto e dos territrios
ricos em diamantes da Griqualand Ocidental, adquirindo deste modo a con-
dio de Estado mais poderoso da regio e atraindo para ela o restante dos
estabelecimentos brancos. Tamanha foi a decepo dos ingleses quando o Cabo
aceitou anexar o Lesoto mas recusou a oferta da Griqualand Ocidental, j que a
sua importante populao ber simpatizava com as repblicas que no tinham
renunciado s suas reivindicaes sobre os campos diamantferos. Na metade
de 1873, Lorde Kimberley, secretrio das colnias, reconheceu que as disputas
relacionadas s minas de diamantes eram um obstculo  criao de uma con-
federao sul-africana e cessou suas presses neste sentido32.
    Lorde Carnarvon, sucessor de Kimberley em fevereiro de 1874, ressuscitou a
poltica de federao e a lanou oficialmente em 4 de maio de 1875. Ela apareceu
como o nico antdoto aos males que envenenavam a frica do Sul e que eram
ilustrados pela situao na Griqualand Ocidental, onde a mo de obra era deses-
peradamente insuficiente, as despesas britnicas de defesa e de administrao
elevadas, a algazarra dos litgios territoriais ensurdecedores e os fuzis fceis de
serem obtidos pelos africanos, que os usavam prontamente contra os brancos
para defenderem a sua independncia. Depois, houve a questo no resolvida da
rebelio de Langalibalele, diante da qual o comportamento dos brancos de Natal
colocou em evidncia a inquietante fragilidade dos Estados brancos isolados ao
enfrentar africanos com fcil acesso a armas de fogo.
    Em 1873, o chefe hlubi Langalibalele recusou-se a declarar as armas de
fogo que seus sditos haviam comprado, muitas vezes trabalhando nas minas
de diamantes. O governo de Natal interpretou essa recusa como um ato de


32   C. W. De Kiewiet, 1937, cap. 2; C. F. Goodfellow, 1966, cap. 3.
198                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



rebelio. Shepstone e o vice-governador formaram um exrcito para invadir o
seu reino, mas o chefe hlubi fugiu para o Lesoto, onde foi trado por Molapo,
o chefe sotho, e entregue aos seus inimigos. Durante o nico encontro que
aconteceu entre os hlubi e seus vizinhos, os soldados de Natal debandaram-se
e alguns dentre eles foram mortos. Mas, por fim, o governo do Natal tratou os
hlubi de uma maneira que demonstrou uma grande covardia e um esprito muito
vingativo. Antes mesmo que o chefe Langalibalele fosse preso, o governo tomou
medidas cujo rigor era desproporcional  ofensa cometida. Sua chefia foi riscada
do mapa, seu rebanho e seus cavalos apreendidos, suas terras confiscadas e seus
sditos distribudos aos fazendeiros como trabalhadores ligados por contrato.
Finalmente, o chefe foi julgado sumariamente e declarado culpado; condenado
ao desterro perptuo, ele foi encarcerado em Robson Island.
    Para o governo britnico, o qual no era insensvel aos argumentos do bispo
anglicano John William Colenso, o nico defensor determinado do chefe hlubi,
no tinha dvidas de que a injustia sofrida pelos hlubi resultava do terror irra-
cional que os negros inspiraram nos brancos. Verdadeiros ou falsos, os rumores,
segundo os quais Langalibalele teria entrado em contato com os sotho, os nde-
bele e os zulus antes da rebelio, fizeram surgir o fantasma de uma revolta geral
dos africanos contra os brancos divididos da frica do Sul. Influenciado por
conselheiros como Shepstone, Lorde Carnarvon via na criao de uma federao
a nica soluo possvel para o "terrvel imbrglio" sul africano33.
    Como primeira medida, Lorde Carnarvon se assegurou dos servios de Sir
Garnet Wolseley, de volta de Kumasi aps ter vencido os ashanti, para enfrentar
os problemas do Natal. Wolseley foi instrudo a assumir o controle das ques-
tes africanas em nome da Coroa e para adiar o momento em que os brancos
poderiam dotar-se de uma federao sul-africana34. Desejando atingir o seu
objetivo por meio pacficos, Carnarvon se fez conciliador para com os beres,
deixando entrever uma resoluo possvel para os litgios relativos aos campos
diamantferos. Em 1875, ele props uma conferncia das colnias e das repbli-
cas onde seriam analisadas questes secundrias tais como a definio de uma
poltica africana comum e os meios de dissipar os mal-entendidos territoriais, 
espera que fosse abordada a questo mais importante, aquela da criao de uma
confederao. O secretrio cometeu o erro de sugerir o nome dos delegados e
cometeu um grave erro de avaliao ao adotar uma atitude que parecia confir-
mar a diviso da colnia do Cabo, j que convidou o separatista John Paterson,

33    E. H. Brookes e C. de B. Webb, 1965, p. 113-120; N. A. Etherington, 1979, p. 246-247; 1981, p. 34-37.
34    C. F. Goodfellow, 1966, p. 62.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            199



chefe da oposio, como representante dos Orientais e o primeiro ministro John
Charles Molteno como representante dos Ocidentais. Resultou que a colnia do
Cabo e as repblicas, as quais ainda no tinham se conformado com a perda dos
campos diamantferos, recusaram-se a participar. Somente Natal e a Griqualand
Ocidental aceitaram.
    Aps este fiasco, Carnarvon convocou uma outra conferncia em Londres,
em agosto de 1876. Foi, de novo, uma derrota. O presidente do Estado livre
de Orange, Brand, negociou uma soluo para as suas reivindicaes sobre os
campos diamantferos e obteve 90.000 libras a ttulo de compensao; mas ele
recusou imediatamente se deixar conduzir para discusses relacionadas ao pro-
jeto de federao. Pronto para se eriar  menor suspeita de intervencionismo
das autoridades britnicas, e fortemente apegado ao estatuto de governo res-
ponsvel concedido aos dirigentes da colnia, o primeiro ministro Molteno, o
qual se encontrava em Londres neste momento, recusou tambm participar da
conferncia, dizendo que no recebera mandato do seu governo nesse sentido.
Somente a Griqualand e o Natal estiveram representados, de modo que nada
pode ser feito. Esta segunda derrota "feriu o patriotismo e amor-prprio de
Carnarvon e esgotou a sua pacincia"35. Ele decidiu recorrer a medidas mais
enrgicas para unir a frica do Sul.
    O seu primeiro objetivo foi o Transvaal. A ocasio de agir foi-lhe dada em
setembro de 1876, quando recebeu um telegrama do alto-comissrio que des-
crevia, em termos exageradamente enegrecidos, as dificuldades do Transvaal em
relao aos pedi de Sekhukhune36. O Transvaal havia entrado em guerra com os
pedi, em maio de 1876, por vrias razes. H cerca de quinze anos, a populao
pedi crescia rapidamente e este Estado tornou-se cada vez mais poderoso. Um
grande nmero de comunidades africanas vizinhas, desejosas de fugirem das
exigncias de mo de obra e dos impostos exigidos pelos beres, estava integrado
ao reino pedi; outras tinham sido foradas a faz-lo. Como j indicamos, os pedi
se empenharam muito ativamente em constituir um estoque de armas de fogo.
O crescimento da populao pedi privou os beres de um reservatrio de mo
de obra desde que, ao tentar expandir seu territrio, os pedi penetraram em regi-
es contestadas onde se chocaram com os Lydenburgers. A situao tornou-se
crtica quando o prncipe pedi, Johannes Dinkwanyane, impediu um ber de
ocupar um terreno e, simultneamente, um contingente pedi forou residentes
africanos de uma misso berlinense a evacuar o local. Burgers, presidente do

35   Ibid., p. 110.
36   Ibid., p. 114.
200                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



Transvaal, que buscava emprstimo para construir uma estrada de ferro at o
mar, quis subjugar os turbulentos pedis para reforar a confiana dos investidores
em sua repblica. Ele tampouco podia ignorar que os Lydenburgers reclamavam
uma ao enrgica contra os seus "difceis" vizinhos pedi.  por esta razo que
ele levou a repblica  guerra37.
    Com a ajuda dos swazi, Burgers lanou um ataque triplo contra a fortaleza de
Sekhukhune sobre o monte Lulu. Os Lydenburgers e os swazi atacaram a partir
do Leste, e o seu primeiro objetivo era a praa forte do prncipe Dinkwanyane;
a tropa de Burgers veio prontamente do Oeste; as duas formaes deviam final-
mente convergir com uma terceira para o bastio de Sekhukhune. Vendo que
os beres no pareciam to motivados, deixando-os enfrentar a maioria dos
combates e sofrer pesadas perdas, os swazi abandonaram a luta. Desde que
partiram, o moral dos beres no demorou a cair no nvel mais baixo e antes de
terem conseguido lanar um ataque qualquer contra a fortaleza de Sekhukhune,
eles comearam a desertar. O seu patriotismo padecia do fato de ter-se nutrido
de vrios ressentimentos contra Burgers; alm de acusarem-no de hertico, eles
criticavam a sua poltica nos campos da educao e economia. Alm disso, os
beres dos distritos ocidentais estavam menos motivados do que os Lyden-
burgers a combaterem os pedi. De fato, as presses e a resistncia destes no
lhes diziam diretamente respeito e, aparentemente, no haveria nenhum ganho
pessoal a tirar da guerra38.
    Aps a retirada de Burgers, os beres da regio continuaram a hostilizar
Sekhukhune. Como era poca do plantio, este ltimo aceitou negociar uma
trgua. Philip Bonner salienta, corretamente, que no houve vencedores nem
vencidos nesta guerra na qual "ocorrera um impasse, j que nenhum dos dois
lados conseguiu marcar um ponto decisivo"39. Somente em 1879, os britnicos
e os seus aliados swazi conseguiram vencer o reino dos pedi e capturar o rei
Sekhukhune40.
    Os britnicos, todavia, viram no fiasco dos beres de 1876 uma derrota
total que anunciava a derrocada eminente do Transvaal. Carnarvon nomeou
Shepstone como comissrio especial para o Transvaal e, em 9 de outubro de
1876, deu-lhe um mandato para assumir a direo da repblica, com ou sem
o consentimento do seu Volksraad. Diversos motivos foram apresentados para


37    P. Bonner, 1983, p. 137-140.
38    Ibid., p. 143.
39    Ibid., p. 144.
40    L. Thompson, 1971a, p. 282.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880           201



explicar a anexao do Transvaal. Sabia-se que este pas dissimulava as jazi-
das minerais que o tornava, virtualmente, a regio mais rica da frica do Sul.
Ele impedia a livre circulao de mo de obra a partir do seu territrio e das
regies vizinhas. Ameaava construir uma estrada de ferro que o ligaria  baa
de Delagoa, de modo a no mais depender dos portos comerciais britnicos e
a contestar a supremacia da Gr-Bretanha ao manter relaes com potncias
estrangeiras. Carnarvon supunha tambm que, com a anexao do Transvaal, o
Estado livre de Orange encontrar-se-ia cercado e, ento, forado a aceitar um
acordo. A tomada do Transvaal por Shepstone, em 12 de abril de 1877, ainda que
efetuada desastrosamente e contra a vontade dos beres, foi relativamente sim-
ples, porque a repblica estava em falncia e seu presidente impopular41. Depois
da anexao, Carnarvon nomeou Sir Bartle Frere para o cargo de governador e
alto-comissrio a fim de "levar a cabo seu plano de confederao"42.
    A tarefa de Frere estava longe de ser fcil. A colnia do Cabo recusava-se
em assumir a frente do movimento de confederao, estimando que os esforos
dos britnicos para encoraj-la a faz-lo constituam uma ingerncia contrria
 condio que lhe havia sido concedida. O Estado livre de Orange tambm
estava bem pouco disposto a se deixar levar pela fora para a unio. Quando,
em 1878, Frere convidou os seus dirigentes para uma conferncia para exami-
nar o problema, o presidente Brand respondeu que a situao da repblica era
to satisfatria, sob todos os pontos de vista, que no podia imaginar a perda
de sua independncia. O Transvaal poderia ter sido obrigado a se unir com os
outros Estados devido aos acordos de anexao. Mas a administrao de Sheps-
tone no soube conciliar os beres, de modo que s sonhavam em recuperar a
sua independncia. Ademais, o prprio Shepstone se deixou a tal ponto levar
nas escaramuas de fronteiras entre o Transvaal e a Zululndia que, em 1878,
quando foi convidado a dar a sua opinio sobre a confederao, ele respondeu
que "no tinha tido tempo de pensar suficientemente para dar uma opinio" e
exigiu que o deixassem "respirar um pouco"43. Somente Natal estava disposto
a analisar o problema. Neste meio tempo, Carnarvon foi obrigado, em janeiro
de 1878, a apresentar a sua demisso por causa de uma questo que no tinha
relao nenhuma com a frica do Sul, ao passo que a federao que ele desejou
criar ainda no era mais do que um sonho.



41   C. F. J. Muller (org.), 1974, p. 263-264.
42   C. F. Goodfellow, 1966, p. 123.
43   Ibid., p. 147.
202                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Frere era exatamente o homem talhado para servir da melhor forma possvel
aos interesses britnicos na frica Austral. Ele queria impor uma confederao
sul-africana baseada "em um governo autnomo europeu, bem como na sujeio
e civilizao dos africanos"44. "A sujeio e a civilizao dos africanos" significa-
vam essencialmente a transformao das sociedades africanas em reservatrios
de mo de obra para as empresas britnicas e coloniais, e em mercados para os
produtos da metrpole, ao passo que o "governo autnomo europeu" garantiria
a segurana dos investimentos britnicos. Frere decidiu que convinha tratar
primeiro do aspecto africano da confederao, que ele pretendia estender pela
totalidade do subcontinente, de modo que os territrios dos tswana, xhosa,
zulus, ndebele e shona deviam ser anexados sob a forma de protetorados ou
pela conquista.
    A Zululndia era particularmente adequada para uma primeira ofensiva,
sendo que seus conflitos fronteirios com o Transvaal podiam permitir a cons-
truo de um casus belli. O territrio contestado interessava totalmente a Frere
e, de fato, ao ministrio das colnias, porque englobava de uma s vez Natal,
Zululndia e Transvaal, sem falar de Shepstone, para o qual ele sempre foi o
elemento essencial em suas vises grandiosas. Sua histria remontava  dcada
de 1850. Em 1856, Cetshwayo aproximou-se do trono zulu ao aniquilar um pos-
svel rival  Mbulazi  e sua faco. Ele governou junto a Mpande at a morte
deste ltimo em 1872. Mas ele temia ainda um outro filho de Mpande, Mkungu,
o qual vivia em Natal sob a proteo do bispo Colenso e de Shepstone. Seus
temores parecem ter-se materializado na dcada de 1860 quando se espalharam
os boatos de invaso possvel da Zululndia por Natal. Estes rumores chega-
ram aos ouvidos de alguns habitantes do Transvaal que deles se aproveitaram.
Em 1861, os beres do Transvaal enviaram a Cetshwayo mensagens nas quais
pretendiam confirmar os rumores e lhe ofereciam garantir a sua posio e a sua
coroao posterior em troca de terras na zona que iria ser mais tarde objeto de
litgio. Cetshwayo fez promessas que ele no pretendia cumprir.
    Shepstone, que buscava desde a dcada de 1850 fundar um reino negro
dotado de uma administrao branca capaz de se autofinanciar e ao abrigo de
qualquer ingerncia da parte dos colonos, viu uma possibilidade de realizar
esta ambio no territrio contestado. Imediatamente aps ter tomado conhe-
cimento das comunicaes entre beres e zulus, ele se apressou a encontrar-se
com Cetshwayo e, em nome do governo de Natal, confirmou-lhe a sua posio


44    Ibid., p. 155.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880              203



de herdeiro presuntivo ao trono zulu. Mas a partir de ento, os beres criaram
fazendas no territrio objeto de contestaes, o qual eles chamaram de distrito
de Utrecht. Os zulus se abstiveram de expuls-los pela fora, mas voltaram-se
para o governo britnico para solicitar assumir o distrito de Utrecht, o qual se
tornaria uma zona tampo entre o seu pas e o Transvaal.
    Durante anos, Shepstone pressionou o governo britnico para aceitar a pro-
posta dos zulus, argumentando que o territrio serviria para fixar o excedente
da populao negra de Natal e impediria o Transvaal de atingir o mar atravs
da Zululndia. A ideia de Shepstone tornou-se ainda mais pertinente aps
1870, quando Natal, a colnia do Cabo e a Griqualand Ocidental padeciam
da escassez de mo de obra. No demorou muito para se descobrir que as vias
de migrao da mo de obra passavam pelo Transvaal, pela Zululndia e pelo
territrio litigioso. Como os dois Estados entravavam a circulao nestas rotas,
um reino talhado para Shepstone entre estes Estados ofereceria o corredor mais
seguro. Enquanto Shepstone tinha em vista o seu Estado negro, ele apoiou as
reivindicaes territoriais de Cetshwayo contra o Transvaal em funo da neces-
sidade de cooperao com o rei zulu. Precisamente por esta razo que ele esteve
presente no coroamento de Cetshwayo em 1873.
    Alm disso, Shepstone estava firmemente convencido que, se a Gr-Bretanha
desejava colocar sob o seu controle todos os Estados africanos da frica Austral,
ela devia comear por exercer um controle e uma influncia sobre o reino zulu.
Mas quando assumiu o poder no Transvaal, ele mudou de lado e ps-se a apoiar
as reivindicaes territoriais dos beres por uma razo perfeitamente simples:
"Ele s tinha que, de agora em diante, dar apoio s reivindicaes do Transvaal
para assegurar o seu corredor sem ter que dar nada em troca"45. O nico perigo
para o seu objetivo e, para dizer a verdade para a paz em todo o subcontinente,
era o reino zulu, o qual era necessrio destruir. Frere e o Ministrio das colnias,
que compartilhavam a viso de Shepstone nesta questo desde 1874, deram o
seu consentimento.
    Quando Shepstone embarcou rumo a Natal em 1878, ele no buscava solu-
cionar o litgio territorial, mas se servir da questo para impor uma guerra con-
tra Cetshwayo. A comisso criada em 26 de fevereiro de 1878 por Sir Henry
Bulwer, o vice-governador do Natal, tinha recomendado uma fronteira favorvel
aos zulus. Mas o modo com o qual Frere props executar a recomendao foi
calculado pra provocar vigorosas objees por parte dos zulus: previa, com efeito,


45   N. A. Etherington, 1981, p. 41.
204                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



que os fazendeiros beres estabelecidos no lado zulu da fronteira no seriam
expulsos.
    A segunda questo que Frere teve que abordar foi a do chefe Sirayo. Os filhos
de Sirayo perseguiram duas esposas do chefe em Natal, em 28 de julho de 1878,
e as levaram para a Zululndia onde foram julgadas e executadas. O governo
de Natal protestou junto a Cetshwayo contra a violao da fronteira por alguns
de seus sditos e exigiu que os filhos de Sirayo fossem conduzidos a Natal para
serem julgados. Cetshwayo enviou 50 libras a ttulo de multa e apresentou as
suas desculpas pela conduta irrefletida e irresponsvel dos jovens. Frere lidou
com a questo, em dezembro de 1878, exigiu que Cetshwayo entregasse 500
cabeas de gado por ter ofendido o governo de Natal e enviasse os filhos de
Sirayo. Quando a guerra estourou, Cetshwayo ainda se esforava para reunir o
gado exigido.
    Ento, em setembro de 1878, dois brancos de Natal se perderam na Zulu-
lndia e foram maltratados pelos guardas da fronteira zulu, sem, todavia, serem
feridos. Frere inflou desmesuradamente o incidente, declarando que era "um
insulto e uma ofensa muito sria e que deviam ser severamente punidos."46. Ele
alegou tambm que Cetshwayo aterrorizara os missionrios para expuls-los de
seu reino e que ele devia deixar que os missionrios retornassem s suas misses
sem serem molestados. De fato, os missionrios tinham provavelmente partido
aconselhados por Shepstone, o qual sabia ser eminente a guerra e que j tinha
agido deste modo em 187747.
    Em 11 de dezembro de 1878, o ultimato completo foi enviado aos repre-
sentantes dos zulus. Exigia o desmantelamento do exrcito zulu, a aceitao de
um residente britnico, a reinstalao de todos os missionrios e o pagamento
de multas por diversas violaes alegadas das fronteiras de Natal e dos direitos
de sua populao48. Estas exigncias no poderiam simplesmente ser satisfeitas
dentro dos vinte a trinta dias prescritos. No fim do prazo, em 10 de janeiro de
1879, as foras britnicas, comandadas pelo general Lorde Chelmsford, inva-
diram o reino zulu.
    O exrcito de Chelmsford era composto de 15.000 soldados, dos quais mui-
tos eram africanos recrutados em Natal  as foras de Cetshwayo somavam, sem
dvida, 45.000 homens. Mas os britnicos tinham as suas armas de fogo, parti-
cularmente eficazes j que os atiradores se escondiam em trincheiras, atrs das

46    E. H. Brookes e C. de B. Webb, 1965, p. 133.
47    N. A. Etherington, 1981, p. 42.
48    E. H. Brookes e C. de B. Webb, 1965, p. 134.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880            205



carroas ou dos sacos de areia. Os zulus, por sua vez, s tinham lanas, escudos
e um nmero limitado de fuzis, os quais eles ainda no dominavam completa-
mente por no fazerem parte de suas tcnicas e treinos militares. Os escudos
eram ineficazes contra as balas. As lanas faziam estragos no corpo a corpo, mas
o exrcito britnico no deixava os zulus chegarem a us-las j que atirava neles
de longe. O resultado foi que, em quase todas as batalhas, os zulus sofreram per-
das enormes ao tentarem se aproximar dos seus inimigos. S em Isandhlwana,
em 22 de janeiro de 1879, os zulus atacaram uma coluna britnica em terreno
aberto e a derrotaram. Os combates terminaram em 7 de julho de 1879 com
a vitria de Chelmsford sobre os zulus em Ulundi. Cetshwayo foi perseguido,
capturado em agosto e deportado para o Cabo para ser aprisionado.
    Como sustenta Jeff Guy, no  a batalha de Ulundi que levou  destruio do
reino zulu, mas as medidas tomadas no plano poltico por Sir Garnet Wolseley,
o qual foi nomeado alto-comissrio para a frica do Sudeste com autoridade
suprema, tanto civil como militar, em Natal, no Transvaal e na Zululndia, e
sucedeu Lorde Chelmsford, em 4 de julho de 1879. Ele no anexou a Zululn-
dia, mas retalhou-a em treze chefias independentes. Alguns dos novos chefes
no puderam praticamente exercer o poder em razo da resistncia que lhes
opunham inmeras pessoas que ocupavam, antes da guerra, posies de destaque
e afastadas da redistribuio das funes polticas. Os novos chefes recorreram
 violncia. As perdas de vidas humanas foram considerveis e as desordens se
generalizaram. A guerra civil que explodiu durou vrios anos49.
    Contudo, nenhum dos objetivos que se esperava alcanar graas  guerra
contra os zulus foi alcanado. Devia, principalmente, contribuir para limpar o
terreno tendo em vista a incorporao dos Estados africanos em uma federao,
mas ela terminou com um resultado inverso. Frere, o qual era o instigador e a
alma local de toda a empreitada, foi, j vimos, substitudo por Wolseley, que
tinha a misso de trazer a paz, mesmo em detrimento do projeto de federao.
Alm disso, a guerra zulu foi seguida pela guerra anglo-ber de 1880-1881 e
por aquela entre o Cabo e o Lesoto, as quais deram o golpe derradeiro a esse
projeto.
    Os beres do Transvaal no aceitaram a perda da sua independncia e,
durante trs anos, tentaram, por todos os meios pacficos que dispunham, per-
suadir os britnicos a se retirarem. Cada derrota reforava a sua vontade de
retomar o poder dos britnicos. Em 1877, enviaram uma delegao a Londres


49   J. Guy, 1980, cap. 3, 4 e 5; 1981.
206                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 7.2    Membros de um comando ber, por volta de 1880. [ National Army Museum, Londres]




para protestar contra a anexao. Lorde Carnarvon recusou inflexivelmente
encarar a possibilidade de rever a medida de anexao, mas se declarou pronto
para discutir modalidades de uma autonomia dos beres no seio de uma con-
federao sul-africana. Paul Kruger, o membro mais importante da delegao,
solicitou que os beres pudessem decidir por referendo a forma de governo
que desejariam, sob a tutela da coroa britnica, mas recusou-se de se associar
no que quer que fosse ao projeto da confederao50. No final de 1877, quando
os delegados fizeram o relato de sua misso infrutuosa, diante de um comcio
popular em Pretoria, diversos beres exigiram uma resistncia armada. Mas os
dirigentes pareciam convencidos de que, se um referendo mostrasse de maneira
conclusiva que os beres se opunham  anexao, Carnarvon lhes concederia a



50    C. F. Goodfellow, 1966, p. 141-144.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880          207



independncia. Um referendo oficial foi organizado e, por uma grande maioria,
os beres rejeitaram a autoridade britnica.
    Uma segunda delegao partiu para Londres a fim de apresentar em deta-
lhe o ponto de vista dos beres ao novo secretrio das colnias, Sir Michael
Hicks Beach, que sucedera Lorde Carnarvon. Ele recusou tambm a renunciar
ao Transvaal. Quando a delegao fez o seu relato diante de uma multido
numerosa, os clamores exigindo uma guerra de libertao ecoaram ainda mais
fortes do que antes. Os dirigentes pretendiam, contudo, esgotar todos os meios
pacficos de obterem a independncia. Antes de se dispersarem, eles enviaram
um emissrio para conferenciar com Frere, o qual estava em Natal, e, ao mesmo
tempo, fizeram o juramento solene de lutar at a morte pela restaurao de sua
repblica. Frere veio ao Transvaal e encontrou-se com os beres; ele repetiu
que poderiam obter a autonomia e uma ajuda econmica sob a gide da coroa
britnica, mas nada mais. Ele aceitou transmitir ao governo britnico uma nova
petio que, tambm, permaneceu sem efeito.
    Ademais, em maro de 1879, Shepstone foi substitudo por Owen Lanyon, o
qual tinha s um conhecimento limitado do Transvaal, e Frere por Wolseley, um
militar que no acreditava na diplomacia, mas na fora bruta. As medidas que
tomaram, um e outro, s fizeram crescer a determinao dos beres em tentarem
reconquistar a sua independncia pela fora. Em 15 de dezembro de 1879, um
grande comcio no qual participaram mais de 6.000 beres foi realizado em
Wonderfontein; nele resolveu-se abandonar os meios pacficos de buscar obter
a independncia, rejeitar a condio de sditos britnicos e montar, no mais
breve intervalo, um governo republicano. Wolseley prendeu os homens que ele
pensava serem os mentores e s os soltou sob fiana. Nesta altura, todavia, os
beres comearam a ter confiana no novo governo liberal da Gr-Bretanha,
cujo chefe, Gladstone, tinha, na poca que estava na oposio, falado com sim-
patia do Transvaal e da necessidade de lhe conceder a sua independncia. Mas
quando eles lhe solicitaram o cumprimento de suas promessas, ele respondeu,
como os seus antecessores, que no poderiam contar com outra coisa que no
fosse a autonomia no seio de uma confederao.
    Em dezembro de 1880, os beres exasperados reinstituram unilateralmente
o seu governo republicano, com sede durante algum tempo na nova capital,
Heidelberg. O governo provisrio era dirigido por Paul Kruger, Piet Joubert e
M. W. Pretorius. A guerra explodiu em 16 de dezembro, no dia em que Lanyon
se recusou a renunciar pacificamente a administrao do Transvaal. Esta prosse-
guiu at 27 de fevereiro de 1881, dia em que os beres conseguiram uma vitria
decisiva contra os britnicos em Majuba Hill.
208                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    O acordo de paz foi assinado em Pretoria, em agosto de 1881. Por esta con-
veno, se os britnicos renunciassem ao seu objetivo supremo de uma federao
reunindo o Transvaal, as outras colnias e o Estado livre de Orange, obteriam em
contrapartida o controle da mo de obra africana, j que disporiam, em Preto-
ria, de um residente encarregado de supervisionar a administrao africana dos
beres. Em segundo lugar, a supremacia imperial britnica no Transvaal estava
garantida pelo fato de que os britnicos controlariam as relaes exteriores da
repblica e que teriam o direito, em tempos de guerra, de empregar e movi-
mentar livremente as suas tropas e seus equipamentos militares no Transvaal.
Os beres obteriam a autonomia que lhes serviria de trampolim para acederem
a um grau maior de liberdade. Novas negociaes chegaram, em 27 de fevereiro
de 1884,  Conveno de Londres, nos termos da qual os britnicos renunciavam
a todo controle sobre os africanos, mas conservavam o das relaes da repblica
com o estrangeiro51.
    Ao mesmo tempo em que as tropas imperiais lutavam para reprimir a rebe-
lio ber, as tropas coloniais do Cabo travavam contra os sotho uma guerra
que se iniciara em 13 de dezembro de 1880. Tanto quanto a guerra dos beres,
o conflito armado com o Lesoto estava intimamente ligado aos esforos dos
britnicos de criarem uma confederao sul-africana. O governo colonial e os
funcionrios britnicos do Cabo desejavam dar um primeiro passo neste sentido
ao desarmar os Estados africanos. A recusa dos sotho ao desarmamento unila-
teral provocou a guerra contra o Cabo em 1880-1881.
    Desde 1872, o Lesoto estava submisso  administrao colonial do Cabo.
Dentro dos esforos desenvolvidos para promover a unio da frica do Sul,
Gordon Sprigg, o primeiro ministro do Cabo, que tinha substitudo Molteno,
tinha, em conluio com Frere, feito votar pelo parlamento do Cabo, em 1878, a
lei relativa  preservao da paz (Peace Preservation Bill). Esta lei possibilitava o
governo ordenar aos africanos da colnia do Cabo a entregarem as suas armas
de fogo em troca de uma indenizao. Ela no se aplicaria, na origem, ao Lesoto,
mas Sprigg, que sabia que os seus habitantes detinham muitos fuzis, decidiu
estender tal lei a este reino.
    Para os sotho, os fuzis tinham um grande significado social, poltico e econ-
mico. Tinham sido comprados graas ao dinheiro ganho nas minas de diamantes
e representavam, consequentemente, um enorme investimento em trabalho. Os
sotho se apegavam tambm aos seus fuzis porque era muito claro para eles,

51    C. F. J. Muller (org.), 1974, p. 264-272; C. F. Goodfellow, 1966, p. 198-213; L. Thompson, 1971b; F. A.
      Van Jaarsveld, 1961, cap. 7.
Os britnicos, os beres e os africanos na frica do Sul 1850-1880              209



dado a longa histria de sua luta com o Estado livre de Orange, que poderiam
servir um dia para defender o seu reino. Alm disso, a posse de um fuzil marcou
entre eles a passagem da infncia para a idade adulta. Suspeitavam tambm que
o governo do Cabo no confiava inteiramente neles e que tentaria fragiliz-los
a fim de reduzi-los, na sequncia,  escravido. Outras medidas contriburam,
tambm, a mover os sotho para a resistncia armada. Em 1879, a colnia do
Cabo props atribuir o distrito de Quthing a fazendeiros brancos para punir seu
chefe sotho Moorosi, o qual tinha se rebelado recentemente, embora tal espo-
liao fosse absolutamente contrria  promessa de no alienar nenhuma parte
de seu pas, promessa esta que tinha sido feita pelos britnicos a Moshoeshoe.
Alm disso, o governo do Cabo anunciou igualmente um aumento de impostos
sobre as casas, o qual passaria a uma libra. Esta deciso era totalmente inaceitvel
para os sotho, j que um montante de 12.000 libras tinha sido recentemente
cobrado do Lesoto e afetado a colnia do Cabo.
    Os sotho tentaram alcanar um acordo com a colnia do Cabo por meios
pacficos. Protestaram junto a Sprigg quando, por duas vezes, ele viajou ao seu
pas para discutir com eles estas questes; eles encaminharam peties ao gover-
nador e  rainha da Inglaterra; enviaram emissrios ao Cabo para fazer presso
sobre os parlamentares. Tudo em vo.
    Durante este perodo, o poder no Lesoto passou das mos do rei, chamado
de agora em diante chefe supremo, Litsie, para as dos chefes. O rei tornara-se
muito velho e, ainda que tenha se oposto ao desarmamento e s outras medidas
de ordem colonial tomadas pelo Cabo, ele temia enormemente as consequncias
nefastas de uma resistncia armada que expulsasse os britnicos e expusesse o
reino aos riscos de um ataque do Estado livre de Orange. Ele se distanciou
ento da corrente popular que reclamava a luta armada e ordenou que fossem
organizadas manifestaes pacficas. Mas a maioria apoiava os chefes Lertholi,
Masonha e Joel que pregavam a oposio pela violncia s medidas tomadas
pelo governo do Cabo e incentivavam o povo a desobedecer aos magistrados e
a castigar aqueles que obedeciam  administrao colonial, destruindo e con-
fiscando seus bens.
    Em 13 de setembro de 1880, as tropas do Cabo entraram no Lesoto. A
guerra iniciada deste modo durou sete meses. Para o governo do Cabo, as des-
pesas militares aumentaram vertiginosamente e atingiram o nvel inaceitvel de
3 milhes de libras. Sir Hercules Robinson, o novo governador e alto-comissrio,
mostrou-se extremamente desejoso em alcanar a paz com os sotho. Estes lti-
mos, aps sete meses, estavam igualmente cansados da guerra, de modo que
solicitaram a paz. O momento era favorvel a uma arbitragem do governador, o
210                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



que foi feito em 29 de abril de 1981. Embora os sotho ainda pudessem em prin-
cpio entregar seus fuzis e receber uma indenizao, eles podiam conserv-los
na prtica sob a condio de solicitar permisso. Uma anistia total foi oferecida,
mas uma multa de 5.000 cabeas de gado devia ser paga pelos "rebeldes" para
indenizar os "lealistas" e os comerciantes pelas perdas materiais que sofridas
durante a guerra. Feitas as contas, ento, os sotho tinham ganhado a guerra j
que a haviam lutado para manter seus fuzis. O prestgio e o poder dos chefes
que obtiveram este resultado cresceram enormemente  custa do rei que hesi-
tou num momento em que o pas tinha necessidade de dirigentes combativos e
intratveis. Alm disso, o governador do Cabo decidiu colocar a sua nova poltica
em execuo atravs da intermediao dos chefes. Isto foi para eles, deste modo,
uma vitria dupla52.
    A vitria do Lesoto, a no anexao do reino zulu e a conquista da autono-
mia no Transvaal marcaram o fim dos esforos empregados pela Gr-Bretanha
para obrigar a regio a se federalizar. Ela se contentaria, no momento, a manter
um controle parcial sobre as diversas partes da frica do Sul, principalmente
graas aos residentes instalados no local para acompanharem constantemente
a evoluo da situao. A Gr-Bretanha tentaria de novo impor muito mais
firmemente sua autoridade aps a descoberta do ouro, na metade da dcada. Do
ponto de vista dos africanos, a Gr-Bretanha tinha feito muito para reduzir a sua
independncia. A Leste, o Ciskei, com sua numerosa populao xhosa, mfengu
e khoi-khoi, era firmemente controlado pela colnia do Cabo. O mesmo ocorria
com os sotho, ainda que estes gozassem de uma grande margem de autonomia
interna. A Griqualand Ocidental tinha tambm perdido sua soberania. Os zulus
e os pedi estavam na via da autodestruio. A captura de Sekhukhune e a sua
substituio por seu rival, Mampuru, garantiram que o reino fosse destroado
por lutas intestinas e, consequentemente, subordinado ao Transvaal.




52    S. Burman, 1981, cap. 9-12.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                     211



                                       CAPTULO 8


              Os pases da bacia do Zambeze
                                        Allen F. Isaacman




    Este estudo1  dedicado ao exame das grandes mudanas intervindas ao
longo dos trs primeiros quartos do sculo XIX na frica Central, territrio que
hoje agrupa o Malaui, Moambique e a Zmbia. Ele concerne, em particular, 
regio do vale do Zambeze, importante zona de trocas econmicas e culturais,
cadinho onde se forjou grande nmero dos principais Estados ligados  histria
dos povos shona e lunda. Em vez da histria dos principais reinos pr-coloniais,
 a regio em seu conjunto que aqui ser estudada, sendo concedida uma ateno
muito particular para as mudanas provocadas, no sculo XIX, pela integrao
progressiva da regio  economia capitalista mundial e pela dispora nguni-
-sotho. A conjuno desses diversos elementos modificou o mapa poltico da
frica Central e acelerou o surgimento de grandes transformaes econmicas
e sociais. Ainda que a tnica incida aqui sobre esses fatores externos  regio, de
forma alguma as sociedades autctones foram estticas; a configurao interna
de cada uma delas condicionou, ao mesmo tempo, o modo inicial de interao
com os mercadores e os invasores estrangeiros, e a direo em que, finalmente,
as mudanas foram operadas. Uma pincelada sobre a frica Central no fim do
sculo XVIII serve de introduo ao presente estudo, a fim de situarmos, em


1   Este captulo, encomendado em 1975, foi concludo no incio do ano de 1976 e atualizado em 1981. Eu
    gostaria de agradecer a Barbara Isaacman, James Johnson e Paul Lovejoy, pelas crticas muito pertinentes,
    formuladas por eles sobre uma primeira verso deste manuscrito.
212                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880



suas verdadeiras perspectivas, os acontecimentos que se seguiram. Da mesma
forma, este captulo termina com uma breve descrio da regio, na vspera da
"corrida" europeia (scramble), pois as mudanas ocorridas no sculo XIX deram
um outro aspecto  resistncia oposta, mais tarde, pela frica Central ao impe-
rialismo europeu.


      A frica Central na vspera do sculo XIX
    Apesar do impacto determinante que tiveram na frica Central, podemos
considerar as perturbaes econmicas, sobrevindas no sculo XIX, e as invases
nguni-sotho, comumente chamadas Mfecane, como pertencendo a um esquema
mais abrangente de transformaes polticas e econmicas anteriores ao sculo
XIX2. Ao longo dos sculos precedentes, as migraes, a formao de Estados e
a implementao de vastas redes comerciais modificaram a fisionomia das socie-
dades da frica Central. O que distinguiu o sculo XIX dos sculos precedentes
no foi a mudana em si, mas o ritmo relativamente rpido em que ela se deu
e a extenso de suas consequncias.
    Bem antes do sculo XIX, o vale do Zambeze e as regies vizinhas conhece-
ram uma grande revoluo poltica. Por ondas sucessivas, grupos de imigrados
shona e lunda tinham estabelecido sua preeminncia sobre a maior parte do
territrio, anteriormente ocupado por sociedades rurais de dimenses relativa-
mente reduzidas. Enquanto, em zonas perifricas, os tonga, no Sul de Moambi-
que, ou os tumbuka e os tonga ribeirinhos do Lago Niassa (atual Lago Malaui)
tinham conseguido manter sua autonomia, a maioria das sociedades autctones
haviam cado sob a influncia dos Estados shona ou lunda.
     provvel que a formao dos primeiros Estados tenha se iniciado na regio
situada no Sul do Zambeze. No incio do sculo XVI, os imigrados de lnguas
shona vindos do atual Zimbbue impuseram sua dominao sobre a regio que
se estendia rumo ao Sul, das margens do Zambeze at o Rio Sabi.  frente deste
poderoso reino encontrava-se o Mwene Mutapa (Monomotapa); dele o Imp-
rio dos shona extraiu o seu nome. Ainda que as guerras civis que se seguiram
tenham reduzido o poder do Mwene Mutapa e oferecido a vrios chefes provin-
ciais a possibilidade de fazer secesso e de criar reinos autnomos, a hegemonia
shona se manteve em toda a regio. Os mais potentes desses Estados shona


2     J. D. Omer-Cooper, 1966, por exemplo, sustenta que esses acontecimentos criaram uma ruptura na
      histria da frica Central.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                       213



independentes  Bru, Manica, Uteve e Changamire continuaram a dominar
efetivamente a parte meridional do Moambique Central, at o sculo XIX.
No interior dessa zona, a nica incurso estrangeira se produziu na margem sul
do Zambeze, onde os portugueses, bem como colonos e mercadores de Goa,
estabeleceram os prazos da coroa (domnios garantidos para a coroa) que foram
nominalmente ligados ao imprio colonial de Lisboa3 (ver Figura 8.1).
    A expanso dos povos do Catanga, parentes dos lunda, comeou um pouco
mais tarde e, nos primeiros decnios do sculo XIX, ainda no se tinha findado.
Dois sculos mais cedo, os lozi, primeiros emigrados lunda, tinham se estabe-
lecido nas frteis plancies de inundao do Zambeze. Depois deles, logo se
instalaram colonos que criaram os reinos de Kalonga e de Undi, situados no
atual Malaui e, a Oeste, os ancestrais dos Estados Fala, Senga e Bemba. Por
volta de 1740, os ltimos dos principais imigrantes lunda, os mwata kazembe,
fixaram-se na regio do Luapula. Durante o resto do sculo, os lunda consolida-
ram sua autoridade sobre os territrios adquiridos e estenderam suas fronteiras,
graas s suas atividades diplomticas e militares. Aproximadamente em 1800,
alguns Estados ligados aos lunda, como Undi, Kalonga e Lozi, tinham atingido
o apogeu, ao passo que outros, como o Bemba, ainda se encontravam em curso
de expanso4.
    Com algumas pequenas diferenas, a estrutura dos Estados shona e lunda
estava fundada em princpios similares. No cume, encontrava-se um rei, tido
como possuidor de qualidades sagradas, sejam inerentes  realeza, sejam adqui-
ridas pelos ritos de investidura. A estreita relao mantida pelo soberano com o
sobrenatural, santificada pelos sacerdotes do culto e pelos mdiuns, assegurava a
sade e o bem-estar dos seus sditos, bem como a fertilidade da terra. A inter-
-relao entre a instituio real e a fertilidade reforava a posio do soberano
como proprietrio simblico e guardio espiritual da terra. Portanto, o direito
de distribuir a terra cabia somente a ele, direito que constitua o fundamento
da autoridade exercida pelo rei sobre seus vassalos e seus outros sditos, susten-
tando, assim, um ciclo de trocas recprocas. Para cumprir as obrigaes para com
o rei, resultantes da dvida contrada por eles ao utilizarem sua terra, e para poder
aproveitar de suas qualidades reais, os sditos deviam fornecer certos impostos,
bem como servios e tributos fixados anteriormente, os quais variavam de um
reino ao outro. Ademais, nos dois reinos, a maior presa de um elefante morto


3   Para uma anlise mais detalhada dos prazos do Zambeze, ver A. F. Isaacman, 1972a, e M. D. D. Newitt,
    1973a.
4   Para um resumo da expanso lunda, ver a obra de H. W. Langworthy, 1972, p. 16-27.
214                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 8.1    Mapa tnico e poltico da frica Central, 1800-1880 (segundo A. F. Isaacman).



ia sistematicamente para o monarca, na qualidade de proprietrio da terra. Em
algumas sociedades, como as de Manica, dos lunda de Kazembe e de Undi,
ao monarca se reservava tambm, em princpio, o monoplio do comrcio, ao
passo que, no reino de Changamire, em ltima instncia, ele era o propriet-
rio de quase todo o gado5. Estes tributos e diversas ordenaes aliceravam o


5     Para uma anlise crtica da tese "comrcio e poltica" e para uma anlise da importncia do gado no reino
      de Changamire, ver S. I. Mudenge, 1974.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                           215



poder e a riqueza do monarca, que redistribua uma parte dessa ltima com seus
principais tenentes, a fim de garantir a lealdade deles. Nesse sentido, os Estados
pr-coloniais da frica Central organizavam a circulao dos magros recursos
existentes, os quais passavam das classes dominadas  classe dominante6.
    Apesar destes rituais e destas instituies unificadoras, um certo nmero de
fatores ops-se ao desenvolvimento de reinos muito centralizados. Dentre os
principais fatores de instabilidade figuraram as crises de sucesso crnicas na
capital real; a repugnncia dos dignitrios distanciados da capital para subordi-
nar seus interesses econmicos e polticos aos da autoridade central; as revoltas
contra chefes opressores que violavam "o reinado da lei"; a falta de homogenei-
dade tnica e cultural e a ausncia de um exrcito permanente para controlar as
vastas extenses do reino. Tal situao caracterizou-se por conflitos e secesses
de carter ao mesmo tempo irregular e crnico. Assim, os Estados Shona de
Bru, Manica, Uteve e Changamire apenas afirmaram sua independncia frente
ao Mwene Mutapa para experimentar os mesmos problemas em seus prprios
territrios7. O mesmo ocorreu na regio setentrional do Zambeze, em particular,
nos reinos de Kalonga, Undi e Lundu, do atual Malaui8. Entretanto, a fragilidade
de vrios desses Estados no deve mascarar a solidez das redes comunitrias e
das ligaes mais locais que podiam fornecer auxlio e assistncia nos momentos
difceis9.
    Do mesmo modo que profundas mudanas polticas ocorreram tambm
antes do sculo XIX, complexas redes comerciais estavam em operao por
toda a frica Central, bem antes da expanso que marcaria o sculo XIX.
Apesar da tendncia dos historiadores e dos antroplogos para qualificar as


6   Neste captulo, emprego a expresso "classe dominante" para me referir  aristocracia que se apropriava
    dos excedentes e aos seus aliados religiosos e comerciais que governavam os Estados da frica Central
    e controlavam seus magros recursos. A ausncia de uma anlise histrica das economias pr-capitalistas
    da frica Central e, em particular, a falta de uma reconstituio detalhada de "quem produzia o que para
    quem" (as relaes sociais de produo, em termos marxistas) tornam impossvel definir com exatido
    a estrutura de classe dos Estados estudados por ns. Antes de poder empreender uma anlise global,
    ser preciso estudar muito precisamente as diversas entidades polticas da regio, a fim de determinar
    como as classes dominantes puderam manter e reproduzir seu acesso aos recursos limitados, e como elas
    puderam controlar e explorar a mo de obra. Trata-se tambm de precisar em qual medida tais processos
    contriburam para formar os interesses de classe e a conscincia de classe, em geral. Os trabalhos de C.
    Coquery-Vidrovitch (1972), de C. Meillassoux (1974), de E. Terray (1972) e de M. Godelier (1975),
    mesmo se no estivermos inteiramente de acordo com eles, representam uma importante contribuio
    para a anlise da formao das classes sociais.
7   A. F. Isaacman, 1973; S. I. Mudenge, 1974; H. H. K. Bhila, 1972, e D. Beach, 1980.
8   H. W. Langworthy, 1971; K. M. Phiri, 1975, p. 78-80.
9   Tambm havia desigualdades no seio do sistema de parentesco. Os ancies tendiam a monopolizar os
    recursos limitados,  custa dos homens e das mulheres mais jovens. Ver Meillassoux, 1981.
216                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



sociedades autctones de "sociedades de subsistncia", o comrcio de produtos
de base, tais como o ferro, o sal, as vestimentas e os gros, era caracterstico das
economias locais e completava o setor agrcola local10. Deste modo, ainda que
a maior parte dos sena tenha sido majoritariamente formada de agricultores,
um pequeno grupo de teceles exportava regularmente seus tecidos a algumas
centenas de quilmetros, para a regio do Zumbo e para o pas dos chewa,
onde tais produtos eram muito procurados11. Outrossim, durante o sculo
XVIII, os mercadores bisa praticaram comrcio do ferro em grande escala12;
os chewa de Kasungo utilizavam seus excedentes de sal para obter enxadas
tumbuka13, e a economia nacional dos lozi repousava sobre a troca de gado,
peixes e de diversos artigos manufaturados e agrcolas, entre diferentes regi-
es do reino14. J que a troca dos excedentes , desde ento, algo comprovado,
resta estudar mais qual era a natureza do sistema de produo que permitia
tais excedentes.
    Este tipo de comrcio local e inter-regional, sustentado por uma pequena
atividade mineira e manufatureira, contribuiu com o nascimento e com a manu-
teno de um fluxo de trocas entre o interior do pas e o litoral. Embora nossas
informaes sejam fragmentrias,  claro que, ao logo dos sculos XVII e XVIII,
uma rede internacional edificada sobre uma justaposio de correntes comer-
ciais entre grupos vizinhos, alimentou com mercadorias os portos do Oceano
ndico, dominados pelos grandes negociantes muulmanos e indianos. Entre
os produtos mais importantes figuravam o marfim do vale do Luangwa e do
territrio adjacente, pertencente ao reino Undi, o ouro das minas a Norte de
Tete e das minas dos reinos de Manica e de Changamire, bem como o cobre
da regio de Kafue15. Tal comrcio parece ter sido de amplitude relativamente
limitada e mais ou menos irregular at os dois ltimos decnios do sculo XVIII.
O avano para o Leste dos lunda do Kazembe e a aliana comercial entre estes
e o reino de Bisa, o desenvolvimento das atividades dos mercadores yao da
costa e a expanso das atividades comerciais chikunda dos prazos do Zambeze
tenderam a elevar consideravelmente o nvel das exportaes para os entrepostos


10    K. M. Phiri, 1975, p. 109-137; A. D. Roberts, 1970a.
11    A. F. Isaacman, 1972a, p. 73.
12    A. D. Roberts, 1970a, p. 723.
13    K. M. Phiri, 1975, p. 111.
14    G. L. Caplan, 1970, p. 6-7.
15    A. D. Roberts, 1970a, p. 717; S. I. Mudenge, 1974, p. 384-390; A. F. Isaacman, 1972a, p. 75-85; H. H.
      K. Bhila, 1972.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                           217



do Oceano ndico. Esses trs grupos adquiriram uma quantidade substancial de
marfim e de escravos, preparando, assim, a integrao progressiva da regio ao
mercado mundial, que repousava quase totalmente na troca destes dois gneros
por produtos europeus manufaturados16.
    A transformao dos sistemas polticos e econmicos frequentemente engen-
drou mudanas paralelas na composio social e tnica das sociedades centro-
-africanas. A migrao de povos estrangeiros aparentados aos shona e aos lunda
ocasionou frequentes casamentos entre membros dos diferentes grupos tnicos,
e at mesmo esteve na origem do surgimento de agrupamentos completamente
novos, como os sena, os tonga do Zambeze e os goba17. De uma forma geral, os
imigrantes conseguiram impor  populao local suas instituies de base e seus
valores. Assim, a difuso, em grande parte da regio setentrional do Zambeze,
do modo lunda de organizao social fundado na realeza perptua e em uma
ordem de sucesso ao trono, modificou a estrutura fundamental da instituio
real e teve profundas repercusses sobre seu modo de transmisso18. Em toda
parte do Sul do Zambeze, a propagao do culto mwari dos shona e a crena nos
espritos dos ancestrais da nao (mhondoro), na qual tal culto se apoiava, tam-
bm tiveram uma importncia comparvel. A introduo simultnea da lngua
shona e do sistema simblico ligado  propagao do culto mwari modificaria
radicalmente a cosmologia dos autctones19. Entretanto, a mudana de cultura
no ocorreu em um nico sentido. Ainda que tal problema necessitasse de um
estudo aprofundado, est claro que os conquistadores shona, da mesma forma
que os conquistadores lunda, adotaram certos elementos culturais das socieda-
des autctones, criando assim, na maioria dos casos, novas formas sincrticas.
Os cultos makewana e mbona dos chewa e dos lundu parecem representar essa
forma hbrida20, tal como a distino entre chefe do territrio e chefe poltico,
que foi uma caracterstica da dominao exercida pelos lunda do Kazembe sobre
os shila21.
    Por volta do fim do sculo XVIII, a frica Central saa de uma fase dinmica
de sua histria. As migraes e as conquistas dos sculos precedentes haviam
modificado o mapa poltico e cultural da regio, ao passo que a importncia das


16   E. A. Alpers, 1975, p. 172-208; A. D. Roberts, 1970a, p. 727-728; K. M. Phiri, 1975, p. 109-126.
17   A. F. Isaacman, 1972a, p. 4; C. S. Lancaster, 1974.
18   Para mais detalhes sobre a realeza perptua e a ordem de sucesso, ver J. Vansina, 1966, p. 82.
19   Ver D. P. Abraham, 1966; T. O. Ranger, 1973.
20   T. O. Ranger, 1973; M. Schoffeleers, 1972a; 1972b; H. W. Langworthy, 1971.
21   I. Cunnison, 1959, p. 180-184.
218                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



trocas comerciais tinha aumentado consideravelmente. Tais mudanas, por sua
vez, frequentemente provocaram tenses entre os conquistadores e as populaes
conquistadas, bem como entre os diferentes grupos econmicos que disputavam
os magros recursos da regio. Foi assim que, apesar de uma certa tendncia 
centralizao poltica, a situao continuou relativamente instvel e pde ser
explorada pelos mercadores estrangeiros ou por uma nova onda de imigrantes
conquistadores.


      O comrcio de escravos e a integrao da frica
      Central na economia capitalista mundial
    A penetrao comercial sem precedente ocorrida no sculo XIX, a partir da
costa oriental africana, provocou a entrada da maior parte da frica Central
na economia capitalista mundial. Tal como na frica Ocidental, o comrcio
de escravos desempenhou um papel determinante no processo graas ao qual
a regio, em particular aquela situada a Norte do Zambeze, se integrou  peri-
feria do sistema internacional de trocas. No obstante algumas semelhanas de
base, houve contudo importantes diferenas. Em vez de ser destinada ao Novo
Mundo, a maioria dos cativos era exportada para as plantaes do Oceano
ndico, para Madagascar e para o Oriente Mdio: o importantssimo papel do
comrcio de marfim e o fato de as grandes mudanas que acompanharam a
integrao no mercado mundial terem se desenrolado em um lapso de tempo
muito mais curto, tambm distinguem a frica Central da frica Oriental.
Deste modo, a violncia que acompanhava o trfico de escravos era provavel-
mente mais marcada na frica Central, o que se traduzia por uma fragmentao
da sociedade e uma desorganizao sem precedentes da economia rural. Sem
dvida, certas sociedades comerciantes da frica Central, ou pelo menos suas
classes dominantes, tiraram proveito, por pouco tempo, de sua participao do
mercado de escravos e de marfim. Mas, por fim, elas se encontraram em uma
situao de subordinao e de dependncia em relao ao sistema comercial
internacional, cujos centros de deciso estavam fora da frica22.
    Na primeira metade do sculo XIX, vrios fatores concorreram para a ascen-
so do comrcio de escravos. Aps o ressurgimento da economia de plantation
no Nordeste do Brasil e o desenvolvimento das plantaes de cana-de-acar


22    Ver o captulo 2 do presente volume; ver tambm I. Wallerstein, 1976; E. A. Alpers, 1975, p. 264-267.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                   219



em Cuba, um nmero considervel de negreiros das Antilhas e da Amrica
Latina comeou a frequentar os portos de Moambique, onde os cativos eram,
em geral, mais baratos do que na frica Central, e onde a presena limitada das
foras navais britnicas era menos intimidadora23. Na mesma poca, os france-
ses, que exploravam a Ilha Bourbon (atual Ilha da Reunio), as Seychelles e as
Mascarenhas, bem como a elite dirigente de Madagascar, adquiriram um maior
nmero de escravos. Entretanto, o estmulo mais importante foi o desenvolvi-
mento, no incio do sculo, de plantaes de craveiros nas ilhas de Zanzibar e
de Pemba24.
    A situao da frica Central era ideal para satisfazer esta demanda crescente
por mo de obra escrava. As redes de comrcio estabelecidas pelos povos bisa,
yao e chikunda j ligavam o interior das terras aos mercados costeiros de Kilwa,
da Ilha de Moambique e de Quelimane. Ainda que o marfim fosse, no incio,
o produto mais procurado, os mercadores do interior do pas sempre fornece-
ram a tais entrepostos internacionais escravos em pequeno nmero, porm de
forma muito regular. Eles eram empregados no carregamento do marfim, o que
permitia aumentar o nmero de escravos sem perturbar o comrcio de presas
de elefante. Ao contrrio, as exportaes de marfim tambm conheceram um
importante avano  medida que os mercadores africanos tentaram satisfazer, ao
mesmo tempo, a demanda dos novos mercados da Gr-Bretanha, dos Estados
Unidos e a de seus tradicionais clientes da sia25.
    Quando a demanda de mo de obra barata e de marfim subiu, os mercadores
yao, bisa e chikunda estenderam seus imprios comerciais. Os yao penetraram
primeiramente na regio do lago Niassa durante a primeira metade do sculo e,
aps 1850, no vale do Shire, em busca de novos mercados junto aos manganja
e aos chewa. Ao mesmo tempo, estabeleceram relaes comerciais com o porto
de Ibo, no Oceano ndico, que se tornou um grande centro de exportao. Os
chikunda, inicialmente a servio dos prazeiros afro-portugueses e afro-goeses,
estenderam suas relaes comerciais da regio situada logo ao Norte do Zam-
beze at o vale do Luangwa e, ao Sul, at o atual Zimbbue, ao passo que os
bisa intensificavam seu comrcio no territrio situado entre os vales do Shire
e do Luapula. Estes trs grupos continuaram tambm a privilegiar o comr-




23   E. A. Alpers, 1967, p. 4-12; A. F. Isaacman, 1972a, p. 85-94; K. M. Phiri, 1975, p. 130.
24   K. M. Phiri, 1975, p. 130; E. A. Alpers, 1975, p. 209-218; A. M. H. Sheriff, 1971.
25   R. W. Beachey, 1967.
220                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



cio de marfim e, entre os bisa, o marfim permaneceu o principal produto de
exportao26.
     Na metade do sculo XIX, a frica Central tinha se tornado uma grande
fornecedora de escravos. As exportaes anuais de Quelimane para o Brasil, por
exemplo, aumentaram de 400%, entre 1800 e 183527. Os novos portos de Ibo,
na Ilha de Moambique, e de Kilwa fizeram brilhantes negcios; e o ressur-
gimento do sultanato de Angoche, aps 1844, estava diretamente ligado a sua
entrada no trfico de escravos; mesmo os portos do Moambique Meridional,
Inhambane e Loureno Marques, praticamente desconhecidos pelos negreiros
europeus, tornaram-se entrepostos secundrios, porm importantes28. Zanzi-
bar permaneceu sendo o principal centro para onde eram levados os cativos;
as importaes anuais passaram de 10.000 por ano em 1810 para 50.000 em
185029. Esse aumento seguiu-se de um crescimento proporcional das exporta-
es de marfim30.
     A preeminncia econmica dos yao, dos chikunda e dos bisa no tardou a ser
contestada, como permite supor a entrada de Angoche no comrcio de escravos.
Inmeros mercadores, tanto africanos quanto estrangeiros, tornaram-se rapida-
mente seus concorrentes no negcio de escravos e de marfim. Os chefes e os
mercadores macua da costa comearam, ao mesmo tempo, a explorar o interior,
muito povoado, e a impedir os seus rivais yao de passar com suas caravanas pelo
territrio macua para ganhar a Ilha de Moambique. Na metade do sculo XIX,
tiveram a oportunidade de substituir os yao como principais fornecedores de
escravos para a Ilha de Moambique31. Os mercadores de escravos rabes e sua-
lis, que, com frequncia, dependiam diretamente da economia de plantation de
Zanzibar, tambm se tornaram comerciantes muito ativos. Em alguns casos, eles
estabeleceram comunidades permanentes no interior das terras, como Jumbe
o fez em Khota Khota, no Lago Malaui. Entretanto, com mais frequncia,
os negociantes da costa equipavam caravanas que eram enviadas aos grandes
mercados no interior das terras, onde os escravos e o marfim eram facilmente
acessveis. Foi da atual Tanznia que vieram os comerciantes nyamwezi, cujo


26    K. M. Phiri, 1975, p. 117-130; E. A. Alpers, 1975, p. 209-233; A. D. Roberts, 1973, p. 189-193; Y. B.
      Abdallah, 1973, p. 29-31.
27    A. F. Isaacman, 1972a, p. 92.
28    E. A. Alpers, 1967, p. 10-12; M. D. D. Newitt, 1973b; P. Harries, 1981.
29    E. A. Alpers, 1967, p. 10-12.
30    R. W. Beachey, 1967; K. M. Phiri, 1975, p. 117-126; E. A. Alpers, 1975, p. 234.
31    E. A. Alpers, 1975, p. 219-229.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                 221



mais importante, Msiri, imps sua dominao comercial e poltica em toda a
parte oriental do reino Lunda32. Na metade do sculo, rumores sobre as possibi-
lidades de lucros chegaram at Angola e incitaram os comerciantes mambari a
estabelecer relaes comerciais com os lozi e seus suseranos kololo33. Resumindo,
o aumento da demanda internacional de mo de obra servil fez com que uma
grande parte do Zambeze Setentrional se tornasse uma reserva humana onde a
principal atividade era a "produo" de escravos.
    O aumento da concorrncia entre comerciantes, assim como o monoplio
do armamento moderno detido por eles, modificaram de forma radical a natu-
reza do trfico de escravos aps 1840. Ao passo que, at ento, a maioria dos
escravos provavelmente havia sido comprada por vias comerciais legais, o ataque
e a conquista tornar-se-iam doravante o principal modo de aquisio. Con-
forme suas tradies, os chikunda, por exemplo, na primeira fase do comrcio
de escravos, podiam comprar escravos nsenga, chewa e tonga, dentre os quais
muitos eram, a princpio, criminosos, foras-da-lei ou estrangeiros. Entretanto,
passaram a recorrer a mtodos coercitivos para responder  demanda das regies
costeiras34. Do mesmo modo, mercadores itinerantes yao aproveitaram-se de seu
acesso a tecidos baratos e a enxadas de ferro, a fim de adquirirem uma posio
comercial de primeiro plano. Contudo, durante a segunda metade do sculo,
presses externas incitaram-nos a exercer uma influncia militar no vale do Shire
para assegurar sua hegemonia econmica35. A participao do povo macua no
comrcio de escravos sofreu uma transformao anloga, ao passo que a fora
sempre fizera parte da estratgia rabe-suali36.
    Para assegurar um constante fornecimento de cativos e de marfim, um certo
nmero de grupos de comerciantes obteve Estados de tamanho considervel,
atravs de suas conquistas. Embora fossem diferentes nos detalhes, estas comu-
nidades apresentavam traos comuns que modelaram sua evoluo histrica.
Todos os suseranos estrangeiros contavam largamente com as armas europeias
para impor sua hegemonia e manter sua preeminncia. Tais armas aperfeioadas
eram obtidas em troca de cativos, em uma verso atualizada do ciclo fuzil-
-escravo. Uma vez solidamente implantadas, as classes dirigentes estrangeiras
alargavam as fronteiras de seu imprio; suas foras podiam ser mais ou menos


32   J. Vansina, 1966, p. 227-231.
33   E. Flint, 1970.
34   A. F. Isaacman, 1976, p. 24-25.
35   K. M. Phiri, 1975, p. 147-150; E. A. Alpers, 1969.
36   E. A. Alpers, 1975, p. 219-228; K. M. Phiri, 1975, p. 139-145; H. W. Langworthy, s. d.
222                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 8.2 Jumbe de Khota Khota. [Fonte: H. H. Johnston, British Central Africa, 1897, Methuen and Co,
London, p. 92. Foto reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Uni-
versidade de Cambridge.]
Os pases da bacia do Zambeze                                                                          223



potentes, mas, por outro lado, a coero era o mecanismo privilegiado do cres-
cimento territorial. As novas aquisies forneceram fontes suplementares de
escravos e de marfim, utilizados para aumentar o tamanho dos arsenais, tornando
assim possvel uma nova expanso. Ainda que politicamente independentes, tais
Estados conquistados por estrangeiros representavam uma extenso indireta ou
secundria da potncia econmica e militar europeia para o interior do pas.
    Esse tipo de penetrao comercial, de conquista e de formao de Estados se
reproduziu ao longo do Zambeze e no vale adjacente do Luangwa. Aps 1840,
um grande nmero de chefias chewa, tonga, tawara, nsenga e soli foi absorvido
 fora pelos Estados dos senhores da guerra afro-portugueses e afro-goeses,
bem como de seus vassalos chikunda. Os mais importantes foram Massangano,
Makanga e os Estados zumbo de Kanyemba e de Matakenya37. Um fenmeno
semelhante se produziu no Norte, em ritmo acelerado, atingindo seu ponto cul-
minante nos anos 1870. Como o indicamos mais acima, chefes mercadores yao,
como Mataka, Makanjila e Mpona, impuseram sua hegemonia sobre a maior
parte do vale do Shire; comerciantes rabes estabeleceram encraves polticos na
regio do lago Niassa; e Msiri, o chefe dos yeke, apoderou-se do controle das
provncias ocidentais do reino lunda de Kazembe38. Em suma, o comrcio de
escravos, em uma regio imensa, conduziu ao poder novas classes dirigentes, cuja
autoridade repousava sobre a explorao e a intimidao da populao local.
    Mesmo quando os negreiros no se impunham como suseranos polticos,
suas razias, assim como sua capacidade de explorar as cises existentes no inte-
rior de inmeras comunidades da frica Central, frequentemente abalavam
a autoridade da aristocracia local. Ao burlar o monoplio real do comrcio,
os mercadores rabes e sualis adquiriram um poder local no reino lunda de
Kazembe. Em 1872, eles intervieram diretamente na poltica lunda, ajudando
no assassinato de Kazembe Muonga Sunkutu e na escolha de um sucessor mais
dcil39. Do mesmo modo, as incurses dos chikunda e dos sualis, conjugadas
s alianas comerciais feitas por estes ltimos com chefias distantes, minaram
a posio do Reino Undi ao longo do sculo XIX e, por fim, provocaram sua
queda por volta de 188040. Outros mercadores estrangeiros precipitaram um
confronto armado entre o chefe senga, Kambamo, e Tembu, seu inimigo jurado,


37   A. F. Isaacman, 1976, p. 22-48.
38   J. Vansina, 1966, p. 227-231; E. A. Alpers, 1969, p. 413-416; H. W. Langworthy, s. d., p. 14-18; K. M.
     Phiri, 1975, p. 140-145; Y. B. Abdallah, 1973, p. 40-60.
39   I. Cunnison, 1966, p. 235-236; A. D. Roberts, 1973, p. 199.
40   H. W. Langworthy, 1971, p. 18-21.
224                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 8.3 Mercadores rabes da regio norte do lago Malaui. [Fonte: H. H. Johnston, British Central Africa,
1897, p. 93, Methuen and Co, London. Foto reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao
da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



a fim de obterem mais escravos para a exportao41. No Sul, bandos chikunda
alcanaram uma situao econmica e poltica de primeiro plano, graas  forma
com a qual souberam explorar suas qualidades militares, aliando-se s faces
vitoriosas das sociedades senga e sala42.
    A influncia dos mercadores de escravos no destino poltico da aristocracia
autctone no era uniforme. Em alguns casos, a classe dominante encontrou-
-se reforada por suas ligaes econmicas e militares com os negreiros. Tal
foi o caso das relaes entre os chefes bemba e os mercadores rabes e sualis.


41    H. W. Langworthy, s. d., p. 20-21.
42    B. Stefaniszyn e H. de Santana, 1960, p. 364; W. V. Brelsford, 1956, p. 58.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                                225



Os bemba,  frente dos quais se encontrava Chilesche Chipela, findavam uma
fase de expanso territorial e de centralizao poltica quando os mercadores
estrangeiros penetraram entre eles, por volta de 1860. Como consequncia, o
reino bemba foi bem mais unificado e poderoso do que a maioria das socieda-
des da frica Central. Sua situao geogrfica, um pouco  parte das grandes
rotas comerciais, impediu a formao, no seio do reino, de uma larga comuni-
dade mercante, podendo eventualmente apresentar riscos de sedio. Tambm
 importante o fato de nada ter incitado os comerciantes rabes e sualis a
adotarem uma atitude hostil para com os bemba, pois que no havia rivalidade
econmica entre eles. A maior parte das riquezas das famlias reais bemba era
composta de escravos e de marfim que provinham de razias e de tributos, e eles
estavam felizes em troc-los por tecidos e outras mercadorias importadas, forne-
cidas pelos mercadores costeiros. Essa complementaridade econmica favoreceu
o estabelecimento de relaes harmoniosas e, ao mesmo tempo, consolidou a
situao interna da elite dirigente bemba, que se servia das mercadorias estran-
geiras para recrutar novos partidrios e reforar suas ligaes com os chefes
subordinados. A forte demanda por escravos e marfim provocou, de 1860 a
1880, uma nova fase de expanso durante a qual foras bemba se apoderaram
da maior parte do Nordeste da atual Zmbia. Foi assim que, graas s ligaes
mantidas com mercadores estrangeiros, os bemba alcanaram um poder regional
sem precedente, acumulando riquezas considerveis43.
    Como os bemba, um certo nmero de chefes e de mercadores locais fez
alianas com os negreiros, que se revelariam extremamente benficas a eles. Ao
longo dos anos 1870, Mwaze Kasungo, o chefe chewa cujo territrio abarcava
parte da rota comercial Niassa-Catanga, abastecia as caravanas rabes de gneros
alimentcios, recebendo fuzis em troca. Tais armas permitiram-lhe, em seguida,
resistir s invases dos nguni mbwela44. A proteo, outorgada pelos rabes e
pelos sualis aos chefes senga, importantes fornecedores de marfim, tambm se
explicava por consideraes econmicas45. Fatores da mesma ordem contribu-
ram para justificar as alianas dos chikunda com os ambo contra os bemba, e a
ajuda que eles concederam aos nsenga contra os soli, na dcada que precedeu a
"corrida" 46. Em todos esses casos, mostra-se claro que a estratgia dos estran-



43   A. D. Roberts, 1973, p. 164-214.
44   K. M. Phiri, 1975, p. 143-145; H. W. Langworthy, s. d., p. 12-13.
45   H. W. Langworthy, s. d., p. 18-21.
46   W. V. Brelsford, 1956, p. 64; B. Stefaniszyn e H. de Santana, 1960, p. 64; K. M. Phiri, 1975, p. 150.
226                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



geiros era impedir a expanso de um rival comercial ou poltico, a fim de manter
suas prprias zonas de influncia.
    Por uma estranha ironia do destino, os chefes e os mercadores que bus-
cavam um excedente de cativos foram, s vezes, vtimas das perturbaes
sociais e polticas provocadas pelo trfico de escravos. Em vrias ocasies, eles
abusaram de sua autoridade e reduziram os seus sditos ou seus vizinhos a
escravido, para manter o afluxo de riqueza e de armas sobre os quais repou-
sava o seu poder. A elite macua adotou esse tipo de estratgia suicida. At os
anos 1850, os macua foram os principais exportadores de escravos para a Ilha
de Moambique. Suas atividades predatrias provocaram indiretamente uma
vasta migrao das sociedades vitimadas por eles. Confrontados com uma
diminuio de suas reservas de mo de obra, os chefes macua comearam
a lanar ataques uns contra os outros e a reduzir os seus prprios sditos 
escravido, para continuarem se enriquecendo por meio desse trfico, do qual
se tornaram totalmente dependentes. No espao de duas dcadas, os macua
encontraram-se gravemente divididos, o que, em seguida, os tornaria uma
presa fcil para os invasores portugueses47. Movida pela ganncia, a comu-
nidade afro-portuguesa dos prazeros sofreu dessa mesma viso estreita, pre-
cipitando assim o desabamento do sistema dos prazos. Os prazeros, tal como
os chefes macua, violaram sua carta histrica e, quando no mais puderam
conseguir cativos no interior do pas, comearam a reduzir as pessoas que
viviam em suas terras  escravido. Como reao a esse abuso, a populao
autctone se revoltou e expulsou os prazeros da regio ou fugiu para o interior,
privando, assim, o proprietrio do domnio de sua tradicional fonte de renda.
Nos dois casos, isso tendeu, por volta de 1830,  destruio da maioria dos
prazos e aqueles que conseguiram sobreviver conheceram perodos de fome
que enfraqueceram tanto as populaes autctones que elas no puderam
opor nenhuma resistncia s invases nguni das dcadas seguintes. Cinquenta
anos mais tarde, os gwemba, os nsenga e os tawara levantaram-se contra os
seus suseranos mestizo (afro-portugueses e afro-asiticos) e chikunda, que os
haviam reduzido  escravido e exportado para a costa48.
    A regio sob domnio shona, que se estendia da margem sul do Zambeze
ao interior de Inhambane, tornou-se uma zona secundria de fornecimento de
escravos, e o mesmo ocorreu  regio da baa de Delagoa. Apenas pequenos
encraves de implantao comercial estrangeira eram encontrados no interior

47    E. A. Alpers, 1975, p. 225.
48    A. F. Isaacman, 1972a, p. 114-123.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                            227



dessa larga zona, notadamente nas zonas conquistadas pelos chikunda, ao longo
das margens meridionais do Zambeze, ao passo que traficantes portugueses e
africanos, que tinham interesses comerciais nos portos de Inhambane e de Lou-
reno Marques, efetuavam ataques ocasionais. Tais atividades, que precederam o
sculo XIX, eram espordicas e somente eram praticadas em uma escala muito
reduzida49.
    Um conjunto de fatores demogrficos, comerciais e polticos explica a recusa
ou a incapacidade dos mercadores de escravos de explorarem esta parte meri-
dional do vale do Zambeze. A menor densidade de populao significava que,
potencialmente, havia menos recursos em escravos do que na regio setentrional,
facilmente acessada pelos traficantes. Ademais, os Estados shona tinham amplos
recursos em ouro e marfim, exportados por eles em troca de produtos europeus.
Assim, o nico meio de os mercadores estrangeiros conseguirem cativos em
nmero considervel era recorrer  fora; e os poderosos Estados shona tinham
a possibilidade de rechaar a maior parte das incurses. A derrota infligida pelo
exrcito de Mwene Mutapa a uma armada portuguesa, em 1807, assim como
os repetidos ataques de Bru e Manica contra os europeus, mostraram bem em
favor de quem pendia o equilbrio das foras. Os gaza nguni, que impuseram sua
hegemonia sobre grande parte da regio meridional aps 1830, participaram do
trfico internacional de escravos. Mas, aps 1850, quando a esquadrilha naval
britnica encarregada de lutar contra o trfico interditou as rotas dos portos de
Loureno Marques e de Inhambane aos navios, esse comrcio tornou-se cada
vez mais difcil e, finalmente, deixou de ser rentvel. No espao de dez anos, a
aristocracia gaza e os mercadores regionais abandonaram o trfico martimo,
preferindo utilizar seus escravos no local50.
    Embora as pesquisas neste domnio devam prosseguir, a priori, tudo indica
que uma evoluo semelhante ocorreu em muitos lugares da frica Central.
Uma das consequncias do declnio da demanda internacional de escravos, na
segunda metade do sculo XIX, foi a transformao do destino dos cativos: de
gneros destinados  exportao, tornaram-se trabalhadores forados. Conhece-
mos vrios exemplos de escravos destinados  exportao que foram integrados
 produo local. A mo de obra escrava desempenhou um grande papel entre
os gaza, os macua, os lozi, os gwemba, os maconde e os chikunda, entre outros.
Nos dois ltimos casos, o fato de recorrerem aos cativos permitiu aos homens
livres recolher o cautchu, a cera e o marfim para a exportao alm-mar. A aris-

49   Ibid., p. 89-92; A. K. Smith, 1969, p. 176-177; A. Lobato, 1948, p. 7-8; P. Harries, 1981, p. 312-318.
50   P. Harries, 1981, p. 312-318.
228                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 8.4 Um Rugaruga (caador de escravos). [Fonte: H. H. Johnston, British Central Africa, 1897, p.
421, Methuen and Co, London. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao da
Biblioteca da Universidade de Cambridge.]
Os pases da bacia do Zambeze                                                                           229



tocracia lozi tambm empregou escravos para cavar canais e fossas, o que lhe
permitiu transformar solos pantanosos em terras cultivveis. No ltimo quarto
do sculo, estima-se que um quarto da populao lozi era constitudo de escra-
vos. Deste modo, o dinamismo da economia nguni deveu-se  possibilidade de
obter excedentes, graas a um vasto estoque de cativos51.
    Todavia, mesmo levando em conta as variaes locais, vemos se desenhar
um movimento geral de desagregao econmica devido ao trfico de escravos.
A brutal transformao de uma grande parte da economia rural, a exportao
de um grande nmero dos membros mais produtivos das sociedades locais, a
introduo involuntria de doenas extremamente contagiosas e a crescente
dependncia da economia da frica Central em relao ao sistema de troca
mundial aceleraram o processo de subdesenvolvimento. Claro, esse processo
foi acompanhado da difuso de novas culturas, como o tabaco, o milho, o arroz
e a mandioca; da introduo de inovaes tcnicas modestas, como as peas
chikunda, os celeiros, as armas; e da expanso de algumas indstrias locais.
Porm, esses so desenvolvimentos pouco importantes se comparados ao atraso
econmico que a regio, em seu todo, conheceu52.
    No  muito necessrio se deter sobre a amplitude, sem precedentes, das
destruies que acompanharam os ataques e as atividades expansionistas dos
negreiros: campos devastados, aldeias inteiras destrudas, cujos sobreviventes,
no mais das vezes, eram obrigados a fugir para se estabelecerem em lugares ina-
cessveis e improdutivos. Um viajante do sculo XIX conta o efeito dos ataques
conduzidos pelos yao contra os manganja, nos anos 1860:
     Um certo nmero de manganja partiu com eles. Em toda parte, viram os traos afli-
     tivos da guerra: aldeias queimadas, hortas abandonadas, as ricas terras da redondeza
     transformando-se rapidamente em desertos. Por volta do meio-dia, encontraram
     um importante bando de ajaua (yao) que voltava de um ataque vitorioso. Ao longe,
     vamos a fumaa das aldeias que queimavam. Uma longa fila de cativos carregava



51   L. Gann, 1972, p. 188-192; E. Flint, 1970, p. 73-79; P. Harries, 1981; W. G. Clarence-Smith, 1979b,
     p. 219-234; P. D. Curtin, S. Feierman, L. Thompson e J. Vansina, 1978, p. 403; T. I. Matthews, 1981, p.
     23-24. Assim, enquanto a escravido havia caracterizado inmeras sociedades da frica Central antes
     do trfico, diversos indcios mostram que a aristocracia cada vez mais tendia a adquirir cativos para
     obter os excedentes que lhe permitiam manter sua privilegiada posio. Na medida em que os escravos
     constituam uma mo de obra forada, tornavam-se, a partir de ento, bens mveis: o que implica uma
     mudana na natureza da prpria escravido, pois que, inicialmente, era mais acentuada a funo repro-
     dutora dos escravos e o papel deles na extenso da rede de parentesco.
52 G. W. Hartwig e K. D. Patterson (org.), 1978; A. D. Roberts, 1970a, p. 734-736; B. Reynolds, 1968, p.
   17 e 59; J. Vansina, 1978.
230                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



      o esplio e ouvamos suas queixas elevando-se acima dos clamores triunfantes das
      mulheres ajaua, que saam para acolher os visitantes que retornavam53.
    As incurses dos chikunda nos territrios chewa, tonga e nsenga, e, em
direo ao Norte, at o territrio dos lunda de Kazembe, bem como os ataques
dos rabes-sualis contra a populao da regio do lago Malaui, produziram
as mesmas desordens e as mesmas runas54. Nos casos mais extremos, regies
inteiras foram despovoadas. Um funcionrio britnico escrevia em 1861: "Um
rabe que recentemente voltou do lago Niassa me contou que havia viajado
durante dezessete dias pelas terras, onde s havia cidades e aldeias em runas
[...] e nenhuma alma viva"55.
    Tal perda de grande nmero dos membros mais produtivos da sociedade
agravou a desorganizao da sociedade rural. Embora disponhamos de indi-
caes de valor desigual, as informaes que temos sobre as regies do vale do
Zambeze, do vale do Shire e do Lago Malaui levam a pensar que perodos de
fome regularmente ocorriam56. Portanto, escravos eram frequentemente trocados
por alimentos, aumentando ainda mais o xodo das populaes. De todo modo,
a instabilidade da situao e a ameaa de outros ataques impediam a recuperao
da economia rural.
    Tambm a fome e a presso psicolgica tornavam as populaes desenrai-
zadas e subalimentadas, vulnerveis s doenas infecciosas transmitidas pelos
mercadores da costa. Doenas como a varola e o clera, correntes nas comu-
nidades do Oceano ndico, tiveram, na frica Central, um efeito devastador
nas populaes que no tinham nenhuma imunidade natural para delas se
protegerem. Epidemias de varola e de clera assolaram grandes regies da
frica Central, da atual fronteira da Tanznia e do Malaui at o Moambique
Meridional. Aproximadamente no final dos anos 1850, um explorador euro-
peu observou: "A epidemia mais perigosa  a [...] da varola, que, s vezes, cai
como uma tempestade sobre o pas"57. H registros de epidemias de varola em
Moambique, em 1834, 1836 e 1862; no interior, assinalam-se tambm outras
epidemias no perodo de 1850 a 188058. A doena do sono, provavelmente
ligada s mudanas sobrevindas na frica Central aps o arroteamento das

53    H. Rowley, 1867, p. 112-113.
54    F. Selous, 1893, p. 48.
55    Apud R. Coupland, 1939, p. 140.
56    A. F. Isaacman, 1972a, p. 114-124; E. A. Alpers, 1967, p. 20.
57    Apud em G. W. Hartwig, 1978, p. 26.
58    Ibid.; J. R. Dias, 1981; G. Liesegang, s. d.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                        231



florestas e a exterminao da caa, atingiu igualmente grande parte da zona
que estudamos aqui59.
    A taxa elevada de mortalidade e de doena, por sua vez, reduziu a produti-
vidade rural, contribuindo, assim, com o aumento da desnutrio e das doenas.
A tendncia das comunidades sobreviventes a se instalarem em aldeias superpo-
voadas, cujos solos mostravam-se imprprios para nutri-las, agravou ainda mais
esse problema. Alis, as epidemias tiveram dois outros efeitos negativos. Em um
primeiro momento, elas intensificaram as desordens sociais e as acusaes de
feitiaria. Ademais, as classes privilegiadas, em um certo nmero de sociedades,
tentaram compensar a queda demogrfica buscando outros cativos  aumen-
tando, assim, na mesma proporo, o comrcio local de escravos60.
    Certamente poderamos sustentar que as sociedades comerciantes, ou pelo
menos, a aristocracia e os mercadores, melhoraram sua situao  custa dos
vizinhos mais fracos: contudo, as informaes de que dispomos levam a pen-
sar, ao contrrio, que essa melhora foi de curta durao e que tais sociedades
tornaram-se excessivamente dependentes da economia do mundo capitalista.
Na melhor das hipteses, os grandes Estados comerciais perderam sua indepen-
dncia econmica. Para conservar suas posies preeminentes, era-lhes preciso
esperar que a demanda de marfim e escravos vinda das costas se mantivesse,
apesar das presses sempre mais fortes dos britnicos. Tambm dependiam da
possibilidade de obter essas duas mercadorias em quantidade suficiente. Nos
casos extremos, como o dos macua, a incapacidade de preservar o fornecimento
de escravos levou a um conflito interno e  autodestruio. Mais frequentemente,
a concorrncia pela mo de obra servil suscitava uma hostilidade violenta entre
comunidades comerciantes e no interior de cada uma delas. Inmeros foram os
exemplos de guerras entre bandos chikunda, chefes yao e grupos de comerciantes
sualis61. Em virtude de sua dependncia em relao s armas europeias e aos
intermedirios estrangeiros, as comunidades autctones de comerciantes eram,
com frequncia, muito vulnerveis. Os portugueses, por exemplo, aproveitavam
de seu papel de fornecedores de armas para forar os bandos chikunda a aceita-
rem, em parte, a autoridade de Lisboa em seu territrio62. Do mesmo modo, os
senga contaram tanto com seus aliados rabes, que colocaram sua soberania em


59   J. R. Dias, 1981.
60   G. W. Hartwig, 1978, p. 25-31.
61   A. F. Isaacman, 1976, p. 37-38; Y. B. Abdallah, 1973, p. 52-54; K. M. Phiri, 1975, p. 144-146; E. A.
     Alpers, 1969, p. 413-414.
62   A. F. Isaacman, 1976, p. 31-35.
232                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



risco63. Mesmo os poderosos bemba no escaparam  presso dos comerciantes
rabes e sualis64.
    Alm disso, com a abolio do comrcio de escravos, as classes ou as camadas
sociais, s quais pertenciam aqueles que se beneficiavam com tal negcio  a
aristocracia, os mercadores, os chefes de guerra e os proprietrios de terras ,
buscavam desesperadamente novos gneros, como a cera, o caf, o amendoim
ou os leos vegetais. Podiam obter tais produtos de seus sditos ou adquiri-los
pelo comrcio, a fim de garantirem um abastecimento regular de produtos de
consumo e de equipamento militar europeu, indispensveis  manuteno de sua
privilegiada posio. Em certas regies, esse comrcio permitiu aos mercadores
itinerantes o acmulo de capital e aos camponeses, o desenvolvimento da agri-
cultura.  medida que essas camadas e estas classes sociais conseguiram efetuar a
transio, puderam simplesmente perpetuar ou estender sua posio dependente,
em uma economia mundial sobre a qual elas no tinham nenhum controle.
    Se olharmos de um ponto de vista ligeiramente diferente, podemos dizer que
o valor desigual das mercadorias trocadas reflete a precariedade da frica Cen-
tral no seio do sistema comercial internacional. Como Alpers notou: "Embora
o marfim tivesse um baixo valor aos olhos das sociedades africanas, essas lti-
mas obtinham em troca mercadorias cujo valor no igualava em nada quele
outorgado ao marfim pelos mercadores capitalistas das ndias, da Europa e
da Amrica" 65. A diferena era particularmente clara na venda dos escravos.
Para compensar as perdas de mo de obra que sofriam, as sociedades da frica
Central recebiam mercadorias perecveis de baixo custo e armas, que de forma
alguma equilibravam a rarefao dessa mo de obra. Deste modo, quando os
africanos caavam o elefante para obter o marfim, esgotavam um recurso limi-
tado e no recebiam os bens de equipamento que poderiam ter-lhes permitido
desenvolver a base produtiva de suas sociedades. Segundo algumas pesquisas
recentes, eles no s alteravam a sua economia, como tambm destruam o meio
ecolgico.
     medida que a regio empobrecia, as disparidades de riqueza e de status
social eram cada vez mais pronunciadas. Embora ainda falte conduzir pesquisas
mais detalhadas para podermos determinar a natureza dos sistemas de produ-
o e de diviso dos excedentes nas sociedades da frica Central,  claro que a
aristocracia, frequentemente aliada  classe dos mercadores ou a uma parte dela,

63    H. W. Langworthy, s. d., p. 20-21.
64    A. D. Roberts, 1973, p. 268.
65    E. A. Alpers, 1975, p. 266.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                            233



era o principal beneficirio desse processo. O surgimento de poderosos chefes
yao, makanjila e mataka, bem como os esforos desesperados da elite macua
para continuar no poder, testemunharam a acentuao das diferenciaes sociais
e polticas no interior dessas sociedades66. Um fenmeno anlogo se produziu
nos sultanatos de Angoche e de Quitanghona, e nos Estados conquistados pelos
chikunda e pelos rabes-sualis, onde, apesar de uma crescente oposio popular
e de revoltas peridicas, uma pequena elite poltica e comerciante se imps. A
frequncia do descontentamento popular durante a segunda metade do sculo
XIX leva-nos a pensar que os antagonismos de classes aumentaram; foi o que
mostraram os levantamentos de escravos entre os lozi e nos prazos67.
    Alhures, interesses comerciais independentes da elite dirigente chegaram a
dominar o comrcio e a arruinar a posio das autoridades polticas. Os melhores
exemplos que podemos fornecer dessa transferncia de poder so, talvez, aque-
les dos Estados setentrionais de Undi e de Kazembe. Nos dois casos, alianas
realizadas entre mercadores locais e comerciantes estrangeiros facilitaram o
desrespeito ao monoplio real e enfraqueceram consideravelmente a posio
dos diversos dirigentes nacionais68. O mesmo fenmeno se produziu no reino
vizinho de Cassange (Kassanga). A, as famlias matriarcais locais conseguiram
controlar o comrcio de escravos  custa da famlia real, o que rapidamente
conduziu  fragmentao do reino69.
    Uma consequncia imprevista da revoluo comercial foi o grande nmero
de emprstimos culturais entre as diversas sociedades. As mudanas variaram
de forma sensvel em funo de vrios fatores, tais como a natureza e a durao
dos contatos mantidos entre os grupos de comerciantes e a populao autctone.
Nos casos em que a interao foi bastante importante, surgiram trs grandes
tipos de influncia cultural. Em alguns casos, bandos isolados de mercadores
e de saqueadores foram completamente assimilados s comunidades locais, tal
como os caadores chikunda que se integraram s comunidades nsenga, ambo
e aos tonga do vale70. Alhures, ao contrrio, foram os estrangeiros que profun-
damente imprimiram sua marca na cultura autctone. Os sditos chewa de
Khota Khota, por exemplo, integraram certos aspectos do isl  sua religio,
adotaram nomes sualis, puseram-se a falar kiswahili e viram o seu sistema social


66   Y. B. Abdallah, 1973, p. 40-60; E. A. Alpers, 1975, p. 228-229.
67   N. Hafkin, 1973, p. 253-280, p. 311-359; A. F. Isaacman, 1976, p. 23-30; K. M. Phiri, 1975, p. 140-146.
68   H. W. Langworthy, 1971, p. 18-21; I. Cunnison, 1966, p. 235-236; J. Vansina, 1966, p. 227-231.
69   J. C. Miller, 1973, p. 23-26.
70   W. V. Brelsford, 1956, p. 60-62.
234                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



se modificar profundamente71. Da mesma forma, inmeros comerciantes yao, ao
mantiverem contatos com os rabes, converteram-se ao isl e adotaram os mode-
los culturais das zonas costeiras. A sua participao nas atividades comerciais
com terras longnquas tambm provocou o desenvolvimento de centros urba-
nos, o surgimento de rituais e de interdies destinados a garantir a fidelidade
das mulheres yao quando seus maridos estavam no interior72. Nesse sentido,
supe-se que mudanas tambm ocorreram no momento em que as socieda-
des modificaram suas estruturas internas para se adaptarem a um novo meio.
Alm desses dois tipos de influncia cultural, sabemos que a instabilidade da
situao facilitou a formao de novos grupos tnicos e culturais. Vrios bandos
chikunda abandonaram o decadente sistema dos prazos, aproximadamente na
metade do sculo, e organizaram comunidades autnomas no vale do Luangwa.
Atraindo adeptos vindos de grupos tnicos dspares, desenvolveram uma cultura
que adotou diversas instituies e valores dos shona e dos povos do Malaui73.
Um fenmeno anlogo se produziu na regio que atualmente constitui a parte
oriental da Repblica Democrtica do Congo, onde os manyema, aps terem
sido um bando heterogneo de traficantes de escravos, acabaram formando um
grupo social e cultural homogneo74.


      O impacto das invases nguni e kololo
    Como a integrao progressiva da frica Central no sistema capitalista mun-
dial, as invases nguni e sotho, que comearam nos anos 1820, representaram
a continuao dos processos polticos em curso, porm, sob novas formas e em
uma escala sem precedente75. A dispora dos povos da frica Austral insere-se
no quadro mais abrangente das migraes e da formao de Estados que, h
vrios sculos, haviam se iniciado. Em alguns casos, os imigrantes estabelece-
ram seu domnio sobre grupos que conseguiram permanecer fora da esfera de
influncia dos Estados shona e lunda. A dominao exercida pelos gaza nguni


71    K. M. Phiri, 1975, p. 140-146; H. W. Langworthy, s. d. , p. 23; M. E. Page, 1974.
72    E. A. Alpers, 1972; 1969, p. 417-420.
73    A. F. Isaacman, 1972b, p. 454-461.
74    M. E. Page, 1974.
75    Os trabalhos de P. Bonner, J. Guy, D. Hedges e H. Slater indicaram que o processo de construo estatal
      do sculo XIX, associado  expanso dos nguni e dos sotho, teve como antecedentes as transformaes
      polticas e a consolidao do poder dos chefes e dos ancies no perodo precedente. Ver S. Marks e A.
      Atmore (org.), 1980; D. Hedges, 1978.
Os pases da bacia do Zambeze                                                235



sobre os tonga do Sul de Moambique ilustra esse fenmeno. Frequentemente,
os invasores impuseram sua hegemonia aos reinos existentes. De qualquer modo,
os Estados novamente conquistados compreendiam grande parte dos territrios
que atualmente formam Moambique, o Malaui e a Zmbia, e estavam organi-
zados em torno de um conjunto, nico em seu gnero, de instituies polticas
e militares centralizadas.
    Trs ondas de imigrao espalharam-se pela frica Central por volta da
metade do sculo XIX. A primeira era constituda dos partidrios nguni de
Soshangane, senhor do Imprio Gaza Nguni que se estendia do Norte do
Moambique Austral at o rio Zambeze e a Oeste, at o atual Zimbbue. A
vitria de Soshangane sobre seu inimigo jurado, Zwangendaba, em 1831, obri-
gou este ltimo a emigrar para alm do mdio Zambeze, estabelecendo-se
definitivamente em Mapupo, entre o Lago Malaui e o Lago Tanganica. Quase
na mesma poca, os imigrantes kololo de origem sotho, conduzidos por seu
chefe Sebetwane, emigraram, passando pelo territrio dos twana e pela regio
do mdio Zambeze, antes de se estabelecerem entre os lozi, aos quais impuseram
seu domnio.
    No obstante, ainda que estudados aqui separadamente, esses grupos de
imigrantes apresentavam traos comuns. Todos abandonaram a terra de seus
ancestrais pelas mesmas razes: todos enfrentaram os mesmos problemas em
sua fuga para o Norte e se beneficiaram das armas e da estratgia militar que
haviam emprestado, diretamente ou indiretamente, dos zulus. Todos esses gru-
pos foram atingidos pelas atividades expansionistas de seus vizinhos  os gaza
e os wangendaba sofreram as de Shaka, e os kololo, os ataques dos tlookwa  e
encontraram-se ameaados de perderem seu rebanho e de serem aniquilados.
Como tais conflitos reduziram consideravelmente os seus efetivos, foram obri-
gados a incorporar em suas fileiras um grande nmero de estrangeiros, para
que pudessem se tornar uma verdadeira fora militar e poltica. A adoo da
zagaia curta zulu e o desenvolvimento de uma tcnica de guerra mais evoluda
lhes permitiram adquirir cativos mais facilmente e multiplicar suas conquis-
tas, mesmo sendo contestada tal dominao. Tambm puderam se apoderar de
grandes rebanhos, que, nas sociedades nguni e sotho, revestiam uma importncia
tanto social e religiosa quanto econmica. Assim, em termos de expanso e de
aquisio de riquezas, o acesso a novas armas era to capital para os nguni e os
sotho que para os chikunda, os yao e os rabes-sualis, traficantes de escravos.
    Temendo um ataque dos zulus, Soshangane e os gaza nguni que o seguiam
deslocaram-se para o Norte, deixando a regio setentrional da Tugela para se
dirigir  baa de Delagoa, em 1821. L, eles apenas encontraram uma fraca
236                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



resistncia da parte dos chopi, organizados em chefias relativamente pequenas,
e dos portugueses, que apenas mantinham uma presena simblica no porto de
Loureno Marques. No espao de um ou dois anos, os gaza nguni estenderam
o seu domnio at o interior de Inhambane, ao passo que suas fileiras aumenta-
vam graas  chegada de outros nguni, descendentes dos ndwandwe, que foram
derrotados por Shaka em 1826.
    Apesar dessas vitrias iniciais, Soshangane teve que enfrentar um certo
nmero de ameaas. Delas, as maiores foram os ataques dos zulus, cujo exrcito
encontrava-se estacionado relativamente perto. Aps os afrontamentos militares
de 1828, Soshangane deslocou o corao de seu reino at o mdio Sabi, a salvo
do exrcito de Shaka. Tal deslocamento provocou um confronto direto com os
nguni de Zwangendaba que, em 1831, foram vrias vezes derrotados.
    Essas vitrias permitiram a Soshangane consolidar suas possesses meridio-
nais e estender suas fronteiras. Destacamentos gaza marcharam ento para o
Oeste, penetrando no atual Zimbbue, onde Soshangane estabeleceu sua capital
em Chaimaite, e para o Norte, em direo ao vale do Zambeze. Em meados
dos anos 1830, os exrcitos gaza efetuaram ataques nos reinos shona de Manica,
Uteve e Bru, tal como nos prazos que haviam sobrevivido ao longo do Zam-
beze. Em vez de tentar incorporar esta vasta regio ao seu imprio, o chefe gaza
contentou-se em espoliar os Estados shona e em arrecadar um tributo junto aos
prazeros e s autoridades portuguesas residentes nas vilas de Sena e Tete76.
    O corao do imprio de Soshangane compreendia o Sul de Moambique e
as regies adjacentes no Oeste. L, os povos sujeitados eram tratados duramente,
obrigados a pagar impostos elevados e a fornecer jovens recrutas aos regimentos
que Soshangane recrutava por faixa etria. Diferentemente da estratgia dos
nguni de Zwangendaba, nenhum esforo foi feito para integrar os recrutas tonga
e chopi  sociedade gaza. Em vez de atenuar as diferenas culturais e tnicas,
como era feito em outras sociedades nguni, os regimentos recrutados por faixa
etria, nos quais reinava uma segregao tnica (eles eram comandados por ofi-
ciais nguni), simbolizavam a inferioridade da populao local. Conflitos entre
a maioria oprimida e a elite nguni estouravam periodicamente. Vrias chefias
tonga, por exemplo, tentaram encontrar sua liberdade emigrando para fora da
esfera dominada pelos gaza; chefes chopi e tonga fizeram, separadamente, alian-
as com os portugueses, de cujo poder eles esperavam uma ajuda determinante.



76    G. Liesegang, 1967, p. 47-50; J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 59-60; M. D. D. Newitt, 1973, p. 223-224;
      A. F. Isaacman, 1972a, p. 122-123.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                     237




figura 8.5 Os shangana de Soshangane chegam a Shapanga para recolher o imposto anual devido pelos
portugueses. [Fonte: J. D. Omer-Cooper, The zulu aftermath, 1966, Longman, London. (Publicado inicial-
mente em D. e C. Livingstone, Narrative of an expedition to the Zambezi, 1865, John Murray Publishers,
London.) Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Uni-
versidade de Cambridge.]



Entre os nguni, era comum acreditar que seus sditos desforrariam enfeitiando
Soshangane ou procurando causar a sua morte77.
   No momento em que os gaza impuseram sua hegemonia, Zwangendaba e
seus partidrios iniciaram um movimento migratrio que durou vinte anos, em
busca de uma ptria de seu interesse. Ao longo desse perodo, disputaram com
os gaza a dominao da regio da baa de Delagoa, desferiram o golpe final no
j dividido Imprio Changamire, estabeleceram-se temporariamente entre os
nsenga e pilharam a margem ocidental do Lago Malaui, antes de se instalar
definitivamente em Mapupo. Em cada etapa de sua migrao, assimilavam
novos adeptos. O problema da mo de obra era sentido particularmente porque
o grupo inicial, que compreendia trezentas pessoas, era uma unidade poltica e
militar pouco vivel; e um grande nmero de mulheres e crianas foi morto na
ocasio do conflito com Soshangane. Em primeiro lugar, tal como os gaza, eles
procuraram aumentar o nmero de seus partidrios, assimilando indivduos e
grupos dispersos de origem nguni, assegurando assim que a cultura e a lngua


77   J. D. Omer-Cooper, 1966.
238                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



dominantes permanecessem. Entretanto, como se distanciavam sempre mais dos
territrios nguni, Zwangendaba percebeu que para assegurar a sobrevivncia de
seu grupo relativamente restrito, era-lhe necessrio assimilar estrangeiros.
    Foi assim que, contrariamente aos zulu e aos gaza nguni, Zwangendaba e
seus conselheiros incorporaram em suas fileiras uma multido de povos dspares.
Os isolados eram incorporados a famlias nguni, com as quais estabeleciam rela-
es de quase parentesco. Tais relaes tendiam a fazer esquecer seu estatuto de
cativos. Em uma certa idade, os jovens adotados eram alistados em regimentos
nguni organizados por faixas etrias, que constituam importantes instituies
de socializao. Os recrutas nascidos de pais estrangeiros que se destacavam
no combate podiam adquirir uma parte importante do esplio, alm de um
posto e estatuto elevados. Portanto, a rpida expanso dos nguni sob Zwan-
gendaba ofereceu inmeras possibilidades e facilitou a ascenso social de um
grande nmero de estrangeiros que, simultaneamente, adotaram a cultura nguni
e mudaram suas alianas78. O fato de a grande maioria dos nguni  por volta
de 90%  que se estabeleceu em Mapupo nos anos 1840 ter sido, no incio, de
ascendncia estrangeira prova o sucesso da poltica de assimilao praticada por
Zwangendaba79.
    Paralelamente a tal assimilao, foi criada uma estrutura poltica altamente
centralizada, capaz de administrar a comunidade em expanso. Mudou a con-
cepo da realeza entre os nguni, passando da concepo de uma realeza fundada
na ancianidade e de autoridade limitada, em um conjunto bastante frouxo de
aldeias aliadas, a uma realeza em que o chefe era a personificao do Estado e
a autoridade suprema. Os regimentos organizados por faixas etrias tornaram-
-se, simultaneamente, o exrcito do rei; os chefes militares tornaram-se meros
executores nomeados por Zwangendaba e responsveis perante ele. Dado que os
regimentos estavam organizados por faixas etrias e no em uma base territorial,
os chefes provinciais no dispunham da capacidade militar suficiente para fazer
secesso. Quando Zwangendaba morreu, o Estado nguni havia se tornado uma
potncia importante da frica Central80.
    A morte de Zwangendaba marcou o fim da fase de expanso e do desenvol-
vimento nguni. A querela de sucesso que se seguiu foi particularmente acirrada
e tendeu ao esfacelamento do reino em alguns fragmentos de grandes dimenses
e em muitos outros menores. As veleidades de expanso de cada um deles foram

78    T. Spear, 1972, p. 9-13; J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 64-72.
79    T. Spear, 1972, p. 11.
80    Ibid., p. 9-13; J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 64-72.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                       239



seriamente freadas, por um lado, pelos poderosos Estados autctones, como
aqueles dos bemba, dos lunda e dos fipa, em direo ao Norte e, por outro lado,
pela crescente presena de destacamentos bem armados de rabes-sualis, yao
e chikunda.
    Todavia, elegendo por fim as comunidades mais fracas do Sul como alvo, dois
dos reinos sucessores de Zwangendaba foram capazes de ocupar importantes
territrios em 1870. Os mpenzeni nguni aproveitaram da fraqueza das chefias
nsenga, que ainda no tinham se recuperado completamente dos ataques de
Zwangendaba, para impor sua autoridade no Sudoeste do planalto do Malaui
 zona isenta da mosca ts-ts , onde se encontra atualmente Fort Jameson
(Chipata). Os mbwela estabeleceram-se no territrio que antes pertencera aos
tumbuka, tonga e henga. Nos dois casos, outros regimentos que, em seguida,
se juntaram aos Estados recm-criados, engrossaram suas fileiras. Enquanto os
mpezeni faziam novos recrutamentos, um antigo escravo de ascendncia nsenga,
Ciwere Ndhlou, que havia se tornado um oficial muito conhecido, declarou sua
independncia e organizou um reino independente, no atual distrito de Dowa.
Ciwere Ndhlou deu seu nome a esse reino. Alm desses trs ramos, os gwangara,
outro ramo oriundo do ento Estado de Zwangendaba, invadiram a Tanznia,
onde derrotaram os maseko nguni. Estes fugiram para o Sul, atravessaram o
Rovuma e, no final dos anos 1860, se estabeleceram nos planaltos da cadeia de
montanhas Kirk81.
    Em linhas gerais, a migrao dos kololo foi semelhante  dos nguni de
Zwangendaba. Fugindo para o Norte a partir de Dithakong, os kololo se choca-
ram com um certo nmero de inimigos, dentre os quais os tswana e os ndebele,
que muitas vezes os derrotaram. A contnua ameaa dos ndebele convenceu
Sebetwane a atravessar o Zambeze e a se dirigir para o Oeste; ele alcanou a
fronteira do reino lozi em torno de 1835.
    No obstante seu poder aparente, os lozi eram particularmente vulnerveis.
A morte de Mulambwa, que reinou durante quase cinquenta anos, no s criou
um vazio poltico, mas tambm provocou uma luta intensa no corao do reino.
Ademais, a hostilidade para com os lozi era particularmente viva nas provncias
distantes, entre os povos dominados que estavam pouco propensos a defender
o regime estrangeiro e autoritrio dos lozi de uma invaso exterior. Por isso,
os kololo apenas encontraram a oposio de um s ramo da famlia real e, em
menos de quatro anos, eles conseguiram se apoderar do vasto reino lozi82.

81   T. Spear, 1972, p. 15-19; J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 72-85; J. K. Rennie, 1966, p. 303-306.
82   J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 120-122; M. Mainga, 1973, p. 65-68.
240                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Sendo os lozi mais numerosos do que os kololo e seus sditos, uma vez no
poder, os kololo confrontaram-se com o delicado problema da assimilao dos
primeiros  sociedade sotho e, assim, da manuteno de sua posio dominante.
O fato de cada povo ignorar a lngua do outro e a extrema diversidade de seus
sistemas culturais complica esse processo de integrao social e poltica. A fim de
realizar a unio dos diferentes elementos de seu reino, Sebetwane aliou-se, pelo
casamento, a grandes famlias locais; por todo o Estado, encorajou a populao
a adotar o kololo como lngua nacional; recusou aos seus partidrios kololo o
estatuto de minoria dominante; poupou a vida dos membros da famlia real lozi
e declarou publicamente que "todos eram filhos do rei". Tais gestos simblicos
acompanharam-se de polticas especficas que associaram os lozi ao governo de
Sebetwane e garantiram a um certo nmero de dirigentes locais a manuteno
de seus postos na nova administrao territorial83.
    Logo no incio, a poltica de assimilao de Sebetwane conheceu um sucesso
considervel. O kololo tornou-se rapidamente a lngua franca na maior parte do
reino; e os lozi, que viviam nas plancies de inundao ao longo do Zambeze,
comearam a adotar a nomenclatura kololo. Provaram sua fidelidade ao defender
a comunidade contra os diversos ataques dos naba nguni e dos ndebele. A vitria
sobre os ndebele garantiu a tranquilidade na fronteira sudoeste e permitiu a
Sebetwane consagrar todos os seus esforos  consolidao do reino e  aquisi-
o de armas junto aos comerciantes angolanos, a fim de reforar a capacidade
militar do Estado84.
    Contudo, vrios fatores acabaram pondo em xeque essa estratgia de assimi-
lao. Em 1863, a morte de Sebetwane provocou uma luta acirrada pela sucesso
ao trono, dividindo a comunidade kololo. Tal conflito mostrou a fragilidade da
comunidade, que j se encontrava menos numerosa em razo dos danos causados
pela malria. Em uma posio relativamente fraca, o novo rei Sekelutu adotou,
entretanto, o oposto da poltica conciliadora de seu pai e imps um regime
autoritrio antilozi. Ele expulsou os lozi da administrao, colocou um fim nas
alianas locais e deixou seus subordinados se transformarem em uma minoria
dominante. Como era de se prever, os lozi se revoltaram em 1864, sob a direo
de membros da famlia real no exlio. Em algumas semanas, eles libertaram sua
ptria e mataram praticamente todos os homens kololo85.



83    G. Caplan, 1970, p. 10-11; J. D. Omer-Cooper, 1966, p. 123-124.
84    G. Caplan, 1970, p. 12-13.
85    Ibid.; M. Mainga, 1973, p. 105-128.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                              241




figura 8.6 Tocador de tambor e danarinos na corte de Sipopa, rei dos lozi, 1875. [Fonte: E. C. Tabler,
Trade and travel in early Borotseland, 1963. Chatto and Windus, London. (Publicado inicialmente em E.
Holub, Seven years in South Africa, vol. 2, 1881, Samson, Low, Marston, Searle and Ribbington, Londres.)
Ilustraes reproduzidas com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade
de Cambridge.]




Figura 8.7 Sipopa, um dos chefes da rebelio lozi contra os kololo em 1864, e rei dos lozi at 1876. [Fonte:
E. C. Tabler, Trade and travel in early Borotseland, 1963. Chatto and Windus, London. (Publicado inicialmente
em E. Holub, Seven years in South Africa, vol. 2, 1881.) Ilustraes reproduzidas com a autorizao do Conselho
de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]
242                                                          frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Esse levantamento popular no eliminou totalmente a influncia kololo do
vale do Zambeze. Alguns anos mais cedo, um pequeno grupo de kololo acom-
panhara David Livingstone em sua descida pelo Zambeze, em direo ao Leste,
e estabelecera-se entre os manganja. Logo, sua inflexvel oposio ao trfico de
escravos, assim como sua reputao de soldados, tornou-nos populares. Com a
ajuda das armas europeias fornecidas por Livingstone, os kololo rechaaram os
ataques que os yao e os rabes da costa efetuavam a fim de capturarem escravos,
para o alvio de seus hospedeiros manganja86.
    Sob a direo de Maluka e Ramukkan, os kololo no tardaram a desempe-
nhar um papel mais ativo na poltica da regio do Shire. Com a ajuda de seus
aliados manganja, derrotaram muitos dos grandes chefes, bem como o lundu
regente, Tsagonja, ento senhor de todo o territrio manganja. Este processo
de conquista e de incorporao durou vrios anos, porm, em 1870, eles imple-
mentaram um Estado kololo dividido em seis regies, cada uma dirigida por
um chefe que gozava de uma grande autonomia. Nos dois decnios seguintes,
os kololo continuaram sendo a fora dominante no vale do Shire, cuja posio
apresentava um interesse estratgico87.
    Tal transtorno no mapa poltico da frica Central constitui o resultado mais
importante da dispora nguni-sotho. Os imigrantes formaram vrios reinos que
dominaram uma importante parte da regio. Ao longo desse processo, no s
incorporaram um grande nmero de comunidades locais, como tambm causa-
ram prejuzos irreparveis a vrios grandes Estados, notadamente aos Estados
rozwi, undi e lundu. A organizao dos Estados nguni e, em menor medida,
dos Estados kololo representava uma mudana notvel em relao s formas
polticas precedentes. As novas comunidades eram menores, de densidade mais
elevada, e notavelmente mais centralizadas. Aquilo que os distinguia muito par-
ticularmente era a instituio do regimento por faixas etrias, que sustentava o
poder real e facilitava a expanso nguni e a incorporao de povos dspares.
    Apesar de suas importantes aquisies territoriais, os invasores sul-africanos
sofreram um certo nmero de derrotas militares. Os mpezeni nguni, por exem-
plo, passaram quase dez anos tentando derrotar os bemba88. Seu fracasso refletia
a incapacidade mais geral dos descendentes nguni de penetrar os territrios
dos poderosos Estados do Norte do lago Malaui e do Rovuma.  exceo dos
gwangara, os diferentes ramos do povo nguni foram obrigados a se retirar em

86    W. H. J. Rangley, 1959; A. F. Isaacman, 1976, p. 23.
87    A. F. Isaacman, 1976, p. 23; E. Mandala, 1977.
88    H. W. Langworthy, 1972, p. 92.
Os pases da bacia do Zambeze                                                                                  243



direo ao Sul, onde encontraram uma oposio espantosamente tenaz. A chefia
chewa de Mwaze Kazungo, assim como os senga, rechaou as invases nguni,
ao longo dos anos 1860 e 1870. No Sul do Zambeze, peridicas incurses gaza
chocaram-se com uma contnua resistncia do povo bru, os quais conseguiram
recha-los e conservar sua independncia89.
    Mesmo no interior das regies conquistadas, a hegemonia dos invasores
sempre foi contestada. Ao longo dos anos 1870, os tonga das margens do lago,
os tumbuka e os henga se revoltaram contra os mbwela nguni, que eram vis-
tos como estrangeiros intrusos. O Estado gaza sofreu tambm levantamentos
populares dos sditos tonga e chopi, dentre os quais alguns chegaram a se aliar
aos portugueses para tentar adquirir sua independncia. Foram os lozi que
organizaram a mais sucedida insurreio: expulsaram os kololo e libertaram
sua ptria90.
    As profundas transformaes sociais e culturais ocorridas em toda a regio
estavam inextricavelmente ligadas ao processo de formao do Estado nguni.
Apesar da incorporao de milhares de cativos e dos povos dominados, as gran-
des linhas e o ritmo de aculturao de milhares de cativos variaram consideravel-
mente de um grupo vassalo a outro. De forma geral, o processo de assimilao
foi mais rpido durante a fase expansiva da migrao do que durante a ltima
fase de sedentarizao, quando os imigrantes j perderam seu poder e prestgio,
sendo o esplio mais limitado e a populao autctone mais numerosa. Assim,
os nguni de Zwangendaba viram suas fileiras aumentarem em progresso geo-
mtrica, durante todo o tempo que durou sua migrao para o Norte, atravs
das fragmentadas comunidades encontradas por eles. Porm, o seu sucesso foi
muito menos evidente quando eles se dividiram em diferentes cls autnomos,
uma vez estabelecidos em suas novas ptrias. Um fenmeno anlogo se produziu
entre os kololo.
    O modo de aculturao dependia tambm das diferentes maneiras com que
as culturas tinham entrado em contato umas com as outras. Em um extremo,
havia o caso dos nguni de Zwangendaba: a populao dominada adotou a cul-
tura e a identidade dos invasores estrangeiros. No outro, o caso dos imigrantes
kololo: estabeleceram a supremacia sobre os manganja, mas foram totalmente
absorvidos pela sociedade vassala91. Entre esses dois polos, encontramos os
exemplos mais comuns de influncia recproca, conduzindo, em certos casos,

89   A. F. Isaacman, 1976, p. 8-9, p. 49.
90   T. Spear, 1972, p. 28; J. K. Rennie, 1966, p. 310-311; G. Caplan, 1970, p. 10-12; D. L. Wheeler, 1968, p. 587.
91   W. H. J. Rangley, 1959, p. 59-98; A. F. Isaacman, 1976.
244                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



 formao de culturas sincrticas. Mesmo vencidos, os kololo exerceram uma
influncia sobre os lozi, os quais adotaram a lngua e as principais instituies
governamentais dos primeiros92. Por outro lado, no interior do reino mpenzeni,
todos os elementos polticos da nova sociedade eram de origem sul-africana,
ao passo que os elementos culturais no polticos, como a herana da terra, a
arte da guerra, a exciso feminina e a lngua, eram fortemente influenciados
pela tradio nacional nsenga93. Tal dicotomia no tem nada de surpreendente,
pois o reino mpenzeni obedecia a instituies polticas e militares destinadas a
assegurar a preeminncia dos nguni. Fatores de ordem espacial e demogrfico
parecem ter determinado, no incio, a extenso dos emprstimos culturais no
interior do Estado mbwela nguni. No corao do reino, onde os nguni eram
mais numerosos, os tonga e os tumbuka adotaram a maior parte dos aspectos
da cultura estrangeira. Porm, quanto mais se avanava para as provncias dis-
tantes, mais estes emprstimos diminuam. Este esquema geral se complicou
um pouco devido  adoo, pelos nguni, do tumbuka como lngua nacional e ao
renascimento cultural tumbuka que se seguiu, o que faz pensar que vrios povos
dominados apenas abraaram superficialmente a cultura nguni94.
    Ainda que as obras consagradas a este assunto silenciem, manifestamente, a
influncia que o Mfecane exerceu sobre a estratificao da sociedade, indicaes
fragmentrias levam a pensar que novas classes se desenvolveram no seio do
reino. Durante a fase de expanso, uma elite militar se constituiu, composta de
comandantes de regimento e de seus principais oficiais. Sua potncia repousava
sobretudo nos tributos e no esplio que eles adquiriam, notadamente os reba-
nhos e os cativos, dos quais uma parte era distribuda aos seus partidrios. De um
ponto de vista econmico, sua posio dominante assemelhava-se estreitamente
 da aristocracia que, ao se apropriar dos excedentes, governava os Estados vizi-
nhos conquistados e detinha o comrcio de marfim e de escravos.
    Quando os nguni se estabeleceram no Norte do Zambeze, as possibilidades
de esplio tornaram-se mais raras. Enquanto sua elite militar continuava arre-
cadando um tributo das populaes submetidas, eles comearam a explorar os
seus escravos a fim de assegurar uma fonte contnua de riqueza. Parece que estas
sociedades, em vez de incorporar os cativos e os estrangeiros e de lhes oferecer
possibilidades de promoo social, os reduziram a um estado permanente de
servido. As elites mbwela, maseko e mpezeni todas conservaram quantidades

92    G. Caplan, 1976, p. 11.
93    J. A. Barnes, 1951, p. 2-18; T. Spear, 1972, p. 23-26.
94    T. Spear, 1972, p. 29-32; H. L. Vail, 1972, p. 161-162.
Os pases da bacia do Zambeze                                                 245



considerveis de escravos (abafo) para trabalharem em seus campos. Outros
escravos eram empregados como caadores e ferreiros para seus senhores95.
O fato de haver coincidncia entre etnia e classe social permite pensar que a
resistncia oposta aos nguni no deve ser analisada simplesmente em termos de
conflito entre etnias.
    A princpio, os imigrantes nguni e sotho apenas desempenharam um papel
indireto no comrcio de escravos. Se suas campanhas militares favoreceram, sem
dvida alguma, a pilhagem dos rabes e dos sualis, por outro lado, nada indica
que eles tenham concludo uma aliana comercial com os negreiros. De todos
os grandes chefes nguni e kololo, somente Mpenzeni, Soshangane, Sebetwane e
o chefe maseko Chikuse exportaram escravos; nesses quatro casos, as transaes
continuaram limitadas e espordicas96. De uma maneira geral, escolheram utilizar
os cativos entre eles e, por isso mesmo, reforar sua posio poltica e econmica
em vez de vender escravos a qualquer comunidade comerciante. Todavia, suas
atividades de predadores provocaram considerveis perturbaes em numerosas
sociedades da frica Central. Para as comunidades do Norte do Zambeze que
mais sofreram com as incurses dos negreiros, os ataques nguni agravaram os
problemas de estagnao rural e o processo de subdesenvolvimento.


     A frica Central s vsperas da "corrida"
    Durante os trs primeiros quartos do sculo XIX, a frica Central sofreu
grandes transformaes. As manifestaes dessa profunda mutao foram o
surgimento de novos grupos tnicos, a intensificao das trocas culturais e o
aumento da importncia que as novas oposies de classes tomaram. A integra-
o da maior parte da regio na economia mundial impediu a expanso rural e
aumentou a dependncia econmica. Ao mesmo tempo, a ambio territorial
dos negreiros e de seus homlogos nguni e kololo provocou uma reorganizao
profunda do poder poltico na regio. Resumindo, na vspera da "corrida", a
situao na frica Central estava extremamente instvel. Ademais, o processo
de fragmentao poltica crescente, os particularismos tnicos e regionais, bem
como as querelas internas que refletiam, em parte, antagonismos de classes mais
profundos, comprometiam seriamente a capacidade da maioria das sociedades
africanas de resistir ao imperialismo europeu.


95   K. M. Phiri, 1975, p. 154-156.
96   E. Flint, 1970, p. 73-79; H. W. Langworthy, s. d., p. 34-37.
246                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Em 1875, havia pouqussimos poderes regionais autctones. Em certa medida,
este vazio poltico era o reflexo da recusa ou da incapacidade de inmeras socie-
dades da frica Central para organizar ou para manter um sistema poltico
centralizado. Um grande nmero de Estados lunda e shona sofreu tambm um
processo de fracionamento poltico. No Norte do Zambeze, o comrcio dos
escravos reforou as rivalidades internas nos reinos lunda de Kazembe, Undi,
Kalonga e Lundu, e tornou-os vulnerveis s atividades sediciosas e aos ataques
dos traficantes de escravos e de seus homlogos nguni. No Sul, alm dos ata-
ques devastadores dos nguni de Zwangendaba e dos gaza, clivagens no seio das
elites shona enfraqueceram muito sensivelmente as potncias regionais. Atribu-
-se geralmente s incurses de Zwangendaba a destruio do reino Rozwi de
Changamire, profundamente dividido, ao passo que, por volta de 1875, a diviso
do Estado de Bru em duas faces rivais, conjugada aos ataques devastadores
dos gaza, permitiu a Gouveia, um aventureiro de Goa, usurpar temporariamente
o trono de Bru97.
    O sucesso de Gouveia se inscreveu em um processo mais geral, permitindo
aos invasores yao, rabes-sualis, chikunda e nguni tirarem proveito da ausncia
de potncia regional para conquistar Estados. Esses novos Estados militares
eram indiscutivelmente mais fortes que as comunidades vencidas por eles, mas
os povos dominados os viam como intrusos estrangeiros e detestavam seu regime
autoritrio. Isso obrigou os dirigentes a reforar suas prticas coercitivas, levando
assim a uma crescente hostilidade e  multiplicao das insurreies. As revoltas
dos tonga das margens do lago, dos tumbuka e dos henga contra os mbwela
nguni, e as dos tonga e dos chpi contra os gaza tambm foram provas da hosti-
lidade crescente dos oprimidos. Um mesmo esprito de desconfiana impeliu os
tawara e os tonga a desafiarem regularmente os afro-portugueses e sues aliados
chikunda, que haviam obtido vastas possesses territoriais na margem sul do
Zambeze. A elite suali que governava os sultanatos costeiros de Angoche e
de Quitanghona encontrou a mesma oposio. Tal animosidade no permitiu
a formao de uma frente de resistncia unida. Pelo contrrio, vrios povos
dominados recusaram-se a ajudar a elite estrangeira; de fato, alguns chegaram a
cooperar com os europeus, os quais eram vistos como "libertadores"98.
    O estado de dependncia em relao s armas e aos mercados europeus no
qual se encontravam os Estados negreiros comprometeu ainda mais sua auto-
nomia. A princpio, eles foram especialmente vulnerveis s presses exteriores,

97    A. F. Isaacman, 1976, p. 48-52.
98    A. Dachs, 1972, p. 288-289; J. T. Botelho, 1921, p. 469-504.
Os pases da bacia do Zambeze                                                  247



como o faz pensar a diligncia dos afro-portugueses e dos chikunda para servir
como agentes do imperialismo de Lisboa. Finalmente, a evoluo da economia
capitalista do mundo provocou a oposio  participao desses Estados no
trfico negreiro e, juntando-se s ambies imperiais crescentes dos europeus,
criou as condies de um conflito acirrado.
    Embora a maior parte das sociedades da frica Central tivesse se tornado
mais vulnervel  medida que o sculo avanava, houve alguns casos em que a
ameaa exterior e a anexao estrangeira temporria reforaram as capacidades
polticas e militares. Aps 1850, em parte como consequncia das incurses
nguni, o reino bemba levou a cabo um duplo processo de centralizao poltica
e de expanso territorial. Na vspera da "corrida", o reino havia atingido seu apo-
geu e, se no fosse a morte inoportuna de Mwanba III, ele poderia ter se tornado
um adversrio to temvel pelos invasores europeus quanto o fora pelos nguni99.
Outrossim, o reino lozi liberto foi, sob o reinado de Lewanika, muito mais forte
e bem mais organizado do que havia sido durante o perodo pr-kololo100. O
ressurgimento do reino de Mwene Mutapa durante a segunda metade do sculo
XIX tambm mostra que uma situao instvel podia permitir a um Estado, cujo
poder se atrofiara, recuperar sua preeminncia101. Contudo, tais exemplos so a
exceo e no a regra. No total, as mudanas ocorridas ao longo do sculo XIX
favoreceriam as futuras atividades imperialistas dos europeus.




99   A. D. Roberts, 1973, p. 217.
100 M. M. Bull, 1972.
101 T. O. Ranger, 1963, p. 1-3.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                249



                                          CAPTULO 9


    O litoral e o interior da frica Oriental
                 de 1800 a 1845
                                          Ahmed Idha Salim




    As comunidades litorneas por volta de 1800
    Durante o perodo estudado, mudanas e acontecimentos muito importantes,
provocados em grande parte pelo advento da hegemonia dos rabes omanianos,
influram no contexto poltico e socioeconmico das populaes litorneas e do
interior do leste africano. Para melhor se apreciar a sua natureza e a extenso,
 preciso ver qual era a estrutura poltica e econmica destas populaes em
torno de 1800.
    Um dos fatores mais notveis no plano poltico  a grande autonomia que
gozavam as comunidades litorneas sob a autoridade de seus dirigentes locais.
Aps terem contribudo para a expulso dos portugueses ao Sul do Rovuma em
1728, os omanianos no instalaram imediatamente uma verdadeira autoridade
sobre o litoral. No incio do sculo XIX, a presena omaniana era visvel apenas
em trs grandes centros: Mombaa, Zanzibar e Kilwa. Mesmo em Mombaa,
a famlia omaniana dos Mazrui tornara-se suficientemente autnoma para
desafiar abertamente a dinastia dos busa`idi que reinava em Mascate. Ela con-
seguiu manter esta autonomia com a ajuda dos shaykh sualis das Ithnaashara
Taifa (Doze Naes) divididas em duas federaes: as Thelaatha Taifa (Trs
Naes) e as Tissa Taifa (Nove Naes). Os chefes destes grupos sualis par-
ticiparam ativamente da administrao de Mombaa. Em 1857, ou seja, vinte
250                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



anos aps a queda dos Mazrui, Richard Francis Burton viria a evocar aquela
participao1.
    Em 1799, um governador omaniano (wl), parente do dirigente (imn) de
Mascate, foi nomeado em Zanzibar para suceder um eunuco etope e escravo
alforriado, de nome Ykt, o qual possua vastos territrios em Om. No incio, o
chefe local, o mwenyi mkuu, com as insgnias do seu poder (dois tambores e duas
siwa  presas de elefante), colaborou com o governador omaniano na adminis-
trao do seu povo2. Uma de suas funes mais importantes consistia na coleta
dos impostos gravados pelos omanianos sobre os autctones hadimu e tumbatu
que viviam da agricultura, da pesca e de outras atividades marinhas.  medida
que Zanzibar se tornava, segundo o desejo dos omanianos, o centro de decises
e de desenvolvimento econmico do litoral leste africano, o mwenyi mkuu viu-se
privado cada vez mais de seu poder poltico, enquanto o seu povo perdia cada vez
mais territrios para os colonos omanianos que se instalavam progressivamente
nas terras frteis situadas ao Norte e a Leste da cidade de Zanzibar.
    Quando, em torno de 1780, o irmo do imm de Mascate tentou se utilizar
de Kilwa Kisiwani, ento dirigida por um sulto autctone shrz, como ponto
de partida para uma rebelio contra o seu irmo, este decidiu, em 1785, organizar
uma expedio na ilha onde manteve subsequentemente uma pequena guarni-
o para evitar qualquer nova subverso. Esta presena omaniana na ilha visava
tambm tirar proveito econmico do comrcio de escravos que os franceses j
haviam estabelecido. O sulto local continuou durante algum tempo ainda a
manter o seu ttulo e a beneficiar-se de um quinto dos direitos alfandegrios.
Ele era auxiliado nesta funo pelos notveis da prpria ilha e por aqueles das
vilas do interior, at o longnquo cabo Delgado no Sul, onde o sulto de Kilwa
gozava de uma vaga suserania3. O declnio econmico de Kilwa Kisiwani foi
acelerado pela criao no continente da colnia de Kilwa Kivinje, a qual come-
ou a monopolizar quase completamente o comrcio de escravos e de marfim
no incio do sculo XIX.
    Por volta de 1800, o resto do litoral leste africano era governado, como muitas
ilhas vizinhas, por grandes famlias sualis. No arquiplago de Mafia e em suas
trs principais vilas  Kisimani, Chole e Kua , inmeras destas famlias, dentre
elas a de Shatri, exerciam um poder real. A simpatia da populao pela resis-


1     R. F. Burton, 1872, p. 40.
2     J. M. Gray, 1962, p. 160, lembra que observadores americanos mencionam a presena do "rei" e dos
      "prncipes" de Zanzibar ao lado do governador omaniano.
3     E. A. Alpers, 1975, p. 190-191.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                                             251




figura 9.1    O litoral e o interior: povos e principais rotas comerciais, 1800-1850 (de acordo com A. I.
Salim).
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tncia de Kilwa Kisiwani contra o domnio dos omanianos, durante o ltimo
quarto do sculo XVIII, no levou, como foi o caso em Kilwa,  instalao de
uma guarnio.
    Da mesma forma, em 1800, o litoral entre Kilwa e Mombaa no conhecia
ainda a presena dos omanianos. Uma administrao tradicional, exercida pelos
chefes locais  jumbe ou diwani , predominava ainda nas aglomeraes como
Sadani, Pangani, Mtangata, Tanga, Vanga e Vumba Kuu. O jumbe ou o diwani,
portando as insgnias de seu poder  as siwa (presas) os tambores e o guarda-sol ,
exercia as funes ligadas  resoluo de litgio, julgamento, imposio de multas,
com a ajuda de seus subordinados, o shaha, o mwenyi mkuu e o amiri, os quais
pertenciam aos cls locais importantes. Os procedimentos administrativos e judi-
cirios repousavam sobre uma mistura de direito costumeiro e direito islmico.
    Na rea litornea compreendida entre Kilwa e Mombaa, a aglomerao
mais populosa era Vumba Kuu, entre Vanga e Gasi, no litoral sul do atual
Qunia.  l que se cria o reino de Vumba Kuu, onde a populao, os vumba,
era composta por uma mistura de elementos shrz, africanos e rabes xarifitas.
Seus dirigentes tinham adotado o ttulo de diwani (do persa divan, "conselho").
Aps 1700 reinava a dinastia dos Ba-`Alawi, fundada por Sayyid Ab Bakr
ibn Shaykh al-Masila Ba-`Alaw, originrio do Hadramout, que se manteve
graas aos casamentos com famlias autctones. As cerimnias de investidura
dos vumba englobavam um ritual islmico e um ritual africano no islmico.
As insgnias de poder do diwani eram as siwa, o guarda-sol, os tamancos de
madeira e o turbante. L tambm, as principais funes do diwani eram de
ordem judiciria  resoluo de litgios de acordo com um sistema sincrtico de
direito islmico e direito costumeiro. Ele era tambm auxiliado, na direo dos
assuntos do Estado, por notveis  shaha, waziri, mwenyi mkuu e amiri  esco-
lhidos dentre os cls importantes. Ao passo que o poder do diwani se estendia
por um territrio muito vasto, o do jumbe no ia alm da vila ou de uma parte
desta. A origem xarifita do diwani deixou traos na religio, da mesma forma
que a dinastia Ba-`Alawi teve um papel proeminente na propagao do isl entre
os digo e os segeju; contudo, nos dois casos, os dirigentes praticavam a medicina
religiosa baseada no uso de fetiches, amuletos etc., na execuo de suas funes4.
    Ao Norte de Mombaa, Malindi tinha consideravelmente decado depois da
ocupao portuguesa, particularmente aps a partida da famlia dirigente para
Mombaa por volta da dcada de 1590. Sua situao no iria melhorar durante


4     A. I. Salim, 1973, p. 29-30; ver tambm, o estudo detalhado de W. F. McKay, 1975.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                                  253



o perodo estudado. Krapf, o qual a visitara em 1848, a descreveu como vivendo
no medo de ser invadida pelos oromos (Galla)5. Foi Sayyid Sa`d quem reerguera
Malindi ao favorecer a implantao de uma colnia omaniana protegida por
uma guarnio. Esta colnia faria de Malindi, durante a dcada de 1870, um
dos exemplos mais impressionantes de desenvolvimento agrcola.
    Ao Norte de Malindi, as nicas aglomeraes de alguma importncia
encontravam-se no arquiplago de Lamu, sendo Pate a mais florescente no
incio do sculo. Era governada pelos Nabhni, os quais tambm possuam,
como principal atributo de seus poderes, as elegantes siwa de marfim. Em 1800,
todavia, a cidade perdera a prosperidade e a pujana que conhecera durante os
sculos XVII e XVIII6. Os conflitos internos de sucesso, as rivalidades com
a ilha vizinha de Lamu e o apoio dos Mazrui de Mombaa s pretenses dela
iriam acentuar ainda mais seu declnio e abrir o caminho para sua dominao
pelos busa`idi de Zanzibar.
    Em Lamu, as rivalidades entre faces e as brigas intestinas encorajaram a
ingerncia externa nos assuntos da cidade. A proximidade de Lamu e de Pate,
alm das relaes entre as famlias das duas cidades, terminou na intruso da
primeira nos assuntos da segunda. No incio do sculo, Nabhni Pate conside-
rava ainda, apesar do seu declnio econmico, que Lamu lhe era subordinada,
o que as grandes famlia de Lamu no viam deste modo.  esta relao difcil
que os levou a tomar partidos opostos no conflito de maior envergadura opondo
os Mazrui de Mombaa e os busa`idi. Como se ver mais adiante, este conflito
terminar pelo domnio de Zanzibar sobre as duas cidades. Quanto  outra
aglomerao da ilha de Pate, Siyu, foi graas ao esprito de independncia do
seu chefe, Bwana Mataka, que ela conseguiu manter a sua independncia alm
do perodo estudado.
    As terras situadas bem defronte ao arquiplago de Lamu, ao Sul das regies
habitadas pelos Somalis, foram colonizadas pelo povo bajuni que no reconhecia
outra autoridade que aquela de seus prprios chefes e nunca se submeteu verda-
deiramente ao domnio de Zanzibar, mesmo aps o perodo considerado. Suas
atividades econmicas eram essencialmente martimas. A pesca, a fabricao
de postes em madeira de mangue, a colheita e venda de moluscos, carapaas
de tartarugas e mbar cinza completavam o comrcio de gado que mantinha
com seus vizinhos somalis e oromos7. Quando, consequentemente, o trfico de

5    J. L. Krapf, 1860, p. 152.
6    Ver W. Hichens (org.), 1939; J. de Vere Allen (org.), 1977, para maiores detalhes.
7    J. L. Krapf, 1860, p. 114.
254                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



escravos se desenvolveu no litoral, os bajuni participaram dele enviando escravos
para os portos prximos do Benadir.
    Durante o perodo estudado, o litoral do Benadir teve uma grande autonomia
e contava com centros como Mogadscio, Merka, Brava (Barawa) e Warsheikh,
governados por shaykh somalis locais que aceitaram de bom grado que os rabes
e indianos tivessem relaes comerciais com a populao. Todavia, aps a instau-
rao do sultanato de Om em Zanzibar, os portos do Benadir mantiveram uma
grande autonomia poltica8. Somente em 1842 que Sayyid Sa`d nomeou um
representante em Mogadscio, por solicitao dos chefes somalis que preferiam
desenvolver seus laos econmicos com ele, beneficiando-se, at certo ponto,
de sua proteo contra as incurses de saques no interior das terras somalis, do
que se submeter a Zanzibar. Era uma relao satisfatria para ambas partes. De
fato Sa`d exigia simplesmente que seu representante em Mogadscio vigiasse
a movimentao comercial e controlasse a coleta dos impostos9. Isto quer dizer
que suas ambies eram de ordem econmica e no poltica.


      O Sultanato de Om
   A expanso e o desenvolvimento do sultanato de Om no litoral da frica
Oriental foram o resultado das ambies essencialmente econmicas de Sayyid
Sa`d que, a justo ttulo, se considerava antes de tudo um prncipe mercador.
Certos acontecimentos polticos e econmicos que tiveram lugar tanto em Om
quanto no exterior; no litoral leste africano, tambm contriburam. Com efeito,
Om conheceu um perodo de grande prosperidade no final do sculo XVIII.
Navegando sob a bandeira neutra, os omanianos aproveitaram-se das guerras
napolenicas para monopolizar uma boa parte do transporte martimo no Oce-
ano ndico, o que, alis, provocou recriminaes dos comerciantes ingleses que
reclamavam por serem suplantados pela marinha mercante de Om. Por volta
de 1800, o sulto ibn Ahmad assinou acordos comerciais que lhe permitiram
estabelecer contatos lucrativos com um nmero grande de regies litorneas
do Oceano ndico  Etipia, Shirz, Sind e Batavia ( Jacarta) , enquanto seus
representantes, na costa leste africana, lhe enviavam somas avaliadas em 40.000
dlares Maria-Teresa por ano, em 180210.

8     Ver C. Guillain, 1856, vol. 2, p. 527-530.
9     Ibid.
10    C. S. Nicholls, 1971, p. 99. Esta obra foi particularmente til para rastrear a ascenso da potncia oma-
      niana sobre o litoral leste da frica.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                                          255



    Quando Sa`d ibn Sultan sucedeu seu pai como imm em 1806, ele teve a
sabedoria de continuar sua poltica de neutralidade em relao  Inglaterra e
 Frana. Em 1807, ele assinou um tratado comercial com a Ilha de Frana
(atual Ilha Maurcio). A Gr-Bretanha, consciente da importncia estratgica de
Mascate, sentiu-se obrigada a aceitar esta neutralidade e ajudou Sa`d a manter
a ordem em seu pas, apoiando-o em sua luta contra os elementos perturbado-
res, tais como os gawassim e os wahhabitas. A estabilidade interior deu a Sa`d
o tempo para se voltar com mais confiana em direo ao litoral do Leste da
frica.
    As razes que o levaram a se interessar pelo litoral foram de ordem poltica
e econmica. Convencido da importncia do potencial econmico do litoral,
ele quis tambm tirar proveito poltico dos conflitos entre as dinastias locais e
impedir os objetivos expansionistas dos europeus na regio. Foi o medo de ver
os franceses conseguindo expandir a sua rea de influncia que moveu os oma-
nianos a instalarem um governador em Kilwa em 1785. Em 1801, Pate tinha
convidado os britnicos a construrem um forte para proteg-la dos franceses,
prometendo-lhes em troca a metade da produo da ilha11. Este acontecimento,
seguido dos relatrios indicando a passagem de navios britnicos pela ilha,
talvez tenha convencido Sa`d da necessidade de afirmar a sua presena e a sua
influncia sobre o litoral.
    As empreitadas polticas e militares realizadas subsequentemente so mais
conhecidas. Sa`d decidiu imiscuir-se nos conflitos polticos sualis, em parti-
cular naqueles em que os Mazrui estivessem implicados. Com efeito, a crise de
sucesso que surgira em Pate levara  interveno dos Mazrui. Em 1811, um
sulto que lhes era leal governava Pate, enquanto os Mazrui retinham o seu
rival refm em Mombaa e seus partidrios encontravam refgio em Lamu. As
condies estavam reunidas para um confronto entre Lamu e Pate, esta ltima
sendo apoiada pelos Mazrui. Foi durante os anos de 1812-1813 que teve lugar
uma das mais clebres batalhas da histria suali, a de Shela, durante a qual as
foras conjuntas dos soldados de Pate e dos Mazrui desembarcaram na vila de
Shela, na ilha de Lamu, com a inteno de controlar aquela ilha. Os invasores
sofreram uma derrota total e a esperana de Pate de colocar Lamu sob o seu
jugo foi definitivamente aniquilada.
    O medo de represlias forou Lamu a solicitar ajuda e proteo  Sa`d. Este
as concedeu, ao colocar na ilha um governador busa`idi e ao estacionar uma

11   Ibidem, p. 120-121. O Conselho britnico de Bombaim enviara o comandante T. Smee para se informar
     sobre as possibilidades econmicas da frica Oriental.
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figura 9.2   O litoral setentrional e o interior: as rotas comerciais, 1850 (de acordo com A. I. Salim).
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                                                   257




figura 9.3 Extrao em prensas do leo de gergelim em Mogadscio, 1847. [Fonte: E. Cerulli, Somlia,
scritti vari editi ed inediti, Istituto Poligrafico e Zecca dello Stato, Roma, 1975, vol. I, pl. XI.  Istituto
Poligrafico e Zecca dello Stato. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao da
Biblioteca da Universidade de Cambridge.]




guarnio no somente para enfrentar as ameaas de Pate e dos Mazrui, mas
tambm para impedir que estes ltimos aumentassem sua influncia e tentas-
sem, deste modo, diminuir a influncia busa`idi nascente; os Mazrui reinavam
ento em Mombaa e controlavam Pemba e Pate, enquanto os busa`idi somente
tinham Zanzibar e Kilwa.
    Mantendo-se, at ento, na defensiva, Sa`d decidiu passar para a ofensiva a
fim de reduzir a influncia e o poder dos Mazrui e, em consequncia, afirmar os
seus. Ele criou em Pate uma faco cujo chefe se tornou sulto com a morte do
seu predecessor pr-Mazrui. Quando este sulto pr-busa'idi morreu, por sua
vez, em 1822, Sa`d e o governador que ele havia nomeado em Lamu combate-
ram os Mazrui e o seu novo candidato, Fumoluti. Eles conseguiram estabelecer
um sulto favorvel aos busa`idi deixando em Pate uma guarnio para proteger
os interesses deles na ilha. Consequentemente, em 1822, Sa`d tinha conseguido
reverter a situao poltica em seu favor nos dois pontos que eram,  poca, os
mais importantes do arquiplago de Lamu: Lamu e Pate. No mesmo ano, ele
258                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



desafiou os Mazrui em Pemba. Com a solicitao de uma faco de Pemba hostil
aos Mazrui que tinham enviado dois representantes a Mascate para solicitar o
seu apoio, os busa`idi se aproveitaram da ausncia do governador Mazrui em
Mombaa para se apoderar de Pemba em 1823. Os Mazrui no mais consegui-
ram reconquistar a ilha.
    No espao de dez anos, tendo voltado a sua ateno para o litoral suali, Sa`d
havia assegurado, para si e para os seus sucessores, uma posio dominante:
de modo que os antigos rivais, os Mazrui, sentiram-se extremamente vulne-
rveis. Isto os levou a negociar com um oficial da marinha britnica, Owen,
o qual declarou, em 1824, o estabelecimento de um protetorado britnico em
Mombaa.
    A reao do governo britnico diante da iniciativa de Owen foi um pouco
ambgua. Com efeito, no desaprovou a declarao de protetorado, mas tam-
pouco a acolheu com entusiasmo: as relaes entre o Om e a Gr-Bretanha no
o incentivavam nesse sentido. Owen tinha esperado e acreditado que Mombaa
pudesse servir de base na luta contra o trfico de escravos, ao passo que a Gr-
-Bretanha, por seu lado, desejava reduzi-lo com a intermediao de Sa`d, com
quem havia assinado neste intuito o tratado de Moresby em 1822. O apoio que
Owen prestava agora aos rivais de Sa`d, os Mazrui, colocou os britnicos em
uma situao diplomtica delicada.
    O protetorado seria efmero. Teve fim em 1826 no somente porque o
governo britnico decidiu finalmente que era com Sa`d com quem trabalharia,
mas tambm porque os prprios Mazrui decepcionaram-se. Eles no apreciavam
a ingerncia dos oficiais britnicos em seus assuntos e tampouco estavam felizes
por terem de compartilhar com eles os direitos alfandegrios e de serem obriga-
dos a limitar as suas importaes de escravos. E, bem entendido, os britnicos
nada fizeram para ajud-los a reconquistar suas posses perdidas.
    Embora o protetorado tenha acabado em 1826, s dez anos mais tarde Sa`d
conseguiu subjugar os Mazrui. Em 1828, os soldados dos busa`idi chegaram a
ocupar o Fort Jesus; mas, aps alguns meses, a guarnio de Sa`d foi sitiada e
obrigada a se retirar. Duas outras expedies  em 1829 e 1833  fracassaram,
em grande parte devido o apoio dado aos Mazrui por dois outros grupos sualis
das Trs e das Nove Naes. Sa`d conseguiu finalmente os seus objetivos nas
mesmas condies que em Pate e em Pemba, ou seja, quando as dissenses
internas estouraram. Duas faces se criaram entre os Mazrui. O popular e
hbil Salim ibn Ahmd morreu em 1835. Seu sucessor se alienou da simpatia
dos shaykh das Trs Naes e a interveno de Sa`d foi novamente solicitada
por um grupo descontente. Desta vez, sua expedio (em 1837) no encontrou
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                                            259




figura 9.4 Sa`d ibn Sultan, sulto de Zanzibar (1804-1856). [Fonte: N. R. Bennet e G. E. Brooks (org.),
New England merchants in Africa: a history through documents, 18021865, Boston, Boston University Press,
1965.  Peabody Museum of Salem. Foto: Mark Sexton.]



oposio alguma. Os Mazrui se renderam e Sa`d apropriou-se do objeto da sua
cobia: Mombaa. Como em outros lugares, o reconhecimento da suserania dos
busa`idi foi acompanhado de uma ampla autonomia. Deste modo, em Mombaa,
o governador de Sa`d dividia a responsabilidade da administrao com os shaykh
das Trs e das Nove Naes.
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      As relaes comerciais entre o litoral e o interior
    No momento em que Mombaa caiu em suas mos, Sa`d j parecia decidido
a transferir sua capital de Om para Zanzibar. Esta seria, sob todos os pontos
de vista, uma deciso capital para ele e para todo o litoral. Tendo, efetivamente,
um excelente porto e um solo extremamente frtil, Zanzibar encontrava-se
tambm bem localizada no plano estratgico j que ela era defronte a costa dos
Mrima, a qual se tornara a principal sada para as mercadorias mais importantes
provenientes do interior, ou seja, marfim e escravos. Este comrcio lucrativo
permitira ao sulto encher seus cofres, antes mesmo da sua deciso de tornar
Zanzibar sua capital. Seu wl (governador) j tomara iniciativas para garantir
a proeminncia da ilha ao obrigar todos os mercadores a negociar somente com
esta, sem passar pelos Mrima12.
    "Zanzibar eclipsou rapidamente todas as outras cidades litorneas pelo seu
desenvolvimento econmico e poltico. Em pouco tempo, Syyd Sa`d constru-
ra, graas ao seu instinto aguado para negcios, sua anteviso e a sua atitude
liberal, o maior entreposto da costa ocidental do Oceano ndico. Tornou-se
tambm o mercado mais importante do litoral leste africano, no que concerne
ao marfim, aos escravos, ao cravo,  resina, aos moluscos e aos produtos agrcolas,
bem como o maior importador de bens manufaturados da ndia, da Amrica e
da Europa, como tecido de algodo, contas, arame, correntes, mosquetes, pl-
vora, porcelana, olaria, vidraaria, facas e machados. A assinatura de acordos
comerciais e consulares com a Amrica (1837), a Gr-Bretanha (1839), a Frana
(1844) e, mais tarde, com alguns estados alemes, trouxe ao sulto um reconheci-
mento internacional que veio consolidar ainda mais a sua posio13." De todos os
objetos de comrcio mencionados acima, o marfim e os escravos foram os mais
lucrativos para o sultanato de Om, graas ao impulso da demanda exterior e,
no caso dos escravos, da demanda local. No decorrer das trs ou quatro primei-
ras dcadas do sculo XIX, o envio de marfim e de escravos com destinao ao
litoral emprestava s redes comerciais estabelecidas com este fim pelos povos
do interior e, em particular, os yao. Alpers14 ressalta a importncia que revestia
o marfim no comrcio de Zanzibar no incio do sculo. Era predominante no
comrcio de longa distncia da frica Oriental e Central, e constitua a princi-
pal ocupao da maioria dos yao. Atrados pelos preos elevados do marfim em

12    Ibid., p. 80-81.
13    A. I. Salim, 1973, p. 15-16.
14    E. A. Alpers, 1973, p. 175-185.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                      261



Zanzibar, foi na direo deste litoral, e principalmente em Kilwa Kivinje, que os
yao expediam seu marfim, de preferncia, com destino ao litoral moambicano.
     necessrio distinguir Kilwa Kisiwani, a cidade localizada na ilha do mesmo
nome, de Kilwa Kivinje, da qual se utilizaram ento os yao para o seu comrcio
de marfim. Kilwa Kisiwani tinha perdido muito da sua pujana durante a dcada
de 1830, devido s dissenses internas e a um meio hostil. Ao contrrio, a vila de
Kilwa Kivinje, localizada no continente a 27 quilmetros ao Norte, tornara-se
o principal centro de negcio. A partir de 1819, um governador omaniano fora
nomeado ali para estimular e explorar o comrcio. Alpers considera a ascenso
de Kilwa Kivinje como o smbolo da integrao econmica entre o litoral e o
interior. Segundo ele, o desenvolvimento e a prosperidade da cidade so devi-
dos tanto ao dinamismo de Zanzibar e  sua atividade comercial, quanto ao
desejo dos povos do interior de transitar a suas mercadorias: "Kilwa Kivinje
deve principalmente a importncia que ocupa no comrcio da frica Oriental
s iniciativas de pessoas do interior como Mwinyi Mkwinda, o aventureiro yao
masaninga que a se instalou no fim do sculo XVIII15."
    Foram, portanto, os africanos que iniciaram o comrcio das caravanas entre
o litoral e o interior. Os bisa ocupavam-se, assim como os yao, do transporte
entre a regio do lago Nyasa e o litoral. Segundo Alpers, a concorrncia entre
os yao e os bisa era to viva que os primeiros se especializaram no trfico de
escravos para sobreviver, e os bisa diminuram o preo do marfim para melhor
vend-lo em Kilwa. Na primeira metade do sculo XIX, o comrcio de marfim
era provavelmente to importante, se no mais, que o dos escravos. Tanto os bisa
quanto os yao levavam o marfim e os escravos a Kilwa, de onde eram enviados
a Zanzibar. Em 1850, Kilwa Kivinje tornara-se a cidade mais importante do
litoral entre Moambique e Zanzibar e o centro de exportao no somente de
marfim e de escravos, mas tambm de outros produtos como o arroz, resina,
tabaco etc. Entretanto, foi, sobretudo, graas aos dois primeiros que a cidade
obteve, na poca, sua importncia econmica.
    Os escravos pertenciam aos povos do interior, tais como os yao, os bisa, os
makua e os ngindu, os quais, com frequncia, eram os prprios traficantes de
escravos. A captura da maioria dos escravos se dava por ocasio das guerras ou de
incurses que no eram necessariamente realizadas com este fim. Os prisionei-
ros eram ento trocados por mercadorias originrias do litoral como os tecidos,
por exemplo. Os povos do interior conservavam alguns deles para uso pessoal e


15   Ibid., p. 236.
262                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



muitos escravos passavam por diversos senhores antes de chegarem ao litoral16.
Segundo Alpers, os escravos viajavam em grupos at o litoral ou at um dos
centros de caravanas do interior de um chefe yao, como Mponda, Makanjila e
Mataka, de onde partiam, uma vez agrupados, em direo ao litoral.
   Na regio do lago Nyasa, o comrcio estava nas mos dos yao, dos bisa e
de outros grupos, enquanto que mais ao Norte era praticado pelos nyamwesi,
pelos kamba (akamba) e pelos miji kenda. As mercadorias estrangeiras tinham
penetrado o interior da Tanznia desde o sculo XVIII, dado os intercmbios
regionais. Este fenmeno incentivou a caa ao elefante, cujo marfim era trocado
por mercadorias estrangeiras. Atravessando o Ugogo, os sumbwa e os nyamwezi
estabeleceram assim contatos com o litoral por volta de 180017. Estes contatos
levaram  construo de uma rede comercial entre o Unyamwezi e o litoral e 
abertura de novas rotas para as caravanas entre o litoral e o interior.
   Foi em 1824 que a primeira caravana no africana chegou ao Unyamwezi.
Em 1831, Lief bin Sa`d que era meio rabe e meio zyamwezi, chegou at o
Lago Tanganica; ele enviou sua prpria caravana em direo ao interior em
1837. Em 1841, uma caravana rabe chegou a Kazembe aps ter atravessado o
lago Tanganica. No final do perodo estudado  1845  os negociantes do litoral
tinham chegado at Buganda, onde o kabaka deu-lhe boa acolhida por razes
no somente comerciais, mas tambm militares: porque os fuzis que poderia
comprar deles seriam teis nos conflitos com seus vizinhos. Este impulso para
o interior foi principalmente motivado pela alta do preo do marfim e dos
escravos18.
   Mais ao Norte, o aumento da demanda por marfim e por outros produtos
do litoral causou o desenvolvimento do comrcio regional dos miji kenda com
os kamba, no incio do sculo XIX. quela poca, os miji kenda j tinham
construdo uma rede de intercmbios com os sualis, os watta, os vangas e os
oromos nos mercados fronteirios. No continente, no mercado digo de Mtawe,
ao Sul de Mombaa, os digo e os sualis trocavam sorgo, gergelim, coco e outros
produtos por vestimentas, peixes, arames e contas. Os shambaa forneciam-lhes
tabaco que eles revendiam aos giriama. Por volta das dcadas de 1830-1840, as
caravanas compostas por vumba e digo, partindo de Vanga chegaram a Taveta,
Chagga, Samburu e mesmo, em seguida, ao Lago Vitria.


16    Ibid., p. 240-241.
17    J. Iliffe, 1979, p. 41.
18    Ibid., p. 42, observar que, em Surat (costa ocidental da ndia), os preos do marfim dobraram entre 1804
      e 1808; em Zanzibar, entre a dcada de 1820 e a dcada de 1890.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                       263



    Os giriama implantaram seu prprio sistema de trocas, penetrando progres-
sivamente no interior com os kamba, no final do sculo XVIII. Tornaram-se,
antes mesmo daquele perodo, os principais fornecedores de marfim no litoral.
Conseguiam este atravs da caa e da troca com os watta e os oromo. O desen-
volvimento da demanda por este produto e o incio do esgotamento das fontes
locais de fornecimento, por volta do final do sculo XVIII, incitaram os giriamas
a voltarem-se para o interior e a organizarem, pela primeira vez, caravanas em
direo a Kitui onde viviam os kamba. Os rabai atuavam como intermedirios
em suas trocas com os sualis. Eles monopolizaram praticamente o comrcio das
caravanas com os kamba at a dcada de 1830, j que estes ltimos comearam
a suplant-los com suas prprias caravanas.


    Os efeitos socioeconmicos do desenvolvimento comercial
    A expanso dos kamba que ocorreu no incio do sculo XIX, a partir das
altas terras frteis do Mbooni em direo s terras mais baixas e menos frteis
como as do Kitui, forou-os a uma adaptao socioeconmica. Para sobreviver
nas reas menos frteis, tiveram que praticar a caa, a criao de animais e a
troca. Foi ento que surgiu a prtica conhecida sob o nome de kuthuua (busca
por alimento) que os levou inevitavelmente a fazer trocas com os povos vizinhos,
tais como os kikuyu, os embu e os massai. Com a chegada dos giriama, a rede
comercial dos kamba na regio estendeu-se at o litoral. Por volta de 1820, os
kamba criaram suas prprias caravanas em direo ao litoral, que agrupava cada
vez mais habitantes  medida que se confirmavam as possibilidades comerciais.
No Norte do interior leste africano, suas caravanas dominaram o comrcio de
caravanas durante as dcadas de 1830, 1840 e 1850, aps o que  como acon-
teceu no interior meridional (Tanganica)  elas foram suplantadas pelas cara-
vanas rabes e sualis, mais importantes e mais bem armadas, que penetraram
decididamente no interior a partir do final da dcada de 1850. Estas relaes
comerciais entre o litoral e o interior teriam repercusses capitais. Elas tiveram,
por exemplo, como efeito perturbar o habitat tradicional dos miji kenda que
viviam em vilarejos fechados ou fortificados, os kaya. Aps 1830, movidos pelo
desejo de tentar a sorte nos negcios, inmeros digo, giriama, rabai e duruma
deixaram suas kaya para se estabelecerem em reas vizinhas.
    Esta disperso, causada pela busca por atividades comerciais e por melhores
pastagens, contribuiu no somente para desorganizar a vida coletiva nos kaya,
mas tambm para sabotar a autoridade dos ancios. A vida se ordenou em torno
264                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



de unidades mais restritas  subdiviso de cls ou de linhagem. Pelo fato de o
fenmeno da disperso dificultar cada vez mais a organizao de cerimnias de
iniciao nos kaya, a distino de acordo com o grupo etrio desapareceu tam-
bm. Surgiram entre os miji kenda e os kamba indivduos ricos que se serviam da
fortuna adquirida com o comrcio para criar uma clientela e adquirir influncia.
    Temos o exemplo do giriama chamado Ngonyo que, incentivado por seu pai,
manteve relaes comerciais com os sualis, os oromos, os watta e os kamba, e
construiu uma vila importante juntando os elementos dspares que constituam
a sua clientela, o que lhe permitiu, mais tarde, se fazer reconhecer como chefe
pelos britnicos. Outro exemplo: o do chefe digo, Mwakikonge, o qual conse-
guiu o monoplio do comrcio com os vumba e aproveitou-se da riqueza assim
obtida para fazer alianas pessoais, constituir uma clientela e mesmo uma corte
em Dzombo, adotando o ttulo de kubo.
    Os kamba contavam tambm com personagens importantes (andu anene),
cujos poder e influncia se apoiavam em uma fortuna adquirida atravs do
comrcio. O exemplo mais notvel  aquele de Kivui Mwenda, o qual construiu
sua potncia com o comrcio de caravanas entre o litoral e as terras kamba,
durante as dcadas de 1820 e 183019. O tamanho das caravanas cresceu  medida
que o comrcio se desenvolvia. As de Kivui contavam com aproximadamente
300 homens. Sua rede de aliados englobava os kitui kamba, os embu e os miji
kenda, e estendia-se at Mombaa, cujo governador era um de seus parceiros
comerciais.
    Ao Norte, alm do litoral ocupado pelos sualis e pelos miji kenda, j existia,
desde as primeiras dcadas do sculo XIX, uma rede similar, solidamente estabe-
lecida, de relaes comerciais entre o interior e o litoral. Bem no incio do sculo,
Lamu, ao suplantar Pate, tornou-se o porto de comrcio mais importante do
arquiplago de Lamu. Naquela poca, os habitantes de Lamu j tinham criado
no continente um verdadeiro sistema agrcola, conhecido pelo nome de "sistema
konde"20. Na mesma poca, negociantes do arquiplago aventuraram-se pelo
interior a partir de centros como Kau e Kipini, no rio Ozi, at o rio Tana, para
trocar com os pokomo e os oromos gado, marfim e produtos agrcolas.
    Uma importante malha comercial ligava as cidades do Benadir no litoral
somali  Brava, Merka e Mogadscio  com o interior. Durante o sculo XIX,
os portos do Benadir fizeram contatos com outros centros do Sul da Etipia
e do Norte do atual Qunia, at o Lago Rodolfo (atual Lago Turkana). Luk

19    Para detalhes mais amplos, ver R. Cummings, 1975; a respeito dos miji kenda, consultar T. Spear, 1974.
20    Ver M. Ylvisaker, 1975 e 1983.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                        265



(Lugh) e Bardera, sobre o Juba, constituam centros nevrlgicos desta impor-
tante malha de rotas de caravanas. Os comerciantes somalis e boran levavam
at estas cidades o marfim, o gado e, ocasionalmente, escravos que eram ime-
diatamente enviados para os mercados prximos do litoral, tais como Afgoi, nas
proximidades de Mogadscio e Audegle, prximo de Merka, para chegar enfim
aos portos do Benadir. Outros grupos somalis, tais como os bimale, os geledi e
os tunni, supriam os portos de produtos agrcolas provenientes do vale frtil de
Webbe Shebele e, do mesmo modo, atuavam como agentes dos comerciantes
somalis no interior.
    Estas relaes comerciais, baseadas na malha das caravanas que ligava cada
poro do litoral leste africano s suas terras interioranas, exerceriam progres-
sivamente efeitos socioculturais; este fenmeno, j detectvel ao final do per-
odo estudado (1845), desenvolver-se-ia mais sensivelmente durante a segunda
metade do sculo. J evocamos o aumento do individualismo e o surgimento
de um pequeno nmero de indivduos que amontoava fortunas (mesmo que de
modo efmero), influncia e prestgio fora do contexto social tradicional. Ainda
mais difundida era a prtica que consistia em se casar com estrangeiras. Este
fenmeno tornou-se perceptvel, por exemplo, entre os digo e os rabai durante
o sculo XIX, em consequncia de suas relaes comerciais. Deste modo, elos
baseados na fraternidade sangunea foram criados entre os miji kenda, os oro-
mos, os kamba e os sualis. Por outro lado, as interaes entre estes grupos, no
Leste do Qunia, favoreceram a adoo de novas prticas rituais; durante o
sculo XIX, "novos mtodos de vidncia, de ao sobre as chuvas e possesso
espiritual se expandiram pelo Leste do Qunia, as prticas culturais individuais
se misturaram aos esquemas regionais"21.
    A dinmica das mudanas socioeconmicas produz transformaes culturais
nas cidades litorneas e entre certos grupos do interior. O desenvolvimento do
comrcio de caravanas era acompanhado por um crescimento e uma diversifi-
cao tnica da populao destas cidades que viram aflurem rabes, africanos
vindo do Norte e, mais ainda, escravos. O crescimento do nmero de escravos
nas plantaes e de escravos domsticos, bem como a generalizao concomi-
tante da prtica do concubinato, favoreceram a interao e a integrao tnicas
e culturais afro-rabes e afro-sualis, inclusive no seio da aristocracia dirigente
e mesmo no palcio do sulto. A maioria das esposas de Sa`d eram africa-
nas e seus filhos falavam kiswahili muito mais do que rabe. Todos os sultes


21   T. Spear, 1981, p. 131.
266                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



que sucederam Sa`d durante o sculo XIX nasceram de uma escrava. Como o
observariam vrios visitantes estrangeiros, a preservao da identidade rabe
tornou-se ento mais difcil.
    Com o tempo, sensveis diferenas culturais apareceram entre o omaniano
ou o rabe iemenita "puro" e seu homlogo sedentrio, suailizado ou africani-
zado, das cidades sualis. Os primeiros foram designados sob o nome Mmanga
ou MShihiri. O estabelecimento da suserania dos busa`idi e o afluxo de novos
grupos vindos do Norte e do Imen contriburam na exploso de antigas estra-
tificaes sociais, por exemplo, em Lamu, e favoreceram a emergncia de novas
estruturas22. Por volta de 1850, entre os 150.000 habitantes de Zanzibar, aproxi-
madamente 60.000 eram escravos23. Os Mazrui, expulsos de Mombaa em 1837,
estabeleceram-se em Gasi, ao Sul de sua antiga praa forte e em Takaungu, ao
Norte, e criaram relaes estreitas respectivamente com os digo e os giriama.
Muitos foram iniciados no cl dos ancies, entre os giriama. Ngonyo tornou-
-se aliado de um grande nmero dentre eles. Os escravos eram importados de
Zanzibar e do Mrima. Os Mazrui fizeram de Gasi e de Takaungu suas novas
bases poltica e econmica, ao se aliarem aos digo e aos giriama para atingirem
este objetivo.
    Mudanas aconteceram paralelamente no interior, onde diversos grupos
conheceram um fenmeno de "mudana de escala", devido aos seus conta-
tos com o comrcio de caravanas e a sua participao neste comrcio. Eles
comearam a imitar ou adotar a cultura das regies litorneas. Assim, o porte
da tnica suali, kanzu, se desenvolveu at o Buganda; o chefe yao Mataka, j
mencionado, tinha orgulho de seus esforos para transformar sua regio de
acordo com o modelo litorneo. Ele reconstruiu sua capital no estilo do litoral,
ornamentando-a com mangueiras24. Outros dirigentes africanos o imitariam
subsequentemente, como o filho de Kimweri, Semboja, o chefe dos mazinde
que se vestia  moda rabe e elogiava a cozinha suali, o chefe haya, o rumanyika
de Karagwe, cujo palcio era decorado com objetos de luxo trazidos do litoral
pelas caravanas e, principalmente, pssaros embalsamados, espelhos e relgios.
    Durante a primeira metade do sculo XIX, o isl comeou a se implantar
no interior. No apenas fazia adeptos entre as famlias dirigentes, mas tambm,
pela primeira vez, comeava a penetrar nas reas rurais. Foi muito bem acolhido,
perto do litoral, entre os digo e os segeju. Entre os outros grupos miji kenda,

22    Ver A. el-Zein, 1974, e A. H. Prins, 1971.
23    J. Iliffe, 1979, p. 42.
24    Ibid., p. 78.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                       267



no exerceria influncia sensvel antes do ltimo quarto do sculo. Propagou-se
entre os baganda pouco aps a chegada do negociante missionrio rabe Ahmad
ibn Ibrhm, em 184425. Quando os missionrios cristos chegaram ao Buganda,
na dcada de 1870, o kabaka Mutesa j observava os ritos islmicos tais como o
jejum, e inmeras mesquitas j haviam sido construdas. Tambm nesta poca
a influncia do isl fazia-se sentir, ainda que numa escala mais modesta, em
Bonde, em Uzigua e no planalto Makonde.
    Uma vez aceito, o isl passou a ter uma forma sincrtica. Por outro lado,
algumas sociedades introduziram elementos islmicos em suas religies tradi-
cionais, ou incorporaram prticas, personagens e espritos do litoral em seus ritos
religiosos. Deste modo, alguns espritos kamba tinham nomes sualis; o nome
do sulto de Zanzibar, Barghash, era mencionado nos ritos sukuma26.
    O kiswahili se espalhou mais do que o isl no interior, em particular no
Tanganica. Por volta da dcada de 1850, Richard Burton constatou que ele era
muito falado pelos sagara e pelos gogo e que, na quase totalidade das etnias do
interior, encontrava-se algum capaz de fal-lo27.
    Alm desta influncia cultural do litoral sobre o interior  que manteve
contudo um carter limitado durante a primeira metade do sculo XIX , houve
tambm fenmenos de interao cultural entre os grupos do interior. Por outro
lado, convm observar que alguns destes grupos, em particular aqueles que eram
distantes das rotas de caravanas, opuseram uma grande resistncia aos comer-
ciantes do litoral e a sua cultura. De fato, as mutaes que surgiram no interior
tiveram pouca, ou nenhuma, relao com o comrcio de caravanas. Inmeras
sociedades do interior no consideravam o comrcio com o litoral como neces-
srio para sua vida econmica.
    Deste modo, durante a primeira metade do sculo XIX, os kikuyu continu-
aram sua expanso na regio frtil e arborizada dos altos planaltos centrais do
atual Qunia. A abundncia de alimento fez crescer a populao e favoreceu
a troca de produtos excedentes com os povos vizinhos, tais como os kamba.
As mesmas relaes existiam, at certo ponto, com os massai que contribu-
ram para confinar os kikuyu nas reas de florestas, as quais foram derrubadas
progressivamente em resposta s necessidades de espao e de alimento para a
populao em expanso. Os kikuyu, assim como os kamba, no tinham um sis-
tema poltico centralizado. As famlias estabelecidas sobre as diferentes reas de

25   Ver A. Oded, 1974, e A. B. Kasozi, 1974.
26   J. Iliffe, 1979, p. 79.
27   Ibid., p. 79
268                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



colinas e postas sob a autoridade de um chefe eram geralmente independentes
umas das outras. Havia, contudo relaes entre vrios grupos, e alguns chefes
tentaram impor pela fora sua autoridade sobre outros grupos. As atividades
comerciais dos kikuyu permaneceram mais concentradas e nunca atingiram
o litoral. Mesmo quando as caravanas suali-rabes penetraram pelo interior,
durante a segunda metade do sculo XIX, os kikuyu no tentaram de modo
algum estabelecer com elas laos comerciais importantes.
    Em 1800, a potncia legendria dos massai estava consideravelmente fragili-
zada. Este grupo de nilotas da plancie havia atingido os limites da sua expanso.
Era tambm dividido em dois, entre os pastores que ocupavam as plancies
do vale do Rift estendendo-se do centro do Tanganica at o do Qunia, e um
nmero menor de agricultores, os iloikop ou kwavi, os quais habitavam a rea
que separa o monte Kilimanjaro dos altos planaltos do Qunia. A histria dos
massai durante o perodo estudado  dominada, por um lado, pela luta que tra-
varam estes dois grupos e, por outro, pelas guerras civis provocadas por vrios
laibon (lder ritualista) que buscavam tomar o poder.
    Estes conflitos levaram  disperso dos massai pelo interior, o que contribuiu
muito para impedir os comerciantes rabes e sualis de entrarem mais cedo
no interior. As incurses dos kwavi aconteceram nos arredores de Mombaa.
Em 1837, uma escaramua entre os kwavi e um grupo rabe-suali teve lugar
fora da cidade. Nessa ocasio, estes ltimos tiveram pesadas perdas. Autores da
poca, como o missionrio J. L. Krapf, falam da ameaa contnua que os kwavi
representavam para os miji kenda, o que explica a natureza defensiva do sistema
dos kaya.
    A Oeste do vale do Rift, povos vieram se estabelecer na regio dos Grandes
Lagos. Tratava-se de grupos bantos, como os luyia, os baganda, os basoga etc., e
nilotas, como os luo, os acholi e outros. A primeira metade do sculo XIX apare-
ceu como um perodo de deslocamentos, de estabelecimentos e de movimentos
incessantes de povos nesta regio, assim como aquele da cristalizao de diversos
sistemas polticos no seio de diferentes grupos, conferindo-lhes uma identidade
prpria. , por exemplo, o caso dos buganda que se dotaram de um sistema de
governo centralizado, dirigido por um chefe (o kabaka) portando as insgnias
de suas funes  tambor, tamboretes e lanas  e seu colgio de conselheiros, o
lukiko. No sculo XIX, o Buganda, dominado at ento pelo reino de Bunyoro,
afirmou sua potncia e seu expansionismo.
    Por outro lado, os grupos de lngua banta que viviam nas margens orientais
do lago Vitria no criaram governos centralizados (exceto o reino de Wanga).
Cada cl constitua sua prpria entidade poltica e social. Os ancios escolhiam
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                      269



entre eles o sbio encarregado da administrao dos negcios, ao qual era confe-
rido o ttulo de omwami, omukali ou omukasa28. O reino de Wanga, que, no sculo
XIX, j tinha um rei ritual, o nabongo, no passava, na origem, de uma modesta
chefia. Atribui-se a expanso deste Estado  habilidade de seus dirigentes que
permitiu ter vantagem clara sobre seus vizinhos e, com o tempo, domin-los
em grande parte. O reino estabeleceria relaes com os mercadores do litoral
quando estes penetraram mais profundamente pelo interior na segunda metade
do sculo XIX. O nabongo Mumia esperava utiliz-los para revigorar o seu reino
em declnio, em troca da concesso de uma base comercial.
   Durante a primeira metade do sculo XIX, ocorreu tambm um evento his-
trico importante: a invaso do Tanganica interior pelos nguni, a qual produziu
profundas repercusses polticas. Esta invaso, bem como o comrcio de carava-
nas, teria efeitos tanto positivos como negativos sobre as sociedades do interior.
No plano poltico, estes dois processos favoreceram a formao de Estados ou
sua consolidao em algumas regies, e sua desintegrao em outras. Mas todos
estes fenmenos ocorreram na segunda metade do sculo XIX, ou seja, aps o
perodo analisado aqui.


     O comrcio internacional dos omanianos
    O estudo mostrou que as sociedades do interior reagiram de modo muito
diversificado aos contatos com o comrcio de caravanas e que as consequncias
sociais, polticas e econmicas destes contatos foram muito variadas. De uma
maneira geral, durante o perodo estudado, o interior foi muito mais influen-
ciado pelo litoral no Tanganica do que no Qunia.
     conveniente agora evocar diversos desenvolvimentos importantes que
aconteceram no litoral durante aquele perodo. Sa`d ibn Sultan tomou uma
deciso importante e de uma grande alada no plano econmico: incentivar
os indianos ao comrcio e a se estabelecerem na regio. As relaes comerciais
entre a sia e o litoral leste africano eram anteriores ao sculo XIX, mas a pre-
sena asitica era pouco visvel em Zanzibar ou no litoral do continente. Sa`d,
que admirava o dom para os negcios dos asiticos e sua competncia neste
campo, considerou que eles poderiam contribuir utilmente no desenvolvimento
comercial e na valorizao de seu imprio. Em 1804, a cobrana dos direitos
alfandegrios em Zanzibar foi concedida a um mercador asitico. Em 1811, um

28   G. S. Were, 1968, p. 195.
270                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



nmero considervel de indianos estabelecera-se na capital e, a partir daquele
momento, eles comearam a ter um papel importante  logo preponderante 
como agentes alfandegrios, corretores, financiadores, agiotas e atacadistas. Se
a instalao de um nmero crescente de asiticos em Zanzibar e, logo depois,
em certas cidades do continente no lhes trouxe influncia poltica, ela lhes
assegurou uma posio econmica preponderante e desigual. Jairam Sewji, por
exemplo, enriqueceu consideravelmente entre 1834 e 1853, perodo durante o
qual a cobrana dos direitos alfandegrios lhe foi concedida, do mesmo modo
que Taria Topan aps ele. Ainda que suas prprias receitas crescessem  medida
que aumentavam os direitos alfandegrios, os sultes de Zanzibar permaneciam
constantemente endividados em relao aos asiticos encarregados da cobrana.
Por outro lado, os capitais e as mercadorias dos asiticos tornaram-se indispen-
sveis para as caravanas rabes e sualis. Inevitavelmente, os intermedirios e
financiadores asiticos apropriaram-se de uma parte muito mais considervel
dos lucros do comrcio de caravanas.
    Uma outra iniciativa de Sa`d digna de meno, a qual constitui um marco
na histria econmica da regio,  a introduo em Zanzibar da lavoura do
cravo-da-ndia que permitiu  ilha dominar quase totalmente, por volta de
1850, o mercado internacional deste produto29. Isto marcou o incio da econo-
mia de plantation que completaria o comrcio das mercadorias transportadas,
por barcos e caravanas, pelos povos do litoral. Sa`d havia notado muito cedo a
fertilidade das terras do litoral e, em particular, das de Zanzibar. Eis uma das
razes da transferncia de sua capital para a ilha. Antes da introduo do cravo,
o nico produto exportado por Zanzibar era o coco, enquanto Pemba exportava
tradicionalmente o arroz. As primeiras mudas de cravo foram trazidas da Ilha
de Reunio por um rabe omaniano, Sleh ibn Haramil al-Abry, que as teria
plantado ou ofertado ao sulto. Foi Sa`d quem desenvolveu a lavoura deste
produto e tornou-se, inicialmente, o seu principal exportador. Com cerca de
quarenta e cinco plantaes mantidas pela mo de obra servil, ele produzia dois
teros das 8.000 frasilas (uma frasila corresponde ao redor de 16 quilogramas)
exportadas de Zanzibar em 1840. Bombaim, grande consumidora de cravos-da-
-ndia, importava desta ilha 29.000 dlares em 1837-1838. "Cinco anos mais
tarde, as importaes provenientes de Zanzibar atingiram a soma de 97.000
dlares, distanciando-se das dos demais pases30."


29    Nenhum documento sobre a histria de Zanzibar pode omitir a meno da produo de cravos-da-ndia.
      F. Cooper (1977) oferece um bom estudo sobre esta lavoura em Zanzibar e em Pemba.
30    F. Cooper, 1977, p. 51.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                                                   271



    Durante os dez ltimos anos estudados (1835-1845), os rabes omanianos de
Zanzibar desenvolveram a lavoura do cravo-da-ndia a ponto de negligenciarem
as lavouras de outros produtos, como o cujo e o arroz. Alguns antigos mercadores
de caravanas passaram a cultivar o cravo, de modo que, por volta da dcada de
1840, as grandes famlias omanianas de Zanzibar e de Pemba passaram todas
para esta lavoura. A indstria do cravo estimulou fortemente o trfico de escra-
vos, j que havia necessidade de uma mo de obra abundante durante a poca
da florada e da colheita. Outrossim, impulsionou a aquisio de terras, feita de
vrios modos: ocupao das terras desocupadas nas duas ilhas; arrendamento
simblico de terras das populaes locais; compra e,  medida que se previa uma
maior rentabilidade, expropriao. Foi deste modo que os rabes omanianos
adquiriram suas plantaes de cravo-da-ndia ao Norte e a Oeste de Zanzibar,
ao passo que seus habitantes wahadimu eram reduzidos  agricultura de sub-
sistncia e a pequenas lavouras comerciais nas partes Sul e Leste da ilha31. Em
Pemba, ao contrrio, suas plantaes encontravam-se no meio das exploraes
dos habitantes wapemba que cultivavam tambm o cravo, mas em escala menor.
Relaes melhores se estabeleceram entre os dois grupos em Pemba, j que os
arranjos em vigor eram de natureza a limitar os conflitos fundirios.
    Os tratados comerciais assinados por Sa`d com os Estados Unidos da Am-
rica, a Gr-Bretanha, a Frana e alguns Estados alemes contriburam em grande
medida para favorecer o desenvolvimento do "imprio" comercial de Zanzibar na
frica Oriental. Em particular, as relaes com os Estados Unidos estimularam
notavelmente esta expanso. O tratado assinado em 1833, enquanto Sa`d estava
ocupado com seus planos de desenvolvimento econmico da ilha lhe forneceu
o mercado do qual necessitava. O estadunidenses se beneficiaram de condies
muito favorveis: direito de 5% sobre as mercadorias norte-americanas impor-
tadas na frica Oriental, e iseno com relao s mercadorias compradas pelos
estadunidenses. Aps a assinatura do tratado, o movimento de navios norte-
-americanos nas guas do leste africano aumentou sensivelmente. Levavam
para os Estados Unidos mercadorias como marfim, resina e, quando a lavoura se
desenvolveu, grandes quantidades de cravo-da-ndia. Em contrapartida, chega-
vam a Zanzibar com acar, contas, artigos de cobre, fuzis, plvora e tecidos de
algodo que se tornaram clebres na frica Oriental sob o nome de "merekani"
(americanos). O montante das vendas norte-americanas passou de 100.000



31   Ibidem, p. 58, acrescenta: "esta injusta repartio tnica das terras  a origem de muitas das tenses que
     se produziram durante o sculo XIX".
272                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



dlares em 1838 a 550.000 dlares quando da morte de Sa`d em 1852. Tal
progresso se deveu principalmente aos tecidos de algodo32.
    Suplantando a Gr-Bretanha, os Estados Unidos se tornaram a primeira
potncia comercial ocidental nas guas da frica Oriental. Foi precisamente este
temor de serem desalojados pelos estadunidenses que incentivou os britnicos a
assinarem um tratado anlogo com Sa`d, em 1839. Apesar disso, os interesses
comerciais britnicos  excetuando-se aqueles dos sditos britnicos de origem
asitica  e a parte da Gr-Bretanha no comrcio da frica Oriental declina-
ram no decorrer do perodo estudado. Apesar de suas reticncias iniciais, Sa`d
assinou um tratado com os franceses em 1844. Os britnicos haviam atiado a
desconfiana de Sa`d quanto s intenes dos franceses. Aps o estabelecimento
de um consulado francs em Zanzibar em 1844, a rivalidade franco-britnica
continuou intermitente, de modo que Sa`d teve que usar toda sua sagacidade
para preservar uma posio neutra ou para explorar aquela rivalidade em seu
proveito. Entretanto, sua necessidade do apoio militar britnico em Om con-
tribuiu para aumentar o papel poltico destes ltimos. Deste modo, Atkins
Hamerton, o cnsul britnico, veio a exercer uma influncia no negligencivel
e mesmo s vezes algum poder sobre o sulto-imm dos busa`idi. Aps ter se
encontrado com Hamerton em 1851, o cnsul americano Ward observou que
os britnicos visavam a controlar o litoral leste africano num futuro prximo.
Para os britnicos, esta influncia poltica compensava em muito seu declnio
comercial na frica Oriental33.
    Foi Hamerton quem, em 1845, aps dois anos de negociaes, persuadiu
Sa`d a assinar um tratado interditando a exportao de escravos fora dos terri-
trios leste-africanos controlados pelo sulto. O desenvolvimento das lavouras
de cravo-da-ndia e a exportao de escravos tinham gerado uma intensifica-
o no trfico na frica Oriental. As estimativas do trfico de "carregamentos
humanos" transportados durante o sculo XIX nunca foram muito confiveis.
Os especialistas tiveram subsequentemente a tendncia a considerar como exa-
gerados os nmeros levantados  poca pelos visitantes, oficiais da marinha,
missionrios e exploradores europeus, mas suas prprias estimativas so diver-
gentes. E. A. Alpers34 contesta o nmero de 20.000 escravos por ano dado
por C. S. Nicholls. Ele indica que A. M. H. Sheriff35 est abaixo da verdade


32    C. S. Nicholls, 1971, p. 332.
33    Ibid., p. 187.
34    F. Cooper, 1977, p. 43; E. A. Alpers, 1973, p. 185-193.
35    A. M. H. Sheriff, 1971.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1800 a 1845                       273



quando fornece o nmero de 2.500 escravos por ano durante a dcada de 1830
(estimativa baseada no nmero de escravos importados por Mascate, Kharaq e
Basra), j que ele subestima a importncia dos escravos domsticos levando em
conta somente aqueles que trabalhavam nas plantaes de tamareiras do Golfo
Prsico. F. Cooper, por sua vez, no fornece nenhum nmero. Ele se contenta
em observar que a exportao de escravos de Zanzibar em direo ao Golfo
era uma atividade muito lucrativa durante a primeira metade do sculo XIX. 
evidente que o acordo concludo por Hamerton no concorreu para diminuir a
demanda local e exterior por escravos.
    Afinal, pode-se dizer que Sa`d tomou uma srie de iniciativas econmi-
cas e comerciais que contriburam no apenas para tornar Zanzibar uma das
feitorias mais importantes do litoral leste africano  Zanzibar importava pro-
dutos manufaturados da ndia, da Europa e dos Estados Unidos da Amrica
e exportava cravo-da-ndia, marfim, escravos, chifres de rinocerontes, resina e
outros produtos , mas tambm de introduzir a economia da frica do Leste
na mudana do sistema capitalista ocidental. Aquilo permitiu o enriquecimento
dos comerciantes asiticos, europeus e americanos em detrimento das sociedades
autctones, gerando assim o seu subdesenvolvimento.
    Neste sistema capitalista mercantilista, a explorao dos recursos humanos
e materiais das sociedades do Leste africano revestiu-se na forma de uma troca
desigual que se estabeleceu duravelmente entre, por um lado, os mercadores
estrangeiros parasitas estabelecidos em Zanzibar e, por outro lado, os povos do
litoral e do interior.
    Os lucros substanciais assim obtidos eram transferidos para a Europa, Am-
rica e ndia e no eram praticamente investidos no desenvolvimento material
ou tcnico da frica Oriental. Os artigos importados, os quais eram trocados
pelos produtos do Leste africano, tais como o marfim, eram artigos de consumo
de baixo custo que no serviriam para a formao de capital. A importao de
alguns destes artigos prejudicava as indstrias locais: a indstria txtil de Lamu
e dos portos do Benadir foi duramente atingida pela importao de tecidos de
algodo asiticos, a princpio, e, em seguida, americanos.
    Por outro lado, a exportao de escravos, as lutas entre os grupos e as incur-
ses que as acompanharam reduziram os recursos em mo de obra no interior
274                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



do Tanganica, contribuindo para agravar o subdesenvolvimento da regio36 e
para "levar inelutavelmente a um impasse"37.


      Concluso
    Durante o perodo estudado (1800-1845), a regio litornea e o interior da
frica Oriental se compunham de cidades-Estados e de sociedades do interior,
praticamente independentes umas das outras no plano poltico, as quais prati-
cavam o comrcio regional e local e mesmo, no caso das populaes litorneas,
o comrcio transocenico.
    Quando os busa`idi impuseram o seu domnio, a maioria das cidades litor-
neas prestava formalmente obedincia a Zanzibar, mas, de fato, os chefes locais
conservavam um poder real. Este perodo viu o desenvolvimento do comrcio
de caravanas de longa distncia, sob o impulso de grupos africanos do interior,
tais como os yao e os nyamwezi. Contudo, o desenvolvimento da demanda de
escravos, marfim e outros produtos incentivou muito as caravanas rabes e sualis
a seguirem para o interior.
    O comrcio de caravanas teria influncia social, econmica e cultural sobre in-
meras sociedades do interior, ainda que algumas tenham se mantido totalmente 
parte. O isl e, mais ainda, o kiswahili se espalharam pelo interior. Os missionrios
cristos somente vieram depois de 1845. Por outro lado, independentemente do
comrcio de caravanas, outros acontecimentos importantes ocorreram no interior,
em particular a invaso dos nguni, a qual teria grandes consequncias, contri-
buindo notadamente a formar alguns Estados e a desintegrar outros.
    Enfim, a criao e o desenvolvimento do imprio comercial de Zanzibar
levaram a uma troca muito desigual entre os representantes do capitalismo
oriental e ocidental  os mercadores asiticos, europeus e americanos  e as
populaes autctones do litoral e do interior, obtendo o primeiro grupo vanta-
gens desproporcionais do comrcio internacional que impulsionava, desenvolvia
e controlava. Este fenmeno, por sua vez, conduziu ao subdesenvolvimento da
frica Oriental.




36    Existe um grande nmero de obras sobre esta questo; ver, por exemplo, W. Rodney, 1972; J. Iliffe, 1979,
      p. 66-77; R. Gray e D. Birmingham (org.), 1970; B. Swai, 1984; A. M. H. Sheriff, 1974 e T. Spear, 1981.
37    Apud J. Iliffe (1979) de A. D. Roberts, 1970b.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                   275



                                        CAPTULO 10


    O litoral e o interior da frica Oriental
                 de 1845 a 1880
                                          Isaria N. Kimambo




    No captulo anterior vimos como no primeiro quarto do sculo XIX a maio-
ria das sociedades do interior leste africano se desenvolveu independentemente
umas das outras. Estas no so certamente sociedades estagnadas como alguns
antroplogos tendem a nos fazer crer. Estados mais ou menos importantes
foram constitudos na rea que se estende da regio dos Grandes Lagos  Tan-
znia Ocidental, Central e do Nordeste. Comunidades com vocao pastoril e
agrcola fixaram-se nas reas montanhosas e no Vale do Rift (Vale da Grande
Fenda). Estas sociedades estavam, em sua maioria, em vias de transformao.
Grupos continuaram a emigrar para regies ainda desabitadas, menos propcias
para a agricultura, enquanto a influncia das migraes mais recentes, como
as dos luo e dos massai, no havia ainda sido totalmente absorvida por seus
vizinhos. Somente a regio prxima do litoral e as ilhas de Zanzibar e Pemba
faziam parte do sistema econmico internacional. No incio da dcada de 1840,
a frica Oriental foi palco de duas invases distintas: a invaso comercial, a qual
integraria o interior no sistema econmico internacional, e a invaso nguni vinda
da frica Austral, a qual provocou vrios movimentos e transformaes nas
sociedades existentes. Dois outros fatores importantes marcaram este perodo:
a luta entre os grupos massai e a presso crescente dos interesses europeus na
frica Oriental. Este captulo se prope a analisar resumidamente estes fatores
no perodo que vai de 1845 a 1884.
276                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



      A penetrao omaniana e a expanso comercial
    O deslocamento dos interesses polticos e comerciais omanianos de Om para
Zanzibar e Pemba e, mais indiretamente, para as cidades litorneas, foi estudado
no captulo precedente.  tambm no incio do sculo XIX que remontam as
causas profundas do desenvolvimento de um imprio comercial que conseguiu
penetrar no corao da frica Oriental. A partir de 1840, o trfico de marfim e
de escravos expandiu-se rapidamente e levou o interior para a malha comercial
j estabelecida no litoral.
    Tem-se a tendncia de estabelecer uma correlao entre o marfim e os escra-
vos, dado que, na maioria dos casos, vinham da mesma regio, e os escravos
podiam ser usados para o transporte de marfim. Mas esta correlao  superficial
e foi sobreestimada. , todavia, evidente que, para o comrcio de longo curso,
tanto o marfim como os escravos fossem trocados por outras mercadorias, tais
como tecidos, arames e contas.
    Uma correlao bem mais importante est no fato de que estes dois pro-
dutos estavam ligados a um sistema comercial internacional que iria reduzir
a frica Oriental a um papel subalterno e influenciar o seu desenvolvimento
antes mesmo da instaurao do regime colonial. Deste modo, a frica Oriental
encontrou-se engajada no sistema econmico capitalista bem antes do incio
do colonialismo.
    O aparecimento de um sistema econmico baseado em plantaes  primeiro
as das Ilhas Maurcio e Reunio, sob o domnio francs, mas, sobretudo, as de
cravos-da-ndia de Zanzibar e Pemba  provocou o desenvolvimento do comr-
cio de escravos no interior da frica Oriental. Quando Sayyid Sa`d deslocou seus
interesses comerciais de Zanzibar para a frica Oriental, o trfico de escravos
com destino  ilha Maurcio j tinha sido freado pela interveno dos britnicos
que se apoderaram da ilha em 1810. Mas Sayyid Sa`d incentivou o desenvolvi-
mento de plantaes de cravo-da-ndia e de coqueirais em Zanzibar e Pemba.
Quando ele transferiu sua capital para Zanzibar, pouco depois de 1840, a lavoura
do cravo-da-ndia j se constitua na principal atividade econmica, da qual o
trabalho servil era o motor. Este quadro favoreceu o aparecimento de uma classe
de proprietrios de terras, constituda primeiro e principalmente por rabes;
depois, a partir de 1860, tambm por shrz e indianos. Estima-se normalmente
que, a partir de 1860, as ilhas de Zanzibar e Pemba tenham recebido perto de
10.000 escravos por ano  sem contar aqueles destinados para o suprimento dos
mercados estrangeiros (sobretudo rabes). Pode-se estabelecer que, na dcada de
1860, o mercado de Zanzibar no recebia menos de 70.000 escravos por ano,
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                                        277




figura 10.1 O Oceano ndico no sculo XIX. [Fonte: extrado de P.D. Curtin, S. Feierman, L. Thompson
e J. Vansina, African History, 1978, p. 394.]
278                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



e que o trfico mais intenso iniciara aps 18401. Embora tais nmeros possam
ser fortemente exagerados, eles indicam, contudo, que o comrcio de escravos se
desenvolvera de modo considervel desde a metade do sculo XIX.
    O segundo produto comercial proveniente da frica Oriental era o marfim.
No captulo anterior, vimos como o mercado de marfim comeara a se desen-
volver nas primeiras dcadas do sculo XIX, desenvolvimento este devido 
demanda crescente de um ocidente industrializado que o mercado tradicional
indiano no mais satisfazia. Antes, a Europa e os Estados Unidos da Amrica
obtinham este produto na frica Ocidental. Mas a demanda pelo marfim afri-
cano cresceu quando foi percebido que era de uma qualidade superior (menos
duro), mais apropriado para a fabricao de artigos de luxo, tais como pentes,
bolas de bilhar e teclas de piano, os quais eram procurados pelas classes mais
abastadas da sociedade. Todos os esforos empregados pelos britnicos para
exercer um controle direto sobre este mercado, a partir da frica Oriental, fra-
cassaram, j que os mercadores indianos encontravam-se bem estabelecidos na
regio e porque eles enviavam o marfim para Bombaim e, de l, reexportavam-
-no para a Europa. Somente alguns poucos americanos conseguiram pouco a
pouco se tornar os primeiros mercadores ocidentais de Zanzibar, permanecendo
contudo amplamente dependentes de seus concorrentes indianos.
     bvio que as condies de troca, nestes dois comrcios particulares, eram
muito vantajosas para aqueles que as praticavam. Grandes rotas comerciais
surgiram a partir das cidades litorneas (Kilwa, Bagamoyo, Pangani, Tanga e
Mombaa) at diversos pontos do interior, de modo que, depois de 1870, a maior
parte da regio correspondente hoje  Tanznia, ao Qunia, ao Uganda,  parte
oriental da Repblica Democrtica do Congo, ao Norte da Zmbia, ao Malaui
e ao Moambique Setentrional, formava um imenso interior ligado a Zanzibar
atravs destas cidades litorneas e por isso mesmo integrado, em graus diversos,
 malha comercial internacional.
     tentador ver neste desenvolvimento do comrcio de longo curso apenas
um episdio infeliz do qual os africanos foram vtimas impotentes.  certo que
o trfico, o qual avilta o ser humano, deixou nas sociedades da frica Oriental
sequelas pessoais e morais particularmente funestas. Bem maior, contudo, foi a
influncia do comrcio em seu conjunto sobre o desenvolvimento efetivo das
sociedades consideradas. Os africanos, neste caso, no foram meros expectadores.
Mostraremos atravs de alguns exemplos que, em muitos casos, eles prprios


1     E. A. Alpers, 1967, p. 11; 1974, p. 236.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                          279



tomaram a iniciativa de estabelecerem relaes comerciais com o litoral. , con-
tudo, difcil avaliar na medida justa a incidncia econmica geral desta invaso
comercial sobre as sociedades africanas.  mais fcil reconhecer os aportes tang-
veis da penetrao litornea nos territrios do interior, sob a forma, por exemplo,
de espcies novas  o milho e o arroz , ou seus efeitos culturais, representados
pela expanso do isl e, de maneira ainda mais significativa, pelos progressos da
lngua suali. Mas quais foram os efeitos econmicos?
    Philip D. Curtin, avaliando os efeitos de um comrcio do mesmo gnero, mas
na regio da Senegmbia, concluiu: "Os dados so suficientemente precisos para
que se possa afirmar de maneira geral que, apesar da probabilidade de movi-
mentos inversos marcantes durante os tempos de guerra, as condies de troca
modificaram-se consideravelmente em favor da Senegmbia durante quase dois
sculos. Mesmo que as estimativas representassem quer a metade, quer o dobro,
dos nmeros reais, esta melhoria do conjunto traduziu-se, entre 1680 e 1830,
em uma multiplicao de cinco a vinte vezes das vantagens recebidas. Para se
tomar uma estimativa mdia, ao final do perodo considerado, os senegambianos
receberam dez vezes mais do que lhes fora dado cento e cinquenta anos antes
pelo mesmo volume de bens exportados2."
    Infelizmente, no existem dados comparveis para a frica Oriental. R. Cou-
pland, a partir de estatsticas relativas a Zanzibar e a alguns centros litorneos,
pde demonstrar, por exemplo, que o lucro anual de Kilwa atingiu 120.000 libras
em 1876; e que de 1869 a 1876, as receitas alfandegrias de Zanzibar passaram
de 65.000 libras a mais de 100.000 libras por ano3. Isto parece indicar que cabe-
ria, ao menos no caso de Zanzibar, um estudo anlogo ao da Senegmbia. Mas
 provvel que no nos ensinasse grande coisa sobre as numerosas sociedades
do interior que participavam das atividades comerciais. Sabe-se que, em 1870,
a economia de plantation, baseada em uma mo de obra servil, tinha comeado
a se estender no litoral e no interior da regio, ao longo das rotas de caravanas,
a fim de, sobretudo, produzir gneros (cereais) necessrios  alimentao das
camadas mais ricas e das classes trabalhadoras de Zanzibar e de Pemba, e de
prover as necessidades das grandes caravanas que penetravam pelo interior
ou do qual retornavam4. O quadro permanece, entretanto, incompleto. Porm,
mesmo que consegussemos complet-lo, demonstrar que o produtor africano
obtinha naquele momento mais do que ele recebia antes, no mudaria o carter

2    P. D. Curtin, 1975, p. 340.
3    R. Coupland, 1939, p. 227, 319 e 320; ver tambm J. M. Gray, 1963, p. 241.
4    A. Smith, 1963, p. 296.
280                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



de explorao do sistema comercial capitalista internacional da poca. De fato,
os comerciantes do litoral e seus aliados africanos no passavam de intermedi-
rios dos negociantes europeus, que ficavam com a maior parte dos lucros. O
produtor africano era explorado no somente pelos intermedirios, mas tambm
pelos comerciantes europeus. A situao se apresenta ainda mais dramtica se
pensarmos que seres humanos eram o objeto deste comrcio! Pode-se acres-
centar que, ligados assim ao sistema econmico mundial, em condies pouco
vantajosas para eles, os africanos do Leste consagraram sua energia no para
buscarem o desenvolvimento de suas economias em seu proveito, mas sim para
fornecerem matrias primas e mo de obra trocadas por produtos manufaturados
estrangeiros (artigos de luxo, em sua maioria), teis somente a algumas camadas
da sociedade. s vezes, este comrcio produziu o efeito de fazer desaparecer as
indstrias locais que produziam artigos anlogos ou de frear seu desenvolvi-
mento. Tal foi a sorte da indstria do tapa, na regio do Lago Vitria, e a da
tecelagem a mo no Sudoeste da Tanznia.
    Este agrupamento do vasto interior leste africano ao litoral no resultou
apenas na abertura de novas rotas comerciais do litoral para o interior, nem
tampouco da penetrao rabe e suali no continente. Ela se deu igualmente
pela transformao e adaptao das malhas comerciais existentes. Para maior
clareza, ns dividiremos as grandes rotas do comrcio de longo curso segundo
quatro eixos principais: o de Kilwa para o interior; o da Tanznia Central; o do
vale do Pangani e o de Mombaa para o interior.

      O eixo Kilwainterior
   O eixo comercial que ligava Kilwa ao interior foi provavelmente o primeiro
a se formar sob o efeito da demanda por mo de obra servil destinada s ilhas
sob domnio francs, no final do sculo XVIII. Os contatos entre a regio do
Lago Nyasa (atual Lago Malaui) e Kilwa eram relativamente fceis, uma vez
que a regio que os viajantes deviam atravessar era muito frtil e habitada. Era
dominada pelos yao que asseguravam o encaminhamento de marfim, cera e
escravos at Kilwa. Eles continuaram a ter um papel importante neste comr-
cio at a poca de seu apogeu no sculo XIX e sua preponderncia na segunda
metade do sculo foi uma consequncia direta. Como j observamos, a situao
geogrfica deles lhes era favorvel. Entretanto, a consequncia mais marcante
deste comrcio regional foi de ordem social. At ento, o povo yao compunha-
-se de pequenos grupos estabelecidos ao redor do lago Nyasa, unidos por um
elo muito frouxo sob a frgil autoridade dos chefes locais. Mas na metade do
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                      281



sculo XIX, eles se reuniram em coletividades mais importantes e seus chefes
comearam a se impor. Tem-se insistido muito sobre a invaso nguni como
fator desta evoluo. Mas, como se ver aqui, ela aconteceu em uma poca em
que a sociedade j tinha claramente comeado a se estratificar sob a influncia
do comrcio. Quando os mercadores rabes tentaram penetrar pelo interior
desta rota, os chefes yao eram demasiadamente fortes para eles. Tambm, com
a exceo de pequenos enclaves como Khota Khota e Karong no Malaui atual,
os rabes nunca detiveram o controle do comrcio. Eles eram em geral clientes
dos poderosos chefes yao aos quais eles forneciam armas de fogo e outras mer-
cadorias e com os quais eles dividiam os benefcios5.

    O eixo da Tanznia Central
   Os nyamwezi dominavam essa rota. Desde o incio do sculo XIX, suas cara-
vanas asseguravam a maior parte das trocas comerciais da regio. Enquanto o
comrcio, sob a instigao de Sayyid Sa'd, ganhava terreno, os mercadores rabes
acentuavam sua penetrao pelo interior. Ela foi facilitada pelo sistema de finan-
ciamento estabelecido por Sayyid Sa'd com a ajuda de seus funcionrios india-
nos. Ele havia confiado a direo geral dos negcios ao diretor da alfndega de
Zanzibar, um indiano, que lhe pagava uma renda anual. Este ltimo, por seu lado,
apoiado pela comunidade indiana que compunha a base da populao das outras
cidades litorneas (Kilwa, Bagamoyo, Pangani, Tanga, Mombaa etc.), adiantava
aos chefes de caravanas o dinheiro necessrio para suas expedies pelo interior.
Se no interior de Kilwa os rabes eram clientes dos chefes yao, no eixo central,
ao contrrio, estabeleceram centros para agrupamento de marfim e escravos. A
maioria das caravanas partia de Bagamoyo ou de Sadani, atravessava as regies
ocupadas pelos zaramo, kami, sagara, luguru e gogo para chegar s terras dos
nyamwezi e alm, nos territrios dos ujiji, nas margens do Lago Tanganica.
   Algumas destas caravanas penetravam mais longe ainda, at o interior da
atual Repblica Democrtica do Congo, ou para o Norte at o Karagwe e o
Buganda. Uma outra rota partia em direo ao Sul para chegar  regio do Lago
Nyasa onde ela ligava a rota que convergia para Kilwa.
   Duas feitorias rabes acabaram por se tornar colnias importantes:
Unyanyembe, perto da atual Tabora, em terras nyamwezi e Ujiji,  beira do
Lago Tanganica. Elas diferenciavam-se num ponto essencial: em Unyanyembe,
os rabes formavam uma espcie de enclave em terras nyamwezi, ao passo que,


5    Ibidem, p. 286.
282                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 10.2 O comrcio na frica Oriental no sculo XIX. [Fonte: adaptado de P. D. Curtin, S. Feierman,
L. Thompson e J. Vansina, African History, 1978, p. 399.]
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                                             283



em Ujiji, eles estavam mais ou menos integrados ao Estado Ha6. No primeiro,
onde eram independentes, eles enfrentaram a concorrncia dos mercadores
nyamwezi que, com frequncia, no eram outros que os chefes de vrios princi-
pados da regio. Os nyamwezi deram a estes mercadores, fossem eles rabes ou
nyamwezi, o nome de bandewa7. Todos estes grupos esforavam-se em tirar lucro
do comrcio de longo curso, da os embates constantes entre os chefes nyamwezi
e os mercadores rabes  da tambm as lutas intestinas entre os soberanos de
diferentes Estados nyamwezi; lutas que levaram a reajustes polticos e sociais de
graves consequncias para o povo nyamwezi.
   Os rabes de Ujiji, por sua vez, utilizaram a seu favor a organizao poltica
ha, na qual Ujiji fazia parte de um Estado ha bem mais vasto no qual o centro
estava longe da cidade de Ujiji. Os rabes tinham ento fincado o p numa rea
perifrica do Estado e puderam facilmente se integrar, para um ganho maior
das duas comunidades.

    O eixo do vale do Pangani
    Diferentemente dos eixos comerciais do centro e do Sul, a rota que passava
pelo vale do Pangani no era controlada por grupo algum em particular. Na ori-
gem, de 1836 at cerca de 1860 (quando morreu Kimwere ye Nyumbai, o grande
chefe do reino shambaa), os zigula tiveram contudo um papel preponderante
no desenvolvimento comercial desta rea. Mas, ao redor de 1836, ocorreu uma
terrvel fome8 que obrigou inmeros zigula a se venderem como escravos para
sobreviver. Conta-se que alguns deles, levados para a Somlia pelos traficantes
brava (barawa), preservaram ali sua lngua at o sculo 209. A maioria, entretanto,
foi enviada a Zanzibar onde trabalhou como escravos nas plantaes. Alguns
conseguiram retornar para suas terras; relata-se a histria de um grupo que,
tendo conseguido escapar, voltou so e salvo s terras zigula:
    De acordo com um plano bem orquestrado, um grupo importante de conspiradores
    reuniu-se numa noite de lua cheia em uma das plantaes. De l, eles conseguiram
    chegar ao litoral ao Norte do porto de Zanzibar. Ao amanhecer, eles subiram a



6    Ver N. R. Bennett, 1974, p. 213-221.
7    Ver A. C. Unomah, 1972.
8    R. F. Burton, 1860, vol. I, p. 125. Em 1860, Burton escreveu que a fome castigou duramente "h cerca
     de vinte anos". J. L. Krapf (1860, p. 256-257) falou de uma fome semelhante em Mombaa na mesma
     poca.
9    S. Feierman, 1974, p. 137.
284                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



      bordo de vrios barcos, pegaram de surpresa e mataram ou subjugaram as tripu-
      laes, levantaram ncora, iaram velas e fizeram a travessia de Zanzibar at o
      continente10.
    Esta experincia mostrou-lhes todas as vantagens que se podia tirar do
comrcio de escravos e de marfim. Foram eles que o introduziram no vale do
Pangani. A capital do rei Kimweri, localizada nos montes Shambaa, encontrava-
-se longe das plancies. Por isso, ainda que seu reino, baseado na autoridade
poltica dos chefes territoriais e no sistema de tributos, tenha sido estvel, tar-
dou a lucrar com este novo comrcio. Aps sua morte, seu filho Semboja que
reinou na borda ocidental do territrio zigula, soube tirar proveito da situao
e transferiu sua capital para a regio das plancies, em Mazinde.
    Mas nem Semboja nem os mercadores zigula tinham totalmente explorado
a rota que ligava o vale do Pangani ao interior do continente. A maioria dos
centros comerciais estava localizada numa rea limitada, formada pelas plancies
do Usambara e do Pare. Todavia, alguns mercadores aventuraram-se alm. Kisa-
bengo, por exemplo, fundou um Estado na proximidade do atual Morogoro.
    Somente os comerciantes rabes e sualis do litoral se arriscariam pelo inte-
rior at as terras chagga, no macio do Kilimanjaro, e continuaram alm at o
Qunia. Nos montes Pare existiam vrios pequenos Estados, mas, como o dos
shambaa, estavam todos nas montanhas, longe da rota das caravanas.
    Os comerciantes do litoral que penetraram no vale do Pangani precisaram,
em sua maioria, criar contatos diretos com cada um dos soberanos ou com seus
vassalos para poder estabelecer centros comerciais. Isto provocou rivalidades
entre os soberanos de vrios pequenos Estados localizados nos montes Pare e
Kilimanjaro, assim como entre estes soberanos e seus vassalos. Veremos mais
adiante quais foram as repercusses sociopolticas desta situao.

      O eixo Mombaainterior
   O interior de Mombaa era dominado pelos kamba, mas, depois de 1880,
o controle da rota principal passou para os mercadores rabes e sualis. Depois
de ter atravessado as terras kamba, esta rota seguia para as regies montanhosas
do Qunia e prosseguia alm na direo das margens do Lago Vitria e da
Uganda. Uma outra rota que ia em direo ao Kilimanjaro encontrava-se com




10    J. M. Gray, 1962, p. 141.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                                                285




Figura 10.3 Penteados e cortes de cabelos nyamwezi. [Fonte: R. F. Burton, The Lake Region of Central Africa,
1860, vol. II, Longman, Green, Longman and Roberts, Londres.  Royal Geographical Society, Londres.]




Figura 10.4 Mercadores nyamwezi na estrada. [Fonte: R. F. Burton, The Lake Region of Central Africa, 1860,
vol. II, Longman, Green, Longman and Roberts, Londres.  Royal Geographical Society, Londres.]
286                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



a do vale do Pangani. Ela era, parece-nos, como a do Pangani, sob o controle
dos comerciantes do litoral.
    Quase todos os autores esto de acordo com J. L. Krapf por remontar o incio
do comrcio continental kamba  fome de 183611. Mas, como j mostrado neste
volume, a preponderncia comercial deste povo no se firmou da noite para
o dia. Os testemunhos que dispomos permitem supor que os kamba tinham
utilizado uma malha comercial regional durante mais de um sculo antes da
data geralmente admitida12. Esta data, contudo, marcou a segunda fase da sua
atividade comercial, a de seu acesso  malha do comrcio internacional da poca:
comearam ento a trocar as presas de elefante e outras matrias primas locais
por mercadorias importadas. Krapf, o qual fez vrias viagens s terras kamba
em 1848-1849, deixou-nos um testemunho sobre estas trocas: "os sualis forne-
ciam aos wakamba tecidos de algodo (americano), lona azul, contas de vidro,
cobre, sal, vitrolo azul (zinco) etc., e recebiam em troca, essencialmente, gado e
marfim"13. Desde 1840, havia ento, como o atestam os documentos, caravanas
kamba que se dirigiam a cada semana para as vilas litorneas. O marfim, do qual
elas estavam carregadas, podia pesar entre 300 e 400 frasilas14. Segundo Krapf,
elas continham cada uma de 300 a 400 pessoas15. Na metade do sculo XIX,
grupos de mercadores kamba iam no somente at seus vizinhos, os kikuyu, mas
tambm at regies localizadas bem alm do monte Qunia: Mau, Gusii, Lago
Baringo e as terras samburu.
    No final do sculo XIX,  provvel que os comerciantes rabes e sualis
tenham se tornado os donos da rota comercial que atravessava as terras kamba16.
Tendo penetrado em territrio massai pela rota do Kilimanjaro em uma poca
em que a pujana massai era muito enfraquecida devido s guerras e s epide-
mias, eles exerciam o seu domnio sobre as reas de onde provinha o marfim.
Parece que  poca, o trfico de escravos (que no tinha sido muito importante
sob os kamba) tomara, de repente, uma dimenso nova. As tradies kamba
descrevem este perodo como o mais conturbado da sua histria; a fome foi
ocasio de conflitos entre linhagens dos quais lucraram os mais ambiciosos ao


11    Ver, por exemplo, K. G. Lindblom, 1920, p. 339-340; D. A. Low, 1963, p. 314.
12    I. N. Kimambo, 1974, p. 207.
13    J. L. Krapf, 1860, p. 248.
14    C. Guillain, 1856, vol. II, p. 211. Segundo o dicionrio suali-ingls de Charles Rechenbach, uma frasila
      equivalia mais ou menos a 16 quilos ou 35 libras.
15 J. L. Krapf, 1860, p. 248.
16    J. Thompson, 1885, p. 272-275.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                      287



vender os mais fracos aos rabes17.  ento a justo ttulo que as tradies kamba
estabelecem uma relao histrica entre o declnio do comrcio de mercadorias,
no qual eles, os kamba, tinham desempenhado um papel expressivo e a expanso
do sistema baseado na explorao dos homens em que se destacaram os mer-
cadores rabes e sualis.

     O impacto do comrcio de longo curso sobre
     as sociedades da frica Oriental
    Depois deste apanhado retrospectivo,  possvel analisar uma a uma as conse-
quncias, na vida das sociedades leste-africanas, do surgimento do comrcio de
longo curso. Antes de tudo,  preciso se dar conta que nem todas as sociedades
da frica Oriental tinham contato direto com a malha comercial. A atividade
mercantil exigia centros estveis, os quais,  claro, eram mais frequentemente
nas capitais ou nas reas protegidas por soberanos poderosos.  esta a razo pela
qual os efeitos positivos do comrcio, no sculo XIX, foram mais sensveis nas
sociedades centralizadas. As sociedades no centralizadas eram frequentemente
mais vulnerveis. Elas podiam ser facilmente saqueadas por aquelas que eram
organizadas em uma escala maior. As sociedades pastoris foram quase sempre
exceo durante este perodo. As de lngua massai estavam engajadas em guerras
intestinas e em conflitos com outras sociedades pastoris e, como veremos mais
adiante, elas formavam uma rea tampo contra os ataques dos traficantes de
escravos em uma grande parte do Qunia e da Tanznia setentrional.
    Em resumo, pode-se dizer que o comrcio de longo curso sacudiu as bases
materiais de todas estas sociedades. Embora seja admitido que a mestria do
ritual constitua o fundamento principal da autoridade nestas sociedades africa-
nas, reconhece-se, tambm, que os Estados puderam se organizar numa grande
escala onde a base material era bastante slida para assegurar a manuteno de
uma burocracia militar e de Estado. Pde-se ainda constatar que houve uma
ligao entre o tamanho dos Estados centralizados, em vrias regies da frica
Oriental, e a pujana econmica proporcionada pelo meio geogrfico. Os gran-
des Estados da regio dos Grandes Lagos conseguiram se manter graas aos
excedentes alimentcios que lhes garantiam uma economia agrcola estvel, base-
ada na cultura da banana, de cereais e na criao de gado. Quanto mais longe do
Lago Vitria, em direo sul, mais as precipitaes so fracas e, ento, a econo-
mia pode apenas comportar Estados de dimenses reduzidas. So em geral mais

17   Ver K. A. Jackson, 1972.
288                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



vastos nas regies montanhosas, como no Usambara e no Pare e, em uma certa
medida, no Kilimanjaro. Em alguns dos grandes reinos da regio dos Grandes
Lagos, os soberanos acrescentaram seu poder ao equiparem-se para o comrcio
de longo curso que asseguraria a prosperidade ao seu reino18. Seu arsenal tradi-
cional enriqueceu-se com fuzis e passaram a usar mercadorias importadas, tais
como tecidos e contas de vidro, como moeda complementar para remunerar os
servios que lhes eram prestados, alm dos alimentos recebidos como tributo.
Mas o gosto pelos artigos importados agravou tambm os riscos de instabilidade
na medida em que podiam incentivar os vassalos a se lanarem em empreitadas
pessoais e atravs delas enfraquecer o reino. Eis a razo pela qual tantos reis se
esforaram em ter o controle sobre o comrcio de longo curso.
    Foi nos pequenos Estados que o aparecimento das mercadorias importadas
trouxe as mais espetaculares desordens. Constituam uma grande parte da Tan-
znia e, num grau menor, do Qunia Ocidental. Os soberanos tradicionais, capa-
zes de controlar o comrcio, puderam assim acumular muitos objetos importados
para equipar poderosos exrcitos e estenderem seu controle administrativo. Por
outro lado, os Estados mais fracos eram saqueados por traficantes de escravos
ou ento incorporados a conjuntos de territrios mais importantes. Deste modo,
o impacto poltico do comrcio foi algumas vezes positivo  quando permi-
tiu a alguns soberanos constiturem vastos reinos onde antes existiam apenas
pequenos Estados  e, algumas vezes, negativo  quando incentivou a rebelio,
arruinando assim a coeso dos Estados existentes. No geral, este ltimo caso foi
o mais frequente. Intil falar sobre as atrocidades do trfico. Mas mesmo o poder
baseado no acmulo de objetos importados se revelou ilusrio, j que a maioria
destes ltimos eram artigos de luxo  contas, braceletes e outros ornamentos.
Somente o tecido apresentava alguma utilidade, embora concorresse com os
artesanatos locais que terminaram por desaparecer. Pior ainda, o comrcio dos
artigos de luxo e a situao de violncia criada pela necessidade de saquear as
comunidades vizinhas para continuar a sustent-lo levaram ao abandono da
agricultura de subsistncia. Mesmo que o colonialismo no tivesse aparecido,
a nova estrutura teria tido dificuldades em se manter. De fato, raros foram os
grandes Estados constitudos durante este perodo que permaneceram intactos
at 1890.
    Convm, para tornar preciso este quadro, analisar mais de perto o que se pas-
sou nas trs regies por onde circulavam as caravanas. A propsito dos kamba,


18    Ruanda e Burundi so excees. Ver a nota de rodap 31.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                     289



vimos como a sua pujana comercial comeou, ela tambm, a declinar quando
as incurses dos mercadores de escravos tornaram-se sistemticas. Os kamba
formavam uma sociedade no centralizada. Entre eles, o comrcio de longo
curso encorajava, parece-nos, a transposio em escala maior das instituies
tradicionais tendo por base os laos de parentesco, os grupos etrios no seio de
cada vila e as organizaes de defesa. Mas isto no foi suficiente para formar
uma estrutura de estado centralizado. No Qunia, foi s na regio ocidental
que o comrcio com o litoral permitiu fundar um regime poltico extenso e
centralizado: o reino de Wanga, entre os luyia.
    Antes que Shiundu, o qual se tornaria um de seus maiores reis, subisse ao
trono na metade do sculo XIX, o reino de Wanga no passava de um pequeno
reino incessantemente assediado pelos povos pastores vizinhos. Mas seria
Shiundu que teria posto um fim a esta instabilidade e, em 1882, data na qual
seu filho Mumia o sucedeu, o reino se estendia alm de suas fronteiras ante-
riores. O professor G. S. Were explicou a formao deste vasto imprio pelos
imperativos estratgicos dos britnicos que buscavam faz-lo um instrumento
do seu colonialismo, mas ele reconheceu que "a influncia e a autoridade real"
dos wanga se estenderam, ao menos, a duas regies vizinhas  Kisa e Buholo19.
Dois fatores, naquele momento, ajudaram os soberanos wanga a imporem sua
autoridade: a utilizao de mercenrios massai e a presena dos comerciantes
sualis na capital. O primeiro foi consequncia das guerras entre os massai,
tratadas mais adiante neste estudo; enquanto que o segundo foi o resultado da
infiltrao comercial que se fez, ao incio, pelas rotas do Buganda e do Busoga,
depois pelas do Kilimanjaro e das terras kamba.
    Shiundu e seu filho Mumia deram boa acolhida aos mercadores das cidades
litorneas que vieram  sua capital. Eles puderam se prover, por seu intermdio,
dos fuzis de que tinham necessidade para armar seus soldados. A partir da capital
Wanga, podiam-se organizar ataques aos territrios vizinhos. Em 1883, Joseph
Thompson descreveu nestes termos uma destas expedies, ocorrida cinco anos
antes: "Os mercadores tinham perdido vrios de seus homens, dos quais alguns
tinham sido assassinados. Para se vingar, eles resolveram, cinco anos antes da
nossa chegada, dar uma lio nos autctones". Neste sentido, eles formaram uma
caravana com cerca de 1.500 homens estacionados em Kwa-Sundu (rebatizada
depois como Mumia) e se colocaram a caminho. Divididos em vrias colunas,
eles invadiram o territrio por vrios lados e o atravessaram destruindo tudo em


19   G. S. Were, 1967, p. 125.
290                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



sua passagem e matando milhares de homens e mulheres. Cometeram as piores
atrocidades: estriparam mulheres grvidas, acenderam grandes fogueiras onde
jogaram as crianas, enquanto se apoderaram dos adolescentes dos dois sexos
para reduzi-los  escravido20.
    A maioria dos outros povos do centro-norte do interior leste-africano foi
menos atingida pelo comrcio internacional. Eles tinham menos contatos, dire-
tos ou mesmo indiretos, com os estrangeiros do litoral. De fato, em muitos casos,
eles recusaram-se a acolh-los, embora estivessem dispostos a lhes vender ali-
mentos nos locais de parada das caravanas. Esta atitude se compreende melhor
se for lembrado que toda esta regio fora longamente agitada pelas guerras entre
os massai, as quais tinham ensinado aos chefes, para protegerem suas estruturas
sociais, a desconfiarem mais dos estrangeiros.
    O impacto do comrcio internacional no vale do Pangani foi essencial-
mente destrutivo. Anteriormente, um certo nmero de Estados fora criado na
regio. Dois dentre eles tornaram-se bastante importantes: o reino Shambaa,
o qual foi governado na metade do sculo XIX por Kimwere e o de Gweno,
menos conhecido, ao Norte do monte Pare. Outros Estados menores estavam
disseminados sobre as vertentes meridionais dos montes Pare bem como nas
encostas do Kilimanjaro. Mas todos estavam localizados nas reas montanhosas,
enquanto as caravanas passavam pelas plancies ao longo do Pangani. Os chefes
destes Estados estavam, ento, mal localizados para vigiar os mercadores vindos
das cidades litorneas e monopolizar o negcio das mercadorias importadas,
enquanto seus vassalos, mais prximos da rota das caravanas, podiam atrair facil-
mente os mercadores rabes e sualis para seu territrio, antes que atingissem as
capitais. A consequncia desta situao no se fez esperar. Os vassalos, ajudados
pelos mercadores, reuniram tropas bem armadas e se sublevaram contra a capital.
Esta situao gerou conflitos internos e externos. A maioria destes Estados se
esfacelou, restando apenas Estados muito pequenos.
    O reino Shambaa, o qual englobava todo os territrios dos montes Usambara
at o litoral, estava ameaado muito antes da morte de Kimwere, na dcada
de 1860. Um de seus filhos, Semboja, que reinava na parte ocidental, tinha
transferido sua capital para Mazinde, nas plancies. Isto lhe permitiu negociar
diretamente com os mercadores que entravam pelo interior; pde assim se tor-
nar uma potncia militar superior  dos outros chefes regionais. Foi ele, aps a
morte de Kimwere, o incumbido de realizar a sucesso. Compreendendo que


20    J. Thompson, 1885, p. 306.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                      291



a capital tradicional havia perdido toda a importncia, ele no quis assumir o
trono de seu pai. Desde a dcada de 1870 at a poca da invaso colonial, na
dcada de 1890, Usumbara conheceu um perodo de violncia, deslanchada pela
fraqueza do poder central. A maioria das regies perifricas tornara-se, ento,
independente.
    O mesmo fenmeno se produziu nos Estados do Pare. Em 1880, o reino
de Gweno tinha explodido, substitudo por vrios principados, dos quais os
menores, ao Sul do Pare, continuaram a se dividir. Na regio do Kilimanjaro, ao
contrrio, o estado de guerra incessante que opunha os diversos Estados levou-
-os a se unirem momentaneamente, a ponto de que se pudesse crer que todos
os Estados chagga iriam se federalizar sob a gide de um soberano nico. Mas
este incio de unificao no durou muito. Na dcada de 1880, dois principados
poderosos se impuseram na escala regional: Kibosho, sob o reinado de Sina, e
Moshi, sob o de Rindi ou de Mandara. Os mercadores do litoral tinham-lhe
acesso. Seus soberanos se esforavam em atrair estes estrangeiros para sua capi-
tal e tirar proveito de sua presena e das mercadorias que traziam (sobretudo
os fuzis) para aumentar o seu poderio. Um ou outro destes Estados chagga foi
forte o suficiente para dominar os outros. Mas os reagrupamentos deste tipo
foram sempre efmeros.
    O nico povo do vale do Pangani que parecia lucrar com o comrcio com
o litoral foi o dos zigula, do qual j foi falado. Os zigula nunca foram sditos
do reino Shambaa. Graas ao controle que exerciam sobre o comrcio com o
litoral, vrios Estados zigula manifestaram uma tendncia  hegemonia poltica
sem precedentes, de modo que, por volta da metade do sculo XIX, acabaram
por dominar toda a regio compreendida entre o Pangani e Bagamoyo. Vrios
soberanos adquiriram um poder considervel e foram capazes de fundar novos
Estados. Alguns dentre eles no tardaram a desaparecer, mas aquele fundado
por Kisabengo, ao redor de Morogoro, sobreviveu  invaso alem. Burton nos
conta como Kisabengo se proclamou chefe de um grupo de escravos, os quais
tinham fugido do litoral21. Ao faz-lo, ele provocou a clera do sulto de Zan-
zibar e teve que ir mais para o interior para se por a salvo. Em Morogoro, ele
foi recebido por um dos chefes rituais dos luguru. Ele estabeleceu sua capital, a
qual fortificou, prxima da rota das caravanas e obrigava aquelas que seguiam em
direo a Tabora a lhe pagar um direito de passagem elevado. Staley relata que,
em 1871, a capital do rei Kisabengo que tinha vrios milhares de habitantes era


21   R. F. Burton, 1860, vol. I, p. 85 e 88.
292                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



cercada de altas muralhas de pedras sobrepostas com torres de vigia e na qual
se entrava por portes de madeira finamente esculpidos22.
    Na Tanznia Ocidental, rivalidades opunham tambm os chefes africanos
de numerosos pequenos Estados, nos quais os rabes se fixaram. Por outro
lado, os chefes africanos que tinham se aliado competiam com os mercadores
rabes. Em terra manyema, do outro lado do lago Tanganica, existia um enclave
onde os rabes predominavam  caso nico , j que, na Tanznia Ocidental,
eles eram muito frgeis para suplantar os chefes africanos. Somente no fim da
dcada de 1880, quando se sentiram ameaados pelos colonizadores europeus,
 que alguns rabes comearam a pensar, eles tambm, em dar a sua pujana
uma base territorial23.
    Os soberanos africanos esforaram-se em participar dos benefcios do comr-
cio de longo curso fornecendo escravos e marfim aos mercadores: ou  para aque-
les que podiam controlar o territrio atravessado pelas caravanas  taxando-os
pesadamente. Com este intuito, eles aumentaram seus poderes reunindo ao seu
redor grupos de partidrios armados (os fuzis e as munies vinham dos estoques
que as trocas comerciais lhes permitiram acumular). As lutas incessantes para
assegurar o controle do comrcio foram as causas da instabilidade social, agravada
tambm pelos movimentos de populaes consecutivos  invaso dos nguni (povo
igualmente chamado de ngoni em certas publicaes), a qual se deu nesta mesma
poca. A instabilidade que resultou multiplicou a massa de indivduos prontos a
seguirem os chefes empreendedores. Na Tanznia Ocidental, chamava-se a estes
mercenrios de rugaruga. Eram recrutados essencialmente entre os prisioneiros
de guerra, escravos fugitivos, carregadores que tinham abandonado as caravanas,
excludos e jovens com idade do servio militar. A coeso destes exrcitos hetero-
gneos mantinha-se devido a "um certo esprito de corpo junto a uma disciplina
de ferro, intimamente calcada no modelo dos grupos de combate nguni"24.
    Foi com o apoio deles que vrios chefes tradicionais da Tanznia Ocidental
criaram novos feudos. Alguns dentre eles se aventuraram fora de seus domnios
e fundaram imprios. Na dcada de 1850, por exemplo, Ngalengwa (chamado
mais tarde de Msiri), filho de um chefe sumbwa, seguiu a estrada utilizada pelos
mercadores de cobre at Katanga onde ele construiu um imprio poderoso25.


22    H. M. Stanley, 1872, p. 115-116.
23    A. D. Roberts, 1969, p. 73; N. R. Bennett, 1974, p. 218.
24    Ibid., p. 74.
25    Para informaes sobre o imprio de Msiri, ver J. Vansina, 1966, p. 227-235. Para fontes mais antigas,
      ver F. S. Arnot, 1889, e A. Verbeken, 1956.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                  293



No prprio Unyanyembe, rivalidades dividiam os membros da famlia reinante,
rivalidades exacerbadas pelo apoio dos rabes a um ou outro pretendente ao
trono, jogando uns contra outros. Na dcada de 1860, os rabes conseguiram
destronar Mnwa Sele e substitu-lo por Mkasiwa. O irmo de Mnwa Sele,
Simba, deixou ento Unyanyembe para estabelecer seu reino entre os konongo,
ao Sudoeste de Tabora. Um outro membro da famlia reinante de Unyanyembe,
chamado Nyungu ya Mawe, deixou sua terra em 1874 para fundar um reino
bem organizado em terras kimbu, no Sudoeste dos territrios nyamwezi. Alm
desses reis que deixaram suas fronteiras tradicionais para subjugarem alguns
pequenos Estados e reagrup-los em seguida, pode-se citar o caso dos Estados
que se ampliavam sob o impulso de soberanos cujo poder aumentara. O caso de
Mirambo  o mais marcante neste aspecto, mas houve vrios outros. Mtinginya
de Usongo, no Nordeste de Unyamwezi, era um chefe hereditrio que estendeu
seu poder e seu reino ao explorar a rota comercial que ia para o Karagwe e o
Buganda. O prprio Isike, sucessor de Mkasiwa em Unyanyembe, tornou-se
poderoso o bastante para opor uma resistncia forte aos rabes e, mais tarde,
aos alemes.
    Para ilustrar a que pontos as condies e as perspectivas novas tumultua-
ram as estruturas do poder nyamwezi, ns analisaremos sucintamente dois dos
maiores Estados constitudos durante este perodo: o de Mirambo e o Nyungu
ya Mawe. Os dois "imprios" apresentavam diferenas estruturais marcantes,
ainda que fossem ambos nascidos nas circunstncias evocadas acima. Mirambo
era soberano do pequeno Estado de Uyowa, a Oeste de Tabora. Supe-se que,
em sua juventude, tenha sido capturado pelos nguni quando estes invadiram
a Tanznia Ocidental. Quando da sua captura, teria tido a ideia de criar uma
fora armada imitando a dos nguni. Na dcada de 1860, com a ajuda de um
pequeno grupo de guerreiros, ele submeteu alguns Estados limtrofes do Uyowa.
Entre 1870 e sua morte, em 1884, realizou numerosas campanhas com as quais
aumentou consideravelmente seu territrio. Como mostrou Jan Vansina, o seu
Estado se estendia "at o Buha e o Burundi, at o Vinza e o Tongwe a Oeste,
at o Pimbwe e o Konongo ao Sul, at o Nyaturu, o Iramba e o Sukuma a Leste,
e at o Sukuma e o Sumbwa ao Norte".26
    Ele se tornara o senhor da rota comercial que ligava Tabora e Ujiji e, em
1876, imps um pedgio aos rabes de Tabora que a utilizassem. Relata-se
tambm que, desejando controlar a rota do Buganda, ele enviou em 1876 e


26   J. Vansina, 1966, p. 75.
294                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



em 1881 embaixadores a Mutesa, soberano do Buganda. Estabeleceu tambm
relaes diretas com o litoral a fim de obter diretamente armas de fogo quando
os rabes tentaram priv-los dela. Rapidamente reconheceu que podia aumentar
seu poder: acolheu calorosamente os missionrios em sua capital e procurou criar
uma relao com o cnsul britnico em Zanzibar.
    Foi calcando sua potncia militar sobre o sistema tradicional que Mirambo
conseguiu manter seu "imprio". Ele exigiu dos soberanos vencidos o reco-
nhecimento de sua supremacia e o envio, de tempos em tempos, a ttulo de
tributo, de marfim e jovens para seu exrcito. Quando um soberano tradicional
se mostrava recalcitrante, ele o destronava e o substitua por um membro mais
dcil da mesma famlia; quando uma provncia conquistada estava localizada
na proximidade de um reino poderoso, mantinha ali uma guarnio composta
de homens de confiana. Mas sua estratgia mais eficaz para garantir sua auto-
ridade consistia em intimidar seus vizinhos e seus sditos pelas incessantes
movimentaes de tropas.
    O "imprio" de Nyungu ya Mawe era mais unificado que o de Mirambo.
Como este ltimo, ele recorreu aos rugaruga para subjugar os kimbu. Entre
1870 e 1880, ele fez campanha a partir de sua base de Kiwele e se tornou senhor
da rota comercial que ligava Tabora ao litoral, bem como da do Sul que ligava
Tabora a Ufipa e ao Lago Tanganica. Nos Estados conquistados, Nyungu colo-
cou seus prprios funcionrios, os vatwale, que dependiam diretamente dele.
Neste "imprio", eram eles e no mais os chefes tradicionais que dirigiam os
negcios. Eles tinham como misso ajuntar todo o marfim do reino para envi-
-lo a Nyungu. Cada um deles era responsvel por um territrio que reagrupava
vrios Estados tradicionais. Foi deste modo que cerca de trinta Estados kimbu
tradicionais chegaram a ser governados por no mais de seis ou sete vatwale27.
    Mirambo e Nyungu ya Mawe foram contemporneos. Ambos fundaram
seu Estado graas aos tumultos do final do sculo XIX. Morreram em 1884. O
"imprio" de Nyungu lhe sobreviveu graas s estruturas novas criadas por ele,
at o dia em que foi desmembrado pelos colonialistas. Ao contrrio, o "imprio"
de Mirambo, na ausncia de um sucessor capaz de preservar o poderio militar
necessrio  sua coeso, desmantelou-se e os pequenos Estados originais reto-
maram sua independncia.
    Em nossas anlises das consequncias da penetrao do comrcio de longo
curso, deixamos deliberadamente de lado duas grandes regies. A primeira, no


27    A. Shorter, 1969, p. 19.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                                      295




Figura 10.5 Mirambo em 1882 ou 1883. [Fonte: N. R. Bennett, Mirambo of Tanganyika, 18401884, 1981,
Oxford University Press, New York.  National Museums of Tanzania, Dar es-Salaam.]
296                                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



interior,  a dos Grandes Lagos, a qual  o tpico do captulo 11. Contentar-
-nos-emos em assinalar aqui que, por volta da metade do sculo XIX, esta regio
contava com numerosos reinos de tamanhos variveis: alguns eram vastos e
poderosos, outros pequenos e fracos. Mas todos eram parceiros de um comrcio
regional cujas rotas ligavam a maioria das grandes capitais. Foi, ento, nesta
malha regional que o comrcio internacional procedente do litoral foi absorvido.
Durante a segunda metade do sculo XIX, os mais poderosos entre estes reinos
foram provavelmente o Buganda, o Bunyoro e o Burundi. Mas havia muitos
outros menos poderosos, como o Busoga, o Toro, os Estados de Ankole28 (Nkore,
Buhweju e Bunyaruguru), o Karagwe, os Estados do Buhaya e o Buzinza.
    Os comerciantes do litoral haviam atingido o Buganda em 184429. Na dcada
de 1850, R. F. Burton observava que alguns comerciantes do litoral tinham se
instalado ali cerca de dez anos antes; na dcada de 1860, H. M. Stanley relatou que
alguns desses comerciantes tinham se fixado na regio h vinte anos, algumas vezes
sem nunca retornar ao litoral30. Deste modo, o Buganda teria sido o primeiro cen-
tro comercial da regio. Em pouco tempo, contudo, os comerciantes do litoral che-
garam s outras capitais. Houve duas excees: o Ruanda e o Burundi, nos quais
os soberanos puderam manter afastados os comerciantes do litoral e souberam
habilmente se defender dos fuzis de seus adversrios31. Os soberanos do Bunyoro
se esforavam, ao contrrio, em atrair os comerciantes para sua capital. Na dcada
de 1870, Kabarega, rei do Bunyoro, tentou concorrer com o Buganda e entrar
diretamente em conexo com Zanzibar, tentando atrair "aqueles de Cartum" (os
comerciantes que subiam o Nilo), cujas incurses se multiplicaram nas sociedades
no centralizadas das regies fronteirias setentrionais do seu reino32. Parece que
foi o Buganda de Mutesa (1856-1884) que tirou o melhor proveito deste comrcio
com o litoral. Um governo centralizado dotado de uma administrao disciplinada
estava j estabelecido no pas. Mas o comrcio de armas, do qual Mutesa tinha
feito o seu domnio reservado, reforou ainda mais esta centralizao. O Buganda
deu a impresso de se interessar ento mais pelo comrcio internacional do que
pelas trocas regionais. As expedies de Mutesa contra o Busoga a Leste e con-


28    O Ankole  uma criao colonial. Esta entidade se compunha em outros tempos de vrios Estados.
29    J. M. Gray, 1947, p. 80-82.
30    R. F. Burton, 1860, vol. I, p. 173; H. M. Stanley, 1878, vol. I, p. 455.
31    A melhor fonte de informao sobre o Burundi na segunda metade do sculo XIX  provavelmente hoje
      a obra de R. Botte, 1982. Encontra-se tambm uma descrio geral do Burundi em E. Mworoha, 1977,
      p. 133-209, e 1980. Sobre o Ruanda, a obra de A. Kagame, 1963,  uma verso melhorada daquela de
      1961.
32    D. A. Low, 1963, p. 337.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                                        297




Figura 10.6 A regio dos Grandes Lagos, 1840-1884. [Fonte: adaptado de R. Oliver e G. Mathew (org.),
History of East Africa, 1963, vol. I, p. 299.]
298                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



tra seus vizinhos do Oeste e do Sul (o Bunyoro, o Toro, o Nkore, o Buhaya e o
Buzinza) permitiram a seu reino ter o controle sobre o comrcio. Mutesa tentou
tambm reduzir o Karagwe e o Buzinza para que as caravanas da costa pudessem
chegar  sua capital sem obstculos.
    No h dvida de que os reinos mais importantes da regio dos Grandes Lagos
se fortaleceram consideravelmente graas s relaes que tinham estabelecido com os
comerciantes do litoral. Em particular, a aquisio de armas de fogo aumentava seu
poder para atacar os outros. Cada incurso enriquecia sua capital em gado, enxadas,
marfim e cativos; estes dois ltimos bens podiam ser vendidos aos comerciantes
em troca de objetos de luxo de todos os tipos: txteis, braceletes, contas, vasilhames,
mas, sobretudo, armas de fogo. Os Estados mais extensos podiam se apoderar dos
menores, mas todos atacavam seus vizinhos no centralizados, os quais foram os que
mais sofreram. A exceo de Ruanda e do Burundi (j evocada) mostra-nos que era
possvel impedir esta erupo do comrcio com uma outra estratgia. Estes Estados
no deviam sua potncia  aquisio de armas de fogo, mas  sua aptido para manter
a estabilidade e a unidade numa regio montanhosa de densa populao. As nume-
rosas guerras e expedies lanadas durante este perodo permitiram-lhes acumular
riquezas em um contexto em que o marfim e os cativos no despertavam interesse.
    A segunda regio da qual no tratamos  a Tanznia meridional. Com efeito,
as repercusses do comrcio de longo curso devem, no seu caso, ser consideradas
ao mesmo tempo em que as consequncias de outra causa de perturbao, a
invaso nguni, que estudaremos agora.


      A invaso nguni
    Os nguni vieram da frica do Sul e pertenciam ao grupo lingustico nguni
das terras zulus setentrionais. Por volta de 1820, guerreiros nguni desejosos de
subtrair-se  crescente autoridade de Shaka resolveram deixar sua ptria e emi-
grar em direo ao Norte, sob a liderana de seu chefe Zwangendaba. Durante
aproximadamente quinze anos, eles erraram pelo Sul de Moambique e regies
vizinhas, depois cruzaram o Zambeze em 1835. Continuaram sua progresso em
direo ao Norte at o dia em que, pouco depois de 1840, atingiram o planalto
de Fipa, na Tanznia Ocidental. Naquela data, o bando de guerreiros fugitivos
tinha se tornado uma nao em marcha, fortemente armada que contava com
mais de cem mil pessoas33.

33    Para mais detalhes, ver J. D. Omer-Cooper, 1966 e 1969, e P. H. Gulliver, 1955.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                      299



     Pode ser interessante, aqui, perguntar como um crescimento to espeta-
cular foi possvel. Para responder a esta pergunta,  preciso voltar e ver o que
era ento o Estado zulu, sua ptria de origem. Shaka havia criado um Estado
militar, fortemente centralizado e baseado em uma dupla estrutura: a linhagem
e o servio armado. No topo da pirmide hierrquica havia o rei, abaixo dele
os segmentos de linhagem compostos por suas esposas, seus filhos e seus pro-
tegidos. A cada gerao, estes segmentos,  medida que aumentavam, tendiam
tambm a se ramificar e a se multiplicar. De outro lado, os jovens eram alistados
nos regimentos correspondentes ao seu grupo etrio. Este exrcito no levava em
conta nem a origem territorial nem os laos de sangue, e estava sob a autoridade
direta do rei. Estrangeiros podiam sem problema integrar-se  dinmica social
graas a estas duas estruturas. Shaka implementou vrias inovaes no campo
militar, no qual a mais importante foi a adoo de uma lana curta e aguada
que fez dos regimentos, organizados por grupos etrios, unidades de combate
extremamente eficazes.
     Tendo herdado este sistema social dinmico, os nguni puderam juntar os
povos diversos que encontravam em sua progresso para o Norte. A superiori-
dade de sua organizao militar lhes permitiu sobreviver atacando as populaes
das quais eles atravessavam os territrios. Embora saqueadores por fora das
circunstncias, quando encontravam um meio propcio, fixavam-se por vrios
anos. Mais eles avanavam, mais suas tropas eram numerosas, aumentadas por
prisioneiros de guerra que se integravam a este novo corpo social. No incio,
a cada cativo era atribudo um lugar neste ou naquele regimento; depois era
incorporado o mais rpido possvel a um regimento em que a distino entre os
"verdadeiros" nguni e os outros tendia a desaparecer. Na poca em que atingiram
o planalto de Fipa, a entidade nacional nguni se compunha majoritariamente
de prisioneiros assimilados: tonga de Moambique, shona do Zimbbue, senga,
chewa e tumbuka da regio situada ao Norte do Zambeze, correspondente a
Zmbia e ao Malaui.
     Foi no planalto de Fipa que Zwangendaba, o qual havia guiado seu povo
nesta marcha herica, morreu por volta de 1848. Disputou-se logo sua sucesso
e, finalmente, o particularismo venceu. A nao se dividiu em cinco reinos. Cada
um conduziu sua prpria poltica e se assentou em um territrio determinado.
Numerosos historiadores explicaram esta ruptura da nao nguni pelo fato que
Zwangendaba, no fim de sua vida, no era mais to hbil em manter a unidade
do seu povo. Mas deve-se, do mesmo modo, levar em conta o enorme cresci-
mento demogrfico  uma verdadeira "bola de neve"  que tinha multiplicado a
300                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 10.7 Itinerrio das migraes em direo ao Norte dos nguni de Zwangendaba, dos maseko nguni
e dos msene. [Fonte: extrado de J. D. Omer-Cooper, The Zulu aftermath, 1966, p. 66.]



populao nguni em mais de cem34. Tal exploso apenas tornaria mais difcil o
exerccio de um poder centralizado. De outro lado, pode-se pensar que os nguni
se tornaram to numerosos que o ambiente que lhes oferecia o planalto de Fipa
no mais os comportava no momento da morte de Zwangendaba.

34    A. M. H. Sheriff, 1980, p. 33.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                             301



    Trs dos cinco grupos nguni se dirigiram em direo ao Sul e fundaram
reinos na Zmbia e no Malaui. O quarto grupo, o dos tuta, continuou sua pro-
gresso para o Norte, em territrio nyamwezi; saquearam as vilas e cortaram
a rota comercial rabe entre Tabora e Ujiji. Terminaram por se fixar ao Norte
de Tabora, mas continuaram seus ataques ainda mais ao Norte at as margens
meridionais do lago Vitria. Mirambo foi, dentre inmeros nyamwezi, cap-
turado pelos tuta; ele conseguiu fugir aps ter adquirido a tcnica militar dos
nguni que ele utilizou para formar um exrcito com aqueles que conseguiram
escapar das incurses dos tuta.
    Outro grupo nguni, aquele dos gwangara, partiu do Sudeste do planalto de
Fipa sob o comando de Zulu Gama, se dirigiu para a regio de Songea, a Leste
do Lago Nyasa. L, ele se juntou com um outro grupo nguni, o dos maseko que
tinha se separado dos outros antes que os nguni atingissem o Zambeze e que, do
Malaui, haviam penetrado na Tanznia meridional. Os maseko nguni eram tidos
como mais poderosos que os gwangara; seu chefe, Maputo, foi aceito como chefe
supremo dos dois grupos. Mas esta aliana teve curta durao j que rivalidades
explodiram entre eles, o que degenerou rapidamente em uma verdadeira guerra.
Os gwangara derrotaram os maseko nguni e rechaaram-nos para o Sul, para a
outra margem do Rovuma. Os ndendeule, um grupo absorvido, tentaram recriar
ali um Estado, mas foram vencidos pelos gwangara e se engajaram ento no vale
do Kilombero onde fundaram o reino Mbunga, na dcada de 1860.
    Quanto aos gwangara, eles se dividiram em dois Estados, o de Msope cons-
titudo sob a autoridade de Chipeta e o de Nielu, sob aquela de Mtakano Cha-
bruma. Um ocupou a regio que se estende ao Norte de Songea, enquanto o
outro foi implantado mais ao Sul. A maioria dos autores deu muita importncia
aos ataques perpetrados por estes dois reinos que instigaram o terror, at a che-
gada dos alemes, em toda a regio compreendida entre o lago Nyasa e o litoral.
Mas A. M. H. Sherif mostrou recentemente que esta interpretao poderia ser
falaciosa:
     provvel que se os nguni tivessem continuado a viver de saques "como uma nuvem
    de gafanhotos obrigados a irem cada vez mais longe, pelo fato de destrurem seus
    meios de subsistncia", eles no teriam jamais podido se fixar. Uma vez estabelecidos
    na regio de Songea, foram forados a modificar as estruturas da sua economia e
    realizar uma explorao mais racional dos recursos agrcolas locais. Era-lhes mais
    lucrativo empregar a fora de trabalho dos autctones, enquanto que eles mesmos se
    ocupavam de suas imensas manadas. A agricultura confiada aos vencidos de modo
    permanente, iria necessariamente modificar sua condio social no sentido de uma
302                                                        frica do sculo XIX  dcada de 1880



      assimilao, menos completa, entretanto, do que aquela dos prisioneiros no decorrer
      da migrao comum. Ataques tinham ainda lugar na periferia do Estado nguni, mas
      menos sistematicamente, de modo que as ocasies eram mais raras para os sditos
      fazerem cativos e se elevarem socialmente35.
    A invaso nguni terminou ento no advento de Estados nguni no solo tan-
zaniano. Os dois reinos nguni permaneceram como poderosos Estados at o
perodo colonial. Seu papel na guerra que ops os maji-maji contra os alemes
pertence  epopeia da resistncia s primeiras tentativas de colonizao na Tan-
znia. A segunda consequncia da invaso nguni foi a introduo de tcnicas de
combate adotadas por inmeras comunidades tanzanianas. Acreditou-se por um
momento que era a necessidade de se defender das incurses nguni que levara
povos como os hehe e os sango a se inspirarem na arte militar de seus agressores
e a criar conjuntos polticos centralizados. Mas as pesquisas mais aprofundadas 36
demonstraram que esta suposio estava errada porque o processo de centrali-
zao, no que diz respeito a estes dois povos, havia comeado antes da invaso
nguni. A verdade  que as tcnicas militares nguni reforaram as sociedades
que as adotaram e lhes permitiram enfrentar melhor os acasos daquela poca
conturbada, inclusive aqueles provocados pelo trfico de escravos. Alguns utili-
zaram estas tcnicas no somente para se defender contra as incurses nguni e
dos traficantes de escravos, mas ainda para criar grandes Estados.  o que fez
Mirambo do qual j falamos.  isto que fizeram igualmente os sango e os hehe
na rea meridional.
    Os sango foram os primeiros a assimilar as tcnicas militares nguni. Nas
dcadas de 1860 e 1870, sob a liderana de seu chefe Merere, eles estenderam
seu domnio sobre a maior parte das terras altas meridionais. Mas, a partir de
1875, foram desalojados pelos hehe, os quais tinham aprendido as tcnicas mili-
tares nguni no contato com os sango. Merere deixou a maior parte do territrio
sango para Mwinyigumba, chefe dos hehe. Estes foram capazes de travar guerras
prolongadas contras os nguni gwangara, entre 1878 e 1881, guerras das quais
nem um nem outro saiu vitorioso. Doravante, os hehe, governados pelo filho de
Mwinyigumba, Mkwawa, conservariam sua supremacia. Estes foram os que, na
Tanznia, opuseram aos alemes a resistncia militar mais feroz.
    A Tanznia Meridional conheceu ento numerosos abalos polticos e sociais
na segunda metade do sculo XIX. Alguns foram provocados, no incio, pelo


35    Ibid., p. 34.
36    A. Redmayne, 1968a, p. 426; 1968b.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                       303



surgimento do comrcio de longo curso, e depois exacerbados pela invaso
nguni. A partir de 1880, poca da invaso colonial, esta regio onde, at a
metade do sculo, viviam sobretudo sociedades organizadas unicamente com
base na linhagem, compreendia alguns dos mais poderosos reinos africanos, os
dos nguni, dos hehe e dos sango.


     Os Massai
    Foi dito, no incio deste captulo, que os massai tinham profundamente mar-
cado a histria do Nordeste da frica Oriental na segunda metade do sculo
XIX. No  preciso buscar a razo em um expansionismo que, alis, declinara
desde o fim do sculo XVIII37. Suas tentativas de penetrao na direo sul, nas
primeiras dcadas do sculo XIX, seriam aniquiladas contra o muro de proteo
gogo e hehe38. Na metade do sculo XIX, aqueles dentre os massai que eram
pastores ocupavam as pastagens do Vale do Rift, entre a Tanznia Central e o
Qunia Central, enquanto que outros grupos (Iloikop ou Kwavi), os quais eram
agricultores, ocupavam as regies vizinhas a Leste, entre o Kilimanjaro e as terras
altas do Qunia, a Oeste.
    O que aconteceu ento naquele momento?  preciso pesquisar a explicao
do fenmeno na longa srie de guerras civis que estouraram na metade do sculo.
No se conhecem ainda as causas, mas podem-se mencionar vrios fatores que
contriburam para criar uma situao nova. De acordo com alguns autores, j
que nenhuma ocasio se apresentou permitindo a este povo belicoso estender
sua influncia, eles teriam, "na ausncia de inimigos, voltado a sua agressividade
contra si39." Mas a imagem belicosa dos massai  desmentida pela anlise deta-
lhada de sua sociedade, como se ver aqui.  ento ao se interessar pelas guerras
civis que se podero isolar estes fatores.
    At uma data recente, o que sabamos destas guerras civis vinham do estudo
realizado por A. H. Jacobs entre os massai na primeira metade da dcada de
196040. Segundo seus trabalhos, estas lutas foram em realidade enfrentamentos
entre pastores e agricultores (iloikop). Os dois grupos falavam a mesma lngua,
o massai; mas os iloikop, alm de simples pastores, tambm praticavam a agri-


37   E. A. Alpers, 1974, p. 241.
38   J. Thomson, 1885, p. 414.
39   E. A. Alpers, 1974, p. 241.
40   A. H. Jacobs, 1965.
304                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 10.8 Os massai e seus vizinhos, 1840-1884. [Fonte: extrado de R. Oliver e G. Mathew (org.),
History of East Africa, 1963, vol. I, p. 298].
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                     305



cultura. Aos olhos dos massai que eram somente pastores, os oloikop tinham
decado depois que adotaram este novo modo de vida. Desde a primeira metade
do sculo, os massai pastores formavam um grupo mais estreitamente unido
do que os outros graas ao seu oloiboni, cuja funo ritual tinha alcanado uma
grande importncia. Era uma personalidade importante que se podia consultar
a respeito de tudo. Aparte aquilo, no existia nenhuma organizao poltica
unificada, nem entre os pastores massai tampouco entre os iloikop. De acordo
com as interpretaes de Jacobs, as tradies massai fazem pensar que foi a
modificao da funo ritual que marcou o comeo da discrdia entre os dois
grupos. Antes da ascenso de Subet, o qual parece ter sido o primeiro oloiboni a
ter um papel poltico importante, o conselheiro dos massai pastores em questes
rituais podia ser tambm consultado, em princpio, pelos iloikop. Mas durante
o perodo em que Subet exerceu sua influncia (quase toda a primeira metade
do sculo XVIII e at em 1864, data na qual Mbatian o sucedeu), pensa-se que
os iloikop tiveram seus prprios oloiboni.
    Um estudo posterior de John L. Berntsen41 mostrou que a diviso entre os
massai pastores e os massai agricultores nunca foi permanente. Segundo ele,
fazer da histria dos massai uma mera rivalidade entre pastores e agriculto-
res "leva a instransponveis contradies. Todos os massai eram pastores antes
de uma batalha ou de uma campanha de ataques; a perda de seu rebanho ou
a impossibilidade de acessar suas pastagens no Vale do Rift (grande fenda)
obrigou alguns grupos a recorrerem a outras fontes que a criao de gado para
completar seus meios de subsistncia42." Dito de outra maneira, a sociedade
massai no sculo XIX era muito mais complexa do que o haviam indicado os
trabalhos anteriores, deste modo, alguns grupos reconhecidos como iloikop em
um certo perodo podiam se tornar pastores em um outro, dependendo de sua
capacidade de reconstituir seu rebanho e oferecer-lhes novamente ricas pasta-
gens. Contudo, aps as guerras do sculo XIX, os grupos massai mais numerosos
foram expulsos do Vale do Rift e continuaram sua vida semipastoril durante
o perodo colonial43. Para evitar qualquer confuso, consideramos estas guerras
sob o ngulo das alianas que tinham por objetivo o domnio do rebanho e das
pastagens indispensveis  vida pastoril.
    As causas do conflito, sem dvida, foram diversas. A primeira srie de guer-
ras aconteceu no planalto ocupado pelos uasin gishu, iniciada talvez por um

41   J. L. Berntsen, 1979.
42   Ibid., p. 49.
43   Os arusha so um bom exemplo. Ver P. H. Gulliver, 1963.
306                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



desacordo relativo ao tpico das pastagens. Os pastores massai do Vale do Rift
poderiam ter desejado se apropriarem das pastagens do planalto que eram uti-
lizadas pelos uasin gishu, os quais eram tambm massai. Estes receberam o
apoio de outros grupos de lngua massai vivendo no planalto. Finalmente, os
uasin gishu foram expulsos do planalto e rechaados para outras regies. J se
viu como alguns deles serviram para reforar o reino wanga antes da chegada
dos mercadores da costa.
    A segunda srie de guerras iniciou-se aps a clebre fome de 1836, a qual
afetou numerosas regies da frica Oriental. Parece que muitos dos ataques
eram realizados apenas com o objetivo de reconstituir os rebanhos aniquilados
pela seca. Conflitos explodiram ento em toda a extenso do territrio massai.
No Sul, os massai do Vale do Rift fizeram incurses contra os grupos instala-
dos mais ao Leste, na direo do Pangani. Eles conseguiram expulsar aqueles
de Kabaya, de Shambarai e de Naberera, obrigando-os a passar pelo o Leste
do Pangani, at as plancies do Kilimanjaro e Taveta. Foi nesta mesma poca,
provavelmente, que os arusha se instalaram nas encostas do monte Meru. Ao
Norte, os laikipia foram atacados. Mas o grosso do conflito se desenrolou de
1860 a 1864 entre os purko e os losegalai, os quais viviam numa regio que
se estende do lago Nakuru  vertente abrupta do Mau. Alguns dos losegalai
refugiaram-se em territrio kipsigi e nandi. De acordo com algumas tradies
recolhidas por Jacobs44, foram estes refugiados massai que transmitiram aos
nandi a instituio do oloiboni, denominado entre eles de orkoiyot; aquela seria a
origem de seu poderio no momento em que a de seus vizinhos massai estavam
em declnio.
    O fim desta segunda srie de guerras foi um marco na histria dos massai
que perderam definitivamente o controle quase exclusivo do planalto de Uasin
Gishu; e o anncio do crescimento de outros grupos nilticos, como os nandi e
os kipsigi. Este desaparecimento da presena massai no planalto permitiu ento
aos mercadores do litoral de seguirem as rotas do Qunia que tinham evitado
at ento.
    A ltima srie de conflitos entre massai teve igualmente como palco os
planaltos setentrionais. Mbatian sucedera Subet como chefe ritual, em meados
da dcada de 186045. Numerosas alianas se formaram: primeiramente, a dos
pastores purko e kisongo; depois a dos laikipia e de alguns grupos iloikop, os


44    A. H. Jacobs, 1965.
45    A. H. Jacobs (1965) estima, segundo a cronologia das geraes, que Subet morrera em 1864. Por sua vez,
      D. A. Low (1963, p. 306), baseado em algumas fontes, situa a sucesso de Mbatian em 1866.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                     307



quais haviam sido expulsos das boas pastagens e forados a serem, ao mesmo
tempo, semiagricultores e pastores. Desde 1884, as comunidades pastoris tinham
assumido o controle e os iloikop haviam sido dispersados por todos os lados.
    Esta longa sequncia de guerras teve ento por consequncia a eliminao
dos poderosos grupos massai que evacuaram notadamente os planaltos seten-
trionais. Os sobreviventes se dispersaram para muito longe: do p do Kili-
manjaro a Taveta e s plancies do Pare e do Usambara no vale do Pangani, de
Arusha  parte meridional da estepe massai que se estendia at o litoral. So
eles que a literatura existente sobre os massai designa sob o nome de iloikop ou
kwavi. A maioria daqueles que terminaram seu exlio ao Norte e a Oeste foram
assimilados por outros grupos.
    A vitria dos pastores massai no deve, contudo, criar iluso.  certo que,
aps as guerras que evocamos, seu territrio se encontrou, ele tambm, ampu-
tado. Haviam abandonado as regies localizadas a Leste do Kilimanjaro, assim
como os planaltos de Uasin Gishu e de Laikipia. O Vale do Rift, as plancies e
os altos planaltos permaneceram, no conjunto, sob seu controle, mas com uma
populao muito reduzida. Enfim, outra consequncia funesta de todas estas
guerras, foram as doenas, atacando homens e animais, e que infestaram toda a
regio e solaparam seu poder. Nas vastas regies que tinham percorrido quando
dos seus ataques, os massai haviam entrado em contato com inmeras popula-
es, favorecendo deste modo o contgio e a propagao de novas doenas. Em
1869, por exemplo, o clera, que haviam contrado dos samburu, os dizimou46.
Mas foi em 1880 que se abateu sobre eles a pior peste, quando uma terrvel
epidemia de varola eclodiu no mesmo momento em que seus rebanhos morriam
de pleuropneumonia. No final das contas, foram todas estas epidemias, muito
mais do que as guerras, que derrubaram o clebre poderio massai, de modo
que  poca em que o colonialismo imps sua lei, ele era no mais do que uma
lembrana.


     Presses europeias
   Entre 1845 e 1884, a presso europeia na frica Oriental procurara quatro
objetivos estreitamente ligados: a abolio do comrcio de escravos, a propa-
gao do cristianismo, a explorao geogrfica e a instaurao de um "comr-
cio legtimo". Eles estavam ligados na medida em que demonstravam todos

46   D. A. Low, 1963, p. 308.
308                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



a vontade de expanso do capitalismo europeu, este por sua vez oriundo da
revoluo industrial: novos meios de produo tornaram o trabalho escravo
menos rentvel, e seu comrcio inspirava somente a reprovao. Seu pretenso
esprito humanitrio j tinha levado os pases ocidentais a abolirem o trfico
transatlntico e, nas dcadas de 1840, comearam a preocupar-se em por um
fim ao da frica Oriental. Por outro lado, o movimento evanglico que andava
junto com a corrente humanitria, interessou-se tambm, em meados do sculo
XIX, pela frica Oriental. De fato, a explorao geogrfica, estimulada pela
curiosidade cientfica e o evangelismo, abria perspectivas promissoras  nobre
ambio daqueles que  missionrios ou "comerciantes legtimos"  desejavam
suprimir os horrores do trfico praticado pelos rabes.
    O "comrcio legtimo" era aquele de mercadorias outras que seres humanos.
Viu-se, entretanto, como o marfim tornara-se um dos produtos essenciais do
qual vivia o comrcio internacional na frica Oriental. Depois que Sayyid
Sa`d transferiu sua capital de Om para Zanzibar, as potncias ocidentais da
poca  Gr-Bretanha, Estados Unidos da Amrica e Frana  abriram misses
comerciais em Zanzibar. A quase totalidade do marfim continuava a transi-
tar por Bombaim antes de ser encaminhada para a Europa, pois os indianos
permaneceram como os principais comerciantes na frica Oriental. Todavia,
este comrcio, olhando-o de mais perto, j fazia praticamente parte do sistema
imperialista ocidental dominado pelos britnicos, seja diretamente desde Zan-
zibar, seja por Bombaim47. O volume dos negcios realizados pelas empresas
americanas e alems (Hamburgo), especializadas umas em tecidos de algodo
barato e outras em quinquilharias, era menor do que aquele dos mercadores
indianos48. A estrutura deste mercado permaneceria inalterada at o final do
perodo em questo.
    O governo britnico quis abolir o trfico de escravos. Antes de 1840, os
britnicos tinham tentado  em vo  impedi-lo fora da regio submetida 
autoridade do sulto de Om. O coronel Atkins Hamerton, que, em 1841,
fora nomeado cnsul da Gr-Bretanha em Zanzibar, esforou-se por anos em
alcanar um novo acordo com o sulto de Zanzibar que tinha transferido sua
capital de Om para Zanzibar em 1840. Foi somente em 1845 que foi enfim
assinado o Tratado Hamerton, com o intuito de interditar o trfico fora das
possesses do sulto. Mas mesmo se os britnicos tivessem os meios de fazer
com que o respeitassem, teria tido apenas um efeito muito limitado j que a

47    R. Robinson e J. Gallagher, 1961, p. 51.
48    R. Oliver, 1952, p. 1-2.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                                         309



soberania do sulto se estendia da frica Oriental at a pennsula Arbica. E
como, alm disso, o sulto no desejava que este trfico cessasse, no era nada
fcil impor-lhe as limitaes conveniadas. Sayyd Sa`d morreu em 1856; seu
imprio se dividiu em dois, e a parte leste africana coube a Sayyid Majid. Este
no estava disposto a aceitar a abolio do trfico; ele teve a ideia, para melhor
control-lo, de construir uma nova capital no litoral, denominada "Porto da Paz"
(Dar es Salaam). Ela ainda estava em construo quando ele morreu em 1870. Os
esforos empreendidos para abolir o trfico permaneceram sem efeito at 1873.
Nesta data, os britnicos, depois de terem acentuado suas presses diplomticas
e suas ameaas, conseguiram obter de Sayyid Barghash, sucessor de Majid, um
decreto abolindo o trfico de escravos pelo mar.
    Por que teria sido to difcil obter esta deciso do sulto? A resposta  evi-
dente, considerando-se a expanso da economia de plantation em Zanzibar e
em Pemba. Ela baseava-se no trabalho escravo. Por isso, qualquer restrio a
seu recrutamento s podia frear o crescimento da economia. Sabe-se que esse
tipo de agricultura continuou a estender-se depois do decreto de 187349. Com
o trfico de escravos ainda lcito no litoral, os comerciantes podiam encaminhar
os escravos a grandes distncias ao longo do litoral, entre Kilwa e Mombaa
ou mesmo Malindi, e os fazer passar contrabandeados para Zanzibar e, sobre-
tudo, para Pemba, em pequenos barcos e em travessias noturnas para evitar as
patrulhas britnicas. Apesar da interdio deste comrcio no continente em
1876, nem o sulto nem os britnicos tinham os meios de fazer efetivamente
valer os decretos. As plantaes de cravo-da-ndia nas ilhas, haviam aumentado
a necessidade de vveres do continente, sobretudo de cereais.  deste modo que
se viu aparecer ao longo do litoral, de Pangani a Malindi, lavouras de cereais
cultivadas por escravos. Era, ento, impossvel  poca distinguir entre os escra-
vos destinados a venda e aqueles destinados ao trabalho nestas plantaes50. Para
agravar a situao, este perodo foi testemunho de conflitos internos em muitos
lugares do interior, os quais refletiram no mercado um grande nmero de cativos.
Os traficantes encontravam facilmente o meio de evitar as tropas do sulto e
as patrulhas da marinha britnica. Criou-se, de Pangani a Mombaa, uma srie
de entrepostos clandestinos, de onde pequenos barcos podiam navegar  noite
e chegar a Pemba sem chamar a ateno. , ento, evidente que o trfico de



49   F. Cooper (1977, p. 54) assinala que, em 1877, pouco mais de mil omanianos emigraram de Om para
     Zanzibar.
50   Ibid., p. 126.
310                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



escravos permaneceu uma atividade comercial de primeiro plano durante uma
boa parte do perodo colonial.
    As misses comerciais europeias e as patrulhas navais encarregadas de vigiar
os traficantes de escravos no se aventuravam fora da rea litornea e de Zanzi-
bar. Embora os europeus tivessem sem dvida, por intermdio dos mercadores
rabes, ouvido falar das regies situadas no interior das terras, estas hes permane-
ciam desconhecidas. Mas os acontecimentos, pouco a pouco, atraram a ateno
dos espritos humanitrios e dos evangelizadores sobre a frica Oriental. At
1856, eles interessaram-se, sobretudo, pelo problema do trfico transatlntico.
Mas quando comeou a se saber mais sobre as atrocidades do trfico na frica
Oriental, foi para este lado, cada vez mais, que se voltou o interesse geral dos
europeus.
    As viagens de David Livingstone na frica Central e Oriental haviam con-
tribudo, mais do que qualquer outra coisa, para iniciar o processo. Em 1856,
ele tinha, pela segunda vez, atravessado a frica Central: de Angola ao delta
do Zambeze. Antes dele, a Church Missioinary Society (CMS) tinha enviado
trs missionrios alemes para empreender a evangelizao da frica Oriental.
Johann Ludwig Krapf chegou a Mombaa em 1844, logo seguido por J. Reb-
mann em 1846, depois por J. J. Erhardt em 1849. Eles abriram uma misso em
Rabai, perto de Mombaa. Em 1856, Rebmann tinha atravessado a plancie
Nyika at o Kilimanjaro, foi assim o primeiro europeu a avist-lo. Quanto a
Krapf, ele tinha ido mais longe em direo sul para visitar o reino shambaa de
Kimveri. Na sequncia, ele voltou-se para o Norte at as terras kamba onde foi
o primeiro europeu a ver o monte Qunia. Erhardt e Krapf foram igualmente
para o Sul, at a embocadura do Rovuma; mais tarde, depois de passar algum
tempo em Tanga, Erhardt estava pronto para publicar um mapa da frica
Oriental que continha um grande nmero de informaes sobre o interior do
continente. Ele havia recolhido muito material enquanto ele residiu no litoral,
notadamente sobre os Grandes Lagos que ele representava como um mar inte-
rior. Sua carta seria "a primeira fonte de inspirao de Burton e de Speke quando
de sua expedio em 1858"51.
    Estes primeiros missionrios tinham feito uma obra de pioneiros; o total de
informaes que reuniram revelou-se muito til para aqueles que vieram depois
deles. A opinio pblica, entretanto, permanecia ignorante de todas estas desco-
bertas. Para cativar sua imaginao, foi preciso esperar Livingstone, o qual, em


51    R. Oliver, 1952, p. 7.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                        311



seus escritos e discursos, manchava incansavelmente o trfico praticado pelos
rabes. Penetrado pela ideologia capitalista da poca que exaltava as virtudes
do livre-cmbio, ele defendia o comrcio, capaz, de acordo com ele, de ligar a
imensido do continente africano  Europa crist; o que livraria os africanos da
pobreza e das humilhaes da escravido. Por isso, em suas viagens, ele buscava
antes de tudo os rios navegveis que eram, para retomar sua prpria expresso,
"vias de penetrao para o comrcio e para o cristianismo"52. A publicao em
1857 de Viagens Missionrias e Pesquisas na frica do Sul53 e seus esforos pessoais
acabaram por convencer alguns membros da Igreja Anglicana a fundar a Uni-
versities Mission to Central Africa (UMCA). Esta fez o possvel para por em
prtica as ideias de Livingstone. Seus missionrios esforaram-se em penetrar na
regio do Zambeze; mas apenas constataram que as embocaduras deste rio e do
Rovuma no eram navegveis. Depois disso, a misso se instalou em Zanzibar
para se consagrar aos escravos libertos.
    O problema destes ltimos suscitava o interesse de todas as sociedades mis-
sionrias da frica Oriental. Entre 1858 e 1873, a CMS, a UMCA e os padres
do Esprito Santo ocuparam-se dos ex-cativos. A CMS continuou a trabalhar
em Rabai, perto de Mombaa, onde escravos libertos tinham sido enviados de
Bombaim para ajudar Rebmann. A UMCA se fixou em Zanzibar, enquanto os
padres do Esprito Santo obravam em Bagamoyo. Nenhuma destas sociedades
havia atingido o objetivo definido por Livingstone: abrir o interior do continente
ao comrcio e ao cristianismo. Todavia, o trabalho estava iniciado. Enquanto as
misses se implantavam primeiro no litoral, outros europeus, inspirando-se nas
experincias dos missionrios, empreendiam a explorao das regies interio-
res da frica Oriental. Em 1858, Burton e Speke partiram em busca do "mar
de Unyamwezi"54, assinalado por Erhardt. Eles atingiram o Lago Tanganica e
Speke tambm fez o reconhecimento da margem meridional do Lago Vitria.
Em 1862, Speke partiu novamente, em companhia de Grant, para explorar
o Lago Vitria e localizou a nascente do Nilo. Ao descer o Nilo Branco, eles
encontraram Samuel Baker que subia o rio desde o mar. Mais tarde, o prprio
Livingstone entraria, mais uma vez, no corao da frica e faria novas des-
cobertas. Estas exploraes suscitaram um renovar da paixo missionria. A
constatao da existncia dos Grandes Lagos relanou imediatamente o projeto
de Livingstone. Todas as sociedades missionrias britnicas que funcionavam na

52   Ibid., p. 27.
53   D. Livingstone, 1857.
54   R. Oliver, 1952, p. 27.
312                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



frica Oriental desejavam que barcos a vapor circulassem por estas vias naveg-
veis do interior. Ao revelarem a extenso e a natureza do trfico praticado pelos
rabes, estas exploraes tinham excitado os nimos. Percebia-se que o interior
do continente no era to inacessvel como Krapf o pensara em relao ao
Qunia, ou como os missionrios da UMCA tinham acreditado ao explorarem
o Baixo Shire. No havia mais dvidas quanto  existncia de rotas por onde as
caravanas se enfronhavam por todo o interior e por onde no retorno traziam os
escravos at o litoral. Mas mais marcante ainda foi a revelao do quanto este
comrcio afetava a vida dos africanos.
    Depois da morte de Livingstone, as sociedades missionrias britnicas redo-
braram o zelo. Livingstone teve direito a um funeral nacional na abadia de
Westminster; esta cerimnia pblica teve um grande impacto: ela inspirou os
pregadores e despertou a paixo do grande pblico pela obra missionria. A
Scottish Free Church enviou, por sua vez, misses  frica Central. A primeira,
em 1875, penetrou nas regies do Zambeze e do Shire e se estabeleceu em
Blantyre, no Lago Nyasa. As outras sociedades missionrias, as quais tinham j
comeado as obras no litoral, rapidamente se expandiram. Em 1875, a UMCA
estabeleceu uma base em Magila, no interior do continente  em uma regio
que fazia parte do reino shambaa de Kimweri  , e no ano seguinte em Masasi,
na Tanznia Meridional. Ao mesmo tempo, H. M. Stanley, jornalista anglo-
-americano, aventureiro e explorador, o qual tinha j feito uma primeira viagem
para se encontrar com Livingstone, empreendeu uma segunda viagem para levar
a explorao ainda mais longe. Em 1875, o Daily Telegraph publicou uma carta
sua na qual ele sinalizava o Buganda  ateno das sociedades missionrias.
Vrios fiis ofereceram imediatamente os recursos necessrios para o finan-
ciamento de novas misses. Em consequncia, a CMS estendeu sua influncia
alm de Freretown, em Rabai, perto de Mombaa e estabeleceu uma nova
misso em Mpwapwa, no centro da Tanznia em 1876. De l, ela pde chegar
no ano seguinte  capital de Mutesa. A London Missionary Society,  qual tinha
pertencido Livingstone, decidiu rapidamente seguir os passos deste ltimo e,
encorajada por uma proposta efetiva de financiamento, resolveu ir at o lago
Tanganica,  margem do qual Livingstone passou os ltimos anos de sua vida. A
partir de 1877, estabeleceram-se vrias misses nos arredores do lago Tanganica:
em Ujiji, em Urambo, na ilha de Kavala e em Mtowa. Infelizmente, tiveram logo
que cessar toda a atividade: os missionrios tinham problemas para suportar o
clima, e os interesses polticos alemes opunham-se s suas atividades. A London
Missionary Society restabeleceu-se finalmente na Rodsia, dentro da esfera de
influncia britnica.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                      313



    Diferentemente dos protestantes, os missionrios catlicos receberam seu
incentivo, na mesma poca, da viso e da energia de um nico homem, Mon-
senhor Lavigerie, nomeado Arcebispo de Argel em 1867. Um ano depois, ele
fundou a sociedade dos Missionrios de Nossa Senhora da frica, conhecida
mais tarde sob o nome de Padres Brancos. Esta sociedade, segundo ele, deveria
ser na frica Central o pendo religioso da Associao Internacional Africana,
no interior dos mesmos limites geogrficos, entre o paralelo 10 de latitude
norte e o paralelo 20 de latitude sul, e estabelecer suas bases na proximidade
daquelas da organizao laica, a fim que as duas pudessem mutuamente prestar
assistncia55. O primeiro estabelecimento dos Missionrios de Nossa Senhora
da frica na frica Oriental foi aberto em Tabora, em 1878. Os padres do
Esprito Santo, os quais os tinham precedido em dez anos ao se instalarem em
Bagamoyo, esforavam-se, sobretudo, em criar colnias de escravos libertos,
muito mais do que multiplicar o nmero de suas misses. No momento ento
que os Padres Brancos se espalharam pelo interior, os padres do Esprito Santo
no tinham ultrapassado Morogoro, onde eles haviam criado uma misso "em
Mhond, a uma centena de milhas em direo ao interior"56.
    A partir de Tabora, alguns padres Brancos se dirigiram para o Norte para
criar uma misso em Bukumbi, na margem sul do lago Vitria, e de l, logo
ganharam o Buganda. Quando de sua chegada  corte do rei Mutesa, eles cons-
tataram que Alexander M. Mackay, missionrio da CMS os tinha precedido em
vrios meses, que os muulmanos "estavam estabelecidos no pas h vrios anos
e que um certo nmero de chefes tinham abraado o isl"57. Este encontro mar-
cou o incio das rivalidades religiosas entre, de um lado, muulmanos e cristos,
e de outro, protestantes e catlicos. Mutesa soube arbitrar estes antagonismos
jogando um grupo contra o outro, mas aps sua morte, em 1884, eles influen-
ciariam profundamente a vida da corte.
    Outro grupo de Padres Brancos, ainda a partir de Tabora, se dirigiu para o
Oeste e abriu uma misso em Ujiji, em 1879, de onde ganhou Romonge, no
Burundi, a 120 quilmetros, mais ou menos, ao Sul da atual Bujumbura; mas
a misso foi abandonada em 1881 depois do massacre de trs missionrios.
"Os Padres Brancos no puderam retornar  misso durante quase cinquenta
anos"58. Em 1885, abriram duas outras, prximas daquelas que haviam sido

55   Ibid., p. 46-47.
56   J. M. Gray, 1963, p. 244.
57   G. D. Kittler, 1961, p. 161.
58   Ibid., p. 157.
314                                                        frica do sculo XIX  dcada de 1880



fundadas pela Associao Internacional Africana depois da deciso tomada pelo
rei belga, Leopoldo II, de se ocupar, prioritariamente, do Estado independente
do Congo.
    At 1884, a influncia europeia na frica Oriental exerceu-se primeiro e
antes de tudo pela interveno das sociedades missionrias. O comrcio, mesmo
nas regies onde se encontrava organizado, aparecia apenas como um prolonga-
mento da obra missionria. Dois exemplos o mostram bem: aquele, em primeiro
lugar, da Livingstonia Central African Trading Company. Esta companhia, a
qual trabalhava em conexo com as misses escocesas da regio do lago Nyasa,
parecia ter por funo essencial abastecer aquela de Blantyre pela vias nave-
gveis onde cruzavam seus barcos a vapor e, no retorno, transportar o marfim
que vendia a preos muito inferiores aos praticados pelos comerciantes rabes
que utilizavam a mo de obra servil. O segundo exemplo nos  fornecido pela
Scottish Free Church. Um dos seus membros, William Mackinnon, proprietrio
da British India Steam Navigation Company, tinha inaugurado, em 1872, uma
linha martima passando por Zanzibar. Alguns anos mais tarde, ele obteve do
sulto de Zanzibar a autorizao de construir rotas que ligariam o litoral ao Lago
Nyasa e ao Lago Vitria. Embora este projeto nunca tenha sido realizado, ele
foi o germe do qual nasceria, quando da diviso da frica, a mais imperialista
de todas as organizaes, a British East Africa Company.
    Durante o perodo estudado aqui, os missionrios faziam ainda obras de
pioneiros. Na aparncia, o trabalho deles parecia ter tido poucos efeitos sobre as
sociedades africanas, mas, olhando mais de perto, percebe-se que sua influncia
foi considervel. As sociedades missionrias implantadas na frica Oriental
eram ento mais poderosas, j que no estavam sujeitas aos obstculos impostos
mais tarde pelos governos coloniais. Como diz Roland Oliver:
      As misses tornaram-se uma potncia na regio e no somente de ordem espiritual.
      No Buganda como em Zanzibar, as autoridades polticas locais eram suficiente-
      mente eficientes para estender sua tutela sobre os estrangeiros. Alhures, mesmo os
      missionrios que partiam com apenas algumas dzias de carregadores e buscavam se
      instalar em uma vila indgena iriam instituir o que, de fato, era um pequeno Estado
      independente59.
    As primeiras misses eram tambm modeladas pelo esforo que faziam para
criar colnias de escravos libertos. Que estas colnias fossem no litoral (como
em Freretown ou em Bugamoyo) ou no interior (como em Masasi, Blantyre,

59    R. Oliver, 1952, p. 50.
O litoral e o interior da frica Oriental de 1845 a 1880                      315



Mpwapwa, Tabora ou Ujiji), elas buscavam se estabelecer, sobretudo, perto das
rotas das caravanas de escravos e em tornar os cativos libertos o ncleo das col-
nias missionrias, em conformidade com a sua inteno de combater o trfico
de escravos praticado pelos rabes. De fato, estas misses se se transformaram
em Estados teocrticos e atraram at mesmo os exilados polticos, escravos
fugitivos e aqueles que no tinham encontrado lugar nas sociedades onde elas
estavam implantadas60. , deste modo, que enfraqueceram ainda mais as socie-
dades j submetidas s presses econmicas da poca e reduziram, portanto,
sua capacidade de se opor  instaurao do regime colonial. De uma maneira
mais geral, pode-se dizer que as sociedades missionrias foram igualmente as
pioneiras deste regime. A maioria dos trezentos europeus instalados no conti-
nente antes de 1884 tinha, pelas suas atividades, relao com os missionrios61.
Mesmo quando as misses europeias estavam sob a autoridade efetiva de um
chefe local, sua simples existncia, sem falar em sua influncia cultural, abria o
caminho para as pretenses coloniais do perodo da partilha da frica.
   Nesta poca, a frica Oriental fazia parte, como j foi dito, de um vasto
imprio britnico que ainda no tinha este nome. Ora, perto do final do perodo
estudado aqui, o acesso da Alemanha ao posto de grande potncia ocidental no
fez mais do que exasperar as rivalidades existentes. Estas se traduziam, fora da
frica Oriental, em diversas tenses. Quando Leopoldo II, em 1876, reuniu em
Bruxelas uma conferncia internacional "para discutir as modalidades de uma
interveno pacfica e orquestrada com o objetivo de desenvolver o comrcio
legtimo e de suprimir o de escravos"62, as rivalidades j apareciam. Finalmente,
a conferncia internacional s conseguiu formar subcomisses nacionais enciu-
madas umas das outras. Leopoldo II se adiantou, ento, e criou seu prprio
imprio no Congo. A operao mais importante foi, em 1882, a ocupao do
Egito pelos britnicos. Para justific-la, alegaram a posio estratgica do Egito
(com o canal de Suez e o Nilo) para a defesa dos seus interesses na ndia e, em
grau menor, na frica Oriental. Mas a reao internacional no se fez esperar.
Ela desencadeou uma srie de acontecimentos e, primeiramente, a anexao
pela Alemanha de vrios territrios: o Sudoeste africano em abril de 1884 e
o Camares em julho do mesmo ano. Na frica Ocidental, a Alemanha e a
Frana esboaram uma aproximao para se oporem aos objetivos britnicos no
Niger. O imperialismo espalhava-se por todos os lados. Quando Bismarck, em

60   Ibid., p. 50.
61   Ibid., p. 49.
62   J. E. Flint, 1963, p. 362.
316                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



novembro de 1884, organizou a Conferncia de Berlim, o desmembramento da
frica j havia comeado. Na frica Oriental, Carl Peters havia desembarcado
em Zanzibar em nome de sua Gesellschaft fr Deutsche Kolonisation (Sociedade
de colonizao alem) e tinha entrado no corao do interior para negociar
tratados. Os britnicos nutriam ainda a esperana de que, ao consolidar a auto-
ridade de Sayyid Barghash sobre o continente, eles poderiam salvaguardar seus
interesses sem precisar recorrer  colonizao.
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                            317



                                      CAPTULO 11


               Povos e Estados da regio dos
                      Grandes Lagos
                                         David W. Cohen




    Na primeira metade do sculo XVIII, o kabaka Mawanda, rei do Buganda,
tentou estender seu poder s ricas regies situadas a Leste da zona central de
seu reino. Empreendeu uma grande campanha militar e imediatamente obteve
algum sucesso, colocando a seguir um de seus generais  frente da regio de
Kyaggwe para submet-la ao governo de seu reino. Contudo, o governador de
Kyaggwe encontrou alguns focos de resistncia. Durante o mandato de seus
sucessores, diversas reas caram sob a influncia do Bunyoro, Estado vizinho
situado a Noroeste do Buganda, cujo acesso  imensa floresta do Mabira, em
Kyaggwe, foi assim cortado. No final do sculo XVIII, o territrio do Mabira,
situado a menos de 45 quilmetros a Leste do centro da regio ganda, tornara-se
foco de concentrao das foras de oposio aos monarcas do Buganda, lugar
de exlio e refgio. Para muitos sditos do reino e estrangeiros, os meandros
obscuros do Mabira constituam a promessa de uma inverso da situao.
    No final do sculo XVIII, Kakungulu fugiu dos domnios de seu pai, o rei
ganda Semakokiro, sobrinho-bisneto de Mawanda. Tendo conseguido refgio e
apoio no Mabira, Kakungulu criou, com ajuda de seus partidrios, toda uma rede
de alianas com diversos Estados fronteirios do Buganda; a seguir, lanou uma
srie de ataques para conquistar o trono de seu pai. Kakungulu nunca conseguiu
apoderar-se do trono, mas suas atividades contriburam para o aumento da
agitao em torno dos mais antigos territrios governados pelo Buganda; insti-
318                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



garam os chefes ganda a tomar medidas punitivas e a reunir sob sua autoridade
as reas de oposio do Leste e do Oeste; suas atividades talvez tenham, ainda,
exacerbado a violncia das relaes entre o Buganda e os Estados vizinhos.
    Kakungulu no foi o primeiro a tentar transformar um grupo de refugia-
dos no Mabira em fora insurgente. De fato, ao recorrer ao Mabira, s estava
repetindo uma pgina do livro de tticas de seu prprio pai, Semakokiro. Cerca
de trinta ou quarenta anos antes, Semakokiro tentara recuperar sua posio
no Mabira, onde soubera obter um poderoso apoio. Seu exlio durara muito
tempo.
    Com o distanciamento proporcionado pelo tempo, esse lugar do Mabira onde
Semakokiro organizou seu exlio nos parece ter sido um Estado em gestao. O
processo de formao de um Estado baseado no Mabira foi interrompido pela
prpria eficcia com que Semakokiro granjeou apoio para seu projeto; acabou
destituindo do poder seu irmo Junju e assim se tornou kabaka do povo ganda.
A poca mais antiga desse exlio de Kakungulu no Mabira e, antes dele, a de
seu pai Semakokiro, fazem-nos pensar na comunidade forte, estvel e muito
numerosa que se organizou em torno do general e administrador ganda Semei
Kakungulu em seu "exlio" em Uganda Oriental, no incio do sculo XX1; ali
encontramos esse carter ao mesmo tempo tenso e complexo das relaes entre
os dirigentes e seus subordinados que caracterizava a vida poltica do reino de
Buganda no final do sculo XIX, incio do XX.
    A histria de Kakungulu e de Semakokiro no Mabira, s vsperas do sculo
XIX, desperta no historiador vrias imagens da vida extraordinariamente rica
e complexa da regio dos Grandes Lagos dessa poca. A primeira  a de um
Estado da regio dos Lagos que, ainda em gestao, anexa terras e populaes
novas que coloca sob seu domnio e surge como um conjunto de instituies
relativamente jovens. A segunda imagem mostra uma regio em plena eferves-
cncia que vive com dificuldade a passagem do sculo XVIII para o XIX. Os
soberanos enfrentavam uma oposio aguerrida tanto de dentro como de fora
de seus reinos. Seus reinados podiam ser breves; eles tinham muito pouco tempo
para estabelecer alianas e administraes eficazes, ao passo que seus irmos
ou filhos atiavam a rebelio. A terceira imagem da regio  a de feudos ou
reinos que no constituam entidades sociais e polticas fechadas. As fronteiras
polticas eram muito permeveis. A vida dos soberanos e a qualidade de vida
dos cortesos e dos sditos dependiam da natureza das relaes entre Estados.


1     M. Twaddle, 1966, p.25-38.
                                                                 Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos
                                                                 319
Figura 11.1   A regio dos Grandes Lagos (segundo D. W. Cohen)
320                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



A quarta imagem, por fim,  a da vida social e poltica pouco conhecida e mal
compreendida, distante das cortes e das capitais da regio; ela nos d uma ideia
do papel do Estado da regio dos Grandes Lagos na vida das populaes, na
vida privada e na produo, no comrcio e nas trocas, no pensamento e na vida
religiosa.
    Hoje, como no sculo passado, essa regio da frica Oriental e Central hoje
 ao mesmo tempo bem irrigada e densamente povoada. Estende-se da bacia
do Kyoga (centro e norte de Uganda), das encostas do monte Elgon e do golfo
de Winam, no Qunia Ocidental, aos planaltos orientais da bacia do Zaire e
s margens do lago Tanganyika. A regio dos Grandes Lagos  uma regio
histrica e cultural (bem como o ponto de convergncia de duas grandes bacias
hidrogrficas) definida por uma famlia lingustica que se reflete nas formas
culturais e, em particular, nos grandes arranjos comuns da organizao poltica
anterior  poca colonial. O Estado da regio dos Grandes Lagos tinha uma
cultura poltica, princpios estruturais e uma ideologia autoritria, determinadas
caractersticas regionais, notadamente modelos sociais com "castas", classes e
diversos arranjos pluritnicos.


      A ordem poltica
   No incio do sculo XIX, e, depois, sete ou oito dcadas mais tarde, quando
a presso dos europeus comeou a afetar diretamente o destino das pessoas e
dos Estados, a regio dos Grandes Lagos era um conglomerado de Estados
com territrios e poder muito diversificados por trs de aparncias bastante
semelhantes. Os reinos da regio dos Grandes Lagos apresentavam-se como
domnios organizados em torno de um monarca cuja autoridade provinha de
seus laos de parentesco com uma dinastia, e que se rodeava de uma corte e
de conselheiros; a organizao em si baseava-se em uma rede hierrquica de
funcionrios, artesos e senhores.
   Tradicionalmente centrados nos acontecimentos e funes polticas oficiais2,
os estudos sobre a regio destacaram os atos de insurreio de Semakokiro e
Kakungulu, bem como dos milhares de seguidores que compartilhavam suas
vidas de exilados e rebeldes. A histria de ambos e de seu exlio evidencia a
existncia de foras latentes de oposio  autoridade estabelecida e s capitais


2     Os antroplogos e historiadores interessaram-se, sobretudo, pela histria poltica dos reinos da regio;
      infelizmente, h poucos trabalhos sobre a histria econmica anterior  poca colonial.
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                   321



da regio, e permite que abandonemos os conceitos excessivamente rgidos da
rea poltica. Ao comear o sculo XIX, bem como antes e depois desse perodo,
o Estado dos Grandes Lagos no era simplesmente a soma de um rei, uma
corte e um pas, nem a combinao de uma cultura poltica com uma ordem
administrativa e uma organizao estrutural. A histria de Semakokiro e de
Kakungulu  portadora de uma mensagem: o domnio do Estado se define de
maneira essencial pelo conflito interno e externo.
    A ordem poltica da regio dos Grandes Lagos evoluiu consideravelmente
durante o sculo XIX com o surgimento de duas tendncias principais. A pri-
meira foi o fortalecimento da coeso e do poder de determinados Estados por
meio do aumento da mo de obra e do comrcio, do desenvolvimento de insti-
tuies burocrticas, da eliminao dos fatores de diviso e, por fim, do controle
e do domnio das influncias e das foras novas que penetravam na regio.
    A segunda tendncia foi a ascenso decisiva de trs ou quatro Estados
Buganda, Ruanda, Burundi e, por fim, o Bunyoro, que vivia o seu renascimento 
em detrimento de outros Estados. Essas duas tendncias estavam estreitamente
ligadas. No sculo XIX, a prosperidade desses quatro grandes reinos baseava-se
na reorganizao da administrao no sentido de uma maior centralizao: o fim
das velhas querelas intestinas por meio da eliminao da oposio e a organiza-
o de campanhas de arrecadao de tributos e de expanso, que solaparam os
conflitos internos; a ampliao do reino por meio da conquista de novas regies;
a apropriao e incorporao de determinados setores da produo e do comr-
cio da regio, e a integrao das foras e elementos novos que ali penetravam.
    A mudana geral que o sculo XIX trouxe a esses grandes reinos  ilustrada
notadamente pela durao do reinado dos soberanos do Buganda, de Ruanda,
de Burundi e do Bunyoro. No Buganda, Kamanya reinou durante 30 a 35 anos
a partir do incio do sculo, e seus sucessores, Suna e depois Mutesa, durante
20 e 28 anos respectivamente. Como comparao, recordemos que onze kabaka
ocuparam o trono do Buganda no sculo XVIII, e muitos deles foram assassi-
nados ou derrubados. A "era dos prncipes" do sculo XVIII foi sucedida pela
dos "longos reinos": Kamanya, Suna e Mutesa tiveram tempo de implantar um
embrio de controle, de sufocar a oposio dos prncipes e das faces, e de
comear a desenvolver os recursos do Estado.
    Assiste-se  mesma evoluo em Ruanda, onde uma "era de longos reinos"
sucedeu-se aos reinos curtos da era anterior. Mwami Yuhi Gahindiro tomou o
poder na ltima dcada do sculo XVIII e reinou durante mais de trinta anos.
Seu sucessor, Mutara Rwogera, exerceu o poder durante cerca de trinta anos; a
322                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 11.2 O Buganda em 1875: a capital do kabaka. [Fonte: H. M. Stanley, Through the dark continent,
1878. vol. I, Sampson, Low, Marston, Low and Searle, Londres. Ilustrao reproduzida com a autorizao do
Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]




Figura 11.3 O kabaka Mutesa, rodeado de chefes e dignitrios. [Fonte: H. M. Stanley, Through the dark
continent, 1878. vol. I, Sampson, Low, Marston, Low and Searle, Londres. Ilustrao reproduzida com a
autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                   323



seguir, Kigeri Rwabugiri permaneceu no trono durante quase quarenta anos at
sua morte em 1895.
    O Burundi s teve dois soberanos no sculo XIX: Ntare II Rugamba, que
teria ascendido ao trono no final do sculo XVIII, e Mwezi II Gisabo, que rei-
nou de meados do sculo XIX at sua morte em 1908. Acredita-se que quatro
soberanos sucederam-se no trono de Burundi durante o sculo XVIII. No caso
do Bunyoro, a longevidade dos monarcas  menos evidente no sculo XIX,
embora Mukama Kabarega, que exerceu o poder de 1870 at sua destituio
pelo Imprio Britnico em 1899, tenha encarnado a retomada do poder e da
influncia regional do Bunyoro durante a segunda metade do sculo.
    No se deve ignorar o efeito circular que os longos reinos do sculo XIX
podem ter surtido. O tempo permitiu que soberanos, cortesos e sua clientela
assentassem o poder sobre bases mais firmes e durveis, e implantassem admi-
nistraes mais confiveis. Com o tempo, soberanos e administraes conse-
guiram sistematizar a alocao de recompensas, remuneraes e empregos, e
demonstrar ao povo que, para seu futuro e sua segurana, era melhor trabalhar
com o regime do que contra ele  o que, em compensao, deu aos soberanos, aos
cortesos e aos grandes homens do sculo XIX mais tempo e meios para conso-
lidar seu poder e sua gesto. As coligaes e as rotinas tinham mais chances de
perpetuar-se de um reinado a outro, enquanto os soberanos permaneciam mais
tempo no trono. No Estado dos Grandes Lagos, a legitimidade e a autoridade
no repousavam apenas em um ritual de acesso: eram adquiridas com o tempo
graas  construo progressiva de redes de relaes sociais. A participao no
Estado envolvia o jogo das instituies do casamento, dos servios e da clien-
tela; a explorao de novas terras; a implantao de novos circuitos de troca e o
melhor abastecimento das capitais. Todos esses elementos exigiam tempo para
serem desenvolvidos.
    Durante a maior parte do sculo XIX, o Buganda, o Ruanda, o Burundi e o
Bunyoro foram os Estados mais expansionistas da regio, e foi essencialmente
a evoluo que experimentaram durante esse perodo que determinou sua con-
figurao no sculo XX. No entanto, na regio, no sentido mais amplo, existiam
mais de duzentos outros feudos, quase todos dotados de instituies polticas
anlogas  dos grandes reinos. Alguns desses pequenos Estados transformaram-
-se politicamente no sculo XIX, aumentando o seu poder em sua esfera de
influncia imediata. Outros perderam o controle das foras centrfugas em ao
dentro de suas fronteiras e tornaram-se dependentes de centros distantes. As
capitais e as cortes dos grandes reinos comearam a atrair os dissidentes e insur-
gentes dos Estados vizinhos, aventureiros em busca da ajuda de seus anfitries
324                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



poderosos para derrubar o poder em seu pas. Repetidas centenas de vezes, essas
iniciativas contriburam para o enfraquecimento dos pequenos Estados e para
a expanso dos maiores.
    A partir de 1850, a distino entre grandes e pequenos Estados se  afirmou
 medida que os primeiros monopolizaram os novos recursos vindos de fora
mercadorias, sobretudo armas de fogo, comerciantes e aventureiros europeus,
rabes e sualis, missionrios cristos e muulmanos. Os pequenos reinos da
regio dos Grandes Lagos acabaram parecendo-se cada vez mais com "jardins"
cultivados por servos ou escravos para pagar o tributo cobrado pelos grandes
reinos, ou simplesmente com campos de manobras para as diferentes foras de
dentro ou de fora da regio.


      Produo e extrao
    Essa ltima observao nos afasta de um terreno que seja apenas poltico.
V-se que, no sculo XIX, a principal preocupao do Estado era ao mesmo
tempo a produo e as trocas, qualquer fosse o palco desse processo de acumu-
lao, no contexto do antigo feudo ou alm das fronteiras administrativas reais
do Estado. O controle da produo e do comrcio era o centro das preocupaes
de Estados como Ruanda, Buganda, Burundi e Bunyoro  medida que estes
ampliavam seu territrio e estendiam sua esfera de influncia.
    J nos referimos ao programa de expanso de Mawanda no Kyaggwe. Esse
projeto, elaborado no sculo XVIII, visava s regies de produo que escapavam
ao controle do reino do Buganda. O Kyaggwe possua fibra de casca de rvore,
minrio de ferro e artesos capazes de trabalhar o ferro, alm de ter acesso s
terras frteis das ilhas do Norte do Lago Vitria. As Ilhas Buvuma, na costa
do Kyaggwe, eram bastante ligadas s redes comerciais estabelecidas a Leste do
Lago Vitria. A conjuno de foras de produo, materiais, tcnicas e mo de
obra, assim como o acesso aos circuitos comerciais regionais ou seu domnio,
eram as principais preocupaes dos Estados da regio dos Grandes Lagos na
poca pr-colonial.
    As taxas arrecadadas nas regies sob administrao regular e fora dos reinos
enriqueciam as cortes e os regimes no poder. No sculo XIX, a percepo de
tributos e a resistncia contra as taxas cobradas pelo Estado criaram, entre as
zonas de produo e as regies de consumo, um tecido de relaes conflituosas
que se superpunha (s vezes desfigurando-as) s redes comerciais que cobriam a
totalidade da regio na poca pr-colonial. No sculo XIX, o jogo das cobranas
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                                              325



efetuadas pelo Estado e da resistncia dos produtores e zonas de produo 
prtica coercitiva do tributo de Estado  particularmente evidente no mbito
da produo de alimentos, das trocas de gneros alimentcios e de seu con-
sumo. Nessa regio, merecidamente famosa pela abundncia de seus produtos,
, paradoxalmente, o controle do aprovisionamento em gneros alimentcios
que se torna o escolho das relaes entre Estados, e das relaes entre o Estado
e os produtores3.
    Nos reinos sob administrao regular do Estado, tanto a produo espe-
cializada como a no especializada forneciam gneros alimentcios, bem como
uma grande quantidade de outros produtos, s capitais e cortes. A arrecadao
parece ter sido ora regular, ora irregular, conforme a poca. O recebimento de
mercadorias devia acontecer a cada estao; no entanto, em alguns casos espec-
ficos  por ocasio, por exemplo, de campanhas militares, de cerimnias e festas
do rei, ou ainda em caso de fome , coletavam-se mercadorias de forma especial
para redistribu-las por intermdio das cortes e das capitais.
    No Buganda, parece ter sido criada uma espcie de fazenda do Estado geren-
ciada por funcionrios nomeados que tinham de garantir o abastecimento das
cortes de determinados chefes e do palcio do kabaka4. Em Ruanda, Nkore,
Karagwe e Burundi, os rebanhos reais, que faziam parte das riquezas do Estado,
forneciam carne, gorduras, leite e manteiga destinados s festas de senhores e
funcionrios, suas clientelas e famlias. Nesse caso, tratava-se de uma "produo
gerenciada", isto , organizada e regulada pelo Estado. As fazendas de Estado
eram capazes de produzir quantidades considerveis de alimentos e bebidas
em prazos bastante reduzidos, o que faz supor que os nveis de produo eram
elevados  assim podiam dar conta de altas demandas momentneas  e que
os organismos de abastecimento eram necessariamente dimensionados com
capacidade ociosa5.
    Longe de limitar-se a esses setores especializados na produo de alimen-
tos, os sistemas de arrecadao estendiam-se a outras reas de atividades e 
"percepo de tributos". Seria interessante considerar as atividades econmicas


3    Esse fenmeno  detalhadamente examinado no estudo de D. W. Cohen, 1983. Os dados includos
     no presente captulo foram tirados desse estudo, apresentado em junho de 1981 em uma conferncia
     organizada em Naivasha (Qunia) pela Universidade das Naes Unidas.
4    Esperamos para breve a publicao de um estudo sobre este assunto; apresenta o modo de abastecimento
     em suas linhas gerais aps o exame de vrias fontes.
5    J. Tosh (1980, p. 9) chamou a ateno sobre a produo de excedentes alimentares na frica pr-colonial,
     refutando a tese segundo a qual os excedentes que serviam para alimentar os artesos especializados, os
     caadores, as caravanas de comerciantes e as cortes eram excedentes normais da produo de subsistncia.
326                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 11.4 A casa do Tesouro e os ornamentos reais do rumanyika, rei do Karagwe. [Fonte: H. M. Stanley,
Through the dark continent, 1878. vol. I, Sampson, Low, Marston, Low and Searle, Londres. Ilustrao repro-
duzida com autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



do Estado como um continuum: de fato, a passagem progressiva da cobrana
ocasional dos impostos a um sistema mais regular de arrecadao muitas vezes
anunciava o incio de um processo de integrao das reas fronteirias e de
zonas de produo totalmente novas aos Estados da regio dos Grandes Lagos.
Nesse continuum, h exemplos de taxaes efetuadas no Busoga Central por
agentes do Buganda6. Sem dvida, essas prticas no faziam parte de um pro-
grama regularmente gerenciado; contudo, eram suficientemente correntes e
bem organizadas para no precisarem da interveno de foras armadas e para
produzirem volumes considerveis de gneros alimentcios preparados  o que
nos permite supor que havia uma notificao prvia, seguida de um trabalho de
preparao. O Busoga Central taxava essencialmente a banana seca (em idioma
lugosa: mutere), transportada sob forma de farinha ou de bolachas secas ao sol.
Essa prtica de arrecadao regular de impostos em uma determinada rea teria
obrigado as zonas taxadas a produzirem em propores muitssimo superiores s
necessidades do consumo local. Esses "excedentes estratgicos" teriam dado aos


6     O tributo cobrado pelo Buganda  estudado em S. N. Kiwanuka, 1972, p. 139-153; J. Kasirye, 1959; F.
      P. B. Nayenga, 1976; D. W. Cohen, 1977.
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                                               327



primeiros viajantes europeus a impresso de que havia abundncia ilimitada na
regio e autossuficincia dos pequenos produtores, bem como a impresso, mais
conhecida, de pompa das cortes7. Mas esses observadores no teriam percebido
a estrutura do "excedente estratgico": quem arcava com os verdadeiros custos
de produo de todos os bens e servios "recprocos" que o Estado arrecadador
de tributos oferecia s reas taxadas eram os contribuintes. Alm disso, esses
"excedentes estratgicos" no constituam uma garantia de segurana para os
produtores, pois, no sculo XIX, o Estado-arrecadador da regio dos Grandes
Lagos tinha condies de mandar apreender os produtos se, por alguma razo,
os produtores no os entregassem.
    Outro exemplo: o da coleta do sal fino proveniente das fontes salinas do Lago
George para as cortes dos reinos do Bunyoro e do Toro8, que, mesmo distantes,
no deixavam de exercer um controle vigilante (e s vezes protetor). Sempre
nesse continuum,  preciso apontar a cobrana de tributos irregulares e inespe-
rados em regies mais longnquas9. Pode-se supor que esses tributos incluam
menos alimentos preparados, como o mutere ou outros alimentos e bebidas que
exigiam muito trabalho de colheita e preparao. Nas regies remotas, essas
arrecadaes eram realizadas como operaes militares. Bandos armados, ou
mesmo verdadeiras expedies, esquadrinhavam uma rea, recolhiam tudo que
pudesse ser taxado, principalmente gado e homens, mas tambm as reservas de
objetos de ferro e tecidos de fibra de casca de rvore dos artesos e comerciantes.
Eram vastas operaes de saqueio. Uma das expedies militares organizadas
no Buganda penetrou at o Busoga, onde acampou por vrios meses, enviando
grupos de busca aqui e acol. Dessa vez, o exrcito encarregado de arrecadar o
tributo permaneceu tempo suficiente naquela rea para obrigar a populao a
produzir e preparar alimentos e bebidas em tal quantidade que no se tratava
mais de um butim propriamente dito. Os alimentos eram apreendidos pelo
exrcito de ocupao tanto para sua prpria subsistncia como para a das cortes
do Buganda. Neste caso em particular,  muito provvel que o exrcito ganda
no tenha permanecido tempo suficiente para incentivar, ou para impor, um
aumento permanente da produo de gneros alimentcios e outros na regio
ocupada. No entanto, permaneceu tempo suficiente para desmantelar boa parte
das estruturas de produo do Busoga Central  que levar vrios anos para


7    Ver, por exemplo, F. D. Lugard, 1893, vol. I, p. 366; H. H. Johnston, 1902, vol. I, p. 248; H. M. Stanley,
     1878, vo1.II, p. 142-143.
8    E. M. Kamuhangire, 1972a, 1972b
9    D. W. Cohen, 1977, p.73-80.
328                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



se reorganizar. Expedies similares foram organizadas a partir da regio da
capital de Ruanda no intuito de subtrair provises preciosas e gado das regies
independentes do Norte e do Leste, inclusive em torno das margens ocidentais
do Lago Kivu10. Acabaram aniquilando tanto a produo como as atividades de
comercializao, e tiveram de ir ainda mais longe  procura de novas fontes de
riquezas.
    Essas expedies militares acarretaram, notadamente, o surgimento de rotas
de passagem relativamente regulares em direo s regies-alvo. Dois ou trs
Estados do Sudoeste do Busoga constituam, antes de mais nada, postos de
aprovisionamento das expedies do Buganda. Esses pequenos Estados podiam
fornecer aos exrcitos enormes quantidades de vveres em pouco tempo, e pare-
cem ter-se abastecido nas reas limtrofes. Por volta de 1860, as reas situa-
das imediatamente ao Norte dessa rota de passagem foram abandonadas, pois
tinham deixado de oferecer a capacidade de produo necessria para que os
Estados encarregados de garantir o abastecimento da populao e do reino o
Buganda pudessem ali se aprovisionar11. Em algumas dcadas, sob o efeito do
tributo cobrado por grandes reinos como o Buganda, as regies taxadas teriam
se dividido em duas categorias: aquelas onde a demanda externa de gneros
alimentcios estimulava a produo e aquelas onde essa demanda enfraquecia
ou destrua suas estruturas produtivas.
    Segundo as fontes de que dispomos sobre o sculo XIX, esse sistema de
tributao suscitou uma vigorosa resistncia nas reas de produo. Diversas
regies do Busoga Setentrional e Oriental se opuseram s poderosas expedi-
es militares ganda, e s vezes conseguiram at repeli-las. No intuito de sugar
ainda mais as ricas regies do Leste, o Buganda procurou por todos os meios
obter armas de fogo, participou ativamente dos conflitos locais e instalou prn-
cipes vassalos no trono de vrios Estados da regio. Multiplicou as expedies
militares, que precisavam ir cada vez mais longe  medida que ruam os antigos
Estados pagadores de tributos. H. M. Stanley testemunhou a resistncia  der-
rama ganda nas Ilhas Buvuma, ocorrida quando ele se encontrava no Buganda
em 187512. Durante a maior parte do sculo XIX, os povos e Estados situados




10    D. S. Newbury 1975, p. 155-173; annimo, s.d.; M. C. Newbury, 1975.
11    Faz-se breve aluso a este ponto em D. W. Cohen, 1977, p.116-117. Esta questo ser retomada no
      estudo que o autor est preparando sobre o Busoga, 1700-1900.
12    H. M. Stanley, 1878, vol. II, p. 304-342.
                                                                                                                                                            Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos
                                                                                                                                                            329
Figura 11.5 Batalha naval no Lago Vitria entre os Baganda e o povo das Ilhas Buvuma, 1875. [Fonte: H. M. Stanley, Through the dark continent, 1878. vol.
I, Sampson, Low, Marston, Low and Searle, Londres. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade
de Cambridge.]
330                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



nas fronteiras oeste e Noroeste de Ruanda se opuseram  arrecadao regular
de tributos por esse Estado13.


      Coero, violncia e mercado
    A resistncia, no sculo XIX, contra as exigncias aparentemente insaciveis
dos grandes Estados da regio dos Grandes Lagos teve como consequncia prin-
cipal a queda da produtividade em praticamente todas as regies taxadas, o que
transferiu para as cortes reais o nus dos excedentes da produo de alimentos.
De fato, meios mais aperfeioados eram necessrios para manter em um nvel
muito elevado os tributos arrecadados fora das zonas regulares de produo dos
reinos.  claro que essa resistncia acarretou um aumento da violncia em toda
a regio, e parece ter desestabilizado as antigas prticas comerciais em vigor nas
margens  e entre elas  dos lagos Vitria, Kyoga, Lutanzige e Kivu, bem como
ao longo dos lagos salgados do Sudoeste de Uganda; os excedentes de produo
dessas regies geravam, h muito tempo, trocas organizadas14. No sculo XIX,
a regio aparece como teatro de uma concorrncia acirrada entre dois sistemas
regionais de troca de produtos alimentcios: um baseado no mercado, o outro,
na fora militar e na coero poltica. No terceiro quartel do sculo XIX, foi
essencialmente o segundo que se desenvolveu  custa do primeiro. Os soberanos
e as cortes parecem ter desistido de depender dos mercados para seu aprovisio-
namento intrarregional.
    No sculo XIX, as zonas de produo da regio dos Grandes Lagos muitas
vezes eram cobiadas por dois ou trs Estados arrecadadores de tributos, e assim
se tornaram palco de rivalidades e conflitos intensos. O tributo sobre as salinas
do Sudoeste da atual Uganda era reivindicado ao mesmo tempo pelo velho
Estado do Bunyoro e pelo novo reino Toro. Portanto, a riqueza desses dois Esta-
dos, baseada no sal, conheceu altos e baixos peridicos durante todo o sculo15.


13    Ver nota 10 acima.
14    Na poca pr-colonial, a rede comercial da regio dos Grandes Lagos abrangia trs circuitos de trocas que
      se entrecruzavam: o circuito oriental, que comeava nas Ilhas Buvuma e margeava o Lago Vitria pelo
      Leste e pelo Sul at Usukuma; o circuito Bunyoro-Kyoga, que se estende do Monte Elgon em direo
      s campinas de Uganda Ocidental; e o circuito do Kivu, que vai da orla da floresta da atual Repblica
      Democrtica do Congo, ao redor dos lagos do Rift ocidental, at o Burundi, Ruanda e as campinas a
      Oeste da atual Uganda (ver mapa 11.6). Sobre os circuitos de troca da regio, ler os excelentes artigos
      de J. Tosh, 1970; A. D. Roberts, 1970b; C. M. Good, 1972; B. Turyahikayo-Rugyeme,1976; E. M.
      Kamuhangire, 1976; D. S. Newbury, 1980; J.-P. Chrtien, 1981.
15    E. M. Kamuhangire, 1972b.
                                                                                        Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos
                                                                                        331
Figura 11.6   Circuitos comerciais da regio dos Grandes Lagos (segundo D. W. Cohen).
332                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



 muito provvel que as regies do Bugerere, a Oeste do vale do Nilo, e do
Budiope, ao Norte do Busoga, tenham despertado a cobia tanto do Estado de
Buganda como do Estado do Bunyoro, que procuravam apropriar-se dos cereais,
dos tubrculos, do gado, das bananas e dos produtos elaborados nos quais aquelas
regies eram ricas. A resistncia das regies do Bugerere e do Budiope atrasou
a integrao de sua produo aos Estados do Buganda e do Bunyoro durante
quase todo o sculo16.  ocioso dizer que a invaso simultnea das regies
produtoras por esses dois Estados foi o ncleo do conflito que os ops durante
grande parte do sculo. Em certas reas, esse clima de rivalidade entre vrias
potncias da regio desejosas de garantir para si os "direitos ao tributo agrcola"
suscitou diversas estratgias de alianas e de defesa entre os grupos tribut-
rios; em outras, por sua vez, traduzia-se simplesmente em uma diminuio da
populao e da produo nas reas contestadas. Em outras, ainda, as rivalidades
entre as diversas potncias que procuraram apropriar-se dos recursos, e entre os
cortesos desejosos de obter privilgios de arrendamento, certamente levaram
 imposio de taxas muito superiores s possibilidades de consumo17. Um dos
primeiros efeitos da atividade dos europeus na regio dos Grandes Lagos seria
o de reforar a capacidade das grandes potncias regionais de cobrar seu tributo
nas reas afastadas, pelo menos no curto prazo.
    Se certas partes da regio eram obrigadas a produzir muito mais do que o
consumo local exigia, outras, em compensao, sofriam perodos de escassez
que, longe de serem excepcionais, podiam ocorrer tanto no incio da estao
chuvosa como durante anos de colheitas magras. Na parte ocidental do Qunia,
mercados ocasionais eram abertos durante os perodos de crise18. Situavam-se
nas zonas compreendidas entre as terras altas, midas e seguras, e as terras bai-
xas, secas e menos seguras, que se estendem em arco de crculo entre o golfo de
Winam, a Oeste do Qunia, e o Sul do Busoga; nessa regio, eram organizados
mercados ocasionais em tempos de crise para a troca de gado, cereais, peixes,
verduras e produtos manufaturados. Essas trocas estavam nas mos de grandes
famlias da regio onde o mercado era instalado. Foi assim que, no incio do
sculo XX, surgiram os "homens fortes" ou os "pseudochefes", bem conhecidos
por quem estava familiarizado com a frica.

16    A situao do Bugerere  muito significativa. A. F. Robertson a expe com muito clareza, 1978, p. 45-47.
17    As intrigas de corte em reinos como o Buganda bem parecem ter contribudo para levar at reas remotas
      as campanhas de arrecadao de tributos na poca pr-colonial. Ver D. W. Cohen, 1983.
18    M. J. Hay, 1975, p. 100-101. Ver tambm o livro de L. D. Shiller sobre Gem e Kano no Qunia Oci-
      dental, e The Jolue before 1900, livro de R. Herring. O autor do presente captulo, trabalhando em Siaya,
      e Priscilla O. Were, trabalhando em Samia, reuniram provas que apoiam essas informaes.
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                                           333



    Nos arredores do golfo de Winam, a escassez de alimentos bsicos era fre-
quente, sobretudo nas terras situadas s margens do lago, que s tinham uma
estao chuvosa e uma longussima estao seca. Pelo menos desde o sculo
XVIII, as populaes foram se deslocando de forma lenta e constante das mar-
gens do lago para as terras altas  procura de reas mais seguras e mais produ-
tivas, com duas estaes chuvosas. Seu avano s era freado pelos moradores j
instalados nessas terras altas, pelos bandos que l iam saquear periodicamente
as riquezas e pelo fato de os migrantes estarem insuficientemente organizados
para tirar proveito de novas terras nas regies montanhosas. Essa migrao ainda
hoje continua. Ela acarreta modificaes na produo e no regime alimentar das
populaes que se refugiam nas terras altas, uma concentrao da populao
nessas reas e o desenvolvimento das comunidades lingusticas do grupo luo. No
sculo XX, essa regio apresentava uma das maiores densidades populacionais da
frica rural; da o esgotamento dos solos e dos recursos em madeira19.
    Os que no emigravam para as terras altas continuavam a sofrer com a
escassez decorrente de um sistema agrcola precrio. Os mercados ocasionais
remediavam um pouco a situao, pois permitiam que a populao trocasse
o gado criado nas terras baixas por cereais e razes alimentcias cujo cultivo
prosperava mais nas terras altas. Dado que, nas terras baixas, o perodo de fome
correspondia  poca de lavrar a terra e semear no momento das primeiras chu-
vas, o que exigia mais mo de obra, esses mercados eram um meio de compensar
bastante depressa os efeitos de uma estao seca prolongada ou de uma colheita
fraca. Graas s trocas regionais, o gado criado pelos habitantes das terras baixas
garantia a continuidade do trabalho agrcola e da alimentao. Para eles, era
fonte de riquezas transformveis.


     As redes comerciais
   Em Ruanda, remediava-se a precariedade da situao agrcola por meio de
trocas entre diferentes reas, etnias e classes20. A complementaridade entre pro-
duo e consumo das zonas onde havia excedentes e havia dficit ocasionou o
surgimento de toda uma rede de comunicaes, trocas e interaes que reforou


19    preciso estudar de forma mais detalhada a situao social e econmica do Qunia Ocidental no
     sculo XX, em particular aspectos relativos a demografia, economia rural e problemas de higiene. Para
     a Tanznia, ver H. Kjekshus, 1977.
20   H. L. Vis e al., 1975.
334                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



os alicerces do Estado ruands. Essas trocas regulares propiciaram a manuteno
de economias locais especializadas, bem como de hbitos alimentares prprios
s diferentes etnias ou classes, o que acentuou as segmentaes sociais na parte
ocidental da regio dos Grandes Lagos.
    O Estado de Ruanda arrecadava seu tributo em regies mais longnquas,
saqueando com frequncia as regies ricas do Norte, do Noroeste e do Oeste,
algumas das quais foram submetidas a sua administrao no transcurso do sculo
XIX. Alm disso, Ruanda participava de um sistema comercial centrado no Lago
Kivu. Os comerciantes levavam aos mercados das margens do Lago Kivu e das
Ilhas Ijwi as butega, pulseiras tecidas provenientes do Butembo, situado a Oeste
do lago Kivu. Essas pulseiras do Butembo aos poucos foram sendo consideradas
como moeda e, a partir da segunda metade do sculo XIX, foram amplamente
utilizadas nas trocas da regio do Kivu, enriquecendo os comerciantes de Ijwi e
os fabricantes de pulseiras do Butembo enquanto, ao mesmo tempo, facilitavam
as trocas de gado, gneros alimentcios e outros produtos em toda a regio, que
abrangia o Kivu e Ruanda, onde talvez tenham incentivado a produo21.
    Parece que um circuito de troca que interligava as regies situadas na mar-
gem oriental do Lago Vitria passou por processo anlogo. Tudo leva a crer
que, no incio do sculo XIX, uma vasta rede de troca de gneros alimentcios
e outros produtos ali j funcionava h sculos. Essa rede interligava o litoral do
Buganda, do Sul do Busoga e das Ilhas Buvuma, no Norte, ao interior do pas
(hoje o Qunia Ocidental) e s regies de Buzinza, Usukuma e Unyamwezi,
situadas ao Sul do lago (atual Tanznia). O elemento determinante da configu-
rao dessa rede parece ter sido a revoluo agrcola realizada no Estado insular
do Bukerebe, ao Sul do lago, no final do sculo XVIII ou comeo do XIX22.
De fato, o Estado do Bukerebe adotou vrios cultivos novos, como o milho e a
mandioca, e introduziu na regio novas variedades de sorgo e milhete. Deter-
minadas mudanas estruturais  inclusive a organizao da mo de obra servil
(oriunda do continente)  acarretaram um forte aumento da produo agrcola.
O continente oferecia um mercado para os excedentes do Bukerebe, que tam-
bm comercializava metais trabalhados do Buzinza e gado do Usukuma. As
populaes do Buzinza e do Usukuma contavam com a agricultura e o comrcio
do Bukerebe para paliar a frequente escassez de alimentos que as afligia. Parece
que essa dependncia s vezes levou os agricultores usukuma a acusarem os
comerciantes bukerebe de tirar proveito de sua misria, pura e simplesmente

21    D. S. Newbury, s. d.
22    G. W. Hartwig, 1976. p. 62-83. p. 104-111.
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                  335



aumentando, em tempos de fome na regio, os preos dos gneros alimentcios
que lhes forneciam23.
    Os comerciantes bukerebe eram os principais intermedirios no Sul, mas os
transportes e as trocas estavam nas mos dos Basuba na parte mais setentrio-
nal dessa rede oriental do lago. Extraordinariamente engenhosos e corajosos,
percorriam as guas do Lago Vitria transportando sal, escravos, banana secas,
cereais, feijo, gado, peixe e ferro dos mercados bukerebe, no Sul, para os mer-
cados busoga e buvuma, no Norte24.
    O monoplio das trocas que os Basuba elaboraram no sculo XIX nas vias
setentrionais da rede oriental do lago lembra os monoplios criados pelos
comerciantes bagabo e bashingo da regio dos lagos salgados no que hoje 
Uganda Ocidental25. Em ambos os casos, esses povos organizaram, no correr
dos anos, uma dispora da troca, muito bem estruturada, que lhes garantia o
controle poltico global da produo e da comercializao de sal, sob a prote-
o e com autorizao dos longnquos reinos de Nyoro e Toro. Nos dois casos,
os monoplios comerciais eram desenvolvidos fora da rea de influncia dos
Estados da regio dos Grandes Lagos; no utilizavam nem o esquema nem as
estruturas do Estado para implantar suas redes comerciais; e s lhes acontecia
de obedecerem s exigncias dos Estados limtrofes nas raras vezes em que suas
reas de produo, mercados ou frotas sofriam ataques.
    As estruturas comerciais bukerebe  na parte sul do circuito oriental  eram
to interessantes para os outros comerciantes que os mercadores sualis e rabes
que operavam no Unyamwezi integraram-se a elas. Estimulando o comrcio
de escravos e de marfim na regio, os recm-chegados acabaram empurrando
para o Sul do lago os comerciantes bukerebe e seu sistema de troca baseado na
produo de alimentos. Foi graas a esses movimentos em direo ao Sul que
os comerciantes sualis e rabes tiveram seus primeiros contatos com a regio
dos Grandes Lagos. Primeiro as mercadorias, depois os comerciantes, invadiram
os mercados e os Estados da regio, percorrendo as mesmas estradas estreitas
que os vendedores de sal, a Oeste do Lago Vitria. Contudo, o mais importante
talvez seja que com eles, o marfim e os escravos chegaram ao centro da regio
dos Grandes Lagos, onde serviriam de moeda de troca contra armas de fogo.
Professores muulmanos e cristos, exploradores, aventureiros e funcionrios



23   lbid., p. 107.
24   M. Kenny, 1979.
25   E. M. Kamuhangire, 1972b.
336                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



europeus depois trilharam o mesmo caminho, criando novas foras de mudana
em toda a regio dos Grandes Lagos.
    Enquanto, no litoral leste, o trfico subia para o Norte atravs das pradarias do
Oeste, chegando s populaes e capitais da margem setentrional do lago, navios
buganda iam roendo pelas beiradas os monoplios basuba e bukerebe a Leste e ao
Sul, abrindo assim caminho para relaes ativas e diretas entre o corao da rea
buganda e os comerciantes rabes e sualis da margem sul. Assim, o Bukerebe era
repelido para o Sul por grupos vindos do Unyamwezi e da costa leste, e sua influ-
ncia recuava no Norte e no Leste diante das iniciativas expansionistas do Buganda.
A comparao do Buganda com o Bukerebe no sculo XIX evidencia um contraste
interessante. Em ambas as regies, houve, em um determinado momento, trans-
formao da agricultura com vistas a garantir a produo de considerveis exce-
dentes de gneros alimentcios. Porm, enquanto os excedentes do Bukerebe eram
destinados s zonas onde a escassez era grande, mas que podiam proporcionar-lhe
alimentos que o Bukerebe necessitava e no tinha como produzir, os do Buganda
eram apenas instrumento de uma ao poltica e social. No serviam de moeda de
troca. A notvel organizao dos meios de transporte implantada pelo Bukerebe e
pelo Basuba foi gravemente abalada pela intruso dos Baganda no sistema; estes
no procuraram criar novas estruturas comerciais: impuseram-se pela fora.
    No sculo XIX, havia outra ampla rede de trocas centrada na regio do
Bunyoro, que se estendia ao Norte e a Noroeste  regio de Acholi e do Oeste
do Nilo; a Leste, para alm do Lago Kyoga, at o Monte Elgon; e a Sudoeste,
 regio dos lagos salgados, e at Kivu. O ferro e o sal parecem ter sido os ele-
mentos bsicos desse sistema comercial, mas os gneros alimentcios e o gado
provavelmente tiveram uma funo capital em sua elaborao e seu funciona-
mento. Ao Norte do Lago Kyoga, por exemplo, os Lango produziam excedentes
alimentares intencionalmente, em particular gergelim, para fins comerciais26. No
sculo XIX, essa produo era encaminhada para o Oeste, para Bunyoro, em
troca de enxadas de ferro, que ajudavam a aumentar ainda mais a produo de
gergelim na rea de Lango. Um exame atento mostrou que essa superproduo
muito provavelmente era combinada com toda uma srie de inovaes e aperfei-
oamentos em matria de produo e utilizao do solo e da mo de obra, bem
como em termos de colheita, cultivos e semeaduras, no intuito de otimizar o
rendimento27. De certa forma, tratava-se de uma revoluo agrcola comparvel,


26    J. Tosh, 1978.
27    Isso pressupe uma revoluo social no plano de cada entidade familiar ou coletiva para reestruturar as
      relaes sociais no trabalho, a definio das tarefas e o ritmo de trabalho.
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                        337



sob certos aspectos,  que ocorreu quase simultaneamente no Bukerebe e nas
Ilhas Ijwi, do Lago Kivu28.
    Pode-se supor que as pessoas e os grupos que participavam das redes de troca
da atual Uganda ocidental tenham visto no desejo dos Lango de aumentar a
produo de gergelim para fins comerciais um meio para atingir trs objetivos:
primeiro, estimular o comrcio do ferro com o leste, vencendo o concorrente
de Samia  centro estabelecido  margem do Lago Vitria, perto da atual fron-
teira entre Qunia e Uganda  e, portanto, uma forma de estimular a produo
de ferro no Bunyoro; segundo, criar laos mais estreitos entre o Bunyoro e o
Lango, e talvez at laos de dependncia baseados na desigualdade das trocas;
terceiro, por fim, enriquecer com esse comrcio, o que, na segunda metade do
sculo XIX, atrairia para a regio o marfim valioso, vindo das encostas noroeste
do Monte Elgon.
    At aproximadamente 1875, as redes comerciais da atual Uganda Ocidental
constituram a base da influncia do Bunyoro sobre uma ampla regio, mesmo
durante os perodos em que conflitos internos enfraqueciam o poder dos sobe-
ranos. Em reas como o Busoga, a atividade comercial se transferiu dos antigos
mercados do Lago Vitria para as feitorias recentemente criadas na bacia do
Lago Kyoga, com ferro dos Nyoro substituindo o dos Samia nos mercados do
Norte e do nordeste do Busoga. Novos estabelecimentos foram criados na bacia
do Lago Kyoga, cuja produo alimentava o mercado nyoro. A expanso da rede
do Kyoga completava o processo de emigrao para o Norte, para o Busoga,
e permitia que uma populao acossada se afastasse da rea onde o Buganda
cobrava tributo. Mais tarde, essa rede de troca do Bunyoro  ou seja, a rede
comercial ocidental que cobria a regio do Kyoga  oporia uma forte resistncia
aos britnicos que pressionavam a populao para faz-la cultivar algodo.
    No Oeste, as atividades comerciais do Lago Kyoga se somavam s trocas
feitas atravs das campinas da atual Uganda Ocidental e se concentravam na
produo de sal dos lagos do Sudoeste da atual Uganda. Funcionrios do reino
do Bunyoro, ou dos pequenos Estados que lhe pagavam tributo, arrecadavam os
impostos sobre a produo, o transporte e a comercializao dos produtos, dos
gneros alimentcios e do gado, e depois os usavam para financiar seu prprio
comrcio29. Os soberanos do Bunyoro e do Toro cumpriram um papel ativo
no sistema comercial da regio ocidental dos Grandes Lagos sem desmontar
as redes e trocas tradicionais. Alguns livros de histria apresentam o Bunyoro

28   Ver G. W. Hartwig (1976) para o Bukerebe, e D. S. Newbury (s.d.) para Ijwi.
29   E. M. Kamuhangire, 1972b.
338                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



como reino de pastores e Estado guerreiro; no entanto, o Bunyoro parece ter-
-se integrado, em grande medida, ao mercado regional do qual dependia para
abastecer suas cortes e para continuar a exercer seu controle e sua influncia
sobre regies remotas. O Buganda do sculo XIX  mostrado, ao contrrio, como
exemplo tpico do Estado guerreiro, ou do Estado arrecadador de tributos, que
desenvolve dois processos, sem tentar concili-los: o de implantao de uma
burocracia interna complexa, e o de estruturao dos mercados externos.
    As atividades do Estado do Buganda tendiam a desfigurar ou arruinar as
atividades comerciais no nvel sub-regional em torno dos lagos, mas foi tambm
nessa poca que o Buganda comeou a ter uma participao mais ativa no que
poderamos chamar de trocas internacionais na zona que vai das margens do
Lago Vitria  costa leste da frica. No entanto, isso talvez no baste para defi-
nir as diferenas que separam o Buganda e o Bunyoro em termos de mercados
comerciais no sculo XIX. A diferena essencial entre eles reside sem dvida
na utilizao que cada um faz das diversas possibilidades de que dispe para
passar  frente, em diferentes nveis, na atividade comercial da regio. O Bunyoro
participava das atividades dos mercados da regio dos Grandes Lagos segundo
modalidades que reforavam e desenvolviam a organizao comercial existente,
ao passo que o Buganda procurava sistematicamente resolver pela via militar as
suas crises de abastecimento em bens e servios locais. Alm disso, o Buganda
entrou na rede comercial internacional que avanava constantemente, a partir da
costa leste, em direo  regio dos Grandes Lagos; recorreu a meios que ajuda-
ram a reforar e desenvolver, no interior de seu territrio, o sistema em vigor na
costa leste, e acabou conseguindo, em grande medida, excluir o Bunyoro desse
sistema de troca em "nvel muito alto". Na verdade, durante a ltima dcada do
sculo, o Buganda conseguiu fazer com que as foras ligadas ao mercado da costa
leste se rebelassem contra o Bunyoro, arruinando definitivamente sua influncia
na regio, e eliminando desta ltima o "fator setentrional", ou seja, os interesses
anglo-egpcios e sudaneses.
    Este sistema de troca de "alto nvel" que funcionava da regio dos Grandes
Lagos at a costa da frica Oriental gravitava em torno do comrcio prove-
niente dos planaltos e para l destinados: marfim e escravos trocados na costa
por armas de fogo importadas por intermdio da rede comercial de Zanzibar.
As armas de fogo eram entregues junto com alguns magros lotes de mercadorias
essencialmente reservadas ao consumo da aristocracia: txteis, pulseiras, loua
e, mais tarde, livros. Durante a maior parte do sculo, a corte do Buganda con-
seguiu manter sob seu controle a distribuio desse tipo de importaes, tanto
dentro como fora do reino, reforando deste modo seu domnio (e, assim, sua
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                       339



influncia sobre todos os visitantes que ali se encontravam) sobre toda a vida
social. Aspecto importante: o gosto passou por uma fase de "extroverso" durante
o perodo imediatamente anterior  chegada dos europeus  regio onde os
Baganda procediam com sucesso  conscientemente em alguns casos, incons-
cientemente em outros   integrao de sua sociedade ao Imprio Britnico.


     O aumento das desigualdades e das tenses
   No ltimo quartel do sculo XIX, os novos gostos e os imperativos de con-
sumo emergentes entre as camadas inferiores da nobreza facilitariam a influ-
ncia europeia na vida no apenas do Buganda, mas de quase todas as partes
dessa vasta regio. Durante meio sculo, as armas de fogo que haviam sido
conseguidas asseguraram a dominao dos Estados mais poderosos sobre as
reas vassalas e, como em todo o resto da frica, abriram caminho para uma
concentrao do poder poltico-militar nas mos de uma parcela mais limitada
da populao. As desigualdades, particularmente flagrantes nas incurses para
capturar escravos, mas importantes em todas as reas, acentuaram-se em toda
a regio dos Grandes Lagos durante as ltimas dcadas do sculo. Assim, os
europeus, quando comearam a chegar em grande nmero  regio, viram seu
apoio solicitado no apenas pelos centros detentores de crescente poder, mas
tambm pelos fracos e pelos desvalidos.
   Da mesma forma que havamos observado, c e l, no final do sculo XVIII,
diversas foras e correntes tentarem resistir aos soberanos dos Estados da regio
dos Grandes Lagos e procurarem derrub-los, as duas ou trs ltimas dca-
das do sculo XIX assistiram ao surgimento de uma nova onda de resistncia
e conflitos. Durante o ltimo tero do sculo, era evidente que a crescente
concentrao do poder e das engrenagens de comando nas capitais e cortes
provinciais da regio dos Grandes Lagos tornava-se cada vez mais insuportvel
para a populao. A Leste e a Oeste do Buganda, pequenos Estados resistiram
repetidamente s campanhas de arrecadao de tributos realizadas pelo Estado
buganda. Em 1875, H. M. Stanley testemunhou o desastre em que culminou a
campanha do Buganda contra as Ilhas Buvuma. No mesmo momento em que
o Buganda conseguia colocar rapidamente a regio visada de joelhos, alguns ali
sabotavam a entrega regular dos tributos ao vencedor30.



30   Essas operaes so mencionadas em diversas fontes do Buganda e do Busoga.
340                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    No Bunyoro, em Ruanda e no Buganda, assim como nos pequenos Estados
do Busoga, o povo se defendia contra as arbitrariedades cometidas pelas capitais
e pelas cortes seja emigrando para reas mais distantes das regies habitualmente
atingidas pelas campanhas de coleta, ou para zonas que ofereciam melhores
possibilidades de acesso  terra, a funes oficiais ou ao poder, seja reunindo-se
e fortificando as aldeias, como foi o caso na fronteira entre os atuais Qunia e
Uganda.
    Na regio do Busoga, circulam milhares de relatos sobre pequenas migraes
de gente do povo que deixa seu Estado para procurar refgio ou novas condi-
es de vida em outro lugar; alguns tiveram de mudar-se vrias vezes de Estado
durante sua vida. Esses relatos parecem indicar que, j nos anos 1820, a "busca
de novas condies de vida" era concomitante com uma redefinio das relaes
do indivduo e da famlia com o Estado no que diz respeito  terra, s funes
administrativas e ao poder31. No contexto dessa considervel mobilidade das pes-
soas e dos pequenos grupos que caracterizava o Busoga do sculo XIX, a corte,
como campo de possibilidades mais amplas, cumpria um papel privilegiado na
vida dos habitantes dos diversos Estados, ou das populaes que residiam fora
de suas fronteiras reconhecidas; mas essa situao no permitia que o Estado
afirmasse sua autoridade. Na verdade, durante todo o sculo XIX, os esforos
feitos pela corte do Busoga no intuito de consolidar seu poder ou ampliar sua
zona de influncia foram minados pela facilidade com que numerosos indi-
vduos abandonavam seus laos clientelistas e suas terras e partiam em busca
de melhores condies de vida.  possvel que, durante esse perodo, e ligada
a problemas desse tipo, uma noo evoluda do "Estado" ou "reino" tenha-se
tornado um elemento importante do discurso popular. Essa atitude da coletivi-
dade em relao ao poder talvez tenha compensado, at certo ponto, o aumento
do poder das capitais decorrente da monopolizao das armas e do fato de as
pessoas das cortes se armarem. L e c, esse distanciamento do poder poltico
central sem dvida facilitou importantes modificaes nas relaes comerciais
e nas atividades de produo; o fato  que, particularmente no mbito local, a
atividade econmica libertou-se muito do aparelho estatal.
    Manifestadamente, no sculo XIX a resistncia  autoridade poltica estabe-
lecida muitas vezes acarretou, mesmo que apenas por algum tempo, um fortale-
cimento da autoridade dos centros religiosos e um endurecimento das relaes
entre poder poltico e poder religioso em diversos lugares da regio dos Grandes


31    D. W. Cohen, 1986.
Povos e Estados da regio dos Grandes Lagos                                    341



Lagos. Esse clima de oposio ou de luta entre diversas instncias do poder 
muito bem ilustrado pela histria da criana possuda Womunafu, na regio de
Bunafu, no Busoga, em torno da qual se reuniu uma pequena comunidade. Em
Bunafu, o domnio de Womunafu permaneceu durante vrias dcadas  mar-
gem do mundo poltico circundante ao qual se opunha. No entanto, as capitais
polticas vizinhas compartilhavam, em grande medida, as ideias e instituies
em que repousava a autoridade de Womunafu32. No Bushu, a Oeste, os conflitos
entre as fontes religiosas e polticas do poder foram em grande parte resolvidos
por meio da integrao de elementos antagonistas em um conjunto de peque-
nos territrios sob autoridade ritual de chefes tradicionais33. Em Ruanda, no
Bunyoro e no Sudoeste da atual Uganda, as ideias e as estruturas kubandwa h
muito eram os esteios da oposio  autoridade das capitais polticas. Fechadas
 ingerncia do Estado e ferozmente opostas a seus princpios e atividades, as
organizaes kubandwa cumpriram um papel decisivo e s vezes tiveram poder
suficiente para se oporem ao poder poltico de uma regio e triunfar sobre ele.
O mais importante de todos os movimentos kubandwa conhecidos girava em
torno da deusa Nyabingi. Esse movimento nyabingi exprimia a oposio ao
Estado ruands, que estava institucionalizando sua influncia para alm do
antigo centro de Ruanda, em particular em direo ao Norte e ao Oeste. Na
fronteira entre as atuais Repblica Democrtica do Congo e Uganda, na regio
de Kigezi, assim como em algumas partes do Nkore, os adeptos de Nyabingi
organizaram-se para se oporem  expanso do Estado ruands em seus dom-
nios. No final do sculo XIX, Nyabingi cristalizou a resistncia  autoridade
poltica em geral, bem como s atividades coloniais europeias tais como eram
sentidas pelas populaes da regio34.


     Concluso
   No sculo XIX, a regio dos Grandes Lagos apresentava-se menos como um
cadinho de organizaes estatais centralizadas do que como o palco de lutas e
conflitos entre os interesses e as foras ali presentes, tanto dentro como fora de
um determinado conjunto. Por um lado, os Estados rivalizavam-se para impor
sua autoridade sobre as zonas agrcolas vassalas que lhes forneciam produtos tais


32   D. W. Cohen, 1977.
33   R. M. Packard, 1981.
34   I. Berger, 1981.
342                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



como sal, gado e ferro, e disputavam as vias de acesso s redes de distribuio e
o domnio sobre as mesmas. Essa luta no opunha apenas os Estados entre si,
mas fazia com que tambm se enfrentassem Estados e organizaes ou empresas
constitudas com base em modelos muito diferentes das estruturas estatais da
regio.
    Por outro lado, os cidados comuns esforavam-se, por meio de um jogo
complexo de participao e oposio, para definir o espao poltico, social e eco-
nmico que podia ser o de suas atividades e de sua segurana. Tanto para o indi-
vduo como para a famlia, o Estado da regio dos Grandes Lagos apresentava-se
mais como explorador do que como protetor. As populaes reagiam em funo
de suas limitaes e possibilidades, reorientando a produo e o comrcio de
forma a escapar das exigncias do Estado; evacuando os territrios submetidos
a excessivas presses externas; aderindo s novas comunidades religiosas; pro-
curando refgios seguros; ou, ainda, apoiando tentativas de derrubada do poder
constitudo. No sculo XIX, a regio dos Grandes Lagos no era s um conjunto
de Estados, pequenos e grandes, mas tambm um mundo onde o indivduo e
a famlia mudavam incessantemente  de mil maneiras e s vezes de forma
imperceptvel  de atitude em relao  autoridade do Estado,  participao
social,  produo e ao comrcio.
    O tempo transcorrido dificulta muito a observao precisa da vida cotidiana
no sculo XIX na regio dos Grandes Lagos. Contudo, as tendncias  mudana
e as foras de mudana  identificveis na produo e no consumo, no comrcio,
nas relaes entre Estados, e nas relaes entre o povo e as cortes  geravam na
vida cotidiana tenses que no podem ser ignoradas. Essas tenses penetraram
no mbito domstico, desencadeando toda uma srie de presses e reviravoltas,
muitas das quais seriam mais tarde interpretadas como consequncias do colo-
nialismo europeu.
A bacia do Congo1 e Angola                                                               343



                                   CAPTULO 12


                A bacia do Congo1 e Angola
                                       JeanLuc Vellut




    Os limites da regio que aqui estudamos so grosseiramente desenhados
    1

pela costa atlntica a Oeste, pelo Lago Tanganica e pela linha de separao
das guas Nilo-Zaire a Leste, pelas savanas de Ubangui a Norte, e por fim, a
Sul, pelo planalto que marca a separao das bacias do Zaire e do Zambeze. O
perodo do qual trataremos no pode ser limitado a um s tema: no obstante
uma difundida opinio, no podemos apenas ligar o fundamental da histria
dos anos 1800-1880 ao problema do comrcio de longa distncia e das ligaes
com o estrangeiro (nessa poca, a economia das sociedades da frica Central
permanecia mais centrada na produo do que nas trocas); tambm no pode-
mos fazer do sculo XIX pr-colonial uma idade de violncia generalizada, em
razo do trfico, das lutas intestinas etc.: o lugar comum de que a frica fora
dilacerada por incessantes "lutas tribais" negligencia o fato fundamental de que
a massa de povos da regio levava uma pacfica vida de produtores, atravs da
melhora tenaz da agricultura, do ordenamento do meio e da exportao dos
produtos das colheitas. Por fim, tambm no queremos reduzir a histria do
sculo XIX a uma histria poltica, alocada sob o signo de reinos ou de cons-
trues estatais despticas: se fosse preciso definir um trao poltico comum s
sociedades da frica Central por volta de 1800, mais o encontraramos em uma

1   Neste captulo foi adotado o nome de Rio Zaire correntemente utilizado nos documentos do sculo
    XIX.
344                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 12.1   A frica Central do Oeste no sculo XIX (segundo J. -L. Vellut).
A bacia do Congo e Angola                                                     345



busca, frequentemente questionada, de equilbrios e de concesses entre poderes
de diversas origens.
   Na verdade, uma explanao da histria da frica Central do sculo XIX
deve responder a vrias exigncias. Antes de tudo, deve-se evocar a vida concreta
e as aspiraes das sociedades desta vasta regio, tal como ela se apresentava no
sculo XIX. A tnica  ento colocada sobre a continuidade entre os anos 1800
e o passado mais longnquo: as mudanas so perceptveis, mas operam em um
ritmo lento.
   Entretanto, por outros aspectos, a histria da frica Central do sculo XIX
 marcada por rupturas com o passado. De fato, nos anos 1800-1880, mais
do que nunca, a regio foi integrada  rede das trocas mundiais. O peso das
conjunturas da economia mundial ou de alguns de seus setores particulares se
fez sentir: em certas regies, ele mudou a direo da histria social e poltica,
marcou o desenvolvimento do setor das trocas e abriu novas possibilidades de
acumulao, mas, em outras regies, freou a evoluo. Logo distinguimos as
primeiras artimanhas de um domnio europeu dos benefcios da economia das
trocas no interior da frica Central.
   A explanao que se segue buscar, pois, levar em conta uma tripla evoluo
que conferiu aos anos 1800-1880 um cunho particular: histria das mudanas
sociais e polticas; histria dos fluxos e refluxos da economia mundial, assim
como foram sentidos na frica Central; por fim, histria lenta de uma civiliza-
o e, sobretudo, histria da diversificao na explorao do meio.


    Produo: modelo das populaes dispersadas
    e modelo das populaes densas
   Nos anos 1800-1880, as sociedades da frica Central, por sua distribuio,
seu comportamento demogrfico, seus sistemas de produo e, por fim, por suas
aspiraes, conservavam traos herdados de um passado milenar, dentre os quais
alguns deles apresentam-se ainda hoje. Uma caracterstica fundamental e muito
antiga da vida material na frica Central  a desproporo da distribuio dos
homens no espao: desproporo que se explica pelo jogo de mltiplos fatores
geogrficos, econmicos e sociais, bem como pelo contragolpe de acontecimen-
tos histricos. Seria possvel discernir as evolues em curso durante o perodo
que aqui nos interessa?
   No Sul da floresta mida, no conjunto macio da floresta clara (miombo na
Repblica Democrtica do Congo, mato de panda em Angola) que se estende at
346                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880
Figura 12.2 Uma aldeia da provncia de Manyema, a Nordeste do Imprio Luba, nos anos 1870. [Fonte: V.
L. Cameron, Across Africa, 1877, vol. I p. 352, Daldy, Isbister and Co, Londres. Ilustrao reproduzida com
a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]
A bacia do Congo e Angola                                                                                347



o 16 ou 17 grau de latitude sul2, a agricultura do sculo XIX fornecia apenas
uma parte dos recursos alimentares, sendo a produo agrcola particularmente
pouco intensiva. Esta forma de explorao era aquela que melhor convinha aos
solos pobres da floresta clara, mas ela apenas atendia  sobrevivncia de popu-
laes de baixa densidade, segundo nossos critrios do sculo XX (no mximo
8 habitantes por km2). No sculo XIX, os antigos cereais africanos (eleusine,
milhete e sorgo) ainda formavam o bsico das culturas em vrias regies. Com-
plementando a agricultura, a colheita (plantas comestveis, lagartas, mel, roedo-
res etc.), a caa e a pesca ocupavam um lugar importante na alimentao: em
pleno sculo XX, o conhecimento dos produtos da colheita ficou muito extenso
nas sociedades da floresta clara.
    Na maioria dos casos, as populaes de baixa densidade no viveram isoladas.
Elas estavam em contato com grupos mais densos, que derramavam seu excesso
populacional nos territrios vizinhos. De fato, em certas regies, em superfcies
s vezes fortemente reduzidas (de proximidade imediata de cursos de gua, por
exemplo), a agricultura se diversificou e se intensificou, permitindo uma polari-
zao da populao, no raro, junto a capitais ou a centros senhoriais.
    A longnqua origem destas zonas de povoamento mais intensivo se confunde
com a expanso da agricultura na frica Central. Graas  arqueologia ou,
mais tarde, aos primeiros documentos escritos, certas zonas antigas podem ser
identificadas:  o caso do povoamento no que, no sculo XIX, era uma regio
de senhores luba, no vale do Lualaba, ou ainda, na regio conga. Em Angola,
no que tange a um perodo mais recente, dispomos de algumas indicaes de
origem missionria ou fiscal. No incio do sculo XIX, por exemplo, na base
(muito aproximativa) do recrutamento das foras armadas, as autoridades de
Luanda tinham estimado que os principais focos de densidade encontravam-se
entre os ambundu, nas regies de Golungo (60.000 habitantes) e de Ambaca
(37.000 habitantes), e entre os ovimbundo do Bailundu (56.000 habitantes) e
do Bi ("mais de 30.000")3. Na Repblica Democrtica do Congo, foi somente
em pleno sculo XX que se delimitou o "corredor" das altas densidades, ao longo
do 5 paralelo sul, na juno da floresta mida e da savana4.


2    Estas florestas claras so resduos de antigos clmax de floresta seca (muhulu). Elas so caracterizadas
     por uma grande proporo de espcies zambezianas. Ver os trabalhos de F. Malaisse e, notadamente, F.
     Malaisse et al., 1972.
3    J. C. Feo Cardozo, 1825, p. 352 e seg. Estes nmeros so muito incertos; por volta de 1850, L. Magyar
     fornecia uma estimativa muito diferente (1.220.000) da populao ovimbundu. A localizao dos prin-
     cipais focos de densidade nas regies conhecidas , entretanto, mais slida.
4    Ver P. Gourou, 1955.
348                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Apesar da falta de dados precisos, vrios indcios levam a crer que o desen-
volvimento das zonas densas foi determinado em um perodo relativamente
recente que o sculo XIX se inscreveu, na verdade, na crista de um movimento
de impulso encetado somente h alguns sculos. A tecnologia do ferro, carac-
terstica dos sistemas agrcolas bantos, se generalizou, verdadeiramente, apenas a
partir do sculo XV. Na frica Central, as fontes de histria oral so unnimes
ao designar os sculos XVII e XVIII como uma poca de transio para as
sociedades da savana e dos Grandes Lagos: colonizao de novas terras, fun-
daes dinsticas, multiplicao de ttulos polticos etc. Enfim, todos os focos
de densidade da regio, no sculo XIX, tinham enriquecido sua agricultura
pela introduo de variedades americanas. Tal inovao permitiu o aumento da
produtividade, graas a uma utilizao mais intensiva do solo arvel (em vrias
zonas densas, colhia-se duas ou trs vezes ao ano), graas tambm  introduo
de plantas de alto rendimento (caso da mandioca).
    A cronologia destas transformaes no pode, evidentemente, ser seguida
ao p da letra: de acordo com as regies, elas puderam se estender por mais de
dois sculos (1600-1850), estimativa vaga que pode ser precisada por alguns
marcos. Aproximadamente em 1800, sem dvida, todas as variedades ame-
ricanas (milho, mandioca, batata doce, feijo etc.) no haviam sido adotadas
da mesma forma em todos os lugares, porm parece que nenhuma regio as
ignorou completamente. Alis, ocorreu que as plantas americanas foram incor-
poradas a ponto de no mais serem percebidas como importaes estrangeiras.
Foi o caso da regio conga. Dispomos, pelo baixo rio, do primeiro inventrio
sistemtico de uma flora da frica Central (expedio Tuckey, 1818), que
confirma o uso difundido das variedades americanas. Na poca colonial, um
inventrio detalhado da agricultura conga destacava que vrias importaes
americanas (amendoim, batatas doce etc.) eram percebidas na cultura oral
como sendo de origem local, bem como os inhames ou voandzou5. Entretanto,
alhures, provrbios ou ritos lembram, ainda hoje, que o fundo agrcola africano
precedeu os emprstimos americanos dos sculos XVIII e XIX: segundo um
provrbio mongo, bonkfo fkit ngmom ("a mandioca doce nunca se torna
inhame"), ou seja, um estrangeiro nunca conhece os costumes e a lngua como
um autctone6.




5     V. Drachoussoff, 1947.
6     G. Hulstaert, 1976.
A bacia do Congo e Angola                                                                                 349



    Demografia, sociedade e poltica das zonas densas
    O desenvolvimento das sociedades agrcolas mais complexas teve importan-
tes consequncias para a demografia da frica Central. Geralmente, estima-se
que as sociedades em que a agricultura e a pecuria foram introduzidas progres-
sivamente conservaram por muito tempo uma baixa taxa de crescimento (entre
0,05 e 0,10 % ao ano), bastante prxima da taxa conhecida pelas sociedades
de caa e de colheita. Por outro lado, as sociedades com uma agricultura mais
diversificada conheceram um crescimento claramente mais rpido, estimado
entre 0,10 e 0,15%. Os nmeros referentes a um meio natural difcil como o da
frica so desconhecidos, mas, sem dvida, eles no se distanciam muito deste
modelo. Estendida por mais de dois sculos, uma acelerao da taxa de cres-
cimento desta ordem teria tido uma importncia considervel sobre o nmero
global da populao da frica Central7.
    Certamente, tais nmeros parecem baixos em relao s taxas do sculo XX.
Ocorre que a mortalidade permanecia alta nas sociedades africanas antigas. Em
relao ao sculo XIX, os principais fatores de mortalidade so conhecidos, mas
no  possvel atribuir a cada um deles a dimenso de seu papel no conjunto.
    Em primeiro lugar, fatores histricos e, sobretudo, o trfico e a violncia que
o acompanhava. Enquanto a hemorragia do trfico de homens para a Am-
rica era reduzida de maneira decisiva a partir de 1850, o trfico suali e rabe
substituiu-o a Leste e a Norte da regio em questo. Podemos avanar nmeros
de perdas globais para o conjunto da frica Central8, mas, sem dvida, perma-
necer impossvel situar tais perdas geograficamente, tanto mais que os movi-
mentos contnuos dos grupos e dos indivduos disseminaram, em larga escala,
o impacto do trfico.
    Em seguida, intervieram fatores ecolgicos e epidmicos. Sem dvida, o
sculo XIX assistiu aos primeiros passos de um progresso medicinal na frica
Central: melhor conhecimento das endemias, maior utilizao da quinina e da
vacinao. Entretanto, tais progressos permaneceram limitados aos meios atin-


7    O estudo da histria da demografia africana encontra-se ainda no incio: provisoriamente, limita-se a
     adotar as taxas de crescimento plausveis, a partir de quadros de natalidade e de mortalidade estabeleci-
     dos por sociedades que dispem de tipos anlogos de economia ou de organizao social. Para a regio
     conga, no sculo XVII, um historiador sugere uma taxa de crescimento situada por volta de 0,20% ao
     ano e provavelmente menor para os sculos XVIII e XIX (?): J. Thornton, 1977.
8    Na regio aqui estudada, o trfico suali afetou o Manyema e a bacia do Lomani. Para o conjunto da
     frica Central e Oriental, certos autores estimam em 1,75 milhes o nmero total de escravos sados
     da frica, entre 1800 e 1870, pelos escravagistas sualis. J. D. Fage, 1975.
350                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



gidos pelos comerciantes de Angola ou da costa suali. No total, estas mudanas
ficaram demasiadamente restritas para fazer com que as grandes endemias ou
as ondas epidmicas batessem em retirada9.
    No sculo XIX, o crescimento era, pois, ainda lento, porm, sem dvida, mais
marcado que antes, pois se desenvolveu a partir da base, relativamente elevada,
atingida pela populao da regio. Como antigamente, o excedente populacional
foi absorvido por deslocamentos ou colonizaes na savana ou na floresta clara,
segundo um modo de expanso que deixou profundos traos na memria cole-
tiva (tradies de "migraes"); ou absorvidos, tambm, pelas regies praticantes
de uma agricultura mais diversificada e capazes, desde ento, de "capitalizar
seus excedentes demogrficos", segundo a expresso de P. Gourou. Aqui, uma
ocupao mais sedentria conseguiu vencer definitivamente a hostilidade dos
meios que j tinham sido progressivamente ordenados ao longo dos anos, e que
doravante se tornariam favorveis  ocupao humana10.
    Esta histria material e a histria poltica e social da regio esclarecem-se
mutuamente, sem que haja determinismo em um nico sentido. Em certos casos,
uma zona de densidade desenvolveu-se servindo de suporte a organizaes pol-
ticas hierarquizadas. Esse foi o caso de duas densas regies, Mangbetu e Zande,
no Nordeste da Repblica Democrtica do Congo. No vale do Mbomou e at
o Uele, no Sul, a regio zande conhecia no sculo XIX uma densidade relati-
vamente forte, apesar de guerras mortferas (nos anos 1870, G. Schweinfurth
estimava a densidade em 40 habitantes por km2). O sistema agrrio dos zande
era mais antigo que o poder militar dos avungara, que s tinham comeado a
unificar a regio a partir do final do sculo XVIII. Mas, sob o regime deles, o
termo "zande" tornou-se sinnimo de agricultores-sditos: estes desenvolveram
uma agricultura de alta produtividade, capaz de nutrir uma populao que cres-
cia rapidamente,  medida que as razias e o comrcio de escravos, praticados pela
aristocracia guerreira, acumulavam os cativos e os dependentes.
    Nas regies das colinas, a Oeste e a Leste do lago Kivu, o sculo XIX foi uma
poca de colonizao de novas terras: observamos isso entre os shi, tal como
no Burundi e em Ruanda. Notadamente, a agricultura shi conservava algumas


9     Nosso conhecimento das epidemias permanece fragmentrio: somente a epidemia de varola de 1864-
      -1865 foi relativamente bem documentada. Ela se propagou a partir de Luanda, no Golungo, no Bi, no
      pas congo e at a Nambia; podendo ter causado at 25.000 mortes em um ano (D. Wheeler, 1964, p.
      351-362). Na ocasio de sua viagem  mussumba (capital do Imprio Lunda), em 1885-1886, Carvalho
      reuniu dados sobre a varola nesta regio. Segundo ele, a doena assolava sobretudo aps as guerras e
      devido ao hbito de deixarem os corpos sem sepultura.
10    P. Gourou, 1971, p. 89-90.
A bacia do Congo e Angola                                                                            351




Figura 12.3 Tambores reais do reino kuba, no sculo XIX. [Fonte: J. Vansina, Art history in Africa, 1984,
Longman, Londres.  Institut des Muses nationaux du Zare (INMZ), n 73.381.1, n 73.381.2, 70.8.2 (da
esquerda para a direita).]




variedades das antigas agriculturas praticadas na regio: eleusine, sorgo, taro.
Entretanto, no sculo XIX ou mais tarde, ela absorveu culturas americanas: um
inventrio da agricultura shi do sculo XX revelou trinta e duas variedades de
feijes e quatro variedades de batatas doce, conhecidas antes do perodo colo-
nial11. O sculo XIX tambm foi o perodo de desenvolvimento dos senhorios
ou de pequenos Estados entre os shi. P. Gourou e J. Vansina observaram, em
outros contextos (Ruanda e Kuba), que os fatores polticos puderam encorajar,
simultaneamente, uma acelerao do crescimento demogrfico e uma intensi-
ficao da produo: mostrava-se necessria uma agricultura de produtividade
mais alta para nutrir os clientes, dependentes e cativos que se concentravam nas



11   J. B. Cuypers, 1970.
352                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



capitais ou nos domnios dos senhores. Este fator poltico pode ter ocorrido
entre os shi do sculo XIX.
    O movimento no foi, pois, em um nico sentido: a expanso demogrfica,
possibilitada pela produo de excedentes em crescimento, por sua vez, reclamava
uma nova expanso da produo. Por vezes, essa foi concluda  custa de uma
eroso dos poderes polticos. Na parte ocidental da Repblica Democrtica do
Congo, conhecemos vrios exemplos de regies que, no sculo XIX, se tornaram
reservatrios alimentados por uma importante imigrao, porm, enquanto o
poder dos chefes se enfraquecia, prevaleceu a acumulao em benefcio dos not-
veis de cls, de linhagens ou mesmo de indivduos empreendedores. O crescimento
demogrfico foi ento acompanhado de profundas transformaes sociais.
    Foi assim que, a Oeste do territrio luba propriamente dito (ou seja, da regio
entre os rios Bushimaie e Lubilash), uma marcha pioneira se desenvolveu no
sculo XIX. Os imigrantes eram indivduos, pequenos grupos, linhagens: eles
no apagaram todos os traos dos ocupantes mais antigos, mas onde antes havia
uma grande diversidade de pertences clnicos, progressivamente, no sculo XIX,
se desenvolveu uma solidariedade de civilizao, de lngua e de organizao
poltica (basicamente de pequenos senhorios). Um sentimento tnico nasceu
desta experincia histrica partilhada, em que o crescimento da populao e
da agricultura, mas, tambm, o encorajamento dado  empreitada individual,
desempenharam um papel fundamental. Na mesma poca, a partir dos pequenos
focos de populao densa do alto Tshikapa e do alto Kasai, numerosos jovens
chokwe comearam a abandonar as aldeias (e o poder onipresente dos chefes)
para penetrar na floresta clara, caar os elefantes, instalar colmeias e colher o mel
e a cera. Graas ao domnio das lavouras, satisfazendo-se com solos pobres (a
mandioca, em particular), as mulheres que acompanhavam esses jovens puderam
cultivar os campos. Frequentemente, elas eram originrias dos pequenos centros
lunda, ao longo dos afluentes do Luembe, do Tshikapa etc.
    A assimilao das mulheres lunda no seio da sociedade chokwe ilustra um
fenmeno propagado em todo o "cinto matrilinear": os descendentes de mulhe-
res cativas no reforavam o cl de sua me (isso  o privilgio de um nascimento
livre), mas sim aquele de seu pai. Em toda parte, so numerosos esses descen-
dentes de escravas: entre os congos, so os bana ba nzo (crianas da casa); entre
os chokwe, os ana a tshihunda (crianas da aldeia); entre os pende do Kwilu,
chegaram a constituir a maioria dos membros de cls ricos e poderosos12. As


12    A assimilao dos dependentes  estudada por L. de Sousberghe, 1961.
A bacia do Congo e Angola                                                                              353



genealogias revelam que o processo de assimilao dos cativos era mais difun-
dido no sculo XIX.


     Conquista dos solos pobres
    Os fatores polticos, bem como as aspiraes sociais, ajudam, pois, a com-
preender que as zonas de densidade, s vezes, atraram a imigrao ou, inver-
samente, desempenharam o papel de focos de emigrao, facilitando, assim, o
povoamento das zonas marginais ou pouco ocupadas. A conquista dos solos
relativamente pobres foi, alis, uma das grandes vitrias da agricultura africana
do sculo XIX. Combinada com a criao de animais domsticos, ela permitiu
a consolidao da ocupao humana, notadamente, nas difceis regies do Sul
de Angola.
    Este meio se apresenta como uma regio rida e arenosa, marcada por um
regime irregular de chuvas. As sociedades do Sul de Angola encontravam-se
divididas em uma grande diversidade de povos, distintos uns dos outros por suas
terras e pela importncia varivel atribuda por eles  agricultura e  pecuria,
respectivamente. A solidariedade tnica firmada entre os povos da regio se
explica por uma experincia histrica comum: experincia poltica sob a forma
de Estados que se desenvolveram a partir do final do sculo XVIII e, tambm,
experincia econmica, ditada pelas semelhanas do meio. De fato, acabamos
por dar o mesmo nome, ovambo, a estes povos cujos mais numerosos eram os
kwanyama13, seguidos de longe pelos ndongo, kwambi etc. Todos viviam na bacia
do Cuvelai, em um territrio limitado pelo Cunene e pelo Cubango (Okavango).
Foram as cheias do Cuvelai e a inundao das savanas ervosas que permitiram
aos ovambo vencer a seca e dar s partes ocupadas da regio este aspecto de
jardim, descrito pelos viajantes do sculo XIX: os ovambo praticavam a irrigao
e, graas  pecuria, o adubo dos campos.
    Tal como em outras regies densas, a passagem para uma agricultura mais
intensiva foi facilitada pela absoro de imigrantes e, notadamente, de cativos
que sofreram as razias no Sul das terras altas ovimbundo. Embora certas plan-
tas americanas (amendoim, feijes, um pouco de milho) fossem conhecidas, as
variedades americanas no haviam penetrado aqui to profundamente quanto
no centro de Angola. O milhete e o sorgo permaneceram como culturas de base,
resistindo  seca. O poder estava estreitamente ligado ao sistema de produo:

13   Em 1845, o primeiro viajante letrado da regio, B. J. Brochado, estimava seu nmero em 120.000.
354                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



"fazedor de chuva", o rei era tambm responsvel pela diviso das terras e pela
organizao dos trabalhos de represamento do rio e dos outros trabalhos de
irrigao14.
    No trmino desta evoluo, podemos afirmar que as antigas desigualdades
na diviso do povoamento acentuaram-se provavelmente no sculo XIX. A
existncia de um excedente, possibilitado pelo aumento da produo agrcola,
conduziu a um crescimento demogrfico bastante rpido em certas zonas, como
o Ovambo, o Ovimbundo, o Luba ou, na Repblica Democrtica do Congo,
toda a zona situada em torno do 5 paralelo sul etc. Isso resultou no surgimento
de movimentos migratrios em outras regies, fenmenos ainda reforados
pelas diversas influncias dos fatores econmicos e sociais. Em alguns casos, os
fatores econmicos encorajaram o avano da colheita, notadamente a extrao
do marfim e a recolha da cera pelos chokwe e, portanto, a disperso pela floresta.
Em outros casos, como isso se produziu frequentemente nos vales, tais fatores
favoreceram o reagrupamento de uma populao heterclita em centros comer-
ciais e aglomeraes. Isso nos leva a examinar, aps a produo, a influncia que
o comrcio e as trocas mundiais exerceram na frica Central.


      A frica Central nos fluxos e refluxos da
      economia mundial do sculo XIX
    No curso dos sculos em que vimos o estabelecimento progressivo de um
sistema no qual a agricultura, a pecuria, a pesca e a colheita formavam a base
das atividades de produo, sempre existiu na frica Central um setor de trocas,
ocupando um lugar mais ou menos importante segundo as circunstncias hist-
ricas. Em regra geral, a dificuldade e o custo dos transportes, por muito tempo,
limitaram as trocas a alguns produtos preciosos  sal, ferro, bens de prestgio
(cobre, estofos de rfia etc.) , ao passo que os produtos agrcolas geralmente
no eram transportados por grandes distncias.
    O avano de uma economia mercantil mundial, a partir do sculo XVI, pesou
progressivamente na organizao da vida econmica em regies cada vez mais
estendidas da frica Central: ainda desse ponto de vista, o sculo XIX se ins-
creve em uma continuidade, a de relaes mercantis desiguais, com o capitalismo
comercial. Entretanto, a partir dos anos 1850, uma profunda mudana foi ence-


14    O trabalho fundamental, no que tange  regio, continua sendo aquele de C. Estermann, 1956-1961. Para
      um bom apontamento sobre a questo, no sculo XIX, ver W. G. Clarence-Smith e R. Moorsom, 1975.
A bacia do Congo e Angola                                                                         355



tada. O comrcio de homens, pouco a pouco, deixou de constituir o bsico das
"exportaes" da frica Central para o resto do mundo. Na verdade, assistimos
a um aumento das trocas, tendo por objeto os grandes produtos da economia
de colheita: marfim, cera, copal, leo, caf etc. A progresso desta economia
comercial  inegvel: o valor do movimento comercial dos portos angolanos foi
multiplicado por sete entre 1844 e 1881; o faturamento em espcies do ramo
de Luanda do Banco Nacional Ultramarino foi multiplicado por dez entre 1865
e 1876. Entretanto, no incio dos anos 1870, o valor dos produtos de colheita
exportados ainda atingia apenas o dobro das exportaes de escravos nos anos
182015.
   A amplitude destas exportaes de produtos africanos para os mercados
mundiais dependia do estado das redes de comunicao e de troca no interior
do continente. Essas redes, suas convenes comerciais e suas moedas de troca
ocasionaram, por sua vez, o surgimento de grandes espaos econmicos no mapa
da frica Central do sculo XIX, novas "fronteiras" que recobriam e remodela-
vam os antigos espaos polticos e econmicos da regio.
   Esses novos espaos foram dominados pelas exigncias dos centros que
moviam a economia mundial no sculo XIX: cada um desses espaos domina-
dos possua suas tradies histricas, suas caractersticas polticas e sociais, mas
partilhava com os outros esse trao comum que transformava aspectos impor-
tantes da antiga organizao econmica africana, e a unia, de maneira mais ou
menos frouxa,  economia mundial.


     Espaos econmicos e redes comerciais
   Distinguimos quatro grandes espaos econmicos na frica Central dos
anos 1800-1880. Dois dentre eles foram caracterizados pelo papel importante
que comerciantes muulmanos neles desempenharam. No Nordeste da regio
em foco, encontramos os postos avanados de comerciantes do Cairo, do Mar
Vermelho e de Cartum, que drenaram o Bahr al Ghazal e a regio a Sul do
Uele. Tal rede se desenvolveu a partir das expedies comerciais e militares que
o pax do Egito, Muhammad `Al, havia lanado no Sudo e em Darfur. Por
volta de 1850, a penetrao egpcia atingiu o Bahr al Ghazal: a, os comerciantes
egpcios, coptas e europeus adotaram as tcnicas desenvolvidas, desde o sculo


15   As estatsticas econmicas de Angola do sculo XIX esto dispersas em numerosas publicaes. Para
     alguns dados de base, ver R. J. Hammond, 1966, notadamente p. 73-74, e a bibliografia dessa obra.
356                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 12.4 Munza, rei dos mangbetu, em 1870. [Fonte: G. Schweinfurth, The heart of Africa, 1873, Samp-
son, Low, Marston, Low and Searl, Londres, vol. I, frontispcio. Ilustrao reproduzida com a autorizao do
Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]
Figura 12.5 Kazembe em 1831. [Fonte: A. C. P. Gamitto (trad. I. Cunnison), King Kazembe, 1960, Atica,
Lisboa. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Univer-
sidade de Cambridge.]



XVIII, pelas colunas dos sultes de Darfur. Eles construram zeriba, postos forti-
ficados avanados ou simples barricadas de plantas espinhosas, que lhes serviam
de pontos de apoio durante as operaes de escambo ou durante as razias. Um
viajante europeu, G. Schweinfurth, acompanhou alguns destes comerciantes
durante a dcada de 1870 e deixou uma documentao preciosa sobre os reinos
xande e mangbetu, no momento de seus primeiros contatos regulares com o
comrcio sudans.
    Dentre os traos caractersticos da rede sudanesa,  preciso assinalar partilhas
de influncia entre monoplios de Estado e comrcio privado, o uso metdico
na fora, graas, em particular, ao recrutamento de mercenrios locais, e uma
poltica de desenvolvimento de plantaes comerciais (de algodo, por exemplo):
A bacia do Congo e Angola                                                    357



esses objetivos e mtodos estiveram dentre as fontes de inspirao do rei dos
belgas, Leopoldo II, quando ele tentou forjar para si um imprio comercial na
bacia do Zaire.
    Desde os anos 1860, grandes extenses da frica Central eram incorpora-
das em uma rede comercial que tinha suas bases nos portos e entrepostos da
costa suali do Oceano ndico: Zanzibar, Bagamoyo etc. Os itinerrios sualis
penetraram a regio a Leste do Lomami por dois grandes feixes de pistas: um
"corredor" atravessava o Unyanyembe, no centro da atual Tanznia, e atravessava
o Lago Tanganica, notadamente a partir de Ujiji. Uma outra via atingia a regio
do Luapula-Moero a partir do Lago Malaui, ou ainda, da regio sudoeste da
Tanznia.
    Por muito tempo, a rede suali se distinguiu por pequenas caravanas que
residiam na corte de chefes influentes (o chefe lunda Kazembe, por exemplo).
Entretanto, nos anos 1870, assistiu-se ao nascimento de principados comercian-
tes: o mais clebre foi o de Tippu Tip, estabelecido desde 1875 em Kasongo, e
que dominou o comrcio de longa distncia no Sankuru e no "imprio" luba. Foi
graas  zona suali que esta rede se tornaria o primeiro ponto de apoio para a
penetrao colonial na parte oriental da frica Central.
    As duas outras redes que se estendiam pela frica Central estavam anco-
radas nos postos avanados mercantis europeus da costa atlntica, fossem cen-
tros portugueses (Luanda, Benguela, Momedes), fossem feitorias holandesas,
francesas, inglesas etc., no baixo rio e ao longo da costa norte de Angola. Esta
ltima regio era basicamente alimentada pelo comrcio congo, fundado em
sociedades do Kwango-Kwilu, onde se difundiu um kikongo veicular  o kituba
 largamente empregado.
    O comrcio fluvial se desenvolveu na segunda metade do sculo XIX, suplan-
tando os antigos itinerrios do comrcio por vias terrestres. Os ribeirinhos,
particularmente da confluncia Oubangui-Zaire, ou do prprio Zaire, na altura
da linha do equador, dominaram sem diviso o comrcio por vias fluviais, pois
eram os nicos a possuir e a utilizar pirogas. Estes diferentes grupos difundiram
sua lngua, o babangi, que se tornou a lngua franca da regio do equador e foi
mais tarde adotada pelos colonizadores da regio. Eles estabeleceram centros
comerciais (Lukolela, por exemplo), desceram o rio at os mercados tio do Pool
e subiram pelos rios do interior, obtendo marfim e escravos (sobretudo mongo)
e introduzindo nas regies da floresta mida grandes produtos do trfico, at
ento desconhecidos: fuzis, anis de cobre, novas variedades de cultura etc.
Vimos que o trfico encorajou a formao de pequenos centros de povoao de
cativos, refugiados etc., reunidos em torno de um centro comercial nas margens
358                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 12.6   A frica Central do Oeste: espaos comerciais por volta de 1880 (segundo J.-L. Vellut).
A bacia do Congo e Angola                                                                                  359




Figura 12.7    Mulher da aristocracia kimbundu com sua escrava, nos anos 1850.
Figura 12.8 Guerreiro kimbundo e mulher da aristocracia, nos anos 1850. [Fonte: L. Magyar, Reisen in
Sdafrika in den Jahren 1849 bis 1857, 1859, Pest e Leipzig, vol. I. Ilustraes reproduzidas com a autorizao
do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



do rio ou, simplesmente, junto a indivduos enriquecidos pelo comrcio16: Foi
o caso de Ngaliema, antigo escravo enriquecido, que dominou a regio do Pool
por volta de 1880. Quando da ocupao colonial, os postos do Estado, feitorias
e misses recorreram aos mesmos procedimentos e criaram aglomeraes de
cativos, segundo aquelas dos antigos pirogueiros.
   A rede luso-africana era a mais antiga e a mais complexa na frica Central17.
Podemos seguir, ao longo do sculo XIX, as variaes do mapa de seus itiner-
rios. Na primeira parte do sculo, os principais feixes de pistas ou "corredores"
chegavam a Luanda e a Benguela. Trs grandes regies econmicas e culturais
encontravam-se ancoradas nas vias de acesso conduzindo a Luanda: a zona
conga e sua rede "mubire" (vili), pelo intermdio dos senhores do Kwango (nota-
damente, holo) e de Encoge, posto fortificado angolano; a zona dos Estados

16   A expresso "grande comrcio do rio" deve-se a G. Sautter, que forneceu um primeiro esboo. Trabalhos
     mais recentes: J. Vansina, 1973; R. Tonnoir, 1970; e o comentrio de B. Jewsiewicki, L'administration colo
     niale et la tradition; a propsito de Giribuma, ver R. Tonnoir, 1974. Ver tambm G. Hulstaert, 1976.
17   J.-L. Vellut, 1972.
360                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 12.9 Chifre de elefante esculpido, da metade do sculo XIX, proveniente da costa de Loango, no
Congo/Angola, representando cenas do comrcio e dos europeus. [Fonte: J. Vansina, Art history in Africa,
1974, Longman, Londres.  The Walters Art Gallery, Baltimore.]
A bacia do Congo e Angola                                                              361



lunda ocidentais, fosse atravs dos imbangala de Cassange e de um outro posto
avanado angolano, Ambaca, fosse ainda pela regio songo e pungo andongo; e,
por fim, a regio ovimbundo, em regulares relaes com Pungo Andongo e com
os outros postos angolanos do vale do Kwanza. Uma outra via ligava as altas
terras ovimbundu  costa: tratava-se dos itinerrios que conduziam a Caconda
e Benguela. Por este "corredor", os comerciantes penetravam no Sul e no Leste,
nas regies nyaneka, nkumbi e ganguela. Nos anos 1840, os reinos luyi e lunda
foram igualmente incorporados a esta rede.
    No curso da segunda metade do sculo XIX, a rede ganhou uma nova ampli-
tude. Os habitantes da regio de Ambaca, ou ambaquistas, comearam a frequentar
a mussumba do Mwant yav, sobretudo sob o reinado de Muteba. Eles recorriam a
uma via direta, evitando Cassange, a partir do novo posto portugus de Malanje
(1857). Os comerciantes deste posto logo estabeleceram uma estalagem perto de
um senhorio lunda, Kimbundu, a meio caminho da via da mussumba. Com o decl-
nio do comrcio tributrio lunda e na esteira da expanso chokwe, os ambaquistas
abriram itinerrios rumo ao vale Lulua, na regio luba, e alcanaram os merca-
dos da periferia kuba. Nessa localidade, abriram concorrncia com as caravanas
ovimbundo que, na dcada de 1870, contornaram o Estado lunda da Kalagne e
comerciaram com os Estados luba, comprando escravos que, em seguida, seriam
negociados por eles junto aos kuba, grandes fornecedores de marfim.
    Podemos estabelecer uma hierarquia dos centros comerciais dos grandes
espaos econmicos desenhados pela economia do trfico, segundo a complexi-
dade e a diversidade das funes ocupadas por eles no seio da economia domi-
nante: crditos aos comerciantes, armazenagem, condicionamento, armamento
de expedies comerciais etc. Luanda, seguida por Benguela e, na segunda
metade do sculo, Momedes concentravam as operaes mais complexas e
eram a sede das principais firmas comerciais. A Luanda do sculo XIX possua
traos arquitetnicos e instituies caractersticas das cidades portuguesas dos
trpicos, no Brasil, na frica ou na ndia. Mas era tambm uma cidade original
onde o elemento portugus era frequentemente dominado pela cultura crioula
e africana. Ali, as fortunas eram feitas e desfeitas rapidamente. Um visitante dos
anos 1840 descreveu o baile do governador, no qual se encontrava uma mulher,
enfeitada com ouro e joias, vinda a Luanda como escrava, um homem que estava
na costa como prisioneiro, a bordo de um navio negreiro, e um outro cuja infn-
cia fora passada nas ruelas dos subrbios populosos de Lisboa18.


18   O mdico alemo G. Tams, que visitou Luanda em 1841, citado por A. Stamm, 1972.
362                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Aproximadamente em 1850, entre os postos angolanos do interior, nada
alcanava a importncia de Luanda com seus 6 a 10 mil habitantes. Nos "cor-
redores" do interior, destacavam-se vrias estalagens principais, nas quais eram
feitas as rupturas de carga, onde eram recrutados novos carregadores e onde
era organizada uma importante parte do crdito etc. Era nesses pequenos cen-
tros que se reagrupavam a maioria dos raros europeus e mestios praticando o
comrcio no interior. No interior de Luanda, Dondo era o principal centro de
comrcio com a margem esquerda do Kwanza, mas que ganhou importncia
durante os ciclos do caf e da borracha, e Pungo Andongo: esse ltimo ponto
ocupava uma posio chave, ponto de partida dos comerciantes para a regio
dos senhorios lunda e ponto de convergncia das vias terrestres entre Benguela
e Luanda19. No Sul, Caconda, ocupava uma posio semelhante, orientada desta
vez para os povos do Sul das altas terras ovimbundu, bem como para o Bi.
Esse ltimo reino era um importante centro secundrio da rede, onde os carre-
gadores eram substitudos, as mercadorias compradas e os crditos negociados.
Encontrava-se a uma colnia luso-africana de uma centena de pessoas, cuja
maioria era de origem africana ou mestia (mbundu de Golungo, ambaquistas,
"mambari" do Bi etc.).
    Enfim, nesta rede de comrcio tributrio, alguns centros (tais como a mus
sumba, Bunkeya, as capitais dos pequenos senhorios ou os mercados das socie-
dades no centralizadas) constituam os pontos finais do sistema e eram sede
de intensas transaes.
    Tal sistema era caracterizado pelos contrastes que aumentavam entre as
zonas monopolizadoras das operaes rentveis  centralizao de importantes
quantidades de produtos, manuteno, comercializao  e aquelas onde as pos-
sibilidades de acumulao eram mais reduzidas. As regies privilegiadas apre-
sentavam um aspecto bem diferente das outras: as armas, os estofos e os escravos
domsticos eram numerosos nas primeiras, raros entre as outras. Veremos que
os esforos portugueses para monopolizar os benefcios da rede, eliminando os
"intermedirios" africanos, corresponderam com os perodos de recesso econ-
mica. Por outro lado, durante os perodos de crescimento comercial, o essencial
do comrcio do interior era conduzido pelos africanos.
    Ao longo do sculo XIX, a rede teve que se adaptar a alguns grandes ciclos
comerciais. At os anos 1840, assistimos ao ntido domnio do ciclo dos escravos
e da atividade comercial luso-africana correlata. Na verdade, este perodo foi o


19    J. C. Feo Cardozo, 1825, p. 355.
A bacia do Congo e Angola                                                                         363




Figura 12.10 Uma caravana de mercadores ovimbundo durante um pouso. [Fonte: F. S. Arnot, Bihe and
Garengaze, 1893, J. E. Hawkins and Co. Ltd. Foto reproduzida com a autorizao do Conselho de Adminis-
trao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



mais desastroso da histria do trfico angolano. O nmero de escravos expor-
tados anualmente dos portos da frica Central (da costa do Loango at o Sul
de Angola), nos anos 1780-1830,  estimado em um total que oscila entre 15
e 20 mil. O principal importador era o Brasil e o principal fornecedor, Angola.
No sculo XIX, foi a mo de obra servil angolana que permitiu a expanso da
economia cafeeira do Rio de Janeiro e de So Paulo.
   No conjunto, o trfico atlntico, mesmo clandestino, extinguiu-se ao longo
dos anos 1850, salvo, entretanto, na regio do baixo rio, onde ele subsistiu fora
do controle portugus at o desaparecimento dos ltimos mercados escravagistas
da Amrica Latina, por volta do fim dos anos 1860.
   Durante o resto do sculo XIX, as exportaes de Angola se limitaram a
alguns produtos agrcolas (caf, acar) ou, sobretudo, de caa e de colheita,
principalmente a cera e o marfim. Todavia, no ltimo tero do sculo, o caf de
colheita, o copal, o leo de palma e, logo, a borracha das ervas vieram diversificar
o inventrio das exportaes dos produtos de colheita.
   Mudando as condies da acumulao de riquezas, o desenvolvimento dos
grandes espaos econmicos africanos tambm acarretou um agravamento da
364                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



opresso social. Da mesma forma que na regio do rio, ou nas zonas rabe ou
suali, a zona luso-africana provocou o desenvolvimento de um setor de produ-
o escravagista. Certamente, as economias tributveis da savana conheciam a
existncia de um setor parecido: os campos dos principais ttulos polticos da
mussumba, por exemplo, eram cultivados por uma mo de obra servil. Entretanto,
no sculo XIX, a acumulao de cativos por certos grupos privilegiados cami-
nhava frequentemente lado a lado com o avano de um setor de trocas, mais
ligado ao mercado que ao tributo. Vimos o papel desempenhado pelos "escravos
domsticos" na expanso demogrfica e agrcola de certas sociedades da regio
(Congo, Ovimbundo, Ovambo etc.).
    Na sociedade colonial angolana, da mesma forma, o setor escravagista estava
ligado  economia capitalista mercantil e ganhou uma importncia assaz con-
sidervel na segunda metade do sculo XIX. Apesar de certas nuances jurdicas
 a escravido foi formalmente suprimida em Angola em 1878 , foi principal-
mente o setor escravista que esteve na base do avano da produo de algodo,
de caf de plantao e, sobretudo, de cana-de-acar: no fim do nosso perodo,
foi a cana-de-acar angolana, destilada, que forneceu a cachaa indispensvel
s trocas do serto20. Nas regies situadas a Sul das altas terras ovimbundu, foi
ainda a mo de obra servil que alimentou o mercado de trabalho suscitado pelos
primeiros passos da implantao branca.


      O imperialismo portugus em Angola
    No sculo XIX, a existncia de grandes espaos comerciais na frica Central
e a natureza de suas ligaes com a economia mundial so a chave da histria
do imperialismo nesta regio. De fato, neste perodo, no se tratava ainda de
imperialismo financeiro, ao menos na frica Central, mas de novas formas de
imperialismo comercial. Ao longo do sculo XIX, distinguem-se algumas gran-
des fases de expanso e de contrao das possesses portuguesas em Angola: tais
movimentos mostram claramente as hesitaes dos governantes portugueses da
colnia entre dois modelos de hegemonia sobre as economias comerciais africa-
nas. Fosse porque este novo imperialismo portugus se apresentou como uma
dominao puramente comercial, com uma ocupao administrativa e militar
reduzida no mnimo, e com um nico objetivo declarado, aquele de fazer circu-
lar os bens, em colaborao com um setor mercantil africano ativo e ampliado.

20    No original francs, a palavra  grafada em lngua portuguesa: "serto". (N.T.)
A bacia do Congo e Angola                                                                                365



Fosse porque se tratava de inserir as colnias da frica no espao econmico
de Portugal, protegendo o comrcio nacional, mas tambm, e sobretudo, forne-
cendo um mercado s primeiras indstrias portuguesas. Desta vez, a questo era
desenvolver a ocupao, reduzir o papel dos intermedirios africanos e encorajar
os mercadores coloniais, diversificar a produo das matrias-primas da colnia,
assegurar um mercado s novas manufaturas da metrpole, sobretudo graas a
uma poltica de unificao poltica e administrativa entre Portugal e suas "pro-
vncias" da frica. Foi no mesmo contexto de assimilao que se inscreveu a
tendncia de apoio aos "colonos brancos" no Sul de Angola.
    Ao longo do sculo XIX, estas duas tendncias, ou para a contrao, ou, do
contrrio, para a expanso territorial, se sucederam em um movimento pendular.
Ocorre que elas estiveram ligadas s conjecturas econmicas e s transformaes
estruturais da economia portuguesa. Por certo, os acontecimentos desempenha-
ram seu papel (as derrotas militares infligidas pelos africanos aos portugueses
ajudam a compreender o refluxo da ocupao colonial nos anos 1862-1872). As
personalidades desempenharam tambm um papel importante: um tal governa-
dor associou-se a uma poltica agressiva e de ocupao mxima, outro se associou
ao recuo aos postos costeiros. Todavia, tais fatores s ganham sentido quando
inseridos no contexto dos movimentos da economia mundial, sobretudo tais
como afetaram a economia portuguesa: o imperialismo portugus no escapou
s regras comuns de expanso colonial do sculo XIX21.
    Foi assim que a determinao dos protecionistas, preocupados em unir Por-
tugal e suas colnias em um espao econmico independente das grandes potn-
cias industriais, se traduziu nas primeiras tentativas de colonizao branca no Sul
de Angola (e, primeiramente, na costa, em Momedes, e no pas nyancka, em
Hula). Ainda foi o esprito de conquista que dominou os anos 1850, os quais
assistiram aos esforos tenazes da parte dos portugueses para ocupar o terreno
e eliminar a concorrncia comercial africana, sobretudo aquela dos imbangala
e dos congos. Somente em 1860 se principiou uma inverso, ao passo que um
perodo de forte avano comercial encetara alguns anos antes. Uma poltica de
retirada portuguesa se generalizou ento: durante os anos 1862-1875, assisti-
mos a um refluxo, pontuado por derrotas militares resignadas dos portugueses
(em Cassange, em 1862, contra os dembo, em 1871-1872). No incio dos anos
1870, o recuo foi geral: a Angola colonial retirou-se no litoral, ao passo que,


21   Esta opinio no  aceita por D. L. Wheerler e R. Plissier, 1971, p. 51-83; tais autores do uma expli-
     cao puramente poltica dos fluxos e refluxos da penetrao portuguesa em Angola. Esta mesma linha
      adotada por R. J. Hammond, 1969.
366                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



no serto, o comrcio se africanizou rapidamente. Assim, Silva Porto, o grande
sertanejo22 do Bi, perdeu toda sua fortuna nesta poca, vtima da concorrncia
dos comerciantes ovimbundu. Angola conhecia, neste momento, um rpido
crescimento comercial: entre 1867 e 1873, a tonelagem na descida do Kwanza,
desde Dondo, foi multiplicada por sete.
    Mas, logo, a colnia portuguesa se engajou em uma nova fase de expanso
territorial. Desde 1873, entrava-se em um perodo de contrao econmica
mundial e a concorrncia comeava a se tornar agressiva entre as potncias
estrangeiras desejosas de obter uma parte do "bolo africano"23. Mesmo em
Angola, este perodo foi inaugurado com uma recesso profunda em razo de
uma seca prolongada e de uma crise do crdito (1874-1876). Entretanto, foi
tambm o momento dos primeiros trabalhos para a construo da estrada de
ferro de Luanda, rumo ao interior, e das tentativas para conter, atravs de acordos
diplomticos, as ameaas representadas pelos recm-chegados  frica Central.
Foi tambm o momento das primeiras expedies de "exploradores" portugueses,
lanadas na esteira dos viajantes alemes, ingleses etc., e realizadas em Luanda e
no interior. A histria da frica Central se aproximava de uma etapa decisiva.


      Poder e sociedade na frica Central
      (aproximadamente 18001880)
   Na frica Central do sculo XIX, a histria poltica e social se inscreveu, a
princpio, em uma tradio antiga. Por mais tempo que a documentao oral
e escrita permita remontar, vemos que as sociedades da regio hesitaram entre
dois modelos de poder: aquele, hierarquizado, definido e tributrio, dos reinos
ou, no outro extremo, aquele, mais igualitrio e mais informal, do governo pelos
conselhos de ancies ou de notveis24.
   Esses dois modelos eram complementares e, na prtica, existia uma grande
variedade de situaes intermedirias, hesitaes e compromissos diversos.
As exigncias do meio e das atividades econmicas, tal como certas circuns-
tncias histricas e mesmo de pessoas, favoreceram um tipo de organizao



22    No original francs, a palavra  grafada em lngua portuguesa: "sertanejo". (N.T.)
23    A expresso  de Leopoldo II e foi citada notadamente por J. Stengers, 1962, p. 490.
24    Para slidas anlises da noo de poder em duas sociedades das savanas do Oeste, os congos e os tio, ver
      os respectivos estudos de W. McGaffey, 1970, e J. Vansina, 1973.
A bacia do Congo e Angola                                                                           367




Figura 12.11 Esttua chokwe representando Chibinda Ilunga, o lendrio fundador do Imprio lunda. Obra
datando provavelmente do sculo XIX. [Fonte: J. Vansina, Art history in Africa, 1984, Longman, Londres. 
Museum fr Vlkerkunde, Berlim.]



aproximando-se, quer do modelo real (com suas qualidades de ordem e de segu-
rana), quer do ideal democrtico, mais flexvel e menos constrangedor.
   Na poca que nos interessa aqui, encontravam-se na frica Central alguns
exemplos de sistemas administrativos caracterizados por uma hierarquia estvel
e permanente, e capazes de reagrupar uma populao assaz numerosa em centros
ou capitais. Tais casos no foram, entretanto, os mais comuns, pois apenas uma
conjuno de vrios fatores podia permitir a ascenso de um ttulo poltico e
368                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



a constituio de um Estado. Fundamento material da organizao do Estado,
a economia de carter tributvel supunha a existncia de um setor agrcola
bastante desenvolvido. Entretanto, a agricultura apenas oferecia possibilidades
bastante reduzidas de acumulao. As taxas impostas sobre a produo do sal,
do cobre e do ferro favoreceram contudo um nvel de apropriao mais elevado.
O mesmo vale para o tributo arrecadado na ocasio das guerras e das razias.
Por fim, o tributo era recolhido sobre o setor das trocas: o poder dos chefes se
apoiava assim sobre a existncia de mercados, de redes de troca e de comunica-
o que permitiam a imposio de monoplios ou de diversas formas de taxao
e outros pedgios.
    O crescimento ou a regresso de um ou outro destes setores ajuda-nos a
compreender o avano ou, pelo contrrio, a eroso do poder dos Estados ou
senhorios no sculo XIX, como tambm nas pocas anteriores. O que distin-
guiu o sculo XIX foi o fato de uma grande mobilidade social ter permitido
um acesso rpido a papis outrora reservados aos chefes, ou simplesmente ter
favorecido o empreendimento de certos indivduos, quer no seio dos poderes
monarquistas, quer atravs dos cls e das linhagens. Monoplios e tributos no
conseguiram controlar as trocas em expanso: durante o sculo XIX, o avano
do comrcio ocorreu frequentemente em detrimento do poder material das
aristocracias baseadas nos ttulos polticos.
    Todavia, alm destes aspectos materiais, o poder tambm possua aspectos
rituais, representados pelas insgnias ou pelos feitios contra os inimigos inte-
riores e exteriores. Qual foi a evoluo dos poderes rituais e msticos em um
perodo marcado pelas rpidas reviravoltas no domnio militar e econmico?
Enquanto esta histria no for escrita, a compreenso da histria da regio
continuar parcial e dominada por uma problemtica insensvel s profundas
aspiraes das antigas sociedades da frica Central.


      Sociedades Estatais
   Antigos reinos sobreviveram s tormentas do sculo XIX. O mesmo ocorreu
com o Estado lunda de Kalagne. Esse Estado alcanou seu apogeu na primeira
metade do sculo XIX, antes de entrar em um perodo de declnio a partir dos
anos 1870. No princpio, Kalagne tinha sido associado a uma zona de populao
densa que no ultrapassava muito um territrio situado a Leste do Lulua, entre
os 8 e 9 graus de latitude sul e os 23 e 24 graus de longitude leste. Primei-
ramente concentrada ao longo dos cursos de gua, em particular do Kalagne, a
A bacia do Congo e Angola                                                    369



populao lunda enviou emigrantes s regies vizinhas durante os sculos XVIII
e XIX; tais emigraes tenderam, em seguida, a formar entidades polticas,
mas elas se explicam tambm pela vontade de escapar s requisies de cativos
ordenadas pelos chefes. No incio do sculo XIX, isso esteve notadamente na
origem do povoamento lunda no Sul do estado de Kalagne, nas regies chokwe
e luval.
    O principal ttulo lunda era aquele de Mwant yav. Tal ttulo era originrio
do vale do Kalagne e, a partir do sculo XVIII ou mais tarde, esteve no cerne
de uma rede poltica na qual se reuniam, segundo a linguagem simblica do
parentesco perptuo, numerosos senhorios lunda, entre o Kwango a Oeste e o
Luapula a Leste.
    Dentre os reinados importantes da dinastia de Kalagne,  necessrio desta-
car, no sculo XIX, de Nawej (por volta de 1820-1852). Seu reinado assistiu a
um reforo do poder do Mwant yav: Nawej era temido por suas vinganas e
pelos tributos obrigatrios que cobrava dos senhores indceis, fosse pela fora
das armas, fosse tambm pela utilizao sem escrpulo dos servios dos feiti-
ceiros. No que concerne  caa, Nawej sempre preferiu o uso de arcos e flechas.
Entretanto, foi sob seu reinado que os guerreiros lunda comearam a usar as
armas de fogo provenientes de Angola (lazarinas). Convidados por Nawej, os
caadores chokwe comearam a frequentar o territrio lunda, servindo-se de
armas de fogo e, pouco a pouco, empurrando os elefantes para o Norte. Certos
chokwe visitaram a capital por volta de 1840, levando armas de fogo e plvora,
e alguns se estabeleceram no pas lunda. Nawej se esforou para manter uma
boa relao entre os dois povos, porm em vo, pois as rivalidades entre ttulos
lunda e chokwe no tardaram a se manifestar.
    Os imbangala de Cassange haviam comeado a frequentar a mussumba desde
o incio da dinastia dos Mwant yav. Entretanto, o reino de Nawej ficou marcado
pelo avano do comrcio de longa distncia, sempre com os imbangala, mas logo
tambm com os ovimbundu e os "mambari". Falava-se ainda, no fim do sculo
XIX, das caravanas enviadas por conta da rica comerciante de Luanda, Dona
Ana Joaquina (Na Andembo); a lembrana das caravanas reais despachadas
por Nawej a Luanda,  casa de Dona Ana ou ao jaga de Cassange, tambm
permanecia viva.
    Contudo, Nawej gozava de uma m reputao entre os comerciantes, que o
acusavam de atrasar interminavelmente o pagamento de seus crditos. Qual-
quer pretexto lhe servia para proceder  apreenso de bens. Seus descendentes
diretos eram muito numerosos e, logo, os pretendentes ao trono murmuraram
que Nawej tinha usufrudo muito do Estado e que a hora dos mais jovens havia
370                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



chegado. Apanhado por uma doena, ele morreu sufocado por seu irmo Mulaj,
o qual lhe furtou o bracelete  insgnia do poder (lukano)  e foi reconhecido
como mwant yav. Os anos seguintes foram dominados por lutas intestinas,
provisoriamente abrandadas pelo longo reinado de Muteba (por volta de 1857-
-1873): estes anos pacficos viram as grandes caravanas residirem, durante a
estao das chuvas, na mussumba e serem bem tratadas pelo mwant yav.
    A partir do reinado do mwant yav Muteba, a mussumba abrigou colnias
de viajantes mbundu: o fundador da primeira colnia destes ambaquistas foi
Loureno Bezerra, conhecido entre os lunda sob a alcunha de Lufuma (apro-
ximadamente em 1850-1883). Originrio de Golungo, ele se fixou na mus
sumba por volta de 1850 e passou uma trintena de anos na corte do mwant yav,
aproveitando-se, por muito tempo, das boas disposies de Muteba para com
os comerciantes angolanos. A colnia de Lufuma se instalou, em 1869, nos
acessos imediatos de Luambata, a nova mussumba de Muteba, e introduziu a
agricultura e a pecuria mbundu na regio. O prprio mwant yav seguia de perto
a lavoura destes campos, que aliavam aportes brasileiros e portugueses (arroz,
tabaco, milho etc.) aos produtos africanos. Os angolanos de Luambata tambm
se tornaram artesos (ferreiro, teceles, oleiros, escribas etc.). A colnia prati-
cava o comrcio tributrio, paralelamente quele dos notveis lunda: nenhuma
transao podia acontecer sem a interveno de Lufuma. Esse, com o passar dos
anos, havia formado uma clientela de cativos, escravos alforriados etc., que, em
1882, o acompanharam na ocasio de seu retorno definitivo  regio de Malanje.
Nos anos 1850-1880, a colnia foi, assim, um ponto de apoio fundamental do
comrcio regido pelos ttulos aristocrticos da corte lunda e por empreende-
dores angolanos, ancorados no pas por numerosas ligaes matrimoniais e
praticando o comrcio tributrio, bem conhecido na regio. De fato, Lufuma
tinha se tornado um ttulo lunda, como o mostra o papel que desempenhou na
vida da corte: por exemplo, foi ele o organizador dos funerais da lukonkesh do
mwant yav Muteba.
    Nos anos 1870, a expanso chokwe continuou: fugindo de suas aldeias e de
seus chefes sob pretexto de feitiaria, ligados  economia da colheita, buscando
cera, marfim e, em seguida, borracha, incorporando cativos, mulheres e jovens s
linhagens patrilineares, logo os chokwe foram potentes o suficiente para eclipsar
o poder dos chefes lunda da regio, entre os rios Tshikapa e Kasai. Nesta regio,
as aldeias e os senhorios lunda se dispersaram: foi um perodo de decadncia
para o antigo poder aristocrtico lunda. Tal corrente foi reforada pelas dissen-
ses no seio da mussumba; um chefe importante, Shanam, fez uma aliana com
os chokwe e conquistou o poder graas a eles. O reinado deste mwant yav (que
A bacia do Congo e Angola                                                       371



ganhou o nome de Mbumba) foi sangrento. Ele continuou a utilizar os chokwe a
fim de impor uma ameaa aos vassalos lunda. Aps sua morte (1883), os chokwe
quiseram ving-lo. Seus guerreiros conseguiram obter o lukano para Mushidi,
filho de Mbumba criado por uma famlia adotiva chokwe.


    Senhorios: os poderes fragmentados
    No obstante as profundas transformaes sociais que a regio lunda-chokwe
conheceu no ltimo quarto do sculo XIX, as aristocracias lunda no se apagaram
por completo. Alhures, Estados se fragmentaram de diversas formas, fosse porque
antigos Estados centralizados tinham se transformado em redes de senhorios
unidos informalmente uns aos outros, mas sem serem submetidos a um centro
comum; fosse, ainda, porque a descentralizao tinha sido muito estendida, ou
mesmo porque se encaminhava para o desaparecimento do poder dos chefes.
    O Sul das altas terras ovimbundu, em Angola, pode ser ligado  categoria das
redes de grandes senhorios. Este planalto era dominado por um grupo cultural
que se reuniu sob a denominao nyaneka-nkumbi, ele mesmo dividido em vrios
grupos tnicos: nyaneka, otylenge, nkumbi etc. No sculo XIX, alguns senhorios
da regio representavam os vestgios de antigos reinos. Era o caso de Mwila, reino
nyaneka que, no sculo XVIII, dominava toda a regio da Hula e que se deslo-
cou, aproximadamente na metade do sculo XIX. De fato, nesse momento, Jau se
separou de Mwila para, por sua vez, logo se fragmentar. No sculo XVIII, Mwila
estabelecera relaes com Caconda e com a Angola portuguesa. A regio era a
mais povoada do pas nyaneka e os portugueses tentaram vrias vezes instalar ali
colonos brancos, nos anos 1840, a preo de numerosos afrontamentos militares.
Os senhorios nyaneka (sobretudo Mwila e, mais tarde, Ngambwe) tornaram-se
centros comerciais para a cera, o marfim e o gado, servindo todo o Sul de Angola,
ao longo da segunda metade do sculo XIX. Embora o setor mercantil tivesse
desempenhado um papel na fragmentao poltica da regio, as razias e rapinas
diversas forneceram, com frequncia, a oportunidade imediata para a ascenso de
aventureiros ou de recm-chegados. A partir dos anos 1840, a regio foi, de fato,
percorrida em todos os sentidos, s vezes de armas nas mos, por comerciantes
e chefes de guerra que estabeleceram pequenas fortalezas para sua clientela de
cativos (serviais), refugiados, aventureiros etc; l, atrs das cercas de espinhos,
homens e animais encontravam-se a abrigo da violncia.
    Pela vasta regio que se estendia entre o Lomani, o Lualaba e a margem
ocidental do Lago Tanganica, o "imprio" luba tambm teve uma imagem de
372                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 12.12 O mwant yav Mbumba. [Fonte: P. Pogge, Im Reiche des Mvata Jamvo, 1880, Berlim. Ilus-
trao reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de
Cambridge.]



fragmentao. Durante seu perodo de mxima expanso, durante a primeira
metade do sculo XIX, o poder militar mais prestigioso do Estado luba (aquele
do mulopwe, com sua capital, kitenta, e sua corte) foi exercido em numerosos
senhorios que, em sua maioria, j participavam da noo luba do poder (o bulo
pwe), privilgio dos chefes possuidores do sangue real dos fundadores (Kongolo
e Kalala Ilunga).
A bacia do Congo e Angola                                                                                     373



   Esta construo se revelou efmera e fortemente submissa s flutuaes
da fortuna militar dos diferentes ttulos polticos. Sob o reinado do mulopwe
Kasongo Kalombo (por volta de 1870-1880), esta instituio poltica comeou
a se pulverizar sob a presso, sobretudo das caravanas de comerciantes prove-
nientes da zona suali ou de Angola. A penetrao comercial s fez atiar as
dissenses entre os prprios chefes polticos e entre estes e os chefes das linha-
gens, possuidores de terras e domnios. No fim do nosso perodo, senhorios e
Estados luba gozavam de uma autonomia quase completa25.


     Aventureiros, comerciantes, condottieri: os novos poderes
    O poder do bulopwe  um dos mais antigos e mais prestigiosos da histria das
sociedades da savana. Alhures nesta regio, assistiu-se a proliferao, no sculo XIX,
de ttulos de chefes e o surgimento de novas formas de poder, fosse porque o papel do
chefe tinha cado em desuso (por exemplo, entre certos grupos congos ou mbundu),
fosse porque o desenvolvimento das trocas tinha ocasionado uma polarizao em
torno de grupos ou de indivduos empreendedores. H exemplos disso em todas as
sociedades da frica Central, dotadas ou no de um chefe. Assim, na floresta mida
da bacia central, comerciantes conseguiram acumular escravos, armas, cobre etc.:
tratava-se, geralmente, de pirogueiros, ribeirinhos enriquecidos pelo comrcio do tr-
fico. Deste modo, a histria do reino de Msiri comeou por expedies comerciais.
    Por volta da metade do sculo XIX, viajantes sumbwa, originrios da atual
Tanznia, vieram tratar com os chefes lunda, luba, aushi, e outros, do vale do
Luapula e das regies vizinhas. Esses comerciantes foram atrados pelo marfim,
abundante na regio, e pelo cobre, tratado a Oeste do reino de Kazembe. Ngalen-
gwa Mwenda, o filho de um destes viajantes, que tinha acompanhado seu pai em
suas expedies, veio se instalar, por volta de 1855, no pas do chefe Katanga, um
dos principais centros produtores de cobre, onde se encontrava uma importante
aglomerao para a regio26. Foi a poca em que expedies comerciais rabes,
sualis, nyamwezi e ovimbundu se multiplicaram na regio, tendo por objetivo o
desenvolvimento do comrcio do cobre, do marfim e de escravos.


25   Administradores coloniais defensores das teorias da administrao indireta, preocupados em "reconstituir", em
     pleno sculo XX, supostos imprios desaparecidos, tiveram a tendncia de superestimar o grau de centralizao
     existente nos Estados luba. Para os ltimos apontamentos sobre a questo, ver A. Wilson, 1972.
26   Um viajante rabe, Sa`d ibn Habb, descreveu este centro na metade do sculo: a populao era mais
     numerosa que na capital de Kazembe; os vveres comercializados abundavam; o algodo local era fiado
     para a fabricao de vestimentas. Citado por F. Bontinck, 1974, p. 12.
374                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Sem dvida, Mwenda foi o mais clebre destes comerciantes que souberam
tirar proveito das divises no interior dos cls reinantes e puderam se apoiar em
tropas suficientemente numerosas e bem armadas para se estabelecer em uma
regio, atrair uma populao em uma capital e assentar seu poder sobre uma
rede de clientela formada por homens de confiana, companheiros de aventura,
parentes, ttulos polticos locais, ou simplesmente, indivduos empreendedores
de qualquer origem. Aps sua instalao junto a Katanga, Mwenda comeou a
prestar servios a faces polticas opostas. Beneficiando-se da ajuda de comer-
ciantes ovimbundu, ele se intrometeu nas querelas entre chefes sanga, luba, lunda
e outros da regio. Seus maiores sucessos provieram de sua participao nas lutas
entre pretendentes ao trono de Kazembe. Ainda neste momento, as armas do
Bi desempenharam um importante papel e facilitaram sua ascenso.
    Em 1880, ele conseguiu criar seu prprio Estado, tomou o ttulo e as insgnias
de mwami, que eram conhecidos em sua regio de origem, e estabeleceu sua capital
em Bunkeya, no vale da Lufira. Na poca, os chefes da regio eram mais frequente-
mente associados ao poder do mwant yav (lunda) ou do mulopwe (luba). Mwenda
conseguiu incorporar um grande nmero deles em seu imprio e faz-los aceitar
suas insgnias (kilungu). Bunkeya tornou-se um centro importante, frequentado
por todos aqueles que buscavam fortuna junto a Mwenda. Este foi, desde ento,
conhecido sob o nome de Msiri, que parece ter uma origem local, derivado de
mushidi (significando "terra" em sanga e em luba), o proprietrio da terra.
    Dentre as mulheres mais prximas de Msiri, durante um certo tempo, consta
uma jovem suali das cercanias de Pweto e duas mestias de angola: isso simbo-
liza o papel desempenhado pelo reino de Msiri nas redes comerciais. Chamado
Garanganja pelos angolanos e Katanga pelos sualis, esse reino se tornou a placa
giratria do comrcio da frica Central, de Zanzibar a Benguela, do pas luba
aos postos avanados portugueses de Moambique, ou rabes do lago Malaui.
    Chefe temido, filho de sua poca, Msiri soube se mostrar munificente, mas
tambm, implacvel; nisso, ele respondia ao esteretipo do chefe ou do aristo-
crata. Por vezes, ele foi cruel. Alis, foi a execuo de uma de suas mulheres,
Masengo, que forneceu o pretexto da longa revolta dos sanga contra o Estado
yeke. Essa revolta chegou ao fim somente aps a morte de Msiri27e graas s
armas do poder colonial.


27    Msiri morreu violentamente pela mo de um europeu, aos 20 de dezembro de 1891. O assassino pereceu
      tambm, executado em seguida por um dos filhos de Msiri. Os principais testemunhos sobre a vida em
      Bunkeya antes da conquista colonial so aqueles de Ivens e de Arnot; F. A. Oliveira Martins (org.), 1952,
      p. 366-383; F. S. Arnot, 1889.
A bacia do Congo e Angola                                                     375



    Concluso
    Seria possvel avanar algumas concluses no trmino desta rpida expla-
nao? A histria econmica da frica Central do sculo XIX parece propor
um princpio de resposta. De fato, as condies de acumulao de riquezas
e de dependentes mudaram, no sculo XIX, graas  constituio de zonas
de densidade mais marcadas, graas a progressos na produtividade agrcola
e mesmo artesanal, graas tambm ao avano de certos setores da vida eco-
nmica. Isso vale tambm para o setor de trocas, em perptuo movimento,
segundo as conjunturas e os grandes produtos trocados. Em vrias sociedades,
este setor contribuiu fortemente para encetar os primeiros passos de uma
estratificao social.
    Certamente, apesar da existncia, muito difundida na poca, de diversas for-
mas de servido, seria temerrio falar de "classes sociais". As diferenas sociais
em via de se aprofundar muito tomaram o rosto familiar de antigas instituies
polticas, ou de solidariedade tnica ou de cl, o que nos permite utilizar o
conceito de "classe". Uma funo antiga, a de chefe poltico, mostrou-se par-
ticularmente malevel s novas circunstncias. J na histria mais antiga da
regio, a funo de chefe prestava-se  dominao dos grupos ou de indivduos,
entre os quais se encontravam visionrios, novos-ricos e simples aventureiros.
No decorrer do sculo XIX, esta tendncia se acentuou, seja porque os antigos
ttulos polticos se tornaram cada vez mais baseados na economia de trocas,
seja porque foram captados pelos novos-ricos, ou ainda, porque novos ttulos
tinham sido criados.
    Assim, a instituio dos chefes no sculo XIX continuou a se inscrever numa
longa tradio. No entanto, a poca deu-lhe caractersticas originais: em par-
ticular, a funo de chefe parece ter conhecido uma instabilidade que no era
especfica da histria antiga. O sculo XIX teria sido a poca das fortunas pol-
ticas rapidamente construdas e tambm to rapidamente desfeitas. A mudana
foi precipitada demais, e a histria autnoma da regio muito brutalmente
interrompida no fim do sculo para permitir o nascimento de grandes Estados.
Muitas vezes, o Estado, tal como se desenvolveu no sculo XIX, na frica
Central, ignorou as hierarquias complexas, as divises regionais: apresentou-se
como uma rede de senhorios, rede "horizontal" em vez de hierarquia territorial
"vertical".
    A histria poltica dos anos 1800-1880 deixaria uma impresso enganosa,
se se considerar apenas o tema da fragmentao do Centro da frica. De fato,
376                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



a poltica no estava naquela poca no corao da organizao do espao28, pois
 preciso considerar o progresso de vastos espaos econmicos que muito ultra-
passaram as fronteiras das solidariedades tnicas ou das organizaes polticas.
   Os grandes traos da histria social e econmica da frica Central do sculo
XIX comeam a declinar: a histria, tal como foi vivida e sentida pelas socie-
dades da poca, a histria de suas aspiraes e da mudana das mentalidades
constituem vastos domnios ainda no explorados e questionamentos que a
frica de hoje tem o dever de dirigir ao seu passado para melhor esclarecer o
seu presente29.




28    J. Vansina, 1976, p. 1-31.
29    A inspirao deste estudo deve muito aos anos de trabalho comum com Bogumil Jewsiewicki, que foi
      professor na Universidade Nacional do ex-Zaire.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                        377



                                      CAPTULO 13


                    O renascimento do Egito
                         (1805-1881)
                                      Anouar AbdelMalek




    O impacto da Europa: aculturao ou renascimento?
    Logo aps a segunda guerra mundial, os trabalhos da escola egpcia de his-
tria e sociologia histrica sustentada por certos trabalhos inovadores realizados
pelo Ocidente evidenciam que, de um lado, o sculo XVIII egpcio no  feito
apenas de silncio e omisso aps trs sculos de alienao sob o domnio oto-
mano1; do outro, que  na ao direta tanto das massas populares do Cairo e de
Alexandria quanto das elites tradicionais da poca, os `ulam', shaykh e notveis
das cidades, aos quais se deve atribuir a eleio de Muhammad `Al  dignidade
de wl (Vice-Rei) em 18052. Desde ento, esta data  a restaurao do Estado
moderno e autnomo egpcio  marcaria o acesso do Egito  modernidade; e
no como o deseja a historiografia colonial tradicional, a "expedio do Egito"
 invaso militar realizada por Bonaparte, logo aps as guerras da Itlia, por
iniciativa do Diretrio, de 1798  1801. Esta foi uma grande empreitada na luta
contra o imprio britnico.




1   M. al-Sharqw, 1958; P. Gran, 1979.
2   Ver essencialmente os trabalhos de A. R. al-Rfe`, 1951; L. Brhier, 1901; A. A. Mustafa, 1965; M.
    Sabry, 1930; M. S. Ghurbl, 1928; A. F. S. Wahidah, 1950; H. H. Dodwell, 1931.
378                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



      Ela expulsar  diz Bonaparte  os ingleses de todas as possesses do Oriente onde
      ela possa alcanar; e principalmente destruir todos os entrepostos do mar Vermelho
      [...]. Considerando a infame traio atravs da qual a Inglaterra tornou-se senhora
      do cabo da Boa Esperana dificultando muito o acesso s ndias para os barcos da
      Repblica por esta rota usual,  necessrio para as foras republicanas uma outra
      rota para chegar l.
    Esta empreitada foi acompanhada tambm da prospeco do Egito, escala
obrigatria no caminho do Oriente, pela "misso cientfica" que representava o
conhecimento do Iluminismo, do enciclopedismo e dos pensadores da escola
politcnica, atuantes na Frana e na Europa. A descrio do Egito, em vinte volu-
mes, resume sua imponente obra3.
    O sculo XVIII egpcio aparece como o laboratrio do que ser o Egito renas-
cente. Primeiramente, a unidade nacional, ou seja, a reduo dos diferentes feudos
mantidos pelos mamelucos tanto no delta como no Baixo Egito, foi tentada por
`Al Bey al-Kabr. As premissas do aggiornamento (atualizao) do isl fundamen-
tal, empreendidas pelo shaykh Hassan al-`Attr; a concentrao nas cidades, e no
somente no Cairo, da mais-valia das terras, que um grupo de comerciantes e letrados
com vocao hegemnica desejavam colocar a servio do que chamar-se-ia mais
tarde de um "projeto nacional". Para a expedio francesa, tal prospeco revelar-se-
-ia verdadeiramente nica e permitiria, mais tarde, apoiar as posies francesas no
Levante, aps a conquista da frica do Norte, como tambm aparecer para grandes
setores da frica subsaariana como a porta-bandeira da Europa das revolues.
Os historiadores egpcios da poca, principalmente `Abd al-Rahmn al-Djabart e
Niql al-Turk, discordam totalmente: "A ocupao francesa melhorou a situao
moral da classe baixa, dos revendedores, carregadores, artesos, carroceiros, cavala-
rios, proxenetas e prostitutas4": em suma, a escria da populao beneficiava-se da
liberdade recm-adquirida; mas a elite e a classe mdia vivenciaram todo tipo de
problemas, j que as importaes e as exportaes estavam suspensas.
    Assim, entende-se as duas revoltas do Cairo: a primeira, de 21 a 24 de
outubro de 1798, com seus prolongamentos nas cidades e na rea rural, em
torno dos shaykh e notveis do Cairo: dois mil mortos, dez shaykh decapitados,
a suspenso do Dwn consultivo; a segunda, bem mais dura, de 20 de maro
a 21 de abril de 1800, conduzida pelos paxs ainda ligados  Porta e pelos


3     J. C. Herold, 1962, forneceu uma brilhante e interessante descrio a comparar com a obra de `Abd
      al-Rahmn al-Djabart (1754-1825), o historigrafo exemplar daquela poca.
4     N. al-Turk, 1950, p. 45.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                              379



shaykh de al-Azhar, que provocou uma represso generalizada muito dura. O
grupo centrista, anunciador da tendncia geral do movimento nacional, liderado
particularmente pelos shaykh Khall al-Bakr, `Abdullh al-Sharkwe e `Abd
al-Rahmn al-Djabart, em sua mensagem de conciliao ao general Menou,
insiste na amizade necessria das "duas naes". As batalhas das Pirmides e
de Aboukir, a evacuao das tropas expedicionrias francesas em 1801 dariam
enfim ao movimento nacional egpcio, em formao, a ocasio de se cristalizar,
isto  de se dotar de um centro de poder social, no incio autnomo no quadro
do Imprio Otomano, mas cuja vontade de independncia nacional marcaria
com seu fulgor o sculo XIX em todo o Oriente, no Mediterrneo e na frica,
como tambm a ordem do mundo e dos imprios da poca.
    Da evacuao francesa  nomeao de Muhammad `Al como wl, o pas
retomou a sua condio de provncia otomana. A segunda revolta do Cairo, a
qual levou ao enfraquecimento decisivo das posies francesas, reforou a dire-
o nacional de tendncia otomana e mameluca. `Umar Makram, cuja autori-
dade aumentou, no pde, contudo, alterar a natureza do poder em benefcio da
nova classe poltica egpcia  `ulam', notveis e comerciantes , j que as armas
estavam nas mos dos senhores de ontem; que o projeto dos Irmos Indepen-
dentes estava enterrado com a morte do seu chefe, o general Ya'kb, no barco
que o transportava para a Europa e que foi neutralizada a possvel alternativa
dos shaykh do Dwn, presos entre escolhas difceis, em plena tormenta, na hora
da intriga e dos compls. A condio do Egito em 1805, era a de uma wilya,
um provncia do Imprio Otomano. A situao geopoltica do pas limitava
estreitamente sua margem de manobra. Todavia, o essencial j estava a postos:
um poder de Estado, baseado em uma fora militar, certamente reduzida, porm
eficaz, e, sobretudo, sobre uma verdadeira delegao, um consenso nacional dos
notveis, `ulam', e dos comerciantes da poca, apoiados pelo povo das cidades
e das grandes aglomeraes provnciais.
    Trataria-se, desde logo, de manobrar dentro dos limites estreitos da geopoltica,
isto , de compreender o "esprito do local topogrfico" como demonstrou magnifica-
mente Djaml Hamdn em sua obra monumental sobre A personalidade do Egito.


    A Formao do Estado nacional moderno independente
    egpcio e o imprio sob Muhammad `Al e sm'l.
   A legio copta do general Ya'kb (1800-1801) e a proclamao pelos seus
partidrios, os Irmos Independentes, da prpria noo de um "Egito indepen-
380                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 13.1 O Imprio egpcio de Muhammad `Al (1804-1849). Por razes tcnicas, este mapa no inclui
a regio do Lago Vitria, nem a Somlia. (Segundo A. Abdel-Malek.)
O renascimento do Egito (1805-1881)                                         381



dente" se apoiaram na Frana, perante  supremacia britnica e, consequen-
temente, desmoronaram com a partida da expedio francesa. Outro seria o
projeto e o curso poltico de Muhammad `Al. Tratava-se essencialmente de
dotar o Egito com instituies militares, polticas, econmicas e culturais que
fariam dele o centro motor da reconstituio do Imprio islmico, em vez e no
lugar da Turquia senescente. De incio, o projeto compreendeu os dois crculos
da identidade egpcia: egpcia e islmica. Durante as campanhas de Muhammad
`Al e de Ibrhm, tornar-se-ia mais preciso: o Egito apareceria como islmico,
rabe e africano.
    Todavia, o homem que soube tomar o poder, levado pelos `ulam', a multido
e seus fiis albaneses, mediu a importncia do terreno por ele dominado, ainda
que de forma pouco estabelecida. A Inglaterra apoiava o partido mameluco,
sob a liderana de Muhammad al-Alf Bey e, a partir de 1806, incentivou
a Porta a demitir Muhammad `Al. Em 1807, a Inglaterra tentou a invaso
direta do Egito; a vitria egpcia de Rshid (Roseta), em 31 de maro, repeliu
o ataque. Muhammad `Al, que se apoiava ento, muitas vezes, nos notveis,
principalmente em `Umar Makram, decidiu destruir pela fora o poder dos
mamelucos no Alto Egito, ainda mais por serem aliados dos ingleses: de junho
de 1808 a agosto de 1810, ele subjugou o Alto Egito. Em 1 de maro de 1811,
o massacre da Cidadela acabou por eliminar os lderes das tropas rebeldes que
eram um obstculo  unidade do poder, como tambm aos planos do novo
Vice-Rei.
    Os dados geopolticos fundamentais foram constantes at a queda de Napo-
leo; a partir de 1815, o peso especfico da Inglaterra aumentou e novos pases
entraram na arena, notadamente a ustria de Metternich. Foi o momento em
que Muhammad `Al, uma vez reduzido o poder dos mamelucos, empreendeu
a construo do imprio e da grande obra de regenerao no interior.
    Que viso Muhammad `Al tinha da independncia? E, neste quadro, qual
era o papel que ele dava  autonomia no seio do imprio? Em 28 de novembro
de 1810, Muhammad `Al teve um encontro secreto com o consul da Frana,
Drovetti, e solicitou-lhe ajudar o Egito a se separar do Imprio Otomano.
Simultaneamente, em 25 de novembro, ele pediu a Istambul o reconhecimento
do Egito, simples provncia (wilyaeylet), na condio de odjak, gozando
da mesma liberdade que Argel  poca. Lanou ento seu exrcito na Arbia
(1813-1819), depois no Sudo (1820-1823), tendo como objetivo mais amplo
a ocupao da Abissnia. A Inglaterra, que ele bajulou e tentou trazer para a
sua causa, se voltou contra ele, j que penetrou em trs reas de influncia  o
Mar Vermelho, o Golfo Prsico e a Abissnia  indispensveis para assegurar
382                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



a rota das ndias. Na realidade, tudo no se resumia a isso: "do Golfo Prsico
ao deserto da Lbia, do Sudo ao Mediterrneo, de uma parte  outra do Mar
Vermelho, estendendo-se por cinco milhes de quilmetros quadrados: dez
vezes a Frana, a metade da Europa; um imprio napolenico ou faranico."
E isto concomitante ao declnio do poderio otomano. Desde ento, a "questo
egpcia" deu lugar  "questo do Oriente", "graas  existncia de uma grande
fora civilizadora no norte da frica"5.
   O primeiro choque se deu na Grcia insular (Hidra e Spezzia), em 1827.
A poderosa frota de Muhammad `Al e o exrcito de seu filho Ibrhm
concentraram-se para socorrer o Imprio Otomano. Negociaes se deram em
Alexandria entre o coronel Cradock, enviado especial de Londres, e Muham-
mad `Al e seus adjuntos: o tpico no era outro que a independncia, a partir
da posio de fora egpcia em relao  Porta. Muhammad `Al, como bom
estrategista, tentou evitar o confronto armado, na undcima hora; a obstina-
o do sulto conduziu diretamente  destruio da frota egpcia, tropa de
batalha da frota otomana, em Navarin (20 de outubro de 1827). Muhammad
`Al, diante da defeco da Frana, at ento amiga, se voltou para o Imprio
Otomano. Em 12 de dezembro, enviou  Porta um plano de regenerao digno
de um estadista:
      Sem dvida que a necessidade da restaurao se faa sentir de uma maneira aguda,
      em todos os pases islmicos. Sem dvida que a nossa nao, em sua apatia atual,
      viva como os rebanhos. Deixe ento de lado, por piedade, o egosmo, a precipitao
      e o excesso de zelo e reflita um pouco sobre o estado de desamparo e de misria
      em que se encontram atualmente as naes mulumanas. Voltemo-nos  sabedoria
      e faamos uma paz que seja antes uma trgua [...]. Valeria mil vezes mais viver e
      servir, desta maneira, nossa ptria e nossa religio [...].  hora de colocar-me, assim
      como meu filho, a servio do Estado e da religio6.
   Conhece-se a sequncia: a recusa da Porta; a ampliao dos objetivos do
Vice-Rei no mundo rabe, sob a influncia de Ibrhm; a guerra entre a Turquia
e o Egito, marcada pelas brilhantes vitrias de Ibrhm em Koniah, Kuthiya e
Nasbn; a interveno das potncias, decididas a abater Muhammad `Al. De
1831 a 1840, o avano de Muhammad `Al bateu s portas de Istambul; a Santa
Aliana de todas as potncias europeias salvaria o governo do sulto para melhor
derrubar o nico Estado islmico e oriental capaz de enfrentar a expanso colo-

5     E. Driault, 1925.
6     Carta ao Cheijh Effend, 12 de dezembro de 1827, citada em M. Sabry, 1930, p. 153-155.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                      383




Figura 13.2   Muhammad `Al (quadro de sir David Wilkie). [ The Tate Gallery, Londres]
384                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 13.3 Ibrhm, filho de Muhammad `Ali e seu general-em-chefe. [Fonte: A. R. al-Rfe`, Asr Muham
mad Aly, 1930, Cairo, Dar al-Nahda al-Misriyyah; 4 edio, 1982, O Cairo, Dar el-Maaref.  Juiz Helmy
Shahin.]



nial europeia, de um lado, e de se encarregar da regenerao das provncias do
imprio, de sua modernizao e de seu renascimento nacional, do outro.
   A parada imposta a Ibrhm pelo seu pai em Kuthiya s portas de Istambul,
endureceu sua posio. Em uma carta a seu pai, s vsperas das negociaes, ele
diz alto e claro:
      parece-me que a independncia deva ser colocada em primeiro plano entre os pontos
      a serem discutidos e arranjados com os dois negociadores;  para mim uma questo
      vital acima de todas as demais. Reivindicar a cesso das trs regies de Anatlia,
      Alaa e Cilcia, alm da ilha de Chipre. Anexar, enfim, ao Egito, se possvel, a Tunsia
      e a Tripolitnia. Estas devem constituir o mnimo de nossas reivindicaes das quais
      no se deve desistir a preo algum; nossos interesses essenciais o exigem. Primeiro,
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                                 385



    devemos ser firmes e inabalveis no que tange  independncia a fim de consolidar
    nossa situao e assegurarmos o futuro. Pois, sem a independncia, todos os nossos
    esforos seriam em vo e permaneceramos sob o jugo desta potncia prfida que
    nos oprime sem cessar com exigncias ridculas e requisies de dinheiro. Doravante,
     necessrio liberarmo-nos destas cargas insuportveis e encontrar nossa nica sau-
    dao na independncia7.
    Duas vias, dois cursos diferentes se ofereceram ento ao Egito para atingir
a condio de nao independente; a autonomia no seio do Imprio Turco,
visionado por Muhammad `Al, a qual frisava pela independncia, e a viso de
Ibrhm cujo objetivo no era menos do que a independncia completa, o Egito
sendo a cabea e o corao do Imprio rabe.
    Nesta grande ao impulsionada pelo Vice-Rei e seu filho, a viso de Ibrhm
tornou-se diferente. No contato com os soldados-fallhin (camponeses), cuja
lngua nacional, o rabe, era a mesma daquela das provncias do Oriente Pr-
ximo que eles conquistaram e liberaram ao mesmo tempo, Ibrhm tomou
conscincia do carter rabe do Egito islmico e, acima de tudo, da imperiosa
necessidade de forjar o instrumento do seu renascimento, isto , o exrcito base-
ado na tecnologia avanada, dentro da moldura rabe. Quando de sua chegada
a So Joo D'Acre, em 1831: "Meu objetivo [...]  duplo: primeiro, preservar
a honra do Egito eterno e lhe restituir sua glria passada"; antes do ataque
de Homs, ele ameaou retalhar em pedaos o exrcito otomano "a fim de que
isto sirva ainda mais para elevar a posio do Egito, tornar seu destino mais
eminente, e dar valor a seu posto e honra"; Durante o stio de Acre, Ibrhm
disse ainda ao prncipe Pckler-Muskau: " impossvel para qualquer exrcito
no mundo mostrar mais esprito de perseverana ou de bravura do que o meu,
e toda vez que um caso de indeciso ou de covardia foi assinalado no exrcito,
era invariavelmente do lado dos oficiais turcos: eu no conheo tais exemplos
entre os rabes." Enfim, a seu pai: "Eis j vinte anos que vivo com estes homens
e posso afirmar que se existir trezentos turcos em mil conhecidos por sua leal-
dade, existem setecentos entre os egpcios. A menos que tema sua mania de
revoluo, de tempos em tempos, contra o governo estabelecido"8. O elemento
rabe interveio ativamente durante o perodo ascendente deste processo, mas
desapareceu com Ibrhm depois de 1840.


7   Carta de 3 de fevereiro de 1833, citada em M. Sabry, 1930, p. 227-228. G. Khanki, 1948, d a data de
    20 de janeiro de 1833.
8   Citado pelo prncipe H. Pckler-Muskau em M. Sabry, 1930, p. 469-471.
386                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Aps `Abbs I (1849-1854), consentindo com tudo exceto com o governo
da Europa, Ism`l colocou o problema nacional em termos de independncia e
de soberania. Tratava-se de reduzir, pela negociao, a dependncia do pas em
relao  Turquia; de reconstituir em seguida um Estado autnomo e estvel,
dotado de instituies independentes que seriam estabelecidas posteriormente.
Em um primeiro momento, Ism`l obteve os firmn (decretos) de 27 de maio
e de 15 de junho de 1866, depois aquele de 8 de junho de 1867. Os dois pri-
meiros estabeleceram no Egito a hereditariedade direta do trono de pai para
filho, segundo o direito primognito; segundo o "mesmo modo de sucesso da
maioria das dinastias europeias", e "em ruptura completa com as tradies do
mundo islmico"9.
    O firmn de 8 de junho de 1867 criou, para Ism`l e seus sucessores, um
ttulo novo, o de quediva, para melhor distingui-lo dos outros Vice-Reis; outor-
gou ao quediva do Egito o direito de promulgao de tanzmt, portarias para
a administrao do pas, e de convenes com pases estrangeiros (alfndega,
correio, transportes, polcia dos estrangeiros etc.), exceto a dar-lhes o car-
ter de tratados internacionais; de fato, um verdadeiro direito de negociao
econmica. O ponto culminante foi atingido com o firmn de 8 de junho de
1873: o Egito  pela primeira vez designado como "Estado" e no mais como
"provncia"  foi assegurado da continuidade do poder do quediva nas mesmas
condies.
    A reconstituio do Imprio egpcio respondia, segundo M. Sabry, de um
lado,  "ideia de formar um grande Estado independente" e de "adquirir pela
fora do dinheiro" o que Muhammad `Al tentou em vo obter pela fora; do
outro lado,  necessidade de "descobrir na expanso africana esta perspectiva de
grandeza e de liberdade que lhe permite recuperar seu sentimento nacional e
desenvolver algumas de suas capacidades que dormiam". "Ism`l pensava que, ao
se servir de novos corpos de oficiais do exrcito egpcio para expandir o Egito
at o equador, ele conseguiria, de algum modo, criar para sua independncia
um refgio ltimo e inacessvel no corao do continente". A expanso at o
corao do continente africano no encontrou resistncia, no incio pelo menos,
por parte da Turquia nem da Gr-Bretanha.
    Uma esquadra de guerra, de poder mdio aps a entrega dos couraados
 Turquia, e uma marinha mercante que assegurava todas as necessidade do
comrcio egpcio; dezoito fortes; um bom servio telefnico e telegrfico; o


9     Textos citados em A. Sammarco, 1935, vol. 4, p. 196-197.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                                     387



esboo de uma ferrovia que devia chegar a Cartum e a Sukin  elementos estes
que completariam a infraestrutura do novo imprio. O Sudo, mas tambm a
Somlia, o Harar, a provncia equatorial, o Bunyoro e o Buganda se abriram 
civilizao europeia pelo vis da progresso militar egpcia; a imprensa liberal
da Europa abundava em elogios; a acolhida das populaes parecia, no essencial,
cheia de benevolncia. Todavia, o fracasso veio a coroar esta obra que atingiu
seu apogeu entre 1872 e 1879.
    Ism`l cedeu no plano do comando militar  crendo assim que a Gr-
-Bretanha toleraria sua empreitada africana  e nada fez comparvel quilo
que Muhammad `Al tinha executado em termos econmicos e, sobretudo,
industriais. O exrcito, bem organizado mas comandado por estrangeiros, no
dispunha mais, depois do Tratado de Londres, de uma infraestrutura industrial
pujante. O Egito no estava mais em condies de assegurar sua independncia
e seu desenvolvimento econmico moderno. Contudo, " preciso que os povos
das regies da nascente do Nilo sejam hoje amigos e aliados de Sua Alteza o
Quediva"  a palavra de ordem de Ism`l, sob diversas formas, no parou de
ecoar at os nossos dias10.
    Paralelamente  execuo deste grande projeto nacional, o movimento repre-
sentativo, depois constitucionalista, implantou-se e empenhou-se plenamente
sob Ism`l. J em 5 de outubro de 1798, Bonaparte convocou uma assembleia
geral dos notveis, que levava o nome de alDwn al `m. Com Muhammad`Al,
ainda que a implantao de diversas instituies prprias de um Estado do tipo
moderno comandasse a ao do pas inteiro, a ideia central era aquela da efi-
cincia, a noo de ordem muito mais do que aquela de delegao. Um novo
organismo consultivo, Madjlis almushwara, foi criado em 1829: 156 membros
 dos quais 23 altos funcionrios e `ulam'; 24 ma'mr de provncia, 99 notveis
e shaykh provnciais  colocados sob a presidncia de Ibrhm.
    Uma assembleia especial, alMadjlis al `umm, foi criada em 1847 em Ale-
xandria para cuidar dos problemas daquela cidade. Em 1832, a Sria foi dotada
de um conselho de grandes notveis, composto por 22 pessoas11.
    Em 1834, a primeira edio da obra do shaykh Rif`a al-Tahtw, Takhls
alibrz il Talkhs Brz, obra de reflexo sobre as contribuies da Revoluo


10   M. Sabry, 1933, p. 383-389; A. R. al-Rfe`, 1948, p. 104-196; R. Robinson e J. Gallagher, 1961, p. 2-3,
     p. 122-133, p. 159.
11   Sobre a evoluo do constitucionalismo no Egito, ver G. Douin, 1933-1941, p. 298-301; P. Ravisse, 1896,
     p. 9; A. R. al-Rfe`, 1948a, p. 81-84; J. M. Landau, 1953, p. 9; D. M. Wallace, 1883, p. 209-213; J. C.
     McCoan, 1887, p. 115; G. Baer, 1961, p. 127, nota 37; baro de Malortie, 1882, p. 214.
388                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



Francesa, marcaria o nascimento e a cristalizao do pensamento poltico e
social egpcio. A contribuio aos tpicos da "ptria" e da "nao" era consi-
dervel. O essencial versava sobre as duas noes de "liberdade" e de "secu-
larismo", ambas vistas sob o seu duplo aspecto terico e prtico. Achava-se
uma sntese muito justa entre a contribuio de toda a histria da civilizao
egpcia, particularmente a contribuio dos coptas, depois do isl, em particu-
lar do califa `Umar, de um lado, e os ensinamentos da Revoluo Francesa, do
outro, que permitiu concluir que somente a outorga de uma constituio ou
de uma carta, baseada no contrato social e no outorgada pelo soberano cons-
tituiria o fundamento de uma sociedade civilizada12. Sob `Abbs I, Tahtwi foi
exilado no Sudo. Sa`d criou uma espcie de conselho de Estado com nove
membros, a ttulo consultivo. A retomada do movimento constitucionalista
pareceu iniciar em agosto de 1864.
    Dois textos  alL 'iha al'assiyya (a condio fundamental) e alL 'iha
alnizmiyya (a lei especificando as atribuies da assembleia de delegados)
promulgados em 22 de outubro de 1866 e reunidos em um "regulamento", cria-
ram o Madjlis shr alnuwwb (conselho consultivo, assembleia de deputados).
O artigo primeiro do primeiro documento definia a natureza da nova assem-
bleia: "A Assembleia ter por misso deliberar sobre os interesses superiores do
pas; ela dever igualmente se pronunciar sobre os projetos que o governo crer
depender de suas atribuies e sobre os quais ele dar sua opinio, a qual ser
submetida  aprovao de Sua Alteza o Vice-Rei".
    A preponderncia dos notveis das vilas na Assembleia  em detrimento
dos intelectuais que haviam retornado aps a concluso dos estudos no exte-
rior  acompanhou-se de uma extenso sensvel e crescente da sua nomeao
aos cargos administrativos, indo mesmo at o de mudr. O apoio dado por estes
notveis a Ism`l durante os ltimos anos de seu reinado e depois  revoluo
do exrcito, permitiu ver neles os representantes da massa mais representativa
da classe poltica da poca, os elementos da burguesia autctone em formao,
aqueles que, no final, dominavam o essencial do pas.
    O ano de 1875 foi o ponto de virada: o quediva Ism`l, diante da pene-
trao crescente das potncias europeias, logo aps a escavao do istmo de
Suez, lanou-se em uma luta que lhe custaria o poder e o conduziria ao exlio
em 1879.




12    R. al-Tahtw, 1834.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                     389



    Economia, sociedade e cultura: a dialtica
    da modernidade e da tradio
    Em direo a uma economia autrquica
   O primeiro ponto a sublinhar  que Muhammad `Al criou uma economia
nacional em vez de uma simples economia local, como era o caso na maioria dos
pases orientais desta poca. A existncia de um centro unificado de deciso nacio-
nal em matria de poltica econmica decorreu, muito naturalmente, da especifici-




Figura 13.4 O shaykh Rif `al-Tahtw [Fonte: A. R. al-Rfe`, Asr Muhammad Aly, 1930, Cairo, Dar
al-Nahda al-Misriyyah; 4 edio, 1982, Cairo, Dar el-Maaref.  Juiz Helmy Shahin.]
390                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



dade histrica milenar do Egito. A economia autrquica desejada por Muhammad
`Al serviria ao seu propsito de fundar um Estado nacional egpcio moderno no
corao do seu imprio. Apesar da interrupo de 1840, Ism`l poderia retomar a
via de Muhammad `Al. A presso, depois a penetrao do grande capital interna-
cional, enfim a ocupao do Egito em 1882 acresceriam a este primeiro fator dois
outros de importncia: de um lado, a criao de um mercado nacional unificado,
particularmente graas s grandes obras empreendidas por Ism`l; depois, de
outro lado, a integrao econmica egpcia no circuito da economia internacional
pelo vis de emprstimos e, sobretudo, pela monocultura do algodo.
    A obra de Muhammad `Al merece uma anlise mais atenta. nico entre os
dirigentes dos Estados do Oriente islmico da poca, Muhammad `Al consi-
derava a economia como o fundamento da poltica  a razo pela qual este sutil
oficial albans alou o posto de estadista. O Estado que ele tentava edificar, na
ocorrncia, estava concebido no incio, em 1805, como uma formao tnica
centrada em torno de um exrcito poderoso e eficaz, apoiando-se ele prprio
em uma economia moderna e autrquica13.
    De 1818 a 1830, ele criou as grandes unidades industriais: as fbricas de
armas e de canhes da Cidadela, que atingiu seu apogeu em 1828 sob Adham
Bey; a fbrica de canhes do Arsenal; a fbrica de fuzis de al-Hd al-Marsd
(1821), as cinco fbricas de plvora produzindo 15.874 kantr (1 kantr = 45
quilos) em 1833; o arsenal martimo de Alexandria, criado por Lefbure de
Cerisy em 1829, o qual substituiu um mestre arteso genial, Hadjdj `Umar;
depois a doca seca construda por Mougel, em 1844. De toda esta infraestrutura,
o marechal Marmon e Clot Bay seriam os observadores admiradores e surpresos.
No plano da indstria "civil'', trinta fbricas de fiao e tecelagem de algodo
foram criadas, tanto no Baixo Egito como no Alto Egito; as fbricas do Cairo
forneciam s provnciais as mquinas, as ferramentas, as peas sobressalentes, os
materiais de construo e os tcnicos para a manuteno das instalaes.
    A produo era suficiente para as necessidades do pas e permitia, ao mesmo
tempo, substituir as importaes por produes locais e obter lucros da ordem de
100% para o Tesouro Pblico. Trs fbricas de tecelagem de l foram fundadas
em Blk, Damanhr e Fuwwa, assim como uma grande fbrica de seda em


13    Ver A. Abdel-Malek, 1969, p. 23, 32, 65, 108; e para estudos mais detalhados: A. R. al-Rfe`, 1951; G.
      Baer, 1962; R. al-Barw e M. H. Eleish, 1944; A. Linant de Bellefonds, 1872-1873; J. Bowring, 1840;
      F. Djirdjis, 1958; M. F. Leht, 1944; G. Michailidis, 1950; H. Thiers, 1867; F. de Lesseps, 1869; M. K.
      Moursy, 1914; H. A. B. Rivlin, 1961; J. Tagher, 1949; M. Fahmy, 1954; A. E. Crouchlye, 1938; A. A. A.
      al-Gritly, 1948; A. Abdel-Malek, 1962; H. Khallaf, 1962; C. P. Issawi, 1966; M. S. Ghurbl, 1944; A.
      A. Hattb, 1935.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                            391



Khurunfish (1816) e numerosas fbricas de linho atravs do pas; trs refina-
rias de acar; dezessete fbricas de ndigo; duas grandes fbricas de vidro; o
curtume de Rosette (1827) e a fbrica de papel do Cairo (1834); seis fbricas
de salitre instaladas por um francs, Ham. O ponto fraco j era o que frearia a
industrializao um sculo mais tarde: falta de minerais essenciais, o ferro e o
carvo, e a dificuldade de obter uma fora motriz suficiente.
    "O nosso objetivo no  de obter lucros, mas de dotar a populao de uma
formao industrial", disse ele a Bowring, o qual defendia a causa de um Egito
agrcola. A historiografia egpcia recente comea a tomar conscincia desta
dimenso da obra do fundador da dinastia que sobreviveu at a sua derrubada
em 26 de julho de 1952.
    O Tratado de Londres, acordado entre as potncias europeias e a Turquia em
15 de julho de 1840, permitiria a reduo deste imenso impulso de edificao
econmica independente graas s disposies que condenariam o Imprio
Otomano  decadncia: foi o fim do monoplio, criado por Muhammad `Al, a
abertura do Egito  penetrao dos capitais estrangeiros, o incio da escavao
do istmo de Suez que resultou, diretamente, na ocupao militar de 1882. Esta
integrao se realizaria pela distoro imposta externamente  economia egpcia.
O fato de depender da monocultura do algodo teve manifestadamente efeitos
nefastos para o conjunto da vida econmica: a integrao foi, aqui, a submisso
s cotaes mundiais e s vicissitudes da conjuntura mundial, das quais o Egito
permaneceu alijado, por haver sido privado, depois de 1879, de seu poder sobe-
rano de deciso.
    Um outro tipo de distoro ligava-se ao fato de que o Baixo Egito era privi-
legiado em detrimento do Alto Egito. O delta englobava,  verdade, o essencial
da superfcie cultivvel e sustentava as grandes cidades. As cidades eram o centro
do processo de modernizao econmica, social, poltica e cultural. A classe
dirigente autctone  aquela dos grandes latifundirios , oriunda do desenvol-
vimento do setor capitalista a partir da instaurao da propriedade privada da
terra, atuava, de um lado, nas cidades e nas reas rurais; do outro lado, no pas e
no estrangeiro que monopolizava o comrcio exterior e, mais particularmente,
as compras de algodo.
    Esta simbiose no topo, por assim dizer, criou elos orgnicos profundos
entre o interior do pas e as cidades. A circulao de alguns grupos se fez no
sentido da rea rural para o centro urbano. O interior, aqui,  uma expresso
que pode tambm se aplicar ao Sul e ao Alto Egito, j que, se Alexandria,
voltada para a Europa, tinha um papel econmico capital  sobretudo aps
Sa`d at o final do sculo , o Cairo se situava em pleno corao do pas e
392                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



controlava o delta, onde se criava o essencial da riqueza do pas e onde vivia
a maioria da populao.

      A agricultura e a utilizao dos solos
    A prpria agricultura ocupou, muito naturalmente, o primeiro lugar nas
reformas econmicas. No final do sculo XVIII, todas as terras, exceto as
wakf, se encontravam repartidas entre os multazim, cuja tarefa principal era
"coletar e enviar a receita devida por sua vila ou suas vilas ao Tesouro, central
ou provincial". Todavia, H. A. R. Gibb e H. Bowen observam a extenso
dos direitos de usufruto progressivamente adquirido pelos multazim, o mais
frequente em benefcio de sua famlia, ao ponto em que "a propriedade do
Estado tornou-se no mais do que uma farsa". Uma farsa que impediu a cons-
tituio do Estado moderno e centralizado com o qual sonhava Muhammad
`Al. Desde ento, a nica coisa que ele podia fazer era por um fim na diviso
e na disperso das receitas tiradas da terra. Com efeito, os dois milhes de
faddn (1 faddn = 0,56 hectares) que constituam a superfcie cultivvel do
Egito, em 1805, se repartiam em seis categorias: as terras ab `diyya, shflik ou
jiflik, isto , 200.000 faddn distribudos por Muhammad `Al aos membros
de sua famlia, aos dignitrios e aos comandantes militares, terras isentas
de impostos; as terras dos mamelucos, na Cidadela (1811), em seguida, sua
liquidao no Alto Egito (1812) para convert-las em terras awsiya, 100.000
faddn dados em compensao aos mamelucos, a fim de no privar suas fam-
lia de todos os recursos; as terras dos shaykh, ou masmh almashyekh wal
masteb  4% da superfcie cultivvel de cada vila, em um total de 154.000
faddn dados aos `ulam' que ocupavam igualmente as funes de multazim;
as terras rizka, 6.000 faddn isentos de impostos dados de presente aos espe-
cialistas estrangeiros trabalhando no Egito; as terras athar, as quais perma-
neciam disponveis foram dadas aos fallhin; finalmente, as terras dos `erbn,
nas quais Muhammad `Al desejava que os bedunos se fixassem. Dada esta
poltica de repartio das terras, o Vice-Rei apareceu a seus contemporneos
"como o agressor dos direitos adquiridos, o destruidor das casas prsperas, o
homem que toma o que est nas mos de outrem e lhe tira os seus meios de
subsistncia". Entretanto, segundo Shafk Ghurbl, tratava-se de "um meio de
sair do caos, da pobreza, da fome e de caminhar rumo  ordem,  abundncia,
 riqueza e  fora".
    A situao, considerada no nico plano da propriedade agrria, aparece mais
complexa. Com efeito, a tendncia geral era para a ordem  a da economia
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                                   393



egpcia sendo, de uma maneira geral,  poca, estatal e autrquica. Contudo, 
exagerado sustentar, como o fez Muhammad Kmel Murs, que a terra foi logo
registrada individualmente no nome dos fallhin e, se o essencial permaneceu
propriedade do Estado, Ibrhm `Amer viu, mais justamente, neste sistema uma
forma de transio:
     o regime de propriedade agrria e o sistema social que a ele se sobrepunha no Egito,
     antes de Muhammad `Al, eram aqueles de um `feudalismo oriental', no qual as bases,
     diferentes daquelas do feudalismo europeu, eram a ausncia da propriedade privada
     [de terras] e o centralismo do poder do Estado no campo da agricultura. Havia
     contudo alguns pontos de semelhana com o feudalismo europeu.
    Depois, tendo analisado a diferenciao dos tipos de propriedades agrrias,
ele concluiu que "o regime de explorao agrcola da poca de Muhammad `Al
era um regime temporrio, de transio entre o feudalismo e o capitalismo"14.
Um outro especialista destacaria este segundo aspecto: "o desenvolvimento das
grandes propriedades privadas, caracterstico do Egito moderno, tem sua ori-
gem no perodo de Muhammad `Al. A base de sua fundao, contudo, no 
o desejo de criar uma nova classe de proprietrios de terras, mas de facilitar a
administrao e a coleta dos impostos em benefcio do governo e da nova classe
dirigente". Voltaremos ao assunto.
    Outros fatos merecem ser sublinhados. Foi Muhammad `Al que diversificou
as lavouras e, sobretudo, intensificou a lavoura de algodo, desde 1821, sob o
conselho de Jumel, o qual deu seu nome a uma nova variedade de algodo de
fibra longa. Esta, bem como o algodo do tipo americano "Sea Island", forneceu
ao Estado, detentor do monoplio sobre o comrcio exterior, receitas apreciveis,
j que a colheita de 1845 atingiu 424.995 kantr, produzidos em 212.473 faddn,
isto  um aumento de 400% em vinte anos; um mximo de 80.000 kantr foram
para as fiaes egpcias; restando por volta de 344.995 kantr para a exportao.
Os especialistas concordam em louvar a poltica de modernizao agrcola do
Vice-Rei: "alm de tudo, ele forneceu o capital indispensvel para transformar a
economia agrcola egpcia, de uma economia de subsistncia para uma economia
de lavouras comerciais e o fez sem sacrifcar a produo de cereais sobre a qual
a economia agrcola egpcia baseara-se desde sempre"15.



14   Ibrhm `Amer explica a diferena entre o feudalismo oriental e o feudalismo europeu pela "ausncia da
     propriedade privada sob a forma de terra e o controle central do Estado sobre a propriedade agrria".
15   H. A. B. Rivlin, 1961, p. 169-170.
394                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



    De si, o Vice-Rei dizia, antes de tudo, ser "um agricultor e um mercador".
Pode-se ver a um clculo, j que o soberano do Egito se dirigia geralmente
nestes termos a observadores estrangeiros. Mas ento um agricultor no sen-
tido dos faras, senhores daquela "sociedade hidrulica" da qual o Egito foi o
exemplo mais compacto e mais marcante em todas as eras. Mandou escavar,
atravs do trabalho escravo, trinta e seis canais e drenos, particularmente o
clebre canal Mahmdiyya, aterrou o Phar`awniyya, inutilizvel, fez com que
construssem quinze pontes e vinte e trs barragens sobre o Nilo, dentre as quais
a grande barragem do Delta, alkantir alkhayriyya, alm de numerosas obras
de reparao. O essencial do esforo concentrou-se, de longe, no Baixo Egito.
Todavia, a obra empreendida parece ter diminudo no fim do reinado, embora
a comisso nomeada em 1838 tenha indicado, em seu relatrio de julho, que se
tratava de alcanar o objetivo, colossal para a poca, de irrigar 3.800.000 faddn,
Muhammad hesitou em construir novas barragens, isto , em consagrar uma
parte importante do seu potencial humano e material em uma obra interna,
no momento em que se definia a ofensiva econmica, poltica e militar das
potncias europeias16.
    No  por acaso que caberia aos britnicos a execuo do projeto gigantesco
de Muhammad `Al, aps a ocupao do Egito. Tecnicamente, podemos concluir
que "as obras de Muhammad `Al em matria de irrigao aparecem como menos
impressionantes quando comparadas quelas dos grandes perodos da histria
egpcia". Contudo, os observadores perspicazes da poca no se enganaram: no
se tratava somente de modernizao ou do desenvolvimento do territrio, mas
de assegurar a "independncia do Egito em relao aos outros pases", como bem
o entendeu John Bowring, comissrio da Inglaterra no Egito.
    A primeira etapa (1840-1879) foi aquela da transio de uma econo-
mia profundamente marcada pelo "feudalismo oriental" para uma economia
capitalista retardatria, do tipo colonial predominantemente agrria domi-
nada pelo Estado, retomando e ampliando a vontade de modernizao de
Muhammad `Al.
    De fato, a poltica do monoplio, que abalou duramente os privilgios dos
antigos feudos e concentrou a terra, entre outras coisas, nas mos do Vice-Rei,
preparou o caminho para a propriedade privada da terra atravs do usufruto. Em
1846, um decreto permitiu hipotecar as terras detidas em usufruto. Em 1854, as


16    nico entre os estrangeiros, o Dr. Clot Bey viu o problema, enquanto os contemporneos e os pesquisa-
      dores atuais  particularmente Bowring e Rivlin  mantm-se somente no plano tcnico e no explicam
      este fenmeno.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                              395




Figura 13.5 A chegada do primeiro trem ligando o Cairo a Suez, 14 de dezembro de 1858. [ The Mansell
Collection Ltd., Londres.]



transferncias dos ttulos de propriedades em usufruto deviam ser feitas diante
dos tribunais. Foi, contudo, a lei de 5 de agosto de 1858, promulgada por Sa`d
que instituiu formalmente o direito de propriedade privada da terra, segundo
diversas modalidades (clusula 25); o direito  herana foi reconhecido em 1858.
Vrias medidas sucessivas, entre 1858 e 1871, assimilaram as terras rizka, awsiha
e ab`diyya s terras khardj concernidas pelas reformas. Em 1880, praticamente
a maioria dos proprietrios de terras detinha suas terras como propriedade
plena. A superfcie das terras cultivadas passou de 3.856.226 faddn em 1840
para 4.758.474 faddn em 1882 graas s grande obras de desenvolvimento e
de infraestrutura empreendida essencialmente sob Ism`l.
    Compreende-se melhor agora a eficcia dos emprstimos estrangeiros con-
tratados por Ism`l , a fim de empreender as grandes obras, dentre as quais
muitas tiveram um efeito sobre as regies rurais. Desde ento, `Abbs iniciou
o processo ao outorgar a George Stephenson, em 1851, um contrato para a
construo da primeira ferrovia que devia ligar Alexandria ao Cairo. Sob Sa`d,
Kafr al-Zayyt, Tant e Suez foram ligadas  capital; deveu-se a ele igualmente a
construo de uma grande doca seca em Suez, a limpeza do canal Mahmdiyya.
O Egito tornou-se assim o local de juno entre o Mediterrneo e o Mar
Vermelho.
    A. E. Crouchley, baseando-se no relatrio Beardsley, estima em 51.394.000
libras egpcias o montante das despesas assumidas por Ism`l para as grandes
obras: 112 canais estendendo-se sobre 13.500 quilmetros  isto , um trabalho
396                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



de escavao que, comparado ao empreendido para o canal,  na proporo de
165 por 100; vrios milhares de quilmetros de canais drenados; 430 pontes
construdas; a transformao de Alexandria no melhor porto do Mediterrneo;
15 faris sobre os dois mares; 1.880 quilmetros de ferrovia; 5.200 quilmetros
de linhas telegrficas, mais 2.000 quilmetros no Sudo; 64 refinarias de acar.
Ele restabeleceu o servios dos correios, aps um perodo de caos sob Sa`d; em
1874, o Egito assinou os acordos do I Congresso internacional dos Correios em
Berna. A introduo de esgotos, a melhoria das ruas do Cairo e de Alexandria, o
fornecimento de gua potvel e de iluminao em vrios bairros, a modernizao
do Cairo no modelo de Paris  obras pblicas estas que vieram a completar as
grande obras de infraestrutura.
    O primeiro grupo social rural a se constituir como classe foi aquele dos gran-
des proprietrios rurais. Em um primeiro momento  de 23 de maro de 1840 a
24 de dezembro de 1866 , o regime dos `uhda, terras isentas de impostos dadas
de incio em usufruto e que se tornaram progressivamente propriedades de fato,
se estendeu logo  famlia de Muhammad `Al e aos dignitrios; o total era esti-
mado em 1.200.000 faddn, dos quais 300.000 foram detidos pela famlia do
Vice-Rei. O resto serviu para constituir a base das futuras grande propriedades:
Salm al-Salihdr Pacha recebeu as vilas de al-Balyna e de Fadhara; a famlia
al-Shawrib detinha 4.000 faddn (em 7.000) em Kalyb, no final do sculo;
al-Sayyed Abza Pacha recebeu por volta de vinte vilas na Sharkiyya e deteve
ainda quinze, isto  6.000 faddn, em sua morte, em 1876; Badrw Pacha possua
Samannd, isto  cerca de 1.400 faddn. A passagem para a propriedade privada
no foi objeto de nenhuma pesquisa precisa; parece que os sucessores de Muham-
mad `Al admitiram o fato contra o pagamento dos impostos devidos pelos fallhin
que trabalhavam nestas terras. Um segundo grupo de proprietrios era aquele que
recebeu as terras em pousio, ab`adiyya, cuja superfcie atingia entre 750.000 e um
milho de faddn no final do reinado de Muhammad `Al, particularmente nas
duas provncias de Gharbiyya e de Beheira: Muhammad Shrf Pacha e Daramall
Pacha, ambos governadores ou ministros, foram os principais beneficirios. G.
Baer assinala que foram contudo as terras jiflik  terras "dadas" pelo soberano 
compostas principalmente de vilas abandonadas em razo da forte tributao e,
deste modo, transferidas para a famlia real que constituiam o essencial da grande
propriedade rural; do milho de faddn que representavam, em 1878, a proprie-
dade da famlia do quediva, as terras jiflik vinham em primeiro lugar; foi Ism`l
que distribui a maioria das doaes entre 1867 e 1876.
    Dois decretos assinados por Sa`d, em 30 de setembro e 11 de outubro de
1854, reagruparam todas as terras em duas categorias: `ushriyya (que englo-
O renascimento do Egito (1805-1881)                                               397



bava os trs tipos descritos acima, mais as terras awsiya, pouco importantes)
e khardjiyya, isto  as terras que restavam fora da estrutura das grandes
exploraes agrrias; com efeito, Y. Artin e Lorde Cromer assimilaram as
terras ushriyya s grandes propriedades; elas passaram de 636.177 faddn
em 1863 para 1.423.087 em 1891, isto  uma alta de 14,5 a 28,8% das terras
cultivadas, enquanto que as terras khardjiyya oscilavam entre 3.759.125 e
3.543.529 faddn  isto  uma queda de 85,5 a 71,2%  durante o mesmo
perodo.
    A primeira estatstica da propriedade rural, em 1894, indicava que 11.900
grandes proprietrios (mais de 50 faddn) detinham 2.243.500 faddn, isto ,
44% do total. O milho de faddn pertencente  famlia do quediva em 1878
era nitidamente superior aos 664.000 faddn de 1844; Ism`l tomou posse das
terras novas que repartiu em terras da D'ira al-Saniyya (503.699 faddn em
1880) e terras de domnio do Estado (425.729 faddn em 1878). Sabe-se que
as terras do Domnio deveriam ser cedidas em 1878 para cobrir o emprstimo
Rothschild, mas o quediva teve a precauo de distribuir uma grande parte aos
seus prximos antes deste vencimento. Mais tarde, novas disposies permitiram
a este grupo recomprar as terras do Estado. Deste modo,
    se o duplo papel do soberano egpcio como proprietrio das terras do Estado
    e de suas prprias terras acaba no final do reinado de Ism`l [...] o membro
    reinante da famlia (quediva, sulto ou rei) continua sendo praticamente o maior
    proprietrio rural. Mas ele no dispe mais em teoria  e, em grande medida, na
    prtica  de uma vasta reserva de terras do Estado para aumentar suas proprie-
    dades pessoais [...]. Tambm, a famlia real, como um todo, e graas s suas wakf,
    assim como  sua grande riqueza que lhe permite comprar ainda mais terras,
    mantm o seu lugar proeminente que data do sculo XIX, entre os proprietrios
    rurais do Egito.
   Estes grandes proprietrios eram recrutados, naturalmente, entre os altos
dignitrios do regime, os oficiais, alguns notveis das vilas, alguns chefes
bedunos, os `ulamn' e os coptas (ver o quadro abaixo). Para situar as outras
classes sociais rurais,  interessante consultar a diviso dos proprietrios por
categorias. O trao mais marcante  o desmantelamento da propriedade, na
virada do sculo. As causas so mltiplas: os efeitos da lei islmicas sobre a
herana, o crescimento demogrfico intenso e a lei sobre a impenhorabilidade
dos cinco faddn (dezembro de 1912). De fato, as pequenas propriedades
provinham tanto do desmembramento, relativo, das grandes propriedades
quanto das mdias.
398                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



Diviso dos proprietrios por categorias no Egito em 1894 e 1914
                                  Nmero                        Superfcie
      Categorias de
      proprietrios          Cifra       % do         Cifra         % do
                            absoluta     total       absoluta       total
          Ano                    Grandes proprietrios (+ de 50 faddn)
          1894               11.900          1,3        2.243.500              44,0
          1914               12.480          0,8        2.396.940              43,9
                                  Proprietrios Mdios (de 5 a 10 faddn)
          1894              141.070         15,4        1.756.100              34,3
          1914              132.600          8,5        1.638.000              30,0
                                  Pequenos proprietrios ( de 5 faddn)

          1894              761.300         83,3        1.113.000              21,7
          1914             1.414.920        91,7        1.425.060              26,1


   Os dados coletados sobre a condio socioeconmica dos `umda e shaykh
das vilas so preciosos. O fim da era do monoplio e o subsequente apareci-
mento da propriedade privada da terra sob Sa`d reduziram sensivelmente a
importncia desta categoria de notveis rurais, antes prepostos dos multazim
e sempre representantes do poder central diante dos fallhin. Ism`l reforou
a autoridade deles: "este cargo recai sobre o proprietrio rural mais impor-
tante", escreveu o correspondente do Times, D. Mackenzie Wallace; a enci-
clopdia de `Al Mubrak Pacha confirma e fornece os nomes das famlias de
`umda (al-Sharf, al-Hawwr, al-Gayyr, `Abdul-Hakk, Shi`r, al-`Ukal, Siygh,
al-Wakl, al-`Itrib, al-Shir`, etc). Estes eram os koulaks do Egito, sobre os quais
o pr-consulado de Cromer hesitaria em fundar o seu poder nas reas rurais. A
importncia do seu peso relativo nas reas rurais, quando do recenseamento de
1894, procedia dos ganhos adquiridos sob Ism`l: alocao das terras; emprs-
timos concedidos aos fallhin pobres; arrendamento de suas prprias terras;
transaes comerciais com a cidade, entre outros.
   O nmero de koulaks aumentou nas regies rurais, do mesmo modo que
aquele das famlias de fallhin dispondo de menos de 3 faddn requeridos para
sua subsistncia, alm de outras categorias de pessoas sem terras nem emprego.
O processo de empobrecimento devia ainda se acelerar durante o perodo colo-
nial. Enquanto `Abbas I apoiou os bedunos contra uma eventual aliana entre os
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                  399



shaykh e os fallhin e Sa`d tentou reduzir o poder poltico dos notveis das vilas,
Ism`l, ao contrrio, apoiou-se amplamente sobre eles; a primeira assembleia
consultiva dos deputados de 1866 foi escolhida, em sua maioria, entre os shaykh;
entre os 74-75 delegados que tomaram assento em 1866, 1870 e 1876, A. R.
al-Rfe` avaliou em 58-64 o nmero de `umda; outrossim, Ism'l nomeou um
grande nmero destes para o cargo de mudr (governador) contra a aristocracia
turco-albanesa; naturalmente, estes homens apoiaram a revoluo de `Urb em
1882 e juntaram-se aos fallhin para defender a causa nacional.

    Desenvolvimento cultural
    A evoluo cultural  das premissas, obviamente pouco exitosas, da acul-
turao  elaborao de uma verdadeira filosofia da cultura nacional  ocupa
um lugar  parte. Uma vez mais, como demonstra toda a histria do Egito em
seus sete milnios, foi o Estado que formulou o projeto, formou os quadros e
impulsionou a ao. No centro deste processo, a grande figura de Shaykh Rif`a
al-Tahtwi (1801-1873) dominava a cena. Com ele, a Idade Mdia terminou
no Egito como em outros centros do mundo rabe.
    Uma nova era comeava, aquela da reconquista da identidade, objetivo das
civilizaes da fase "nacionalitria". Ela se faria em um quadro nacional, com
a ajuda do pensamento radical e da crtica dupla do patrimnio nacional e das
contribuies estrangeiras, de modo que "a ptria seja o local de nossa felicidade
comum, que construiremos pela liberdade, pelo pensamento e pela fbrica". Sua
obra mestre, Manhedj alalbb alMissriyya f  mabhedj aldb al`asriyya (As
vozes dos coraes egpcios rumo s alegrias dos costumes contemporneos),
marcou, em 1869, a juno entre o pensamento nacional e a abertura para o
socialismo:
     o trabalho que d o valor a todas as coisas, as quais no existem fora dele [...].
    O trabalho , ento, o piv da abundncia;  atravs dele que o homem toma posse
    da utilizao dos animais e de sua indstria espontnea, que ele produz a fim de
    que os membros de sua ptria usufruam [...]. Todas as virtudes que o crente deve
    demonstrar em relao ao seu irmo na f so igualmente obrigatrias para todos os
    membros da ptria, em seus direitos recprocos de uns para os outros, em razo da
    fraternidade patritica que os uni sem falar da fraternidade religiosa. Todos aqueles
    reunidos por uma mesma ptria tem a obrigao moral de cooperar para melhorar
    a condio de sua ptria e a ordem nos campos da honra da ptria, de sua grandeza,
    de sua riqueza e sua prosperidade. Esta riqueza no pode ser obtida seno graas 
400                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



      regularidade das relaes sociais e  execuo de empreitadas de utilidade pblica.
      Estas sero repartidas igualmente entre os membros da ptria, a fim de que todos
      participem dos benefcios do orgulho nacional. Quando a injustia, a covardia, a
      mentira e o desprezo desaparecerem, logo as virtudes e benefcios se espalharo entre
      eles e vir a hora da felicidade entre eles17.
    Instrumentos de vanguarda, as misses escolares na Europa, principalmente
na Frana, seguida pela Inglaterra, pela ustria, pela Itlia, pelos Estados ale-
mes e, mais tarde, pelos Estados Unidos da Amrica, no assegurariam, em
si s, a estrutura de um sistema pedaggico na escala de um pas inteiro e de
suas necessidades. Os esforos aparecem, em retrospectiva  e particularmente
em comparao com a ao executada pela ocupao britnica , como verda-
deiramente imponentes. A diferenciao estabeleceu-se entre os dois tipos de
ensino, clssico tradicional e moderno, em funo do legado egpcio, de um lado,
das exigncias do Estado militar e do renascimento cultural, do outro. A rede
de escolas especiais superiores  nica no mundo no ocidental  poca  que
caracterizava o reinado de Muhammad `Al se duplicaria com a instituio de
um verdadeiro sistema de ensino nacional, sob Ism`l, graas particularmente
a `Al Mubrak, aps um interldio que permitiria s misses religiosas euro-
peias e americanas se implantarem, no momento da penetrao imperialista,
apesar de uma oposio tenaz da Igreja cpta. O conjunto destas iniciativas e
desta reflexo dotaria o Egito, em meio sculo, de uma s vez de um sistema
de ensino moderno e nacional, dos principais elementos de uma universidade
de qualidade real, de uma rede diversificada de instituies cientficas e de um
programa pedaggico baseado nos valores humanistas, cientficos e racionalistas
modernos. Foi neste ltimo campo que se encontraram, naturalmente, as difi-
culdades mais srias, tanto  verdade que  mais fcil modificar as instituies
do que remodelar as mentalidades.
    A conjuno das misses escolares e da ascenso das novas elites do poder,
assim como a emergncia de novas camadas sociais, particularmente nas cidades,
graas  ao poltica e militar do Estado, suscitariam um poderoso movimento
de imprensa e editorial, no qual o impulso e o controle estatais  a partir da
criao de um dirio oficial alWak 'i` alMisriyya (1828)  permitiriam contudo
uma margem para iniciativas privadas (alAhrm foi criado em 1876).
     preciso notar que foi o Egito, a nica entre todas as provncias do Imprio
Otomano, que ofereceu asilo aos intelectuais, pensadores, escritores e editores


17    R. al-Tahtwi, 1869.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                              401



perseguidos pela Porta, na realidade a terra de asilo privilegiado, em funo de
seu carter oriental e islmico, mas tambm organicamente interligado ao movi-
mento da Europa moderna. Uma terra de asilo que mais era um ponto de encon-
tros, de trabalho e de criao intelectuais, apoiado no nico Estado moderno do
Oriente dotado de uma infraestrutura material, tcnica e econmica avanada. A
luta empreendida pelo Egito depois do advento de Muhammad `Al para fundar
um Estado moderno, superar quatro sculos de decadncia e dotar-se de uma
economia avanada apoiada em um exrcito eficiente e poderoso  luta esta
retomada, em condies infinitamente mais rigorosas, por Ism`l  provocou
uma fermentao de ideias e de movimentos sociais e polticos de grande inten-
sidade: a imprensa rabe  egpcia e srio-libanesa, oficial e privada  vivia ento
em um ambiente privilegiado de exaltao do sentimento nacional, propcio 
renovao cultural e ao cruzamento de ideias. Foi isso, nos parece, mais do que
o nico fato de ter sido o lugar de asilo preferido  poca no seio do Imprio
Otomano, que constituiu a contribuio fundamental do Egito ao progresso
do ensino, da imprensa e da publicao  das luzes no mundo rabe islmico
de ento  durante este perodo que apareceria, mais tarde, como tendo sido
aquele da gestao da revoluo e do renascimento nacionais. Bastaro alguns
exemplos.
    A historiografia adotou muito rapidamente o mtodo cientfico, e seu campo
de aplicao se ampliou do Egito s grandes experincias que abraariam o
mundo, particularmente o mundo moderno e hegemnico, aquela Europa de
onde vinha o desafio. A transio de `umma para watan  da "comunidade de
crentes"  "ptria" no sentido estrito  fez eco, no plano das ideias,  vontade
poltica do Egito de se separar da Turquia e se tornar autnomo.
    A elaborao da noo de independncia no seguiu a mesma curva que
aquela do conceito de ptria. A oscilao entre um autonomismo mais ou menos
autocentrado e uma vontade de independncia real, acrescida de ambies impe-
rialistas, remete-nos  problemtica especfica do destacamento institucional da
personalidade nacional egpcia, no mbito geopoltico historicamente definido
pela luta das potncias rivais europeias pela partilha do mundo. No se tratava
apenas da imperfeio das ferramentas conceptuais e ideolgicas  a qual no
era menos real. A dificuldade estava em outro lugar: uma dialtica de confronto
bipolar direta no sendo possvel, impuseram-se estratgias de tipo triangular
ou pluriangular, cujos protagonistas eram sempre o Egito, a Frana e a Gr-
-Bretanha  aos quais se adicionava a Turquia. Por isso, o pas buscaria doravante
em si fontes de fora e motivos de legitimidade.
402                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A imitao do Ocidente era vista, com alegria, como uma operao de super-
fcie  um espelho do ser possvel, j que no podia se tratar de um possvel
atualizvel: a vestimenta; o urbanismo; a msica sob a forma de pera, mas
tambm de composies militares; o teatro, sobretudo; esboos de romance.
Obviamente que os sales no poderiam mascarar o essencial, isto  o ressurgi-
mento do Estado nacional. Eles no conseguiriam mais atenuar, nem que fosse
por um momento, a voz do pas profundo. Esta, tal como a expressam os ditados,
os provrbios e os costumes, era impregnada por um sentimento de usurpao
 no no imediato, mas atravs e no final de uma histria milenar; porm, uma
usurpao impensvel, to profundo era o enraizamento de cada um na gleba
imemorial. A sensibilidade popular viria  tona atravs de moldes e de frmulas
expressando a necessidade de mediaes viveis.

      Geopoltica e compradores
   A dissoluo do Estado de Muhammad `Al, a qual comeou a partir do
Tratado de Londres em 1840, foi o preldio da penetrao do Egito pelo grande
capital europeu, apoiado pelos compradores da poca.  questo de saber se
o reinado de `Abbs I foi verdadeiramente aquele "do silncio e do terror",
Muhammad Sabry respondeu:
       preciso reconhecer, entretanto, que a poltica vigilante e severa do Vice-Rei criou
      uma espcie de barreira contra a afluncia europeia no Egito; que ela impediu,
      sobretudo graas aos regulamentos estabelecidos para limitar a liberdade de comr-
      cio interior, os europeus, gregos em sua maioria, de penetrar no interior do pas e
      de deixar as duas grandes cidades, Alexandria e Cairo, para difundirem-se nas reas
      rurais e comerciarem com os camponeses ignorantes. `Abbs conseguiu deste modo
      deter o mal (a era consular) que se ampliaria como uma mancha de leo sob o seu
      sucessor, j que nunca deixou de existir18.
    A concesso dada por Sa`d (1854-1863) a seu amigo de infncia Ferdinand de
Lesseps pela abertura do canal de Suez, em 30 de novembro de 1854, oficialmente
notificada pelo firmn de 19 de maio de 1855, marcou o incio da penetrao
do Egito pelo grande capital europeu, ento no pice de sua expanso colonial.
O impulso viria de Napoleo III em pessoa, que precipitaria a transformao da
Sociedade de estudos do canal de Suez, criada em 27 de novembro de 1846, por
trs grupos de dez membros cada, representando a Gr-Bretanha, a Frana e a


18    M. Sabry, 1933.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                          403



ustria  na Organizao do conselho de administrao da Companhia universal
do canal de Suez, criado em 30 de novembro de 1854 "de modo que a sua orga-
nizao entre os homens de negcios facilitasse a ao dos homens de Estado
em suas negociaes diplomticas", como o indicou Napoleo III a Enfantin.
Este ltimo foi rapidamente descartado do negcio, em proveito exclusivo de
Lesseps que no cessaria doravante de conduzir Sa`d a todas as concesses, em
nome da amizade. Lesseps o empurrou, sem descanso, na via dos emprstimos
estrangeiros. Na morte de Sa`d, em 18 de janeiro de 1863, o passivo do Egito se
elevaria a 367 milhes de francos (14.313.000 libras egpcias), de acordo com a
verso mais difundida, enquanto, segundo M. F. Liht, esse nmero teria alcan-
ado 16.308.075 libras. Alm disso, Sa`d cedeu a preo irrisrio o domnio de
Wd  10.000 hectares, incluindo al-Tall al-Kabr, chave do Egito , quatro canais
interiores entre o Nilo e o lago Timsh, trs imveis e suas dependncias, assim
como entrepostos que se estendiam sobre 10.000 metros quadrados em Blk.
    Desde o pronunciamento feito em 20 de janeiro de 1863, na Cidadela do
Cairo, diante do corpo consular, Ism`l declarou sua inteno de abolir o tra-
balho obrigatrio. "Ningum  mais a favor do canal do que eu"  disse ele um
pouco mais tarde  "mas quero que o canal seja para o Egito e no o Egito para
o canal." Simultaneamente, as grandes obras de desenvolvimento econmico
no interior, as misses diplomticas e as operaes militares empreendidas no
exterior (Mxico, Creta, frica), tanto por conta da Porta quanto para a ins-
taurao do Imprio egpcio na frica, aumentariam as cifras dos emprstimos.
Os nmeros so eloquentes:  medida que o Egito se atolava, as condies
tornavam-se mais draconianas. Ao todo, oito emprstimos, incluindo o de Sa`d,
escalonaram-se de 1862 a 1873; de fato, o emprstimo de 1868 no permitiu a
recompra da dvida flutuante e desviou-se para as despesas de funcionamento,
entre outras a da inaugurao do canal. Ism`l Saddk imaginaria a lei dita
mukbala (1871), a qual seria aplicada at 1877: contra o pagamento de uma
soma correspondente a seis anuidades do imposto fundirio, os proprietrios
eram confirmados em seus direitos de propriedade e se beneficiavam de uma
reduo perptua de 50% do dito imposto.
    A bancarrota que ameaava a Turquia, em 1874, reduziu a margem de mano-
bra de Ism`l. Para enfrentar o vencimento de 1 de dezembro de 1875, ele
negociou a cesso das 177.642 aes do canal com os credores franceses pri-
meiro, depois com a Gr-Bretanha. Em 25 de novembro, Disraeli apoiado pelos
Rothschild, arrematou o lote  isto , a toda parte do Egito na Companhia do
canal  pela soma irrisria de 3.976.580 libras.
404                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Os residentes estrangeiros  que passaram de 3.000 em 1836 a 112.568 em
1897  agiriam de incio como uma fora de penetrao, depois como auxi-
liares das tropas de ocupao aps 1882. "Esta sociedade, de acordo com M.
Sabry, era formada principalmente por delinquentes, falsrios, ex-condenados
da justia, nababos e aventureiros de toda a sorte"; e, segundo D. S. Landes, ela
"englobava uma mistura dos melhores e piores elementos do mundo europeu e
mediterrneo: banqueiros e agiotas; mercadores e ladres; agentes de cmbio
ingleses cheios de retido e traficantes levantinos mercuriais; empregados
zelosos da P.&O. (Peninsular & Oriental); prostitutas multicoloridas para
a Praa dos Cnsules em Alexandria; eruditos devotados para os templos
de Abydos e de Karnak; malfeitores e homens de confiana para as ruas do
Cairo"19.
    O comrcio atacadista de importao e exportao estava praticamente con-
trolado pelos estrangeiros, particularmente os ingleses, os gregos, os italianos e os
alemes (seis ou sete egpcios entre vrias centenas de importadores em 1908);
o comrcio semiatacadista e varejista estava igualmente nas mos dos estran-
geiros, gregos, levantinos e judeus na maioria. As finanas e os bancos locais
estavam, essencialmente, nas mos dos judeus, aliados ou associados aos bancos
europeus, os "neo-devoradores"  os Cattaui, Mnach, Suars, Sursock, Ada,
Harari, Salvago, Aghion, Sinadino, Ismalun; eles negociavam com os gregos, os
italianos, os srios e, mais tarde, com os egpcios. Mediterrneos e levantinos
exerciam pequenas profisses, o comrcio, o artesanato etc. Os sditos britnicos
 dos quais a metade vinha de Chipre, de Malta e de outras colnias  eram ou
militares ou funcionrios pblicos, ou engajados no comrcio do algodo. Em
1897, a agricultura ocupava 64% da populao ativa autctone, contra 0,7% dos
estrangeiros; na indstria e no comrcio, ao contrrio, encontravam-se 50% da
populao ativa estrangeira, contra 17% dos autctones.
    Em 1919, 1.488 proprietrios estrangeiros possuam mais de 50 faddn, isto
 um total de 583.463 faddn, ou seja, uma mdia de 400 faddn por pessoa,
contra uma mdia de 150 faddn para os grandes proprietrios egpcios. A
renda mdia anual dos estrangeiros per capita atingia 85 libras egpcias contra
9,5 libras para os egpcios, sem falar, obviamente, das sociedades estrangeiras
em operao no pas e dos emprstimos contratados no exterior. Em 1882, a
criao dos tribunais mistos tentaria reduzir a margem de desordem financeira
e administrativa.


19    D. S. Landes, 1958.
O renascimento do Egito (1805-1881)                                           405



    A revoluo egpcia (18811882)
    Ao longo de todo o sculo XIX e mais particularmente a partir da parada
estratgica de 1840, a ascenso da burguesia egpcia deu-se em um contexto
implacvel, aquele dos imperialismos ascendentes. Ela aconteceu ao mesmo
tempo que o estabelecimento de uma cultura verdadeiramente nacional, graas
notadamente a R. al-Tahtw e A. Mubrak, acompanhada pela formao de
um exrcito, ento o mais poderoso da frica, conduzido por politcnicos e
cientistas acostumados  estratgia a longo prazo.
    Nos ltimos anos do reinado de Ism`l, diretamente encorajado pelo quediva,
o "grupo do Hilwn" (Shrf, Ism`l Rgheb, `Umar Lutf, Sultn Pacha, os coro-
nis Ahmad `Urb, `Abdul`-Al Hilm e `Al Fahm, Mahmd Sm al-Brd,
Sulaymn Abza, Hasan al- Shir`, Mahmd Fahm Pacha) como tambm as
reunies secretas dos oficiais do exrcito egpcio comearam a agir em 1876. Tal
seria a origem do "Programa Nacional", apresentado  Assembleia, em 2 de abril
de 1879, por sessenta parlamentares apoiados pelos grandes dignitrios religio-
sos; tal seria tambm a origem do primeiro manifesto trazendo a assinatura do
Partido Nacional, em 4 de novembro de 1879, como tambm do primeiro pro-
grama do Partido Nacional, conjuntamente redigido por Muhammad `Abduh e
W. S. Blunt, em 18 de dezembro de 1881. A ao era ento principalmente do
tipo reivindicativo e constitucionalista. O Partido Nacional, entretanto, apoiava-
-se no exrcito, o ltimo recurso. Sua ao era caracterizada por um gradualismo
a partir do topo, o reconhecimento do papel do exrcito na revoluo nacional
e o quadro religioso, isto  islmico, de ao poltica.
    Diante do reagrupamento das foras nacionais em andamento, as potncias
europeias, desta vez lideradas pela Gr-Bretanha apoiada pela Frana, tendo
como pretexto um sombrio compl que se traduziu em distrbios e mortes em
11 de junho de 1882 em Alexandria, se reuniram em Constantinopla, em 23 de
junho, para considerar de novo a "Questo Egpcia". Foi ento tomada a deciso
de intervir militarmente. A esquadra britnica comandada pelo almirante Sey-
mour bombardeou Alexandria em 11 de julho de 1882, causando perdas con-
siderveis em vidas humanas e o incndio da cidade em 12 de julho. Esta ao
antecedeu a invaso militar que tinha por objetivo destruir a ponta-de-lana do
movimento nacional, isto , o exrcito. Com efeito, os oficiais em comando das
trs brigadas do exrcito,  frente de suas tropas, tinham apresentado em 9 de
setembro de 1881 ao quediva Tawfk, confinado em seu palcio de `Aabdn, as
reivindicaes do Partido nacional em nome de toda a nao. A invaso britnica
406                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



se concluiu pela destruio do exrcito egpcio, particularmente durante a bata-
lha de al-Tall al-Kbr, em 13 de setembro de 1882 quando o brigadeiro-general
Muhammad `Obeyd morreu  frente de suas tropas, heri sem sepultura da der-
rota da revoluo. Um grande nmero de paxs, em torno de Muhammad Sultn
Pacha, aderiu ao invasor. Ahmad `Urb e seus companheiros foram excludos
do exrcito e exilados no Ceilo. A longa noite da ocupao comeou, enquanto,
por quase um ano ainda, os fallhin nas reas rurais continuaram a se mobilizar
esporadicamente para manter viva a lenda de `Urb e de seus companheiros.
    O perodo que vai da abdicao forada de Ism`l (1879)  ocupao militar
britnica foi dominado pela radicalizao profunda e acelerada do movimento
nacional egpcio e de sua ideologia em formao. O problema do renascimento
foi percebido e as vezes posto em termos explcitos. A resistncia  penetrao
econmica e poltica das potncias europeias dominava a conscincia nacional
e determinava os temas e os modos de expresso. Com a ocupao militar
iniciou-se um perodo que findaria, formalmente, com a evacuao de 1954 e,
efetivamente, em 1956 com a reconquista de Suez. O perodo seguinte foi to
negro quanto foi descrito?
    Primeiramente a renovao do pensamento islmico. A reviravolta de 1840,
e em seguida a ocupao que se preparia, desde 1879, no poderiam deixar de
atiar grandes massas, sensibilizadas pelo Isl. Mas onde pesquisar as causas
do atraso, os motivos da decadncia e as justificativas da fissura? Um grupo de
pensadores, inseridos nos grupos sociais ligados aos setores tradicionais da eco-
nomia e das instituies, ressentiu mais vivamente que os setores modernistas da
economia da poca a crueldade desta marginalizao histrica. Seus tericos, e
principalmente Muhammad `Adduh, se aplicaram em buscar no mais profundo
da tradio nacional cultural mais marcante  a do isl  as razes e as chaves.
A religio e a ideologia no eram mais, no sculo XIX, aquelas que Muhammad,
nab al`arab (o profeta rabe), tinha institudo. Tradies na maioria falsas; as
escrias; a longa herana dos sculos de decadncia e de dependncia: o isl no
era mais o mesmo. Doravante, convm ver nesta desnaturalizao a fonte da
decadncia nacional e no retorno aos fundamentos dos princpios a via de todo
futuro possvel para um pas islmico. As reformas sugeridas no excluam o uso
da razo ou, mais exatamente, do bom senso, mas apenas no quadro da religio;
pragmatismo que permitiu a abertura  contemporaneidade, mas j recusava, o
processo de teorizao; recusa de toda dialtica social, em nome da unidade do
umma; recusa do historicismo, o passado sendo privilegiado, por princpio  tais
parecem ser, de um lado a inspirao profunda do pensamento teolgico, do
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                                   407




Figura 13.6 O bombardeio de Alexandria, julho de 1882. [Fonte: A. R. al-Rfe`, Thawrat Arabi walIhtelal
alBiritani, 1937, Cairo, Dar al-Nahda al-Misriyyah. Fotografia original publicada no The Graphic, Londres,
1882.]



outro lado os traos essenciais da aplicao deste pensamento nos campos da
poltica e do social desta renovao.
    Os radicais estavam em outro lugar. Eles se enrazavam, contudo, no mesmo
terreno, mas somente setorialmente,  verdade. O isl irrigava as duas tendncias,
e al-Azhar, com frequncia, acolhia e formava, mas somente em um primeiro
momento. Al-Tahtw, desta vez, anunciava mais do que dirigia. A direo do
movimento nacional  o "grupo do Hilwn", que escolheu `Urb como chefe
 evoluiu a partir de teses liberais, pr-independncia e constitucionalistas,
muito aceitveis para a poca, em virtude de um pragmatismo prudente que a
exploso revolucionria apenas desmentiria por um tempo. A frente das classes
ascendentes,  poca mal estruturadas ou em gestao, se dotou naturalmente
de uma armadura ideolgica ecltica. Ecletismo  mas no sntese. As foras
ascendentes da poca, das quais 1952 marcaria a queda, no conseguiram ainda
realizar a triagem crtica preliminar a toda sntese; o amlgama frentista foi pre-
ferido  anlise; o unanimismo revolucionrio a uma definio exata em termos
de princpios e classes. Foi ento, nos parece, que a ideologia do modernismo
liberal tornou-se um slogan equivocado  a despeito de al-Tahtw.
408                                                           frica do sculo XIX  dcada de 1880



    No meio da grisalha do tempo, na noite da ocupao cujo peso, nesta pri-
meira fase, foi particularmente sufocante, `Abdullh al-Nadm (1843-1896)
apareceu como uma figura legendria. Nele, tudo convergiria: o pensamento e
a ao, a retrica e a eficcia, o classicismo e a modernidade. Sua contribuio
principal estava, essencialmente, na implantao das teses e ideias nacionalit-
rias, at ento privilgio das elites, nas massas profundas do povo das cidades e
do campo. Jornalista, tribuno, organizador poltico, autor teatral, terico e pra-
ticante eminente do rabe dialetal e historiador, ele foi o verdadeiro criador do
populismo revolucionrio que encontraria nas colunas de seus jornais sucessivos,
alTankt wa'lTabkt, depois alTa'ef, como tambm na criao da Sociedade
Benfeitora Islmica, os meios de despertar a opinio pblica. "Eu proclamo o
amor dos soldados e a necessidade de se apoiar neles, eu apelei s massas a se
unirem a eles." Eis o seu apelo de 20 de julho de 1882, no momento da revo-
luo de `Urb:
      Habitantes do Egito! Os ingleses dizem que o Egito  a fortaleza dos pases ra-
      bes e que aquele que penetr-lo conquista atravs dele os pases dos muulmanos.
      Levantai-vos na defesa de vossa ptria, fortificai-vos, preservai a fortaleza dos pases
      islmicos, lutai na guerra santa e justa em nome de Al a fim de preservar esta grande
      religio e afastar um inimigo que deseja penetrar com seus homens e sua cavalaria
      no pas de Deus, na santa Ka`ba, atravs do vosso pas, apoiando-se para fazer isso
      em vosso quediva que vendeu a nao a fim de agradar os ingleses e deu as terras do
      isl em troca da proteo que lhe do os ingleses!
   Aps a derrota, o seu ltimo jornal, alUstdh  o qual se desejava como
o cadinho da radicalizao da ideologia nacional, o local do retorno s razes
patriticas na travessia da longa noite que conduziria em 1892 ao ressurgimento
do movimento nacional em torno do Partido nacional  declarou:
      Em uma palavra, o remdio mais forte  a cauterizao com fogo. A situao atingiu
      o seu pico. Se conseguirmos remendar este tecido rasgado, se nos apoiarmos uns aos
      outros, se unificarmos a palavra oriental, egpcia, sria, rabe e turca  ento podere-
      mos dizer a Europa: "Ns somos ns e vocs so vocs'. Mas, se permanecermos onde
      estamos  contradies, capitulao, apelo uns aps os outros ao exterior , ento a
      Europa ter o direito de nos expulsar de nossos pases at os cumes das montanhas
      e, aps ter-nos cercado entre os animais selvagens, dizer-nos com razo: `Se fsseis
      semelhantes a ns, tereis agido como ns."
   Nove anos de clandestinidade, a primeira na histria do movimento nacio-
nal egpcio e que faria escola, fizeram de Nadm o porta-voz da massa dos
O renascimento do Egito (1805-1881)                                                409



fallhin, este pas profundo que ele trabalhou e irrigou com sua seiva.  preciso
ler as lembranas publicadas, oitenta e quatro anos mais tarde, em 1966, por
um dos raros sobreviventes dos fallhin rebelados  poca, al-Hdjdj `Uthmn
Shu`b:
    O pas no se calou; houve numerosas rebelies; os sultes, os reis e os ingleses
    mataram-nas. Quanta juventude se foi sem resultado [...]. Depois veio Gamal. Ele
    vingou `Urb; ele vingou os fallhin; ele expulsou o sulto e os ingleses. Uma nica
    coisa me desagrada; a foto de `Urb: aonde esto suas mos, seu porte alto? Onde
    est a sua espada?
   Naquela noite de toda a ocupao, na grisalha, a abdicao e os compromis-
sos, diante do terror que se abateu sobre o pas desconcertado, Nadm proclamou
o advento do povo no timo da revoluo portadora do amanh.


    O impacto do Egito: "a outra margem do rio"
    Na hora do balano, uma grande interrogao se impe claramente: como
explicar este renascimento em crise, a ruptura de uma escalada que permaneceu
verdadeiramente fulgurante para a poca, um processo travado, do qual o mundo
rabe e a frica mantiveram a nostalgia?
    Trata-se, fundamentalmente, do peso do fato geopoltico sobre o conjunto
de todo o processo, bem mais do que das razes internas, as quais tiveram igual-
mente um papel substancial. Com efeito, se aceitarmos a matriz dos dois crculos
da dialtica social  o crculo externo, exgeno, e o crculo interno, endgeno
 claramente veremos que, no caso do Egito, local de todas as tormentas, na
juno do Oriente e do Ocidente, ponto de encontro de trs continentes (frica,
sia e Europa), foi o crculo externo  aquele da geopoltica  que comandou
o conjunto. O sculo XIX egpcio foi, bem entendido, o ponto culminante das
guerras que devastaram o litoral do Egito e da Sria, bem como o Magreb rabe
e islmico, desde o sculo XVIII; sendo 1882, alis, a data exata na qual todos
os pases rabes e islmicos da frica do Norte e da sia Ocidental cessaram
de ser formalmente independentes para se tornarem possesses militares diretas
das grandes potncias do Ocidente.
    Mas h mais. Os golpes dados na primeira etapa do renascimento egpcio,
desde as grandes batalhas navais do Mediterrneo e o Tratado de Londres em 1840
at a ocupao militar em 1882, a penetrao macia dos capitais e dos colonos
estrangeiros, o desmantelamento progressivo do movimento de independncia e de
410                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



edificao nacional no deixariam tempo para o Egito  e estamos a no corao do
crculo endgeno da dialtica social  perfazer uma sntese do pensamento nacional
que pudesse fazer frente  penetrao estrangeira, estruturando, ao mesmo tempo,
o projeto nacional de modo realista e adequado. As grandes tendncias do pensa-
mento egpcio  o modernismo liberal de um lado e o fundamentalismo islmico
do outro  tentariam executar sua juno apenas na metade do sculo XX. O sculo
XIX permanece, por sua vez, como o do esboo, das aproximaes inadequadas e da
simbiose impossvel. Da a permeabilidade do terreno nacional em que o moder-
nismo da aculturao se encontrou facilmente confundido com a modernidade
nacional crtica, onde a "onda ocidental" pde facilmente isolar os diferentes fatores
constitutivos e as grandes formaes do movimento nacional egpcio.
    O impacto desta primeira etapa do renascimento egpcio repercutiria muito
alm de suas fronteiras. O Sudo, a Abissnia, o Chifre da frica e a rea dos
Grandes Lagos da frica central experimentariam os ensinamentos do Egito
renascente em luta contra o imperialismo. No Magreb, o renascimento do isl
poltico e das grandes lutas populares e militares contra a penetrao colonial
inspiraram-se sem cessar nas diferentes dimenses do esforo egpcio. Foi o Tra-
tado de Berlim que codificou a diviso da frica em 1881. Ele o fez em grande
parte para assegurar o desmembramento racional e desde ento legalizado, do
grande continente, cujo despertar ameaou o que era ento a ordem do mundo,
o "concerto hegemnico das potncias".
    Ainda mais alm, a obra de Muhammad`Al serviria de lio, uma das lies
principais, que a equipe estabelecida pelo imperador Meiji estudaria a fim de
promover a restaurao japonesa a partir de 1868. A situao geopoltica, neste
caso, era inversa: protegido pelos continentes, os oceanos, at o surgimento do
comandante Perry, o Japo permaneceu muito mais senhor da sua coeso nacio-
nal cultural e, desde ento, pde iniciar a obra de modernizao longe da prensa
de ferro e de fogo da geopoltica  at Hiroshima e Nagasaki. Lembraremos,
aqui, o impacto da vitria japonesa de Tsushima (1905) sobre o despertar da
conscincia nacional e sobre o Partido Nacional de Mustaf Kaml e Muham-
mad Fard no Egito do incio do sculo XX. Enquanto isso, entre o mundo
rabe e o Japo, a reforma constitucional dos Tanzmt, na Turquia, inspirou-se
diretamente e explicitamente nas reformas egpcias: ltimos sobressaltos do
califado otomano que seriam retomados e racionalizados pela Ittihd wa Taraqq
e os Jovens Turcos de Enver Pacha e Mustaf Kaml (Ataturk).
    Abriu-se a cortina para o renascimento nacional do Egito, certamente em
crise, que seria, objetivamente, o elemento formador do ressurgimento da frica e
da sia, do Oriente moderno, de 1805  Conferncia de Bandoeng, em 1955.
O Sudo no sculo XIX                                                     411



                                       CAPTULO 14


                        O Sudo no sculo XIX
                              Hassan Ahmed Ibrhm
                      com uma contribuio de Bethwell A. Ogot
                            sobre o Sudo Meridional




    As migraes rabes com destino ao Sudo Oriental  correspondendo mais
ou menos ao Sudo atual, menos a regio meridional  comearam no sculo IX
e atingiram seu apogeu no sculo XIV. Por meios pacficos, os rabes penetraram
progressivamente no pas e propagaram sua cultura, sua religio e sua influncia
entre as sociedades crists e tradicionalistas1. No incio do sculo XVI, o Sudo
Oriental era essencialmente dominado por dois sultanatos muulmanos: os sul-
tanatos funj e fur. Enquanto os sultes fur, os quais descendiam de uma grande
famlia sudanesa  os Kayras , reinaram sobre Darfur at 1874, os sultes de
Sennar capitularam frente aos turcos em 18212. O sultanato dos funj foi dila-
cerado pelas rivalidades dinsticas, sobretudo entre os fundadores, os funj e os
`abdallb, e, subsequentemente, entre os diversos grupos hostis hamadj, os quais
presidiram seus destinos a partir da dcada de 1760. Todos estes antagonismos
levaram, no incio do sculo XIX,  desintegrao final do sultanato em chefias
frgeis e opostas umas s outras3. O caos e as guerras locais que se seguiram
deram, em 1820-1821 ao vice-rei do Egito, Muhammd `Al, a ocasio que ele
esperava impacientemente para agregar o Sudo s suas possesses. Deste modo,


1   Para um estudo mais detalhado desta questo, ver Y. F. Hasan, 1967.
2   P. M. Holt, 1973, p. 67.
3   Para maior preciso, ver Histria Geral da frica, vol. V, cap. 7
412                                                            frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 14.1   O Sudo sob o domnio turco, 1820-1881 (segundo H. A. Ibrhm)
O Sudo no sculo XIX                                                         413



comeou o primeiro perodo de domnio colonial que o Sudo conheceu durante
mais de sessenta anos.
    Qualifica-se com frequncia de "egpcia" este perodo colonial da histria do
Sudo. Contudo, se tivermos que qualific-lo assim, este termo deve ser empre-
gado com prudncia. O Sudo no foi efetivamente conquistado ou governado
pelos egpcios tais como os conhecemos hoje, mas por uma "entidade de ln-
gua turca cujos membros dominaram o Egito desde a poca medieval". Salvo
algumas excees, os verdadeiros egpcios, isto , os habitantes do baixo vale do
Nilo, no foram nomeados para cargos polticos ou militares importantes nem
no Egito nem no Sudo conquistado, acederam somente a cargos subalternos
na administrao e no exrcito. Esta  a razo pela qual os sudaneses, como
os europeus, chamavam os dirigentes do pas de "turcos", "porque o Sudo era
egpcio somente porque era dependente da provncia otomana do Egito"4. Neste
captulo, ns adotaremos a expresso "Turkyya" (turco) preferencialmente a
"egpcio" ou ao neologismo atual, porm inoportuno, de "turco-egpcio".
    Pode-se estudar o domnio turco no Sudo (1821-1885) sob as trs seguintes
grandes rubricas: a estratgia da conquista e a reao dos sudaneses do Norte; a
resistncia ao avano imperial no Sul (1840-1880); o papel do novo regime na
modernizao do Sudo.


    A estratgia da conquista e a reao
    dos sudaneses do Norte
   A estratgia da invaso turca no Sudo foi tema de muitas controvrsias entre
os historiadores. Segundo alguns historiadores egpcios, o objetivo principal de
Muhammd `Ali, quando empreendeu o que denominaram de "abertura" do
Sudo, era o bem estar do pas e de sua populao. Segundo eles, Muhammd
`Al sentia tanta comiserao pela degradao das condies de vida dos habi-
tantes do sultanato funj que decidiu intervir pela fora para tir-los da misria
e para, subsequentemente, unir os sudaneses aos seus irmos do Egito em um
Estado poderoso que trabalharia a favor do "bem estar" dos dois povos5. Alguns
historiadores egpcios chegaram a afirmar que Muhammd `Al empreendeu
aquela invaso "por solicitao dos prprios sudaneses"6, representados por

4   R. Hill, 1966, p. 1.
5   M. F. Shukri, 1948, p. 23.
6   M. A. al-Jbr, s.d., p. 18.
414                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



alguns notveis que o encontraram no Cairo e o pressionaram a intervir assim.
Isto  o que fizeram efetivamente alguns dignitrios sudaneses; mas  razovel
pensar que seus motivos fossem estritamente pessoais o que se explica pelas
rivalidades dinsticas que os opunham aos sultes funj. No h ento como
supor que eles agiram como representantes do povo sudans.
    Um eminente historiador egpcio, j falecido, o professor Muhammad Fu`d
Shukri, afirmou que a conquista de Muhammd `Al estabelecera solidamente
"os direitos legais e histricos" do Egito sobre o Sudo. A dissoluo do sulta-
nato funj, em 1820, e o desaparecimento da autoridade legtima de seu sulto
fizeram do Sudo, segundo Shukri, "uma terra sem soberano"7  uma "terra de
ningum". Por isso, quando Muhammd `Al imps seu poder e estabeleceu um
governo forte, o Egito se tornaria automaticamente, a partir de 1821, a autori-
dade soberana e incontestada no Sudo pelo direito de conquista8. Shukri afirma
que uma das razes fundamentais da estadia de Muhammd `Al no Sudo em
1838-18399 foi para propagar esta teoria a qual ele chamou de "teoria do vazio"
e de se apoiar nela para "salvaguardar a unidade do vale do Nilo", isto , para
manter os dois elementos constitutivos, Egito e Sudo, sob um regime poltico
nico10.
    Esta reivindicao de soberania egpcia sobre o Sudo dominou a poltica
egpcia e sudanesa at a dcada de 1950. Shukri parece ter tido motivos pol-
ticos para sustentar a tese dos partidrios da unidade do vale do Nilo contra
aquela dos partidrios de um Sudo independente. Deve-se tambm agregar
que o sulto de Sennar, o qual, em 1820, no passava de um mero fantoche,
permanecera at aquela poca como o soberano legtimo do pas. Alm disso, o
Egito no podia reivindicar a soberania sobre o Sudo por direito de conquista
j que a invaso fora empreendida em nome do sulto otomano e que o prprio
Egito permaneceria, at 1914 pelo menos, uma provncia otomana. De todos os
modos, o sultanato dos funj no poderia ser identificado com o Sudo.
    "A hiptese do bem estar da populao" colocada para explicar a invaso
egpcia, foi questionada do mesmo modo por alguns historiadores sudaneses
em trabalhos recentes11. Baseando-se em documentos de arquivos muito varia-
dos, estes trabalhos provam que Muhammd `Al tinha como primeiro objetivo


7     M. F. Shukri, 1946, p. 18.
8     Ibid., p. 38-39.
9     Para um trabalho sobre esta estadia, ver H. A. Ibrhm, 1980a, 1980b.
10    M. F. Shukri, 1958, p. 13.
11    Ver, por exemplo, H. A. Ibrhm, 1973, e B. K. Humayda, 1973.
O Sudo no sculo XIX                                                                                  415




Figura 14.2 Sennar em 1821: a capital do antigo sultanato dos funj, na poca da invaso turco-egpcia.
[Fonte: P. M. Holt e M. Daly, History of the Sudan, 1979, Weidenfeld and Nicolson, Londres. Ilustrao: The
National Trust, Kingston Lacy, Bankes MSS.]




Figura 14.3 Um acampamento de caadores de escravos turco-egpcios no Cordofo. [Fonte: P. M. Holt e
M. Daly, History of the Sudan, 1979, Weidenfeld and Nicolson, Londres. Ilustrao: George Weidenfeld and
Nicolson Ltd., Londres.]



explorar os recursos humanos e econmicos do Sudo a fim de realizar suas
vastas ambies no Egito e no estrangeiro.
    Desejoso de consolidar sua independncia no Egito e de construir um imp-
rio  custa do imperador otomano, Muhammd `Al criara, um pouco antes da
conquista do Sudo, um exrcito poderoso e moderno. Muhammd `Al que
416                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



comeara por excluir, por vrias razes, o recrutamento dos fallhin (campo-
neses) egpcios12, esperava recrutar 20 ou 30.000 sudaneses em seu alnizam
aldjadd (nova organizao). Ele tinha tambm necessidade de muitos dentre
eles em suas numerosas empreitadas agrcolas e industriais do Egito. No cessou
ento de intimar seus chefes de corpo no Sudo para intensificar as ghazwa
(ataques para capturar escravos) e para enviar o mximo de africanos possvel aos
acampamentos especialmente arranjados para eles em Assu. Ele sublinha em
uma diretiva que  a justificativa mais importante das "dificuldades e despesas da
conquista", e declara em uma outra que esta prtica desumana responde ao "seu
desejo mais vivo", quaisquer que sejam os meios utilizados para atingi-lo13.
    At 1838, no passou sequer um ano sem que tenha tido ao menos uma, e
s vezes vrias, ghazwa aos negros nos montes Nuba e alm de Fazughli; mas
o nmero de negros suscetveis de serem reduzidos  escravido diminua. A
esperana que tinha Muhammad `Al de inchar as fileiras do exrcito negro de
seus sonhos no era mais do que uma "utopia que no fora precedida de estudo
algum aprofundado sobre o reservatrio de escravos que constitua o Sudo"14.
Ademais, os negros sudaneses opunham uma resistncia feroz contra os ataques
escravistas, alguns mesmo suicidavam-se para evitar a humilhao de uma vida
na escravido. Perdiam-se muitos dos cativos no caminho, enquanto que as
febres, a disenteria, o frio e o banzo acabavam com um bom nmero de outros
na prpria Assu. Diante deste revs radical, Muhammad `Al resolveu praticar
em grande escala o recrutamento obrigatrio dos fallhin, e descobriu logo que
estes "formavam uma das melhores infantarias regulares do Oriente Mdio"15.
    Quando eram recrutados para seu servio militar no prprio Sudo, os negros
davam tambm provas de indiferena e de indisciplina. Alguns desertavam,
enquanto outros pegavam em armas contra o governo. A mais importante destas
rebelies foi sem dvida a de Medani, em 1844. Como reao s injustias e
humilhaes, os soldados sudaneses conspiraram para se revoltar simultanea-
mente em quatro lugares: Cartum, Sennar, Kamlin e Medani. Mas os rebeldes
de Medani insurgiram-se antes da data fixada, mataram alguns de seus oficiais



12    Sendo ele prprio um estrangeiro, Muhammd`Al estimava talvez que um exrcito nacional colocaria sua
      posio no Egito em perigo. Pode-se, sem dvida, explicar sua deciso pela repugnncia dos fallhin em
      fazer o servio militar e pelo seu desejo de v-los consagrar todos os seus esforos no desenvolvimento
      agrcola do Egito.
13 Citado em H. A. Ibrhm, 1980a, 1980b.
14    R. Hill, 1966, p. 25.
15    Ibid., p. 7.
O Sudo no sculo XIX                                                          417



turcos e fugiram para Sennar para continuar a rebelio. Foi com grandes difi-
culdades que o governo reprimiu este levante16.
    Mais importante ainda foi o desejo de Muhammad `Al de explorar as rique-
zas minerais sudanesas, principalmente as jazidas aurferas. Quando tomou o
poder em 1805, o Egito era uma das provncias mais pobres, seno a mais pobre,
do imprio otomano. Da a vontade de Muhammad `Al de encontrar uma fonte
fcil de receitas para realizar suas aspiraes no interior e no exterior. Obcecado
desde a juventude at a velhice com a iluso que se encontraria ouro em abun-
dncia no Sudo, ele utilizou esforos imensos para descobrir, particularmente
na regio de Fazughli e nos arredores do djabal Shaybn. No contente em
insistir junto aos seus chefes de unidades sobre a urgncia que revestiam os
estudos mineralgicos sobre o ouro, Muhammad `Al enviou, em algumas oca-
sies, especialistas ao Sudo; por exemplo, o austraco Rosseger e seu prprio
engenheiro Boreani. Enfim, aos setenta anos, ele percorreu, em 1838-1839, toda
a distncia que separava o Cairo de Fazughli, para supervisionar as exploraes;
mas sua estadia de trs semanas foi decepcionante. As atividades mineradoras
do poder pblico no somente fracassaram, mas tinham tambm absorvido uma
grande parte dos magros recursos do Tesouro egpcio.
    Entretanto, os imperialistas turcos saram-se melhor com o desenvolvimento
da agricultura no Sudo. Eles enviaram especialistas agrnomos egpcios que
melhoraram os sistemas de irrigao, ampliaram as lavouras existentes, intro-
duziram outras novas e lutaram eficazmente contra parasitas e pragas, princi-
palmente os acridianos. Eles nomearam veterinrios para cuidar dos animais e
fizeram vir do Egito curtidores qualificados para ensinar os sudaneses a con-
servar as peles e os couros. Tambm, a conquista garantiu uma maior segurana
aos negociantes sudaneses do Norte e egpcios e permitiu a introduo posterior
do comrcio europeu17.
    Todavia, este desenvolvimento da agricultura e da pecuria no foi aparente-
mente posto a servio da populao sudanesa. Ao contrrio, o governo se preo-
cupou, sobretudo, em beneficiar o Egito. Durante todo seu reinado, Muhammad
`Al imps um monoplio restrito do Estado sobre quase toda a produo e
exportao do pas. Assim foram exportadas para o Egito quantidades consi-
derveis de produtos sudaneses, ndigo, goma, marfim, etc. Tambm, durante
todo o domnio turco, o Sudo foi para o Egito a fonte mais barata de produtos
pecurios. Apesar das dificuldades encontradas para deslocar o rebanho ao longo

16   H. A. Ibrhm, 1973, p. 92-94.
17   R. Hill, 1966, p. 50.
418                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



do vale do Nilo, onde havia o perigo dos ladres nmades e onde nada tinha
sido organizado para alimentar e dar gua aos animais, os bovinos chegavam
regularmente a cada ano no Egito. O Sudo enviava do mesmo modo produtos
de origem animal tais como couros e crinas18.
   Os sudaneses no foram submetidos regularmente a impostos sob o sultanato
fudj, e a carga fiscal era ento leve, em particular para os pobres. Entretanto,
desejoso de mobilizar e explorar todos os recursos sudaneses, os administradores
turcos ampliaram o sistema egpcio de tributao no Sudo, acrescentando as
modificaes necessrias. A introduo deste regime fiscal inteiramente novo
desorganizou inevitavelmente a vida econmica da populao. Os meios brutais
empregados pelos bachi-bouzouk (bzbuk) (soldados irregulares) para receber
estes pesados impostos e a insistncia manifestada com frequncia pelas auto-
ridades para que o pagamento fosse feito em dinheiro, j que as moedas apenas
eram usadas correntemente entre os mercadores e entre a populao urbana,
agravaram ainda mais a situao.
   A reao dos sudaneses foi imediata e, no mais das vezes, violenta. Alguns
deixaram suas terras e seus skiya (engenhos) e fugiram para as fronteiras da
Abissnia ou para o Oeste, mas muitos outros se rebelaram, participando das
revoltas camponesas, numerosas e dspares, que tiveram lugar em toda a Turkyya,
da qual a mais virulenta foi sem dvida a revolta sudanesa de 1822.
   Desprezando o sistema fiscal tradicional do Sudo, o intendente copta de
finanas, Hana al-Tawl, baixou em 1821 pesados impostos sobre as populaes
da Gezira e de Berber. Estas se rebelaram violentamente em fevereiro de 1822,
atacando e matando membros de destacamentos isolados de soldados egpcios.
De Shend a Sennar, os habitantes fugiram aos milhares at a fronteira da
Etipia, no vale do Atbara e na regio de Gedaref. Para evitar uma revolta em
massa, Ism`l, filho de Muhammad `Al e comandante-em-chefe em Sennar,
regressou precipitadamente de Fazughli na Gezira. Dando mostras do esprito
de conciliao e aceitando uma reviso do sistema tributrio, ele conseguiu
provisoriamente restabelecer a calma. Mas ele mesmo cometeria logo um erro
desastroso. Deixando o Sudo para voltar ao Egito, ele fez uma parada em
Shendi e exigiu das populaes dja`liyn uma contribuio exorbitante: 30.000
dlares e 6.000 escravos a serem reunidos em dois dias19. Nimir, o mak (chefe)
dos dja`liyn locais, protestou demonstrando que seus administrados no tinham
meios suficientes para pagar o que se exigia deles. Ism`l, cheio de arrogncia,

18    H. A. Ibrhm, 1973, p. 135-154.
19    R. Hill, 1966, p. 16.
O Sudo no sculo XIX                                                         419



bateu no rosto de Nimir com seu cachimbo. Para se vingar desta humilhao,
Nimir conspirou com seus homens para queimar vivos Ism `l e todo o seu
squito em Shendi no final de outubro de 1822. A revolta se estendeu subse-
quentemente a outras regies, provocando pesadas perdas em vidas humanas e
em bens20. Esta rebelio causada pelo desespero, mas sem lderes verdadeiros, foi,
contudo, um aviso que fez os invasores compreenderem que a resistncia ao seu
domnio estava profundamente enraizada no corao de muitos sudaneses.
    O sistema opressivo de tributao e de administrao incentivou igualmente
no Darfur um vasto movimento de resistncia contra o efmero domnio turco21.
Desejoso, em restabelecer seu antigo poder, os sobreviventes da famlia Kayra
juntaram-se aos fur para se oporem aos colonizadores. A mais popular e mais
importante destas revoltas foi aquela do emir Hrn, em 1877. Durante trs
anos, ele no cessou de assediar os invasores, e teria provavelmente conseguido
acabar com seu domnio se no tivesse sido morto em 1880. Contudo, um de
seus parentes, `Abdullh Dd Banga, continuou a luta a partir de seu campo
militar fortificado dos montes Nuba22. Diante desta resistncia corajosa, os tur-
cos foram incapazes de consolidar seu domnio, ao qual os habitantes do Darfur,
em estreita colaborao com o Mahd, colocaram fim em 1884.
    O exrcito sudans trouxe igualmente a sua contribuio  resistncia aos
primeiros colonizadores. Vrios incidentes e rebelies militares aconteceram em
certas cidades do Norte: Medani, Sennar, al-`Obeyd, Suakin; mas uma revolta
militar mais sria aconteceu em Kassala, em 1865. Furiosos por no terem rece-
bido o soldo, os soldados do 4 regimento sudans de Kassala se recusaram a
obedecer s ordens de seus superiores turcos, atacaram e mataram alguns dentre
eles, depois sitiaram a cidade durante vinte e seis dias. A revolta que provocou
perdas em vidas humanas e estragos materiais minou seriamente a autoridade da
administrao turca em toda a provncia de Kassala. Esta foi talvez a crise mais
sria que os imperialistas haviam confrontado no pas em mais de trinta anos.
Todavia, ao recorrer  esperteza e  diplomacia, o governo conseguiu finalmente
apagar a revolta. Os soldados renderam suas armas depois de uma vaga promessa
de anistia geral; mas os sobreviventes foram ou executados ou condenados a
pesadas penas de priso23. O quediva ordenou igualmente a reduo para trs



20   M. Shibayka, 1957, p. 33-35.
21   Ver abaixo, p. 7.
22   M. M. al-Hasan, s.d., p. 35-40.
23   N. Shuqayr, 1967, p. 545-553.
420                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



do nmero de regimentos sudaneses estacionados no Sudo e enviou o resto
para o Egito.


      A resistncia s manobras imperialistas no Sul, 18211880
    At o incio do domnio turco no Sudo, em 1821, os poderes polticos e
econmicos dos Estados sudaneses muulmanos do Norte e dos povos do Sudo
Meridional eram comparveis, seno equilibrados; mas o sculo XIX, princi-
palmente a segunda metade, seria catastrfico para estes ltimos. Este perodo
foi marcado por importantes perdas materiais e por grandes humilhaes e
permaneceu como sinnimo de caos na memria popular do Sudo Meridional.
Como escreveu o professor Francis Mading Deng, o qual  um dinka do Sudo
Meridional, esta poca permanece para as populaes do Sul como aquela das
"guerras de escravido e de conquistas travadas contra elas por ondas de invaso-
res, as quais no se distinguiam uma das outras, exceto pelos diferentes nomes
que se davam: rabes, turcos, egpcios, ansar ou dongolawi24".
    Quando Muhammad `Al invadiu o Sudo em 1821, ele dividiu o pas em
provncias e distritos, colocados sob a autoridade de oficiais egpcios e turcos
que dependiam de um governador geral residente na cidade recm fundada de
Cartum. Como j vimos acima, a principal funo do regime estrangeiro era
de impor tributos e se prover de escravos para aumentar as fileiras do exrcito
egpcio. Expedies frequentes eram feitas ao longo do Nilo Branco para cap-
turar escravos e, a partir de 1840, o trfico de vidas humanas atingiu propores
gigantescas. Os exrcitos privados dos traficantes de escravos estavam equipados
com armas de fogo e imensas reas de terras eram alugadas aos mercadores que
podiam fazer investimentos muito rentveis entre os povos do Sudo Meridio-
nal. A malha comercial implementada por Muhammad `Al apresentava algumas
caractersticas notveis. Os mercadores construram fortes denominados de
zeriba, inspirando-se naqueles que os sultes do Darfur construam desde o
sculo XVIII. Estes fortes serviam de base para suas operaes de barganhas e
para ataques escravistas lanados nas regies vizinhas. Esta malha se caracterizou
tambm pela diviso do poder entre os monoplios do Estado e os negociantes
privados, pelo emprego sistemtico da fora, sobretudo graas aos mercenrios
recrutados localmente e por uma poltica de desenvolvimento de plantaes
comerciais, em especial o algodo. Por exemplo, os baggara eram obrigados a

24    F. M. Deng, 1978, p. 150.
O Sudo no sculo XIX                                                         421



pagar seus impostos em cabeas de gado ao governador do Cordofo. Aqueles
que no podiam ou no desejavam pag-los daquele modo tinham a possibili-
dade de fornecer escravos, conseguidos mediante a organizao de ataques aos
dinka.
    Alm disso, os mercadores europeus desejavam que o governo turco liberali-
zasse o mercado sudans de marfim. Mais tarde, quando suas margens de lucro
comearam a diminuir, eles decidiram pagar seus empregados rabes em escra-
vos em vez de dinheiro; isto contribuiu para intensificar o trfico de escravos.
A cidade de Kaka, ao Norte do territrio shilluk, transformou-se rapidamente
em um grande mercado de escravos, principalmente para os escravos vindo dos
zeriba do Sul. A prosperidade de Kaka foi em parte devida  abolio do trfico
de escravos, em 1854, na parte do Sudo dominada pelos turcos. Kaka tornou-
-se o principal mercado de escravos da regio do Nilo Branco e sua populao
de emigrados aumentou rapidamente. As atividades do saqueador Muhammad
al-Khyr, de origem dongolawi, que deixou Taqali em 1854 para se instalar em
Kaka, talvez tenham facilitado tambm a transformao de Kaka em mercado
de escravos25. Estima-se que, em 1860, 2.000 escravos eram vendidos, em mdia,
a cada ano26, e al-Khyr e seus bandos de caadores de escravos aterrorizavam
as terras shilluk.
    Os habitantes do Sul se recusaram a cooperar com eles e opuseram uma resis-
tncia ativa  presena destes em suas terras. As guerras que travaram contra eles
so por demais numerosas e diversas para serem enumeradas aqui. Contentar-
-nos-emos em mencionar algumas a ttulo de exemplos.
    Os bari foram os primeiros a aproveitar todas as ocasies para se levantarem
contra os invasores. Em 1854, atacaram uma misso comercial francesa, mata-
ram dois de seus membros e feriram vrios outros. Pouco depois, uma outra
batalha extremamente violenta aconteceu entre quatro a cinco mil bari e uma
outra misso comercial liderada por Vaudeny, vice-cnsul da Sardenha. Vaudeny,
seu adjunto turco e muitos de seus homens foram mortos. Os chefes bari que se
mostraram, por menos que fosse, inclinados a colaborar com estes intrusos foram
atacados igualmente. Tal foi notadamente o caso do chefe Nyagilo, do qual a
autoridade foi minada e os bens destrudos. Ele fugiu para Gondokoro, mas foi
perseguido e morto em 1859 por grupos de jovens bari armados27.



25   R. Gray, 1970, p. 76-78.
26   J. Frost, 1974, p. 216.
27   R. Gray, 1970, p. 44.
422                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 14.4 Navios mercantes de Cartum sobre um afluente do Bahr al Ghazal ao Norte das terras dinka.
[Fonte: G. Schweinfurth, The Heart of Africa, 1873, Sampson, Low, Marston, Low and Searle, Londres.
Ilustrao reproduzida com autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de
Cambridge.]




Figura 14.5 A zeriba de um mercador em Mvolo, com um estabelecimento dinka fora de seus muros.
[Fonte: G. Schweinfurth, The Heart of Africa, 1873, Sampson, Low, Marston, Low and Searle, Londres.
Ilustrao reproduzida com autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de
Cambridge.]
O Sudo no sculo XIX                                                       423



    Os negociantes foram rechaados para o leste onde encontraram a hostili-
dade dos lokoya. Em 1860, depois de um ataque contra cinco estrangeiros, os
negociantes enviaram uma fora de 150 soldados dos quais 120 foram mortos
e os outros seriamente feridos pelos lokoya28.
    Os shilluk do Norte opuseram a mesma resistncia aos negociantes na regio
do Nilo Branco. Todavia, os imigrantes que chegavam ao Norte da regio shilluk
em geral, e a Kaka em particular, no eram todos mercadores. Muitos eram
refugiados fugindo do domnio turco. No perodo compreendido entre 1840 e
1860, "um afluxo regular de refugiados vindos dos territrios turco-egpcios do
Norte chegava ao territrio shilluk. Um grande nmero dentre eles era baggara
de Salm, mas havia tambm os descontentes que vinham da parte mulumana
do Sudo"29. As relaes entre imigrantes e shilluk permaneceram amigveis at
o momento em que, em 1860, o reth (rei) perdeu o controle do sistema comercial
que se desenvolvera em seu reino, mas era dominado por estrangeiros.
    Em 1860, o reth Kwatker expulsou inmeros mercadores rabes de seu reino.
Muhammad Al-Khyr retrucou atacando os shilluk com uma cavalaria de 200
baggara, mais de 1.000 homens armados de fuzis e treze barcos. Fachoda, a
capital real, foi destruda. John e Kate Petherick, os quais se encontravam na
regio  poca, nos deixaram um testemunho direto das consequncias deste
ataque. "Segundo eles, em 1862, a regio shilluk, entre a ilha de Aba e a embo-
cadura do Sobat, estava "completamente desorganizada" e" os shilluk, outrora
poderosos haviam sido completamente dispersos"30. Kate Petherick observou em
seu dirio: "Atravessamos uma antiga vila shilluk em runas denominada Kaka;
havia pelo menos 600 tookuls abandonados. O ano passado, os habitantes foram
expulsos. Era um povo laborioso que cultivava muitos cereais"31. Mais tarde,
testemunharam uma das expedies de al-khyr que capturou 500 escravos e
12.000 cabeas de gado32.
    Os shilluk decidiram contra-atacar. Uma expedio de saqueadores de
al-Khyr foi repelida e aproximadamente setenta baggara foram mortos. Em
1863, os shilluk foraram os mercadores a se retirar para o interior e al-Khyr
foi perseguido e morto. As relaes entre os shilluk e o governador turco se



28   Ibid., p. 56.
29   P. Mercer, 1971, p. 420.
30   J. e K. Petherick, 1869, vol. 1, p. 990.
31   Ibid., p. 96.
32   Ibid., p. 97.
424                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 14.6 Uma vila shilluk aps um ataque de caadores de escravos. [Fonte: J. e K. Petherick, Travels
in Central Africa, 1869, Timsley Brothers, Londres. Ilustrao reproduzida com autorizao do Conselho de
administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



deterioraram rapidamente. Os shilluk deviam pagar pesados impostos em gado
e fornecer escravos para engrossar as fileiras da guarnio sudanesa.
    Em 1868, este conflito endmico tornara-se uma verdadeira guerra. Em
novembro daquele ano, um corpo expedicionrio de 2.000 soldados, encarre-
gados de subjugarem os shilluk, encontrou uma resistncia feroz e no obteve
xito algum. A administrao decidiu impor um tributo anual de 15.000 libras
aos shilluk e aos dinka, o que provocou um profundo ressentimento em todo
o pas. Como se aquilo no bastasse, o governo do quediva decidiu, em 1871,
ampliar a lavoura do algodo no Sudo Meridional. Em 1874, 5.000 a 6.000
hectares de algodo, de cana-de-acar e de milho eram cultivados na regio
de Fachoda. Esta atividade agrcola trouxe para o governo estrangeiro 300.000
libras em impostos sobre o algodo naquele ano, exigindo o recurso ao trabalho
forado33.
    Os shilluk se rebelaram. Noventa soldados governamentais foram mortos e
foi necessrio enviar com urgncia reforos de Cartum para acabar com a rebe-


33    J. Frost, 1974, para a maioria das informaes contidas neste pargrafo.
O Sudo no sculo XIX                                                         425



lio; mas os shilluk estavam j decididos a lutar por sua liberdade. O reth Ajang
recusou em colaborar e os rabes o assassinaram em 1874, depois tentaram
governar sem rei. No ano seguinte, em outubro, milhares de shilluk atacaram
os postos governamentais em Kaka e em Fachoda. Em Kaka somente quatorze
soldados sobreviveram. Em 1876, novos reforos chegaram de Cartum equipa-
dos com fuzis Remington. Milhares de shilluk foram massacrados e, em abril, a
rea compreendida entre Kaka e Fachoda foi tida como "pacificada". Os shilluk
foram desarmados e um grande nmero dentre eles foi engajado no exrcito e
enviado para o Cairo. Cmulo da afronta, Fachoda foi transformada em mer-
cado de escravos onde as foras governamentais vendiam aos djallba os escravos
que capturavam, afim de juntar o montante do tributo anual de 12.500 libras.
A populao shilluk e seu rebanho bovino diminuram rapidamente. No  de
se espantar que o dote, normalmente de vinte a trinta vacas, tenha diminudo
para uma vaca entre 1860 e 1900.
    Um grande nmero das populaes do Sudo Meridional, fracas e sem
defesa, no pde opor mais do que uma resistncia medocre, seno v, aos
saqueadores negreiros; muitos homens foram reduzidos  escravido ou mortos
nos combates, "de modo que vrios grupos desapareceram quase completamente
como entidades polticas ou sociais"34. Os dinka e os nuer eram sem dvida os
mais capazes em se proteger dos ataques ao se retirarem com seu gado para
pntanos inacessveis. Habituados  guerra, infligiam com frequncia srias
derrotas aos agressores.
    Mais ao Sul, os zande puderam tambm, sob a liderana da orgulhosa e
aristocrtica dinastia Avungara, que havia fundado um Estado centralizado no
sculo XVIII, opor-se aos assaltos dos negreiros. Um dos chefes zende, Ndo-
ruma, conseguiu at mesmo conquistar uma zeriba (cercado) que o negreiro Ab
Kurn tinha instalado em suas terras. Subsequentemente, em 1870, infligiu uma
derrota a uma fora inimiga de 2.000 homens, matou Ab Kurn e vrios dos
seus homens e confiscou uma centena de cargas de munies35.
    Nenhum dos dois sucessores imediatos de Muhammad `Al, `Abbs e Sa`d
(1848-1863), quis rivalizar com ele em matria de aventuras estrangeiras; mas o
ambicioso quediva Ism`l (1863-1879) "deu continuidade a uma poltica expan-
sionista em todas as direes, mas sobretudo no alto vale do Nilo e, de l, no
vasto interior do Sudo Meridional"36. Ao submeter os comerciantes europeus

34   R. O. Collins, 1975, p. 18.
35   R. Gray, 1970, p. 64-65.
36   R. O. Collins, 1975, p. 19.
426                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 14.7 Um msico zande. [Fonte: G. Schweinfurth, The Heart of Africa, 1873, Sampson, Low, Marston,
Low and Searle, Londres. Ilustrao reproduzida com autorizao do Conselho de administrao da Biblioteca
da Universidade de Cambridge.]
O Sudo no sculo XIX                                                                                 427



j enfraquecidos aos impostos e s medidas de discriminao, Ism`l conseguiu
pouco a pouco colocar o comrcio niltico sob o domnio dos turcos. Em 1867,
os comerciantes europeus foram obrigados a deixar o Sudo e no tiveram mais,
desde ento, nenhum papel na vida comercial, a qual caiu nas mos dos turcos
e rabes vindos do Egito e do Sudo Setentrional. Liberado de toda influncia
europeia em escala local, Ism`l subiu o Nilo para criar um imprio africano.
A abolio da escravido e do trfico serviu de justificativa para esta expanso
imperialista37.
    Esta tentativa de anexao da Equatria pelos turcos desenrolou-se sob
o comando de dois oficiais britnicos: Samuel Baker (1869-1873) e Charles
George Gordon (1874-1876 e 1877-1879). Sem hesitar em recorrer  violncia
e extremamente bem equipados, Baker e Gordon foram, apesar disto, incapazes
de estender a administrao turca na Equatria, alm de alguns postos avana-
dos esparsos. Ocupando o cargo de governador geral do Sudo (1877-1879), o
prprio Gordon acabou por desistir em estender o domnio turco na Equatria.
Seu sucessor, o alemo Edouard Carl Oscar Theodor Schnitzer (1840-1892),
conhecido pelo nome de Amn Pacha, herdou apenas uma presena turca enfra-
quecida e desorganizada, de modo que ele foi, subsequentemente, forado a
colocar um fim nela, e a se retirar para o litoral em 188938.
    As tentativas de Baker em assegurar a participao dos africanos foram
vs, porque a tradio da resistncia aos estrangeiros estava j profundamente
enraizada no Sul. Logo aps a sua chegada em Gondokoro, em 1874, Baker
enfrentou a hostilidade declarada dos bari e de seu chefe Alloron. Recusaram-se
a lhe vender trigo e destruram as colheitas de seus homens. Os bari beliman e
os lokoya, os quais eram, entretanto, rivais de Alloron, participaram nestas ope-
raes39. Os bari moogie mataram vinte e oito soldados, assediaram as caravanas
que passavam em seu territrio, e seus vizinhos da margem ocidental, seguindo
o exemplo deles, adotaram tambm uma atitude hostil.
    Baker subiu o Nilo at Patiko, no Acholi, ao Norte de Uganda onde ele
transformou todas as feitorias da regio em postos governamentais e recrutou,
nas foras governamentais, numerosos mercenrios danakla (ou dongolawi como
os chamava a populao local, j que uma maioria deles era originria da regio
de Dongola) que estavam a servio dos mercadores rabes. Era ento difcil


37   Sobre a escravido e o trfico, ver M. F. Shukri, 1937; A. I. M. Alli, 1972 e B. K. Humayda, 1973, p.
     254-316.
38   Sobre a carreira de Amn Pacha, ver I. R. Smith, 1972.
39   R. Gray, 1970, p. 96.
428                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



para os autctones distinguir os mercadores de Cartum do governo turco. Em
seguida, Baker se dirigiu rapidamente para o Oeste, no Bunyoro onde ele espe-
rava obter o apoio de Kabarega; mas foi uma vez mais decepcionado e diz-se at
que Kabarega teria tramado o envenenamento de todo o corpo expedicionrio.
A custo de grandes dificuldades, Baker acabou se retirando para Patiko, em
agosto de 187240.
    Em 1873, Gordon foi promovido e nomeado governador geral da provncia
de Equatria para consolidar as conquistas de Baker. Ele tinha por mandato
construir fortes, abrir vias de comunicao para o Sul, estabelecer boas relaes
com as populaes locais e administr-las eficazmente e, por fim, regulamentar
o comrcio de escravos no Sudo Meridional41.
    Depois de submeterem-se em um primeiro momento, como ttica, a Gor-
don, os bari moogie iniciaram novamente as hostilidades e, durante mais de
uma semana, combates se desenrolaram nas duas margens. O ponto culminante
foi uma batalha no curso da qual os moogie aniquilaram um destacamento de
mais de quarenta homens juntamente com seu chefe, Linant de Bellefonds e
deixaram apenas quatro sobreviventes. Se o rio no tivesse impedido os moogie
de explorarem este sucesso, todas as foras de Gordon teriam, sem dvida, sido
destrudas42.
    A progresso de Gordon para o Sul, nos reinos equatoriais, sofreu tambm
um revs. Longe de reconhecer a soberania turca sobre o seu reino, como Gor-
don tinha ingenuamente esperado, Mutesa do Buganda mobilizou um poderoso
exrcito contra os invasores. Em Mutesa, Gordon encontrou "um dirigente
africano que aliava a sabedoria poltica, hereditria de uma antiga dinastia soli-
damente estabelecida, a um sentido extremamente agudo do papel que a diplo-
macia e os estratagemas poderiam ter para salvaguardar a independncia de
seu pas"43. Os enviados aparentemente amigveis, mandados ao encontro de
Gordon eram na realidade espies que deviam dar informaes sobre as foras
e os movimentos do inimigo. Nr Bey, encarregado por Gordon de anexar o
Buganda, descobriu rapidamente que o estratagema de Mutesa o havia encur-
ralado na capital Rubaga onde ele se encontrava completamente reduzido 
impotncia e dependente, por sua sobrevivncia, da boa vontade de Mutesa.
Em 1876, Gordon foi ento obrigado a ordenar uma retirada imediata para o


40    S. W. Baker, 1879, p.272-273; R. Gray, 1975, p. 84-104; N. Shuqayr, 1967, p. 562.
41    Ver P. Crabites, 1933, p. 28-30.
42    R. Gray, 1975, p. 110-111.
43    Ibid., p. 117.
O Sudo no sculo XIX                                                                              429



Norte, em Lado. Subsequentemente, os dinka e os nuer, sob a direo de um
profeta chamado Donluly, sitiaram a guarnio governamental de Bor. Em 1885,
o chefe bari Bego exterminou esta guarnio, e atacou Lado e Rejaf44. Aquilo
significou que o avano turco em Equatria havia ento virtualmente acabado;
e isto em condies desastrosas.
    Os turcos, em sua campanha colonial no Bahr al Ghazal, foram perturbados
pelo maior negreiro da regio, al-Zubayr Rahama Mansr45, um sudans do
Norte que tinha levantado um vasto imprio comercial. Ele repeliu uma expedi-
o governamental e matou o chefe, em 1872. Posto diante deste fato, o quediva
Ism`l reconheceu oficialmente al-Zubayr como governador do Bahr al Ghazal;
mas o aventureiro al-Zubayr, alm das fronteiras do Bahr al Ghazal, visava o
Darfur, fonte ainda inexplorada de escravos. Tendo mobilizado o exrcito e a
populao fur, o sulto Ibrhim ops uma vigorosa resistncia aos invasores; mas
foi finalmente vencido e morto na batalha de Manwsh, em 1874, e o Darfur
foi, assim, anexado s possesses turcas46.
    Ainda que o quediva Ism`l tenha, subsequentemente, prendido al-Zubayr
no Cairo e comeado a tomar medidas para pr fim a seu poder no Bahr al
Ghazal, os negreiros rabes juntaram-se ao seu filho Sulaymn. Eles proclama-
ram sua inteno de conquistar totalmente o Sudo Meridional e de marchar
logo aps para Cartum. Acabaram, entretanto, sendo vencidos.
    Todavia, os turcos foram incapazes de estabelecer verdadeiramente seu poder
no Bahr al Ghazal. Este revs foi, em grande parte, imputvel  resistncia das
populaes africanas para as quais os turcos eram apenas novos colonizadores
dos quais era preciso se desembaraar de uma vez por todas. Em 1883, os chefes
dinka cooperaram ativamente com as foras madistas para derrubar o regime
turco no Bahr al Ghazal, sendo claramente entendido que estas os deixariam
livres em suas terras47.
    A instaurao da administrao turca tinha efetivamente posto um fim nas
grandes caadas aos escravos no Sudo, principalmente na regio meridional;
mas os novos imperialistas no chegaram jamais a persuadir as populaes
africanas em aceitar seu domnio. De fato, eles tinham cada vez mais de recor-
rer  fora para reprimir numerosas rebelies que aconteceram contra este
domnio. Mataram os chefes e massacraram as populaes, tomando seu gado


44   Ibid., p. 161.
45   Para o relato que o prprio Zubayr fazia de sua carreira, ver N. Shuqayr, 1967, p. 568-599.
46   Ibid.
47   P. M. Holt, 1970, p. 78-80.
430                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



e destruindo suas colheitas. Seguindo o exemplo dos invasores precedentes, os
turcos contriburam para a desintegrao da sociedade do Sudo Meridional,
a qual continuou at que o movimento de resistncia acabasse por atingir seu
objetivo declarado, o qual era pr um fim ao colonialismo turco nesta regio
da frica.


      Modernizao e reao no Sudo no sculo XIX
    A aventura turca no Sudo foi assim, em sua maior parte, um revs; entre-
tanto, admite-se geralmente que a histria do Sudo moderno comea com
a conquista do pas em 1820-1821. Naqueles anos, a derrota de Sennar e do
Cordofo estabeleceu o ncleo do que se tornaria a Repblica Democrtica do
Sudo. A instaurao do domnio turco sobre o Sudo Setentrional e Central
foi concluda, em 1841, pela conquista de al-Taka  a regio do Khr al-Ksh
e dos montes do Mar Vermelho48.  durante o reinado do quediva Ism`l que
o Darfur, a Equatria, o Bahr al Ghazal e o litoral do Mar Vermelho foram
integrados ao Sudo moderno. Na vspera da Mahdyya, o Sudo formava,
deste modo, um imenso territrio, estendendo-se da segunda catarata aos lagos
equatoriais e do Mar Vermelho ao Darfur49.
    O regime turco no tinha apenas unificado o Sudo em suas fronteiras moder-
nas; ele tinha tambm iniciado um processo de modernizao. Por "moderni-
zao", entendemos "a adoo de mtodos de organizao poltico-econmica
e de tcnicas de produo, de transporte e de comunicao derivados daqueles
empregados pelos Estados europeus e que modificaram substancialmente as
estruturas da sociedade tradicional anterior"50.
    As trs principais inovaes tcnicas da Turkyya foram as armas de fogo, os
barcos a vapor e o telgrafo eltrico introduzidos no Sudo durante o reinado
do quediva Ism`l. Conhecidos no Sudo ao menos desde a segunda metade do
sculo XVII, os fuzis no eram de uso corrente. A superioridade do armamento
das tropas turcas foi um fator determinante no aniquilamento da resistncia
sudanesa. Os barcos a vapor foram logo usados no Nilo egpcio por volta de
1828, mas foi preciso esperar uma outra gerao para v-los navegar nas guas



48    Ibid., p. 3.
49    Alm do Sudo propriamente dito, o Sudo turco compreendia os distritos da Eritria e da Somlia.
50    P. M. Holt, 1973, p. 135.
O Sudo no sculo XIX                                                                                   431



sudanesas. Nas dcadas de 1860 e 1870, uma frota importante estava em servio,
e tinha a manuteno assegurada em uma doca seca em Cartum51.
    As armas de fogo e os barcos a vapor tiveram um papel capital na expanso
dos imperialistas turcos para o Sul. A princpio, tmida e hesitante, esta expan-
so foi logo consideravelmente facilitada por estas duas invenes, as quais
permitiram aos colonizadores e aos seus colaboradores sudaneses transpor os
dois principais obstculos ao seu avano na regio do Nilo Branco, a saber, a
resistncia obstinada dos habitantes do Sul e a imensa barreira da regio de Sudd
que bloqueava ao mesmo tempo a aproximao ao Nilo equatorial e aquelas do
Bahr al Ghazal.
    A abertura do Sul oferecia possibilidades novas a um setor particular da socie-
dade do Norte, o qual seria conhecido, na sequncia, sob o nome de al-Djallba.
Apenas alguns comerciantes do Norte tinham chegado ao Sul antes da conquista
turca; mas, aps esta, comearam a chegar em grande nmero, sobretudo aps o
alto Nilo e o Bahr al Ghazal terem se tornado mais acessveis. De incio, como
domsticos ou como membros das escoltas armadas dos comerciantes estran-
geiros, acederam progressivamente a responsabilidades e a poderes aumentados.
Ao mesmo tempo em que aceleravam o processo de arabizao e islamizao do
Sul, os djallba que recorriam frequentemente  violncia e tinham uma atitude
depreciativa em relao aos habitantes do Sul suscitaram, sem dvida alguma,
a desconfiana e o medo que dominam ainda as relaes entre o Norte e o Sul
do pas.
    O imperialismo turco havia estabelecido no Sudo um novo regime admi-
nistrativo, caracterizado pela opresso, pela corrupo e pela incompetncia; os
administradores turcos eram medocres, mas, ao contrrio dos diversos tipos
de governo que o pas j conhecera at ento, era um sistema fortemente cen-
tralizado. No topo da administrao encontrava-se normalmente um nico
governador geral que levava o ttulo turco-persa de hukundar (pronunciado
hikimdar na linguagem corrente)52. Mesmo durante os breves perodos em que
o cargo de governador geral foi suprimido, como em 1843 e em 188253, as
provncias sudanesas eram colocadas sob a autoridade direta de um servio
do Cairo. Atribuiu-se a alguns sudaneses, os quais colaboravam com o regime


51   R. Hill, 1965, p. 2-5.
52   P. M. Holt, 1970, p. 14.
53   Dando-se conta que a distncia de Cartum em relao ao Cairo trazia o risco de criar tentaes aos
     ambiciosos, os vice-reis fizeram estas tentativas de descentralizao para impedir um acmulo excessivo
     de poder e de influncia nas mos de um governador geral.
432                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



imperialista, cargos administrativos subalternos; mas fazendo-lhes claramente
entender que no passavam de agentes do poder central que podia nome-los
ou revog-los a seu bel-prazer.
    O exrcito, principalmente a infantaria regular (djihdiyya)54, e o progresso
das comunicaes favoreceram muito a implantao do regime colonial. Os
colonizadores no tinham construdo muitas estradas ou ferrovias; mas os barcos
a vapor e as ligaes telegrficas facilitaram bastante a centralizao. Graas a
essas inovaes, os administradores turcos conseguiram no conjunto manter a
segurana pblica, reprimir a agitao dos sudaneses e, sobretudo, submeter a
populao ao imposto.
    Do mesmo modo, as mudanas devidas ao domnio imperialista exerceram
uma grande influncia sobre a vida religiosa da sociedade sudanesa do Norte. Os
turcos e os sudaneses eram ambos fiis ao isl; mas existia um imenso fosso entre
o isl oficial sunita da administrao turca e o isl personalizado do sufismo
autctone que se desenvolvera desde o perodo dos funj. No Sudo como no
Egito e no imprio otomano em geral, o poder tinha como poltica criar um
Estado laico onde as instituies islmicas deviam ter um papel to reduzido
quanto possvel. O sufismo sudans, cuja influncia j era muito forte entre
administradores e administrados, no podia ento deixar de sofrer violentos
ataques. A administrao imperial minou pouco a pouco o prestgio dos seus
dirigentes que eram compostos por pregadores hereditrios (fakh) das ordens
sufistas55. Ela conseguiu isto, sobretudo, incentivando o isl ortodoxo. Man-
tendo a hierarquia dos kd e dos muft e ao favorecer os estudos dos `ulam
sudaneses em al-Azhar, os colonizadores opuseram aos fakh um grupo rival
"mais ortodoxo, mais voltado para o estrangeiro e dependendo mais diretamente
do governo". Ao fim do primeiro perodo imperial, o prestgio dos dirigentes
religiosos tradicionais tinha ento, por isso, "consideravelmente diminudo"56.
Este foi, a bem dizer, um dos principais fatores que os incitaram a se voltar
contra o governo imperial e a sustentar ativamente os esforos do Mahd para
derrub-lo.
    Um afluxo crescente de estrangeiros, europeus e americanos, acompanhou
e contribuiu para favorecer o processo de modernizao. Como muito poucos

54    Os habitantes do Sul e os nuba, os quais eram normalmente descendentes de escravos, foram recrutados
      para a djihdiyya. Ao lado destes, encontravam-se os irregulares shikia que tinham em grande parte
      substitudo os irregulares estrangeiros vindos ao Sudo no momento da conquista.
55 Durante o perodo dos funj, os fakh foram um fator de estabilidade e de continuidade mais eficaz ainda
   do que os sultes e os outros dirigentes polticos.
56    P. M. Holt, 1973, p. 140.
O Sudo no sculo XIX                                                                                433




Figura 14.8 O reforo da administrao e a modernizao turco-egpcias: o palcio du hukumdar em Car-
tum e um vapor no rio. [Fonte: P. M. Holt e M. Daly, History of the Sudan, 1979, Weidenfeld and Nicolson,
Londres. Ilustrao:  BBC Hulton Picture Library.]



europeus tinham chegado ao Sudo antes de 1820, a conquista turca abriu o
pas aos estrangeiros que vinham sob ttulos diversos: viajantes, comerciantes,
missionrios, especialistas, consultores e funcionrios.
   A entrada rpida de funcionrios ocidentais na administrao, sobretudo
durante os dez anos que antecederam  Mahdyya, teve repercusses sobre a
sociedade sudanesa, tanto no Norte de influncia rabe como no Sul. Distan-
ciados dos habitantes pela lngua, costumes e religio, eles criaram com sua
presena tenses com as massas sudanesas. Este recrutamento excessivo de
europeus para os cargos pelos quais no eram normalmente qualificados tinha,
por outro lado, provocado um tal ressentimento entre os sudaneses que estes
manifestaram uma xenofobia generalizada57. A inteno declarada do Mahd
que era de liberar o pas de todo domnio estrangeiro e cristo, encontrou ento
apoio espontneo e entusiasta das multides.


     Concluso
   A expanso dos imperialistas turcos desejosos de explorar os recursos suda-
neses, assim, como as inovaes socioeconmicas e tecnolgicas que eles tinham

57   Ver, por exemplo, P. Santi e R. Hill (org.), 1980, p. 145
434                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



introduzido, abalaram profundamente a sociedade sudanesa tradicional e susci-
taram muito descontentamento. Esta situao engendrou mltiplos lavantes e
revoltas. Algumas destas rebelies constituram um srio desafio para os colo-
nizadores; mas nenhuma se beneficiou de um apoio popular suficientemente
forte para poder derrubar o governo. No Sudo, como em outros lugares, o
descontentamento no podia por si s criar uma situao revolucionria; seria
necessrio para isto ser acompanhado de uma ideologia revolucionria, de um
exrcito revolucionrio, e sobretudo ser dirigido por chefes revolucionrios.
Somente quando Mahd trouxe estes elementos, em 1885, que os sudaneses
se rebelaram em massa; a revoluo madista ps ento um fim na Turkyya, e
deu lugar ao Sudo independente que foi imediatamente confrontado com o
surgimento do imperialismo britnico. Tal era a situao, pelo menos, no Sudo
Setentrional.
    No Sul, todavia, os ataques para capturar escravos, as pilhagens e as rapinas
continuavam sem descanso. O governo madista devastou o Sul para fornecer
soldados para seu prprio exrcito. Amargas lembranas marcaram as memrias,
desacreditando os rabes e o isl aos olhos dos africanos durante o perodo ps-
-madista. O que tinha sido uma estrutura de domnio socioeconmico, no vale
do Nilo, tornou-se pouco a pouco uma estrutura de domnio racial que deu lugar
a uma ideologia de resistncia racial entre os africanos do Sudo Meridional.
A Etipia e a Somlia                                                                             435



                                      CAPTULO 15


                         A Etipia e a Somlia
                        Robert K. P. Pankhurst
      Com algumas notas sobre a histria da Somlia fornecidas por
                           L.V. Cassanelli




    A situao da Etipia nas primeiras dcadas do sculo
   A alvorada do sculo XIX viu a abertura de um dos perodos mais difceis
da histria etope. O Estado cristo, centralizado no passado, foi invadido em
grande parte pelos oromos (galas)1 e se encontrou em uma situao de dissolu-
o avanada. Ainda que os imperadores conservassem uma soberania nominal
e mantivessem uma aparncia de unidade, eles no passavam de joguetes dos
senhores feudais. Estes se tornaram praticamente independentes e estavam
constantemente em escaramuas entre si. As lutas tomaram tal amplido que
vrias provncias, inclusive o Bagemder, localizao da capital, ficaram empo-
brecidas. Inmeros camponeses, vtimas dos abusos dos soldados, fugiram de
suas terras e se colocaram a servio deste ou daquele senhor, enquanto outros se
entregaram  pilhagem. A agricultura ficou negligenciada e as caravanas eram
menores e menos frequentes do que no passado. A populao de Gondar  a
nica aglomerao urbana com uma certa importncia  decresceu muito e
havia menos demanda pelos produtos artesanais; o declnio do patrocnio real


1    Este importante grupo tnico foi tradicionalmente designado por seus vizinhos amhara pelo nome de
     galla, nome igualmente utilizado nas fontes escritas do perodo que nos interessa, mas que s vezes foi
     empregado localmente com uma conotao pejorativa. H alguns anos, prefere-se o nome autctone
     oromo, o qual tende a ser preferido pelas geraes modernas cultas.
436                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



levou  reduo de encomendas por obras de arte. A desorganizao da vida
econmica, poltica e social causou uma profunda impresso nos cronistas et-
opes. Abandonando as bajulaes tradicionais ao imperador, eles derramaram
seus elogios sobre os senhores, mas sem conseguir impedir a saudade do antigo
esplendor imperial. Um escriba, Abagaz Sa'una, escrevendo em ge`ez, a lngua
semtica literria tradicional, lamentava-se da usurpao do poder por arrivistas:
os senhores "tornaram-se servos e os servos senhores". Observando que havia,
naquele momento, quatro monarcas vivos privados de autoridade, ele exclamou
que foram "dispersos como a poeira pelo vento. Infelicidade minha! Meu est-
mago est inquieto e meus intestinos rasgados porque sois maltratados,  meus
senhores. Que ganha com aquilo o reino, o qual foi decepado pelas mos de
servos?"2.
    O declnio da autoridade imperial e o triunfo do feudalismo regional leva-
ram os historiadores etopes a chamar aquela poca de perodo dos Masafent3,
literalmente "juzes"  aluso a poca do Livro dos Juzes onde "no havia o rei
de Israel: cada homem fazia o que lhe parecia justo aos seus prprios olhos"4.

      Os altos planaltos cristos
    Os altos planaltos cristos, ncleo do imprio, estavam agora divididos em
trs Estados independentes, Tigre, Amhara e Shoa, aos quais se somavam outras
unidades polticas mais reduzidas.
    O Tigre, centro do antigo reino axumita, era a regio mais setentrional e a
mais poderosa. A populao, essencialmente crist, mas com uma importante
minoria mulumana a Leste e ao Sul, falava uma lngua semtica, o tigrinya.
Os senhores da provncia, graas  proximidade do litoral, haviam enriquecido
consideravelmente com os impostos sobre o comrcio e, consequentemente,
encontrava-se no Tigre muito mais armas de fogo do que em outras regies.
    A provncia era controlada, no incio do sculo, por Ras Walda Sellas
(1795-1816) de Endarta, importante distrito que beirava os Afar, ou Danakil, a
depresso da qual a Etipia tirava o amol, as barras de sal gema utilizadas para
o consumo e como "moeda primitiva"5. Este chefe, outrora balgada, ou funcio-
nrio encarregado das caravanas de sal, era filho de um general de Ras Mika l


2     W. Blundell, 1922, p. 187-188, 191, 470-471, 477.
3     G. Gubr Sellasi, 1930-1932, vol. I, p. 204
4     Juges XXI, 25. Ver E. Ullendorff, 1960, p. 82.
5     R. K. P. Pankhurst, 1968, p. 460-464.
A Etipia e a Somlia                                                            437




Figura 15.1    A Etipia no incio do sculo XIX (segundo R. K. P. Pankhurst).
438                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



Sehul, senhor do Tigre que tinha sido, no sculo anterior, o senhor de Gondar e
um criador e destruidor de reis. Ras Walda Sellas, quase to poderoso como o
antigo senhor de seu pai, dominava um vasto territrio indo das bordas dos altos
planaltos (de onde se via o Mar Vermelho) at as altas montanhas de Samn,
situadas a menos de cem quilmetros de Gondar. Walda Sellas que governava
segundo um costume h muito estabelecido, impressionou o viajante ingls,
Henry Salt, o qual notou que o chefe se "distinguia [...] por sua intrepidez e sua
firmeza". Ele acrescenta: "todos os crimes, todas as divergncias, todas as brigas,
sejam importantes ou insignificantes em sua natureza, lhe so referidas; todos
os direitos de herana so decididos de acordo com sua vontade e ele trava a
maioria das guerras pessoalmente"6. Walda Sellas, o chefe mais poderoso do
pas, queria enfraquecer a tutela nominal do imperador yejju da dinastia dos
oromos que controlava ento o Amhara; ele tentou reunir os nobres do Tigre
com este objetivo. Como senhor de uma regio situada prxima do litoral, ele
se interessava tambm pelo acesso ao mar e, graas a este, aos pases da Europa
tecnicamente mais avanados. Ele expressou o seu "desejo muito vivo", relata
Salt, de incentivar os contatos com a Inglaterra, mas explicou que seria "intil"
"interferir" com os muulmanos do litoral, enquanto estes detinham o controle
do Mar Vermelho7. Ele escreveu a George III da Inglaterra, em 1810, para
solicitar-lhe armas de fogo e ajuda para obter um abuna (ou metropolitano),
porque era um costume profundamente enraizado na Etipia importar tais
eclesisticos do clero copta do Egito.
    A morte de Walda Sellas em 1816 foi seguida de acres lutas por sua suces-
so. O vencedor final foi Dajazmach Sabagadis (1822-1831) de Agam, outra
importante provncia situada na rota da depresso salina, o qual enviou o empre-
gado de Salt, William Coffin,  Inglaterra em 1827 como uma solicitao de
ajuda militar e tcnica. Os ingleses enviaram um comboio de armas, mas este
foi interceptado pelos egpcios no porto de Massaoua (Massawa). Sabagadis
combateu depois os yejju, mas foi capturado e executado. Ras Web (1839-
-1855) de Samn conseguiu, aps longas lutas, tomar o controle do Tigre e, mais
tarde, apesar de inmeras rebelies, dos altos planaltos at Gondar. Sensvel 
importncia dos contatos com o exterior, ele obteve uma pequena quantidade
de armas de fogo e de tcnicos da Frana. Proclamando sua inteno de insta-
lar como imperador em Gondar, um pretendente chamado Takia Giyorgis, ele
marchou contra Ras `Al, o senhor yejju de Bagember, e o enfrentou em uma

6     H. Salt, 1814, p. 325-328-330. Ver tambm J. Kolmodin, 1912-1915, p. 97-98.
7     H. Salt, 1814, p. 383-384.
A Etipia e a Somlia                                                                                439



batalha perto da futura capital, Dabra Tabor, em 1842. Os atiradores de Web
ganharam a batalha, mas o chefe vitorioso foi capturado quando celebrava o
seu sucesso militar. Ele foi solto aps o pagamento de um resgate e retornou
ao Tigre. Entrou novamente em conflito com Ras `Al em 1843 e 1844, mas,
tendo que enfrentar uma revolta no Tigre e a tomada de Massaoua pelo Egito,
teve que se submeter ao chefe yejju. Apesar dos reveses, ele permaneceu como
um dos chefes mais poderosos e mais esclarecidos da Etipia8.
    Amhara, a segunda diviso importante do imprio, estava situada ao Noro-
este. Sua populao, essencialmente crist (ainda que englobando um nmero
importante de muulmanos) falava o amrico, a mais difundida das lnguas
semticas da Etipia. A regio era centrada em torno da rica provncia de Bage-
mder, cujos senhores controlavam s vezes Dambeya e o Gojam ao Sul. Amhara
devia em grande parte a sua importncia ao fato de controlar a capital imperial,
Gondar, situada longe do litoral. Entretanto, os senhores de Amhara dependiam,
para seu abastecimento em armas de fogo, dos comboios que passavam pelo
Sudo e pelo Tigre, cujos senhores no favoreciam o trnsito.
    No incio do sculo, Amhara era dirigida por Aligaz Gwangui (1788-1803),
o irmo de `Al Gwangui, um muulmano oromo yejju que tinha se convertido
ao cristianismo por razes polticas, mas que era apoiado pelos muulmanos.
Aligaz foi sucedido por seu sobrinho Gugsa Mersa (1803-1825) que estabeleceu
sua capital em Dabra Tabor, ampliando as suas possesses at o Leste de Gojam
e tentou destruir o poder da nobreza proclamando a nacionalizao de suas
terras9. Nas dcadas seguintes, o isl ganhou constantemente terreno. O filho de
Gugsa, Ras Yeman, o sucedeu (1825-1828) e se colocou ao lado dos muulma-
nos contra os cristos, enquanto o sobrinho de Yeman, `Al Alula (1831-1853)
repartiu o poder com sua me, a imperatriz Manan, uma mulumana convertida
ao cristianismo, da qual vrios parentes prximos muulmanos se tornaram
governadores de provncia. A peregrinao ao tmulo do conquistador muul-
mano Ahmad Gragn (sculo XVI) foi restabelecida em sua honra10.
    Ao Sul de Amhara, isolada pelo lago Tana e pela curva do Abbay (Nilo Azul),
encontrava-se o Gojam, provncia virtualmente independente cuja populao
falava o amrico e era quase totalmente crist. A regio tinha sido unificada no
final do sculo XVIII por Ras Haylu (morto em 1784-1785), cujos descenden-


8    Para uma breve histria contempornea do Tigre, ver M. Parkyns, 1854, vol. II, p. 88-120. Ver tambm
     C. Conti Rossini, 1947, e, a propsito de Web, J. Kolmodin, 1912-1915, p. 110, 116-117, 119-120.
9    C. Conti Rossini, 1921; R. K. P. Pankhurst, 1968, p. 137.
10   J. S. Trimingham, 1952, p. 110-111.
440                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 15.2 Dajazmach Web do Tigre [Fonte: T. Lefebvre, Voyage en Abyssinie, 18451849, Paris. Ilus-
trao reproduzida por Sasor Publisher, Londres]
A Etipia e a Somlia                                                                                      441



tes travaram entre si longas lutas. Seu filho, Ras Mared (morto em 1821), foi
desafiado por Dajazmach Zawd, um oromo de Damot que esposara sua irm,
e o conflito foi retomado por seus filhos e netos respectivos. Estas rivalidades
favoreceram a dinastia dos yejju, j que os prncipes gojams da provncia, como
sublinha um especialista moderno, "no tinham o porte" dos yejju; estes ltimos,
por outro lado, nunca conseguiram expulsar os gojam ou manter no poder
homens impostos do exterior11.
    Shoa, a terceira maior diviso do imprio, estava situada no Sudeste. Seus altos
planaltos centrais eram principalmente povoados por cristos falantes do amrico,
enquanto o Sul e o Oeste eram ocupados por oromos tradicionalistas e muulma-
nos, com os afar muulmanos ao Leste. A provncia tinha sido isolada pela expan-
so dos oromos, o que tinha permitido a seus senhores se tornarem independentes
de seus suseranos de Gondar. O Shoa, ainda que ligado a esta cidade por uma
rota comercial, tinha de fato relaes econmicas mais importantes  pelos afar
e as terras baixas da Somlia  com os portos do golfo de Aden, Tadjra e Zeila,
bem como com a cidade-mercado de Harar. Foi por estas rotas que os dirigentes
sucessivos do Shoa obtiveram uma quantidade reduzida, mas crescente, de armas
de fogo, graas s quais subjugaram os oromos vizinhos, aos quais faltavam estas
armas. Esta expanso deu a Shoa o controle do comrcio com os territrios situ-
ados mais ao interior, ricos em ouro, marfim, caf, especiarias e escravos.
    Desde o final do sculo XVII, Shoa fora dirigida por sua prpria dinastia12. O
primeiro chefe do sculo XIX, Asfa Wassan (1775-1808), cujo nome significava
literalmente "expandir a fronteira", instalou sua capital em Ankobar. Ele lutou
duramente para conquistar as terras oromas, reorganizou o sistema tributrio
e acabou com os ltimos elos de vassalagem com Gondar13. Seu filho, Wasan
Sagad (1808-1813), o qual teve o alto ttulo de ras, realizou posteriormente
expedies contra os oromos e cooperou com Ras Walda Sellas (Tigre) quando
dos ataques contra Wallo e Yejju, mas ele seguiu uma poltica tolerante e, ten-
tando cristianizar os oromos e lhes impor o amrico, nomeou alguns dentre eles
a cargos no Estado; ele agiu do mesmo modo com os muulmanos14.



11   C. Conti Rossini, 1947; Takla Yasus (s.d.); Fantahun Birhane, 1973, p. 11.
12   H. Salt, 1814, p. 494-496. Ver tambm R. Perini, 1905, p. 210-211.
13   C. F. X. Rochet d'Hricourt, 1841, p. 212; 1846, p. 243; A. Cecchi, 1886-1887, vol. I, p. 242-243; Gubr
     Sellassi, 1930-1932, vol. I, p. 60-66.
14   C. F. X. Rochet d'Hricourt, 1841, p. 212; 1846, p. 243; A. Cecchi, 1886-1887, vol. I, p. 242-244; ; Gubr
     Sellassi, 1930-1932, vol. I, p. 67-69 ; sobre a histria antiga de Shoa, ver tambm D. N. Levine, 1965,
     p. 21-38; V. Stitz, 1974, p. 64-126, 349-350.
442                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



    O filho de Wasan Sagad, Sahla Sellas (1813-1847), foi o primeiro potentado
de Shoa a se dar o ttulo de negus, ou rei; ele pretendia tambm dominar "Yefat,
o povo galla e Gurage". Residindo alternadamente em Ankobar e em Angolola,
cidade recentemente confiscada dos oromos, ele manteve uma atitude tolerante
em relao aos oromos e aos muulmanos, e realizou casamentos dinsticos com
eles. Desenvolvendo um sistema que o enviado ingls, o capito W. C. Harris,
descreveu "como totalmente feudal"15, ele obteve maiores quantidades de armas
de fogo do que seus antecessores e invadiu as terras frteis do Sul e do Oeste,
o que lhe permitiu atrair as caravanas de Enarya, Kaffa, Gojam, Damot e de
outras regies16. Sua necessidade por armas de fogo o levou a estabelecer rela-
es com as potncias estrangeiras. Em 1839, solicitou a um viajante francs,
Rochet d'Hricourt, que obtivesse fuzis em Paris e escreveu para a Companhia
Inglesa das ndias Orientais: "Deus me deu um bom e vasto reino, mas as artes
e as cincias ainda no chegaram em meu pas como j o fizeram no vosso. Eu
vos rogo ento de me assistir em particular enviando-me fuzis, canhes e outras
coisas que no possuo em meu pas17".
    Sahla Selass recebeu misses diplomticas da Frana e da Inglaterra e assi-
nou tratados de amizade e de comrcio com os dois pases, em 1841 e 1843.
Harris que trouxe ao soberano uma doao de armas de fogo, citou sua reao:
"Com alguns mosquetes a mais, eu terei vantagem sobre todos os meus ini-
migos18". Sob o seu reinado, Shoa conheceu uma paz que contrastou favora-
velmente com a situao das provncias do Norte, destrudas pela guerra civil.
Os camponeses de acordo com os san-simoenses franceses E. Combes e M.
Tamasier, "no tem porque temer a pilhagem dos soldados" e se dedicaram "com
uma energia redobrada no cultivo de suas terras, certos de realizar a colheita
aps haver semeado19". A morte de Sahla Sellas, como aquela de vrios de seus
antecessores, foi entretanto seguida de uma grande rebelio oroma, dificilmente
reprimida por seu filho Hayla Malakot, (1847-1855) monarca frgil cujo reinado
conheceu inmeras desordens20.



15    W. C. Harris, 1844, vol. II, p. 177-178; ver tambm C. Johnston, 1844, vol. II, p. 18; A. Cecchi, 1886-
      -1887, vol. I, p. 244; Gubr Sellassi, 1930-1932, vol. I, p. 70-77.
16    India Office Records, Londres, Bombay Secret Proceeding, 2060 G, parg. 23, vol. 3, p. 489.
17    C. W. Isenberg e J. L. Krapf, 1843, p. 251.
18    India Office Records, Londres, Bombay Secret Proceeding, vol. 3, p. 489; C. W. Harris, 1844.
19    E. Combes e M. Tamasier, 1838, vol. II, p. 346.
20    A. Cecchi, 1886-1887, vol. I, p. 250-256; Gubr Sellassi, 1930-1932, vol. I, p. 77-84.
A Etipia e a Somlia                                                                               443




Figura 15.3 O rei Sahla Sellas de Shoa [Fonte: T. Lefebvre, Voyage en Abyssinie, 18451849, Paris, Ilus-
trao reproduzida por Sasor Publisher, Londres.]



     O porto de Massaoua
    Nos confins do imprio, a regio era igualmente dividida, e inmeras reas
estavam dilaceradas por conflitos intertnicos. Massaoua, ilha situada ao largo do
litoral do Mar Vermelho, recebia junto ao porto prximo de Arkiko (localizado
no continente) a maioria do comrcio da Etipia Setentrional21 e constitua
uma unidade cultural distinta. Os habitantes, como aqueles da plancie vizinha
de Samhar, eram muulmanos que falavam o tigrino, lngua semtica aparen-
tada ao ge`ez; os contatos com a Arbia tinham tambm ampliado o uso do
rabe, mas a presena dos mercadores e soldados de numerosas raas produzia
uma verdadeira Babel de idiomas. A rea era o teatro de conflitos entre quatro
poderes principais: primeiramente, o imprio otomano, o qual se apossou de
Massaoua em 1557 e instalara uma guarnio cujos descendentes constituam
uma pequena, mas poderosa fora de ocupao; em segundo lugar, o Egito, cujos
dirigentes haviam usurpado ou adquirido a soberania sobre a cidade em nome
do Estado otomano; em terceiro lugar, uma famlia aristocrtica local, a qual
descendia das tropas otomanas e dos autctones, os belaw, e que vivia em Arkiko


21   R. K. P. Pankhurst, 1961, p. 339-346; 1968, p. 357-391.
444                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



e tinha como chefe, o na'ib, literalmente "representante". Oficialmente, este era
apenas encarregado do litoral, mas exercia um domnio de fato sobre Massaoua
que dependia dele pela gua potvel e por todo o seu comrcio; em quarto lugar,
os governadores do Tigre, os quais, considerando os portos como indispensveis
para o acesso ao mar, afirmavam seus direitos histricos sobre estes; mas, j que
dominavam o comrcio do interior, apenas empreenderam aes intermitentes
para fazer valer estes direitos.
    O controle efetivo dos portos, no incio do sculo, era partilhado entre a guar-
nio turca e o na'ib, o qual, na ausncia de um governador otomano, era con-
siderado de fato o chefe de Massaoua e dizia que "a porta de Habash era sua"22.
Tais pretenses eram muito mal vistas por Walda Sellas do Tigre que expressou
"um vivo descontentamento", enviou uma expedio militar contra o na'ib, e
"cortaria todas as comunicaes" se este ltimo no o houvesse "apaziguado"23.
Para pr fim ao poder do na'ib, um nobre britnico, Lorde Valentia, defendeu a
ideia da aquisio pelo seu governo de uma ilha na baa prxima de Zula, mas
este plano no deu resultados24.
    O domnio do na'ib findou-se em 1813-1814 quando Muhammad `Al do
Egito invadiu Massaoua em nome dos otomanos. Seu filho, o guerreiro Ibrhm,
foi nomeado pela Grande Porta governador do Hedjz e da Abissnia, mas a
ltima parte do ttulo  a qual expressava bem as ambies de Muhammad `Al
 era uma fico; o papel do Egito se limitava  ilha e, mesmo assim, quase sim-
bolicamente. Em 1826, o na'ib, utilizando o seu controle sobre o abastecimento
de gua em Massaoua, forou os intrusos a se retirarem e, apesar da manuteno
de uma guarnio, dominou de novo a regio25. A evacuao egpcia despertou
o interesse dos etopes. Sabagadis do Tigre solicitou ao rei da Inglaterra George
IV para "se apossar do porto de Mussowa para nos d-lo ou para mant-lo para
si26", mas o governo britnico recusou.
    Muhammad `Al apossou-se de novo de Massaoua em 1833, mas teve que
se retirar em 1841. Perto daquela poca, Web do Tigre enviou um embaixador
ao rei da Frana Lus Felipe oferecendo-lhe a baa prxima de Amfilla em troca
de armas de fogo e de um apoio para suas reivindicaes sobre o litoral, mas os



22    G. Valentia, 1811, vol. III, p. 252.
23    Ibid., vol. III, p. 40.
24    Ibid., vol. III, p. 261-278.
25    R. K. P. Pankhurst, 1964b, p. 38-39.
26    Public Record Office, Kew, England, FO 1/2.
A Etipia e a Somlia                                                                         445



franceses se recusaram a cooperar nesta empreitada27. O na'ib tirou vantagem da
derrota de Web em Dabra Tabor, em 1842, para invadir o distrito de Hamasn,
o que levou Weba saquear a plancie de Samhar em 1843-1844. Dois anos mais
tarde, ele ofereceu Arkiko ao governo francs, mas sua proposta foi igualmente
recusada. Muhammad `Al retomou o controle de Massaoua em 1846 e teve,
por outro lado, que pagar aos turcos uma soma anual de 20.000 dlares Maria-
-Theresa. No ano seguinte, seus soldados ocuparam a ilha; pouco depois, eles
atacaram Arkiko, queimaram-na totalmente e construram um forte em terra
firme. O na'ib tornou-se seu joguete. Decidido a estabelecer seu controle sobre
toda a regio, Muhammad `Al exigiu de todos os chefes litorneos, at o porto
somali de Berbera, que se submetessem a ele. Web, furioso, enviou de novo um
exrcito para a plancie de Samhar em 1843. Seus homens saquearam Arkiko,
mas no puderam se apossar de Massaoua e tiveram que se retirar. Web dirigiu
um apelo dramtico  rainha Vitria, no qual afirmava que seus antecessores
tinham anteriormente "governado todo o litoral do Mar Vermelho" e lhe pedia
para impedir seus inimigos "de estabelecerem-se em terra firme"28, mas os bri-
tnicos recusaram a apoi-lo. Sua expedio, entretanto, exps o interesse que o
Tigre tinha sobre o litoral e revelou que uma outra interveno seria provvel
se os egpcios tentassem invadir as terras do interior.

     As terras baixas do Afar
    No Sudeste de Massaoua, as terras baixas ridas eram ocupadas pelos afar, um
povo nmade de lngua cushtica dominado, no incio do sculo, pelo sultanato
de Awsa. Estabelecido um sculo antes, quando os asaimara, ou afar "vermelhos",
se instalaram na plancie frtil do Awsa, o sultanato era dirigido pelo sulto
Ijdahis, cujos principais rivais eram os adoimara ou afar "brancos" ao Sul. Sua
morte, em 1810, provocou uma confuso que permitiu aos adoimara saquearem
Awsa e forarem seu sucessor a partilhar o poder com eles. Sua fora crescente
foi reforada pelo desenvolvimento de Shoa, cujo comrcio em expanso levou
 criao do porto de Tadjra29.
    O litoral danakil adquiriu um interesse internacional aps a ocupao de
Aden pelos britnicos em 1839. No ano seguinte, um funcionrio da Com-
panhia Inglesa das ndias Orientais, o capito Moresby, comprou do sulto de


27   T. Lefbvre, 1845-1854, vol. I, p. 103-104; Public Record Office, Kew, England, FO 1/3
28   Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 30.
29   M. Abir, 1968, p. 23-24. Ver tambm I. M. Lewis, 1955, p. 155-160.
446                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



Tadjra por "dez sacos de arroz" uma ilha localizada ao largo do litoral. O chefe
assinou igualmente um documento se comprometendo "a respeitar e a consi-
derar todo o tempo o aviso amigvel" dos britnicos e "de no concluir tratado
algum ou aliana com alguma outra nao ou pessoa europeia" sem aprovao
britnica30. Dois franceses, Combes e Broquand compraram, logo depois, agindo
em nome de uma companhia francesa, a Sociedade Nanto-bordolesa, a vila
litornea de Edd do seu chefe local, pela soma de 1.800 dlares Maria-Theresa;
logo aps, perceberam que no poderia servir como porto, j que estava aberto
aos ventos31.

      Os somalis e o chifre da frica
    Mais ao Leste, as terras baixas desertas que chegavam at o litoral do golfo
de Aden eram habitadas pelos somalis muulmanos que falavam uma outra
lngua cushtica e eram h muito tempo submetidos  influncia rabe. Zeila,
porto que acolhia o comrcio de Shoa, de Ogaden e de Harar, dependia desde
1630 do porto rabe de Moka que os dirigentes haviam alugado a uma srie de
emires rabes cuja autoridade, mas apenas ultrapassava os limites da cidade32.
O resto do litoral pertencia a somalis nmades que reivindicavam igualmente
o controle de Berbera, porto praticamente deserto que renascia a cada inverno
quando as caravanas do interior vinham trocar suas mercadorias por produtos
importados pelos mercadores da Arbia, do golfo Prsico e da ndia33. A feira era
to importante que um ditado popular afirmava: "aquele que comanda Berbera
tem a barba de Harar em suas mos"34.
    A importncia do litoral setentrional da Somlia foi bem compreendida
por Muhammad `Al do Egito, o qual se apossou de Berbera em 1821, mas
teve que abandon-la devido  resistncia local. Uma dcada mais tarde, os
egpcios fizeram uma nova tentativa neste sentido, mas tiveram que se retirar
em 1841; o governo de Zaila foi ento comprado por um ambicioso mercador
somali, Hadjdj `Al Shermerki. Desejando monopolizar o comrcio da regio,
ele se apossou de Berbera e incentivou os grupos issa do interior a atacarem as
caravanas que se dirigiam a Tadjra. Seu crescente poder despertou, entretanto,


30    E. Hertslet, 1894, vol. I, p. 275; vol. II, p. 382.
31    P.V. Ferret e J. G. Galinier, 1847-1848, vol. II, p. 436-437; R. K. P. Pankhurst, 1966b, p. 203-218.
32    J. S. Trimingham, 1952, p. 97.
33    R. Burton, 1894, vol. I, p. 71-74; R. K. P. Pankhurst, 1968, p. 421-424.
34    R. Burton, 1894, vol. II, p. 28.
A Etipia e a Somlia                                                                                 447



a inquietao do emir de Harar, o qual levou os somalis haber awal a se oporem
 ocupao de Berbera. Shermerki reagiu incitando outros somalis a cortar a
rota de Berbera e a deporem o emir, mas os haber awal retiraram seus homens
do porto em 1852. Ele tentou fazer um bloqueio, mas os ingleses de Aden o
obrigaram a abandonar este projeto e ele foi preso pelas autoridades otomanas
em Meca em 1855. Zeila foi ento entregue a Ab Bakar, um afar mercador de
escravos da regio de Tadjra35.
    O litoral de Bender Ziada, no golfo de Aden, em Illig, no Oceano ndico,
fazia parte do sultanato de Majerteyn, cuja existncia remontava talvez ao sculo
XV. O sultanato, habitado por seminmades, retirava o essencial de seus parcos
recursos com a exportao de incenso e de madeiras aromticas. Uma longa
tradio de navegao, ao longo daquele litoral dilacerado, dava aos nmades
da regio uma outra fonte de renda. No sculo XIX, a autoridade do sulto
sobre os cls do interior era no mximo nominal. Em 1839, o sulto assinou
em Aden, com os britnicos, um tratado lhe garantindo uma renda anual em
troca de sua ajuda para proteger as vidas e os bens dos marinheiros britnicos
que naufragassem ao largo do litoral36.
    Mais ao Sul, o Benadir, ou o litoral do Oceano ndico habitado pelos somalis,
era no incio do sculo um protetorado de Om, o qual se tornou independente
na dcada de 1820, aps uma interveno da Companhia Inglesa das ndias
Orientais; logo depois, a rea passou para o controle do sulto de Zanzibar, cujo
representante residia no porto de Brava (Barawa).
    O porto de Mogadscio era praticamente autnomo, como C. Guillain
observou, a autoridade dos sultes de Zanzibar, como aquela de seus agentes
aduaneiros, se estabelecendo e desaparecendo com a mono37. O interior de
Mogadscio era controlado pelo cl dos geledi, cujos sultes tinham concludo
alianas com inmeros outros cls da regio, entre o Shebele e o Juba. Durante
uma grande parte do sculo, o comrcio de marfim entre Luk (Lugh), no
alto Juba, e Mogadscio era regido por estas alianas dos geledi; os sultes
dos geledi recebiam tambm um tributo dos cls de agricultores instalados
no vale inferior do Shebele, at Brava no Sul. Somente o poderoso cl dos
bimal, no interior de Merka, conseguira resistir  hegemonia dos geledis38. Os


35   Ibid., vol. I, p. 11-15; M. Abir, 1968, p. 14-15.
36   I. M. Lewis, 1965, p. 38; M. Pirone, 1961, p. 66-68, 87-88.
37   C. Guillain, 1856, vol. III, p. 185-186 ; I. M. Lewis, 1965, p. 37-39.
38   Por duas vezes, em 1848 e novamente em 1878, os guerreiros bimal mataram os sultes geledi nos campos
     de batalha. C. Guillain, 1856, vol. III, p. 445-446; G. Revoil, 1885, p. 26-27.
448                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



sultes de Zanzibar, entretanto, deviam submeter -se  autoridade dos dirigen-
tes geledi. No Benadir, o poder era ento partilhado segundo um equilbrio
delicado; deste modo, quando o sulto de Zanzibar quis construir um porto
em Mogadscio em 1870, ele teve que obter o consentimento do sulto dos
geledi, Ahmad Ysuf39.
    H um acontecimento maior cuja lembrana est muito viva na tradio oral
dos somalis do Sul: o aparecimento da jihad de Bardera, movimento militante de
reforma islmica, oriundo da colnia religiosa de Bardera sobre o Juba, no final
da dcada de 1830. Os membros deste movimento queriam impr a sua verso
de uma teocracia islmica  populao da Somlia Meridional e conseguiram
at mesmo conquistar a cidade de Brava, no litoral, em 1840. Em 1843, todavia,
o sulto dos geledi, Ysuf Muhammad, aps ter reunido seus aliados estabele-
cidos entre os dois rios, liderou uma grande expedio contra os reformistas. A
colnia de Bardera foi sitiada e aniquilada pelo fogo e o sulto Ysuf tornou-se
durante um tempo o dirigente mais poderoso da Somlia Meridional40. Durante
a segunda metade do sculo XIX, algumas ordens islmicas  Qadiriyya, Ahma-
diyya e Slihiyya  comearam a penetrar pelo interior da Somlia e colnias
religiosas fixaram-se em todo o pas41. Finalmente, a ltima grande migrao
somali, iniciada no comeo do sculo, trouxe os nmades das plancies do Oga-
den at alm do Juba. Alguns destes nmades, os pastores, aderiram  jihad de
Bardera e atravessaram o Juba onde colidiram com os oromos. Estes ltimos
foram finalmente empurrados em direo ao Tana onde os britnicos os encon-
traram quando eles criaram o protetorado da frica Oriental42.

      O mercado de Harar
    Alm do litoral somali, nas terras altas, encontrava-se a cidade mulumana
fortificada de Harar, cujos habitantes falavam o adar, lngua semtica desco-
nhecida alhures. A cidade constitura, durante vrios sculos, um Estado inde-
pendente dirigido por um emir que exercia poderes to ampliados que o viajante
britnico Richard Burton exclamou: "o governo de Harar,  o emir"43.



39    G. Revoil, 1885, p. 22 ; I. M. Lewis, 1965, p. 38 .
40    L. V. Cassanelli, 1982, p. 135-146.
41    L. V. Cassanelli, 1982, p. 194-197; E. Cerulli, 1957, vol. I, p. 187-195.
42    L. V. Cassanelli, 1982, p. 29-30.
43    R. Burton, 1894, vol. II, p. 20.
A Etipia e a Somlia                                                                                          449



     Entreposto do Shoa, do Arussi, do Gurag e do Ogaden, a cidade cunhava
sua prpria moeda e tinha um comrcio florescente de caf, de cht (uma folha
narctica), de aafro, de couros e de peles, de marfim e de escravos, sem falar
dos txteis e de outros produtos importados. Harar que possua inmeras mes-
quitas e mausolus muulmanos, era um centro de ensino alcornico visitado
pelos shaykh rabes; ela exercia uma forte influncia religiosa e cultural sobre
os vizinhos oromos qottu que falavam uma lngua cushtica, como alguns soma-
lis. Os dois grupos haviam realizado casamentos com a nobreza de Harar e,
em alguns casos, seus dirigentes tinham procurado se fazer reconhecer pelos
emires.
     No incio do sculo XIX, a cidade estava dilacerada por conflitos internos e
submetida a uma forte presso pelos oromos, mas seu perspicaz emir, Ahmad ibn
Muhammad (1794-1821), derrotara seus inimigos. Sua morte foi, entretanto,
seguida de brigas em sua prpria famlia, em consequncia da qual os oromos
e, numa medida menor, os somalis se apossaram das terras prximas da cidade.
Esta resistiu graas  pujana de suas muralhas,  sua artilharia e aos seus fuzis
(um arsenal fortemente reduzido)44.

     A regio de Gurag e Kaffa
   Mais ao interior se encontrava a regio de Gurag, cujos habitantes falavam
uma lngua semtica e se dividiam entre aqueles do Oeste, cristos desde a
Idade Mdia, e aqueles do Leste que tinham adotado o isl. Embora governada
anteriormente por uma dinastia local, a regio tinha passado, no incio do sculo
XIX, sob o domnio de sete cls independentes, denominados os sab`at beit, "as
sete casas"; a ausncia de unidade entre eles os tornava uma presa fcil para os
caadores de escravos e favoreceu sua anexao por Sahla Sellas do Shoa45.
   No Sudoeste da regio etope, nas terras altas frteis e arborizadas, estendia-
-se o antigo reino de Kaffa, Estado tradicionalista que falava sua prpria lngua,
o katicho. Aquela regio, fonte de exportao de produtos de valor  almscar,
marfim e escravos, sem falar do caf que crescia naturalmente , tinha sido em
grande parte isolada do mundo externo pela expanso oroma; todavia, no sculo




44   E. Cerulli, 1942, p. 1-20 ; M. Abir, 1968, p. 10-11 ; S. Tedeschi, 1874, vol. I, p. 481-500 ; J. S. Trimingham,
     1952, p. 110. Para uma descrio de Harar na metade do sculo, ver tambm R. Burton, 1894, vol. II, p.
     13-29.
45   W. A. Shack, 1966, p. 16-17; P. Lebel, 1974, p. 104-105.
450                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



XVIII, ela fizera incurses nos territrios de seus vizinhos e, em 1820, seu rei,
Hotti Gaotscho, dominava ao Norte e a Leste at os rios Gibb e Omo46.

      Os Estados oromos
    As regies situadas ao Sul do Nilo Azul eram povoadas por oromos tradi-
cionalistas que se encontravam, no incio do sculo, em um estado de grande
efervescncia poltica. O antigo sistema igualitrio do gada, o qual implicava
um comando baseado na rotao dos grupos etrios, estava ameaado por che-
fes militares ricos e poderosos, frequentemente conhecidos pelo ttulo de abba
dula (pai da guerra). Estes chefes reclamavam a autoridade vitalcia e o direito
de estabelecer dinastias. Nas primeiras dcadas do sculo XIX, trs monarquias
oromas surgiram: Enarya (conhecida tambm pelo nome de Limmu), Goma
e Guma, a Oeste47. Enarya, a monarquia mais poderosa, era dirigida por Bofu,
um chefe de talento que, para reforar seu poder, aceitou os conselhos dos
mercadores muulmanos e se converteu ao isl. Seu filho Ibsa, ou Abba Bagibo
(1825-1861) o sucedeu e fez alianas dinsticas com as casas reais vizinhas;
obteve tambm alguns fuzis de mecha do Gojam, o que lhe assegurou uma
posio inexpugnvel. Sob o seu longo reinado, o comrcio, essencialmente de
escravos, de ouro, de marfim e de almscar, era florescente; o reino tornou-se rico
e poderoso. Mas a expanso do Shoa logo ameaou as rotas comerciais que iam
para Harar e para os portos do golfo de Aden, e, aps a morte de Abba Bagibo,
o reino conheceu um declnio muito rpido.
    Mais ao Sul, os reinos de Jimma-Kakka (chamado tambm de Jimma Abba
Jifar) e de Gera, apareceram pouco depois da criao do reino de Enarya. Jimma-
-Kakka, a monarquia oroma mais duradoura, foi fundada por Abba Magal, um
homem da regio de Hirmata que realizou uma srie de expedies vitoriosas.
Estas foram continuadas por seus filhos; um dentre eles, Abba Jifar Sana, por-
tava originalmente o ttulo de abba dula. Aps sua converso ao isl em 1830,
ele se proclamou moti, ou rei (1830-1855) e realizou numerosas inovaes pol-
ticas e administrativas. Seu sucessor, Abba Reba (1855-1859), atraiu para si a
hostilidade dos Estados oromos vizinhos que se uniram e o mataram no campo
de batalha, em 1859. O Estado passou ento para o controle do irmo de Abba
Jifar Sana, Abba Boko (1859-1862), o qual prosseguiu com uma poltica em


46    J. F. Bieber, 1920-1923, vol. I, p. 89-90; A. Cecchi, 1886-1887, vol. II, p. 483-491; G. W. B. Huntingford,
      1955, p. 104-105; A. Onneken, 1956.
47    Para uma crnica sobre Guma, ver E. Cerulli, 1922, p. 148-162.
A Etipia e a Somlia                                                                               451




Figura 15.4 O emir Ahmad ibn Muhammad do Harar, 1794-1821. [Fonte: R. Burton, First Footsteps in
East Africa, 1894. Londres. Ilustrao reproduzida por Sasor Publisher, Londres]



favor do isl e ordenou a construo de mesquitas em todas as suas provncias,
ao passo que seu filho e sucessor, Abba Gommol (1862-1878) ampliou os limites
do reino48.
    A rea da qual trata este captulo constitua-se ento em uma verdadeira
galxia de entidades polticas, cada uma movendo-se em sua prpria rbita,
agindo sobre as outras e sendo afetada por aquelas. Cada dirigente vigiava de
perto seus vizinhos, com os quais trocava presentes e boas maneiras, quando no
travava guerra. Os casamentos dinsticos eram realizados sempre que possveis,
ainda que pudessem ultrapassar apenas ocasionalmente as barreiras criadas pelas
religies. O comrcio, por sua vez, funcionava independentemente das distines
entre os credos e as rotas dos mercadores uniam as aglomeraes tradicionalistas
crists e mulumanas. As comunidades tnicas e lingusticas permaneciam ainda
muito separadas, porm, havia muita mestiagem cultural. Tal era a situao,
no somente nas montanhas etopes e nas bordas do Mar Vermelho, mas tam-
bm mais ao Sul, ao longo da fronteira entre os somalis e os oromos onde, na


48   A. Cecchi, 1886-1887, vol. II, p. 156-157, p. 238-240, p. 266-267, p.537-542; G. W. B. Huntingford,
     1955, p. 20; M. Abir, 1965, p. 205-219;H. S. Lewis, 1965, p. 24-41, p. 44.
452                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



sequncia, os viajantes do sculo XIX assinalaram a existncia de comunidades
de comerciantes bilngues49.


      Os esforos de unificao do imperador Teodoro II
    O estado de diviso da Etipia na primeira metade do sculo XIX deu lugar,
na segunda, a duas importantes tentativas de reunificao. A primeira  aquela
de Dajazmach Kassa Heyku, o futuro imperador Teodoro (ou Tewodros) II da
Etipia, cujo reinado ps fim  era dos Masafent.
    Nascido por volta de 1820, Kassa era filho de um chefe de Qwara, locali-
zado na fronteira do Sudo, cuja viva, destituda, fora obrigada a vender kosso,
o remdio etope contra o verme solitria. Criado em um mosteiro, Kassa se
fez mercenrio e tornou-se senhor de Qwara tomando o ttulo de dajazmach.
A imperatriz Manan, a me de Ras `Al, o chefe yejju de Bagemder, tentou
obter seu apoio casando-o com sua neta Tawabech, mas ele se revoltou, pilhou
Dambeya e derrotou o comandante enviado contra "o filho da vendedora de
kosso" (como era chamado de maneira pejorativa). Kassa ocupou Gondar em
1847, depois capturou a imperatriz e s a libertou quando Ras `Al o reconhe-
ceu como chefe da regio fronteiria ocidental. Este triunfo sobre os yejju, cuja
poltica pr-mulumana tinha chocado inmeros cristos amhara, encorajou
Kassa em suas empreitadas. Em 1848, ele atacou os egpcios no Sudo e avanou
at menos de cem quilmetros da cidade de Sennar, a qual no pde capturar
devido a potncia das armas de fogo egpcias. Aps a reconciliao, serviu o ras
at 1852, quando `Al o convocou de novo. Kassa recusou a vir e se retirou em
Qwara. O ras proclamou a entrega das terras de Kassa para Dajazmach Goshu
Zawd, o chefe do Gojam, o qual se ps em campanha para aniquilar o arrivista.
Kassa, contudo, venceu facilmente os gojame e tentou se reconciliar com `Al.
Mas este ltimo marchou com Dajazmach Web (do Tigre) contra ele. Kassa
arrasou seus exrcitos em 1853 e incendiou a capital de `Al, Dabra Tabor; depois
ele venceu o ras em Ayshal, perto do Gojam. Esta batalha marcou o fim da
dinastia yejju, e ps fim  era dos Masafent. Os nicos rivais restantes do chefe
vitorioso, no Norte da Etipia, eram os filhos de Goshu, Dajazmach Beru (do
Gojam) e Web (do Tigre). Kassa atacou e capturou o primeiro em 1854 e se
deu em seguida o ttulo de negus. No ano seguinte, ele marchou contra Web



49    U. Ferrandi, 1903, nota 1, p. 316.
A Etipia e a Somlia                                                                 453



em Samn e o venceu em Darasg, onde capturou quase 7.000 armas de fogo50.
Coroou a si mesmo imperador e escolheu como nome Twodros (Teodoro) 
nome altamente simblico j que uma profecia afirmava que um monarca deste
nome teria um reinado justo, expulsaria o isl e se apossaria de Jerusalm51.
   A personalidade e as aspiraes do novo imperador foram descritas de modo
vivo por um observador britnico, o cnsul Plowden, o qual declarou que Teodoro
acreditava ser um "monarca pr-destinado" e "era capaz de grandes coisas, boas
ou ruins [...]. Ele  justo, escuta pessoalmente os mais pobres dos camponeses;
acabou com o sistema de esposas com o prprio exemplo, ele [...] desencorajou
a poligamia e o concubinato; interditou o comrcio de escravos e pacificou todo
o pas"52. O cnsul descreveu Teodoro como um visionrio e observou:
     Ele  convencido de ser pr-destinado a restaurar a glria do imprio etope e a rea-
     lizar grandes conquistas; com uma energia incansvel, tanto mental como corporal,
     sua bravura pessoal e moral  sem limite. Sua moralidade  muito bem atestada
     pela severidade da qual faz prova em relao a seus soldados, mesmo quando estes,
     pressionados pela fome, se amotinam, e ele se encontra diante de uma multido
     hostil; ela  atestada ainda pelo fato de ter imposto reformas em um pas to pouco
     habituado ao jugo [...] e de ter vencido o poderio dos grandes chefes feudais em
     um momento em que at o homem mais inferior teria buscado negociar com eles
     e consider-los como um estribo para o imprio [...]. A tarefa rdua de pr fim ao
     poder dos grandes chefes feudais  tarefa que s pde ser realizada na Europa por
     toda uma linhagem de soberanos , empreendeu-a ao acorrentar quase todos aqueles
     que eram perigosos. Colocou os soldados das diferentes provncias sob o comando
     de seus partidrios mais fiis, aos quais concedeu altos ttulos, mas no o poder de
     julgar ou punir; deste modo, com efeito, criou generais em lugar de capites feudais
     [...]. Com relao ao comrcio, acabou com algumas prticas humilhantes e ordenou
     que os impostos s fossem cobrados em trs locais em seus territrios [...]. Tentou
     desarmar o povo e criar um exrcito regular, equipado somente com fuzis; declarou
     que transformaria as espadas e as lanas em relhas de arado e foices e que venderia
     mais caro um boi de arado que o mais nobre cavalo de guerra [...]. Algumas de suas
     ideias so talvez imperfeitas, outras irrealizveis, mas um homem que fez tanto e que
     se fixa em projetos to vastos no pode ser considerado como um ser ordinrio53.



50   C. Conti Rossini, 1947, p. 392-396; S. Rubenson, 1966, p. 35-45.
51   A propsito da propicia sobre Teodoro, ver R. K. P. Pankhurst, 1974.
52   Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 143-144.
53   Gr-Bretanha, 1868, p. 150-151.
454                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 15.5 O imperador Teodoro inspecionando o canteiro de obras de uma estrada. [Fonte: H. Rassam,
Narrative of a British Mission to Theodore, King of Abyssinia, 1869, Londres. Ilustrao reproduzida por Sasor
Publisher, Londres]
A Etipia e a Somlia                                                                                 455



    Teodoro se mostrou um grande unificador, grande inovador e grande refor-
mador54. Depois de sua coroao, ele marchou sobre Wallo e se apossou da for-
taleza montanhosa e natural de Magdala, a qual se tornou mais tarde sua capital.
No mesmo ano, conquistou Shoa, a ltima provncia crist fora de seu controle e
nomeou Hayla Mika`el, um irmo do rei Hayla Malakot recentemente falecido,
como governador; quanto ao filho do rei, Menelik, ele levou como refm.
    Compreendendo que no poderia controlar o pas pela fora, Teodoro deci-
diu reorganizar seu exrcito. Sua experincia com os egpcios, escreveu um
viajante britnico, Henry Dufton, o havia convencido que "o modo de combate
primitivo" devia ser "ultrapassado55". Ele pensou ento em substituir os recrutas
feudais no pagos que devastavam os campos, sem serem muito eficazes no
campo de batalha, por um exrcito de soldados profissionais e bem equipados.
A partir de 1853, relata-se que ele "disciplinara" seu exrcito56 graas a ajuda de
alguns turcos, bem como de um aventureiro ingls, John Bell57. Teodoro adotou
a prtica de dar aos seus soldados "somas em dinheiro" para habitu-los  ideia
de um pagamento regular58; organizou seus homens em regimentos, misturando
recrutas de diferentes provncias e "dando deste modo um duro golpe no sistema
feudal no qual os homens se reuniam em torno do chefe de sua regio natal59".
Ele instalou celeiros para o exrcito e ordenou a seus soldados que comprassem
seus alimentos em vez de extorqui-los dos camponeses, mas esta ordem foi difcil
de se fazer respeitar60.
    Decidido a aumentar seu poder de fogo, Teodoro tentou, com a ajuda de
mercadores estrangeiros, importar armas61; mas a coisa era difcil na medida
em que os egpcios no Sudo e os turcos em Massaoua eram-lhe hostis; quanto
aos senhores do Tigre, regio que permanecia em grande parte fora de seu
controle, tampouco lhe favoreciam o trnsito de armas. Teodoro teve ento a
ideia de solicitar aos missionrios e aos artesos estrangeiros que fabricassem
armas de fogo. Em 1855, ele aceitou uma oferta feita por Samuel Gobat, o bispo
protestante de Jerusalm, de enviar-lhe um grupo de trabalhadores missionrios

54   Para diferentes retratos de Teodoro, ver A. d'Abbadie, 1868a, 1868b; T. Noldeke, 1892, p. 257-284; C.
     J. Jaenem, 1966, p. 25-56; D. Crummey, 1969, p. 457-469; M. Morgan, 1969, p. 245-269.
55   H. Dufton, 1867, p. 138.
56   Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 76.
57   H. Dufton, 1867, p. 183-184.
58   Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 150.
59   Ibid., p. 166.
60   M. Moreno, 1942, p. 160-161.
61   H. M. Stanley, 1874, p. 273; R. K. P. Pankhurst, 1972, p. 92.
456                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



do Instituto Chrischona (localizado na Sua, perto de Basileia). Quando estes
ltimos lhe deram bblias, Teodoro declarou que "teria preferido um tonel de
plvora inglesa62". Mas compreendendo que se tratava de artesos de valor, ele os
tratou cordialmente e os instalou em Gagat, perto de Dabra Tabor, sua capital.
A estes artesos juntou-se um armeiro francs, alm de um polons que tinha
desertado o exrcito russo63. Em 1861, Teodoro ordenou aos estrangeiros que
fabricassem um canho, morteiros e obuses64. No incio, eles recusaram, mas o
imperador insistiu e aprisionou seus servidores at que os patres cedessem.
"Em seu estado de perplexidade, eles s puderam prometer que tentariam". E,
pouco tempo depois, Dabra Tabor viu as bombas de canho "subir aos ares e
explodirem com grandes barulhos que provocaram mil ecos nas colinas65".
    Teodoro ofereceu aos artesos vestimentas honorficas, cavalos e mulas com
arreios em ouro e em prata, mais mil dlares Maria-Teresa para cada um 
depois ordenou a fabricao de armas ainda mais possantes. Finalmente, ele
solicitou que construssem um canho capaz de atirar um obus de mil libras.
Este canho foi chamado de "Sebastopol", pesava sete toneladas e necessitava
quinhentos homens para carreg-lo. O imperador declarou que o dia em que
o fabricaram era um dos mais felizes de sua vida. Ele considerou igualmente
"enviar  Inglaterra e  Frana alguns de seus sditos mais inteligentes para
aprender as artes e as tcnicas teis66".
    Consciente do fato que suas foras deveriam se movimentar com a maior
rapidez possvel, Teodoro solicitou a seus artesos europeus que se ocupassem
da construo de estradas67. O trabalho manual era impopular entre os solda-
dos que desprezavam este tipo de tarefa; mas o imperador deu exemplo e, de
acordo com um observador britnico, Henry Blanc, "ele se punha a trabalhar do
alvorecer at tarde da noite; com suas prprias mos, deslocava pedras, nivelava
o solo e ajudava a entulhar barrancos. Ningum podia parar o trabalho por
muito tempo enquanto ele continuava". Esta tarefa "teria lanado ao desespero
qualquer homem"; mas Teodoro "construiu pouco a pouco estradas que teriam
a aprovao de um engenheiro europeu68". Estas estradas deviam ligar Dabra


62    C. T. Beke, 1867, p. 259.
63    H. Dufton, 1867, p. 81-83.
64    Ibid., p. 83-84
65    Ibid., p. 84-85.
66    Ibid., p. 138.
67    Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 189.
68    H. Blanc, 1868, p. 344.
A Etipia e a Somlia                                                                457



Tabor a Gondar, Gojam e Magdala, em uma regio extremamente montanhosa.
Clements Markham, outro observador britnico, descreveu a estrada de Magdala
como "um trabalho bem marcante, um verdadeiro monumento de resoluo
indomvel e perseverante69".
    Embora um homem de guerra, Teodoro se interessava muito na pacificao
de seu pas, devastado pelas guerras. Proclamou um dito em 1855, segundo o
qual "cada um devia retornar  sua vocao legtima, o mercador a seu comrcio
e o campons ao arado70". Ele procurou eliminar o banditismo. Um dia, ladres
vieram v-lo, armados at os dentes, exigindo que confirmasse o direito deles de
exercerem a profisso de seus pais. Sem suspeitar do que se tratava, ele perguntou
qual era esta profisso e eles lhe responderam insolentemente: "ladro de estra-
das". "Vossa profisso, lhes disse ele,  perigosa e a agricultura  mais rentvel.
Voltai para a plancie e cultivai-a[...]. Eu vos darei eu mesmo bois e arados." Os
ladres se obstinaram a exercer sua atividade, ele marcou um outro encontro
e quando recusaram de novo escut-lo, ele os fez abater por seus soldados. Tal
severidade, segundo o viajante francs Guillaume Lejean, trouxe a paz; as rotas
comerciais, at ento afligidas por roubos e pela guerra civil, tornaram-se to
seguras como aquelas da Frana ou da Alemanha71. Teodoro, desejando ter um
imprio unido, procurou tambm eliminar as diferenas religiosas. Ele ordenou
aos muulmanos que se encontravam em seus territrios, observa Plowden, "a
se converterem ao cristianismo em um prazo de um ano" e expulsou todos os
catlicos romanos72. Afirma-se que ele declarou que, se ele no "fizesse os oro-
mos e os amhara comerem na mesma mesa", ele no mereceria mais o nome de
cristo73. Aps a morte da sua primeira esposa, para consolidar o seu controle
sobre o Tigre, ele se casou com Terunash (ou Teruwarq), a filha do seu velho
inimigo Dajazmach Web74.
    O monarca reformador voltou igualmente a sua ateno para a Igreja, da
qual ele aprisionou o chefe, Abuna Salama, em 1857. Teodoro tentou diminuir
o nmero de padres, reduzir as terras pertencentes aos eclesisticos e tor-
nar os religiosos dependentes de salrios pagos pelo Estado75. Estas medidas


69   C. R. Markham, 1869, p. 295-296.
70   G. Lejean, 1865, p. 63.
71   F. M. C. Mondon-Vidailhet, 1905, p. 23-24; G. Lejean, 1865, p. 63-64 e p. 67.
72   Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 143. Ver tambm p. 172.
73   M. Moreno, 1964, p. 162.
74   S. Rubenson, 1966, p. 56.
75   R. K. P. Pankhurst, 1968, p. 143.
458                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 15.6 O grande canho "Sebastopol" do imperador Teodoro. [Fonte: H. Rassam, Narrative of a British
Mission to Theodore, King of Abyssinia, 1869, Londres. Ilustrao reproduzida por Sasor Publisher, Londres.]




foram duramente combatidas pelo clrigo76. No longo prazo, a hostilidade
dos padres, juntamente com aquela dos nobres provinciais, contribuiu para
voltar uma grande parte da populao contra ele; segundo o historiador sueco
Sven Rubenson, isto foi "provavelmente a causa mais importante de seu fra-
casso77". A oposio das provncias revelou-se de fato impossvel de derrubar.
A primeira ameaa veio do Tigre onde um chefe dissidente, Agaw Negus,
tentou em 1856 obter a proteo da Frana e se declarou pronto para aceitar
como abuna um catlico romano para o bispado de Jacobis. Em 1859, Negus
cedeu o porto de Zula em troca de uma ajuda militar francesa78. Mas temendo
ofender os ingleses, os franceses no ousaram assinar este acordo79 e Negus
foi vencido em 1860.



76    H. Dufton, 1867, p. 140.
77    S. Rubenson, 1966, p.72.
78    S. Russel, 1884; J. Kolmodin, 1912-1915, p. 139-143, p. 145-146.
79    G. Douin, 1936-1941, vol. III, p. 248-249.
A Etipia e a Somlia                                                                                    459




Figura 15.7 Eclesisticos etopes durante a dcada de 1840. [Fonte: W. C. Harris, The Highlands of Aethiopia,
1844, Longman, Londres.]



    Os ltimos anos do reinado de Teodoro conheceram, entretanto, srias difi-
culdades. Houve continuadas rebelies, particularmente aquela de Amad Bashir
no Wallo, onde o imperador travou uma guerra excessiva; em Shoa, Bezabeh,
um prncipe local, proclamou sua independncia. Gojam passou para o controle
de um nobre rebelde, Tedia Gwalu, enquanto um outro chefe, Tiso Gobas
apoderava-se de Gondar; Wagshum Gobas, filho do antigo senhor de Lasta, se
revoltou. Um outro acontecimento srio teve lugar: Menelik, herdeiro do trono
de Shoa, fugiu de Magdala em 1865 e proclamou-se soberano independente.
Confrontado com esta oposio crescente, Teodoro teve que recorrer  violn-
cia. Ele incendiou Gondar em 1864 e a saqueou, bem como a cidade vizinha
de Dambeya em 1866, onde seus soldados destruram a maioria das igrejas da
velha capital. As cruzes de procisso, os manuscritos e outros objetos de valor
foram levados para Dabra Tabor; inmeros objetos em cobre e em prata foram
fundidos para fabricar canhes. Centenas de pessoas foram executadas. Tal
violncia, a qual contrastava muito com outros traos de carter mais humanos
de Teodoro (como seu amor pelas crianas)80, foraram Markham a compar-lo
com Pedro, o Grande, da Rssia81.

80   H. Dufton, 1868, p. 106.
81   C. R. Markham, 1869, p. 293. Ver tambm D. Crummey, 1971, p. 107-125.
460                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



      O conflito com a GrBretanha
   Os ltimos anos do reinado de Teodoro foram assombrados por um estranho
conflito com a Gr-Bretanha. Devendo enfrentar uma oposio crescente no
interior do seu imprio, ele procurou uma assistncia tcnica da Europa e enviou
cartas  rainha Vitria e ao imperador Napoleo III, em 1862, propondo-lhes
o envio de embaixadores. A carta para a rainha Vitria, que marcou o incio do
conflito, declarava:
      Meus pais os imperadores tendo esquecido o nosso Criador, este entregou o reino
      deles aos galla e aos turcos. Mas Deus me criou, me tirou da poeira e restaurou este
      imprio para o meu reinado [...]. Graas ao Seu poder, expulsei os galla. Quanto
      aos turcos, eu disse-lhes de deixarem a terra de meus ancestrais. Eles recusaram. Eu
      vou, ento, lutar contra eles.
    Explicando que os turcos o haviam impedido de enviar um embaixador, ele
declarou que desejava que a rainha fizesse de modo que este ltimo pudesse viajar
em segurana82. O cnsul Cameron, representante britnico, ao transmitir este
apelo a Londres, relatou que seu autor havia-lhe solicitado a disponibilizao de
engenheiros e mdicos da Inglaterra e observava que estes "no deveriam temer
maus tratos", pois os missionrios que trabalhavam para o monarca eram "tratados
muito liberalmente83". As duas cartas chegaram a Londres em meados de fevereiro,
mas no lhes foi dado importncia alguma. Os britnicos no se dignaram a res-
ponder ao imperador, enquanto a carta de Cameron ficou sem resposta at o final
de abril, data na qual o conde Russel, secretrio britnico das relaes exteriores,
lhe enviou uma palavra pouco amvel84. O governo ingls, como o destacaria
Russel mais tarde, considerava que, dada "a pouca durao do poder dos reis abis-
snios", era desejvel "se afastar o mais possvel de todo engajamento na Abissnia,
de toda aliana e de toda interferncia britnica na Abissnia85".
     medida que o tempo passava e que sua carta permanecia sem resposta,
Teodoro tornava-se impaciente. Estava irritado pelo fato de o governo brit-
nico no mostrar interesse algum pela Etipia, mesmo sabendo do apoio dos
franceses ao rebelde Negus; ele considerava que sua dignidade real sofrera
uma afronta. Cameron agravou a situao ao visitar o lado egpcio da fronteira


82    Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 225.
83    Ibid., p. 223-224.
84    Ibid., p. 229.
85    Ibid., p. 396.
A Etipia e a Somlia                                                               461



sudanesa e cumprimentar os funcionrios egpcios: ele dava a impresso de se
colocar ao lado de um inimigo que, naquela poca, tentava invadir a Etipia86.
A carta de Russel a Cameron confirmou o receio do imperador, j que afirmava
brutalmente: "no  desejvel que os agentes de Sua Majestade se envolvam nos
assuntos da Abissnia." O cnsul devia retornar a Massaoua e ali permanecer "
espera de outras informaes87". O governo britnico parecia romper as relaes
diplomticas com a Etipia e decidia apoiar o Egito e os turcos em Massaoua.
Pouco depois, Teodoro soube que um missionrio, Henry Stern, publicara obser-
vaes que lhe eram desfavorveis, notadamente a respeito do fato de missio-
nrios terem sido julgados e condenados  recluso. Pouco tempo depois, em
novembro, o secretrio de Cameron, Kerens, chegou com uma carta do conde
Russel, lembrando ao cnsul que devia retornar a Massaoua e acrescentando
que ele era cnsul apenas neste porto e no tinha "carter representativo algum
na Abissnia88".
    A clera de Teodoro explodiu quando Kerens lhe trouxe um presente: um
tapete sobre no qual estavam representados um soldado com turbante atacando
um leo, e, atrs dele, um europeu a cavalo. Teodoro estimou que o animal o
representasse e que o soldado com turbante simbolizasse os egpcios e o cava-
leiro designasse os franceses apoiando os egpcios. "Mas onde esto, exclamou
Teodoro, os ingleses apoiando o Leo89?" Sua concluso de que a Inglaterra o
abandonava ao Egito nada tinha de gratuito, porque os britnicos desejavam
manter relaes amigveis com o Egito, pas que produzia 150 milhes de
libras de algodo por ano90, no momento em que a guerra civil americana tinha
reduzido a produo mundial de algodo. Quando o chefe do convento etope,
o qual existia desde a Idade Mdia91 em Jerusalm, lhe rendeu uma visita e lhe
anunciou que os padres coptas egpcios tinham tentado se apossar do convento,
mas que o representante britnico tinha-se mostrado pouco disposto a intervir
em favor dos etopes92, Teodoro, furioso, reagiu, em janeiro de 1864, aprisio-
nando Cameron e seu squito.



86   C. T. Beke, 1867, p. 93-94.
87   Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 229.
88   Ibid., p. 236-243.
89   C. T. Beke, 1867, p. 124-125.
90   Ibid., p. 35.
91   Para a histria das relaes da Etipia com Jerusalm, ver E. Cerulli, 1957.
92   C. T. Beke, 1867, p. 129-134.
462                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    As notcias segundo as quais o cnsul no podia deixar a Etipia tinham h
muito alarmado o governo britnico. A carta do imperador, h muito esquecida,
foi retirada dos arquivos e se redigiu uma resposta rpida. Esta foi confiada a
Hormuzd Rassam, o residente-adjunto britnico em Aden que chegou com
muito atraso ao imperador, em fevereiro de 1866. A posio de Teodoro, neste
meio tempo, deteriorara-se seriamente. T. M. Flad relatava que "todo o pas"
estava "em um estado extremamente conturbado, os rebeldes surgiam de todos
os lugares93". Cameron, quanto a ele, profetizava que "o Estado estava no ponto
de se dissolver94". Teodoro acolheu contudo calorosamente Rassam95 e soltou
Cameron, Stern e os outros prisioneiros europeus, mas pouco tempo depois, ele
prendeu Rassam e outros estrangeiros, aparentemente na esperana de forar
o governador britnico a ceder  sua requisio com relao aos trabalhadores
estrangeiros. Ele enviou ento Flad  Inglaterra, em abril, para obter dois armei-
ros e um oficial de artilharia, bem como outros tcnicos; ele desejava igualmente
um fole e uma mquina para fabricar a plvora96.
    A deteno de Rassam e de seus colegas produziu primeiramente o efeito
desejado por Teodoro. Em julho de 1866, o representante britnico no Egito
observou que a libertao dos cativos dependia "muito" das "satisfaes" que o
imperador receberia97 e, em agosto, o residente poltico britnico em Aden, o
tenente-coronel Merewether, declarou que o governo devia concordar com as
solicitaes do monarca "francamente e muito liberalmente98". Tal raciocnio foi
compreendido pelo governo britnico que aceitou a solicitao de Teodoro em
menos de uma semana99. Alguns dias mais tarde, entretanto, a esposa de Flad
avisou que Teodoro tinha aprisionado de novo os europeus. De fato, as relaes
com os estrangeiros haviam se degradado. Ao tentar arranjar a partida dos pri-
sioneiros, Rassam provocara a clera de Teodoro, clera que tinha, em seguida,
sido envenenada por um relatrio segundo o qual uma companhia britnica
assinara um contrato para construir uma ferrovia no Sudo, destinada  invaso
da Etipia. Teodoro ordenara ento que se conduzissem os prisioneiros para a
fortaleza de Magdala. Flad reagiu recomendando o governo ingls a abandonar


93    Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 348.
94    Ibid., p. 351.
95    H. Rassam, 1869, vol. II, p. 45.
96    Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 478. Ver tambm H. Rassam, 1869, vol. II, p. 102-103.
97    Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 484.
98    Ibid., p. 492.
99    Ibid., p. 503. Ver tambm R. K. P. Pankhurst, 1968, p. 217-235.
A Etipia e a Somlia                                                        463



o seu plano de enviar os tcnicos ao imperador "porque a libertao dos pri-
sioneiros, eu o temo, no estaria garantida.  mais provvel que ele procurasse
obter outras coisas do governo ingls as quais este jamais poderia consentir
[...]. Eu aconselho, pois, que o governo de Sua Majestade use uma linguagem
mais enrgica100". A poltica do imperador, logo, tinha fracassado. "A priso de
M. Rassam, escrevia Merewether, constitua um ultraje e um insulto to srios
para a Gr-Bretanha que o plano original tornara-se impossvel101". Decidiu-se
ento que os artesos iriam para Massaoua, mas no seriam enviados para o
interior enquanto o prisioneiros no fossem soltos e no chegassem ao porto.
O monarca, entretanto, declarou que no liberaria os prisioneiros enquanto os
tcnicos no chegassem  corte.
    Teodoro no era mais o poderoso chefe que fora alguns anos antes; ele
perdera o controle de quase todo o pas, exceto de Bagemder, Waala, Dalanta e
algumas outras regies menores102. Sua posio, relatava Merewether em janeiro
de 1867, "tornava-se extremamente desesperada", seu poder "diminua rapida-
mente". A menos que ele desse "alguns brilhantes golpes dignos de sua carreira
anterior, seu reinado chegaria rapidamente ao fim nos prximos meses103". Os
britnicos, conscientes da fora declinante de seu inimigo, decidiram, em julho,
por uma interveno militar. Uma tropa expedicionria vindo da ndia, liderada
pelo comandante-em-chefe do exrcito de Bombaim, o tenente-coronel sir
Robert Napier, desembarcou em Zula em outubro em vez do porto de Massa-
oua que teria sido uma escolha mais lgica, mas que teria sido defendido pelo
imprio otomano. Teodoro, neste meio-tempo, fazia esforos desesperados para
se preparar para a eminente prova de fora. Abandonando Dabra Tabor, que ele
incendiou, levou seus canhes para Magdala, praticamente o nico local ainda
sob seu controle onde ele podia enfrentar o inimigo.
    As tropas britnicas, compostas de 12.000 homens, dos quais dois teros
eram indianos e, em parte, equipada com fuzis que se carregavam pela culatra
(armas que no tinham ainda sido empregadas em uma guerra), avanou para
o interior do pas sem encontrar oposio. Os invasores receberam, no Tigre, a
cooperao de Dajazmach Kassa, o futuro imperador Johanns IV, ao passo que
Wagshum Gobas de Lasta e o rei Menelik de Shoa mostraram-lhes sua sim-
patia. A primeira batalha (e a nica verdadeira) foi travada em Arog, abaixo de

100 Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 508.
101 Ibid., p. 509-510.
102 S. Rubenson, 1966, p. 81.
103 Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 550.
464                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



Magdala, na sexta-feira santa 10 de abril, dia de jejum na Etipia. Os britnicos
infligiram pesadas perdas aos homens de Teodoro, cuja artilharia pouco expe-
riente no foi verdadeiramente utilizada104. Napier, que, contudo, no recebera
instruo alguma relativa ao tratamento reservado ao imperador etope, enviou-
-lhe um ultimato declarando que se ele se "submetesse  rainha da Inglaterra" e
entregasse todos os europeus "naquele mesmo dia no campo britnico", lhe seria
garantido um "tratamento honrvel105". Recusando-se a aceitar tal humilhao,
Teodoro replicou com uma carta muito orgulhosa que constitua seu ltimo
testamento. Dirigindo-se a seu povo, ele perguntava: "Fugireis sempre diante
do inimigo quando eu, pelo poder que Deus me deu, no estou convosco para
vos encorajar?" Dirigindo-se em seguida aos britnicos, ele declarou que seus
concidados tinham-se afastado dele e o odiavam porque ele lhes impusera
impostos e tentara lhes incutir a disciplina militar. A propsito do desfecho da
batalha, ele exclamava:
      Meus partidrios que me amavam, ficaram assustados com uma nica bala e fugiram,
      apesar das minhas ordens [...]. Estimando ser um grande chefe, eu travei batalha
      convosco, mas, devido a falta de valor de minha artilharia, todos meus padeceres
      foram em vo. O povo, de meu pas, ao me reprovar por ter abraado a religio dos
      francos e ao dizer ter-me tornado um muulmano, e de dez outras maneiras dife-
      rentes, provocou minha clera contra si. Possa Deus trazer-lhes o bem independen-
      temente do que eu lhes tenha feito de mal. Sua vontade ser feita. Eu teria tentado,
      se Deus tivesse decretado, conquistar todo o universo; e meu desejo seria morrer se
      meu propsito no pudesse ser realizado. Desde o dia do meu nascimento at hoje,
      ningum ousou levantar a mo contra mim [...]. Eu esperara, aps ter submetido
      todos meus inimigos em Abissnia, conduzir meu exrcito a Jerusalm e liber-la dos
      turcos. Um guerreiro como eu que fez ajoelharem-se homens vigorosos bem como
      crianas, no aceitar nunca ser deste modo tratado por outros106.
    Aps ter escrito aquela memorvel carta, Teodoro pegou sua pistola e quis
atirar na prpria cabea, mas seus soldados lhe arrancaram a arma das mos.
Ele soltou ento Rassam, Cameron e os missionrios, mas manteve refm suas
esposas e filhos bem como vrios outros europeus. No dia seguinte, ele enviou
a Napier uma proposta de paz, oferecendo-lhe 1.000 vacas e 500 carneiros e, ao


104 Para a histria da guerra, ver tambm K. St. C. Wilkins, 1870; T. J. Holland e M. M. Hozier, 1870; H.
    M. Stanley, 1871; C. R. Markham, 1869; A. F. Sherpherd, 1868; H. M. Hozier, 1869; F. Myatt, 1970.
105 C. R. Markham, 1869, p. 327.
106 Ibid., p. 330-331.
A Etipia e a Somlia                                                         465



saber da aceitao deste presente, liberou os ltimos refns. Napier, considerando
"a amplitude e a natureza" do presente de Teodoro, decidiu, contudo recus-lo.
O imperador, compreendendo que aquilo significava a continuao das hostili-
dades, tentou fugir, depois mudou de ideia e retornou a Magdala.
    Embora os prisioneiros tivessem sido soltos e atingido o objetivo da expedi-
o107, os britnicos atacaram Magdala, em 13 de abril. O exrcito de Teodoro
possua 3.000 armas de fogo, carregadas pela boca, "muito boas" e 1.000 fuzis de
mecha, sem falar nos 28 canhes e 9 morteiros em lato  estes ltimos fabri-
cados localmente "com belas inscries em amrico108". Esta artilharia, segundo
o capito Mozie, era "bem superior" quela dos ingleses, "e se os canhoneiros
no tivessem desertado, teriam causado muitas perdas entre os assaltantes109".
Teodoro compreendeu rapidamente que toda resistncia era v; afastou-se de
seus partidrios exclamando: "tudo acabou! Eu me matarei antes de cair nas
mos deles." Colocou sua pistola na boca e apertou o gatilho110.
    Os ingleses, uma vez cumprida a sua misso, se preparam para partir. Eles
nunca tiveram a inteno de permanecer e tinham prometido se retirar desde
que, a rusga com Teodoro, fosse resolvida. Somente com base em tal acordo os
turcos lhes haviam permitido desembarcar e Kassa os tinha autorizado a atraves-
sar o Tigre. Antes de partir, eles destruram a fortaleza de Magdala e a maioria
de seus canhes; levaram o jovem filho de Teodoro, Alamayehu, a pedido de sua
me111, e cerca de quatrocentos manuscritos, uma parte daqueles que o impe-
rador tinha reunido para formar uma biblioteca112. O ltimo ato da expedio
consistiu em recompensar Kassa dando-lhe 12 canhes, 752 fuzis e munio 
armamento que teria um papel importante na luta futura pelo poder.


    O aparecimento da Frana em Obok e da Itlia em Assab
   A segunda metade do sculo XIX viu crescer o interesse da Frana pelo
porto de Obok, o qual foi comprado em 1856, por M. Lambert, o cnsul francs



107 Ver R. K. P. Pankhurst, 1973a, p. 189-203; C. Jesman, 1966, p. 94-151.
108 C. R. Markham, 1869, p. 240.
109 H. M. Hozier, 1869, p. 240.
110 C. R. Markham, 1869, p. 352.
111 R. K. P. Pankhurst, 1973b, p. 17-42.
112 Lorde Amulree, 1970, p. 8-15.
466                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 15.8 Uma interpretao moderna da cena do suicdio do imperador Teodoro em frente a sir Robert
Napier. [Fonte: pintura do Museum of the Institute of Ethiopean Studies, Addis Abeba.]




em Aden113. Isto no resultou em ocupao efetiva, mas um novo tratado foi
assinado em 1862; quatro chefes afar cederam o territrio  Frana, por 10.000
dlares Maria-Theresa, engajando-se "conjuntamente e separadamente" a rejei-
tar toda abertura diplomtica "sem haver recebido a aprovao de Sua Majestade
o imperador dos franceses114". Embora redigido em termos grandiloquentes, este
acordo no foi respeitado na prtica. Um observador britnico, o cnsul Walker,
relatou que o chefe principal "desapareceu aps ter recebido o dinheiro e que
seu sucessor no sustentou os direitos ou as pretenses da Frana de adquirir



113 P. Soleillet, 1887, p. 23.
114 E. Hertslet, 1894, vol. I, p. 269-270.
A Etipia e a Somlia                                                                                   467



este local nem aqueles do chefe a se dispor dele". As poucas barracas construdas
pelos franceses "foram jogadas no mar aps a partida destes115".
    O interesse dos europeus por esta regio aumentou com a inaugurao do
canal de Suez em novembro de 1869. No mesmo ms, o missionrio lazarista
italiano Giuseppe Sapeto adquiriu o porto de Assab em nome do Ministrio
italiano da marinha e ofereceu por ele, a dois sultes afar, a soma de 6.000
dlares Maria-Theresa. Quando retornou em maro do ano seguinte como
representante da companhia martima italiana Rubattino, ele percebeu que os
vendedores no estavam satisfeitos com o preo. Um novo tratado foi ento
assinado com os dois chefes (aos quais se juntara um terceiro) e lhes foi pago
uma soma suplementar de 8.100 dlares Maria-Theresa, enquanto persuadia-se
um outro chefe a alugar uma ilha prxima, por dez anos, por meio de uma renda
anual de 100 dlares, com o direito de aquisio por 2.000 rpias (aproxima-
damente 1.000 dlares)116. Estes acordos fixaram as bases dos contatos que os
italianos estabeleceriam com Shoa no final da dcada de 1870 e no incio da
dcada de 1880.


    O Imperador Johanns e a formao da unidade etope
   A morte de Teodoro tinha deixado a Etipia dividida e destituda de impera-
dor. Trs personalidades rivais detinham o poder em diferentes regies. Menelik
consagrara-se rei de Shoa, enquanto Ras Gobas tornou-se senhor de Amhara,
de Wag e de Lasta, foi coroado imperador e tomou o nome de Taka Giorgis em
1868. A terceira personalidade, Kassa do Tigre, era contudo a mais poderosa,
em parte devido as armas recebidas dos britnicos. Em 1871, Gobas ps-se
em campanha para se apossar de Adwa, a capital do Tigre, mas Kassa o venceu
em julho e foi coroado imperador sob o nome de Johanns IV em Axum em
janeiro de 1872117.
   O novo imperador, o qual realizaria uma unificao mais vasta e mais eficaz
que Teodoro, alcanou este resultado ao adotar uma poltica mais conciliadora
em relao  nobreza provincial118 e ao se apresentar como o amigo e protetor


115 Gr-Bretanha, Cmara dos Comuns, 1868, p. 231-232.
116 Itlia, Ministero degli Affari Esteri, 1906, vol. I, p. 25-28. Ver tambm G. Douin, 1936-1941, vol. III,
    segunda parte, p. 240-249.
117 W. Mc. E. Dye, 1880, p. 473. Ver tambm Zewde Gabre-Sellasie, 1975, p. 17-53.
118 G. Rohlfs, 1885, p. 58. Ver tambm Zewde Gabre-Sellasie, 1975, p. 16, p. 250-257.
468                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



do clero. Antes de sua coroao, conseguiu adquirir um abuna do Egito e fez
em seguida contato com a comunidade etope em Jerusalm,  qual ele enviou
recursos dos quais ela tinha urgente necessidade. Fez construir inmeras igrejas,
notadamente em Adwa e Magdala, deu vastos territrios  Igreja na velha cidade
de Axum e renovou a subveno concedida ao monastrio de Dabra Bizan que
dominava o Mar Vermelho119. Tendo convertido sua prpria esposa, Halima,
mulumana antes de se casar, ele tentou batizar em massa os muulmanos120,
particularmente entre os oromos azebo e perseguiu os catlicos romanos121.
Desejando purificar as prticas religiosas, ele proibiu as prticas do curandei-
rismo e, em conformidade com a oposio mostrada pela Igreja etope ao tabaco,
proibiu o fumo e o rap122. Por outro lado, tentou inovar no domnio militar,
importou armas de fogo e empregou um oficial britnico, John Kirkham, para
treinar os seus soldados123.
    Durante a primeira parte de seu reinado, Johanns teve que enfrentar uma
forte presso egpcia. O Egito era  poca o Estado mais poderoso do conti-
nente africano e seu quediva, Ism`l, que teria um destino infeliz, construa um
imprio no Sudo e esperava poder anexar uma grande parte da Etipia. A etapa
do conflito comeou quando, em maio de 1868, o sulto turco confiou uma vez
mais Massaoua ao Egito. Aps ter ocupado o porto, os egpcios se apossaram
de Zula e acabaram com as importaes de armas da Etipia. Na primavera de
1872, Werber Munzinger, um aventureiro suo a servio dos egpcios se apossou
de Bogos e de Halal, dois distritos etopes localizados na fronteira sudanesa124,
e o chefe de Ailet, frente a Massawa, vendeu seu distrito ao governo egpcio.
Diante destas usurpaes, Johanns enviou Kirkham a Inglaterra em setembro
com uma carta para a rainha Vitria, solicitando-lhe ajuda para lutar contra a
expanso egpcia. Kirkham escreveu em seguida  rainha em nome do imperador
para atrair sua ateno sobre a "injustia" no fato que a Etipia no tinha porto
com o qual ela pudesse comunicar com as "potncias crists da Europa"; ele
acrescentou que se as potncias europeias lhe assegurassem uma "janela sobre
o Mar Vermelho", Johanns estava pronto para concluir "tratados de comrcio

119 Zewde Gabre-Sellasie, 1975, p. 33-34; R. Perini, 1905, p. 85; L. Villari, 1938; G. W. B. Huntingford,
    1965, p. 79; R. K. P. Pankhurst, 1966c, p. 100-101.
120 J. S. Trimingham, 1952, p. 122 ; Zewde Gabre-Sellasie, 1975, p. 94-100.
121 Sobre a poltica religiosa de Johanns, ver Gabira Madihin Kidana, 1972.
122 Mangestu Lamma, 1959, p. 52; A. B. Wylde, 1901, p. 44; R. K. P. Pankhurst, 1968, p. 5.
123 E. A. De Cosson, 1877, vol. II, p. 64.
124 A. B. Wylde, 1901, p. 22-23; G. Rohlfs, 1885, p. 43; G. Douin, 1936-1941, vol. III, segunda parte, p.
    337-344.
A Etipia e a Somlia                                                                            469




Figura 15.9 O imperador Johanns IV. [Fonte: G. Rohlfs, Meine Mission nach Abessinien, 1882, Leipzig.
Ilustrao reproduzida por Sasor Publisher, Londres.]




muito liberais" com elas125. Mas estes apelos no tiveram maiores efeitos do que
aqueles das pocas anteriores126.
   Johanns, desejoso em obter contatos mais estreitos com o exterior, nomeou
um ingls, Henry King, cnsul em Londres127, e entendendo a potncia do
movimento antiescravocrata, informou aos britnicos que ele tentaria eliminar
o comrcio de escravos executando os mercadores que o praticassem. A venda
de escravos era h muito tempo proibida pelo cdigo jurdico etope, o Fetha



125 Public Record Office, Kew, FO 1/27, to Foreign Office, 13 May 1873.
126 G. Douin, 1936-1941, vol. III, segunda parte, p. 378-387, p. 403-409.
127 J. de Coursac, 1926, p. 107-118.
470                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



Nagast, mas esta injuno aplicava-se at ento aos mercadores cristos, no aos
mercadores muulmanos128.
   Os egpcios, uma vez estabelecidos no litoral Sul do Mar Vermelho, avan-
aram igualmente na rea do golfo de Aden. Durante o inverno de 1873-1874,
eles se apossaram temporariamente de Berbera, depois, no inverno seguinte,
ocuparam a cidade de maneira permanente, bem como Zeila129. Eles invadiram
tambm o interior e tomaram Harar em outubro. O emir Muhammad ibn
`Al, alado recentemente ao poder, foi incapaz de resistir130. Tendo adquirido
um ponto de apoio ao Leste, os egpcios decidiram anexar a Etipia do Norte
at o rio Marab. Enviaram 2.500 homens, comandados por um nobre egpcio,
Arekel Bey, um oficial dinamarqus, o coronel Arendrup, e um austraco, o conde
Zicky. Aquele exrcito era equipado com fuzis que eram carregados pela culatra
e canhes de campanha. Johanns, ciente que os invasores tinham avanado at
Asmara, ordenou que se fizesse uma chamada s armas em todo o reino131. Mui-
tos homens se engajaram como voluntrios em uma guerra que consideravam
como uma cruzada contra uma invaso do isl. Johanns pde ento reunir quase
70.000 homens em armas. A batalha mais decisiva foi travada em Gundat, em
15 de novembro de 1875, quando o exrcito do imperador atacou os invasores
e os aniquilou quase totalmente. Arekel e Arendrup foram mortos e Zicky
mortalmente ferido, enquanto Johanns se apossou de 2.500 fuzis Remington,
14 peas de artilharia e 20.000 dlares Maria-Theresa. Os egpcios, neste meio
tempo, tinham enviado uma outra coluna de Tadjra; ela foi interceptada pelos
afar locais que mataram seu comandante Munzinger, assim como muitos de
seus homens132.
   Ism`l decidiu vingar-se destes desastres. Em fevereiro de 1876, um novo
exrcito, muito mais numeroso (20.000 homens) e melhor equipado, comandado
por Rtib Pacha, o filho do quediva Hassan Pacha, e um oficial americano, o
general Loring, avanou no interior da Etipia. Johanns reagiu solicitando uma
vez mais aos cristos que se unissem contra o inimigo de seu rei. Os egpcios,
embora equipados com fuzis Remington e canhes de campanha Krupp, foram
novamente escorraados, j que quase 200.000 homens responderam ao apelo


128 P. Tzadua, 1968, p. 175-178.
129 G. Douin, 1936-1941, vol. III, segunda parte, p. 266-279; terceira parte, A, p. 547-555, p. 583-602.
130 Ibid., vol. III, terceira parte, A, p. 602-607; J. S. Trimingham, 1952, p. 120-122.
131 W. Mc. E. Dye, 1880, p. 135.
132 A. B. Wylde, 1901, p. 23-25; G. Douin, 1936-1941, vol. III, segunda parte, p. 745-1075 ; Zewde Gabre
    Sellasie, 1975, p. 61-65.
A Etipia e a Somlia                                                                                   471



do imperador. Os invasores no puderam enfrentar os etopes que tiveram entre
7 e 9 de maro, em Gura, uma vitria estrondosa. Poucos egpcios sobreviveram
ao assalto das tropas do imperador. Deixaram para trs 16 canhes e 12.000 ou
13.000 fuzis Remington, bem como numerosa munio e proviso133.
    As vitrias etopes, em Gundat e Gura, puseram fim aos sonhos imperialistas
egpcios. Ism`l que perdera mais de 20.000 homens, bem como a maior parte
de sua artilharia, alm de outras armas, e cujo pas enfrentava um desastre eco-
nmico, teve que abandonar seus objetivos expansionistas. Ele foi, logo depois,
a bancarrota e foi deposto em junho de 1879. O descontentamento tinha, neste
meio tempo, tomado seu exrcito, sobretudo devido  incapacidade e a arro-
gncia dos comandantes turcos e circassianos, os quais haviam levado as tropas
egpcias ao desastre. A derrota na Etipia semeou ento frutos amargos para o
quediva e  significativo o fato de um dos coronis de Massaoua, `Urb Pacha
ter se tornado chefe da primeira revolta nacionalista egpcia.
    A Etipia, ainda que vitoriosa, tinha tambm sofrido com os combates. Em
1873, um viajante britnico, A. E. De Cosson, observava que o Hamasn tinha
sido "despovoado" devido s devastaes causadas pelos egpcios e que Asmara
"estava quase deserta134". Johanns, por seu lado, procurou reduzir estes males,
e, como o coronel William Dy, um americano a servio do exrcito egpcio, o
reconheceu, ele ordenou que, embora os cereais pudessem ser pegos por seus
soldados, "o gado e as roupas deveriam ser poupados135". As campanhas de
1875-1876, seguidas pelas depredaes cometidas por um chefe apoiado pelos
egpcios, Ras Walda Mika`l, causaram entretanto inmeras devastaes136. Um
observador britnico, A. B. Wylde, observou na sequncia que Mika`l tinha
"transformado o planalto de Hamasn, anteriormente chamado de planalto
das mil aldeias [...], em um horrvel deserto coberto de casas em runas onde
sobreviviam camponeses meio mortos de fome137".
    As vitrias sobre o Egito reergueram entretanto o prestgio e a fora de Johanns,
o qual, graas s munies de que se apossara, tornou-se o dirigente melhor armado
de seu pas desde a introduo de armas de fogo h trs sculos. O fim das hostili-


133 A propsito da campanha egpcia, ver W. Mc. E. Dye, 1880, passim; G. B. Hill, 1881, p. 205-206; G.
    Rohlfs, 1885, p. 44-54; A. B. Wylde, 1901, p. 26-81; M. Chane, 1913, p. 8; J. de Coursac, 1926, p. 322-
    -324 e passim; A. Bizzoni, 1897, p. 60-64 ; J. S. Trimingham, 1952, p. 121-122 ; Zewde Gabre-Sellasie,
    1975, p. 59-63.
134 E. A. De Cosson, 1877, vol. I, p. 50.
135 W. Mc. E. Dye, 1880, p. 292.
136 Ibid., p. 652.
137 A. B. Wylde, 1901, p. 28.
472                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



dades deixou-o livre para realizar a unificao para realizar a unificao do pas. Ele
marchou sobre o Wallo, ao Sul, a fim de acertar as contas com Menelik, o senhor
de Shoa, o qual dependia das armas que passavam pelos territrios ocupados pelos
egpcios. Menelik recusara-se a ajudar Johanns no conflito anterior e realizara uma
expedio contra Bagemder e Gojam, isto , na rea de influncia do imperador; na
mesma poca, ele tinha mantido uma correspondncia amigvel com o quediva138.
    A guerra entre os senhores do Tigre e do Shoa, as duas partes mais poderosas
da Etipia crist, parecia eminente. Menelik pensou primeiramente em fazer a paz,
mas, quando soube as durssimas condies que Johanns exigia, mobilizou seus
homens em janeiro de 1878. Entretanto a perspectiva de um conflito amedrontava
muito ambos os lados, os quais estimavam que estes s beneficiaria seus inimigos
comuns. Johanns, embora fosse o mais poderoso dos dois, carecia de munies
e seria obrigado a operar em um territrio inimigo contra um exrcito cuja fora
no era negligencivel. O desfecho parecia incerto, mas o grande nmero de armas
de fogo presente deixava prever pesadas perdas em ambos os campos. Inmeros
monges e o clero asseguraram a mediao entre os adversrios e sublinharam aos
dois monarcas que no era desejvel derramar sangue cristo.
    Johanns, convencido das vantagens de um compromisso, aceitou em feve-
reiro abrir negociaes com Menelik. Um acordo foi concludo em maro, nego-
ciado por um dos padres do imperador. Seus termos, ainda que jamais tenham
sido publicados, parecem ter sido os seguinte139: Menelik renunciava ao ttulo
de imperador; Johanns reconhecia a independncia de Menelik, o qual deveria
lhe pagar um imposto; Johanns consentia em coroar Menelik rei de Shoa e
de Wallo e aceitava o direito dos descendentes de Menelik a suced-lo como
dirigentes destas provncias; cada dirigente se comprometia a vir em ajuda do
outro em caso de necessidade; e Menelik aceitava fechar durante dois anos a
rota de Zeila ao Shoa aos europeus.
    Johanns coroou ento seu antigo inimigo com pompa e esplendor. Este ato,
de um lado, simbolilzava sua suserania de jure; do outro, ela era uma expresso
de independncia de facto de Menelik140.
    Os dois dirigentes se reencontraram em seguida em Boru Meda, no Wallo,
para debater sobre as controvrsias religiosas da Igreja ortodoxa etope, e sobre a

138 A propsito das sugestes segundo as quais Menelik conspirava realmente com os egpcios contra
    Johanns, ver H. G. Marcus, 1975, p. 38-43, e Zewde Gabre-Sellasie, 1975, p. 55-59, 61, 65, 260-262.
139 G. Massaia, 1892, vol. II, p. 5-23; A. Cecchi, 1886-1887, vol. I, p. 422-423; T. Waldmeier, 1886, p. 133-
    -134; Gubr Sellassi, 1930-1932, vol. I, p. 138-148. No que diz respeito a um debate recente sobre o
    acordo Tigre-Shoa, ver Zewde Gabre-Sellasie, 1975, p. 93-94.
140 G. Messaia, 1892, vol. XI, p. 60.
A Etipia e a Somlia                                                                                473



oportunidade de converter os muulmanos e os tradicionalistas, em particular na
periferia do pas, onde a lealdade da populao era duvidosa. Eles concluram que
deveriam dar respectivamente trs e cinco anos aos muulmanos e aos tradiciona-
listas para se converterem ao cristianismo, e que todos os funcionrios no cristos
deveriam ser batizados141. Os dois chefes principais de Wallo, o imm Muhammad
`Al e o imm Abba Watta, foram ento convertidos ao cristianismo e tomaram
os nomes de Mika`l e de Hayla Maryam; foram-lhes dados os cargos de ras e
de dajazmach142. Seus partidrios, bem como muitos outros, foram igualmente
convertidos e numerosas mesquitas e santurios pagos foram destrudos. Mas um
grande nmero destas converses permaneceu puramente nominal. O missionrio
italiano Massala viu convertidos irem direto da igreja onde tinham sido batizados
para a mesquita para anularem este batismo143; um grande nmero de chamados
"cristos de dia, muulmanos de noite". Outros muulmanos deixaram o pas,
embora, em certa reas onde se recusava aos no cristos o direito de possuir terras,
o batismo permitiu aos muulmanos adquirirem terras que poderiam conservar
mesmo aps seu retorno ao isl144. Um outro resultado do acordo de Boru Meda
foi a expulso dos missionrios catlicos romanos de Shoa, em 1879. Johanns
opunha-se h muito tempo aos missionrios, de qualquer lado que fossem145.
Eles eram apreciados sobretudo por suas competncias tcnicas, mas Menelik
compensou as desvantagens que podia apresentar sua partida empregando outros
estrangeiros, dentre os quais um arteso suo, Alfred Ilg, o qual serviu como
tcnico e como conselheiro diplomtico146.
    O quediva Ism`l tinha no nterim encarregado o coronel Charles Gordon,
um oficial britnico a servio do governador egpcio do Sudo, de realizar
negociaes de paz entre o Egito e Johanns. Gordon que reconhecia em
seu dirio que seu empregador tinha "roubado" territrios  Etipia e tratado
esta ltima "muito cruelmente e injustamente"147, chegou a Dabra Tabor para
uma v misso148 a fim de encontrar-se com Johanns em outubro de 1879. O


141 G. Rohlfs, 1885, p. 149-156; A. Opbel, 1887, p. 307; Gubr Sellassi, 1930-1932, vol. I, p. 145-156;
    Zwede Gabre-Sellasie, 1975, p. 95-96.
142 Gubr Sellassi, 1930-1932, vol. I, p. 155-156; J. S. Trimingham, 1952, p. 24, 122.
143 G. Messaia, 1892, vol. XI, p. 78.
144 Zewde Gabre-Sellasie, 1975, p. 97; R. Perini, 1905, p. 344; R. K. P. Pankhurst, 1968, p. 147.
145 G. Bianchi, 1886, p. 86. A propsito da atitude de Johanns em relao aos missionrios, ver Zewde
    Gabre-Sellasie, 1975, p. 98-99.
146 C. Keller, 1918; W. Loepfe, 1974; R. K. P. Pankhurst, 1967, p. 29-42.
147 G. B. Hill, 1881, p. 403, 405, 406; ver tambm p. 304.
148 Zewde Gabre-Sellasie, 1975, p. 111-117.
474                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



imperador foi intransigente: ele exigia a "retrocesso" dos distritos fronteirios
de Bogos, Matamma e das terras de Shanqella, e queria um acesso ao mar149.
Insistente sobre a justia da sua causa, ele repreendeu ao ingls, como cristo,
de servir a um governo muulmano. Escreveu uma carta irritada ao quediva
Tawfk, observando que o Egito tinha se comportado como um "ladro",
acrescentando: "quereis a paz, mas impedis aos mercadores abissnios de che-
garem a Massawa. Haveis tomado terras que no so vossas150". Gordon, cujas
instrues excluam qualquer cesso de territrio, achou a entrevista embara-
osa. Irritado pela vigilncia estreita  qual o imperador o havia submetido, ele
acreditava no poder deixar o pas; escreveu, mais tarde, nas memrias de um
dos prisioneiros de Teodoro que tivera a chance de sair vivo. A propsito de
Johanns, ele observou que o imperador falava "como o Antigo Testamento" e
"se tornava cada vez mais louco151". Todavia,  sua prpria irm, ele ponderou:
"Johanns , muito curiosamente, como eu um fantico religioso. Ele tem
uma misso; e ele a cumprir. Esta misso consiste em cristianizar todos os
muulmanos152".
    Johanns tinha, naquela poca, slidas realizaes em seu ativo. Ele tinha
parado a invaso do Egito e criado uma unidade muito maior do que aquela
que existia durante a maior parte do reinado de Teodoro; permitira ao seu
povo entrar em um perodo de paz sem precedentes. A. B. Wylde, observa-
dor perspicaz, observou que a Etipia, aps a derrota egpcia, "conheceu os
benefcios da tranquilidade e das boas colheitas" e que "progredia a grandes
passos153".
    Pacfica e prspera no final do perodo que estudamos, a Etipia conheceria
grandes tribulaes. A rebelio do Mahd sudans, Muhammad Ahmad, o qual
anunciou sua misso em 1881, significava o aparecimento de um novo centro de
poder dinmico, o qual iria logo desfraldar sobre o Oeste do imprio e destruir
Gondar. A tomada de Massaoua pelos italianos em 1885, a qual marcou o incio
da avalanche europeia sobre esta parte da frica, foi seguida, em menos de meia
dcada, por uma grande epidemia de peste bovina e pela fome: uma vez mais,
o pas inteiro foi lanado no declnio e na misria.



149 Ibid., p. 412-414.
150 Ibid., p. 420.
151 Ibid., p. 421-422, p. 424.
152 C. Gordon, 1902, p. 155.
153 A. B. Wylde, 1901, p. 30.
A Etipia e a Somlia                                                        475



    Viso global
    Ainda que a frente da cena, no final daquele perodo, tenha sido ocupada por
Johanns, senhor do Estado mais poderoso da rea e o nico a ser realmente
envolvido nas relaes internacionais, o territrio que ele dominava constitua
apenas uma frao daquele do qual trata o presente captulo. Seu imprio, fun-
dado no Tigre, se estendia contudo, ao menos teoricamente, sobre todos os
altos planaltos cristos, o ras Adal Tasama (mais tarde, o rei Takla Haymanot)
do Gojam e o rei (mais tarde, imperador) Menelik do Shoa, tendo sido ambos
obrigados a reconhecer sua autoridade imperial. Os chefes muulmanos do
Wallo, agora convertidos oficialmente ao cristianismo, aceitavam tambm indi-
retamente sua suserania. Mais ao Leste, contudo, o sultanato muulmano de
Awsa era independente. As terras baixas no Noroeste e no nordeste do Tigre
estavam sob o controle dos egpcios, pois Johanns, apesar de suas vitrias, no
pde nem os fazer recuar nem cumprir seu voto de obter um acesso ao mar. O
domnio egpcio iria, entretanto, ter fim em menos de meia dcada; a regio no
deveria outrossim cair nas mos dos senhores da Etipia, mas naquelas de uma
potncia colonial, a Itlia.
    As terras do Oeste, do Sul e do Leste no estavam ainda integradas ao Estado
etope; ainda que Menelik tenha se apossado de algumas partes do Gurag, suas
principais expedies remontavam a vrios anos. No Sudoeste do pas, existia
ainda um enxame de pequenos Estados independentes. Eles incluam o velho
reino de Kaffa, Janjero e Walamo, assim como vrias pequenas monarquias
oromas: Jimma, cujo ltimo rei e o mais famoso, Abba Jiffar II, acabava de
ascender ao trono e Lka, onde um chefe local, Moroda, consolidava seu poder,
sem falar de Limmu, Goma, Guma, Gera e de outras unidades polticas ainda
mais reduzidas. Os oromos, bem como outros grupos do Sul, no Arussi, Borana
e em outros lugares, levavam tambm uma existncia poltica separada.
    No Sudeste, Harar, anteriormente cidade-estado independente, estava ocu-
pada pelo Egito.  verdade que logo esta supremacia teria fim e que Menelik se
apossaria da cidade. Ao longo do golfo de Aden, os portos somalis eram tambm
controlados pelos egpcios, cujo domnio seria logo substitudo por aquele de
trs potncias coloniais, a Gr-Bretanha, a Itlia e a Frana. Os portos somalis
restantes, sobre o litoral do atlntico, no Majerteyn ao Norte e no Benadir ao
Sul, eram respectivamente dirigidos por Om e Zanzibar. Por volta de 1870, um
desacordo entre o sulto de Majerteyn, Oman Mahmd, e seu sogro, Ysf `Al,
levaria  diviso do sultanato e  fundao, por Ysf `Al do novo sultanato de
476                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



Hobya (Obbia), mais ao Sul154. No baixo vale do Shebele, o desenvolvimento
de lavouras comerciais (cereais, gergelim, urzela e algodo) contribuiu para a
prosperidade do sultanato geledi at a dcada de 1880155. Mas o domnio de
Oman logo daria lugar quele do colonialismo italiano. A influncia estrangeira
na Somlia era entretanto limitada ao litoral. A maioria dos somalis, que viviam
nas terras do interior, era  como um grande nmero de oromos  livre de todo
domnio externo e vivia sob o controle de seus cls locais.




154 M. Pirone, 1961, p. 88.
155 L. V. Cassanelli, 1982, p. 161-178.
Madagascar, 1800-1880                                                    477



                               CAPTULO 16


                        Madagascar, 1800-1880
                               Phares M. Mutibwa
                            com uma contribuio de
                          Faranirina V. Esoavelomandroso




    A histria de Madagascar entre 1800 e 1880  caracterizada por dois grandes
traos que fornecero os eixos de nosso estudo. O primeiro trata da evoluo
poltica do pas e da interao diplomtica entre Madagascar e as potncias
estrangeiras, em particular, a Gr-Bretanha e a Frana. O segundo trata das
mudanas ocorridas na organizao social de Madagascar, notadamente nos
campos religioso, administrativo e econmico. A evoluo poltica concerne
basicamente  consolidao da monarquia merina e  expanso de seu domnio
sobre o resto da ilha. As relaes diplomticas desta monarquia com a Frana
e a Gr-Bretanha tornaram-se a pedra angular do desenvolvimento do pas.
As mudanas introduzidas na administrao e, sobretudo, na instaurao da lei
e da ordem, facilitaram o desenvolvimento econmico, fator fundamental nos
esforos de Madagascar para se modernizar e resistir s potncias estrangeiras.
O fato de o pas ter abraado religies estrangeiras  considerado como parte
integrante deste processo de modernizao.
    Ser necessrio fazer aqui uma breve descrio do pas e de seu povo. Existem
aproximadamente dezoito grupos tnicos em Madagascar. O principal desses
grupos tornou-se o mais importante do sculo XIX: trata-se do grupo dos
merina, habitantes do planalto central da ilha. Este planalto central, chamado
Imerina ("o pas que se v de longe"), constitua o foco do povo merina, junto
aos quais uma classe de privilegiados controlava, antes da colonizao francesa,
478                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



a maior parte da ilha.  difcil dizer quantos habitantes havia em Madagascar
durante o perodo que vamos estudar; segundo o cnsul da Gr-Bretanha em
Madagascar, no ano de 1865, a populao chegava a 5 milhes, dos quais cerca
de 800.000 eram merina1. Todos os grupos malgaxes falavam a mesma lngua e
tinham, com algumas excees, tradies e costumes religiosos anlogos. Assim,
apesar da existncia de diferenas regionais, os malgaxes formavam, e ainda hoje
formam, um s povo que se caracteriza por uma profunda unidade cultural e
tnica2.
   Os dirigentes de Imerina se instalaram em Antananarivo e foi da que uma
linhagem de monarcas, competentes e frequentemente populares, dirigiu a maior
parte da ilha. A expresso "governo do reino de Madagascar", tal como a empre-
gamos aqui, se refere ao governo instalado em Antananarivo que, em 1880,
controlava os dois teros da ilha, apesar das espordicas rebelies aqui e acol.
Isso porque, no obstante a importncia histrica de cada provncia e regio3, o
estudo da evoluo poltica, social, econmica e administrativa de Madagascar
se articula fundamentalmente em torno da histria do planalto central, que
constitui o grande polo de atividade e o corao da ilha.


      A era de Adrianampoinimerina (17921810)
    difcil entender a histria de Madagascar do sculo XIX sem examinar
como Adrianampoinimerina, fundador do reino merina, chegou ao poder e
consolidou sua posio no planalto central. Ele reunificou o reino merina e o
estendeu. Alm disso, reforou a coeso nacional, fator fundamental de uma
poltica expansionista.
   Por volta de 1780, havia, em Imerina Central, somente trs ou quatro
pequenos reinos, que travavam lutas sangrentas entre si. Aproximadamente
em 1785, Ramboasalama, o sobrinho do rei de Ambohimanga, um destes
pequenos reinos, expulsou seu tio e se proclamou rei sob o nome de Adria-



1     Pakenham a Russell, 31 de janeiro de 1865; Foreign Office, Public Record Office, Londres (nota abre-
      viada FO infra) 48/10.
2     H. Deschamps destaca que " notvel a unidade lingustica malgaxe. De um lado ao outro da ilha, encon-
      tramos a mesma gramtica, a mesma sintaxe e, no conjunto, as mesmas palavras". Ver H. Deschamps,
      1951, p. 53.
3     O departamento de histria da Universidade de Madagascar desenvolve estudos inovadores sobre a
      histria das regies; assim comeamos a conhecer melhor a histria interna de Madagascar.
Madagascar, 1800-1880                                               479




Figura 16.1   Madagascar e seus vizinhos (segundo P. M. Mutibwa).
480                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 16.2 Vista de Antananarivo nos anos 1850. [Fonte: W. Ellis, Three visits to Madagascar, 1858, John
Murray Publishers, Londres. Ilustrao reproduzida com a autorizao da British Library, Londres.]



nampoinimerina4. Ele comeou, ento, a consolidar sua posio em Imerina,
utilizando tanto os meios militares, quanto s vias diplomticas. Liquidou os
reis de Antananarivo e de Ambohidratrimo que, embora tivessem selado a
paz com Adrianampoinimerina, continuavam a desafi-lo5. Em 1791 ou 1792,
ele transferiu sua capital para Antananarivo e comeou a edificar as estrutu-
ras polticas e sociais do novo reino. Esta cidade permaneceu, desde ento, a
capital de Imerina e de Madagascar.
    A segunda parte do reinado de Adrianampoinimerina, pouco tempo depois
de 1800, viu o reino se estender para alm dos limites de Imerina: a longa e
difcil tarefa da unificao dos 18 grupos tnicos de Madagascar comeara. O
novo rei esforava-se para conquistar o restante da ilha e, em seu leito de morte,
teria dito a Radama, seu filho e sucessor: "o mar  minha fronteira"6.




4     Para um breve quadro do rei Adrianampoinimerina, ver H. Deschamps, 1967; ver tambm A. Dlivr,
      1974.
5     R. W. Rabemananjara, 1952, p. 32.
6     Literalmente: "o mar  o limite do meu campo de arroz". Ele associava a rizicultura  luta contra a fome
      e deu diretrizes para a valorizao das plancies de Betsimitatatra.
Madagascar, 1800-1880                                                                                   481



    De incio, ele conquistou pores de territrios tradicionais merina, ento
ocupados por povos vizinhos, tais como os bezanozano e os sihanaka, a Leste7.
Embora tivesse imposto sua suserania a estes povos, alguns deles, e particular-
mente os bezanozano, continuaram a resistir. Adrianampoinimerina empregou
a fora para consolidar seu poder em Imerina, mas tambm tentou apresentar-
-se frente a seus adversrios como um chefe, cujo nico desejo era a paz e a
unidade.
    Inicialmente, a expanso para o Sul teve como objetivo principal a proteo
dos merina que para l haviam emigrado. Os betsileo j haviam sido dominados
pelos merina e as tropas destes pouco se esforaram para avanar mais a Sul, at
o macio de Ankaratra e a regio de Faratsiho8. Entretanto, no Oeste, Adria-
nampoinimerina encontrou  como seus sucessores  a obstinada resistncia dos
sakalava. De fato, as tentativas para domin-los fracassaram totalmente.  ver-
dade que, por vezes, o soberano merina chegou a estabelecer relaes amigveis
com os sakalava mas, muito frequentemente, estes invadiram Imerina, impelindo
suas incurses at Antananarivo ou quase. Os mais importantes reinos sakalava
eram Menabe e Boina, os quais constituam uma barreira intransponvel para
a expanso merina rumo ao Oeste. Entretanto, a oposio mais acirrada era a
dos ambongo. Por outro lado,  importante sublinhar que a nica soluo de
substituio dos chefes merina era a dinastia sakalava dos maroseranana, os quais
haviam estendido sua hegemonia  parte ocidental da ilha, antes do sculo XIX,
e feito alianas com certos reinos da parte oriental  notadamente o de Betsi-
misaraka9. Entretanto, quando de sua morte, em 1810, Adrianampoinimerina
tinha feito de Imerina uma fora importante de Madagascar.


    O grande modernizador: o rei Radama I (18101828)
   Na histria de Madagascar, poucos dirigentes tornaram-se to lendrios
quanto Radama I, o qual, aproximadamente aos dezoito anos de idade, sucedeu
o pai em 1810. Ele  considerado como o "Napoleo" de Madagascar e era assim
que ele prprio se considerava.



7   Ver J. Valette, 1971, p. 327 e seg.
8   Ibid., p. 328. Ver tambm J. Rainihifina, 1975. Sobre as migraes merina rumo a Andrantsay e Voro-
    mahery (limite norte do pas betsileo), ver D. Rasamuel, 1980; E. Fauroux, 1970; J. Y. Marchal, 1967, p.
    241-280; J. Dez, 1967.
9   C. Guillain, 1845, p. 376.
482                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Quando foi anunciada a morte de Adrianampoinimerina, alguns dos povos
conquistados por ele revoltaram-se. A primeira tarefa de Radama foi, portanto,
dominar os rebeldes e, notadamente, os bezanozano de Ambotomanga, dentre
os quais muitos fugiram para o Leste. Embora Radama tivesse conseguido
consolidar sua posio em Imerina, desejava sobretudo alcanar o mar, como
seu pai havia-lhe pedido em seu leito de morte. Sem acesso direto ao mar, os
merina se sentiam oprimidos por seus vizinhos, que chegaram a fazer incurses
nas terras merina a fim de capturarem escravos. Cada vez mais ansiosos para
comerciar diretamente com os europeus nos portos de Tamatave e de Majunga,
e, sobretudo, com os ingleses das Ilhas Mascarenhas, os negociantes merina
eram, entretanto, obrigados a passar por intermedirios bezanozano, sihanaka e
sakalava para trocar produtos artesanais e agrcolas  notadamente arroz e carne
de boi  por sal e munies de origem europeia. Radama considerava a expanso
territorial como parte da herana dos maroseranana, que ele havia dominado;
porm, para ele, era sobretudo por devoo filial que deveria cumprir as ltimas
vontades de seus antepassados e realizar as predies dos adivinhos10.
    Radama dirigiu seus esforos ao Leste, para o porto de Tamatave, que se tor-
nava cada vez mais importante. Contudo, a situao poltica da regio vizinha de
Betsimisaraka pedia uma interveno. Com efeito, a confederao organizada no
sculo XVIII por Ratsimilaho estourou em uma multido de principados rivais,
em guerra uns contra os outros e cujos filoha (chefes), vendo sua autoridade
abalada por uma ameaa interna, convidaram Radama para restabelecer a ordem.
Aproveitando este caos poltico, um mestio, Jean Ren, se apossou de Tamatave
em 181211. Foi principalmente o desejo de Radama de estabelecer uma rota em
direo a este porto oriental que o levou a entrar em contato, diplomaticamente,
com Robert Townsend Farquhar, o governador da Ilha Maurcio. Tal desejo
coincidia com o de Farquhar e da Gr-Bretanha: controlar Madagascar ou, pelo
menos, influenciar o que l se passava, pois que Madagascar era a nica fonte
de gado e de arroz da Ilha Maurcio e consumia tambm uma grande parte de
seus produtos manufaturados. Ademais, Madagascar representava um interesse
estratgico e poltico. Os britnicos queriam, em particular, garantir o apoio de
seu chefe para abolir o trfico de escravos, j que Madagascar constitua uma das
principais fontes de escravos da regio. Sir Robert queria, portanto, exercer um
papel poltico ativo no pas. Esta poltica, que coincidia com o desejo de Radama


10    H. Deschamps, 1960, p. 154. Ver tambm J. M. Filliot, 1974, p. 273.
11    R. Decary, 1939.
Madagascar, 1800-1880                                          483




Figura 16.3   Madagascar, 1800-1880 (segundo P. M. Mutibwa).
484                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



de continuar sua expanso para o Leste, teve, como sublinhamos, "importantes
consequncias para o futuro de Madagascar"12.
    Aps vrios contatos amigveis, Farquhar enviou uma misso diplomtica
dirigida pelo capito Le Sage, que chegou a Antananarivo aos 21 de dezembro
de 1816. Um tratado de amizade e de comrcio foi finalmente assinado aos 4
de fevereiro de 1817, entre Radama e o capito Le Sage. Mas o governador da
Ilha Maurcio no ficou satisfeito com tal tratado, pois nele no se mencio-
nava o comrcio de escravos, questo fundamental para Sir Robert. Portanto, o
governador enviou uma outra misso  capital de Radama, desta vez conduzida
por James Hastie, um antigo oficial das ndias, que tinha mais experincia em
negociaes com os dirigentes orientais13. James Hastie levou consigo um certo
nmero de presentes para o rei, dentre os quais cavalos, um compasso, um
mapa do mundo e um carrilho, que impressionaram fortemente o jovem rei e
ajudaram Hastie a ganhar sua amizade e sua confiana. Contudo, as negocia-
es patinaram, pois os britnicos insistiam para que Radama declarasse ilegal
o comrcio de escravos em Madagascar. Quando o rei anunciou que, ao agir
assim, ele cometeria um verdadeiro suicdio econmico, visto que o comrcio
de escravos era sua maior fonte de renda, Hastie logo teve uma resposta: em
compensao, os britnicos pagariam ao chefe malgaxe uma soma anual de
1.000 dlares em ouro e 1.000 dlares em prata, fornecer-lhe-iam 100 barris
de plvora, 100 mosquetes ingleses com 100 pedras para fuzil, 400 uniformes
de soldados, 12 espadas de sargentos, 600 peas de lenis, um uniforme de
cerimnia para ele e dois cavalos14. Para Radama, a oferta pareceu ainda mais
honesta, j que o tratado o reconhecia rei de todo Madagascar. O tratado de
amizade e de comrcio anglo-malgaxe foi assinado em Tamatave, aos 23 de
outubro de 1817. Em 1820, James Hastie, o sucedido negociador, foi nomeado
residente britnico na capital malgaxe. Mas, enquanto Farquhar estava de folga
na Inglaterra, seu sucessor, o Major General Gage John Hall, recusou pagar os
subsdios estipulados pelo tratado. Isso levou a uma ruptura das relaes entre os
ingleses e a corte merina, o que permitiu aos franceses colocar um p na capital


12    J. Valette, 1971, p. 331.
13    H. Deschamps, 1960, p. 154. O primeiro contato entre Radama I e as autoridades da ilha Maurcio foi
      estabelecido no incio de 1816, quando Sir Robert Farquhar enviou Jacques Chardenous, um antigo
      mercador de escravos francs instalado na ilha Maurcio, a Antananarivo, para uma visita de cortesia ao
      rei e para reunir o mximo de informaes possvel sobre o pas, sua populao e seus recursos. Ver M.
      Brown, 1978, p. 137.
14    M. Brown, 1978, p. 143, nota 10. Sobre as fontes malgaxes, ver L. Munthe, C. Ravoajanahary e S. Ayache,
      1976.
Madagascar, 1800-1880                                                                                  485



malgaxe, em uma poca em que a potncia inglesa era dominante15. Evidente-
mente, Radama ficou desconcertado pela recusa dos britnicos em respeitar as
clusulas do tratado de 1817; porm, logo foi persuadido a esquecer o passado
para defender seus interesses a longo prazo que, no seu entendimento, exigiam
manifestadamente uma aliana com a Gr-Bretanha. Portanto, ele aceitou as
desculpas de Hastie pelos equvocos do general Hall (que foi chamado de volta
a Londres) e renovou o tratado aos 11 de outubro de 1820. Em um documento
separado, Radama permitiu tambm aos missionrios ingleses trabalhar em
Madagascar.
    Conforme tal acordo, David Jones, da London Missionary Society (LMS),
chegou a Antananarivo aos 3 de dezembro de 1820. Radama acolheu muito bem
os missionrios ingleses; eles trouxeram consigo a educao (mesmo ela estando
ligada ao cristianismo) e, tambm, um auxlio tcnico16. Radama escreveu para
a LMS, pedindo-lhe que enviasse quantas misses ela pudesse, sob a condio
que estas compreendessem no somente religiosos, mas tambm artesos, tais
como teceles e carpinteiros17. Os missionrios abriram sua primeira escola em
Antananarivo aos 8 de dezembro de 1820, com trs alunos, jovens sobrinhos do
rei; graas aos enormes encorajamentos pessoais que Radama deu aos mission-
rios, em 1829, a LMS podia se vangloriar de ter 23 escolas e aproximadamente
2.300 alunos. Os missionrios utilizaram o alfabeto latino para transcrever o
malgaxe e traduziram a Bblia nesta lngua.
    Vrios missionrios, notadamente Jones, Bevan e Griffiths, destacaram-
-se nesta empreitada, com a colaborao de malgaxes convertidos. As misses
interessaram-se, em particular, pela impresso e publicao de obras. Atravs das
escolas, dos cursos de catecismo e da difuso de impressos, esta ao pedaggica
no s fez proslitos, mas tambm favoreceu a alfabetizao, bem como a evo-
luo da lngua e da literatura malgaxes, forjando, assim, a unidade nacional de
todos os insulares. Em 1827, mais de 4000 malgaxes sabiam ler e escrever em
sua prpria lngua18. No campo da educao tcnica, os missionrios britnicos
trouxeram tambm importantes contribuies. Eles enviaram certos jovens mal-
gaxes, quer  Inglaterra, quer  Ilha Maurcio, para lhes dar uma formao tc-
nica; introduziram no pas numerosas tcnicas, como a marcenaria, a alvenaria,


15   M. Brown, 1978, p. 144.
16   V. Belrose-Huyghes, 1978b.
17   M. Brown, 1978, p. 155. Ver tambm V. Belrose-Huyghes, 1978b, e J. Valette, 1962. Sobre a influncia
     estrangeira na arquitetura, ver V. Belrose-Huyghes, 1975.
18   H. Deschamps, 1960, p. 161 e seg.; V. Belrose-Huyghes, 1977; L. Munthe, 1969, p. 244; F. Raison, 1977.
486                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



o curtume, a arte da estanhadura e da tecelagem moderna. Um homem, James
Cameron, desempenhou um papel particularmente importante neste campo: em
1826, ele chegou a Antananarivo e l permaneceu at sua morte, em 1875, com
exceo de alguns anos de exlio. Uma das razes do sucesso dos missionrios
foi a atividade desenvolvida por suas esposas, que facilitavam os contatos com
as famlias malgaxes, em particular com as damas da aristocracia, s quais elas
inculcavam os rudimentos do governo da casa e ofereciam diversos servios, de
costura por exemplo19.
    Porm, foi sobretudo para se dotar de um exrcito moderno e permanente,
aos moldes britnico, que Radama necessitava de um auxlio tcnico. Ele recru-
tou por volta de 15.000 homens equipados com bons fuzis ingleses da poca
das guerras napolenicas e mesmo com algumas peas de artilharia leve. Estes
homens foram treinados especialmente por instrutores ingleses, cujos principais
foram Hastie e Brady. Consequentemente, o exrcito de Radama tornou-se bem
melhor e mais eficaz do que aquele de seus adversrios na ilha. Para manter o
esprito profissional no exrcito, Radama I introduziu um sistema de patentes,
repousando sobre um certo nmero de "mritos": um mrito para o soldado
simples, dez para um general etc. O exrcito se transformou em um instrumento
fundamental, no somente da conquista de outros territrios na ilha, como tam-
bm, da manuteno da lei e da ordem nestes territrios conquistados.
    A submisso dos povos costeiros do Leste comeou em 1817, quando
Radama desceu,  frente de 30.000 homens, rumo a Tamatave, obtendo no
caminho a rendio dos bezanozano. Ele selou um pacto de paz com Jean
Ren, o qual detinha a cidade, o que abriu o reino ao mundo exterior. Em 1823,
Radama retornou a Tamatave com um exrcito ainda mais importante; conquis-
tou dos betsimisaraka o reconhecimento de sua autoridade e atingiu diversos
outros territrios na costa leste, como Foulpointe, a baa de Antongil, Vohemar
e Antankara. No caminho de volta  capital, em 1824, ele atravessou o pas tsi-
mihety  onde, em Mandritasara, instalou um posto  e o pas sihanaka, sendo
que ambos reconheceram sua autoridade. Nesse nterim, Jean Ren se tornou
o agente de Radama em Tamatave, conduzindo uma campanha semelhante no
Sul da cidade. Fort-Dauphin, no extremo sudeste da ilha, foi atingido em 1825,
o que reforou a pretenso de Radama de se apoderar de toda a costa leste de
Madagascar20.


19    V. Belrose-Huyghes, 1978a.
20    Para mais detalhes, ver H. Deschamps, 1960, p. 156-161, no qual este texto se inspira.
Madagascar, 1800-1880                                                        487



    Foi no Oeste, no pas sakalava, que Radama, tal como o seu predecessor,
encontrou as maiores dificuldades. Em 1820, ele enviou um grande exrcito
contra o rei de Menabe, sem obter sucesso. Em 1821, acompanhado por Has-
tie, Radama retornou a Menabe  frente de um exrcito de aproximadamente
70.000 soldados, dos quais, em torno de 1.000 eram profissionais. Porm, ele
fracassou mais uma vez. Em 1822, aps ter se preparado cuidadosamente, lan-
ou uma nova expedio de 13.000 homens bem armados contra Menabe,
podendo enfim conquist-lo, e instalou alguns postos militares no pas inimigo.
Entretanto, essa vitria durou pouco, na medida em que, no Norte, os sakalava
continuavam a desafiar a autoridade de Radama. Em 1824, o rei lanou uma
ofensiva contra Boina, no Noroeste, e, desta vez, foi mais afortunado. O chefe
de Boina, Adriantsoli, selou a paz e Radama pde atingir a cidade norte oci-
dental de Majunga, onde um posto merina foi instalado. Porm, esta vitria foi
tambm de curta durao.
    Tais campanhas ilustram a fora e as fraquezas do exrcito merina, enga-
jado em uma luta cujo objetivo era a unidade nacional. No campo de batalha,
geralmente, ele conseguia derrotar as tropas adversrias. Em seguida, precisava
instalar a autoridade merina; o que Radama tinha costume de fazer ao implan-
tar postos administrativos, com colonos merina (voanjo), em uma rea fortifi-
cada (rova), construda aos moldes do palcio real e simbolizando a presena
merina. Tambm com frequncia, Radama conseguia alianas graas a casamen-
tos arranjados  como sua prpria unio com Rosalimo, filha de Ramitraho, rei
de Menabe21. Todavia, o exrcito tinha muitas dificuldades para se reabastecer
quando se encontrava muito distanciado de Imerina. As regies conquistadas
deviam nutrir as tropas antes mesmo de os colonos terem produzido o suficiente,
e isso, frequentemente, gerava revoltas. Depois que Radama virou as costas e
voltou para Antananarivo, os sakalava de Boina e de Menabe insurgiram-se de
novo.
    Os sakalava estavam decididos a defender sua independncia contra Antana-
narivo. Do mesmo modo, em Boina, o grupo de negociante antalaotra constitua
um obstculo suplementar para qualquer integrao. Tais homens, de religio
muulmana, eram considerados estrangeiros pelos malgaxes22. Isso trouxe gran-
des problemas ao governo malgaxe, ainda mais pelo fato de os franceses estarem
prontos a utilizar alguns chefes rebeldes sakalava para contestar a soberania dos
chefes merina, em certos territrios do Oeste e do Noroeste da ilha.

21   C. Guillain, 1845.
22   G. Rantoandro, 1981; M. Rasoamiaramanana, 1981.
488                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 16.4   A expanso do reino merina, 1810-1840 (segundo P. M. Mutibwa).
Madagascar, 1800-1880                                                                                 489



    Apesar destes malogros, as campanhas de Radama I haviam-lhe permitido
estender a hegemonia merina sobre a maior parte da ilha. Em 1828, os dois
teros da ilha encontravam-se sob o controle merina e apenas as plancies lon-
gnquas e desoladas dos antandroy e mahafaly, no sudoeste, e o pas bara (onde
havia somente um precrio posto avanado merina em Ihosy), escapavam deste
domnio. No territrio sakalava, como temos notado, Radama havia conquistado
Menabe e Boina, e estabelecido alguns postos, mas os sakalava permaneciam,
no conjunto, independentes da soberania merina, em particular na parte norte
de Boina, Ambongo. Contudo, mesmo Radama no dominando toda a ilha,
ningum podia disputar com ele o ttulo de rei de Madagascar23. Todas estas
campanhas, entretanto, tinham exaurido o rei e ameaado sua sade, j com-
prometida pela bebida e por uma vida licenciosa. Aos 27 de julho de 1828,
ele morreu com trinta e seis anos de idade, o que colocou um fim brutal a um
reinado bem-sucedido.


     Ranavalona I (18281861): reao ou estabilizao?
   A rainha Ranavalona I era a primeira esposa e prima de Radama I. Ela subiu
ao trono graas ao apoio dos nobres e dos chefes do exrcito que Radama havia
descartado de importantes postos24. O novo regime ia, pois, tentar deixar de lado
as personalidades mais prximas do rei falecido e substitu-las por outras que
no haviam aderido, nem participado da poltica de Radama. A rainha tinha
como principais conselheiros Rainimahary e Adriamihaja; mas, os dois homens
foram eliminados um aps o outro. Finalmente, as personalidades mais impor-
tantes que dividiram o poder com a rainha foram Rainiharo e Rainijohary. O
primeiro vinha do cl tsimiamboholahy e o segundo do cl tsimahafotsy, sendo
que ambos ajudaram Adrianampoinimerina a fundar o reino merina no fim do
sculo XVIII. Estes dois cls, oriundos basicamente de plebeus, deram origem 
classe mdia hova, que, ao apoiar a monarquia, pouco a pouco adquiriu tamanho
poder econmico, administrativo e poltico, que se colocou em rivalidade com
a monarquia, minando sua autoridade.




23   M. Brown, 1978, p. 150.
24   Ver S. Ayache, 1963 e A. Dlivr, 1974, sobre o peso da tradio oral em sua investidura e o papel de
     Rainimahary, companheiro de Adrianampoinimerina. Houve algumas execues, mas a rainha Ranava-
     lona foi rapidamente aceita pelo povo.
490                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A poltica de Ranavalona visou notadamente  salvaguarda da independn-
cia de Madagascar e, sobretudo, a preservao das instituies, das tradies e
dos costumes nacionais da influncia estrangeira. Isso significava, em termos
de poltica estrangeira, distanciar-se da Inglaterra, principalmente do ponto de
vista poltico e religioso. Em dezembro de 1828, o governo da rainha declarou
a Robert Lyall, o novo residente britnico, que no reintroduziria o comrcio
de escravos, mas que no desejava manter o tratado e que no mais considerava
a presena de Lyall na capital como algo necessrio. O comrcio entre Mada-
gascar, a ilha Maurcio e a Reunio foi proscrito. O general Brady, que fora
naturalizado malgaxe e alado a nobreza por Radama I, foi forado a partir em
1829. As desiluses de Madagascar frente s potncias estrangeiras reforaram-
-se ainda quando, em 1829, Carlos X, o rei da Frana, vido para aumentar seu
prestgio em seu pas, ordenou o bombardeamento e a ocupao de Tintingue
e Tamatave, aps uma srie de mal entendidos com os malgaxes, a respeito da
presena francesa em Tintingue, em frente  ilha Sainte Marie. Os malgaxes
rechaaram os invasores para Foulpointe. Este injustificado ataque foi desapro-
vado por Lus Filipe, o sucessor de Carlos X, mas ele deixou profundas chagas
entre os malgaxes. As pretenses francesas para com Madagascar tornaram-se
um dos traos permanentes das relaes franco-malgaxe no sculo XIX. Por
vezes, isso conduziu a uma reao pr-britnica e explica por que, a despeito da
poltica de independncia cultural, passaram-se ainda seis anos, antes da sada
forada dos missionrios ingleses.
    Os chefes malgaxes apreciavam o auxlio tcnico oferecido pelos missionrios
britnicos, porm, antes de tudo, queriam uma educao laica, no religiosa. A
rainha no teve, pois, uma atitude de rejeio absoluta, ainda que,  primeira
vista, ela fosse menos entusiasta em relao ao cristianismo que seu predecessor.
O grande assunto de preocupao dos novos dirigentes  que, em seguida, devia
lev-los a combater a crescente influncia do cristianismo  era o fato de esta
religio colocar em perigo as tradies e as instituies malgaxes, em geral, e a
monarquia, em particular. Os ritos cristos concorriam com as cerimnias do
culto real. Desencorajando a adorao dos sampimoanjakana (sampy), divinda-
des reais que garantiam a prosperidade do pas, o cristianismo abalava as bases
do poder real. Devido aos seus princpios igualitrios, ele tambm entrava em
conflito com a hierarquia tradicional das castas25. O cristianismo estava mudando
as tradies do pas e transformando os malgaxes em adoradores de Jesus Cristo,


25    M. Brown, 1977.
Madagascar, 1800-1880                                                                                491




Figura 16.5   Adrianampoinimerina, morto em 1810.       Figura 16.6 O rei Radama I, 1810-1828.




Figura 16.7   A rainha Ranavalona I, 1828-1861.         Figura 16.8 O rei Radama II, 1861-1863.




Figura 16.9   A rainha Rasoherina, 1863-1868.         Figura 16.10 A rainha Ranavalona II, 1868-1883.
[Fonte: P. M. Mutbiwa, The Malagasy and the Europeans, 1974, Longman, Londres. Fotos: Direo da Imprensa
e da Publicao, Ministrio da Informao, Madagascar.]
492                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



considerado por eles como o ancestral dos brancos. Em 1830, havia cerca de 200
convertidos, prontos a morrer por sua f; o governo no podia continuar indife-
rente a este "novo poder surgido no pas"26. Quando os missionrios recusaram
conduzir sua ao educativa caso no lhes fosse permitido pregar sua religio,
tornou-se inevitvel a ruptura com a rainha. O batismo foi interditado em 1832.
Trs anos mais tarde, foi interditado a todos os sditos da rainha tornarem -se ou
permanecerem cristos. A difuso do cristianismo foi tambm proibida, mas esta
interdio no se aplicava ao ensino laico. Explicando as razes de sua deciso,
a rainha declarou aos missionrios ingleses reunidos por ela em seu palcio, aos
26 de fevereiro de 1835, que: "Agradecendo-lhes pelos bons servios que pres-
taram ao pas, e deixando-os completamente livres para observar seus prprios
costumes religiosos, ela no permitiria a seus sditos que abandonassem seus
antigos costumes [...]. Ela permitiria o ensino das artes e das cincias, mas no o
da religio"27. Os primeiros mrtires, Rasalama e Raqarilahy-Adriamazok, mor-
reram respectivamente em agosto de 1837 e fevereiro de 1838, e os missionrios
partiram para o exlio. Seguiu-se um perodo de terrvel perseguio aos cristos
malgaxes, dos quais algumas centenas padeceram de uma morte violenta. Mas,
longe de perder terreno, o cristianismo parece ter conhecido um novo despertar
durante este perodo.
    Ele se propagava em segredo: seus adeptos se reuniam clandestinamente
em grutas (por exemplo, no Vonizongo, perto de Fihaonana, no Noroeste de
Imerina) ou em casas particulares, mesmo em Antananarivo. Um grupo de
cristos fugiu para a Gr-Bretanha e, de l, preparou seu retorno ao pas como
missionrios. Os jesutas, por sua vez, organizaram uma misso s Pequenas
Ilhas (Nosy Be, Nosy Faly e Mayotte, no Noroeste, Sainte Marie, no Leste),
de onde tentaram se infiltrar no pas, notadamente pela baa de Faly, sendo
obrigados a deix-la em 1857. Certos autores descreveram este perodo como
"o mais sombrio do reinado de Ranavalona"28, valendo a essa ltima a alcunha
de "rainha Maria de Madagascar", de "Messalina moderna" ou de "Nero femi-
nino". Mas, mesmo nestas condies, a corte malgaxe queria evitar uma ruptura
absoluta com a Inglaterra, temendo que a Gr-Bretanha e a Frana se aliassem
contra ela.
    Os chefes malgaxes sabiam bem que seu pas tinha necessidade de uma aber-
tura ao mundo exterior para se abastecer de produtos europeus manufaturados,

26    Ver W. E. Cousin, 1895, p. 83 e seg.
27    Citado por P. M. Mutibwa, 1974, p. 26-27.
28    M. Brown, 1978, p. 177; A. Boudou, 1940-1942; ver tambm P. Rabary, 1957; J. T. Hardyman, 1977.
Madagascar, 1800-1880                                                                                    493



em particular fuzis e munies. Eles queriam comprar produtos de luxo, como
tecidos e lcool, e aumentar suas exportaes  sobretudo de gado e de arroz
 para a Ilha Maurcio e a Ilha da Reunio, de forma a poder pagar as impor-
taes das quais necessitavam. Portanto, a rainha buscou o um modus vivendi
junto aos europeus, permitindo o desenvolvimento a seu pas, sem temores de
conflito, nem de guerra, com os europeus. Para conseguir isso, Ranavalona e
seus conselheiros decidiram, em 1836, enviar uma misso  Frana e  Ingla-
terra, a fim de discutir novos tratados de amizade e de comrcio, fundados no
respeito  cultura e  independncia malgaxes, bem como no reconhecimento
de Ranavalona I como rainha de Madagascar29. A misso malgaxe  a primeira
a ser enviada  Europa  era constituda de seis funcionrios e de dois secret-
rios, alm de ser dirigida por Adriantsitchaina30. A estada da misso em Paris
no levou a resultado algum e ela voltou-se para Londres. O rei William IV
concedeu-lhe uma audincia, tal como a rainha Adelaide, porm, as conversas
com Lord Palmerson foram pouco satisfatrias. O governo britnico insistia na
liberdade de comrcio e de navegao, o que contradizia o desejo de Madagascar
de controlar seu prprio comrcio e de canaliz-lo nos portos dominados pelo
governo central.
    A impossibilidade de conseguir concluir tratados com a Frana ou com a
Inglaterra aumentou a desconfiana dos malgaxes frente aos estrangeiros. Com
efeito, tais medos estavam bem fundamentados. Em 1845, uma esquadra anglo-
-francesa atacou Tamatave, sob as ordens das autoridades britnicas da Ilha
Maurcio e das autoridades francesas da Reunio. O pretexto deste ataque foi a
proclamao, em maio, de uma lei malgaxe que obrigava todos os estrangeiros
a obedecerem s leis do pas, o que significava, segundo os ingleses, que eles
poderiam ser sujeitados a trabalhos pblicos, reduzidos  escravido e julgados
por ordlia (tangena). Esta agresso atordoou os malgaxes. Eles conseguiram
recha-la e as tropas anglo-francesas foram obrigadas a evacuar Tamatave, dei-
xando para trs os cadveres de seus homens cados em combate, cujas cabeas
foram cortadas pelos malgaxes e empaladas em estacas, como forma de aviso
a eventuais invasores do reino. Embora os governos francs e britnico tives-
sem desaprovado o ataque, o mal j estava feito. A rainha Ranavalona reagiu
expulsando todos os negociantes estrangeiros e interditando qualquer comrcio


29   Porm, uma outra razo era que, nesta poca, circulavam rumores segundo os quais a Inglaterra atacaria
     Madagascar a partir da baa de Islary, perto da baa de Saint Augustin, onde os malgaxes tinham avistado
     algumas embarcaes inglesas. Ver R. E. P. Wastell, 1944, p. 25.
30   Para mais detalhes, ver J. Valette, 1960.
494                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



exterior, notadamente a exportao de arroz e de carne para a Ilha Maurcio e a
Ilha da Reunio. Todavia, o comrcio com os Estados Unidos prosseguia.
    Esta reao era tipicamente malgaxe: se a Europa no quisesse colaborar com
a ilha, esta se encontrava pronta a contar com suas prprias foras e com suas
prprias iniciativas. Se a rainha e a oligarquia, particularmente o cl dos anda-
fiavaratra, puderam resistir to abertamente aos estrangeiros, era porque, apesar
de revoltas espordicas, controlavam economicamente as provncias mais impor-
tantes, detendo, notadamente, o monoplio do comrcio da carne de boi. Da
a vontade de continuar a promover a educao  ocidental e de criar indstrias
para a produo dos bens necessitados pela ilha, mas que agora no podiam mais
ser importados do exterior. Para a manuteno dos contatos comerciais com o
exterior, a rainha empregou os servios de um francs chamado De Lastelle, que
se estabelecera em Tamatave, e de um norte-americano, William Marks, insta-
lado em Majunga. Com o auxlio de De Lastelle, plantaes de cana-de-acar
foram introduzidas na costa oriental; foi estabelecida, em Mahela, uma fbrica
produtora de acar e de rum31. A rainha engajou Jean Laborde, um aventureiro
francs, que, em 1832, chegara em Antananarivo, "como uma espcie de chefe
de obras". Primeiramente, ele criou uma fbrica em Ilafy, a dez quilmetros
a Norte de Antananarivo, antes de se transferir para Mantasoa, bordejando
a floresta oriental, regio rica em cursos de gua, mas pouco atraente para os
trabalhadores malgaxes. Em Mantasoa, ele instalou, graas aos auxlios pblicos,
um complexo industrial que empregava aproximadamente 20.000 pessoas e
produzia diferentes mercadorias  de fuzis e canhes a vidro e sabo. Talvez a
mais importante e duradoura obra de Laborde tenha sido o palcio da rainha,
feito com madeira  que existe at hoje  e, mais tarde, recoberto de pedra por
Cameron. De Lastelle e Laborde tornaram-se cidados malgaxe e foram inte-
grados  oligarquia reinante32.
    A rainha Ranavalona deu prosseguimento  expanso comeada por Radama
I e se esforou para consolidar sua administrao nos territrios conquistados. As
necessidades de equipamento militar, notadamente, incitaram-na a prosseguir
as trocas com o estrangeiro, a fim de obter munies, e a encorajar a fabricao
de fuzis na usina de Laborde. A rainha tambm arrecadou impostos especiais,
destinados a financiar o esforo de guerra. A cidade de Fianarantsoa foi criada
em 1831, como capital regional, e a provncia de Betsileo foi reorganizada. Nos
anos 1830 foram lanadas expedies de Fianarantsoa para o Sul, algumas sob

31    F. Nicol, 1940.
32    S. Ayache, 1977; O. Caillon-Fillet, 1978.
Madagascar, 1800-1880                                                                                495



o comando de Rainiharo, que atravessaram os pases bara, mahafaly e masi-
koro. Uma delas alcanou a baa de Saint Augustin em 183533. No Oeste e no
Norte, os sakalava e os antankara continuaram a resistir a autoridade do governo
central. Quando as foras da rainha derrotaram os chefes sakalava, Tsiomako
e Tsimiharo, estes ltimos fugiram com seus partidrios para as ilhas vizinhas
de Nosy Be, Nosy Faly e Nosy Mitsio, de onde eles enviaram mensagens s
autoridades francesas da Reunio, colocando seus territrios sob a proteo da
Frana. Em 1841, o almirante de Hell, governador da Reunio, aceitou seus
requerimentos e os tratados concludos entre os franceses e os chefes rebeldes
sakalava no exlio formaram a base das pretenses francesas nos territrios oci-
dentais de Madagascar34.




Figura 16.11 O palcio da rainha em Antananarivo, comeado em 1839 por Jean Laborde a pedido da
rainha Ranavalona I. [Fonte: P. M. Mutibwa, The Malagasy and the Europeans, 1974, Longman, Londres. Foto:
Direo de Imprensa e de Publicao, Ministrio da Informao, Madagascar.]




   Em 1852, com a morte de Rainiharo, o qual havia dirigido o governo desde
os anos 1830, uma nova gerao de homens mais jovens chegou ao poder. Essa
gerao era dirigida por Rainivoninahitriniony e seu jovem irmo Rainilaiari-
vony, os dois filhos de Rainiharo, que, respectivamente, se tornaram primeiro
ministro e comandante-em-chefe do exrcito. Ademais, esta nova gerao de

33   H. Deschamps, 1960, p. 170; S. Rakotomahandry, 1981; R. Decary, 1960.
34   C. Guillain, 1845; R. Decary, 1960.
496                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



dirigentes era apoiada por Rakoto Radama, filho da rainha Ranavalona I e
prncipe herdeiro. Esses jovens, junto ao prncipe Rakoto, receberam uma certa
educao dos missionrios e eram mais abertos ao exterior do que o antigo
grupo de Rainiharo e de seus associados.  verdade que Rainijohary, o homem
que havia partilhado o poder com Rainiharo, encontrava-se sempre presente,
ainda considerado como primeiro ministro, e se opunha a qualquer modifica-
o da poltica do governo. Contudo, a presena do prncipe herdeiro, o qual
chamava o engenheiro francs, Jean Laborde, de "meu pai", s podia levar a
uma reorientao da poltica conduzida pela rainha. Em 1853, a proibio do
comrcio entre Madagascar, a Ilha Maurcio e a Ilha da Reunio foi retirada,
depois que os mercadores das duas ilhas  e mais particularmente os da Ilha
Maurcio  pagaram, em compensao, 15.000 dlares a Ranavalona. A rainha
abriu as portas da ilha a certos estrangeiros. Em 1856, ela permitiu ao reverendo
W. Ellis, da LMS, voltar a Antananarivo; esse trouxe cartas do governo ingls,
afirmando sua amizade para com Madagascar. Dois clrigos catlicos, os padres
Finaz e Weber, foram clandestinamente introduzidos na capital: o primeiro
como secretrio de um francs, homem de negcios, chamado Lambert, e o
segundo, como assistente do mdico titular do irmo de Rainijohary35.
    Joseph Lambert chegara a Antananarivo em 1855. Era um negociante e
cultivador da Ilha Maurcio que havia fretado um navio para comerciar com
Madagascar e que, naquele ano, havia prestado grandes servios  rainha, ao
reabastecer a guarnio de Fort Dauphin, bloqueada por rebeldes no Sudeste.
Foi, portanto, bem acolhido pela corte. Graas  influncia que Laborde exercia
sobre Rakoto Radama, Lambert convenceu o prncipe de lhe outorgar uma
carta, a qual conferia-lhe o direito de explorar os recursos minerais e agrcolas
do pas. Afirma-se tambm que o prncipe pediu  Frana que lhe concedesse
um estatuto de protetorado. Mas o imperador Napoleo III estava demasiada-
mente preocupado com a guerra da Crimeia para assumir, em Madagascar, uma
poltica que fatalmente o oporia  Inglaterra, sua aliada. Com efeito, o pedido
do prncipe foi rejeitado por Paris.
    Embora a rainha se mostrasse cada vez mais amigvel com os estrangei-
ros, as esperanas dos franceses e dos ingleses repousavam sobre o prncipe
herdeiro que, claramente, havia mostrado suas tendncias pr-europeias. Em
grande parte foi por esta razo que Lambert, na ocasio de seu retorno a
Antananarivo em 1857, preparou um golpe de Estado. Para derrubar a velha


35    A. Boudou, 1940-1942.
Madagascar, 1800-1880                                                                             497



rainha e colocar o prncipe no trono, ele obteve o apoio de Laborde, de De
Lastelle, do cl de Rainiharo e de outros malgaxes modernistas, em particu-
lar entre as comunidades crists clandestinas, que tinham constitudo uma
rede de amizades e encontravam-se prximas do prncipe herdeiro. O compl
foi descoberto antes de os conjurados haverem tido tempo de coloc-lo em
execuo, e Lambert e De Lastelle foram expulsos de Madagascar36. Isto fez
ecoar por Madagascar, e tambm pela Europa, os rumores de que a Frana se
preparava para invadir a ilha; rumores que mesmo em Londres foram levados
a srio37. A rainha ficou magoada e decepcionada pela traio de seu filho e
pela deslealdade dos dois franceses que ela considerava como seus prprios
filhos. Velha e inquieta, Ranavalona viveu em um triste isolamento at sua
morte, aos 18 de agosto de 1861, aps ter designado Rakoto Radama como
seu sucessor. Rainijohary e seus partidrios "conservadores" tentaram colocar
no trono Rambossalama, o sobrinho da rainha. Mas Rainivoninahitriniony e
seu jovem irmo Rainilaiarivony apoiaram o herdeiro designado pela rainha,
com o qual partilhavam as ideias progressistas, de tal forma que o prncipe
herdeiro pde ascender ao trono, sem obstculos, sob o nome de Radama II.
Rainivoninahitriniony permaneceu como primeiro ministro e Rainilaiarivony
como comandante-em-chefe do exrcito. Sua famlia, os Andafiavaratra, pas-
sou a exercer, desde ento, "uma forte influncia sobre o governo, que duraria
tanto tempo quanto a prpria monarquia"38.
    O que podemos dizer do reinando da rainha Ranavalona I na histria de
Madagascar? Para os europeus, foi o reinado do terror, como escreveu um autor
moderno39. Para muitos povos sujeitados, a hegemonia merina tambm sur-
giu como um regime de explorao e de tirania. Conhecemos as revoltas das
populaes do Sudeste e a represso brutal provocadas por elas. Raombana,
moderno historiador malgaxe, forneceu um quadro surpreendente da desolao
que se seguiu. Povos como os antanosy emigraram para o Oeste, em direo ao
vale do Onilahi, para escapar da autoridade merina. Porm, grandes progressos
industriais foram realizados; a educao ganhou um real impulso e o processo de
modernizao, empreendido em numerosos campos, jamais fora interrompido.
Ademais, para muitos de seus sditos, Ranavalona foi um smbolo do naciona-


36   A. Boudou, 1943.
37   Nota verbal de Cowley a Thouvenel, 19 de fevereiro de 1860, Ministrio dos Assuntos Estrangeiros,
     arquivos (notado mais adiante, M.A.E.), Quai d'Orsay, Paris, Madagascar Series, tomo IV.
38   M. Brown, 1978, p. 189.
39   Ibid., p. 188.
498                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



lismo malgaxe e um bastio contra as influncias estrangeiras que ameaavam
a cultura e as tradies do pas40.


      A poltica das portas abertas: o rei Radama II, 18611863
    O breve reinado deste soberano, muito voltado  Europa, foi marcado, antes
de tudo, por uma tentativa precipitada que visava derrubar a poltica do regime
precedente, ao menos no que concerne s relaes com o exterior  da sua
brevidade sem precedente.
    Radama II ambicionava modernizar seu pas ao atrair os mercadores estran-
geiros, os investidores e os missionrios para Madagascar. Com entusiasmo, ele
permitiu o ensino do cristianismo; os missionrios e os cristos malgaxes no
exlio foram chamados de volta. O rei fez voltar seus velhos amigos, Laborde
e Lambert, bem como outros europeus. Por volta do fim do ano, ele enviou
Lambert a Paris e a Londres em misso diplomtica, para conseguir que as duas
potncias o reconhecessem como rei de Madagascar: tal reconhecimento era a
condio para a instaurao do livre comrcio, proposto por ele, entre a ilha e
o resto do mundo.
    As duas potncias europeias reagiram rapidamente. Elas aceitaram enviar mis-
ses de conciliao e nomear cnsules em Antananarivo. O governo ingls designou
Conolly Pakenham para represent-lo em Madagascar e se engajou em respeitar a
independncia da ilha41. O governo francs nomeou cnsul Jean Laborde, o grande
amigo de Radama, que vivia em Madagascar desde 1832, na esperana de tirar pro-
veito de seu grande conhecimento do pas e do prestgio que ele gozava na capital
malgaxe. Os franceses tambm reconheceram Radama como rei de Madagascar,
embora, em sua carta a Radama II, o imperador Napoleo III fizesse vagamente alu-
so aos "antigos direitos" que a Frana tinha sobre a ilha. Contudo, o governo francs
explicou claramente a seu cnsul que no tinha a inteno de se apossar da ilha, nem
de entrar em conflito com os ingleses a fim de obter privilgios particulares42.
    Missionrios chegaram a Antananarivo pouco depois dos representantes
diplomticos europeus. A misso catlica, dirigida pelo padre Jouen, chegou em


40    S. Ayache, 1975; Raombana, 1980; M. Brown, 1978, p. 168 e 188. Sobre a influncia significativa dos
      missionrios britnicos deste perodo, ver B. A. Gow, 1979.
41    Russel a Pakenham, 10 de maio de 1862, PROFO 48/9. Para mais detalhes ver P. M. Mutibwa, 1974,
      p. 58 e seg.
42    M.A.E., vol. V, Thouvenel a Laborde, 24 de abril de 1862, e cartas do imperador Napoleo III a Radama
      II, 22 de abril de 1862.
Madagascar, 1800-1880                                                             499



setembro de 1861, seguida, em abril de 1862, pelos missionrios da LMS, con-
duzida pelo reverendo W. Ellis que, em 1856, visitara a capital. O fato de Ellis
ser o portador de uma srie de cartas do governo ingls para Radama convenceu
os chefes malgaxes que a LMS era uma antena do governo britnico; o que
explica, em parte, a grande influncia que Ellis exerceu na capital malgaxe.
    Os europeus aproveitaram desta reviravolta da situao para de novo negociar
tratados de amizade e de comrcio. O tratado com a Frana foi assinado aos 12 de
setembro de 1862, e com a Inglaterra, aos 4 de dezembro de 1862. Todavia, eles
suscitaram uma certa inquietao na nobreza malgaxe. Rainivoninahitriniony, o
primeiro ministro, e seus colegas no estavam satisfeitos, j que estes tratados esti-
pulavam, dentre outras coisas, que os estrangeiros podiam adquirir e possuir terras
em Madagascar, o que era contrrio s tradies malgaxes. Os tratados tambm
isentavam os residentes estrangeiros do pagamento das taxas de exportao e de
importao, que constituam a principal fonte de renda dos funcionrios malga-
xes, aos quais o governo no pagava salrio regular. Ademais, Radama ratificara,
em setembro de 1862, a carta que ele havia outorgado a seu amigo Lambert em
1855, e que permitia a este ltimo explorar os recursos minerais e agrcolas dos
territrios do Noroeste da ilha. Uma outra concesso, concernente  regio de
Vohemar, foi conferida a um ingls da Ilha Maurcio, Caldwell.
    O conselho real se ops unanimemente  assinatura destas convenes que
davam tantos privilgios aos estrangeiros. Ademais, aos 28 de setembro de 1862,
Comodoro Dupr, o negociador francs, persuadiu Radama a assinar um tratado
secreto pelo qual o rei reconhecia os direitos da Frana sobre certas partes da
ilha43. Embora o governo francs tivesse desaprovado esta conveno secreta, os
ministros de Radama foram informados; da o aumento de sua desconfiana em
relao a um rei que parecia pronto a assinar documentos sem discernimento,
mesmo quando esses ameaavam a independncia nacional.
    Em dezembro de 1862, Radama parecia ter levado a cabo seu projeto da
abertura do pas  influncia estrangeira. Mas estes dezesseis meses tinham
constitudo, para seus sditos, um perodo sem precedente. Ocorreram mui-
tas coisas em pouqussimo tempo e a populao no pde se acostumar a to
numerosas mudanas, que contrastavam to fortemente com a poltica do antigo
monarca. Os tratados e as cartas assinados por ele desapontaram os homens que
o haviam ajudado a subir ao trono. A influncia dos missionrios e dos outros
estrangeiros cresceu to rpido que muitos funcionrios influentes comearam


43   M.A.E., vol. V, Dupr a Drouyn de Lhuys, 23 de outubro de 1862.
500                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



a se inquietar. As novas orientaes polticas provocavam tamanho desconten-
tamento que, ao longo da epidemia de ramanenjana, dizia-se que os doentes
estavam possudos pelo esprito da falecida rainha. A situao tornou-se insus-
tentvel quando Radama decidiu descartar do poder Rainivoninahitriniony, o
primeiro ministro, Rainilaiarivony, seu jovem irmo, e Rainijohary, isto , os
membros supremos dos dois cls de Tsimiamboholahy e de Tsimahafotsy, que,
como vimos, ajudaram Adrianampoinimerina a fundar o reino merina. O plano
de Radama consistia em substituir esta oligarquia por seus amigos de outrora,
chamados de mena maso ("olhos vermelhos", literalmente) e conduzidos por
nobres de Vakinisinaony  regio das antigas capitais merina , que alegavam
sua ancianidade e sua superioridade sobre os avaradrano de Antananarivo44.
    Radama parecia, sobretudo, confiar mais nos estrangeiros do que nos malgaxes
para dirigir o pas. A misso de reconhecimento que ele enviou a Europa no foi
conduzida por funcionrios malgaxes, como em 1836-1837, mas por Lambert, o
aventureiro francs. Ele recorreu demais aos conselhos de Ellis e, quando da morte de
Rahaniraka, em novembro de 1862, nomeou William Marks, um norte-americano,
e Clment Labord, o filho do cnsul francs, secretrios de Estado dos assuntos
estrangeiros. Essa deciso, tal como aquela de se apoiar sobre os mena maso, deu a
entender aos dois filhos de Rainiharo e a seus partidrios (inclusive Rainijohary) que
o rei se preparava para elimin-los. Portanto, eles decidiram agir preventivamente.
Quando Radama recusou livrar-se dos mena maso  e at mesmo, ameaou punir
aqueles que se opusessem a sua vontade  , o grupo do primeiro ministro decidiu
descart-lo do poder. Na aurora dos 12 de maio de 1863, Radama foi estrangulado
com um leno de seda, de forma a evitar derramar o sangue real, o que teria sido
contrrio  tradio malgaxe. Segundo o sucinto comentrio de Mervyn Brown:
      A fraqueza de carter foi a principal causa da queda de Radama. Sua bondade natu-
      ral, sua inteligncia incontestvel e suas excelentes intenes no foram completadas
      pela autodisciplina, pela aplicao ou por um juzo seguro; ele se revelou incapaz de
      dominar a oposio que a brutal inverso de quase todas as escolhas polticas de sua
      me provocara em certos meios45.


44    Sobre as origens tnicas dos partidrios de Radama, ver S. Ellis, 1980.
45    M. Brown, 1978, p. 195. Pouco aps a morte de Radama II, comearam a circular rumores de que o
      rei ainda estava vivo; tais rumores correram por mais de dois anos. Numerosos europeus, inclusive o
      reverendo W. Ellis, da LMS, e Laborde, o cnsul francs em Madagascar, acreditaram nisso e tentaram
      entrar em contato com o soberano deposto. Raymond Delval escreveu um estudo no qual, com efeito,
      foi demonstrado que Radama II sobreviveu e se refugiou na parte ocidental da ilha, onde, aps uma
      frustrada tentativa de retomada do poder, ele viveu como uma pessoa comum at sua morte, no fim do
      sculo. Ver R. Delval, 1964.
Madagascar, 1800-1880                                                                               501



     A reviso da poltica de Madagascar: 18631868
    O sucessor de Radama II foi sua esposa, Ravodozakandriana, que tomou o
nome de Rasoherina. Ela era prima de primeiro grau de Radama I e, portanto,
a sucesso continuou na linhagem de Adrianampoinimerina. Ela foi convidada
 vale sublinhar este termo  a se tornar rainha pela oligarquia que havia der-
rubado seu marido e que, a partir de ento, era a verdadeira autoridade no pas.
Importa destacar que Rainivoninahitriniony, Rainilaiarivony e seus associados
no se opunham aos europeus, nem  modernizao do pas. Certamente, a fra-
o "conservadora", dirigida por Rainijohary, ainda se fazia presente e incitava
uma inverso completa da poltica de Radama II. Porm, o grupo pr-europeu
do primeiro ministro era majoritrio no Conselho real46. Aquilo que os novos
dirigentes desaprovavam era a maneira com que Radama conduzira sua poltica
pr-europeia. Eles estimavam que a modernizao da ilha no devia se fazer 
custa de suas tradies e de sua independncia.
    O novo governo permaneceu nas mos de Rainivoninahitriniony at julho
de 1844, data em que este foi substitudo por Rainilaiarivony, seu jovem irmo,
comandante-em-chefe do exrcito. Rainilaiarivony controlaria o pas pratica-
mente at o fim do sculo. O novo governo queria dar prosseguimento  poltica
externa de Radama, mas com importantes modificaes. As cartas de Lambert
e de Caldwell, que ameaavam a independncia do pas, foram revogadas. Os
tratados com a Frana e a Inglaterra foram revistos, de tal maneira que os artigos
ofensivos que autorizavam a posse de terras aos estrangeiros em Madagascar e
os isentavam das taxas de exportao e de importao foram ab-rogados. No que
concerne  poltica interna, o cristianismo continuaria sendo ensinado, mas os
costumes do pas, que interditavam aos estrangeiros a ida a certas cidades, como
Ambohimanga, ou a pregao nesses locais, seriam, a partir de ento, respeita-
dos. Os estrangeiros que desejavam apoiar o desenvolvimento de Madagascar
eram bem-vindos ao pas. O governo malgaxe expediu cartas s autoridades
francesas e britnicas da Reunio e da Ilha Maurcio, a fim de explicar-lhes o
que se passara em Madagascar e de definir sua poltica. Em novembro de 1863,
uma misso foi enviada  Inglaterra e  Frana para explicar a nova poltica de
Madagascar e obter a reviso dos tratados de 1862. Esta misso foi dirigida por
Rainifiringia, acompanhado de Rainavidriandraina.



46   Este exame da linha poltica do Conselho da rainha era fundado no compte rendu que Jean Laborde fez
     a Drouyn de Lhuys, aos 25 de maio de 1865. M.A.E., vol. VII.
502                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A Inglaterra e a Frana reagiram de maneira diferente  queda de Radama
II. Lord John Russel, o secretrio do Estado britnico dos assuntos estrangeiros,
entendia as dificuldades em que se encontrava Madagascar em suas relaes
com os governos estrangeiros. Embora lamentasse o fato de o novo governo ter
revogado um tratado internacional, ele aceitou o pedido de reviso do antigo
tratado e recusou deixar-se arrastar em um conflito com Madagascar, em razo
da supresso da carta de Caldwell47. O governo britnico acolheu, pois, calo-
rosamente a misso malgaxe quando de sua chegada em Londres, em maro
de 1864. Foi acordado um novo projeto de tratado incorporando a maioria das
propostas malgaxes, sob a condio de as negociaes continuarem em Antana-
narivo, aps a volta da misso a Madagascar. Quando, finalmente, estas negocia-
es comearam, em 1865, surgiram dificuldades, pois os ingleses pediam que
seus residentes pudessem possuir terras na ilha e que as taxas de exportao e
de importao fossem de 5%, ao passo que os malgaxes reclamavam 10%. No
entanto, o governo de Antananarivo foi inflexvel nestes pontos e os ingleses
acabaram aceitando todas as propostas malgaxes. A assinatura do tratado foi
festejada em Antananarivo, aos 27 de junho de 1865.
    A reao francesa foi diferente, j que os franceses no aderiram  poltica
do novo regime. Eles estavam muito irritados por causa da queda de Radama
II, que, em Paris e em Saint-Denis, foi atribuda  influncia dos missionrios
britnicos e do reverendo William Ellis, em particular. O governo francs recu-
sou, pois, a revogao do tratado de 1862 e da carta de Lambert, ambos ratifi-
cados pelo imperador Napoleo III. A carta de Lambert tinha sido preparada
sob a proteo direta do imperador, e uma companhia j tinha sido formada
para explorar as concesses. Para os franceses, por consequncia, a aceitao da
ab-rogao da carta e do tratado teria sido um duro golpe. Nestas condies, eles
preferiram romper as relaes diplomticas em setembro de 186348.
    Em Paris, intensas presses foram exercidas sobre o governo francs para que
o tratado e a carta fossem impostos  fora. Entretanto, o governo recusou montar
uma expedio contra Madagascar e aceitou considerar a reviso do tratado, sob
a condio de Madagascar pagar uma indenizao de 1.200.000 francos (240.000
dlares) pela ab-rogao da carta. Esta deciso foi comunicada aos emissrios
malgaxes, quando estes se encontravam ainda na Europa. Portanto, a visita a Paris,


47    Ver Codore a Drouyn de Lhuys, 28 de novembro de 1863, M.A.E., vol. VI e Russell a Cowley, 7 de
      junho de 1864, F.O. 48/6.
48    Ver Pakenham a Russell, 30 de setembro de 1863, PROFO 48/10, no qual a conduta do enviado especial
      francs em Madagascar, Comodoro Dupr, encontra-se bem discutida.
Madagascar, 1800-1880                                                          503



em julho de 1864, foi intil. O imperador Napoleo recusou at mesmo receb-
-los. Tudo o que obtiveram foi um sermo cordial, porm enrgico, de Drouyn
de Lhuys: o ministro francs dos assuntos estrangeiros colocou a tnica sobre a
necessidade de respeitar as convenes internacionais e fez saber, claramente, que,
para seu governo, o rpido pagamento da indenizao pedida era a condio sine
qua non do restabelecimento das relaes amigveis entre os dois pases.
    De volta a Madagascar, os embaixadores informaram ao governo que, para
os franceses, a ab-rogao da carta de Lambert e do tratado era um assunto
grave. Preocupados em desfazer as obrigaes impostas por estas duas conven-
es, os malgaxes aceitaram pagar a indenizao, ainda mais porque o governo
britnico parecia pouco inclinado a intervir em seu favor. A indenizao foi,
pois, paga em Tamatave, ao 1 de janeiro de 1866, e foram abertas negociaes
entre os dois pases, visando  concluso de um novo tratado. Todavia, em vez de
simplesmente aderir a uma verso francesa do tratado anglo-malgaxe de junho
de 1865, como o governo de Antananarivo esperava, os franceses continuaram
exigindo que seus residentes tivessem o direito de adquirir e possuir terras na
ilha; o que, naturalmente, foi recusado pelos malgaxes. O governo francs, em
uma posio que julgava embaraosa, pediu ao governo britnico que emendasse
seu prprio tratado, de maneira que os residentes franceses e ingleses pudessem
obter terras na ilha. Porm, as manobras francesas fracassaram, pois os britni-
cos recusaram-se a fazer uma emenda no tratado j ratificado. Finalmente, os
franceses tiveram de aceitar o tratado anglo-malgaxe como base de um novo
tratado franco-malgaxe, no qual foi estipulado que os residentes franceses no
teriam o direito de adquirir, nem de possuir terras em Madagascar. Esse tratado
foi assinado aos 8 de agosto de 1868, em Antananarivo.
    Os cinco anos que se seguiram  morte de Radama II foram ricos em aconte-
cimentos para Madagascar. A ilha conhecera grandes dificuldades com a Frana
por causa da revogao das convenes assinadas por Radama II. Os malgaxes
haviam aprendido uma coisa importante: enquanto a Gr-Bretanha continuava
benevolente e pouco exigente, a Frana se mostrava hostil e pouco amigvel. Em
Antananarivo, temia-se at mesmo que os franceses invadissem a ilha. Quando
da assinatura do tratado anglo-malgaxe em 1865, o governo de Antananarivo,
segundo o cnsul francs, "agradeceu a todos os ingleses  ou seja, aos missio-
nrios da LMS, residentes na capital  por terem cordialmente se associado ao
governo para obter as modificaes requeridas por ele"49. Esta atitude foi con-


49   Laborde a Drouyn de Lhuys, 29 de junho de 1865, M.A.E., vol. VII.
504                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



siderada o selo da amizade anglo-malgaxe, que durou at o fim do sculo. Por
outro lado, a poltica hostil da Frana produziu um srio corte nas relaes entre
os dois pases. Os britnicos levavam vantagem sobre os franceses e, no contexto
poltico da ilha, era um acontecimento importante na histria de Madagascar.


      Evoluo interna, 18611880
    At ento, nosso estudo sobre este perodo foi basicamente poltico e diplo-
mtico. Ele concerniu  evoluo poltica do pas, de 1800 aos anos 1880, bem
como s relaes diplomticas da ilha com a Frana e a Inglaterra.  ainda
mais necessrio, agora, estudar a evoluo administrativa e socioeconmica de
Madagascar, j que os acontecimentos ocorridos nesses campos revelar-se-iam
essenciais quando da luta de Madagascar por sua sobrevivncia como Estado
independente, durante o perodo da "investida" dos europeus.
    Um dos acontecimentos mais importantes deste perodo, que teria um impacto
enorme na histria posterior, foi a converso ao cristianismo, em fevereiro de
1869, da rainha Ranavalona II e de seu primeiro ministro, Rainilaiarivony (que
tambm era seu esposo). O zelo com o qual os missionrios trabalharam, aps
sua volta  ilha em 1861, mostrou claramente que uma revoluo religiosa estava
prestes a eclodir no pas. Em 1863, j havia em torno de 5.000 cristos na capital
malgaxe, em uma populao total de 60.000 almas. No fim de 1868, a LMS,
por si s, reunia 10.546 membros e 153.000 adeptos em Madagascar50. Era
preciso, desde ento, contar com o grupo cristo, do qual um grande nmero de
altos funcionrios era membro. No se podia mais empregar a perseguio para
eliminar o cristianismo: utilizado nos anos 1830 e 1840, o mtodo malograra.
Em 1870, a perseguio aos cristos teria colocado de lado o elemento mais
influente da populao. Os adeptos da LMS encontraram um chefe na pessoa
de Rainimahavaro, ministro malgaxe dos assuntos estrangeiros e rival declarado
de Rainilaiarivony, que tambm era pr-ingls. Para neutralizar Rainimaharavo
e evitar uma revoluo crist radical, que poderia culminar na substituio da
rainha Ranavalona II pelo prncipe Rasata, um protegido da LMS, a rainha e seu
primeiro ministro decidiram se converter51. Isto no quer dizer, claro, que eles
no acreditavam no cristianismo, mas isso explica porque e como esta converso
se produziu neste exato momento.


50    Ver a crnica da LMS e os relatrios da LMS dos anos 1860 e 1870.
51    D. Ralibera, 1977.
Madagascar, 1800-1880                                                         505



    O fato de os chefes malgaxes terem abraado o protestantismo  a religio
dos ingleses , em vez do catolicismo, foi importante, sob vrios aspectos, para
o futuro de Madagascar. Os malgaxes tendiam a considerar o protestantismo
como a religio dos dirigentes e associavam-no ao poder, tanto que fora de
Imerina e de Betsileo, o cristianismo s tinha adeptos nos postos fortificados
dos colonos merina, onde o governador tambm era frequentemente um pouco
evangelizador. Dentre os povos dominados, os catlicos eram mais ativos no
pas betsileo, onde se desenvolveu uma espcie de cristianismo popular, para-
lelo  religio oficial. Em reao contra o poder, assistiu-se ao renascimento
das religies tradicionais, apesar da destruio pblica dos sampy (dolos) que
acompanhava a propagao do cristianismo. No ltimo quarto do sculo XIX,
os sacerdotes mais eminentes do culto dos sampy tornaram-se os lderes da
oposio  autoridade real52.
    A converso dos dirigentes de Madagascar ao protestantismo ocorreu pouco
aps a concluso do tratado franco-malgaxe de 1868, que, como vimos, fora
precedida por conflitos e mesmo por ameaas de guerra da parte da Frana.
Era a poca em que os britnicos pareciam  e reivindicavam  ser os verda-
deiros amigos e aliados de Madagascar, e em que os missionrios ingleses no
deixavam de sublinhar esta posio continuamente. Graas a homens como
James Cameron, a LMS tornou-se uma importante assistncia tcnica para os
malgaxes. Rainilaiarivony e seus colegas acreditavam que, ao abraarem o credo
da LMS, selariam ainda mais esta amizade. Com efeito, ao se converterem ao
protestantismo, eles se aproximavam dos ingleses e podiam supor que estes esta-
riam ao seu lado caso os problemas com a Frana se manifestassem novamente.
Os franceses tambm viram nesta converso dos malgaxes ao protestantismo
um sinal do engajamento destes ltimos ao lado dos britnicos; consideraram
que a converso da rainha marcava a rejeio  influncia e  cultura francesas,
alm de uma mudana em favor dos ingleses.
    Os missionrios britnicos, uma vez vencida a guerra religiosa, exploraram as
novas vantagens na capital a fim de estenderem suas atividades para todo o resto
da grande ilha. Mesmo os catlicos, que no tinham influncia poltica direta em
Antananarivo, fizeram proselitismo em outras partes do pas53. Dissemos ante-
riormente que os catlicos dominavam a evangelizao do pas betsileo. Logo
chegaram outras misses e, no ltimo quarto do sculo XIX, viu-se desenhar
diversas zonas de influncia  a Norske Missionary Society, no Vakimankaratra,

52   M. Esoavelomandroso, 1978b; S. Ellis, 1980.
53   A. Boudou, 1940-1942.
506                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



a Society for the Propagation of the Gospel (SPG), a Leste, e a FFMA (Friends
Foreign Mission Association), a Oeste. Graas a suas prprias contribuies e 
estreita aliana entre os missionrios ingleses e o governo malgaxe, grandes pro-
gressos foram realizados nos campos da educao e da medicina. J evocamos os
progressos da alfabetizao e a existncia de uma literatura. Numerosos transtor-
nos seguiram-se, notadamente o abandono do calendrio lunar tradicional pelo
calendrio gregoriano, introduzido pelos missionrios britnicos em 1864. A
arquitetura tambm foi influenciada, sobretudo pela construo desenfreada de
igrejas e de diversos monumentos aos mrtires, que visava a fazer de Antanana-
rivo uma cidade santa, suplantando Ambohimango54. Com efeito, foi em razo
desses notveis progressos, em particular no campo educacional, que os malgaxes
conquistaram, durante este perodo, a admirao do "mundo civilizado". Isto, por
sua vez, contribuiu para fomentar uma revoluo social no pas.
    Os missionrios britnicos tinham aberto as primeiras escolas, em Antana-
narivo, em 1820. Quando o cristianismo foi interditado e os missionrios deixa-
ram o pas, os rapazes malgaxes, formados por eles, levaram adiante a educao
laica. Quando os missionrios retornaram, aps 1861, o desenvolvimento da
educao acelerou-se consideravelmente, a tal ponto que, em 1880, havia mais
de 40.000 alunos nas escolas das misses e do governo. O primeiro ministro
decretou que "todas as crianas de mais de sete anos deveriam ir  escola"55. Em
1881, o princpio da escolaridade obrigatria foi inscrito no Cdigo de 305
artigos e, em 1882, agentes de inspeo pblica comearam suas vistorias nas
escolas de Imerina. As escolas secundrias foram criadas nos anos 1870, mas s
se desenvolveram realmente aps 1880. Numerosos rapazes, incluindo dois dos
filhos do primeiro ministro, foram enviados ao estrangeiro para continuar seus
estudos, notadamente  Inglaterra e  Frana. O desenvolvimento da educa-
o foi facilitado pelo nmero elevado de grficas fundadas pelas misses, que
publicavam livros, revistas e jornais. Na medida em que o campo da educao
era dominado pela influncia dos missionrios, no  surpreendente constatar
que o ensino tcnico encontrava-se atrasado em relao ao ensino literrio; os
missionrios se interessavam mais pela criao de congregaes do que pelas
obras pblicas. O nvel de educao literria atingido por Madagascar  clara-
mente atestado pela correspondncia diplomtica malgaxe da poca, redigida
em ingls e em francs.


54    F. Raison, 1970, 1977, 1979.
55    M. Brown, 1978, p. 212. Ver tambm B. A. Gow, 1979, captulo 4, no qual o trabalho mdico e educa-
      cional das misses inglesas encontra-se bem examinado.
Madagascar, 1800-1880                                                                                  507




Figura 16.12 O palanquim da rainha Rasoherina diante de uma palhota venerada, datando do reinado de
Andrianampoinimerina. No plano de fundo, o templo protestante construdo nos reinados de Rasoherina e de
Ranavalona II. [Fonte: H. Deschamps, Histoire de Madagascar, 1960. Berger-Levrault. Paris. Foto reproduzida
pela Biblioteca Nacional, Paris.]




    Os primeiros servios mdicos foram criados na ilha com a inaugurao,
em 1862, pela LMS, de um posto mdico em Antananarivo; trs anos mais
tarde, um hospital foi aberto em Analakely, no centro da capital. Em 1875,
o governo malgaxe organizou seus prprios servios mdicos, com pessoal
assalariado. Em 1880, Madagascar dispunha de seus primeiros mdicos qua-
lificados, o Dr. Adrianaly e o Dr. Rajaonah (um genro do primeiro ministro),
que haviam passado nove anos estudando na Faculdade de Medicina de
Edimburgo56.


56   V. Ramanakasina, s.d.
508                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    No campo da evoluo constitucional e administrativa de Madagascar, desde
a poca de Radama I, a mudana mais importante foi a substituio do monarca
merina, como chefe do pas, por uma oligarquia hova, dirigida pela famlia de
Rainiharo. Tal movimento rumo a uma monarquia constitucional comeou nos
anos 1820, quando a rainha Ranavalona I foi obrigada a dividir o poder com
Rainiharo e Rainijohary, dois homens pertencentes a importantes famlias hova,
inicialmente modestas, que tinham alcanado poder e influncia e que tinham
ajudado Adrianampoinimerina a fundar o reino merina no fim do sculo XVIII.
Tradicionalmente, o soberano de Imerina exercia um "poder pessoal", governava
seu reino como bem queria e apenas consultava seus conselheiros se lhe era
conveniente. Entretanto, aps a morte de Radama I, o poder da monarquia
merina foi cada vez mais enfraquecido pela escalada da classe mdia hova. Os
hova desempenharam um papel determinante na fundao e consolidao do
reino em expanso. Com o passar dos anos, eles aproveitaram esta posio para
se enriquecer comercialmente e ocupar postos chaves no exrcito e na admi-
nistrao. Embora a classe dos andriana continuasse desempenhando um papel
importante no pas, o poder real, o exrcito e o governo encontravam-se, desde
ento, nas mos dos hova. Porm, a mudana mais importante ocorreu aps o
assassinato do rei Radama II, em 1863, quando a nova rainha, Rasoherina, foi
reconhecida oficialmente como monarca constitucional e quando o poder passou
para as mos da oligarquia hova, que havia derrubado o marido da rainha. Antes
de sua coroao, Rasoherina, a pedido do primeiro ministro e de seus partidrios,
teve que "assinar uma srie de artigos nos quais ela se comprometia, entre outras
coisas, a no beber lcool, a no pronunciar condenao  morte sem a opinio
dos membros do Conselho e a no promulgar nenhuma lei sem o aval do Con-
selho, que, nesse momento, era controlado por eles"57. Os poderes do governo
eram, na verdade, partilhados inicialmente pelos dois irmos, Rainivoninahi-
triony e Rainilaiarivony, que se tornaram, respectivamente, primeiro ministro
e comandante-em-chefe do exrcito. Quando, em julho de 1864, o primeiro
ministro Rainivoninahitriony foi derrubado e substitudo por Rainilaiarivony,
este ltimo se tornou, simultaneamente, primeiro ministro e comandante-em-
-chefe do exrcito. Era a primeira vez que as duas funes eram exercidas por
uma nica pessoa58. Quando Rainilaiarivony esposou a nova rainha  embora ela
tivesse mais de 50 anos e 15 a mais que ele , o novo primeiro ministro tornou-se
o homem mais poderoso do pas. Rainilaiarivony tornou-se senhor e, de fato, rei

57    B. A. Gow, 1979, p. 41.
58    M. Brown, 1978, p. 199-200.
Madagascar, 1800-1880                                                                                509



sem coroa de Madagascar. Ele ainda reforou sua posio esposando tambm a
rainha que sucedeu Rasoherina. O poder passou, pois, do soberano e do grupo
dos andriana para o primeiro ministro, o chefe da oligarquia hova59.
    Para assegurar a ordem pblica e o funcionamento dos rgos administra-
tivos do Estado, um Cdigo de 101 artigos foi promulgado em 1868; a cada
ano, outros artigos acrescentaram-se a ele, at ser atingido, em maro de 1881, o
nmero de 305. O fundamento geral deste Cdigo era que os costumes e as tra-
dies do pas poderiam permanecer em vigor conquanto que no oferecessem
obstculo para o progresso. O Cdigo de 101 artigos, que foi impresso e colo-
cado em circulao, era severo em sua aplicao, mas representava uma melhora,
sob diversos aspectos, dos antigos costumes. Ele reduzia "de 18 a 13 o nmero
de delitos passveis de pena de morte  sendo o primeiro o crime voluntrio e
os doze outros diversas formas de rebelio contra o Estado". Tambm abolia
a noo de responsabilidade familiar, segundo a qual as mulheres e as crianas
podiam ser punidas pelos crimes do marido e do pai. As leis no eram aplicadas
da mesma maneira nas provncias, onde as punies, em geral, eram menos rigo-
rosas. Em 1873, Ranavalona II havia at mesmo publicado um cdigo especial
de 118 artigos para o pas betsileo60. Em 1876, o governo malgaxe criou trs altas
cortes (anteriormente existia apenas uma) que julgavam os diferentes tipos de
delito, cada uma com treze juzes, dos quais onze eram funcionrios do palcio.
Nas aldeias, magistrados e chefes (sakaizambohitra) foram nomeados para exer-
cer a justia; de fato, a nvel local, o fokon'olona foi reorganizado de tal maneira
que os chefes de aldeia obtivessem mais responsabilidades. Eles deviam manter a
ordem, garantir o respeito  lei e exercer a justia. Porm, mesmo que se tratasse
de assuntos levados diante dos tribunais de aldeia ou diante das trs cortes de
justia da capital, a deciso final pertencia sempre ao primeiro ministro. Esta
centralizao, embora concentrasse todas as responsabilidades nas mos de um
nico homem, permitia, entretanto, ao governo de Antananarivo saber o que se
passava nas provncias.
    Em maro do mesmo ano, uma reorganizao mais completa do aparelho
governamental foi empreendida com a criao de um conselho de oito ministros,
respectivamente responsveis do interior, dos assuntos estrangeiros, da guerra,
da justia, da legislao, do comrcio e da indstria, das finanas e da educao.
A criao destes ministrios fazia parte do novo Cdigo de 305 artigos, que se


59   P. M. Mutibwa, 1974, p. 88; M. Brown, 1978, p. 207.
60   Ver M. Brown, 1978, p. 214-215, inspiramo-nos largamente nesta obra para a anlise que se segue; ver
     tambm E. Thbault, 1960.
510                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



tornou a base dos outros sistemas jurdicos de Madagascar introduzidos at o
fim do sculo, e mesmo sob a dominao colonial. Tal Cdigo marcava, como
observou um especialista, "um passo  frente rumo a um sistema mais humano,
mesmo se numerosas punies continuassem muito severas e se o Cdigo con-
servasse um carter basicamente malgaxe"61. Isto mostrava uma vez mais que os
malgaxes queriam modernizar seu pas e se juntar ao "concerto das naes".
    O exrcito tambm conheceu profundas mudanas. As reformas que Radama
I havia introduzido neste campo tinham sido abandonadas por seus sucessores.
Mas, em 1872, o primeiro ministro novamente empreendeu a modernizao
do exrcito. Com a ajuda de um instrutor britnico, o governador comeou a
recrutar, a equipar e a formar um maior exrcito profissional. A fbrica de Jean
Laborde, em Mantasoa, que produzia armas leves, tinha deixado de funcio-
nar quando Laborde deixara o pas. O governo pensou em importar armas da
Europa, em particular da Inglaterra e dos Estados Unidos da Amrica. Mas
isso custava caro e  Madagascar faltavam dinheiro e reservas. Era preciso, pois,
tentar fabricar localmente o armamento leve.
    Em 1876, outras reformas foram introduzidas no exrcito. A partir desta
data, os soldados foram submetidos a um exame mdico anual; foi interditada
a compra dos "mritos" e das isenes; os abusos do sistema dos ajudantes de
ordens foram eliminados. Em 1879, o servio militar obrigatrio foi adotado por
um perodo de cinco anos. Cada uma das seis provncias de Imerina teve que
recrutar 5.000 homens, o que permitiu a criao de um potente exrcito profis-
sional de 30.000 soldados. Nos anos 1870, expedies cuidadosamente prepa-
radas foram lanadas para reprimir sublevaes dos sakalava (principalmente de
Menabe) e dos bara, no Sul. A expedio lanada contra os bara, em 1873, saiu
vitoriosa: a regio passou, enfim, para o controle do governo de Antananarivo.
Mas, no final da dcada de 1870, tornou-se cada vez mais evidente que o papel
do exrcito malgaxe no mais seria reprimir revoltas na ilha, mas sim, assegurar
a defesa do pas contra intervenes francesas.
    Para realar sua imagem no estrangeiro, Madagascar interditou o trfico de
lcool  notadamente do rum. Com efeito, em 1863, acreditando que o consumo
de lcool explicava a conduta de Radama II, o novo governo havia decretado que
o soberano no devia beber bebidas fortemente alcoolizadas. Costumes como o
tangena (julgamento por ordlia) foram abolidos no reinando de Radama II. O
comrcio de escravos continuou interditado em Madagascar, mas certos merca-


61    M. Brown, 1978, p. 216.
Madagascar, 1800-1880                                                                              511




Figura 16.13 Acampamento de Ranavalona II, quando de seu retorno de Fianarantsoa, 1873. [Fonte: F.
Raison-Jourde, Les souverains de Madagascar, 1983, Karthala, Paris. Foto: Fonds Grandidier du Muse des
collections scientifiques, Tsimbazaza, Antananarivo.]



dores estrangeiros, geralmente ingleses e franceses, continuaram a transgredir
essa lei, em particular na costa oeste da ilha. Em 1877, o governo malgaxe libe-
rou tambm os makoa, ou masombiky (como os merina os chamavam), ou seja,
todos os escravos ou descendentes de escravos trazidos da frica para a ilha.
Embora no abolisse a prpria escravido, o decreto de 1877, que significava
uma grande perda econmica para os proprietrios de cerca de 150.000 escravos
libertos, constitua uma importante revoluo social e mostrava que o pas estava
decidido a se modernizar62.


     O desenvolvimento econmico63
   Anteriormente  integrao de Madagascar no comrcio internacional e, em
particular, antes dos anos 1860, poca em que os europeus comearam a chegar
em grande nmero na ilha, os malgaxes possuam uma "economia de subsis-
tncia". A maior parte da populao se ocupava unicamente de agricultura para
prover suas necessidades, e o arroz era o principal alimento, sobretudo no pla-
nalto central. Os malgaxes eram de tal forma especializados na cultura do arroz


62   Ver Extracts from Report by RearAdmiral W. GoreJones, PRO, FO 48/34.
63   Ver P. M. Mutibwa, 1972. Tal artigo foi muito utilizado para a anlise que se segue.
512                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



que, segundo um observador, "o carter engenhoso e a habilidade dos malgaxes
em nenhuma parte se mostrava melhor do que na cultura do arroz"64. Alm da
agricultura, a economia de Madagascar dependia da criao de gado, notada-
mente entre os sakalava, no Oeste, e entre os povos do Sul da ilha. Criavam-se
tambm carneiros e porcos em Imerina e o peixe constitua um dos principais
alimentos dos malgaxes. Os merina no puderam se tornar senhores do comrcio
na costa oeste; eles eram praticamente ausentes no Sul e se chocavam com a
concorrncia dos antalaotra no Noroeste. Na costa leste, todavia, eles consegui-
ram implementar uma eficaz rede comercial.




Figura 16.14 Fundio e forjamento do ferro em Madagascar, nos anos 1850. [Fonte: W. Ellis, Three visits
to Madagascar, 1858, J. Murray Publishers, Londres. Ilustrao reproduzida com a autorizao da British
Library.]




    Duas indstrias encontravam-se muito desenvolvidas: de um lado, a fiao e
a tecedura, do outro, as minas e a metalurgia (sobretudo o ferro). Os malgaxes
fabricavam estofos e toda uma srie de artigos de metal para uso prprio. Esta
era a base da educao tcnica que receberam dos europeus. J mencionamos os
produtos da fbrica de Laborde, em Mantasoa, a uma quarentena de quilmetros
a Sudeste de Antananarivo. Alfred Grandidier, o famoso explorador francs de
Madagascar no sculo XIX, ensina-nos que, em Mantasoa, "Laborde produzia
ao puro, cimento, canhes e morteiros; toda espcie de armas e munies; arti-
gos de curtume; vidros e cermicas; potes e pratos; tijolos e ladrilhos [...]; sabo-


64    Citado por P. M. Mutibwa, 1972; ver tambm H. Florent, 1979; M. Rasoamiaramanana, 1974, 1981;
      G. Rantoandro, 1981.
Madagascar, 1800-1880                                                         513



nete de todas as cores; velas, papel e tinta para escrever; potssio, alume comum
e cidos sulfricos e, aps 1843, chegou a criar bichos-da-seda chineses"65.
    Muitos destes produtos cessaram de ser fabricados quando Laborde deixou
Madagascar, no fim dos anos 1850. Porm, certos homens com os quais ele
havia trabalhado, puderam continuar a produzir alguns artigos necessrios para
sua subsistncia. O que matou a indstria local foi a importao de materiais
mais baratos (estofos, calados e cermicas) da Europa e dos Estados Unidos
da Amrica.
    A ascenso do rei Radama ao trono, em 1810, assistiu ao incio da partici-
pao ativa de Madagascar no comrcio internacional. O trfico de escravos era
um dos elementos majoritrios do comrcio, mas, aps a concluso do tratado
anglo-malgaxe de 1843, este trfico foi interditado e nunca mais foi retomado
nas regies onde a autoridade do governo malgaxe era real. Os escravos conti-
nuaram a ser importados da frica para a costa oeste de Madagascar e para os
territrios do Noroeste, sob a aparncia de trabalhadores contratados. Este tr-
fico era quase que monopolizado pelos antalaotra e pelos indianos que, s vezes,
se beneficiavam de uma cumplicidade de funcionrios merina66. Por outro lado,
nas regies que escapavam praticamente ao controle das autoridades de Antana-
narivo, alguns escravos eram exportados para a Ilha da Reunio, Ilha Maurcio,
Estados Unidos da Amrica e para as Antilhas. O arroz e o boi representavam
outras importantes exportaes, ao passo que diversos produtos (estofos, fuzis,
rum e mquinas) eram importados. O governo tirava a metade de seus ren-
dimentos aduaneiros do comrcio da carne de boi. Alm do comrcio direto
com a Europa e os Estados Unidos da Amrica, Madagascar comerciava com a
Gr-Bretanha pela Ilha Maurcio, Zanzibar67e as Seicheles, e com a Frana pela
Ilha da Reunio. O comrcio malgaxe era absolutamente fundamental para a
colnia francesa da Reunio, que obtinha da grande ilha quase todo o seu gado
e seu arroz, sem falar dos escravos. Em parte, isto se devia ao fato de os colonos
franceses da Reunio e dos pequenos negociantes de Marselha considerarem
Madagascar como sua zona natural de influncia.
    O comrcio internacional da ilha estava fundado nos tratados de amizade e
de comrcio. Mencionamos, mais acima, os tratados de 1862 com a Inglaterra e
a Frana, que foram respectivamente modificados em 1865 e em 1868. O pri-
meiro tratado com os Estados Unidos foi assinado em 1867, com a chegada de

65   Citado por P. M. Mutibwa, 1972.
66   M. Rasoamiaramanana, 1981b; G. Campbell, 1981.
67   H. Kellenbenz, 1981.
514                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



um cnsul americano em Antananarivo. O governo malgaxe tambm instalou
embaixadas na Ilha Maurcio, na Inglaterra e na Frana, para facilitar as trocas
comerciais68. O primeiro ministro preferia nomear negociantes importantes
das capitais estrangeiras como cnsules. Para Londres, ele escolheu M. Samuel
Procter, que fazia negcios florescentes com Madagascar. Esta nomeao parece
ter acontecido em 1862, quando Radama II encomendou aos Srs. Procter e
Bros, de Londres, uniformes para os soldados malgaxes. Para Paris, foi nome-
ado cnsul geral, em 1876, um mercador francs bem conhecido e muito ligado
a Madagascar, Sr. Hilarion Roux. Para a Ilha Maurcio, o cnsul malgaxe foi
Hippolyte Lemiere, um dos membros do Conselho Legislativo da ilha e um
importante negociante69. Em 1881, para encorajar ainda mais o comrcio, foi
criado o ministrio do comrcio e da indstria, geralmente chamado ministrio
"para o encorajamento das artes industriais e das manufaturas".
    No campo do comrcio internacional, os dirigentes malgaxes estimularam,
simultaneamente, as empresas privadas e as empresas do Estado. Os principais
funcionrios do governo, detentores de capital suficiente, criaram empresas e
comerciaram frutuosamente com a Ilha Maurcio, a Reunio e, at mesmo,
com a Europa. Dentre os mais ativos encontrava-se Rainilaiarivony, o prprio
primeiro ministro. O agente de Rainilaiarivony na Ilha Maurcio era o cnsul
Lemiere, com o qual ele possua uma conta bancria pessoal destinada  com-
pra de produtos de luxo  notadamente, vestimentas  da Ilha Maurcio e da
Europa. Entretanto, o papel dos indivduos apenas completava aquele do Estado.
Como j destacamos, foi o prprio governo que estabeleceu relaes comerciais
com as potncias estrangeiras e os residentes estrangeiros, graas  assinatura
de tratados,  criao de consulados e  outorga de concesses aos capitalistas
estrangeiros, destinadas  explorao de recursos minerais e naturais do pas. As
tradies e a constituio malgaxes interditavam a concesso direta de terras aos
estrangeiros, mas o governo consentia em arrendar terras, nas quais os estran-
geiros podiam estabelecer plantaes ou explorar recursos naturais. A primeira
concesso foi outorgada a Joseph Lambert, um aventureiro francs, por Radama,
em 1855, quando ele ainda era prncipe herdeiro; esta concesso, confirmada
sob a forma de tratado em setembro de 1862, foi logo suprimida, mas o governo
habituou-se a conceder outras, principalmente na dcada de 1880, para favorecer
o desenvolvimento do pas, tomando cuidado para evitar todas as condies que


68    Ver, por exemplo, Radama II a Lemiere, 25 de setembro de 1862, anexo, Stenenson a Newcastle, 1 de
      novembro de 1862, PRO,FO 167/443; citado tambm por P. M. Mutibwa, 1972.
69    P. M. Mutibwa, 1972.
Madagascar, 1800-1880                                                                                      515




Figura 16.15 Mulheres escravas tirando gua e pilando arroz em Madagascar, nos anos 1850. [Fonte: W.
Ellis, Three visits to Madagascar, 1858, J. Murray Publishers, Londres. Ilustrao reproduzida com a autorizao
da British Library.]




pudessem ameaar a independncia do pas. De fato, o Cdigo dos 305 artigos,
promulgado em maro de 1881, interditava a venda de terras aos estrangeiros,
cuja punio era a pena de morte.


    Concluso
   Neste estudo, examinamos os esforos de modernizao empregados pelos
malgaxes para dar uma base firme ao desenvolvimento de seu pas. Este processo
comeou com a ascenso do rei Radama I ao trono e foi consolidado na primeira
metade do sculo XIX. O retorno dos estrangeiros, aps 1861, o encoraja-
mento do comrcio exterior e as influncias culturais estrangeiras inauguraram
uma nova era para os malgaxes. O processo de modernizao compreendia a
converso ao cristianismo e a instituio de uma srie de reformas destinadas
a mobilizar os recursos humanos e naturais do pas, de maneira a atingir um
grau superior de desenvolvimento nos campos poltico, social e econmico. Tais
reformas, realizadas pelos dirigentes malgaxes, sobretudo a partir da ascenso
ao trono de Radama II, em 1861, foram cruciais para a evoluo de Mada-
gascar. Insistiu-se em sustentar que a frica foi colonizada porque era pobre
e subdesenvolvida. Por isso, merece ser destacado que Madagascar, durante o
516                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



perodo estudado, por sua vez, empreendeu importantes reformas que, como um
almirante ingls observou em maro de 1881, fizeram dos malgaxes "uma raa
capaz de governar o pas, tornando intil qualquer interveno de uma nao
estrangeira"70. Entretanto, quando chegou o momento da investida "dos euro-
peus", o desenvolvimento no protegeu Madagascar da ingerncia estrangeira.
Aos olhos de alguns, a modernidade havia enfraquecido o reino71; para outros,
as reformas reforaram a resistncia sustentada pelos malgaxes.




70    PRO, FO, 48/34. Extracts from Report of RearAdmiral W. GoreJones.
71    G. Jacob, 1977.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia              517



                                       CAPTULO 17


       Novos desenvolvimentos no Magreb:
             Arglia, Tunsia e Lbia
                                       Mohamed H. Chrif




    Graves desordens afetaram o Magreb ao longo do sculo XIX. O fato mais
destacado foi o naufrgio dos Estados autnomos que o constituam no incio
deste sculo, sob a presso e em benefcio das principais potncias europeias:
desde 1830, o regime argelino, baseado no dei, sucumbia sob o repetido assalto
das foras francesas; a Lbia dos Kramnl caa novamente sob o domnio
otomano direto, em 1835; a Tunsia, governada pelo bei encontrava-se, em
1881, sob o protetorado da Frana, aguardando que a Lbia fosse invadida pelos
italianos em 1911 e que o Marrocos o fosse, por sua vez, pelos franceses e pelos
espanhis, em 1912.  muito evidente que tais acontecimentos polticos no
resumem todas as transformaes sofridas: eles coroam, ou precedem, profundas
mudanas, no que tange  economia,  sociedade e mesmo  cultura que, sem
exceo, atravessaram uma crise extrema ao longo do sculo XIX.
    Foi nesta poca que comearam a se afirmar o "desenvolvimento" de uns (dos
pases capitalistas europeus) e o "subdesenvolvimento" de outros (do Magreb,
no nosso caso)1. Uma abundante literatura contempornea ensina-nos que os
dois fenmenos esto intimamente ligados. Desta forma,  intil investigar as
causas das dificuldades da frica do Norte, no sculo XIX, em uma conjuntura
puramente local e atribu-las unilateralmente, como foi feito em uma certa


1    E. J. Hobsbawn, 1977; L. Valensi, 1978.
518                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



poca, ao "arcasmo", s "falhas" e ao "atraso secular" prprios das civilizaes da
frica do Norte e, de um modo geral, no europeias.
   No incio do sculo XIX, o Magreb ainda conhecia um relativo equilbrio,
do qual estudaremos os fundamentos e avaliaremos as foras e fraquezas. Este
equilbrio foi brutalmente rompido, logo depois de 1815, desde que comeou
a ser exercida a expanso europeia, em uma frica do Norte to prxima e h
tempos ligada  Europa por relaes belicosas (a guerra de corso) ou pacficas
(comrcio). Em diferentes momentos e seguindo modalidades diversas, depen-
dendo das condies locais, o impacto europeu se fez sentir no Magreb e pro-
vocou a, a curto prazo, diferentes situaes segundo os pases e, a longo prazo,
os mesmos abalos e o mesmo resultado: o domnio colonial.
   Na poca, o espao magrebino dividia-se entre um pas juridicamente inde-
pendente, o Marrocos dos alauitas e trs regncias que tinham o estatuto jurdico
de provncias do Imprio Otomano, mas que, de fato, dispunham de uma quase
total autonomia: o pas de Argel, onde dominava um dei eletivo; o de Tnis onde
reinava, desde 1705, a dinastia dos beis husseinitas; a regncia de Trpoli, por
fim, nas mos da famlia dos Kramnl a partir de 1711. Quais traos comuns
apresentavam os regimes das regncias otomanas e a que tipos de sociedades
impunham seu domnio?


      O Makhzen no incio do sculo XIX2
    Em Argel, Tnis ou Trpoli, o Estado, ou aquilo que funcionava em seu
lugar  o Makhzen, segundo a consagrada denominao , se materializava por
um aparelho poltico-militar mais ou menos sobreposto, marginal em relao ao
corpo da sociedade que ele dominava. Os senhores do poder  turcos mais ou
menos assimilados, segundo a situao de cada regncia e os shrf, no Marrocos
 acreditavam possuir uma essncia diferente daquela de seus sditos. Em seu
crculo, os mais altos cargos eram frequentemente confiados aos mamlk, antigos
escravos de origem crist, convertidos e convenientemente domados para os
servios da corte ou do exrcito. O pilar dos regimes era constitudo por corpos
militares estrangeiros, a saber, as milcias de janzaros turcos. O essencial dos
meios de dominao da sociedade muulmana era buscado fora do pas ou do
corpo social: as moedas fortes (piastras espanholas, em particular), atradas pelo
comrcio martimo ou pela guerra de corso; as armas "modernas" e seus especia-

2     A. Laroui, 1970, p. 244-267; M. H. Chrif, 1977.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                              519



listas para o exrcito; o papel para escrever e os nmeros (manejados pelos con-
tadores judeus) para a "administrao". Tais meios, por mais rudimentares que
pudessem parecer em comparao com seus equivalentes na Europa, gozavam
de grande eficcia em sociedades nas quais eram pouco familiares. O Makhzen
colocava-se em uma posio intermediria, entre a "modernidade" europeia ou
turca e o "tradicionalismo" das sociedades internas, o que lhe permitia dominar
estas ltimas e explor-las em seu benefcio e, por um lado, em benefcio dos
notveis citadinos e do capitalismo mercantil europeu; este ltimo, com efeito,
fornecia moedas, armas, papel etc., e obtinha produtos dos campos magrebinos.
Esta explorao foi, em grande parte, responsvel por manter as sociedades
rurais interioranas em seu "arcasmo", se no pelo seu declnio3.
    Tambm no faltavam apoios locais ao Makhzen pr-colonial: agrupamen-
tos guerreiros (makhzen) a seu servio; notveis citadinos (fornecendo ka`id ou
governadores; lazzam ou arrendatrios dos direitos do Makhzen; wakl ou admi-
nistradores etc.); grandes famlias rurais em que eram recrutados os shaykh ou
chefes das comunidades locais; homens de religio, fossem eles `ulam' (letrados)
nas cidades, murbits (santos) ou chefes de confrarias nas cidades e nos campos,
representando aliados preciosos ao poder que, de alguma forma, legitimavam, e
em favor do qual eles pregavam a obedincia. A natureza do regime e, em defi-
nitivo, sua expectativa de durao dependiam da maior ou menor extenso destes
apoios locais: em Argel, a preponderncia dos janzaros turcos (pelo menos at
1817) e a dos deis de origem levantina freavam a evoluo do poder rumo a uma
certa integrao, mesmo parcial, enquanto, em Tnis, os beis assimilavam-se ao
pas (continuando a se declararem "turcos"), desde a metade do sculo XVII,
assim como o faziam os Kramnl em Trpoli, desde 1711.


    A sociedade citadina
   De uma forma geral, o mesmo tecido humano, caracterizado pela superiori-
dade das solidariedades de famlias ou linhagens, e a mesma cultura muulmana
estendiam-se de uma ponta a outra do Magreb. Todavia, a sociedade citadina
destacava-se mais na parte "tunisiana". Por sua vez, a kabla era mais difundida
na Lbia, a ruralidade preponderante no pas de Argel e a montanha berbere
mais influente no conjunto marroquino. Isto j  um indcio da heterogeneidade
do meio humano magrebino: da podemos distinguir, grosso modo, os citadinos

3    Tais consideraes encontram-se largamente desenvolvidas em M. H. Chrif, 1979a.
520                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 17.1 Interior da mesquita de Ketchawa (erguida em 1794), em Argel, em 1833. [Fonte: C. A. Julien,
Histoire de l'Algerie contemporaine. Conqute et colonisation, 1964, PUF, Paris. Ilustrao reproduzida com a
autorizao da Biblioteca Nacional, Paris.]
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                                 521



(h`adhar), os sedentrios aldees, os homens das kabla e os montanheses, sobre-
tudo berberes.
    A cidade, como sabemos,  inseparvel da cultura islmica: da a importncia
de seu papel no espao magrebino de Rabat e Fez, a Oeste, at Benghazi e Tr-
poli, a Leste, passando por Tlemcen, Argel, Constantina, na regncia de Argel,
e por Tnis, Sousse e Kairouan, na regncia de Tnis4. As cidades representa-
vam no mximo 10 a 15 % da populao magrebina, mas elas concentravam as
atividades mais lucrativas e as funes mais importantes: comrcio e artesanato
(cujos certos setores frisavam o estgio capitalista, como a fabricao da chechia,
o chapu tradicional tunisiano, em Tnis5), magistrio espiritual (cultura, ensino
e justia religiosa, totalmente fundados no texto escrito), exerccio do poder
poltico, administrativo e militar (o Makhzen representa a cidade e, depois, seu
prolongamento nos campos). Portanto, a cidade diz respeito  economia mone-
tria (em contraste com a economia de subsistncia dominante nos campos),
 civilizao da escrita (ao passo que o campo  o reino da tradio oral) e 
hierarquizao dos homens (em oposio  organizao por linhagens e, em
princpio, igualitria da sociedade rural). Esses traos parecem-nos marcados o
suficiente para distinguirmos fortemente a sociedade das cidades daquela dos
campos, no obstante uma base familiar e agnatcia comum6.
    Gozando destes mltiplos trunfos, resta saber se a sociedade citadina
encontrava-se suscetvel a evoluir e, em seguida, a arrastar o resto do pas para
transformaes radicais, a exemplo do que se desenrolava na Europa nesta
poca7. Isto recoloca o problema da "burguesia" citadina, de sua fora ou, antes,
de suas numerosas fraquezas: as tcnicas e meios empregados permaneciam,
no conjunto, "tradicionais", de fraco rendimento e de baixo nvel; o domnio
econmico da cidade sobre o campo era bem limitado (em razo da importn-
cia, aqui, da economia de subsistncia e da resistncia das coletividades rurais
 sobretudo das kabla); a concorrncia do capitalismo mercantil europeu era
severa no exterior e chegou at mesmo a assegurar e a controlar as relaes, por


4    L. Valensi, 1969a, p. 50-61; P. Bourdieu, 1970, p. 54-57; J. Berque, 1978, p. 115-117, 221-230, 398-401,
     434-440; R. Gallissot e L. Valensi, 1968; D. Sari, 1970, p. 3-12 e 32-56.
5    L. Valensi, 1969b.
6    L. Valensi, 1977, insiste sobre a homogeneidade do corpo social magrebino, caracterizado pela pre-
     ponderncia das relaes agnatcias patrilineares. De nossa parte, somos sensveis s diferenas entre as
     sociedades rurais e as sociedades citadinas, e temos destacado as especificidades dessas ltimas vrias
     vezes, particularmente em M. H. Chrif, 1979b, e notadamente p. 235-277.
7    R. Gallissot e L. Valensi, 1968, p. 58-60; L. Valensi, 1978, p. 574-586; A. Laroui, 1970, p. 244-267; J.-C.
     Vatin, 1974, p. 104-110.
522                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 17.2 Uma escola cornica em Argel, 1830. [Fonte: C. A. Julien, Histoire de l'Algerie contemporaine.
Conqute et colonisation, 1964, PUF, Paris. Ilustrao reproduzida com a autorizao da Biblioteca Nacional,
Paris.]
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                     523



vias martimas, entre os diversos pases islmicos. Esses mltiplos entraves, na
realidade, interditaram um desenvolvimento autnomo  burguesia comerciante
e artesanal. Esta tambm sofreu a tutela protetora  porm, paralisante  do
Makhzen, desde que seus negcios ultrapassavam uma certa importncia. No
interior, o capital "burgus" foi investido de preferncia no arrendamento (lizma)
das taxas8; no exterior, a associao comercial com um grande personagem era de
praxe: os judeus Bacri e Busnach com o dei de Argel, assim como Hadjdj Ynis
ibn Ynis, da ilha de Djerba, com o primeiro ministro tunisiano, por volta de
1800. Contido o seu desenvolvimento, a "burguesia" citadina no podia fomentar
a transformao do conjunto da sociedade.


     A sociedade rural
   Os contemporneos distinguem claramente o citadino (h`adhar) do homem
do campo (badaw). Quais os fundamentos desta distino? De um lado reinava
a cultura escrita, elaborada, e do outro, a oralidade e a tradio repetitiva; no
plano religioso, de um lado o `lim (sbio) ensinava a lei, do outro, o marabuto
operava e o "culto audiovisual" triunfava9. No plano material, a moeda e as ativi-
dades postuladas por ela animavam a vida das cidades, ao passo que a economia
de subsistncia e o fraco desenvolvimento demogrfico e tecnolgico das foras
produtivas caracterizavam os campos. Do ponto de vista social, se, na cidade,
a hierarquizao, assim como a individualizao, se faziam sentir, nos campos,
por outro lado, a organizao por linhagens, ou mais exatamente, patrilinear,
dominava; os grupos humanos se definiam por sua ligao  mais mtica que
real  a um ancestral epnimo ("filho de..."). A sociedade beduna apresentava-
-se formada de "segmentos" justapostos, aliados ou opostos, segundo certas
regras ditadas menos pelas ligaes de sangue do que pelo meio natural ou pela
necessidade de equilbrio do conjunto10. O princpio de linhagem implicava
o igualitarismo terico dos "irmos" ou "primos", em certos casos inimigos, a
apropriao coletiva do solo e a solidariedade no trabalho. A deciso pertencia a
um shaykh (ou chefe, etimologicamente, "o velho"), "eleito" ou, mais exatamente,
escolhido pelos chefes de famlia, em cada nvel da subdiviso do grupo.



8    M. H. Chrif, n. d.
9    E. Gellner, 1969, p. 7-8.
10   E. Gellner e C. Micaud, 1973, p. 59-66.
524                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Como interpretar esta organizao beduna ou rural, esquematicamente des-
crita? Os segmentaristas veem nela apenas um simples modelo, sem bases mate-
riais reais, uma pura reconstituio "estrutural" e mtica da realidade; tudo seria
linhagem e discurso justificador genealgico, nas khabla, nas aldeias e, talvez, at
no ncleo das cidades11. Obviamente, esta interpretao foi objeto de crticas:
acusaram-na de fazer pouco caso dos elementos materiais reais da organizao
social, preferindo as bases biolgicas destes agrupamentos elementares  adap-
tao a um meio natural muito presente, e de analisar as comunidades rurais
sem referncia ao ambiente islmico ou ao Makhzen, desconhecendo tambm
o fator da evoluo histrica etc.12
    De nossa parte, limitamo-nos a constatar que se os traos "segmentares"
eram bem marcados nos lugares retirados e entre as populaes afastadas. Por
outro lado, atenuavam-se ou desapareciam nos campos abertos s influncias
da cidade ou do mercado: as plancies circundantes das cidades (em um raio
de uma dezena a uma trintena de quilmetros, segundo estimamos13), os osis
ligados ao grande trfico e algumas regies especializadas em um produto alta-
mente comercializado (gros das zonas do mulk [propriedade] cerealfero, leos
do Sahel tunisiano etc.). A, a influncia da cidade se fez sentir na economia
(dinheiro ou capital in natura), no regime fundirio (afirmao da proprie-
dade regida pelo direito escrito) e nas relaes sociais  implicando, em parte,
subordinao e explorao (nestas zonas, a personagem do khamms [rendeiro]
 familiar)14. Mesmo que a referncia genealgica permanecesse fundamental
e a pequena explorao familiar muito difundida nestes setores "abertos", estes
no menos apresentam uma certa originalidade, em relao s regies "tribais"
ou montanhosas.
    Extremamente diversas, fragilmente integradas e explorando uma tecnologia
"tradicional" de baixo rendimento, as sociedades magrebinas e o Makhzen que
as dominava, em parte, graas a meios importados, certamente apresentavam
muitas fraquezas, mas conseguiram, apesar de tudo, manter um equilbrio que,
aps 1815, seria irremediavelmente comprometido pelo retorno, em fora, das
frotas e dos aproveitadores europeus.




11    Ver supra, notas 6, 9 e 10.
12    A. Laroui, 1977, p. 174-178; L. Ben Salem, 1982.
13    M. H. Chrif, 1979b.
14    S. Bargaoui, 1982.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                         525



     A ofensiva europeia
    Em 1815, as guerras napolenicas chegavam ao fim e tal ofensiva euro-
peia, apoiada em foras, desde ento, irresistveis, se lanava ao Magreb e, logo,
ao resto do mundo. At 1850-1860, as exigncias do mercado eram as mais
imperativas, pois a produo crescia no ritmo da industrializao na Europa,
os preos baixavam atravs do mesmo movimento e os termos de troca se dete-
rioravam. Na severa conjuntura da poca, a concorrncia se exacerbava e a pol-
tica europeia de expanso alm-mar tornava-se mais agressiva15. Desde 1816,
a frota inglesa de lorde Exmouth, seguida, em 1819, por aquela do almirante
Freemantle, acompanhada desta vez pela diviso naval francesa do almirante
Jurien, vinham declarar s potncias "berberes" a interdio da guerra de corso,
decidida pelo concerto das naes europeias. Porm, por trs deste nobre motivo,
dissimulavam-se intenes mercantis, pois que os franceses reclamaram grandes
vantagens comerciais para seus nacionais  sobretudo, provenais  e os ingle-
ses, para seus clientes italianos e espanhis  rivais dos franceses. Iniciava-se
uma poltica promissora, cuja finalidade era a submisso dos pases magrebinos
s exigncias, cada vez mais fortes, da economia e da poltica europeias16. As
instrues dadas ao novo cnsul da Frana, enviado a Tnis  frente de uma
esquadra, em 1824, destacavam "a necessidade de recolocar esta potncia infe-
rior (a regncia) em relaes convenientes  dignidade e aos interesses do reino
(da Frana)"17. O comrcio europeu, e sobretudo francs, extraiu os maiores
benefcios desta "necessidade", pois que se desenvolveu rapidamente graas a
um regime excepcionalmente vantajoso, cuja injustia era revoltante: todas as
combinaes, mesmo as mais suspeitas, tinham de antemo seu sucesso garan-
tido, graas ao apoio do interesseiro cnsul europeu. "Se no houvesse berberes,
seria preciso cri-los", gritava um dos negociantes franceses estabelecido em
Tnis18. Do mesmo modo, a "honra nacional" encontrava no Magreb satisfaes
ou compensaes sem grandes esforos: sabe-se que a expedio de Argel, em
1830, foi decidida por um regime em apuros, ansioso por restaurar seu prestgio
e consolidar suas posies na prpria Frana.



15   R. Schnerb, 1957, p. 44-45; M. H. Chrif, 1970.
16   A. Laroui, 1970, p. 275 e seg.
17   Arquivos do Quai d'Orsay, Correspondncia consular, Tnis, vol. 44: "Instrues ao Cnsul geral da
     Frana em Tnis, na data de 28 de novembro de 1823".
18   Ibid., vol. 48, carta de 10 de outubro de 1830 (Deliberaes da "nao" francesa em Tnis).
526                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Paralelamente ao comrcio, desenvolveram-se negcios de toda ordem e, em
particular, operaes de emprstimo ou de usura. Um exemplo dentre outros: na
falta de dinheiro, o bei de Tnis habituou-se a vender aos negociantes europeus,
com recebimento adiantado, o leo de seu pas, cujo comrcio ele monopolizava;
em 1828, dado a m colheita, tais negociantes exigiram e obtiveram o reembolso
de seus adiantamentos, segundo a cotao do leo em Marselha19. Entretanto, os
aborrecimentos do bei no haviam terminado. Nos anos 1830, o peso das dvi-
das  renovadas  recaiu, de um lado, sobre alguns grandes personagens, como
o primeiro ministro, totalmente arruinado nesta ocasio, e, de outro, sobre os
produtores de leo do Sahel, que tiveram de pagar mais de 2 milhes de francos
entre 1832 e 184520. Com uma suprema sutileza, os negociantes obrigaram o
bei a exigir de seus sditos o dinheiro, e no o leo, como reembolso de seus
adiantamentos, a fim de reservar para si os benefcios do comrcio deste gnero:
eles tomaram o lugar do bei na prtica dos adiantamentos aos produtores antes
da colheita, e desde 1838, um certo nmero destes, devedores inadimplentes,
viu seus bens serem confiscados21.
    A engrenagem dos emprstimos entrava em funcionamento: em seguida,
s se desenvolveria mais. Por volta de 1860, quando os capitais abundavam na
Europa e a taxa de juros baixava, quando os Estados magrebinos  ainda inde-
pendentes em sua maior parte  se engajavam rumo s "reformas", sugeridas
pelos cnsules e conselheiros estrangeiros, a penetrao europeia tomou um
outro caminho: de mercante, tornou-se mais financeira. A Arglia se abriu s
empresas capitalistas (a "colonizao de luvas amarelas"22 no domnio agrcola,
os bancos, as empresas de obras pblicas, as minas etc.)23.
    O fenmeno mais tpico ocorreu na Tunsia, cujas finanas foram drastica-
mente reorganizadas e, logo, colocadas sob tutela europeia, no espao de uma
dezena de anos (entre 1859 e 1869, aproximadamente). Empurrado para a via
da "modernizao" e das grandes obras pelos cnsules francs e ingls da poca,
o governo do bei se lanou em despesas insensatas para pagar  Europa, a custos
exorbitantes, um material militar ou naval obsoleto (por exemplo, canhes inu-
tilizados de um velho modelo, em 1865), e para fazer com que concessionrias

19    M. H. Chrif, 1970, p. 741-742; K. Chater, 1984, p. 335-338.
20    Arquivos gerais do governo tunisiano, registros nmeros 2348, 2349, 2433 etc., citados por I. Sadoui,
      em uma dissertao sobre o comrcio exterior tunisiano na primeira metade do sculo XIX, 1980.
21    Ibid. e L. Valensi, 1977, p. 343.
22    Os "colonos de luvas amarelas" eram legitimistas fiis a Carlos X de Frana, que escolheram deixar a
      Frana para no viver sob o regime da Monarquia de Jlio. (N. T.)
23    A. Rey-Goldzeiguer, 1977, p. 583-606.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                            527



estrangeiras, a condies muito onerosas, efetuassem obras de utilidade duvidosa
(reparo do aqueduto romano de Cartago, construo de hotis consulares para os
representantes das potncias europeias, a partir de 1859 etc.)24. Fatalmente, o bei
foi levado a se endividar cada vez mais, primeiro junto aos corretores e agentes
financeiros locais  sobretudo judeus de Livorno, sob proteo europeia  que
detinham, em 1862, cerca de 28 milhes de francos de crdito, subscritos pelo
governo a taxas usurrias25.
    A partir de 1863, o bei apelou ao crdito exterior, em princpio menos one-
roso que o crdito local, e emprstimos  autorizados pelo governo francs 
foram lanados na praa de Paris. Porm, gordas comisses, propinas, intrigas,
ou verdadeiras trapaas, em benefcio de homens de negcios ludibriosos euro-
peus (os banqueiros judeus de origem alem, Erlanger e Oppenheim, o diretor
do Banco de Desconto Pinard etc.) e de agentes pouco escrupulosos do bei (o
primeiro ministro Musthaf Khaznadr) reduziram a um valor insignificante
as somas emprestadas e realmente recebidas pelo beylik26. Estes emprstimos
aumentaram rapidamente a dvida nacional: cerca de 100 milhes de francos
no incio de 1866, 160 em fevereiro de 1870, para receitas anuais do Estado da
ordem de 10 a 15 milhes de francos27.
    Em confronto com uma conjuntura muito difcil (as ms colheitas de 1866 a
1870, bem como a fome e a epidemia de 1867), o governo do bei logo entrou em
falncia: as potncias francesa, inglesa e italiana impuseram ao bei uma comis-
so financeira internacional que passou a controlar todos os rendimentos do
Estado tunisiano, a fim de assegurar o pagamento da dvida pblica (5 de julho
de 1869) em anuidades fixadas em 6 milhes e meio de francos28. O perodo de
1870 a 1881 foi marcado por uma certa trgua poltica na Tunsia, favorecida
pelo sumio da Frana aps sua derrota, e pela honesta e esclarecida gerncia
de Khayr al-Dn, primeiro ministro de 1873 a 1877. Mas a penetrao capi-
talista continuou atravs dos organismos bancrios: The London Bank of Tunis,
associado aos Baring, Glynn, Mills etc., de 1873 a 1876; a Socit Marseillaise
de Crdit, sustentada pelo Crdit Industriel e associada aos irmos Preire, bem
como ao Banco de Desconto, ao Banco dos Pases Baixos etc., sobretudo de
1877 a 1881. Operando atravs de filiais ou em associao com certas empresas


24   A. Ibn Ab-Dhiyf, 1963-1964, tomo IV; p. 261-264; J. Ganiage, 1959, p. 190-192.
25   J. Ganiage, 1959, p. 195.
26   Ver J. Ganiage, 1959, p. 203-216, e M. Bdira, 1978, p. 121-124.
27   J. Ganiage, 1959, p. 335-402.
28   Ibid.
528                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



industriais, como a Socit des Batignolles, os consrcios capitalistas arrancaram
vantajosas concesses de um bei desarmado: bancos privilegiados, vias ferrovi-
rias, minas, portos e imensos domnios fundirios29. Por meio de sua interveno
nos trabalhos de infraestrutura e na produo, o capitalismo preparou a via para
a colonizao direta do pas. Pelos interesses em jogo, ele convocou e justificou
antecipadamente a interveno poltica, a saber, a expedio militar que tendeu
rapidamente ao estabelecimento do protetorado francs na Tunsia, aos 12 de
maio de 1881.
    Na Arglia, a penetrao europeia tomou um rumo um pouco diferente, em
razo da precoce conquista do pas, em 1830. Alm dos inevitveis interesses do
capitalismo mercantil e, depois, bancrio, os colonos manifestaram seu apetite
pelas terras argelinas e reclamaram-nas s autoridades. Estas lhes outorgaram
as terras solicitadas por diversos meios: confiscaes (sobretudo aps as grandes
revoltas, como aquela de 1871)30; acantonamento, do qual foram objeto e vti-
mas as comunidades rurais (a princpio, em virtude das ordens e das circulares
militares dos anos 1840)31; encorajamentos  diviso das terras "coletivas" e 
mobilizao da propriedade (lei de 26 de janeiro de 1873, por exemplo)32. Um
certo nmero de tentativas de proteo da propriedade local (comunal, em
particular), como o senatus-consulto de 1863, no teve xito face  presso do
meio "colonialista". Em 1882, a propriedade europeia j monopolizava cerca de
1.073.000 hectares (em 1890, 1.337.000), principalmente na zona do Tell33. Sem
grandes esforos, podem-se adivinhar as consequncias disto para a sociedade
autctone.


      Os fatores da mudana
   Sob diversas formas, direta ou indireta, mercantil ou financeira, a penetrao
europeia teve por efeito o rompimento do antigo equilbrio do Magreb. Quais
foram os principais agentes de transformao e segundo qual processo esta
ocorreu? Qual foi o impacto da presso europeia sobre as diferentes categorias
da populao?


29    Ibid., p. 421-426, 463-471, 564-588, 600-608 e 640-661.
30    C. R. Ageron, 1968, vol. I, p. 24-36.
31    C. A. Julien, 1964; A. Rey-Goldzeiguer, 1977, p. 139.
32    C. R. Ageron, 1978, vol. I, p. 78-88.
33    Ibid., p. 94-102.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                    529



    O comrcio martimo, efetuado por negociantes europeus  ou, em raros
casos, por seus agentes ou aliados locais  foi o primeiro destes fatores de
mudana. Ele enfraqueceu gradualmente, at tomar seu lugar, o grande comrcio
tradicional caravaneiro, ou mesmo martimo com o Oriente Mdio34, exceto o
trfico transaariano da Lbia, que retomou o vigor, por volta de1845, e manteve
suas posies aproximadamente at 188035. No prprio Magreb, os produtos
industriais da Europa (txteis, produtos metalrgicos, material militar etc., at
polainas) e os gneros coloniais importados (acar, ch e caf) ganharam muito
rapidamente a rica clientela magrebina, seguida por categorias sociais mais
amplas. As importaes incharam muito mais rpido que as exportaes, provo-
cando uma hemorragia monetria de mltiplas consequncias, notadamente no
que concerne s reservas36. Em segundo lugar, o produto europeu manufaturado
entrou em concorrncia com o produto artesanal similar e acabou suplantando-o
junto  clientela abastada do pas ou do exterior: um caso tpico foi o da chechia
tunisiana (toca de l vermelha), cujas exportaes, at 1861-1862, chegaram a
aproximadamente 3 milhes de francos por ano; em 1864-1865, apenas repre-
sentavam a metade desta soma; depois, em 1869-1870, contavam 850.000 fran-
cos; para, enfim, em 1875-1876, cair para 250.000 francos por ano37.  verdade
que a concorrncia europeia prejudicava basicamente a produo artesanal de
luxo e o grande comrcio, mas o pequeno arteso, tal como o pequeno mercador,
tambm eram lesados pela perda da clientela abastada, pela desordem monetria,
pela fiscalizao tentacular e, por fim, pela pauperizao geral.
    Este processo, bem como a monetarizao da economia em benefcio de uma
minoria, foram responsveis pelo uso generalizado do emprstimo ou, antes, da
usura. Alm do endividamento do beylik em Tnis, o qual j evocamos, a usura
exerceu seus estragos at as partes mais remotas dos campos: a correspondncia
dos kh`id [governadores de provncias] tunisianos incidia regularmente sobre a
questo dos crditos  sobretudo em favor dos negociantes europeus, mas tam-
bm, de certos notveis locais  no honrados. Nos registros notariais, conserva-
dos a partir de 1875 na Tunsia, abundam os emprstimos usurrios contratados
por humildes camponeses junto a agiotas locais sobretudo judeus38. A situao
foi provavelmente pior na Arglia, onde "infelizmente,  mais do que evidente


34   L. Valensi, 1969a, p. 70-83; N. Sadouni, s.d., p. 39-40.
35   J.-L. Mige, 1975.
36   M. H. Chrif, 1970, p. 728-729; L. Valensi, 1978, p. 583.
37   P. Pennec, 1964, p. 257.
38   S. Bargaoui, 1983, p. 353-357.
530                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



que os progressos da usura [...] foram uma consequncia da ocupao francesa",
confessou o general Martimprey, subgovernador da Arglia, em 1860. As revol-
tas e as represses que as seguiram, a desagregao das kabla e das estruturas
tradicionais, a introduo da economia monetria e dos aproveitadores de toda
espcie at as partes mais remotas dos campos, tudo isso, acrescido dos danos
provocados pelo clima e da avidez do fisco, favoreceu o desenvolvimento da
usura, uma das "sete chagas" da Arglia colonial39.
    Ligada s dificuldades do Estado na Tunsia e no Marrocos, e  explorao
colonial na Arglia, a fiscalidade, por sua vez, tornou-se pesada, devoradora. Sob
os estmulos da necessidade, o bei da Tunsia estabeleceu, desde o incio dos
anos 1820, uma espcie de monoplio do comrcio do leo  principal produto
de exportao.
    Ele teve de renunciar ao monoplio atravs do tratado imposto pela Frana,
logo aps a tomada de Argel, em agosto de 1830. Contudo, ele introduziu
novos monoplios e multiplicou as contribuies indiretas e os arrendamentos
de impostos nos anos 184040; fez uma atualizao das taxas e da base tributvel
dos antigos impostos que pesavam sobre a produo, e instituiu um imposto
de capitao (i`na ou majba), em 185641. A grande revolta tunisiana de 1864
foi provocada pela deciso de dobrar a taxa desta majba. Com alguns anos de
atraso, o Marrocos conhecia as mesmas dificuldades financeiras que a Tunsia
e recorreu aos mesmos desastrosos expedientes para enfrent-las42. Na Arglia,
os autctones foram obrigados a pagarem os tradicionais "impostos rabes" e
novos "impostos franceses" (lembremos, em particular, a aberrante tarifao
comunal que fez Jules Ferry dizer, em 1892, que se tratava da "explorao do
nativo a cu aberto"). Tambm tiveram que pagar impostos indiretos, o mon-
tante em dinheiro das diversas corveias, sem falar nas pesadas indenizaes de
guerra, em caso de revolta (aquela que se seguiu  insurreio de 1871 absorveu
aproximadamente 70% do valor das terras dos cabilas43).
    Na nova situao criada pelo abalo das estruturas econmicas e sociais, e
pelo esgotamento das populaes pela fiscalizao e usura, as tradicionais crises
ligadas ao clima  mais numerosas no sculo XIX que no XVIII, ao que parece


39    C. R. Ageron, 1968, vol. I, p. 370-372 e 383-386; A. Rey-Goldzeiguer, 1977, p. 171-172 e 484-485.
40    A. Ibn Ab-Dhiyf, 1963-1964, vol. IV, p. 43-48, 55-56, 80-83, 144-156; L. C. Brown, 1974, p. 134-137
      e 340-349; K. Chater, p. 553-560.
41    A. Ibn Ab-Dhiyf, vol. IV, p. 203-208; J. Ganiage, 1959, p. 101-102.
42    J.-L. Mige, 1961-1963, vol. II, p. 225-243; G. Ayache, 1979, p. 97-138.
43    C. R. Ageron, 1968, vol. I, p. 249-265. Citao de Jules Ferry, p. 452.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                                531



 tomaram, desde ento, propores catastrficas. Aquelas de 1866-1869, na
Tunsia e na Arglia, e de 1878-1881, no Marrocos, fizeram um corte na popu-
lao e enfraqueceram, irremediavelmente, a economia e a sociedade local44.


     Os beneficiados da crise
    Como alhures, aproveitadores se beneficiaram da situao que prevaleceu
no Magreb da poca. Primeiramente, a colnia europeia, contando na Arglia,
aproximadamente 164.000 indivduos em 1855, 245.000 em 1872 e 375.000
em 188245. Na Tunsia, ela aumentou para cerca de 11.000 pessoas em 1856,
14.000 em 1870 e por volta de 19.000 em 188146. Na Lbia, os efetivos conti-
nuaram fracos at os primeiros anos do sculo XX. Ainda que a maioria destes
europeus da Arglia e da Tunsia tivesse uma condio modesta, eles tambm
se encontravam em uma posio muito privilegiada em relao  maioria dos
autctones. Da mesma forma, uma minoria de judeus conseguiu se integrar, de
uma forma ou de outra, nos circuitos capitalistas europeus e se beneficiou com
o papel de intermediria entre tais circuitos e a massa dos autctones47. Alguns
muulmanos, embora raros, chegaram a desempenhar este papel: agentes dos
cnsules, corretores e, sobretudo, associados das casas de comrcio europeias, que
rapidamente buscaram se livrar da autoridade muulmana para se colocarem sob
a proteo dos cnsules europeus na Tunsia, Lbia e Marrocos48. Mais clebre
foi o caso dos grandes servidores do Makhzen que exploraram suas funes para
se enriquecer desmedidamente, favorecidos pelas turvas circunstncias sofridas
pelo pas: assim, Musthaf Khaznad, primeiro ministro tunisiano de 1837 a
1873, acumulou uma fortuna estimada, por baixo, em aproximadamente 25
milhes de francos, cuja maior parte foi depositada na Frana49.
    Nos campos, o poder colonial na Arglia e a autoridade enfraquecida do
bei na Tunsia tiveram que se apoiar sobre certas autoridades, que exerceram
uma espcie de poder "feudal" em detrimento de seus administrados, tais como


44   L. Valensi, 1977, p. 307 e 315; J. Poncet, 1954, p. 316-323; A. Rey-Goldzeiguer, 1977, p. 441-493.
45   C. R. Ageron, 1979, p. 118-119.
46   J. Ganiage, 1959, p. 44-45; A. Mahjoubi, 1977, p. 33, nota 84.
47   J. Ganiage, 1959, p.312-313; A. Laroui, 1977, p. 310-314.
48   Primeiros passos da questo da proteo "infiel" concedida a muulmanos, relatados de uma maneira
     favorvel  tal proteo em Ibn Ab-Dhiyf, 1963-1964, vol. IV, p. 117-118; J. Ganiage, 1959, p. 181-182.
     Para o Marrocos, ver A. Laroui, 1977, p. 251-254 e 314-315; B. Brignon et al., 1967, p. 291 e 294.
49   J. Ganiage, 1959, p. 426-436.
532                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



Mukrn, at sua revolta e morte em 1871, na Arglia50, e `Al ibn Khalfa, no
Sudeste tunisiano, de 1840 a 1881 (antes de ele comandar a resistncia contra
a Frana nesta ltima data e antes de seu exlio na Lbia)51. Parece-nos ser da
mesma ordem a ascenso de certas famlias religiosas que monopolizaram, here-
ditariamente, os altos cargos, fosse do isl letrado e quase oficial (sobretudo na
Tunsia)52, fosse do isl confrrico (na Arglia e no Marrocos)53.


      As vtimas da crise
   As vtimas foram inmeras a sofrer da conjuno dos mltiplos fatores j
evocados: ms colheitas, consequncias da integrao do Magreb ao mercado
mundial, fiscalidade imoderada, aos quais se juntaram, no caso da Arglia, as
devastaes da guerra de conquista e os rigores da lei do vencedor, que implicou
na monopolizao de uma parte das melhores terras por uma minoria estran-
geira. Disso resultou, sem tardar, a pauperizao quase generalizada e a desor-
ganizao das estruturas tradicionais, conduzindo, inevitavelmente,  catstrofe
econmica e demogrfica, como foi o caso da crise de 1866-186954.
   Quais foram as reaes das vtimas? A princpio, a resignao "fatalista",
denunciada  porfia por todos os observadores europeus das sociedades muul-
manas no sculo XIX: "A resignao  ainda mais forte que a clera neste
extraordinrio isl", ou, antes, "nesta nova confederao dos mortos de fome",
escreveu Masqueray, em 1892, a propsito dos muulmanos da Arglia55. Destas
disposies, como, anteriormente, da vontade de lutar, teriam aproveitado os
monges maometanos locais e confrarias, raras barreiras de resistncia em um
mundo que partia  deriva56. Desde o princpio do sculo XIX, no sem relaes
com os graves acontecimentos que agitavam certas regies do mundo desta
poca, e logo, o prprio Magreb, constata-se uma clara reativao da instituio
confrrica: entre os plebeus darkwa, em revolta contra a ordem turca nos pri-
meiros anos do sculo XIX, entre os notveis tijniyya, inclinados  meditao

50    M. Lacheraf, 1978, p. 53-60; biografia de Mukrn em A. Rey-Goldzeiguer, 1977, p. 775.
51    A. Kraiem, 1983, p. 145-158.
52    A. H. Green, 1978, p. 93-95. A tendncia exclusivista das grandes famlias religiosas se acentuou a partir
      dos anos 1860 e depois, no sem relao com a crise do pas e do regime.
53    Ver infra, notas 55 e 56 abaixo.
54    Ver supra, nota 43.
55    Citado por C. R. Ageron, 1968, vol. I., p. 128.
56    J. Berque, 1978, p. 423-429.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                             533



interna e ao compromisso com as autoridades (at mesmo francesas, aps 1830),
entre os kadiryya e os rahmniyya, que dirigiram, em um momento ou em outro,
a luta contra o ocupante. O fenmeno foi particularmente bem observado e
estudado na Arglia, onde o desmantelamento do isl letrado e citadino e, de
uma forma geral, dos quadros tradicionais da sociedade teria uma vez mais feito
refluir as massas muulmanas para os zwiya (santurios) e confrarias57. Parece-
-nos que, tambm na Tunsia do sculo XIX, estas ltimas manifestaram uma
nova vitalidade, aps um longo perodo de relativa atonia, e que certos monges
maometanos ou representantes de confrarias ganhavam um destaque particular
na poca58. Tal tendncia era ainda mais clara no Marrocos, terra predileta dos
zwiya e das confrarias!
    Na outra extremidade do Magreb, nos confins do Egito, foi fundada, em
1843, a zwiya sansiyya, que, em cerca de sessenta anos, edificou uma verda-
deira potncia religiosa e poltica, no somente em Cirenaica, como tambm
para muito alm, no Sudo, no Saara e alhures: por volta de 1900, ela contava
com at 146 filiais59. Embora faltassem estudos precisos sobre as relaes entre
a agresso europeia e o desenvolvimento marabuto e confrrico, no hesitamos
em observar uma ligao de causa e efeito entre os dois fenmenos.
    Outra consequncia da penetrao ou da conquista europeia: as revoltas se
multiplicaram, ganhando cada vez mais amplitude no Magreb do sculo XIX.
Forma elementar de resistncia ou meio de sobrevivncia, o ato individual de
banditismo, de roubo, de incndio ou de degradao das florestas tornou-se
um fato cotidiano do campo, sobretudo nas pocas de crise (caso da Tunsia
dos anos 1860)60. As revoltas locais tambm foram numerosas, no somente na
Arglia, ocupada at 1881 (data da ltima grande insurreio das kabla no Sul
de Or)61, mas tambm no Marrocos e na Tunsia, onde voltaram  cena, desde
1815, aps uma calmaria de mais de meio-sculo. Algumas, mais estendidas,
mobilizaram vastas regies, seno todo o pas: levantes das kabla e monta-
nheses lbios contra os ocupantes otomanos, ao curso dos quais se ilustraram
lendrios heris  Ghma al-Mahhmd e `Abdul-Djall  e exprimiram-se os


57   C. R. Ageron, 1968, vol. I, p. 293-301; Y. Turin, 1971, p. 110-115, 129-145.
58   L. C. Brown, 1974, p. 174-183; A. Ben Achour, 1977, p. 218-222; A. H. Green, 1978, p. 65-67 (ver notas
     40, 41, 42, 43, 44 em particular).
59   E. E. Evans-Pritchard, 1949.
60   Informaes abundantes sobre a turbulncias dos campos na Correspondncia dos k`d (governadores
     de provncia), conservada nos Arquivos Gerais do Governo tunisiano; M. H. Chrif, 1980.
61   M. Lacheraf, 1978, p. 69-87; Atas do Colquio ocorrido em Argel, em fevereiro de 1982, sobre o tema
     da resistncia armada na Arglia ao longo do sculo XIX.
534                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



lineamentos de uma primeira conscincia "rabe" na luta contra os turcos (por
volta de 1835-1843)62; insurreio de todas as kabla tunisianas, coligadas em
1864 quando o endividamento externo provocou um agravamento da fiscali-
dade; abrasamento da Kabilia e das regies vizinhas na Arglia, em 1871, com
a notcia do advento do regime civil  favorvel aos colonos  e na ocasio da
derrota da Frana frente  Prssia. Todas estas grandes sublevaes fracassaram,
tanto por causa do poder de fogo dos exrcitos regulares, quanto em razo da
diviso  estrutural  das khabla insurgidas.
    As tentativas de reformas empreendidas aqui e acol para restaurar o equil-
brio comprometido revelaram-se completamente ineficazes: ns as estudaremos
no quadro da situao dos diferentes pases magrebinos.


      A Arglia
    Em datas variveis, os pases do Magreb caram sob a dominao europeia
direta: a Arglia, em 1830; a Tunsia, em 1881; a Lbia, em 1911 e o Marrocos,
no ano seguinte.  evidente que esta diferena cronolgica no resulta de sim-
ples acidentes histricos, mas, sim, da intensidade da resistncia interna.
    De todos os regimes magrebinos do incio do sculo XIX, a regncia de Argel
conservara mais nitidamente seus caracteres algenos, pelo menos na esfera
de Argel e do governo central: este no deixava de ser o apangio exclusivo
dos turcos, que souberam manter, por muito mais tempo que em outro lugar,
seus privilgios de "casta" dominante. A razo desta originalidade argelina seria
encontrada na ruralidade mais acentuada do pas em relao ao resto do Magreb:
l, a sociedade era mais dividida e mais segmentada que alhures; a classe "bur-
guesa" (bald), que poderia ter assimilado os conquistadores, era mais fraca; e a
cultura citadina menos desenvolvida.
    Poderamos deduzir disso um certo imobilismo do regime poltico argelino?
 pouco provvel. Ao longo do sculo XVIII, uma espcie de oligarquia restrita,
sempre turca, se consolidou em Argel, em detrimento da turbulenta milcia
dos janzaros; ela recrutou o dei em seu seio e conferiu uma maior estabilidade
s instituies centrais. O sentido da evoluo era claro: recuo progressivo do
elemento puramente militar e algeno, em proveito da frao "poltica" da classe
dirigente. Seu resultado foi a "revoluo" de `Al Khdja, que, em 1817, dominou


62    Arquivos Gerais do Governo tunisiano, caixa 184, autos 1020-1023; ver, em particular, a carta de Ghma
      ao bei de Tnis, datando de 10 d l-ki`da 1271 (fim de julho de 1855), auto 1020.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                                 535



a milcia e se apoiou em elementos locais kologlu (mestios de turcos e rabes)
e zwwa (cabilas)63. Foi exatamente a evoluo "tunisiana" ou "tripolitana", mas
com um sculo de atraso. Nas provncias (beylik) do Leste ou do Oeste, as
mudanas foram mais precoces: desde o sculo XVIII, os beis foram levados a
contar com foras armadas basicamente "rabes" e a praticar uma hbil poltica
de aliana com os notveis locais64. Esta  uma das razes pelas quais a resis-
tncia  ocupao francesa nestas provncias foi mais longa e mais obstinada
que em Argel e em sua regio. Tais ndices de evoluo no impediram que o
regime "argelino", em seu conjunto, conservasse, quase at o fim, seu carter
algeno, gerador de contradies e de conflitos agudos. Graves levantamentos de
origem religiosa  confrrica  sacudiram o Oeste do pas, entre 1803 e 1805, e
uma boa parte da Kabilia, em 1814-181565. Uma espcie de reao "nacional" j
se desenhava antes da conquista francesa; ela prefigurava a empreitada de `Abd
al-Kdir, logo aps esta conquista.
    A expedio de Argel foi decidida por razes de poltica interna francesa,
mas no correspondia muito s exigncias da economia e da sociedade da Frana
da poca: da as flutuaes e as contradies da poltica francesa logo aps sua
vitria. Pensou-se, em particular, na ocupao restrita de certas pores litor-
neas em torno das principais cidades. Em funo disso, o interior do pas foi
entregue a chefes importados (prncipes tunisianos foram propostos em 1830
e 1831), ou escolhidos aps negociaes com aqueles que detinham realmente
o pas: o bei Ahhmad de Constantina, em 1832, e, em seguida, o emir `Abd
Al-Khdir66.
    Ao contrrio do seu rival de Constantina que perpetuou o sistema turco  ou
kologlu , aperfeioando-o, de 1830 a 183767, e dos marabutos milenaristas (B
Ma`za, na regio do Wd Chelif, entre 1845 e 1847, o "sulto" de Wargla, um
outro mahd "poltico", no Sudeste argelino, em 1851-1853)68, `Abd Al-Khdir
tentou fundar um verdadeiro Estado "nacional" e fazer eclodir uma certa "nacio-
nalidade rabe" (segundo os seus prprios adversrios)69. Nascido em 1808 em


63   P. Boyer, 1970a, p. 121-123; 1970b, p. 92.
64   P. Boyer, 1970b, p. 87-88; A. Laroui, 1970, p. 248-249.
65   P. Boyer, 1970a, p. 119-121; N. Sadouni, s.d., p. 59-61.
66   No que concerne ao emir `Abd Al-Kdir, dispomos de uma importante bibliografia; ver, por exemplo,
     M. Lacheraf, 1978; A. Sa`dallah, 1983, vol. II, p. 40-46; R. Gallissot, 1965; C. R. Ageron 1977, vol. I, p.
     19-49.
67   A. Temini, 1978.
68   A. Rey, 1978.
69   Ver nota 65 acima.
536                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



uma famlia de marabutos, ele foi e permaneceu, antes de mais nada, um homem
de estudos (`lim) e um reformista, no sentido da poca: ele pregou o retorno s
fontes da f, condio primeira da regenerao da umma. No estado de anarquia
em que o pas se encontrava mergulhado, chefes de kabla e marabutos de Or
elegeram-no como chefe nico da resistncia, em novembro de 1832.
    Por seu carisma pessoal, pela diplomacia ou pela fora, `Abd Al-Khdir con-
seguiu, no auge de sua potncia, em 1839, unir ao seu redor as populaes dos
dois teros da Arglia. Por isso, na perspectiva de uma ocupao restrita, as
autoridades francesas (Desmichels, em 1834; Bugeaud, em 1837) estabeleceram
um acordo com ele e reconheceram sua autoridade no interior do pas, em troca
de sua aceitao da ocupao francesa nas regies litorneas. Estas autoridades
francesas at mesmo prestaram-lhe ajuda, em certas ocasies, contra seus adver-
srios. Pouco a pouco, `Abd Al-Kdir foi levado a conceber uma organizao
estatal, se no centralizada, pelo menos unificadora, inspirada, simultaneamente,
nos princpios cornicos (fiscalidade, justia) e nas realidades locais (adequao
da organizao "administrativa" e guerreira ao estado social do pas). O que foi
reconhecido pelo prprio Bugeaud, o vencedor de `Abd Al-Khdir: "A organi-
zao do emir, baseada [...] em um perfeito conhecimento das localidades, das
relaes das tribos entre elas, dos interesses diversos, em uma palavra, em uma
grande inteligncia dos homens e das coisas, deveria, a meu ver, ser conservada".
Este esboo de Estado "nacional", do mesmo modo que os sentimentos religio-
sos e patriticos, intimamente ligados, aos quais fez apelo, explicam o vigor e a
durao da resistncia do "emir dos crentes" (de 1832 a 1847). Mas o fantstico
distanciamento entre suas foras e as de seus adversrios (Bugeaud mobilizou
mais de cem mil soldados contra ele), a ttica da terra queimada  qual recorreu
este ltimo e, sobretudo, o estado de diviso da sociedade argelina da poca
acabaram por vencer a resistncia do indmito emir: encurralado em toda a
Arglia, como no Marrocos, onde ele buscou refgio, acabou se rendendo aos
franceses no fim de 1847.
    Depois de muitas hesitaes e dificuldades, a sociedade e as instituies
coloniais implementaram-se progressivamente. Colocada sob a alta autoridade
de um governador geral, a Arglia foi dividida em "territrio civil", onde se
instalaram os europeus e se desenvolveram as instituies francesas, e em "terri-
trios militares", onde as populaes muulmanas foram submetidas aos poderes
discricionrios do exrcito. Sob o Segundo Imprio, ao mesmo tempo em que se
desenvolvia a colonizao capitalista, tentava-se consolidar o poder dos grandes
chefes locais, a fim de buscar apoio junto a eles para a administrao dos "ter-
ritrios militares" (experincia do famoso "reino rabe"). Mas as boas intenes
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                     537



do imperador resultaram na catstrofe econmica  para a sociedade muulmana
 dos anos 1867-1869, e na debandada militar francesa de 187070.
    Tal fato e, mais ainda, a ameaa da extenso do regime civil  equivalente ao
triunfo dos colonos europeus  provocaram a grande insurreio da Kabilia e
das regies vizinhas, em 1871, conduzida por grandes "senhores feudais", como
Mukrn, e pelos quadros de certas confrarias (sobretudo os da Rahmniyya).
Violentamente aniquilada, seguiu-se  revolta a runa material das populaes
concernentes (800.000 indivduos que tiveram que pagar reparaes equivalen-
tes a mais de 70% do valor de suas terras)71. A partir da comeou o reinado do
partido dos colonos, que correspondeu ao perodo mais sombrio da "noite colo-
nial" para a populao muulmana: pauperizada, em boa parte desestruturada
e aculturada, submissa a um severo regime de exceo, a sociedade autctone
podia, enfim, ser explorada a "cu aberto", em benefcio da minoria europeia,
praticamente a nica representada nas instncias comunais, departamentais e
centrais. Os nicos que tomavam a defesa dos muulmanos, antes de 1891, eram
alguns simpatizantes da causa autctone, agrupados basicamente na Sociedade
para a Proteo dos Indgenas (fundada em 1881)72.


     A Tunsia
    Pas mais aberto s influncias externas e o mais centralizado do ponto de
vista poltico, lhe foi possvel, no incio, tentar a experincia das reformas de
inspirao ocidental e sofrer o mais agudo fracasso  com exceo da Arglia.
    Uma "burguesia" relativamente ativa entretinha relaes comerciais, em
particular com o Oriente Mdio, enquanto uma classe dirigente engajada no
comrcio exterior tratava principalmente com os negociantes europeus. A pres-
so desses diferentes interesses comerciais e o poder dos notveis locais influ-
ram rapidamente sobre o regime poltico, cujos caracteres militares e algenos
atenuaram-se progressivamente,  medida que se desenvolvia, desde antes do
comeo do sculo XVIII, uma espcie de "monarquia seminacional". Sem negar
sua fidelidade otomana, nem renunciar  utilizao dos janzaros e dos mamlk
(permanecendo, ambos, como pilares do edifcio do bei), o regime multiplicou


70   A. Rey-Goldzeiguer, 1977, p. 545-547 e 686-688.
71   Ver supra, nota 29.
72   C. R. Ageron consagrou a esta poca sua tese monumental (1968), abundantemente utilizada neste
     trabalho. A Sociedade para a Proteo dos Indgenas  citada no vol. I, p. 414 e seg.
538                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



suas alianas e apoios no pas, de forma a ampliar seus fundamentos e assegurar
a estabilidade, atingindo incontestavelmente seu apogeu na poca de Hammda
Pacha, de 1782 a 181473.
    Desde os dias que seguiram a instaurao da paz na Europa, em 1815, as
grandes potncias crists exigiram e obtiveram facilmente do bei de Tnis a
abolio da guerra de corso e a abertura de seu pas ao comrcio e s empresas
dos naturais destas potncias.
    J evocamos as nefastas consequncias econmicas e financeiras desta aber-
tura para o pas tunisiano. Acrescentou-se a isso, ao longo dos anos 1830, a
proximidade do perigo militar representado pelo Imprio Otomano, instalado
em Trpoli desde 1835, e pela Frana, que entrara em Constantina em 1837.
A exemplo de Muhammad `Al do Egito e de Mahmd II da Turquia, o bei
de Tnis, Ahmad (1837-1855), decidiu, por sua vez, contrair emprstimo da
Europa. Alis, ele fora empurrado para este caminho  por razes diferentes, mas
tambm egostas  pelo suserano otomano e pelos cnsules das grandes potn-
cias74. Ele logo empreendeu uma audaciosa poltica de reformas que, todavia, era
precipitada, e que de nenhuma forma levou em conta as possibilidades humanas
e financeiras do pas. Um novo exrcito (nizm) foi organizado: emprestava do
ocidente armas, tcnicas, mtodos e at detalhes do uniforme e da parada. Seus
efetivos foram recrutados por meio do alistamento e seus quadros formados
por uma "escola politcnica", aberta no Bardo nesta inteno. A fim de prover
as necessidades deste exrcito, Ahmad Bey fundou manufaturas modernas de
canhes, plvoras, lenis e sapatos. Diante dos problemas financeiros suscita-
dos por estas novas criaes, o bei empreendeu rapidamente a reformulao do
antigo sistema fiscal e da organizao administrativa; at mesmo um banco de
emisso foi criado em um certo momento. Ultrapassando o quadro estritamente
utilitrio, o bei tomou certas decises contrrias s tradies locais, se no aos
ensinamentos do Alcoro: em 1846, um ano antes da Turquia e dois anos antes
da Frana na Arglia, ele decretou a abolio da escravido em suas provncias;
primeiro chefe de Estado no europeu a ir a Europa, ele efetuou uma viagem
oficial  Frana, em 1847. De outro lado, ele encetou uma certa "nacionalizao"
do Estado pela reduo dos privilgios dos turcos, no s no seio do exrcito,
mas at entre os `ulam' (letrados do isl), cujos membros turcos e autcto-
nes foram colocados em p de igualdade; ele tambm fez claramente apelo ao
"patriotismo dos filhos da terra".

73    M. H. Chrif, 1978.
74    A. Ibn Ab-Dhiyf, 1963-1964, vol. IV. p. 9-182; L. C. Brown, 1974; K. Chater, 1984, p. 483-583.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                                 539




Figura 17.3 Membros do nizm [exrcito] tunisiano com uniformes de estilo europeu. [Fonte: C. de
Chassiron, Aperu pittoresque de la Rgence de Tunis, 1849. Imprimerie de Bnard, Paris. Ilustrao reproduzida
com a autorizao da Biblioteca Nacional, Paris.]



   Como vimos, o programa de reformas era ambicioso, porm no alcanou
os resultados previstos: no seio do exrcito regular, o recrutamento, o treina-
mento, o equipamento e a disciplina deixaram a desejar; as manufaturas, em
sua grande parte, em razo do grande custo das instalaes, jamais puderam
funcionar. Smbolo do fracasso da obra de Ahmad Bey, uma grande fragata,
construda em uma doca seca de La Goulette, nunca pde juntar-se ao mar,
pois o canal de acesso era estreito demais. Pior ainda, estas custosas inovaes
esgotaram rapidamente as finanas do bei: da o agravamento da fiscalidade, o
apelo a expedientes ruinosos (setenta arrendamentos foram confiados ao pouco
delicado, mas onipotente, Mahmd ibn `Ayyd, por exemplo) e, em definitivo, a
impopularidade das reformas e do prprio regime75.
    intil demorarmo-nos sobre as razes do fracasso de Ahmad Bey, j que a
mesma experincia modernizadora, engajada no Egito, na Turquia e, mais tarde,


75   Ibid.
540                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



no Marrocos, provocaria os mesmos resultados negativos. Digamos, em linhas
gerais, que as reformas eram pouco adaptadas ao meio humano que elas deviam
transformar: por outro lado, os pases europeus avanados no tinham nenhum
interesse no xito de tais reformas, pois essas constituam, antes de tudo, a opor-
tunidade de frutferos mercados para seus residentes e seus associados locais.
    Quando da morte de Ahmad Bey, em 1855, o balano de seu reinado era
negativo. Se as reformas deram poucos resultados prticos (com exceo dos
germes do Estado-nao e da constituio de um meio  de corte  favorvel ao
modernismo), elas haviam aumentado o risco de uma interveno estrangeira e
acentuado as fraquezas internas. Estas foram exploradas pelos cnsules e pelos
aproveitadores europeus, bem como por seus aliados locais  judeus sob proteo
estrangeira e grandes da corte, em sua maioria.
    Por volta de 1856-1857, a presso das potncias europeias em prol de "refor-
mas" se fazia mais viva. Reformas estas que deveriam preparar o terreno para o
desenvolvimento de negcios propriamente capitalistas.
    Sob a ameaa do exrcito, os cnsules ingleses e franceses fizeram com que
Muhammad Bey, sucessor de Ahmad Bey, adotasse o Pacto Fundamental ou
`ahd alamn, aos 10 de setembro de 1857: alm da afirmao geral da segurana
da vida e dos bens dos habitantes da regncia, este texto outorgava, sobretudo,
direitos e garantias s minorias no muulmanas (dentre os quais os direitos 
propriedade e ao livre exerccio de qualquer funo), alm de proclamar a liber-
dade do comrcio76. O Pacto s foi um prembulo para uma constituio mais
detalhada, que seria rapidamente elaborada e aplicada, aos 24 de abril de 1861.
Primeira de seu gnero no mundo arabo-muulmano, ela estabelecia o princpio
da separao dos poderes executivo, legislativo e judicirio, portanto, um regime
constitucional. Por outro lado, Tnis foi dotada de um conselho municipal em
1858; ministrios e administraes foram reorganizados e uma grfica foi criada
 para publicar, notadamente, um hebdomadrio77.
    Inadaptadas  sociedade e ao comportamento da poca, alm de ser de ins-
pirao estrangeira, estas reformas, como supomos, conheceram a sorte daquelas
que as precederam do tempo de Ahmad Bey. Elas foram acompanhadas de uma
maior abertura do pas s empresas europeias. As trocas externas tomaram um
grande impulso; as importaes do Estado tunisiano  asseguradas do lado fran-
cs pela casa Rothschild  se multiplicaram; os ingleses obtiveram a concesso
de terras, o direito de estabelecer um banco preferencial, aquele de construir

76    A. Ibn Ab-Dhiyf, 1963-1964, vol. IV, p. 240-244.
77    J. Ganiage, 1959, p. 76-88.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                          541



uma via ferroviria (empresas que periclitariam rapidamente). Os franceses se
encarregavam do fornecimento de material militar e obtinham a adjudicao de
importantes obras j evocadas78. As despesas da regncia aumentavam perigosa-
mente, ao passo que seus rendimentos se encontravam reduzidos pelo abandono
dos monoplios (uma das clusulas do Pacto Fundamental) e pelos privilgios
concedidos aos europeus: logo caiu no endividamento. A fim de enfrentar as
despesas correntes e o reembolso dos emprstimos, o bei decidiu dobrar a taxa
do imposto de capitao, no final do ano de 1863.
    Este foi o sinal da insurreio de 1864, que reagrupou praticamente todas
as kbla e uma parte dos camponeses sedentrios, ligados contra o abuso fiscal
e a funesta poltica de reformas. Durante trs a quatro meses, os insurgidos
mostraram uma bela disciplina em sua ao contra o beylik e seus agentes: mas,
as promessas do bei e as intrigas de sua corte logo venceram a unidade e a
determinao dos revoltados: uma aps a outra, as kbla depuseram as armas e
as regies sedentrias sofreram uma severa represso, aps o que elas no mais
deveriam se reerguer79.
    Pelo fato de o pas conhecer uma srie de ms colheitas, de 1866 a 1870,
e mesmo um terrvel perodo de fome, acompanhado de uma epidemia de
clera, em 1867, a situao financeira do beylik tornou-se ainda mais precria.
A bancarrota era inevitvel. Aos 5 de julho de 1869, uma comisso financeira
internacional havia se instalado em Tnis, a fim de exercer seu controle sobre
os rendimentos do beylik e de assegurar o reembolso da dvida pblica (aproxi-
madamente 6 milhes e meio de francos por ano)80.
    Medidas draconianas permitiram melhorar um pouco a situao, ainda mais
porque a Frana, principal potncia interessada na ocupao da Tunsia, per-
dera muito de seu prestgio aps a derrota de 1870. Em 1873, o venal Mustaf
Khaznadr, no governo desde 1837, foi descartado em benefcio de Khayr
al-Dn, homem de Estado ntegro e clarividente81. Por medidas concretas e
voluntariamente limitadas, ele tentou reanimar a vida econmica e, sobretudo,
agrcola, melhor regulamentar e moralizar a administrao, e promover um
ensino moderno (deve-se a ele, em particular, a fundao do colgio Sdik,
que desempenharia um grande papel na vida cultural e, at mesmo, poltica da
Tunsia colonizada). Por outro lado, ele se serviu de uma boa conjuntura agrcola,


78   Ver supra, nota 23.
79   J. Ganiage, 1959, p. 267-270; B. Slama, 1967.
80   Ver supra, nota 27.
81   V. M. Bayram, 1885, vol. II, p. 46-93; G. S. Van Kriecken, 1976, p. 161-272.
542                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



de 1873 a 1875. Porm, a volta das vacas magras e o restabelecimento do crdito
francs na Tunsia, a partir de 1876, criaram-lhe cada vez mais dificuldades, at
sua queda, em julho de 1877. Imediatamente, houve a volta  incompetncia e
 trama, alm do retorno ao desastre: nada  mais sintomtico desta triste poca
que o sucesso poltico do antigo favorito do bei, Mustaf ibn Ism`l, o todo-
-poderoso, at a entrada das tropas francesas na Tunsia e a assinatura do tratado
de protetorado, imposto ao bei aos 12 de maio de 188182.


      A Lbia
    Antes de 1880, a mais desrtica e saariana parte do Magreb, a Lbia, pro-
vncia otomana, excitou menos as cobias europeias e, portanto, preservou por
muito tempo caractersticas e vida econmica prprias: a prova disso foi a vita-
lidade do comrcio das caravanas, aproximadamente at 1903 (Trpoli) e mesmo
at 1911 (Benghazi).
    Por volta de 1800, a Lbia compreendia uma verdadeira cidade, Trpoli, algu-
mas outras cidades costeiras, dentre as quais Benghazi e Darna, e alguns centros
nos osis (Ghadmes, Murzuk e Awdjla). Apenas um punhado de camponeses
(hawra) cultivava as poucas terras arveis de Misrata, em Zwara, ao passo que
a esmagadora maioria dos habitantes praticava o nomadismo pelo interior. Este
era praticado, fosse pelos criadores de carneiro, em curtos percursos bastante
regulares (`urba), fosse pelos cameleiros, s vezes por vastos percursos muito
irregulares (bawdi).
    As coletividades mais potentes eram, paradoxalmente, aquelas que viviam
mais distante no deserto. Em qualquer poca, o governo do pas, estabelecido
em Trpoli, devia estabelecer um compromisso com as potncias do deserto para
que a paz reinasse. Na costa, at 1815, o grande comrcio, o comrcio regional, o
artesanato e a guerra de corso alimentaram as cidades e sua burguesia de gran-
des famlias militares (karghla), comerciantes (tudjdjr) ou letrados religiosos
(`ulam'), que, desde 1710, formavam os pilares de sustentao da dinastia local
kramnl83.
    Aps uma luta particularmente obstinada pelo poder, a dinastia se resta-
beleceu sob o reinado de Ysuf Kramnl, a partir de 1794. Este reanimou o
comrcio transaariano e relanou a guerra de corso, o que levou a uma guerra


82    V. M. Bayram, 1885, vol. II, p. 97-115; J. Ganiage, 1959, p. 476-491.
83    A. Barbar, 1980, p. 33-43 e 96-121.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                                 543



com os Estados Unidos da Amrica, de 1801 a 180584. Porm, Ysuf triun-
fou. Por outro lado, a interdio da guerra de corso decretada pelas potncias
europeias em 1815 e a presso naval que a acompanhou criaram dificuldades
de tesouraria. A arrecadao de impostos que se seguiu gerou resistncias que,
finalmente, levariam  abdicao de Ysuf, em 183285. No incio de seu reinado,
duas coligaes de nmades, dirigidas respectivamente pelos Mahamid (`urba)
e pelos Awld Sulaymn (bawdi), contestaram a extenso do poder central em
Tripolitnia, sobretudo aps terem ocupado os centros de Fezzn, em 1804. Mas,
graas aos meghara, dirigindo uma coligao de nmades aliados aos Kramnl,
esta resistncia foi quebrada desde 1812, e os futuros chefes das duas coligaes,
Ghma e `Abd al-Djall, foram levados a julgamento. Contudo, desde 1830,
aproveitando a crise do poder, eles retomaram a frente dos Mahamid e dos
Awld Sulaymn, tornaram-se independentes e, quando a dinastia desapareceu,
em 1835, dominavam o Fezzn e a Tripolitnia at Benghazi86.
   A crise do poder foi resolvida pela retomada do controle direto da Lbia
pela Porta. Esta transferncia imediatamente favoreceu a burguesia, sobretudo
karghla, que se beneficiou notadamente de alvios fiscais, sendo que as novas
autoridades necessitavam de seu apoio87. Os otomanos, com efeito, tiveram de
lutar contra as coligaes de nmades. As operaes militares destes ltimos
revelar-se-iam vs. Finalmente, os turcos conseguiram se aliar a um outro bloco
nmade `urba, aquele de Tarhuna e, sobretudo, a semear a discrdia e a des-
confiana entre Ghma e `Abd al-Djall. Em 1842, os Awld Sulaymn foram
vencidos definitivamente e rechaados para o Chade. Os Mahamid, por sua vez,
enfraquecidos pela fome de 1856, foram dominados aps a morte de Ghma,
em 185888. Desde ento, os otomanos governaram toda a Tripolitnia e parte do
Fezzn. Neste intervalo, uma situao anloga se desenvolvia em Barka (Cire-
naica), onde, em 1843, a Ordem da Sansiyya, fraternidade religiosa que visava
conduzir os habitantes  verdadeira f e converter os tubu, fora criada. A Ordem
logo ocupou um posto privilegiado graas  grande rota de caravanas que con-
seguiu organizar de Barkha ao Wada e, sobretudo,  eficcia de sua arbitragem




84   K. Folayan, 1972.
85   E. Rossi, 1968, p. 259-294.
86   D. D. Cordell, 1972, p. 12-21; G. F. Lyon, 1821, p.54-56; G. Nachtigal, 1967, vol. I, p. 19-22.
87   A. Barbar, 1980, p. 25.
88   A. J. Cachia, 1975, p. 30-36; N. Slousch, 1908; D. D. Cordell, 1972, p. 21-27; E. Rossi, 1968, p. 297-312.
544                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 17.4 O tmulo de Muhammad ben `Al al-Sansi, fundador da Sansiyya. [Fonte: E. E. Evans-
-Pritchard, The Sanusiya of Cyrenaica, 1949, Oxford University Press, Oxford.  Oxford University Press.]




entre coletividades nmades. Desde 1856, os otomanos trataram com a Ordem,
que serviu de intermediria entre os primeiros e a populao nmade89.
   Por fim, tendo sido forados a estabelecer sua autoridade direta ou indireta,
os otomanos puderam, aps 1860, comear a introduzir seus tanzmt. Contudo
timidamente, pois sua autoridade continuava a ser contestada no Fezzn e em
Ght pelos tuaregues, alm de ser preciso poupar a burguesia urbana, de forma
a garantir o apoio de pelo menos um de seus componentes para cada reforma.
Progressivamente foram tomadas medidas para introduzir reformas judicirias
(a partir de 1865), escolas (1869), um governo municipal (1872), uma reorga-
nizao administrativa (1864, 1875), hospitais e um mercado central (1880).
A partir de 1870, tambm foram criados centros de distribuio de alimen-
tos para pocas de escassez. Houve terrveis perodos de fome em 1870-1871,
1881-1889, 1892, 1897, 1907, 1908 e 1910. Esta ltima medida foi a nica que
beneficiou  massa (al`mma). As outras reformas apenas beneficiaram  bur-
guesia, sobretudo comerciante, e s fizeram agravar os encargos fiscais do povo.


89    A. Barbar, 1980, p. 121-127; D. D. Cordell, 1977; E. E. Evans-Pritchard, 1949; N. Ziadeh, 1958.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                                               545



Seus efeitos sociais e econmicos continuaram, entretanto, assaz limitados. No
obstante a importao crescente de produtos europeus aps 1850, a economia
permanecia sadia. A indstria local resistia bem  concorrncia e as exportaes
de alfa permitiam preservar o equilbrio oramental90.
    Contudo, a penria de 1881 a 1889 foi o primeiro sinal de profundas muta-
es. As exportaes diminuram. Ademais, os cursos da alfa desmoronaram; as
importaes de vveres aumentaram e, a partir de 1892, a balana comercial se
encontrou em dficit. Este tomou grandes propores e tornou-se permanente
aps 1897, data a partir da qual as necessidades alimentares das massas se trans-
formaram. O ch, o acar, a farinha e o tabaco importados eram consumidos
em grandes quantidades. Em seguida, foram os rendimentos do comrcio saa-
riano que passaram a faltar. O trfico do Bornu esgotou a partir de 1895 e o de
Kano em 190391. Tambm em Barkha, a Sansiyya encontrava-se em dificulda-
des. A partir de 1901, sua atividade militar no Chade a enfraqueceu. A Ordem
tornou-se grande proprietria fundiria, desde 1902, para compensar as perdas
previstas do trfico transaariano, o que desuniu uma parte de seus partidrios.
Enfim, ela no se defendeu bem contra ordens concorrentes que faziam pro-
selitismo nestas regies. Por volta de 1911, os estabelecimentos da Sansiyya
eram menos numerosos que em 185392. Nestas circunstncias, as ricas empresas
europeias, instaladas em Trpoli e Benghazi, articularam seus esforos para ocu-
par um posto privilegiado. A sociedade encontrava-se em profunda mutao e
antigos equilbrios eram rompidos. Esta situao desembocou diretamente na
tentativa de conquista italiana de 1911 e na guerra de 1911 a 193293.


     O comrcio transaariano
   No incio do sculo XIX, o comrcio transaariano estava ainda florescendo,
fosse no Oeste (de Tombuctu ao Tafillet, e de Goulimine a Taoudeni) ou no
centro (de Tnis e Trpoli a Ghadmes), e as exportaes do Sudo sempre
diziam respeito a escravos e ouro. No entanto, por volta dos anos 1840, as
pistas ocidentais enfraqueceram, ao passo que as do Saara Central floresceram,


90   A. Barbar, 1980, p. 25-33, 54-63 e 71-80; A. J. Cachia, 1975, p. 36-42, 68-93 e 125-133; E. Rossi, 1968,
     p. 312-352.
91   A. Barbar, 1980, p. 139-144.
92   Ibid., p. 128-131.
93   Ibid., p. 139-182.
546                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 17.5 Mulheres da alta sociedade argelina servidas por uma escrava negra. [Fonte: quadro de Eugne
Delacroix no Louvre, Femmes d'Alger dans leur appartement. Reproduzido com a autorizao dos Museus
nacionais franceses.]



sobretudo no traado Trpoli-Kano e Trpoli-Bornu. Ademais, uma nova ligao
direta entre Wada e Barka, descoberta em 1809-1810, se tornou uma grande
rota de caravanas aps 185094. Durante a segunda metade do sculo, a expor-
tao de escravos diminuiu lentamente, ainda que, na rota de Bornu, se tivesse
mantido por mais tempo, e que, na de Wada, este trfico tivesse aumentado
e permanecido em alta, mesmo depois de 190095. As exportaes de marfim,
bastante estveis, atingiram seu pice por volta de 1877. Porm, em primeiro
lugar, foi a exportao de plumas de avestruz, sobretudo de 1878 a 1883, e, em
seguida, a dos couros (notadamente de peles de cabra) que tomaram o lugar do
comrcio de escravos. Acrescentaram-se a essas exportaes os tecidos tingidos


94    Sobre esta questo, ver C. W. Newbury, 1966; J.-L. Mige, 1961-1963, vol. III, p. 371-447; M. Johnson,
      1976a; D. D. Cordell, 1977a; S. Baier, 1977; S. Baier, 1974.
95    D. D. Cordell, 1977a, p. 35.
Novos desenvolvimentos no Magreb: Arglia, Tunsia e Lbia                    547



de ndigo do pas haussa, um pouco de ouro e alguns produtos diversos. De
Norte a Sul importava-se sobretudo tecidos de algodo ingleses. Desde 1860,
tais produtos representavam cerca de 70% do valor das importaes. Vestimen-
tas norte-africanas de l da Tripolitnia, tecidos (ls, tapetes) austro-hngaros,
quinquilharias, medicamentos, objetos de culto, perfumes, joias, sedas, prolas
e, sobretudo, armas e munies completavam as importaes. Alm disso, era
constante a demanda pelo sal do Saara, pelas tmaras dos osis e pelos cereais
do Sahel96.
    O comrcio apenas entrou em declnio quando a navegao no Atlntico e os
transportes por vias terrestres (estradas de ferro) da frica Ocidental puderam
com ele competir de forma vantajosa. Os desenvolvimentos polticos desempe-
nharam um papel, certamente de segundo plano, porm importante. As fortunas
do Wada explicam a importncia da rota Wada-Barka desde 1850. A partir de
1895, o trfico Trpoli-Bornu sofreu as operaes de Rbah e as perturbaes
causadas em parte pelas conquistas francesas na frica Ocidental tiveram nume-
rosas repercusses. Todavia, o comrcio declinou irremediavelmente desde 1903,
quando as caravanas se tornaram mais caras que a combinao trilho-navio97.
No Leste, o isolamento do Wada e de Barka garantiu sua sobrevivncia at
1911, mesmo aps a retomada do Sudo pelos ingleses em 1898  sem dvida,
por causa do bloqueio do Drfr. Portanto, foi depois de 1900 que se deslocou
o mundo saariano tradicional, pouco antes da derradeira invaso dos ltimos
grandes territrios ainda no colonizados.


     Concluso
    Com um maior ou menor grau de atraso e de violncia, os diferentes pases
do Magreb sofreram o mesmo processo que os conduziu da autonomia  depen-
dncia. , pois, intil buscar a responsabilidade desta falha na esfera local, nos
erros de tal dirigente ou na ausncia de escrpulos de tal agente europeu. Um
fator nico externo  a expanso capitalista ocidental  selou a sorte do Magreb,
como o fez, alis, no resto do mundo no europeu. Esta expanso representa
um "movimento irreversvel [que] leva as grandes naes  conquista das novas
terras", a "manifestao imperiosa, a lei fatal de um estado econmico comum



96   Ver nota 93 e A. Barbar, 1980, p. 64-76.
97   A. Barbar, 1980, p. 140, fornece estimativas.
548                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



 Europa inteira", disse um dos promotores da colonizao, Jules Ferry, aproxi-
madamente em 188598.
    Porm, talvez tenha sido em razo de certas condies locais, um acidente
histrico, no caso da Arglia, que fortes diferenas ocorreram no desenrolar do
processo de dependncia e que divergncias apareceram quanto a suas modali-
dades e a reaes dos diferentes pases do Magreb. Esmagada militarmente antes
mesmo da metade do sculo, a Arglia sofreu a mais forte e traumatizante agres-
so para sua sociedade e sua cultura tradicionais. Penetrada progressivamente,
no ritmo da evoluo do prprio capitalismo, a Tunsia tentou reagir atravs de
uma certa poltica de reformas de inspirao modernista: no obstante ineficaz
ou ruinosa a curto prazo, esta poltica lanou germes fecundos para o futuro:
nascimento de uma elite modernista, primeiros passos rumo  criao de um
Estado-Nao etc. A Lbia, recolocada sob a autoridade direta da Turquia em
1835, ficou assim protegida, por muito mais tempo, das cobias europeias, como
tambm em razo de sua pobreza e de seu afastamento. Tais condies particu-
lares, vividas pelos pases magrebinos no sculo XIX, prolongar-se-o na poca
colonial e mesmo para alm dela? De nossa parte, no duvidamos disso.




98    Citado por L. Bergeron, 1968, vol. VIII, p. 319.
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                             549



                                     CAPTULO 18


       O Marrocos do incio do sculo XIX
                   at 1880
                                         Abdallah Laroui




    Aps o reinado longo e glorioso de Mly Ism`l (1672-1727), o Marrocos
viveu um perodo de anarquia que arruinou sua economia, desequilibrou sua
estrutura social e destruiu seu exrcito. O sulto Muhammad III (1757-1790)
retomou pouco a pouco o controle da situao e edificou as bases do Marro-
cos "moderno" que seu filho Sulaymn (1792-1822) consolidou. Ele deu ao
Makhzen (governo) um aspecto mais conforme com a shar `a (lei islmica) e
uma base mais claramente urbana. Administrou diretamente o Haouz e o Dir,
regies de agricultores e arboricultores sedentrios, assim como o Gharb, regio
pantanosa favorvel  agricultura extensiva e, indiretamente, por intermdio
dos grandes k`id (chefes de kabla) e shaykh de zwiya (mestres de confra-
rias religiosas), as terras montanhosas e desrticas, distinguindo deste modo
um domnio de soberania e um outro, de suserania, que respectivamente eram
chamados de Bild alMakhzen e Bild alSib, todavia em uma oposio por
demais sistemtica .
    O Marrocos foi ento reorganizado sobre uma base restrita. Alguns grupos
que se aproveitavam dos privilgios do Makhzen foram descartados; eles natu-
ralmente tentaram recuperar suas posies recorrendo  revolta, se necessrio.
A Europa do Congresso de Viena, consciente de sua jovem potncia, fez sentir
sua presso, sobretudo aps a tomada de Argel pelos franceses em 1830. O
Makhzen teve que resolver dois problemas simultaneamente: reforar-se para
550                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 18.1 O sulto `Abd al-Rahmn (1822-1859) em 1832. [Fonte: quadro de Eugne Delacroix, museu
de Toulouse. Fotografia: Jean Dieuzaide, Toulouse  Muse des Augustin, Toulouse.]



se opor ao perigo exterior, por um lado, e expandir sua base territorial e poltica,
por outro. Esta dupla reforma teve que enfrentar as manobras coloniais e con-
tradies internas. Por fim, o objetivo essencial, escapar ao controle estrangeiro,
no foi atingido, apesar da forte personalidade do sulto `Abd al-Rahmn (1822-
-1859), da inteligncia de Muhammad IV (1859-1873) e do prestgio de Hasan
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                                               551



I (1873-1894), embora, em 1880, o Marrocos apresentasse ainda uma fachada de
Estado estvel. Mas o grande resultado daquele perodo, marcado pelo aumento
da presso europeia e por uma poltica de reformas ativa, foi, sem dvida, a con-
solidao de um esprito comunitrio marroquino, tradicionalista e sombrio, o
qual deu ao Marrocos uma situao especfica no Noroeste da frica.


    A estrutura polticosocial
    O fato poltico notvel no Marrocos do sculo XIX foi a bay`a (contrato de
investidura), conscientemente calcada sobre aquela pela qual o profeta Muham-
mad (Maom) fundou, em Medina, a primeira comunidade poltica islmica, e a
qual o Marrocos foi o nico a manter em sua pureza original1. Contrato escrito,
ligando o sulto e os diferentes grupos da populao, e processo de legitimao
da autoridade poltica que no tem mais a fora como nico fundamento, a bay`a
consolidou, entre os marroquinos, o sentimento de pertencer a uma comunidade
estatal intangvel superando as peripcias polticas e militares. A cada mudana
de reinado, os chefes do exrcito, os representantes das ordens urbanas, os k`id
e os shaykh de zwiya enviavam  corte seus juramentos de fidelidade. Escritos
mais ou menos sobre o mesmo modelo, estes juramentos definiam os direitos
e deveres do sulto e da populao. O dever do primeiro era duplo: defender o
territrio2 contra o inimigo externo e manter a paz no interior. Em contrapar-
tida, a populao lhe devia submisso completa enquanto ele no transgredisse
as prescries islmicas e os direitos costumeiros, obedecendo as ordens do
Makhzen, pagando os imposto legais, fornecendo os contingentes armados em
tempos de paz e volutariando-se em tempos de guerra. A est, alis, a frmula
ritual da bay`a da populao de Rabat, dirigida a `Abd al-Rahmn:
    Prestamos juramento diante de Deus e de seus anjos de escutar e executar as ordens
    do imame no campo do que  lcito e de acordo com as nossas possibilidades [...],




1    A. Ibn Zadn, 1961-1962, vol. 1, p. 8-35.
2    Ao contrrio de uma ideia pr-concebida, o territrio marroquino foi claramente definido a partir do
     sculo XVI. As guerras travadas pelos soberanos saaditas e alauitas contra os turcos de Argel levaram a
     uma fronteira reconhecida por ambas as partes. No Saara, a soberania xerifiana se estendia at o osis no
     qual os habitantes sedentrios tinham assinado a bay `a e nos limites das reas de pastagens dos grupos
     nmades que tambm a haviam assinado. Durante o sculo XIX, as diligncias dos sultes junto s
     potncias europeias comprovam que o Makhzen tinha uma ideia precisa do territrio marroquino.
                                                                                                                                                                  552
                                                                                                                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880
Figura 18.2   As regies histricas do Marrocos no sculo XIX. [Fonte: A. Laroui, Les origines sociales et culturelles du nationalisme marocain, 1977, Maspero,
Paris.]
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                                       553



    negcio feito, ns obedecemos como Deus nos mandou, e o sulto respeita nossos
    direitos e aqueles de todos seus outros sditos como Deus o prescreveu3.
    Para cumprir seus deveres, o sulto dispunha de um Makhzen composto
essencialmente de um exrcito e de uma burocracia.
    At a reforma militar posterior em 1844, o exrcito marroquino englobava
trs grupos de origem e eficcia diferentes: de um lado, os bwakher (clssico:
`abd alBukhr), representavam algumas centenas de escravos-soldados que
restaram dos 50.000 que formaram a guarda negra do Mly Ism`l; de outro
lado, o gsh (clssico: jash), cujo nmero total no ultrapassava 9.000, era com-
posto de contingentes fornecidos por algumas comunidades (Cheraga, Oulad
Jami', Oudaya, Cherarda) que exploravam em usufruto as terras da coroa e que
estavam acantonados ao redor de Fez, no sculo XIX, assim como na periferia
de Rabat e de Larache; em fim, os nuaib (clssico: nawa'ib, plural de n'iba)
eram os contingentes ocasionais que as outras comunidades, particularmente
aquelas do Haouz e do Dir, forneciam ao apelo do soberano. Tal como o havia
concebido Muhammad III, este exrcito era uma fora de polcia destinada a
manter a ordem interna. Esta  a razo pela qual, aps a derrota do Isly diante
da Frana, foram criados os `askar, tropas treinadas  moda europeia4.
    A burocracia era composta por vizires e secretrios da chancelaria (kuttb),
agrupados em escritrios denominados, no linguajar marroquino, de banka. Ela
continuou a tradio andaluza, mantida pelo ensino oferecido na Universidade
da Karawiyyn em Fez, e um sistema elaborado de cooptao. Vrios vizires
e secretrios eram, assim, de origem andaluza. A partir da metade do sculo
XIX apareceu um novo tipo de funcionrios do Makhzen, na sequncia das
necessidades originadas pela ampliao das relaes com a Europa. Tratava-se
dos `uman' (plural de amn, inspetor de alfndega) e dos talaba (plural de tlib,
estudante avanado), menos versados em retrica e em histria, mas mais fami-
liarizados com as lnguas europeias e com os problemas financeiros5.
    O Estado marroquino, o qual fora fundado sobre a ortodoxia islmica, tinha
legalmente como recursos as receitas da coroa, a zakt, imposto calculado sobre
o capital comercial e os produtos agrcolas, e que devia ser gasto com fins deter-
minados e as taxas sobre o comrcio exterior; todos os demais recursos fiscais,
incluindo o dzimo (`ushr), forma alterada do khardj, eram de uma legalidade


3    A. Ibn Zadn, 1929-1933, vol. V, p. 9-15.
4    J. Erckmann, 1885. Ver tambm o artigo gsh na Enciclopdia do Isl, vol. II, p. 1079-1080.
5    A. Ibn Zadn, 1961-1962, vol. I, p. 46 e seguintes.
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duvidosa6. O sulto, tendo as mos atadas no campo fiscal, era obrigado a limitar
suas despesas ao estrito mnimo. Muhammad III se contentava com as receitas
da alfndega, da zakt do Haouz e com as fazendas da Coroa (`azb). Mantivera
contudo uma taxa sobre os tecidos importados, o couro e o enxofre. Instituiu em
seguida, aps ter obtido a autorizao de alguns `ulam', um direito de entrada e
uma taxa sobre os mercados, bem como sobre os pesos e as medidas7. Os mer-
cadores e artesos suportaram-nas muito mal e obrigaram o sulto Sulaymn
a suprimi-las. Para compensar as perdas do Tesouro, agravadas por sua deciso
de desencorajar o comrcio com a Europa, o soberano multiplicou viagens s
reas rurais para tirar o mximo da zakt e do dzimo, o que no deixou de
causar um vivo descontentamento entre as populaes rurais. Seu sucessor, `Abd
al-Rahmn, teve que reinstituir, em 1850, uma taxa sobre os couros e depois
uma outra sobre o gado vendido nos mercados. Em 1860, o Marrocos, derrotado
pela Espanha, teve que pagar uma indenizao de 100 milhes de francos, o que
equivalia a vinte vezes o oramento marroquino da poca8. Uma reforma fiscal
se impunha. Apesar do apelo urgente do sulto Muhammad IV, os `ulam' se
agarravam todavia ao ponto de vista ortodoxo9. O problema fiscal permaneceu
no centro da histria marroquina ao longo do sculo XIX e nunca foi resolvido
de maneira satisfatria. A experincia fazia o Makhzen limitar suas responsa-
bilidades para manter as despesas no nvel dos recursos disponveis, muito mais
que aumentar estas para atingir os objetivos desejveis. Ora, a presso europeia
fazia-se mais forte, e reformas globais tornavam-se cada vez mais urgentes; no
era mais o caso de se contentar com o possvel.
    Entre o exrcito e a burocracia, de um lado, e as populaes urbanas e rurais,
do outro, se intercalavam as corporaes intermedirias que, embora gozando de
alguma autonomia, faziam parte do Makhzen num sentido mais amplo10. Porta-
-voz dos grupos sociais ou regionais, eles defendiam vigorosamente os direitos




6     O khardj se justifica no direito islmico pela conquista. Ora, a maioria dos `ulam' estima que os habi-
      tantes do Marrocos abraaram o isl livremente. Ver o artigo darba na Enciclopdia do Isl, vol. II, p.
      147-150.
7     A. al-Nsir, 1954-1956, t. IX, p. 61. Estima-se que estas diferentes taxas rendiam 3 milhes de francos,
      o que era suficiente para pagar as despesas do exrcito e da burocracia.
8     J. -L. Mige, 1961-1963, vol. II, p. 362.
9     M. Dwud, 1956-1970, vol. V, p. 97-99.
10    Existe uma diferena entre o Makhzen stricto sensu que  o governo e o Makhzen em um sentido mais
      amplo de elite poltica e religiosa do pas.  este ltimo sentido que se compreende quando se fala de
      makhzanya e de famlias makhzen.
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                                         555



costumeiros em relao ao sulto; responsveis diante deste, ele aplicavam as
ordens do Makhzen levando em conta os usos locais.
    A classe do clero era formada pelos `ulam' professores, os kd, os muft, os
ndhir, os hab (administradores das fundaes pias) e os muhtasib (encarre-
gados dos mercados). Esta administrao, essencialmente urbana e aplicando
estritamente as prescries da shar`a, estava teoricamente sob a superviso do
sulto-imame, mas gozava de uma autonomia inegvel11. O soberano no podia
reformar nem o contedo nem a forma do ensino, privilgio da Karawiyyn;
ele no podia ser indiferente  opinio dos outros `ulam' quando da nomeao
dos responsveis aos cargos que acabam de ser mencionados; ele no podia nem
desviar em seu proveito as receitas dos hab nem contradizer os decretos do
muhtasib. Pelo fato de a shar`a, verdadeira constituio da vida social, estar sob
a guarda dos `ulam', qualquer tentativa de mud-la abertamente estava excluda,
mesmo da parte do sulto12.
    Os shuraf' (shrf), descendentes diretos do profeta Muhammad, formavam
uma espcie de aristocracia religiosa, espalhada por todas as cidades e reas rurais
do Marrocos. Por trs vezes, sob os sultes Ism`l, Muhammad III e Sulaymn,
os shuraf' foram recenseados, porque gozavam de um estatuto legal e de um
prestgio social especiais13. Eles tinham o privilgio de serem julgados por seus
nakib (sndicos). Como herdeiros do fundador do Estado islmico, eles tinham
um direito sobre o Tesouro pblico e, a este ttulo, estavam isentos de vrias taxas
e recebiam numerosos presentes do sulto14. Como descendentes do enviado de
Deus, eles eram acreditados, pela crena popular, donos de uma certa beno
(baraka), adormecida a maior parte do tempo, mas podendo se transformar, em
circunstncias favorveis, em poder sobrenatural. Da seu papel de taumaturgos
e de rbitros, servios retribudos, e aos quais o prprio sulto no deixava de
recorrer em caso de necessidade.
    Os zwiya, agremiaes sociais com fundamento religioso, tomaram no Mar-
rocos do sculo XIX vrias formas das quais duas eram da mais alta importncia:
de um lado, a zwiyaconfraria, tal como a Tijniyya ou a Darkwiyya, ligava
atravs de uma srie de grmios urbanos e monastrios rurais os indivduos sem
distino de condio social, riqueza, ocupao ou origem tnica, e tinha deste


11   Distinguem-se as obrigaes da shar `a daquelas do Makhzen. Ver M. b. Ja `afar al-Kattn, 1899, vol.
     III, p. 5.
12   A. Ibn Zadn, 1961-1962, vol. II, p. 163-188.
13   E. Lvi-Provenal, 1922.
14   Al-Mahd al-Wazzni, 1900, vol. II, p. 92.
556                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



modo um papel primordial na integrao horizontal; do outro lado, a zwiya-
-principado, cujo chefe recebia uma delegao quase geral de autoridade sobre
seu feudo, como a Wazzniyya no Norte, a Sharkwiyya no Tadla, a Nsiriyya
no Sudoeste e a Zarwliyya no Anti-Atlas. Cada zwiya tentava ser uma e outra
ao mesmo tempo, e s vezes conseguia, como a Nsiriyya; ela podia tomar uma
outra forma, mas, de todos os modos, era uma escola de disciplina social e uma
intermediria da autoridade do Makhzen, apesar de uma aparente independn-
cia15. Este papel se manifestava sobretudo nas cidades onde zwiya e corporao
(hinta) tinham os mesmos membros e buscavam os mesmos objetivos.
    Os chefes de kabla tinham uma condio extremamente varivel. Para o
Makhzen, a kabla era uma noo essencialmente administrativa e fiscal, e se
aplicava tanto a uma regio (Dukkala) ou a um canto montanhs (Beni Ouria-
ghel), como a uma confederao nmade (At Atta), ou a uma comunidade
transplantada de soldados-pastores (Cherarda). Em cada caso, a autoridade
era delegada a um k `id nomeado por um dahr (decreto) aps a anuncia de
seus contribuintes. O k`id era tanto representante do sulto como porta-voz
de seus administrados, um de seus dois papis dominando inevitavelmente de
acordo com a distncia do poder central e a riqueza das terras. Diante deste
k`id havia em todas as circunstncias o `mel (governador), o qual recebia os
impostos e conduzia os contingentes armados. Em certos casos favorveis, o
mesmo homem podia acumular as duas funes, mas elas continuavam distintas.
Formavam-se famlias de k`id  duas por kabla, uma apoiando o Makhzen, a
outra os interesses locais  que, no poder ou na aposentadoria, faziam parte da
elite administrativa do pas16.
    Estas corporaes intermedirias, urbanas e rurais, baseadas no indivduo ou
no grupo agntico, eram, em ltima anlise, as engrenagens da administrao
sultnica. Os `ulam', ao defender a shar`a, consolidavam a legitimidade do
sulto-imame, pois o isl  antes de tudo uma comunidade poltica. Os shuraf'
serviam de mediadores em caso de problemas, srios ou passageiros, entre o
poder central e os chefes locais. Os shaykh de zwiya administravam em nome
do sulto as regies longnquas e pouco produtivas ou mantinham a paz nos
territrios estratgicos17. No caso em que a zwiya se opunha ao soberano por

15    E. Michaux-Bellaire, 1921.
16    O livro clssico de R. Montagne, 1930, deve ser lido com um esprito crtico, j que os prprios docu-
      mentos do Makhzen nos obrigam a ter nuances sobre muitas ideias pr-concebidas sobre o conceito de
      kabla.
17    A. G. P. Martin, 1923 (sobre o papel da zwiya wazzniyya zwiya no Twt). P. Durant, 1930, p. 65-77
      (sobre o papel da zwiya sharkawiyya zwiya no Tadla).
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                                              557



razes polticas, este a destrua. Pode-se dizer o mesmo em relao aos chefes
de kabla. Uma grande autonomia lhes era reconhecida quando lutavam contra
estrangeiros, como no Rf, onde os espanhis de Ceuta e Melilla eram cons-
tantemente sitiados ou tambm quando o seu territrio era montanhoso ou
desrtico; mas se reivindicassem uma independncia total recusando as ordens
do sulto ou negligenciando a aplicao da shar`a, eles eram declarados em
estado de siba, isto  culpveis de ruptura injustificada do pacto da bay`a; eles
podiam ser reduzidos pela fora ou pela diplomacia, imediatamente ou a longo
prazo, de acordo com meios militares dos quais o soberano dispunha; mas nunca
a soberania do sulto e da shar`a era abandonada18.
    O sistema sociopoltico marroquino, tal como o havia reorganizado Muham-
mad III, tinha revivido a tradio islmica ortodoxa e reconhecido a autoridade
das corporaes intermedirias, limitando as ambies do poder central. Ele
havia deste modo reforado, na comunidade marroquina, a ideia de Estado, ao
fazer com que cada grupo profissional, social ou tnico exprimisse suas reivindi-
caes no interior do Makhzen. Entretanto, este sistema criava as suas prprias
contradies; ele oscilava claramente entre os dois tipos ideais: um, sob a beno
dos `ulam'e dos mercadores, teria sido o reino da shar`a e da administrao
direta; o outro, o qual teria sido mais ao gosto dos chefes locais, o sulto, smbolo
da federao, no teria outra autoridade do que aquela que os chefes lhe teriam
delegado. Este sistema era a consequncia da mudana na relao de foras entre
o Marrocos e a Europa, intervinda durante a era mercantilista. Antes que se
estabilizasse, ele teve que enfrentar uma presso europeia ainda mais forte; suas
contradies vieram  luz aps as derrotas militares que o Marrocos sofrera, pri-
meiramente, contra a Frana em 1844, e, depois, contra a Espanha em 1860.


     As reformas do Makhzen diante da ofensiva europeia
    A poltica das potncias coloniais com relao ao Marrocos ser analisada em
outro momento19. Recordemo-nos somente que at 1880 existia um consenso
europeu para manter o status quo no imprio do Marrocos. Nem expanso
territorial francesa a partir da Arglia ou espanhola a partir de Ceuta e Melilla,


18   As potncias coloniais interpretaram a noo de siba de acordo com as exigncias de sua poltica expan-
     sionista. Trata-se, agora, de compreend-la em seu contexto original e no em relao ao direito europeu
      poca.
19   Ver o captulo 19.
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nem privilgio comercial para os produtos ingleses. Apesar de algumas con-
cesses arrancadas pela Frana e pela Espanha aps as guerras de 1844 e de
1859-1860, estes princpios foram reafirmados pela Conferncia de Madrid de
1880 e vigoraram at o final do sculo XIX20.
   Entretanto, entre as reivindicaes das potncias europeias e a autoridade
do sulto, havia uma contradio absoluta. Durante a conquista da Arglia,
este ltimo no podia manter uma posio de neutralidade como lhe havia
aconselhado a Inglaterra e o simples bom senso, pois o direito pblico islmico
lhe obrigava a ajudar os muulmanos vizinhos abandonados por seu soberano
legtimo, na poca o dirigente otomano21. Em 1859, os rifenhos destruram uma
edificao que os espanhis de Ceuta tinham construdo fora dos muros da
cidade e rasgaram a bandeira que a sobrepunha. Madrid exigiu a entrega de doze
homens que considerava como responsveis. O sulto no podia se submeter, j
que ele seria assim culpvel de uma ruptura deliberada do juramento da bay`a22.
Em matria de comrcio, o qual interessava especialmente a Inglaterra, o sulto
no podia, com uma simples penada, liberar as exportaes, conceder o direito
de propriedade aos europeus ou obrigar os kd a receberem o testemunho dos
no muulmanos, j que em todos estes pontos a interdio do fikh maliquita
era clara23.
   O sulto encontrava-se deste modo em uma posio pouco invejvel, divi-
dido entre as exigncias dos europeus e a oposio pontilhosa dos `ulam'; para
os primeiros, ele era um obscurantista, para os segundos um inovador. Da a
ambiguidade da reforma.
   No sculo XIX, o Makhzen e os cnsules estavam de acordo em reforar o
exrcito e reorganizar a administrao a fim de assegurar a todos a segurana,
a ordem e a justia. O problema todo era saber em que estrutura legal: a shar`a
ou uma nova legislao de inspirao europeia? Esta contradio no seria



20    As tropas de Bugeaud atacaram o exrcito marroquino no Isly, perto de Oujda, em 14 de agosto de
      1844; a marinha francesa bombardeou Mogador no dia 15, aps ter j bombardeado Tanger no dia 6. O
      Tratado de Tanger, assinado em 19 de setembro, ps fim  guerra, mas a Conveno de Lalla-Marnia de
      18 de maro de 1845 no resolveu o contencioso fronteirio devido s ambies francesas no Saara. No
      outono de 1859, os espanhis organizaram um exrcito europeu em Ceuta e, aps algumas escaramuas
      em Cabo Negro, entraram em Tetuan em 6 de fevereiro de 1860. Pelo tratado de 20 de novembro de
      1861, a Espanha obteve a ampliao dos limites de Ceuta e Millila, concesses comerciais e um porto
      de pesca ao Sul, localizado em 1883 em Ifni.
21    A. Tasl, s.d.
22    A. al-Nsir, 1954-1956, vol. IV, p. 84; J.-L. Mige, 1961-1963, vol. II, p. 360-362.
23    A. Tasl, s.d., captulo 1, seo 4.
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                              559



resolvida pacificamente. O Makhzen realizou uma reforma, porm limitada e,
consequentemente, no satisfatria aos olhos dos europeus.
    Muhammad IV assistiu s duas derrotas do Isly e de Tetouan, a primeira vez
como prncipe herdeiro e comandante-chefe do exrcito, e a segunda como sul-
to.  por esta razo que ele tomou a iniciativa da reforma militar em 1845. Para
abrir uma brecha no tradicionalismo reinante, ele incentivou um `lim conhecido
a compor uma obra justificando a reforma em uma base tradicionalista24. Ele
apelou aos tunisianos que serviram o exrcito otomano para organizar em regi-
mentos treinados no modelo europeu, chamados de `askar e cujos efetivos, no
incio, no ultrapassavam 500 homens. Com a ajuda de renegados, entre os quais
o mais conhecido era o francs de Saulty, o qual havia se dado o nome islmico
de `Abd al-Rahmn al-`Al, fundou em Fez uma escola de engenharia (madrasat
almuhandisn), na qual foram formados agrimensores, topgrafos, cartgrafos
e artilheiros. Com este intuito, ele mandou traduzir por um malts e sob o seu
controle direto tratados de geometria. Por intermdio de seu representante em
Gibraltar, ele solicitou ao pacha do Egito que lhe enviasse um lote de livros cien-
tficos traduzidos das lnguas europeias. O sulto `Abd al-Rahmn deu liberdade
ao seu filho, mas ele no assumiu a autoria desta obra reformadora, na qual ele
no via o benefcio imediato. Muhammad IV, uma vez sulto, teria dado sem
dvida um impulso mais vigoroso a esta reforma se a guerra de 1859-1860 no
lhe tivesse criado problemas financeiros inextricveis. Todavia, ele decidiu enviar
um grupo de bwakher ao Egito para se aperfeioarem na arte da artilharia. A
partir de 1870, misses iam regularmente a Gibraltar para seguirem estgios
de dois anos cada um. Hasan I continuou a poltica de seu pai em condies
mais favorveis. Ele instituiu um modo de recrutamento regular: cada cidade
imperial devia fornecer 500 recrutas, cada porto 200, cada regio 2.000; isto
permitiu reunir um exrcito de 25.000 soldados. Em 1877, ele solicitou  Frana
que lhe enviasse oficiais instrutores para sua artilharia. Em 1880, 180 oficiais e
suboficiais formaram sob a direo do comandante ingls Maclean, o regimento
dos harraba. Mais tarde, Hasan I enviou outras misses militares  Blgica,
Alemanha e Itlia. Com aquele exrcito reorganizado, ele pde reafirmar sua
soberania sobre os territrios longnquos, como o Ss (Sousse) e o Tafillet, os
quais excitavam o apetite de diversas potncias europeias25.
    John Drummond Hay foi o ministro de Sua Majestade britnica em Tanger
de 1839 a 1886. Ele agiu com ardor tanto ao defender a soberania do sulto e a

24   M. Al-Kardd, s.d.
25   J.-L. Mige, 1961-1963, t. II, p. 208. Ver, sobretudo, M. Al-Mannni, 1973, p. 55.
560                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880




Figura 18.3   O sulto Hasan I (1873-1894) [Fonte e fotografia: coleo Biblioteca geral e Arquivos,
Rabat.]
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                                              561



integridade de suas possesses, quanto ao exigir deste a abertura do pas ao comr-
cio internacional26. Tirou vantagem de seu imenso prestgio junto ao sulto `Abd
al-Rahmn para que aceitasse o tratado de amizade, de comrcio e de navegao
de 9 de dezembro de 1856, o qual impunha os seguintes princpios: liberdade de
trfego; fim de todo monoplio pblico ou privado; garantia da segurana dos
bens e das pessoas; abertura de consulados em todo o pas; iseno de qualquer
taxa ou encargo,  exceo dos direitos alfandegrios, de ancoragem e pilotagem
para os comerciantes estrangeiros e seus associados marroquinos27.
    A abertura do Marrocos ao comrcio europeu teve vrias consequncias funes-
tas: a primeira foi uma crise monetria aguda. No sculo XVIII, o dinr, moeda
de ouro, tinha completamente desaparecido; o sistema monetrio marroquino
tornou-se bimetlico, baseado na prata e no bronze. As moedas de prata correntes
eram a peseta e o douro espanhis, o franco e o ecu franceses; o douro e o ecu
eram chamados de riais. As moedas de bronze fabricadas no Marrocos eram a
`ukia (ona) e a mzna. O mithkl servia como unidade de clculo. Ele valia 10
onas e a ona 4 mzna. Quanto mais as relaes comerciais se desenvolviam
com a Europa, mais a moeda de prata se tornava rara; e mais a de bronze, a mais
comum, se desvalorizava. Na metade do sculo, ela tinha se reduzido a um quarto
do seu valor original, com as consequncias bem conhecidas de toda inflao: alta
de preos, empobrecimento da populao, dificuldades do Tesouro pblico e con-
centrao de bens imveis nas mos de uma minoria. O Makhzen tentou reagir
tomando medidas autoritrias em 1852, 1862, 1869 e 1877, cada vez querendo
voltar a uma paridade passada. O sulto s ganhava com essas revalorizaes se ele
se fizesse pagar em moeda de prata e se pudesse pagar suas dvidas tanto em riais
quanto em onas. Ora, os mercadores estrangeiros faziam baixar os direitos alfan-
degrios pagando-os em onas desvalorizadas, ao passo que o sulto devia pagar
suas dvidas externas em piastras espanholas e em ecus franceses que comprava
por um preo alto. As medidas monetrias acabavam por empobrecer ainda mais
o Tesouro. No fim do nosso perodo, Hasan I decidiu cunhar uma nova moeda
de prata (o rial hassani, equivalente a 5 francos) sem retirar contudo aquela de
bronze; esta continuava a se desvalorizar (em 1881, o rial valia 14 mithkl em vez
de 10), levando em sua queda as novas moedas28.


26   J. D. Hay, 1896.
27   Ver o texto em P.-L. Rivire, 1924-1925, vol. I, p. 36-42.
28   J.-L. Mige, 1961-1963, t. II, p. 388-389, e t. III, p. 97-106 e p. 434-437. Ver tambm G. Ayache, 1958.
     No incio do sculo, 10 onas valiam 5 pesetas; em 1845, 3 pesetas e um quarto; em 1874, uma nica
     peseta. Nmeros extrados de al-Nsir, 1954-1956, t. IX, p. 208.
562                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    As despesas do Makhzen no paravam de aumentar na sequncia das refor-
mas empreendidas e das numerosas dvidas e indenizaes pagas aos Estados e
comerciantes europeus. Uma reforma fiscal se impunha. Entretanto, o sulto no
era livre de empreend-la sem consultar os `ulam', j que se tratava de um pro-
blema de direito pblico. Estes ltimos tinham, por vrias vezes antes, declarado
ilegais as taxas sobre as transaes comerciais, designadas sob o nome geral de
muks (plural de maks), quando elas no eram provisrias e gastas com fins pre-
cisos; todo imposto fundirio era tambm inaceitvel aos olhos deles, j que os
marroquinos eram totalmente proprietrios de suas terras29. Em julho de 1860,
Muhammad IV solicitou aos `ulam' lhe indicar o meio de pagar a reparao de
guerra que permitiria recuperar Tetuan, ocupada pelos espanhis, e de impedir
que outras cidades cassem em suas mos. Os `ulam' permaneceram fiis  sua
opinio ortodoxa considerando que somente uma contribuio extraordinria,
provisria, recaindo sobre todos os habitantes, isto , no arrendada a terceiros,
seria legal, ainda que o sulto tivesse tomado o cuidado de lhes explicar que
as circunstncias no o autorizavam a aplicar tal medida30. Este, desconside-
rando estas objees, instituiu taxas indiretas que deram lugar, entre a populao
urbana, a uma oposio surda e tenaz. Em 1873, quando da proclamao de
seu sucessor, os artesos exigiram a abolio destes muks antes de assinarem a
bay`a; Hasan I teve que reprimir pela fora a cidade recalcitrante. Mais tarde,
ele instituiu, a ttulo experimental, o tartb, um imposto fundirio com taxa fixa,
coletado por `uman' (inspetores alfandegrios) especializados. Sem solicitar o
parecer dos `ulam', dos quais ele conhecia a opinio negativa, ele comeou por
receb-lo no Haouz, a parte do reino mais bem administrada. Entretanto, ele
o deixou rapidamente cair em desuso, por razes que no so ainda claras, mas
que sem dvida tinham a ver com a situao da opinio pblica e a oposio
de alguns chefes do exrcito. Por falta de meios financeiros, o Makhzen foi
obrigado a limitar suas ambies reformistas, mantendo no nvel mais baixo
suas despesas correntes.
    O nmero de comerciantes europeus instalados no Marrocos aumentou
regularmente depois de 1856. Para responder s suas queixas, o Makhzen se lan-
ou numa reforma administrativa. Em 1861, foi criada a corporao dos `uman'.
Recrutados entre os mercadores, os secretrios de chancelaria e os notrios, rela-
tivamente bem pagos, eles foram instalados nos oito portos abertos ao comrcio
estrangeiro; eles teriam ao seu lado os controladores espanhis encarregados

29    Al-Mahd al-Wazzn, 1900, vol. III, p. 46-47.
30    M. Dwud, 1956-1970, vol. V, p. 99-100.
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                                          563




Figura 18.4 Rial de prata cunhado em Paris em 1881 para Hasan I. [Fonte: A. Laroui, Les origines sociales
et culturelles du nationalisme marocain, 1977, Maspero, Paris.]



de verificarem as receitas das alfndegas, das quais 60% serviriam para pagar a
reparao de guerra. Estes `uman', entre os quais vrios haviam feito fortuna
no exterior (Gibraltar, Marselha, Manchester, Gnova), ajudaram a racionalizar
a burocracia marroquina e foram muito influentes junto a Muhammad IV e
Hasan I. Um outro grupo viu igualmente seu prestgio aumentar, o dos talaba
que tinham sido enviados a Europa para realizarem estgios e aprenderem ln-
guas estrangeiras. Entre 1874 e 1888, oito misses, compostas por 350 pessoas,
foram para os principais pases europeus. Estes jovens foram empregados, no
seu regresso, no departamento da moeda da famosa makina de Fez (fbrica de
armas montada por italianos), no servio fiscal que foi reorganizado, em 1886,
e no vizirato das relaes externas (wizrat albahr)31.

31   J.-L. Mige, 1961-1963, vol. IV, p. 397-408, e M. Mannni, 1973.
564                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Entretanto, o verdadeiro objetivo dos comerciantes europeus era limitar a
competncia do kd32. Eles preferiam ser julgados pelo governador (k`d ou
`mel) esperando a criao de um tribunal misto que utilizaria um cdigo de
inspirao ocidental. A Frana, sob o pretexto de ter tido um papel moderador
junto  Espanha em 1860, obrigou Muhammad IV a aceitar a conveno de
19 de agosto de 1863, a qual concedia um privilgio jurdico tanto aos comer-
ciantes estrangeiros como aos seus associados marroquinos. Em vez de serem
julgados pelo kd, eles o eram pelo governador, na presena do cnsul respectivo.
Enquanto o nmero destes associados permanecia limitado (200 por kabla, por
volta de 1870), a situao, ofensiva ao sulto, era contudo suportvel. Mas os
cnsules no demoraram em dar a condio de samsr (intermedirio comercial)
a todos aqueles, judeus ou muulmanos, que desejassem escapar da jurisdio
do kd e que podiam pagar pelo servio33. O Makhzen, vendo sua autoridade
minada por esta proteo irregular advinda de uma interpretao tendenciosa
da conveno de 1863, no parou de protestar e acabou por ganhar o apoio da
Inglaterra. Uma conferncia internacional reunindo doze pases, teve lugar em
Madrid, em julho de 1880, para colocar um fim a esta prtica. O nmero de
protegidos foi bastante limitado: cada comerciante teve de se contentar com
somente dois samsr, os nicos, junto com os membros de sua famlia vivendo
sob o seu teto, que podiam se prevalecer da proteo estrangeira. Todavia, em
contrapartida desta limitao, foi reafirmado o direito de propriedade aos euro-
peus estabelecidos nos portos, o que o sulto no via de bom grado.
    A presso europeia teve, deste modo, como consequncia, uma reforma do
exrcito, da administrao, da moeda e da fiscalidade marroquinas. Entretanto,
esta reforma foi limitada tanto por obstculos externos, quanto por dificulda-
des internas. Os europeus aceitavam medidas que garantissem sua segurana
e incentivassem sua atividade comercial, mas no desejavam, especialmente
os franceses e os espanhis, que o Makhzen se reforasse a ponto de poder se
opor com sucesso aos seus objetivos34. Do outro lado, o sulto no estava livre
para tocar no ensino e nas instituies judicirias e religiosas, tendo em vista
a doutrina intransigente dos `ulam'. Esta restrio no campo da reforma, que
aumentava ainda mais a parcimnia dos meios financeiros, teve um resultado
surpreendente: em vez de consolidar sua independncia, o sulto ligava-se pro-


32    "Para penetrar pacificamente no Marrocos,  necessrio, previamente, desmuulmaniz-lo" (G. Maura y
      Gamazo, 1911, p. 197).
33    J. D. Hay, 1896, p. 321-323.
34    J. Caill, 1951, p. 121.
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                                         565



gressivamente  Europa a medida que se consagrava a reforma de seu pas. Com
efeito, mais as relaes se desenvolviam com o exterior, maior era o nmero de
comerciantes estrangeiros e mais havia incidentes que davam lugar a pesadas
indenizaes ou a concesses territoriais, ou ainda a uma perda de prestgio35.
A populao via um elo de causa e efeito entre a abertura  influncia externa,
as reformas empreendidas e seus crescentes problemas. A opinio pblica estava
cada vez mais irritada com os estrangeiros por razes econmicas, psicolgicas
e religiosas.


     As reaes da populao
    No Marrocos, a produo agrcola dependia e depende ainda das incer-
tezas climticas; ela teve entretanto que responder  demanda crescente dos
exportadores europeus. Seguiu-se uma srie de fomes que abateu duramente
as populaes urbanas e rurais em 1850, 1857, 1867 e, sobretudo, durante os
terrveis anos de 1878 a 1881, durante os quais 12 a 15% dos habitantes das
cidades, estima-se, viviam da caridade pblica, enquanto 65.000 marroquinos
tiveram que se expatriar36. Prximo s muralhas, comeavam a se formar bairros
de nuala que lembram as favelas do sculo XX. Muitos agricultores e pastores,
incapazes de pagarem os impostos ou de quitarem as dvidas contradas com os
comerciantes europeus, deixaram suas terras; este despovoamento rural tocou
ao redor de um tero das terras agrcolas no Sul do pas e ao redor das cidades
costeiras. O Makhzen sofria duplamente com as consequncias negativas desta
situao. De um lado, as receitas da zakt diminuam, do outro, os europeus
exigiam que ele reembolsasse as dvidas privadas, sobretudo quando os deve-
dores eram os k`id. Alm disso, os bens passavam ilegalmente, e a baixo preo,
entre as mos dos estrangeiros, por intermdio dos samsr e com a beno de
kd pouco escrupulosos; e, consequentemente, no pagavam mais impostos.
O sulto tentou deter esta evoluo desastrosa. Com uma srie de medidas
entre 1873 e 1883, ele proibiu aos europeus de irem aos mercados rurais; exi-
giu dos k`id que separassem os seus bens das de seus contribuintes; limitou o
nmero de kd e de notrios habilitados a autenticar os reconhecimentos de



35   "A Turquia e o Egito tornaram-se, aps as reformas, mais ricos, mas bem menos independentes", disse
     o sulto Muhammad IV ao ministro francs Tissot. Ver J. D. Hay, 1896, p. 288-289.
36   J.-L. Mige, 1961-1963, vol. III, p. 367 e 444 .
566                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



dvidas sob a cobertura dos quais se faziam as vendas37. Se os habitantes das
reas rurais empobreciam, os das cidades no se encontravam em uma situao
melhor. Todos eram prejudicados pela alta dos preos dos produtos de primeira
necessidade: gros, l e peles. Os produtos importados (tecidos, velas, fsforos,
acar) tinham um bom preo, mas concorriam duramente com os artesos
que constituam a coluna vertebral da economia urbana. Os funcionrios do
Makhzen, pagos por este ltimo ou ento pelos hab, ou ainda pelos prprios
administrados, sofriam os malefcios da desvalorizao monetria: entre 1845 e
1874, seus salrios reduziram-se a um dcimo de seu valor em termos reais38. Os
nicos a escaparem deste empobrecimento generalizado foram os mercadores
e os associados dos comerciantes europeus que podiam conseguir moedas de
prata. O valor de seu capital aumentava automaticamente; eles compravam, a
preo vil, inmeros imveis e bens fundirios, alm de conceder emprstimos
a taxas usurrias  populao rural e aos prprios membros do Makhzen. Seu
enriquecimento, ainda menos bem visto, j que sobressaa  pobreza reinante,
era considerado como uma outra consequncia negativa da abertura do pas 
atividade externa.
    A populao marroquina no era sensvel somente a estes aspectos econ-
micos. Ela ressentia tambm, e talvez sobretudo, o declnio da autoridade do
kd, do sulto e, em ltima anlise, do isl. Cada potncia colonial dava muita
importncia ao respeito devido  sua bandeira. Se havia um assassinato de um de
seus cidados, o cnsul no queria saber se houvera ou no provocao, vontade
de matar ou no: ele exigia a execuo do culpado (em caso de indeciso, de
todos aqueles que assistiram ao incidente), uma indenizao para a famlia da
vtima, a destituio dos agentes que lhe pareciam faltar com o zelo, desculpas
oficiais e a saudao  bandeira39. Em tais condies, os funcionrios no sabiam
mais qual atitude adotar. Se recusassem as exigncias dos cnsules, prejudicando
assim o sulto, eles sofreriam as consequncias; se, por outro lado, aceitassem
tais exigncias, contrariamente ao uso que deixava a deciso nas mos do poder
central e uma revolta se desenrolasse, eles assumiriam tambm esta responsabi-
lidade. Seu prestgio erodia-se continuamente em detrimento da ordem da qual
os europeus pretendiam ter necessidade40.



37    A. Ibn Zadn, 1961-1962, vol. I, p. 364-366, e vol. II, p. 48-51 e p. 129-131.
38    Ver nota 28.
39    G. Ayache, 1965, vol. 6.
40    A. Ibn Zadn, 1929-1933, vol. II, p. 374.
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                     567



    O kd e o muhtasib sofriam particularmente com esta situao contrria  letra
da shar`a, da sua oposio feroz a toda proteo. Com o apoio ativo da Ingla-
terra, o filantropo judeu ingls sir Moses Montefiore empreendeu uma misso ao
Marrocos na sequncia da qual o sulto Muhammad IV promulgou o dahr de
5 de fevereiro de 1864, no qual ordenava aos administradores marroquinos que
tratassem as questes dos judeus com celeridade e equidade, ameaando-os de
graves sanes se no obedecessem. "Desde que os judeus tiveram o dahr, eles
fizeram cpias que distriburam em todas as cidades e se puseram de acordo para
se tornarem autnomos de toda autoridade, sobretudo aqueles dos portos", relata
o historiador al-Nsir41. Os `ulam' viram, neste decreto, um golpe contra a shar`a;
a reao foi to violenta que Muhammad IV teve que retroceder. Os protegidos
muulmanos suscitavam uma oposio ainda maior. Em inmeras brochuras,
quando das preces de sexta-feira nas mesquitas, os `ulam' pressionavam o sulto a
tomar contra eles severas represlias. "Se no  disse um dos `ulam'  a dvida se
insinuaria entre os espritos dos ignorantes que julgariam mal o isl e acreditariam
que a religio dos infiis lhe  superior42". Quando o sulto no seguiu o conselho
deles por no querer criar dificuldades com as potncias, eles clamaram pelo povo.
O mesmo `lim j citado disse neste sentido: "O dever de todo crente  abster-se
de frequentar estes protegidos, de convid-los, de compartilhar sua refeio e de
se ligar a eles por amizade ou casamento43". J que a maior parte destes protegidos
muulmanos eram ricos mercadores, a campanha dos `ulam', apoiada pela plebe
das cidades, tomou os ares de um ataque da aristocracia religiosa contra a nova
elite que aparecera em circunstncias inditas criadas pela abertura do pas.
    Se as reformas foram uma consequncia da presso estrangeira, elas deram
lugar, por sua vez, a uma violenta xenofobia. A maioria das mudanas ocorridas
na vida dos marroquinos era negativa; estes as ligaram muito naturalmente
 presena dos europeus, cada dia mais invasora. "A razo da alta dos preos,
da fome  a coexistncia com os europeus", disse al-Nsir44. Cada um queria
reduzir ao mnimo o contato com os estrangeiros; mais que isso, o ideal se
tornou o retorno s condies de vida de outrora. Uma ideologia romntica
de embelezamento do passado e de ressurreio da tradio (ihy'alsunna)
ganhou todas as camadas da sociedade. Para reduzir o campo de atividade dos
europeus, o sulto atrasava qualquer negociao, o que irritava os cnsules e


41   A. al-Nsir, 1954-1956, vol. IX, p. 114.
42   M. al-Mannn, 1973, p. 256.
43   Ibid.
44   A. al-Nsir, 1954-1956, vol. IX, p. 208.
568                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



os fazia denunciar um empecilho. " preciso discutir, discutir e ainda discutir,
que s resultar no bem", aconselhava Hasan I a um de seus representantes em
Tanger45. O clero exigia a estrita aplicao da shar`a em todos os campos da
vida social e deu um sentido muito particular  palavra reforma. No se tratava
tanto, diziam os `ulam', de mudar as instituies, o que  de todos os modos
impossvel, mas de retornar  tica dos ancios (salaf), daqueles que deram aos
muulmanos exemplos de grandeza e de justia.  noo de nidhm, reorgani-
zao do exrcito, da burocracia e da vida cotidiana, eles opuseram a de islh, a
renovao moral e religiosa do indivduo.  este movimento que foi chamado
de salafismo (fundamentalismo islmico)46. A plebe das cidades lembrava com
nostalgia os bons e velhos tempos em que os produtos da terra e do artesanato
eram baratos, e as necessidades dos indivduos e do Makhzen limitadas. Contra
os responsveis, evidente aos seus olhos, destas dificuldades eles nutriam uma
mistura de medo, admirao, desprezo e dio. A xenofobia do povo, o salafismo
dos `ulam' e o conservadorismo do Makhzen expressavam um fato vivido: a
decadncia da antiga sociedade diante do capitalismo liberal do sculo XIX. A
elite poltica e religiosa marroquina era ento violentamente antiliberal.
    "A liberdade, tal como a compreendem os europeus,  sem dvida alguma
uma inovao dos libertinos ateus, j que ela nega os direitos de Deus, dos pais e
da prpria natureza humana47". A dialtica pela qual se modernizava a sociedade
marroquina, suportando as influncias e respondendo as investidas da Europa,
no foi percebida pelos interessados como um fato positivo. Eles no viam nela
a promessa de um futuro diferente; ressentiam somente o naufrgio de um
passado que o tempo havia enfeitado em que o povo era prspero, os `ulam'
ouvidos, o Makhzen obedecido e o sulto independente.


      Concluso
    Em 1880, a grave crise agrcola, iniciada cinco anos atrs, estava prxima do
fim. O Makhzen terminava de pagar suas ltimas parcelas da reparao de guerra
 Espanha e do emprstimo contrado junto aos bancos ingleses. Os controlado-
res espanhis, cuja presena era uma constante fonte de frices e uma dolorosa
lembrana da derrota de 1860, no tardariam a deixar os portos marroquinos e


45    A. Ibn Zadn, 1929-1933, vol. II, p. 376.
46    Ver o artigo isl na Enciclopdia do Isl, vol. IV, p. 146-170.
47    A. al-Nsir, 1954-1956, vol. IX, p. 114-115.
O Marrocos do incio do sculo XIX at 1880                                                          569



os muks a serem abolidos48. A Conferncia de Madrid, cuja primeira sesso ter-
minou em 3 de julho de 1880 com a assinatura da conveno internacional sobre
a proteo no Marrocos, parecia ser muito mais um sucesso para a Inglaterra e o
Marrocos. A Frana, a qual no estava inteiramente refeita da derrota de 1870,
no conseguira fazer prevalecer seus pontos de vista, apesar do apoio ttico que lhe
dava a Alemanha49. Esta, pouco depois, entrou com fora no cenrio marroquino
para abrir uma brecha nos interesses comerciais ingleses e contrariar os objeti-
vos polticos franceses. O territrio do Marrocos foi defendido contra a cobia
dos franceses no Twt, dos ingleses em Tarfaya e dos espanhis em Sakiyyat
al-Hamra50. Em resumo, Hasan I, reinando sobre o que se chamava, s vezes, de
califado do Oeste em oposio ao Imprio Otomano, representava a figura de um
grande sulto, tanto no interior como no exterior do pas.
    As contradies sociais, advindas com a abertura  Europa, estavam em
andamento; mas elas pareciam ento controlveis. Com a benevolncia de um
pas como a Inglaterra ou a ao menos da Alemanha, o Marrocos parecia estar no
caminho de conseguir sua renovao. Esta foi em todos os casos a opinio dos
marroquinos do sculo XX. O reinado de Hasan I, independentemente de seus
resultados efetivos, tornou-se uma nova era de ouro. Julgou-se que as reformas
empreendidas eram suficientes para dar  luz um Marrocos forte, moderno e
independente, se no houvesse tido as manobras da Frana e da Espanha. O
reformismo do Makhzen, o salafismo dos `ulam ' e o sentimento antieuropeu
das massas rurais se combinaram para engendrar a ideologia mobilizadora do
nacionalismo do sculo XX.
    Permanece a questo da avaliao objetiva dos resultados desta poltica refor-
madora.  preciso sublinhar que ela se deu inteiramente na estrutura legada
por Muhammad III que, ele mesmo, teve que enfrentar uma brutal mudana
na relao de foras entre o Marrocos e a Europa. Afinal,  do conhecimento
aprofundado das circunstncias que determinaram as escolhas de Muhammad
III que depende todo julgamento racional sobre a evoluo social do Marrocos
no sculo XIX.




48   A. al-Nsir, op. cit., p. 147. Os direitos de entrada foram abolidos em dezembro de 1885. A populao
     esperava impacientemente que as outras taxas o fossem tambm.
49   J.-L. Mige, 1961-1963, vol. III, p. 263-292.
50   J.-L. Mige, op. cit., p. 357. Ver tambm A. Ibn Zadn, 1929-1933, vol. II, p. 333-335.
Novas formas de interveno europeia no Magreb                           571



                                      CAPTULO 19


     Novas formas de interveno europeia
                 no Magreb
                                        Nicolay A. Ivanov




   A expanso comercial e a luta pelo domnio das rotas internacionais de
comrcio figuravam entre as caractersticas essenciais do colonialismo europeu
do sculo XVIII e do incio do XIX. "A guerra santa" no mar, travada h muito
pela Arglia, pela Tunsia, pela Tripolitnia e pelo Marrocos, preocupava muito
os negociantes e os armadores europeus. No incio do sculo XIX, a Europa
continuava a temer os corsrios do Magreb. Sempre que aparecia o pavilho
de Tnis ou de Trpoli, os veleiros napolitanos refugiavam-se perto da costa e
suas tripulaes fugiam. Os mercadores de Marselha, Livorno e outros polos
do comrcio martimo europeu aproveitavam-se amplamente dessa situao
para atrapalhar seus concorrentes, especialmente "Tunis-ach-chattra" (a Tunsia
ladina), que apareceu na cena Mediterrnea no decorrer das guerras napole-
nicas. Em 1800, os navios de Tnis apresentaram-se em Malta e, em 1809, em
Livorno. O dei de Argel firmou acordos vantajosos para as vendas de trigo.
As condies do comrcio e da navegao martima, fixadas pelos Estados do
Magreb, provocaram um vivo descontentamento na Europa. A Arglia, a Tunsia
e a Tripolitnia arrecadavam tributos e cobravam a passagem dos navios das
potncias amigas, apoiando-se em tratados de paz e de navegao martima.
Os atrasos de pagamento e outras violaes dos tratados acarretaram inmeros
conflitos, envenenando cada vez mais as relaes entre o Magreb e a Europa1.

1   Para mais detalhes, consultar N. A. Ivanov, 1976, cap. 3 e cap. 4.
572                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A burguesia dos Estados mediterrneos da Europa apoiava os piratas mal-
teses e napolitanos que perseguiam cruelmente os navios mercantes muulma-
nos. Desde o fim das guerras napolenicas, ela conseguiu organizar grandes
expedies navais contra o Magreb. Sob o pretexto de lutar contra a pirataria,
a Inglaterra, a Frana, a Holanda, a ustria, e os Estados Unidos da Amrica
dirigiram suas esquadras rumo ao litoral da frica do Norte. Em 1815, os navios
americanos foram os primeiros a chegar a Argel. A esquadra anglo-holandesa,
sob o comando de Lorde Exmouth e de Van Cappellen, chegou por sua vez no
nicio de 1816. Depois das "sanes" contra Trpoli e Tnis, ela submeteu Argel a
um bombardeio feroz (em 27 de agosto de 1816), arremessando na cidade 34.000
obuses. De novo, em 1819, viu-se chegar uma esquadra anglo-francesa na frica
do Norte, obrigando os regentes de Tnis, Argel e Trpoli a decretar o fim da
pirataria. Em 1825, os ingleses mais uma vez bombardearam Argel. Em 20 de
outubro de 1827, no decorrer da batalha de Navarin, o que sobrava das frotas
tunisianas e argerianas, assim como navios egpcios e turcos, foram destrudos
pela esquadra unida anglo-franco-russa. Em 1829, os austracos queimaram os
navios marroquinos que, sob as ordens de Mlay `Abd al-Rahmn, tentavam
retomar a guerra santa. Os pases do Magreb perderam a guerra no mar, abrindo
assim o caminho para a impetuosa expanso do comrcio dos Estados europeus.
Aps terem aniquilado a frota magrebina, estes se asseguraram do monoplio do
pavilho e se apossaram, de fato, do comrcio de Tnis e Trpoli com a Europa.
    O Marrocos e a Arglia tentavam, cada um por si, defender suas posies.
Isso provocou a agravao ulterior de suas relaes com as potncias marti-
mas. A recusa do governo do dei de Argel em reservar direitos e privilgios
particulares para os negociantes franceses, que reclamavam a instaurao de
um "estatuto de extraterritorialidade" na Arglia  especialmente a recusa do
dei em reconhecer a competncia exclusiva da Frana no solucionamento dos
litgios pecunirios entre os dois pases  levou ao famoso "golpe de leque" (em
30 de abril de 1827) e  declarao do bloqueio martimo da Arglia. Quanto
ao Marrocos, este decidiu desvencilhar-se do mundo exterior e fechou o pas aos
estrangeiros. Em 1822, havia apenas cinco portos marroquinos onde os europeus
podiam entrar para firmar acordos comerciais cuidadosamente controlados.


      A presso europeia sobre a sociedade tradicional
    O crescimento do comrcio Europeu em Tnis e Trpoli, seu carter usur-
rio e os processos de inflao na economia destes pases deram origem a seus
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                573



problemas financeiros2. Em 1824, o regente de Tnis contratou os primeiros
emprstimos; o da Tripolitnia, oriundo da famlia Kramnl, apenas seguiu
o exemplo. Alguns ministros desses pases endividaram-se. Portanto, no  de
se espantar que, por volta do final da dcada de 1820, Tnis e Trpoli tenham
renunciado a qualquer resistncia poltica  Europa. J em 1827, no recusavam
mais nada aos cnsules estrangeiros e, pouco a pouco, seguiram o curso da pol-
tica destes. Os primeiros tratados desiguais impostos a esses Estados refletiam
o carter peculiar das relaes de Tnis e Trpoli com as potncias europeias. De
acordo com o tratado franco-tunisiano de 8 de agosto de 1830, Tnis confirmava
todos os tratados de paz, de comrcio e de navegao martima precedentes.
Outrossim, Tnis reservava  Frana o direito da nao mais favorecida, renun-
ciava a qualquer ddiva ou tributo reclamado antes aos pases europeus, aceitava
o princpio do livre comrcio e ampliava os direitos de extraterritorialidade dos
estrangeiros. Em 11 de agosto de 1830, firmava-se semelhante tratado entre a
Frana e Trpoli.
    Todos esses tratados reforaram consideravelmente as posies francesas
na frica do Norte. A Tunsia transformou-se rapidamente em semivassalo da
Frana. A maior rival desta ltima, a Inglaterra, estava seriamente preocupada
e fez todo o possvel para garantir o xito da expedio turca de 1835 na Tri-
politnia. No ms de maio, os turcos aproximaram-se do litoral de Trpoli e,
aps haverem destronado a dinastia dos Kramnl, em 1 de junho de 1835,
decretaram o reestabelecimento do poder otomano. Em 1835-1836, as guarni-
es turcas estavam instaladas em diversos centros do litoral de Tripolitnia e
Cirenaica. Entretanto, a conquista de algumas regies interioranas encontrou
srias dificuldades. De 1835 a 1858, os turcos travaram uma luta acirrada contra
as revoltas da populao autctone, em meio a qual surgiram eminentes lderes:
a maior glria coube a Ghma al-Mahmd, inimigo irredutvel dos turcos que
morreu em combate, em maro de 1858.
     medida que subjulgavam o pas, os turcos introduziram uma reforma
administrativa e judiciria concebida segundo modelos europeus. O governador
`Uthmn Amn Pacha (1842-1847) reorganizou a administrao, a justia, o sis-
tema fiscal etc., de acordo com os princpios do tanzmt. Em 1851 foi fundado
o tribunal misto de Trpoli, fazendo com que as posies dos estrangeiros se
reforassem imediatamente. Todas essas medidas, assim como as reformas que
solapavam a sociedade tradicional, suscitavam a incompreenso e os protestos


2    M. H. Chrif, 1970, e E. Rossi, 1968, p.282 e seguintes.
574                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



da populao autctone, principalmente dos grupos nmades e dos camponeses.
"Os turcos e os europeus  dizia Sd Muhammad al-Mahd, filho do fundador
da Sansiyya  so farinha do mesmo saco3."
    Na Tunsia, as reformas foram empreendidas em 1830 e depois prosseguidas
por Ahmad Bey (1837-1855), fervoroso admirador de Muhammad `Ali. Com o
intuito de superar o atraso militar e tcnico, os regentes de Tnis desativaram a
milcia dos janzaros e, ao importar mquinas e equipamentos da Europa, lan-
aram as bases de um exrcito regular e de uma indstria militar. A exemplo do
Egito, foram introduzidos monoplios governamentais levando  estatizao da
economia. Um banco estatal foi criado em 1847 e uma moeda fiduciria posta
em circulao. Em 1841, Ahmad Bey proibiu a venda de escravos e aboliu qual-
quer forma de escravido na Tunsia. Em 1838 foram fundadas a Escola Militar
e a Escola Politcnica. Os tunisianos comearam a estudar lnguas estrangeiras,
a estudar no exterior e a traduzir obras de autores europeus.
    Desejosas de lisonjear os cnsules estrangeiros, as autoridades de Tnis e de
Trpoli incentivavam a atividade dos missionrios cristos. Em Trpoli, os fran-
ciscanos abriram a primeira escola para rapazes em 1816 e para moas em 1846.
Em 1845, o abade Bourgade criou na Tunsia o colgio Saint-Louis e algumas
escolas primrias, assim como a grfica rabe de Tnis. Em 1826 estrearam as
primeiras apresentaes do teatro de Livorno4. Em 1838 foi lanado o primeiro
jornal tunisiano em italiano; muitos emigrantes italianos instalaram-se no pas,
inclusive refugiados polticos como Garibaldi (em 1835 e 1849).
    Mltiplos contatos com os europeus contriburam com o despertar inte-
lectual do pas e lanaram as bases da ocidentalizao das elites. Influenciados
pelo uniforme militar, os meios dirigentes de Tnis e Trpoli assimilaram as
vestimentas, as maneiras e o estilo de vida europeus. No sobrou nenhum rastro
dos antigos preconceitos antieuropeus. Em 1845-1846, as autoridades tunisia-
nas organizaram suntuosas recepes em honra do Duque de Mont Pensier
e do Princpe de Joinville, filho do Rei da Frana, Lus-Filipe. Em novembro
de 1846, Ahmad Bey viajou para a Frana, rompendo assim com preconceitos
seculares.
     diferena dos dirigentes, as massas populares, que carregavam em seus
ombros todo o peso da construo dos palcios, das fbricas e dos quartis,
estavam descontentes com a ocidentalizao e o crescimento da influncia


3     E. Rossi, 1968, p. 327.
4     S. Pantucek, 1969, p.47. No que concerne s origens da arte teatral moderna nos pases rabes, consultar
      T. A. Poutintseva, 1967, e J. M. Landau, 1958.
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                                    575



estrangeira. Elas consideravam os dirigentes renegados e continuavam fiis ao
modo de vida tradicional. Os dirigentes da Arglia e do Marrocos assumiram a
mesma atitude, j que ambos os pases se encontravam  margem das influncias
ocidentais que invadiram,  poca, a maioria dos estados muulmanos.


    A conquista da Arglia
    A inrcia do governo custou caro  Arglia. Aps ter feito tudo para envene-
nar as relaes com a Frana, o dei Husayn no empreendeu nada para reforar
a defesa do pas. Aos olhos dos patriotas argelinos, isso beirava a traio e sig-
nificava a corrupo do regime5.
    A Arglia era totalmente despreparada para a guerra. Esperava-se o inimigo
h trs anos. Porm, quando navios franceses chegaram, em 14 de junho de
1830,  baa de Sd Farrudj (nos relatrios franceses: Sidi-Ferruch), a surpresa
foi total. Os franceses conseguiram desembarcar um corpo expedicionrio de
37.500 homens, sob o comando do general de Bourmont. Foi somente em 19
de junho de 1830 que a maior parte das tropas do dei (janzaros e makhzen),
sob as ordens de Ibrhm Agha e reforada pelas milcias de Kabilia  40.000
homens no total , atacou os franceses em Staoueli. Essa batalha terminou com
a derrota total de Ibrhm Agha e revelou a imperfeio da organizao militar
e tcnica do exrcito do dei, que apenas pde opor aos franceses a coragem de
seus soldados. A segunda tentativa para rechaar o inimigo (a batalha de Sd
Khalef, em 24 de junho) findou-se com outra derrota de Ibrhm Agha. Em 29
de junho, aps ter tomado a parte alta de Bouzareah, os franceses iniciaram o
stio do forte chamado Sulto Calassi (o forte do Imperador), que assegurava a
defesa de Argel em terra firme. Eles lanaram o ataque em 4 de julho.
    Foi um combate cruel entre a arte e o desespero  escreveu o coronel Bogdanovitch.
    Por fim a arte venceu: os slidos muros do castelo desmoronaram; os canhes que
    o defendiam foram danificados; corajosos turcos faleceram sob a chuva de balas de
    canhes e de bombas; os ltimos soldados da guarnio precipitaram -se rumo 
    cidade; mas, em vez da salvao que ali esperavam encontrar, eles caram sob as balas
    dos canhes da Casbah, voltados contra eles sob a ordem do dei6.



5    Tal estado de esprito pode ser encontrado na obra de M. ibn `Abd al- Kdir, 1903. Os trechos mais
     caractersticos so sitados por A. Benachenhour, 1966, p.49.
6    M. N. Bogdanovitch, 1849, p.54.
576                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Em 5 de julho de 1830, o dei assinou a ata de capitulao e a rendio de
Argel. Foi-lhe permitido, assim como a todos os membros do Dwn e aos
janzaros, deixar o pas com suas famlias e seus bens. A autoridade suprema
passou para as mos do comando francs. Porm, este ltimo estava desprovido
de qualquer estrutura administrativa e no tinha a menor ideia do que era pre-
ciso fazer.  muito curioso constatar que o conde de Bourmont, que recebeu o
basto de marechal pela derrota do exrcito do dei, ordenou a seus engenheiros
a preparao de dois projetos simultneos: o primeiro consistindo em alargar
e aprofundar o porto de Argel, e o segundo em atulh-lo! O governo Polignac
deu incio a negociaes no intuito de submeter Argel  administrao direta
dos turcos7. Aps a revoluo de julho de 1830 surgiram planos de partilha do
pas: deixava-se aos franceses a cidade de Argel e um certo nmero de loca-
lidades do litoral, e as provncias de Or e de Constantina passavam para os
beis tunisianos. Os efetivos do exrcito de ocupao foram reduzidos a 9.300
homens. Todavia, os tratados com a Tunsia, assinados pelo general Clauzel
em 18 de dezembro de 1830, no foram ratificados pelo governo francs. Os
generais franceses continuavam assumindo todos os riscos de suas aes. Aps
terem obtido um certo aumento dos contingentes militares, eles ocuparam Or
(1831), Bne (1832) e Bougie (1834).
    As indecises do governo francs foram finalmente resolvidas em proveito da
burguesia de Marselha e do exrcito de ocupao que, empolgado pelas vitrias
fceis, saqueava descaradamente o pas e no queria renunciar aos "frutos da
vitria".
    O decreto de 22 de julho de 1834, para o estabelecimento de um governo
geral das possesses francesas na frica do Norte, significava a renncia  eva-
cuao de Argel. A concepo da "ocupao restrita" foi adotada oficialmente
at 1840. Sua interpretao concreta dependeu totalmente da vontade e das
disposies pessoais dos inmeros generais franceses que governaram o pas de
1830 a 1841. Na maioria dos casos, eles escolheram o sistema do "governo indi-
reto", assinando tratados com chefes locais (paz, reconhecimento de vassalagem,
liberdade do comrcio e pagamento de tributos). Para estabelecer o contato com


7     Em 1830, aps a derrota do exrcito do dei, a Porta insistiu em preservar a integridade territorial da
      Arglia, sob as ordens do sulto, e no reconheceu a conquista francesa. Entretanto, aps ter perdido
      seu exrcito e sofrido um revs financeiro durante a guerra contra a Rssia, em 1828-1829, a Turquia
      no tinha condio de empreender nada, a no ser declaraes de protesto.  preciso destacar que, ao
      buscar contatos com a Porta sobre a questo argeliana, o governo francs queria, em primeiro lugar,
      obter o consentimento da Rssia. Para as referncias relativas aos documentos dos arquivos diplomticos
      franceses, ver C.-R. Ageron, 1964, p. 9.
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                 577



os comandantes franceses, organizaram-se "escritrios rabes", que se tornaram
pouco a pouco o elo principal do "governo indireto". Foi apenas nas localidades
do litoral, onde as guarnies francesas se instalaram de forma permanente, que
o sistema da administrao civil comeou a se formar. Tal sistema reproduzia
espontaneamente os princpios e as normas da vida administrativa da metrpole
e, pouco a pouco, acabou sendo reconhecido pela lei. Em 1845, a totalidade
do territrio da Arglia estava dividida em "territrio rabe", onde reinavam a
shar`a (lei alcornica) e o sistema de "governo indireto", e em "territrio civil",
onde estavam institudas oficialmente a justia e a administrao francesas. Em
particular, o decreto de 28 de setembro de 1847 aplicava ao "territrio civil" a
lei de 1837 sobre os municpios.


    A resistncia na Arglia
    A ocupao das regies litorneas no alterou as estruturas sociais da socie-
dade argeliana. Os chefes tradicionais, que muitas vezes eram os representantes
da antiga elite dirigente, detinham, como antes, os poderes locais. A capitulao
do dei e a confuso da antiga administrao criaram um vazio poltico. Na Arg-
lia comeou o "tempo da anarquia" (1830-1834), durante o qual diversos centros
e comunidades locais no reconheceram mais nenhum poder. Com a exceo de
algumas camadas da populao urbana abastecida e de alguns chefes polticos,
o pas era hostil  presena francesa. As massas da populao, principalmente
os camponeses e os nmades, estavam decididas a defender sua personalidade e
sua independncia. Contudo, a ausncia de poder centralizado ou de um centro
comum deu necessariamente um carter local a esta luta, na qual predominavam,
muitas vezes, formas passivas e no coordenadas de resistncia. De incio surgi-
rams diversas fomas desta resistncia, como o no reconhecimento da ocupao,
a fidelidade ao isl, o bloqueio das cidades e das regies ocupadas, assim como
o ataque dos destacamentos franceses e dos postos fortificados, o assassinato de
alguns europeus e a justia sumria contra os traidores e os renegados, que se
assemelhavam a um verdadeiro massacre.
     medida que a luta se organizava, dois principais centros de resistncia
se constituram: a Leste e a Oeste do pas. A Leste da Arglia, Ahmad Dey,
antigo gorvernador de Constantina, ps-se  frente da luta. Apoiou-se no que
sobrava dos janzeros e nas comunidades makhzen do Leste da Arglia, seguiu as
orientaes da Porta e tentou reestabelecer o Estado dos deis. Proclamando-se
sucessor do dei Husayn, ps fim  desorganizao da administrao, consolidou
578                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



o aparelho do Estado e reforou o exrcito. No incio, ele representou a principal
ameaa para os franceses.
    A Oeste do pas, foi `Abd al-Kdir, filho de um marabuto de origem xeri-
fiana, que tomou a frente da luta; ele contava com o apoio do Marrocos. Em
suas declaraes, prometia pr fim  anarquia, defender a shar`a e travar a
guerra santa contra os franceses. Em outubro de 1831, foi proclamado emir e
se instalou na residncia dos beis, em Mascara. Em 27 de novembro de 1832,
a assembleia dos `ulam' e dos representantes de grupos bedunos da Arglia
Ocidental reconheceu-o como governador. A energia, a vontade e a coragem,
assim como os sucessos na luta armada contra os franceses, particularmente a
vitria da Macta (em 26 de junho de 1835), consolidaram a autoridade de `Abd
al-Kdir. Por duas vezes  Tratado Desmichels, em 27 de fevereiro de 1834,
e Tratado da Tafna, em 30 de maio de 1837 , os franceses reconheceram-no
como nico governador de toda a Arglia Central e Ocidental, com excesso
das enclaves litorneas. Defensor convencido do isl, fervoroso admirador de
Muhammad `Al, poeta e pensador, `Abd al-Kdir aspirava no somente rege-
nerar a Arglia, como tambm reform-la. Na luta acirrada contra os beis de
Or e do Titteri, antigos janzaros, contra os kologlu e as comunidades makhzen
que estavam a seu servio, mas tambm contra os partidrios de Ahmad Bey e
a confraria tijniyya, cujo bastio era Kasr `Ain-Mahd, tomada em 1838, `Abd
al-Kdir criou o Estado unificado e centralizado dos xerifes rabes. Tal estado
abrangia os dois teros do territrio da Arglia contempornea. Nessas terras,
`Abd al-Kdir ps fim  anarquia e  desordem e criou um sistema judicirio e
administrativo bem organizado (sistema dos khalifa, aghalik e k`d), que impu-
nha uma disciplina severa. Em 1838, ele empreendeu a formao de um exrcito
regular que, dois anos mais tarde, contava com 10.000 homens. A exemplo de
Muhammad `Al, ele estatizou a economia, estabeleceu o sistema dos monop-
lios e criou algumas fbricas de armas e fortalezas, no intuito de defender o pas
contra os elementos subversivos e o inimigo externo8.
    Nos primeiros tempos, os argelianos obtiveram algum xito. Aproveitando-se
habilmente da indeciso de Paris e da incapacidade dos generais franceses de
opor uma estratgia  ttica da guerrilha, os argelianos conseguiram, at 1837,
impedir todas as tentativas dos franceses de entrar nas cidades cercadas. Algumas
derrotas sofridas no Oeste (evacuao de Mascara, perda de Tlemcen, derrota ao
Norte do Sikkak, em julho de 1836) foram compensadas pela esplndida vitria

8     Uma anlise detalhada das estruturas polticas e militares do Estado de `Abd al-Kdir encontra-se no
      livro j citado de A. Benachenhour, 1966, p. 68 e seguintes.
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                                     579




figura 19.1 `Abd al-Kdir [Fonte: quadro de Ange Tissier, Muse de Versailles. Foto: Photothque, Groupe
Presses de la Cit, Paris.]
580                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



dos 23-24 de novembro de 1836 em Constantina, onde as tropas de Ahmad Bey
e os defensores da cidade, sob o comando de Ben Aissa, destroaram as tropas
do marechal Clauzel, que contavam com 7.400 homens. Contudo, o isolamento
da resistncia tornou essa vitria quase intil. Aps ter concludo o Tratado da
Tafna, os franceses dominavam o Oeste e, em 1837, depois de uma cuidadosa
preparao, lanaram uma campanha decisiva contra Ahmad Bey. Em 13 de
outubro de 1837, Constantina foi tomada, o que constituiu a queda do baluarte
da resistncia organizada a Leste. Ahmad Bey refugiou-se nas montanhas, de
onde assediou os franceses e o governo fantoche do Leste do pas at 1848.




figura 19.2   Soldados de `Abd al-Kdir: a infantaria
Figura 19.3 Soldados de `Abd al-Kdir: a cavalaria [Fonte: C. A. Julien, Histoire de l'Algrie contemporaine.
Conqute et colonisation, 1964, PUF, Paris. Ilustraes reproduzidas com a autorizao da Biblioteca Nacional
da Frana, Paris.]




    Aps a queda de Constantina, o essencial da luta desenrolou-se a Oeste.
Em resposta ao desfile de provocao das tropas francesas nas "Portas de ferro"
(Bibn), `Abd al-Kdir declarou a jihad e destruiu os arredores de Argel. Entre-
tanto, foi obrigado a permanecer na defensiva depois de sua derrota do Wd
al-Alleug, em 31 de dezembro de 1839. Em 1840-1841, ele abandonou Mascara,
Saida, Medea, Taza, Boghar, B Sada e, finalmente, Takdempt. Em 1842, ele
criou uma capital nmade apelidada de Smala. Seu desbaratamento diante das
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                                        581



tropas do Duque de Aumale, em 15 de maio de 1843, provocou a desorganiza-
o de todo o mecanismo administrativo e militar por ele implantado. Retirou-
-se no Marrocos com um grupo de partidrios. As promessas lisonjeiras, o ouro
dos agentes franceses, a posio de alguns lderes religiosos, difundindo a fatw
dos `ulam' de Kairuan e do Cairo, que reprovavam "a resistncia absurda", e,
finalmente, a crueldade intil do emir, todos esses fatores no foram, contudo,
as nicas causas da derrota de `Abd al-Kdir.  preciso atribuir uma grande
importncia  "ttica da terra queimada" aplicada pelo Marechal Bugeaud, que
ordenou queimar as lavouras, levar os rebanhos e apoderar-se dos silos de gros
e dos pontos de acesso  agua.




figura 19.4 A guerra franco-marroquina: a batalha de Isly, 1844. [Fonte: N. Barbour, Morocco, 1965, Thames
and Hudson, Londres. Foto: Le Seuil, Paris.]




   As tentativas de `Abd al-Kdir para retomar a luta a partir de suas bases
marroquinas levaram  guerra franco-marroquina. A catstrofe de Isly, em 14
de agosto de 1844, e o bombardeio de Tanger e de Mogador pela frota francesa
foraram Mly `Abd al-Rahmn a recusar seu apoio a `Abd al-Kdir e a assinar
a paz com a Frana. O sulto denunciou `Abd al-Kdir como kfir e chegou a
dar incio a hostilidades contra ele. Em 1845, a confraria taibiyya anunciou a
582                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



chegada do Mahd Muhammad ibn `Abdullh, mais conhecido como B Ma`za
(o homem da cabra), e proclamou a jihad. Logo, a revolta ganhou a Dahra, o
Ouarsenis e o Vale do Shelif. Simultaneamente apareceram nas estepes peque-
nos destacamentos mveis de `Abd al-Kdir e de seus inimigos de longa data,
os marabutos dergawa, eles tambm em luta contra os franceses. A represso
desta revolta mal organizada e isolada foi acompanhada por manifestaes de
crueldade excepcionais. Basta lembrar a ao do coronel Plissier, que sufocou
com fumaa centenas de argelianos refugiados nas cavernas das montanhas. Foi
somente em 1847 que B Ma`za e, a seguir, `Abd al-Kdir depuseram as armas
e renderam-se aos vencedores.




figura 19.5   A submisso de `Abd al-Kdir. [Foto: Photothque, Grupo Presses de la Cit, Paris.]




   Em 1848-1849, os ltimos focos de resistncia foram aniquilados nos Aurs
e no Mzb, onde Ahmad Bey e o marabuto B Ziyan se encontravam  frente da
luta. Em 1852, aps duras batalhas, os franceses ocuparam Laghwt e, em 1854,
Tuggurt. Em 1856, uma delegao de tuaregues saarianos foi a Argel e decla-
rou sua lealdade para com a Frana, prometendo-lhe o apoio dos tuaregues at
Tombuctu. No Norte do pas, os montanheses de Kabilia foram os ltimos a se
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                                              583



submeter. Desde 1851, liderados por B Baghla, eles resistiram obstinadamente
s ambies dos franceses, que queriam conquistar as montanhas de Grande e
Pequena Kabilia. Foi apenas em 1857, aps uma luta acirrada contra as tropas
do general Randon, que cessaram de resistir. O pas inteiro passou sob o controle
do comando francs e tornou-se um conglomerado de municpios franceses e
de territrios vassalos sob a tutela dos "escritrios rabes".


    A colonizao e a sujeio financeira
    A ameaa de uma revolta generalizada forou o governo francs a renunciar
 colonizao das regies interioranas da Arglia. As experincias de colonizao
de Bugeaud, assim como a expanso da imigrao durante a Segunda Rep-
blica (1848-1851) e o Ministrio da Arglia (1858-1860), chocaram-se com
a firme resistncia do exrcito, responsvel pela segurana do pas. A poltica
de assimilao dos republicanos que, em 1848, proclamaram a Arglia como
parte integrante da Frana e dividiram o "territrio civil" do pas em depar-
tamentos, distritos e municpios, com administradores franceses a sua frente,
no se desenvolveu durante o Segundo Imprio. Ademais, em 1852, Napoleo
III ab-rogou a representao dos europeus da Arglia no parlamento francs
e, em 1860, aps uma visita  Arglia, condenou definitivamente a poltica de
assimilao. O "romantismo" dos oficiais superou o "mercantilismo" dos colo-
nos. Para contrabalanar a influncia dos colonos, Napoleo III decidiu aliar-se
aos chefes tradicionais (os "feudais"), declarando que a Arglia era um "reino
rabe". O "territrio civil" era estritamente limitado (10.160 km2 em 1866, isto ,
2,5% de todo o territrio da Arglia do Norte e 8% da populao muulmana).
Alm destes limites, todo o poder permaneceu nas mos da hierarquia militar
e administrativa muulmana, agindo sob o controle dos "escritrios rabes". De
acordo com a ideia de Napoleo III, os emigrados europeus deviam instalar-
-se unicamente nas cidades para cuidar do comrcio e dos ofcios. Conforme
o senatus-consulto de 1863, as terras eram reservadas s comunidades, que as
possuiam segundo os princpios tradicionais9. Apenas os "excedentes" de terra

9    A caracterstica das estruturas sociais tradicionais da sociedade argeliana pr-capitalista deu lugar a dis-
     cusses acirradas. O debate dos historiadores soviticos, quanto  natureza das sociedades pr-capitalistas
     na sia e na frica, encontrou um prolongamento inesperado no decorrer das discusses a respeito
     do "modo de produo asitico", em 1962 em Paris, sob a gide do Centro de Estudos e de Pesquisas
     Marxistas. O artigo de Abd el-Kader Djeghloul, publicado na Arglia em Les Archives nationales (1975,
     n3, p.57-80) e, depois, na Frana em La pense (1976, p.61-81), retomou essa discusso. No decorrer
     dos colquios internacionais de Kichinev (1973) e de Bucareste (1974), desenvolveu-se uma concepo,
584                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



eram repassados ao Estado e podiam ser emprestados a sociedades concessio-
nrias e a particulares. No domnio da indstria e do comrcio, o livre empre-
endedorismo privado era ilimitado. Os monoplios da poca dos deis e de `Abd
al-Kdir foram totalmente abolidos. Ao modernizar a estrutura administrativa e
judiciria herdada de `Abd al-Kdir, os poderes reorganizaram a justia muul-
mana (em 1854). Essa reforma foi completada pela criao das cmaras mistas
franco-muulmanas e do Conselho superior de direito muulmano. Os prota-
gonistas do "reino rabe" prestaram ateno ao culto muulmano, encorajaram
a construo de mesquitas, a peregrinao para Meca etc. O senatus-consulto
de 1865 deu aos argelianos o direito de ingressar no exrcito francs e na admi-
nistrao. Finalmente, em 1869, foi elaborado um projeto de constituio para
a Arglia10, prevendo a autonomia do pas e a representao dos muulmanos
em todas as assembleias eleitas.
    As reformas administrativas, judicirias e econmicas realizadas na Tunsia
e na Tripolitnia, em meados do sculo XIX, possuam um contedo anlogo.
Na Tunsia, o grupo dos liberais, liderado por Khyr al-Dn Pacha (1826-1889)
e apoiado pelas potncias, conseguiu, em 9 de setembro de 1857, publicar o
`Ahd alAmn (o Pacto Fundamental)  manifesto das reformas reproduzindo
os princpios essenciais dos tanzmt. Como consequncia desse manifesto, os
monoplios foram suprimidos, a liberdade do comrcio privado estabelecida
(outubro de 1857), o conselho municipal de Tnis constitudo (1858) e o sis-
tema administrativo e judicirio reorganizado (1860). Em 23 de abril de 1861,
a Constituio foi promulgada: ela tornava os ministros responsveis perante
uma assembleia representativa, o Conselho Supremo. Na Tripolitnia, sob o
governador Mahmd Nedim Pacha, em 1865, foi realizada uma nova reforma
administrativa e foram organizados tribuinais comerciais, civis e criminais.
    Essas reformas criaram as condies necessrias para a empreitada privada
na Arglia, na Tunsia e na Tripolitnia. A supresso das barreiras alfandegrias
entre a Arglia e a Frana (1851) abriu os mercados desses pases s mercado-
rias de alm-mar. O grande capital, os bancos, as sociedades de concesso e as


      a meu ver mais fecunda, do "feudalismo oriental". Partindo da teoria da "pluriestruturao social", R. G.
      Landa (1976, p.49-55, 109-120) props sua prpria soluo ao problema. O livro de M. M. Kovalevskii
      (edio de F. B. Miller, 1879) no perdeu sua importncia no que diz respeito ao estudo da sociedade
      comunitria de Kabilia. Pode-se encontrar uma anlise das diferentes formas de contratos agrcolas
      em L. Milliot, 1911. Um dos livros mais abrangentes fazendo o balano dos estudos sobre o problema,
      segundo as fontes francesas,  aquele de J. Ruedy, 1967.
10    Ver C.-R. Ageron, 1964, p.32-38; e 1972, p.60 e seguintes, onde o autor reavalia de maneira crtica
      alguns esteretipos tradicionais da historiografia francesa.
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                                      585



companhias fundirias tinham o caminho livre. A partir de 1851, bancos foram
criados na Arglia: Banque d'Algrie e, a seguir, Socit Coloniale de Crdit Agricole
(1863), assim como outros estabelecimentos. Na Tunsia, as primeiras tentativas
feitas pelos ingleses para constituir o Bank of Tunis (1858) foram contrariadas
pelos franceses. Somente em 1873 conseguiram fundar The London Bank of
Tunis. Os franceses criaram a Socit Francotunisienne de Crdit (1879). Na
Tripolitnia, os primeiros bancos apareceram em 1880. Os bancos, as sociedades
de consesso e as companhias eram estritamente ligados. Gozavam, na Arglia,
dos favores das autoridades, em particular a gigante Compagnie genevoise (1853,
20.000 hectares) e a Socit gnrale algrienne (1864, 100.000 hectares), entre
outras. Na Tunsia, os ingleses obtiveram a primeira concesso (Djedeida: 7.000
hectares), em 1856. Os italianos, que organizaram, em 1870, a Societ anonima
commerciale, industriale ed agricola per la Tunisia, foram seguidos pelos franceses
(domnio de Sd Tabet, em 1876). Eles comearam a extrair chumbo e a expor-
tar alfa; experimentou-se a cultura do algodo, do tabaco, das batatas etc. Em
1857 na Arglia e em 1859 na Tunsia, decidiu-se construir estradas de ferro. As
companhias estrangeiras modernizaram os portos, instalaram linhas telegrficas,
construram estradas e diques; a infraestruturao das cidades, principalmente
no litoral, estava em andamento.
     infraestrutura econmica, que facilitava a "valorizao" da frica do Norte
pelos capitais estrangeiros, acrescentou-se um tipo de infraestrutura cultural,
ligada ao estudo dos recursos naturais e  formao de quadros europeanizados.
Em 1857 foi aberto na Arglia o primeiro colgio franco-rabe e, em seguida,
em 1865, a Escola Normal. Na Tunsia, alm do colgio Saint-Louis, foi criado o
colgio nacional Sdik (1875) e os currculos da "Zitouna" foram modernizados.
Em Trpoli, a primeira escola laica, onde eram ensinadas as lnguas estrangeiras,
foi aberta em 1858. Assistiu-se ao surgimento da imprensa rabe e dos jornais
governamentais alMoubachir na Arglia (1847), ArRaid atTunisi na Tunsia
(1860) e Tarbols alGharb em Trpoli (1866)11.
    Ao passo que, na Arglia, a valorizao do pas pelos capitais europeus come-
ou depois da ocupao, na Tunsia e na Tripolitnia, ela precedeu a conquista. A
sujeio colonial desses pases deu-se com a complacncia, qui a cumplicidade,
dos chefes locais. A modernizao desses pases, que pesava em seus oramen-
tos, foi realizada em grande parte por emprstimos estrangeiros. Estes foram
concedidos com condies extremamente pesadas que levaram  espoliao por

11   A respeito dos primeiros jornais em rabe na frica do Norte, ver F. Di Tarazi, 1913, e C. Sourian-
     -Hoebrechts, 1969.
586                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



parte dos funcionrios locais e dos fornecedores europeus. Afinal de contas,
tais emprstimos acarretaram um crescimento exorbitante da dvida externa.
Quando, em 1869, o endividamento da Tunsia ultrapassou em doze vezes suas
receitas oramentrias, o governo faliu e aprovou a instituio da Comisso
Financeira Internacional, que tomou o controle das finanas do Estado. Embora
conservasse os atributos da indepedncia, a Tunsia transformou-se em uma
semicolnia das potncias europeias.
    O Marrocos, que se ops por mais tempo que os outros pases norte-africanos
 presso estrangeira, submeteu-se finalmente  mesma sorte. O tratado anglo-
-marroquino de 1856 "abriu" o pas aos capitais estrangeiros. A guerra hispano-
-marroquina12 de 1859-1860 findou-se pelo penoso tratado de paz de Tetuo
(26 de abril de 1860). A Espanha alargou suas enclaves, obteve uma enorme
contribuio e, fato essencial, conseguiu estender os direitos e os privilgios do
estatuto de extraterritorialidade do qual se beneficiavam seus cidados. Tratados
anlogos, que deram origem  sujeio colonial do pas, foram firmados com a
Frana (em 19 de agosto de 1863) e com outros Estados europeus.
    A "descoberta" da Tunsia, da Tripolitnia e do Marrocos, assim como a
conquista da Arglia, foram acompanhadas pelo estabelecimento, nesses pases,
de um grande nmero de estrangeiros (europeus e levantinos), que foram, de
alguma forma, agentes do grande capital. Eles representavam firmas estrangei-
ras, cuidavam do comrcio (no desprezavam o contrabando, a usura e outras
prticas duvidosas), compravam casas, jardins e terrenos. Na Tunsia, em Trpoli
e no Marrocos (a partir de 1856), eles gozavam de um estatuto de extraterrito-
rialidade e apenas se submetiam aos cnsules de seu pas13.
    Na Arglia, os colonos europeus encontravam-se em uma situao ainda mais
privilegiada. No "territrio civil", eles tinham sua administrao, sua justia e
suas leis, formando assim uma sociedade fechada hostil  populao autctone.
A partir de 1856, o nmero de nascimentos ultrapassou aquele de bitos. "So
esses sinais, escreveu C. R. Ageron, que comprovam a fundao de uma colnia
de povoamento14." Simultaneamente ao aumento do nmero de imigrantes
cresciam suas intrigas. Os colonos pretendiam notadamente pr fim ao "regime
do sabre", "retomar" as terras "abandonadas" pelo senatus-consulto de 1863,


12    E. Szymanski, 1965, nota 2, p. 54-64. No que tange s consequncias financeiras penosas da guerra,
      consultar G. Ayache, 1958.
13    No livro fundamental de J.-L Mige, 1963, pode-se encontrar uma excelente escolha de materiais a
      respeito dos privilgios dos europeus no Marrocos.
14    C. R. Ageron, 1964, p.28.
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                                         587



instituir em toda parte a propriedade privada das terras e generalizar o sistema
da administrao civil.


     A resposta da sociedade tradicional
    As omisses dos colonos, a onipotncia dos homens de negcios estran-
geiros e o prprio fato da penetrao crescente dos imigrantes em todas as
esferas da vida nacional suscitavam a irritao dos autcnes da frica do Norte.
Os liberais15, como Khyr al-Dn, Husayn, Kabadu e Muhammad Bayram na
Tunsia ou Koussantini na Algria, que sofriam ao ver seu pas na adversidade,
mas entendiam, por outro lado, a necessidade das reformas, estavam isolados
e incompreendidos pelo povo. "A poltica de civilizao" de Napoleo III na
Arglia, assim como as reformas na Tunsia e na Tripolitnia, chocaram-se com
a incompreenso, e mesmo com a hostilidade, da maioria da populao. Esta
as interpretava como uma nova etapa da sujeio colonial, como a renncia 
shari`a e  personalidade muulmana. Essas reformas provocaram um ressenti-
mento particular entre os marabutos e a populao rural. Os camponeses e os
nmades consideravam renegados os muulmanos europeanizados e no lhes
davam confiana. A poesia popular16mostra que os simples muulmanos chora-
vam o encerramento da poca do regime patriarcal, que eles eram estrangeiros
ao "sculo da desonra" "sem f nem lei" e que desprezavam as pessoas que,
segundo o poeta Mohand-ou-Mhand (1845-1906), haviam sido lees e, agora,
curvavam-se sob o jugo.
    No incio dos anos 1860, o apelo para uma luta acirrada contra os estrangei-
ros encontrou um amplo apoio entre o povo, em quase todos os pases muul-
manos. Uma propaganda ativa em favor das ideias da jihad pan-islmica foi
empreendida.  desta poca que data a potncia da confraria sansiyya, que via
no assassinato dos europeus um ato de grande devoo. No  de se espantar
que, nestas condies, qualquer dificuldade, ou mesmo incidente fortuito, tenha
servido como pretexto para as aes das massas. As rebelies, relativamente res-
tritas dos Aurs (1859) e do Hodna (1860), assim como as desordens de Tnis
(1862), anunciavam as grandes insurreies nacionais dos anos 1860 e do incio
dos anos 1870. Alastravam-se de forma rpida e confusa, tal um acesso de furor


15   Para as caractersticas e as peculiaridades do pensamento liberal rabe do sculo XIX, consultar A.
     Hourani, 1962.
16   Para materiais interessantes, refletindo a luta do povo argeliano na poesia, consultar A. Memmi,1963.
588                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



do povo. Saques barbros, assassinatos, destruio aparentemente absurda de
postes telegrficos, de agncias de correio e de tudo que era europeu testemu-
nhavam a enorme fora de um desejo escondido de vingana. Habitualmente,
tais insurreies no eram verdadeiramente organizadas. Por vezes, havia chefes
designados, mas no dirigentes absolutos. Apenas a participao das confrarias
religiosas unia-os em uma guerra santa para o triunfo da f.
    A primeira insurreio deste tipo teve lugar na Tunsia: comeou no ms
de maro de 1864 e se alastrou por todo o pas. `Al ibn Guedahem, "o bei do
povo", era o chefe desta insurreio, que teve como idelogos os "irmos" da
confraria tijniyya. O isolamento dos insurgentes que, segundo J. Ganiage, "no
se decidiam a vencer"17, permitiu ao governo do bei salvar a capital, destruir as
shartiya (organimos insurrecionais eleitos e assegurando a gesto local) e, no ms
de abril de 1865, abafar os ltimos focos de resistncia.
    A insurreio dos Oueld Sd Shaykh, ligados  confraria religiosa dos Der-
gawa, teve um carter anlogo. O levante iniciou-se em abril de 1864, invadiu
vastas extenses dos altos planaltos e, por volta do outono, ganhou a regio de
Or, a Dahra e outras localidades da Arglia Ocidental. Porm, aps terem
chamado reforos de alm-mar, os franceses conseguiram, em 1865, estraalhar
os destacamentos insurrecionais liderados pelo lendrio Si Sliman.
    O anncio do regime civil, em 9 de maro de 1870, e a queda do Segundo
Imprio marcaram o incio de uma grande insurreio na Arglia Oriental. As
primeiras shartiya foram organizadas no outono de 1870, e os primeiros conflitos
armados ocorreram no ms de janeiro de 1871. A insurreio alastrou-se por
quase toda a regio de Constantina, pela grande Kabilia e por algumas locali-
dades do Oeste. Em 08 de abril de 1871, Shaykh al-Haddd, chefe da confraria
rahmniyya, declarou a jihad. O bachagha al-Makrani tornou-se o chefe militar
da revolta e, aps sua morte, seu irmo B Mezrag sucedeu-o. Foi apenas em
janeiro de 1872 que os franceses se apossaram das bases da insurreio e se
tornaram senhores da situao.
    O abafamento dessas insurreies acompanhou-se de uma represso macia,
de multas, de confiscaes de terras e do desarmamento das comunidades. No
somente os colonos europeus no se solidarizaram com os insurgentes, como
tambm alguns dentre eles participaram da luta armada contra os muulmanos.
H de destacar que os imigrantes que lutavam para os ideais revolucionrios
democrticos e socialistas  o que mostrou claramente a Comuna de Argel de


17    J. Ganiage, 1959, p. 251.
Novas formas de interveno europeia no Magreb                                                        589



1870-1871  eram ao mesmo tempo hostis s aspiraes nacionais dos muul-
manos da frica do Norte.


     Rumo  poltica imperialista
    O esmagamento do movimento insurrecional dos anos 1860 e do incio dos
anos 1870 abriu o caminho a uma colonizao doravante sem obstculos da
frica do Norte. Ademais, as mudanas que ocorriam na Europa, especialmente
a instaurao do domnio do capital financeiro, estimularam a expanso colonial.
Esta tomou, pouco a pouco, o carter de uma luta meramente imperialista para
a partilha do mundo e para a monopolizao das fontes de matrias primas e
outros recursos naturais.
    A "idade de ouro" da colonizao comeou na Arglia18. Em 24 de outu-
bro de 1870, o governador geral militar foi substitudo por um "governador
civil dos trs departamentos da Arglia". Em alguns anos, os colonos europeus
transformaram-se em uma camada dominante privilegiada de "cidados", uma
"minoria branca" gozando de todos os direitos civis e polticos. A populao
autctone, qualificada de "sditos", era privada de direitos e submetida  regula-
mentao estabelecida na base do pretenso "cdigo indgena" (decretos de 1874),
instituindo o "regime do indigenato" (que duraria at 1936). A nova legislao
fundiria (decreto de Ollivier de 1870 e, sobretudo, lei de 26 de julho de 1873)
estabeleceu o princpio da propriedade privada e da livre transferncia de terras
aos colonos. Os investimentos de capitais franceses cresceram consideravel-
mente, assim como o comrcio e outros laos econmicos com a metrpole.
    Por volta do fim do sculo XIX, a situao da Tunsia era anloga. O destino
do pas foi decidido em 1878, no congresso de Berlim, onde, aps um "grande
jogo" diplomtico, Bismarck "devolveu" a Tunsia  Frana19. Para preservar a
independncia da Tunsia, Khyr al-Dn, ento primeiro ministro (1873-1877),
invocou a fico da soberania otomana, mas seus esforos no foram coroados de
xito. Em 24 de abril de 1881, as tropas francesas cruzaram a fronteira. Em 12
de maio de 1881, ameaando dep-lo, os franceses impuseram ao bei o Tratado
do Bardo e, em 8 de junho de 1883, aps a represso definitiva da resistncia,


18   Ver C. R. Ageron, 1968, vol. I.
19   Diferentes aspectos da luta das grandes potncias pela Tunsia so expostos de uma maneira detalhada
     no livro fundamental de J. Ganiage, 1959. Uma bibliografia mais ampla encontra-se nesta obra, p. 701-
     -758.
590                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



a conveno de La Marsa, que lanaram as bases jurdicas do regime colonial
do protetorado.
    A Tripolitnia e o Marrocos conseguiram adiar a ocupao europeia. No que
concerne a Tripolitnia, a Itlia era o principal pretendente; ora, preocupada
com a luta pela Tunsia at 1881, foi apenas no incio dos anos 1880 que ela
comeou a manifestar suas pretenses20. Em 1884-1885, o Estado-Maior geral
italiano elaborou planos de guerra. Entretanto, por falta de entendimento entre
as potncias imperialistas, houve de adiar sua realizao21. Pelos mesmos moti-
vos, o Marrocos conseguiu evitar a ocupao estrangeira at o final do sculo
XIX. Todavia, suas tentativas para restringir os privilgios e a arbitrariedade dos
estrangeiros fracassaram. A conferncia das potncias europeias e dos Estados
Unidos da Amrica, convocada em Madri em 1880, limitou mais uma vez a
soberania do Marrocos e decretou que no se podiam fazer alteraes na gesto
do pas sem o consentimento das potncias.
    No mundo muulmano, a partilha e a ocupao da maior parte da frica do
Norte foram consideradas um novo atentado contra o isl. A luta dos comba-
tentes norte-africanos pela f encontrou apoio (na maioria das vezes meramente
moral) em Istambul e nos outros pases do Oriente22. Com base nestes acon-
tecimentos, um novo procedimento foi desencadeado na Arglia e na Tunsia
para impedir a colonizao com as armas na mo: revoltas lideradas por `Al
ibn Khalfa na Tunsia, em 1881-1883 e por B `Amma na Arglia, em 1881.
Porm, apesar da perseverana e do herosmo dos insurgentes, essas revoltas
no alcaaram seu objetivo. Afinal, j se tratava de combates de retaguarda, as
ltimas tentativas de uma sociedade tradicional para defender os caminhos de
um desenvolvimento original, com base nas antigas estruturas morais e sociais,
j solapadas no decorrer da conquista estrangeira e do desenvolvimento do
capitalismo colonial.




20    Ver E. de Leone, 1960, p.301 e seguintes. A atmosfera geral da atividade italiana est descrita nas notas
      do viajante russo A. V. Elisseev, que visitou a Tripolitnia em 1884. Ver A. V. Elisseev 1896, p. 79.
21    No que tange aos principais traos da luta diplomtica que precedeu a conquista da Lbia, consultar V.
      L. Loutskii, 1965, p. 269-272, e a traduo inglesa: V. Lutsky, 1969.
22    Alguns dados a respeito desse problema esto disponveis em A. Martel, 1965, tomo I, p. 228 e seguintes.
      No que concerne s relaes entre a Porta e a Sansiyya, ver N. A Ziadeh, 1958, p.61 e seguintes. No que
      diz respeito s tentativas de `Abd al-Hamd II para coordenar e dirigir as manifestaes antiestrangeiras
      nos pases rabes, em particular no Egito, consultar H. Adali, 1968, p. 54 e seguintes.
O Saara no sculo XIX                                                                            591



                                     CAPTULO 20


                        O Saara no sculo XIX
                                          Stephen Baier1




    1
     Uma histria do Saara deve levar em conta acontecimentos situados em dois
nveis. Primeiramente, h o fenmeno do fluxo e refluxo caracterstico da vida
dos nmades saarianos e dos habitantes dos osis: migraes sazonais alternati-
vas com rebanhos, formao e dissoluo de alianas, ascenso e queda de chefes,
colaboraes e represlias, epopeias de valentes guerreiros e nobres damas, vida
e ocupao de mercadores, santos e sbios. Como pano de fundo destes eventos
e fatos locais, desdobra-se o quadro bem mais vasto da evoluo histrica. No
sculo XIX, o Saara, malgrado o seu distanciamento, entrou progressivamente
em contato com a economia mundial. Ao final do sculo, a penetrao econ-
mica europeia incidira sobre a vida de muita gente e, embora distante do seu
final, a conquista europeia do deserto provocara mudanas fundamentais na
natureza das relaes estabelecidas entre o Saara e o mundo exterior.
    Em ambos os nveis, a escassez de dados histricos cria dificuldades e con-
vida a empreender indispensveis pesquisas nos arquivos otomanos, franceses,
italianos, egpcios e marroquinos, assim como em colees privadas. No sculo
XIX, o interesse dedicado pelos europeus ao deserto aumentou em virtude das
potncias europeias nele perceberem uma via comercial rumo ao Sudo. Ns
igualmente podemos formular uma ideia acerca dos processos histricos com

1   O autor gostaria de agradecer a Charles Stewart, que atenciosamente aceitou ler a primeira verso deste
    captulo,  qual dedicou certo nmero de teis sugestes.
592                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



a ajuda de dados provenientes de diferentes fontes europeias. Todos os relat-
rios escritos, tanto nas lnguas europeias quanto em turco ou rabe, devem ser
completados por relatos orais, os quais somente de modo fragmentado foram
recolhidos. Se importantes pesquisas foram realizadas, por exemplo, em respeito
aos tuaregues do centro saariano, no se dispe, para outros grupos, seno de
uma documentao histrica dentre as mais escassas. Em certas sociedades saa-
rianas, a falta de dados genealgicos em profundidade e a ausncia de escritos
histricos rabes locais impem ao historiador problemas que talvez no sejam
jamais solucionados.
    O presente captulo examinar a histria do Saara no sculo XIX, interessando-
-se particularmente pelos nmades cameleiros, habitantes do deserto que viviam
dos seus rebanhos. Outrora, possuir camelos conferia aos proprietrios uma
temida potncia militar: era-lhes possvel lanar ataques-relmpago contra os
habitantes dos osis e agricultores sedentrios, para evadirem-se, em seguida,
em total impunidade. Esta vantagem militar permitia-lhes praticar sequestros
nas comunidades sedentrias, tal como procediam, muito amide, nos confins
meridionais do deserto, ou seja, no Sahel, ou ainda impor o seu domnio sobre
os agricultores sedentrios dos osis ou do Sahel, exigindo-lhes um tributo em
troca da sua proteo. Embora capazes de subjugarem homens, destrurem pal-
meirais ou colheitas, pilharem reservas de cereais e desorganizarem o comrcio,
os nmades buscavam, com maior frequncia, no aniquilar os agricultores,
mas controlar a sua produo e dela se apropriar. So justamente e portanto os
nmades que se encontram naturalmente no centro de grande parte da histria
econmica e social do Saara, alm de terem igualmente desempenhado um papel
essencial na evoluo poltica, militar e religiosa do deserto.


      Sociedade e meioambiente
   O nomadismo pastoril , com toda evidncia, uma total e perfeita adaptao
ao ambiente rido do deserto. Entretanto, o quadro de simplicidade enganadora
que evoca a palavra "deserto", definido em funo dos baixos ndices pluvio-
mtricos, esconde na realidade uma rica variedade de climas e relevos, os quais
moldaram as sociedades do Saara.
   Sob o risco da simplificao, pode-se dizer que o deserto est submetido a
dois regimes pluviais, a sua parte meridional recebe precipitaes no vero e a
sua parte setentrional no inverno, havendo certa sobreposio dos dois regimes
ao longo da costa atlntica. As chuvas so pouco abundantes e muito desi-
O Saara no sculo XIX                                                         593



gualmente distribudas no tempo e no espao, de modo que, nas regies mais
ridas do deserto, algumas localidades podem no receber gua durante dez
ou mais anos. O deserto  o mais seco em suas partes centrais, especialmente
em direo ao Leste, nos atuais Egito e Lbia oriental. Trs "corredores", com
ndices pluviomtricos superiores  mdia, atravessam de Norte a Sul as regies
centrais secas do deserto: o primeiro une o Senegal ao Marrocos, proximamente
 costa atlntica mais seca; o segundo liga a curva do Nger  Arglia; e o ter-
ceiro acompanha as terras altas, s margens do Mar Vermelho. A populao
est evidentemente concentrada nas partes do deserto relativamente mais bem
regadas e as caravanas sempre evitaram, por via de regra, as regies mais ridas
do Egito e da Lbia. As precipitaes aumentam com a altitude, at certo relevo,
e a configurao das terras saarianas apresenta tanta diversidade quanto o clima.
Aps as chuvas, cursos d'gua at ento secos, os wd, podem novamente fluir
por centenas de quilmetros, em grandes superfcies apenas recobertas por uma
fina camada de areia. Em alguns casos, a agricultura irrigada torna-se possvel
graas  proximidade do lenol fretico. Nas zonas de dunas, denominadas ergs,
a prpria areia retm grande volume de umidade: as dunas absorvem quase toda
a gua da chuva, liberando pequeno volume no subsolo aos lenis aquferos. Em
suplemento, a areia deixa muito lentamente escapar a sua umidade na atmosfera,
uma vez que somente um lado dos montes est exposto ao vento2.
    Os pastores e os seus animais no podem viver no deserto seno movendo-se
entre as localidades para explorarem as pastagens, esparsas e efmeras. Entre-
tanto, nos limites do deserto, o homem pode adaptar-se de diversas formas
ao meio, contando em maior ou menor intensidade com a agricultura e com-
pondo minuciosamente os seus rebanhos. No Sahel, os pastores nmades viviam
mediante relaes simbiticas com os agricultores sedentrios e alguns nmades
cameleiros dividiam o trabalho da sua famlia entre a cultura e a guarda dos
animais. Outros privilegiavam as necessidades dos animais em detrimento de
um melhor aproveitamento das plantaes; aps semearem o solo, eles partiam
com os seus rebanhos em busca de pastagens, retornando posteriormente para
colherem a baixa produo das suas plantaes. Nas regies centrais, secas, do
deserto, os pastores nmades criavam diversas espcies de animais; mas eles
sempre se dedicavam prioritariamente aos camelos, em virtude da sua adaptabi-
lidade  seca. Para criar camelos em boas condies, era necessrio oferecer-lhes
diversos tipos de pastagem, impondo-lhes assim, periodicamente, o abandono


2   J. Dubief, 1973, pp. 125-130.
594                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



dos ergs e a ida em direo aos terrenos rochosos (regs). Esta necessidade, assim
como a busca de pastagens, determinava a amplitude dos movimentos prprios
aos nmades cameleiros3. Aqueles cujo territrio compreendia terrenos rochosos
e arenosos contguos, como os Chaamba, movimentavam-se mais restritamente,
comparativamente queles que, como os Regibat, no dispunham dos dois tipos
de solo; isso acontecia malgrado as similaridades de outra natureza que pudes-
sem existir entre os seus respectivos territrios.
    O ambiente rido encorajou, junto  maioria das populaes nmades, a
evoluo de similares sistemas polticos descentralizados, os quais conciliam a
necessidade de disperso, para a busca de pastagens, e a imposio de agir em
conjunto, frente a uma ameaa externa. Estas sociedades, descritas nas obras
e publicaes antropolgicas como sistemas de linhagens segmentares, posi-
cionam cada indivduo em uma srie de grupos genealgicos, de mais e mais
amplos, sobrepondo uns aos outros e estendendo-se de tal modo que o ancestral
escolhido como ponto de referncia torna-se mais longnquo4. A genealogia
pode ser aplicada na diviso de uma sociedade em um nmero x de segmentos
mximos, dentre os quais, cada um , por sua vez, dividido em um nmero y de
segmentos e um nmero z de cls, descendo para atingir, pelas escalas inter-
medirias, a famlia ampliada. As sociedades organizadas em linhagens podem
resolver os conflitos internos sem recorrerem  autoridade central, caso o poder
de segmentos situados em um nvel apropriado da estrutura genealgica estiver
em jogo, e  possvel identificar na histria destas sociedades muitos exemplos
do funcionamento deste mecanismo. Porm, a histria igualmente mostra que
segmentos so capazes de se unirem para enfrentar uma ameaa externa e que
necessidades militares podem inclusive produzir o que se assemelha a uma
autoridade central. As populaes sedentrias ou semissedentrias frequente-
mente assimilaram indivduos estranhos  sua linhagem, imigrantes vindos ao
seu territrio; do mesmo modo, a residncia em um mesmo territrio  passvel,
nestas sociedades, de substituir o parentesco, como princpio de associao. As
sociedades organizadas por linhagem podem, elas prprias, possuir chefes ou
conselhos, em diversos nveis da estrutura segmentria ou distribudos no seio
desta ltima; homens ricos so capazes de atrair como partidrios, indivduos
situados alm dos limites do parentesco; ou alianas podem contradizer ou par-
cialmente contrabalanar a noo de parentesco como fator de fidelidade.


3     A. Cauneille, 1968, pp. 108-109.
4     D. M. Hart, 1967, 1970; E. Gellner, 1972, 1969, pp. 35-69; E. E. Evans-Pritchard, 1949, pp. 29-61.
O Saara no sculo XIX                                                       595



   Outro trao comum s populaes saarianas era a estrutura hierarquizada,
consequncia da capacidade dos guerreiros em concentrarem riquezas, de modo
a fortalecer o seu domnio. Era frequente a manuteno da autoridade sobre
grupos de indivduos livres, embora politicamente subordinados e descendentes
de nmades assujeitados, por parte de famlias de guerreiros aristocrticos. Os
indivduos em situao nmade, escravos ou descendentes de escravos, trabalha-
vam como domsticos, pastores, artesos, comerciantes ou agricultores.


    Evoluo das relaes com o mundo externo
   Os nmades do deserto viviam em um mundo que lhes era prprio, mas
no demonstravam impermeabilidade frente s influncias externas. Em pri-
meiro lugar, eles eram de tal modo especializados na criao de animais que,
para obterem gros ou o que lhes fosse necessrio, deviam contar no somente
com a pilhagem e a imposio de tributos, mas, em suplemento, com as trocas
comerciais pacficas realizadas junto  coletividade sedentria. Em segundo
lugar, a vantagem militar conferida pela sua mobilidade no se estendia alm
dos limites do deserto. As regies mais frteis alimentavam populaes mais
numerosas; e estas zonas, mais densamente povoadas, podiam reunir suficiente
nmero de defensores, a ponto de compensar a vantagem da qual os nmades,
em menor nmero, beneficiavam-se em seu prprio domnio.
   No incio do sculo XIX, o tipo de interao entre os nmades e os Estados
sedentrios era muito diferente nas extremidades norte e sul do deserto. Na
frica do Oeste e Central, um problema essencial para os chefes sedentrios
consistia em manter os nmades a uma respeitosa distncia; postura que, na
frica do Norte e em certa medida, apresentava facilidades, em virtude da
presena de barreiras naturais, tais como o Atlas e outras cadeias montanhosas.
Ao Sul do deserto, a melhor estratgia equivalia a promover a participao
dos nmades na economia das zonas frteis, conduzindo-os ao interesse pelo
comrcio nas fronteiras do deserto, assim como ao seu engajamento em favor do
desenvolvimento urbano e da agricultura; ademais, era-lhes possvel empregar
contingentes de nmades em seus exrcitos, a fim de combater outros Estados
sedentrios. Era igualmente prudente, seguindo o exemplo chins, utilizar um
grupo de nmades como mercenrios para manter distante o adversrio. Os
mesmos princpios eram vlidos ao Norte do deserto; contudo, no sculo XIX, as
regncias otomanas e os sultes do Marrocos demonstravam extrema habilidade
em preservar o equilbrio de foras entre os nmades e evitar os enfrentamen-
596                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



tos diretos5. Uma importante diferena consistia em sua riqueza visvis dos
Estados ao Sul do Saara que facilitava o exerccio da autoridade por intermdio
de grupos privilegiados, alm de permitir aos governantes da frica do Norte
suster foras pouco numerosas, embora bem armadas e capazes de intervirem,
quando necessrio, nos conflitos nmades. Alm do mais, os governos magrebi-
nos gozavam de grande prestgio como chefes ou representantes, a um s tempo,
espirituais e temporais de Estados muulmanos; situao que permitia a sultes,
bem como a governantes hbeis ou venerados, utilizarem a diplomacia para tirar
o maior proveito possvel dos seus pequenos contingentes armados.
    O avano dos otomanos na Cirenaica e na Tripolitnia, assim como dos
franceses na Arglia, marcou um ponto de inflexo nas relaes entre as socie-
dades saarianas e os estrangeiros. A penetrao francesa e otomana em dire-
o ao Sul, no deserto, teve lugar em ritmos equivalentes nos seus primrdios,
sendo ditada por consideraes estratgicas anlogas: a aspirao ao controle e 
taxao do comrcio transaariano e o desejo de impedir a anexao das regies
situadas alm daquelas sobre as quais os franceses e os otomanos j houvessem
estabelecido o seu domnio, nas proximidades do Mediterrneo. Em que pese a
simultaneidade do seu avano, as duas potncias apresentavam um estilo assaz
distinto6. Dispondo de meios inferiores, comparativamente aos franceses, os
governantes otomanos agiam de modo muito mais prudente em suas relaes
com os nmades das regies interioranas, nas fronteiras dos seus domnios na
Tripolitnia e na Cirenaica. Graas ao seu conhecimento das estruturas polticas
locais, eles eram capazes de explorar o carter mutvel das querelas, das guerras
entre grupos e alianas. Eles se inspiravam em uma longa experincia adquirida
pelo governo de sociedades segmentrias e pela preservao de relaes diplo-
mticas com aquelas sociedades que eles no podiam governar; eles igualmente
atribuam-se a legitimidade e o estatuto de representantes do centro poltico do
mundo muulmano.
    Em 1835, os otomanos assumiram o poder direto na Tripolitnia e na Cire-
naica, destituindo a dinastia semiautnoma dos Kramnl: eles tentavam deste
modo impedir a progresso da influncia francesa exercida a partir do Egito.
Uma srie de incidentes ao longo das tentativas elaboradas pelos otomanos, com
o objetivo de ampliar a sua autoridade no deserto, na Tripolitnia e na Cirenaica,
ilustra o carter do seu governo. Em tese, um kaymakam residia em Djalo e


5     E. Gellner, 1978.
6     A. Martel, 1965, vol. 1, p. 101-132. Sobre o papel dos britnicos na interrupo da progresso francesa
      em direo a Ghadmes, conferir: A. A. Boahen, 1964, pp. 132-212.
O Saara no sculo XIX                                                                                      597



tinha a misso de supervisionar a arrecadao dos impostos incidentes sobre os
palmeirais de Djalo e de Awdjla, alm de lhe caber a manuteno da ordem no
deserto circundante. Em 1869, o kaymakam passava, no entanto e desde ento,
o melhor do seu tempo em Benghazi, de tal modo que o coletor de impostos,
que se dirigia ao osis uma vez por ano, era finalmente o nico representante
oficial otomano no interior. Em troca do imposto por eles pago, os habitantes
do osis de Awdjla requisitaram a proteo contra os nmades zuwaya, os quais
entravavam o fluxo comercial transaariano e buscavam ampliar a sua autoridade
no osis. J. P. Mason reportou uma tradio oral, relatando a visita realizada por
um oficial otomano  Awdjla, com vistas a selar a paz com os zuwaya, os quais
haviam aparentemente sido combatidos pelos otomanos. Em 1856, o kaymakam
de Benghazi governava por intermdio do xeque dos bara `asa, grupo de bedu-
nos por ele mantido com cinquenta soldados armados7. A influncia do governo
otomano jamais se estendeu sobremaneira no deserto cirenaico e, ao longo dos
ltimos decnios do sculo, a Sansiyya, uma tarka (confraria) Sf , fundada
nos anos 1840, tornou-se o efetivo governo do interior8.
    Embora limitada, a capacidade dos otomanos, de imporem a produo de
tmaras ou de se imiscurem nos assuntos nmades, encontrou resistncias. O
governador otomano `Al Askar, ao chegar a Trpoli, em 1938, teve uma entre-
vista com trs chefes da resistncia no interior da Tripolitnia; e aquilo que
ocorreu a um destes chefes, `Abd al-Djall dos awld sulaymn, grupo nmade
do Fezzn e da Sirta,  instrutivo. O pax comeou a negociao com `Abd
al-Djall, reconhecendo-o como chefe legtimo dos seus domnios, em troca
de uma promessa referente a no desorganizar o comrcio entre Trpoli e as
regies interioranas. No entanto, `Abd al-Djall revelou-se demasiado potente
para os objetivos otomanos ao estabelecer contatos comerciais na Tunsia e no
Egito, demonstrando assim ser-lhe possvel ao menos ameaar a prosperidade de
Trpoli. `Al Askar utilizou contatos diplomticos para descreditar `Abd al-Djall
aos olhos dos seus aliados, os quais reconheceram a ameaa representada pela
concentrao de poderes. Em trs ocasies crticas nas quais `Abd al-Djall
enfrentou as foras otomanas no campo de batalha, em 1840 e 1841, os seus
antigos aliados, no satisfeitos em abandon-lo, voltaram as suas armas contra
ele. `Abd al-Djall encontrou a morte durante o combate final e as suas foras
foram, por assim dizer, aniquiladas; mas, os awld sulaymn, vencidos, fugiram


7    Para uma histria geral da Tripolitnia, conferir L.-C. Fraud, 1927. Para a histria de 'Awdjla, conferir
     J. P. Mason, 1971, pp. 200-206, e na Revue d'histoire maghrbine, 1976, vol. 6, as pp. 180-188.
8    D. D. Cordell, 1977a; E. E. Evans-Pritchard, 1949.
598                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



rumo ao Sul, seguindo a rota das caravanas entre Fezzn e Borno. Anterior-
mente, `Abd al-Djall conclura alianas matrimoniais com importantes famlias
do Borno, operao cujo objetivo consistia em apoiar os planos de edificao
de um imprio comercial que teria abrangido contatos com o reino do Sudo.
Tirando proveito destas alianas, os awld sulaymn sobreviventes ocuparam
posies na fronteira entre o Borno e os territrios dos nmades, onde eles
ajudaram o soberano do Borno a impedir as depredaes dos tuaregues. Porm,
em 1850, os awld sulaymn foram duramente derrotados pelos seus inimigos
nmades. Em duas ocasies de uma mesma dcada, eles quase haviam sido
aniquilados; entretanto, sobreviveram e tornaram-se inimigos e representaram
a tragdia no tocante ao comrcio, assim como para os nmades e agricultores
vizinhos. Eles aumentaram a sua populao, atravs da assimilao de escravos
capturados durante razzias (incurses) e graas a um chamado dirigido aos seus
antigos aliados soff da Sirta e do Fezzn9.
    As aventuras dos awld sulaymn provam que, embora limitado, o poderio
militar do pax otomano de Trpoli podia promover a discrdia junto aos nma-
des; alm de evidenciarem que, durante a aplicao das polticas segmentares e
a reorientao das alianas soff, os otomanos demonstravam habilidade muito
inferior. Os franceses, por sua vez, no possuam esta vantagem, limitando-se
quase exclusivamente  fora das armas. Na Arglia, o primeiro obstculo 
expanso francesa foi o Estado formado por `Abd al-Kdir; todavia, aps terem-
-no vencido, em 1847, os franceses dirigiram as suas atenes para o deserto e, ao
longo dos anos 1850, enquanto o general Randon era o governador da Arglia,
eles dedicaram-se a restabelecer as relaes comerciais entre a Arglia e o Sudo
ocidental. Para assegurar a segurana do comrcio que eles esperavam desenvol-
ver, estabeleceram postos avanados em Gryville e Laghwt (Laghouat), no ano
1852, em Ouargla, em ano 1853, e em Touggourt (Tuggurt), no ano 1854. No
Oeste, a expanso militar ao Sul de Gryville foi contida pela revolta dos awld
sd shaykh, prolongada de modo intermitente durante quase vinte anos; alm de
sofrer outros revezes temporrios em razo da guerra franco-prussiana de 1870
e de um importante levante nas montanhas de Kabylie, em 1871. Um renovado
interesse pelo comrcio transaariano e planos inconsequentes de criao de uma


9     Para um apanhado geral acerca da resistncia no interior da Tripolitnia, conferir A. Martel, 1965, pp.
      103-106; para uma detalhada histria dos awld aulaymn, sobre a qual se apoia a correlata exposio
      preposta, conferir D. D. Cordell, 1972, pp. 11-45. Neste caso, soff diz respeito a um pacto concludo
      entre os awld sulaymn e outro grupo de bedunos; entretanto, as alianas soff, tal como as alianas leff
      no Marrocos, igualmente podem unir grupos no interior de uma kabla e, eventualmente, substiturem
      em parte as relaes de descendncia ou oporem-se a elas.
O Saara no sculo XIX                                                                                     599



estrada de ferro trans-saariana estimularam uma penetrao mais profunda no
deserto, durante os anos 1870. A parte meridional do deserto argelino permane-
ceu livre do domnio francs e a progresso ao Sul de Ouargla foi interrompida
quando os tuaregues do Hoggar massacraram a segunda expedio Flatters, em
1881, demonstrando com isso que a ocupao das terras dos tuaregues podia
revelar-se particularmente custosa. Aps 1890, os franceses empreenderam,
com a aprovao dos britnicos, uma poltica de conquista do Saara Central,
cuja fase definitiva comearia pela ocupao de In Salh, em 1899. A ltima
demonstrao de resistncia relevante, em 1902, foi abafada com a derrota dos
tuaregues do Hoggar. Durante estas operaes finais, os franceses recorreram
a um novo expediente, correspondente a recrutar nmades em massa, os quais
seriam incorporados s tropas como combatentes irregulares, o que permitiria
aos ocupantes combinar a mobilidade dos nmades e os seus conhecimentos
territoriais com o muito superior poderio blico do exrcito francs. Em 1902,
na vitria por eles obtida contra os tuaregues do Hoggar, os franceses tiraram
proveito da antiga animosidade existente entre chaambas e tuaregues. Ao longo
da derradeira batalha, um nico oficial francs comandava uma fora integral-
mente composta por chaambas, bem treinados, fortemente armados e montados
em seus melhores mharis (dromedrio originrio da Arbia)10.
    Diferentemente dos franceses, o governo central marroquino, malgrado uma
reforma econmica introduzida no curso da segunda metade do sculo XIX, no
possua as condies para financiar uma fora armada capaz de eficazmente dar
cabo  ocupao do territrio compreendido entre as montanhas do Atlas e os
limites setentrionais do Saara. Os marroquinos apresentavam a mesma incapa-
cidade de enfrentar o exrcito francs que exercia presso na fronteira com a
Arglia e, por vezes, perseguia os grupos dissidentes em territrio marroquino.
Os limites pr-saarianos do Marrocos pertenciam ao Bild al-Sib, igualmente
conhecido como o pas da dissidncia: contudo, esta traduo no deve induzir
a perder de vista os importantes laos econmicos, religiosos e sociais, existentes
h muito tempo entre estas regies e o Makhzen, territrio onde o sulto podia
recolher impostos e exercer a sua autoridade. O Marrocos era beneficiado pela
proteo tcita dos britnicos, os quais detinham o controle sobre o comrcio
exterior marroquino; portanto, os interesses britnicos no Marrocos contribu-
ram para retardar o estabelecimento da autoridade francesa. Entre os seus esfor-
os, realizados com o objetivo de protegerem o seu territrio localizado alm do

10   A. Bernard, 1906, pp. 16-110; para a regio fronteiria entre a Arglia e o Marrocos, conferir R. E. Dunn,
     1977, pp. 137-175; no tocante  vitria sobre os tuaregues, conferir J. Keenan, 1977, pp. 72-85.
600                                                                        frica do sculo XIX  dcada de 1880



Atlas, os sultes marroquinos conferiram a devida ateno ao fortalecimento dos
laos polticos e diplomticos existentes com o Sudeste. Embora no estivessem
em condies de cobrarem impostos ou exercerem o seu poder frente aos grupos
nmades do alm-Atlas, os sultes do Marrocos estavam aptos a intervirem nas
polticas locais, lanando o seu peso poltico em favor de uma frao ou outra,
postando-se como mediadores em diferentes conflitos ou apoiando-se em seu
prestgio junto a lideranas religiosas. A influncia religiosa do sulto do Mar-
rocos estendia-se at a curva do Nger; o xeque kunta Ahmad al-Bekkaay, chefe
dos kdiryya no Sudo, reconheceu Mly `Abd al-Rahmn como im de todos
os muulmanos, mantendo relaes diplomticas com a Coroa marroquina11.
    A ocupao francesa do deserto argelino representava, na realidade, um fen-
meno inteiramente novo. O seu carter permanente em nada se assemelhava s
ocasionais expedies do sulto marroquino no deserto, as quais tinham como
principal meta estabelecer ou recompor laos com personalidades locais. Ela con-
trastava, viva e igualmente, com as raras visitas dos oficiais otomanos  Cirenaica
e com a poltica otomana, cujo objetivo era permitir aos nmades resolverem
por si mesmos as suas prprias divergncias, salvo quando a inteno equivalia
a fazer pender a balana, aquando de querelas entre grupos rivais. Pela primeira
vez, nmades eram levados a lutarem contra um exrcito de ocupao equipado
com moderno armamento e tambm possuidor de guias locais ou tropas irre-
gulares, familiarizados com o deserto. O exrcito francs controlava os nmades
por intermdio dos "bureaux rabes", cujo corpo operacional era composto por
oficiais de elite, dentre os quais, alguns falantes de rabe. Estes oficiais recolhiam
informaes concernentes aos chefes e s confrarias islmicas, eram responsveis
pela ordem legal e governavam com o apoio de lderes designados. Na realidade,
embora seja plausvel erroneamente superestimar o grau do domnio exercido
pelos franceses no deserto, durante os primeiros anos, contudo, deve-se muito
bem observar que a ocupao francesa deste territrio era, em seu gnero, muito
mais perfeita, comparativamente ao que os Estados sedentrios, da periferia do
Saara, haviam ensaiado realizar at ento. Igualmente, esta ocupao era muito
custosa; sobretudo, se considerarmos a fraca produtividade das terras, por pouco
que no infrteis, tanto no interior do deserto quanto nas suas regies limtrofes.
Historiadores estudaram o empobrecimento da populao muulmana, decor-
rente das suas perdas em terras e rebanhos, assim como as revoltas causadas pela
poltica francesa de estacionamento das suas tropas. Todavia, seria interessante

11    R. E. Dunn, 1972, pp. 106-107 e pp. 31-49, 137-175; E. Burke III, 1972, pp. 176-178, e 1976, pp. 1-40; J.-M.
      Abun-Nasr, 1975, pp. 284-303; sobre os kunta, conferir A. Zebadia, 1974, 1974, e A. A. Batran, 1974.
O Saara no sculo XIX                                                                                   601



avaliar os danos que as populaes do Saara tiveram que suportar, contrariamente
ao ocorrido com os argelinos em geral, devido  ocupao do deserto; no entanto,
este estudo depende dos resultados de novas pesquisas12.
    Conquanto no seja possvel oferecer uma completa descrio da resistn-
cia contra os franceses, ocorrida no Saara argelino, um esboo histrico desta
reao poderia, notadamente, inspirar-se no quadro elaborado por Ross Dunn,
em respeito  oposio empreendida frente  ocupao francesa, nos limites pr-
-saarianos do Marrocos. Na esfera conceitual, o autor convoca a observarmos a
incerta natureza das alianas realizadas nestas sociedades nmades, bem como o
carter totalmente imprevisvel da invaso francesa. Os franceses demonstravam
capacidade na destruio das colheitas, dos palmeirais, dos equipamentos de
irrigao e dos rebanhos. Em contrapartida, eles estabeleceram as bases para uma
paz permanente, ditada pelos seus prprios condicionamentos, entretanto, ainda
capaz de favorecer a expanso do comrcio. Sobretudo, indica Dunn, a chegada
dos franceses criou um novo fator de incerteza na vida dos nmades e habitantes
dos osis: "Em suma, a sua vinda acrescentou aos extremos caprichos da natureza
uma srie de novas incertezas econmicas. Como consequncia, todas as tribos
e todos os qsar, na realidade, todos os grupos, grandes ou pequenos, dividindo
os mesmos interesses e recursos, eram obrigados a dosar a sua reao frente s
foras francesas, considerando os subsequentes efeitos, positivos ou negativos,
incidentes sobre o seu bem-estar econmico. A crise no produziu uma pausa,
mas, ao contrrio, gerou uma intensificao da luta travada para superar os
rigores ambientais; os grupos cooperados, assim como os indivduos, buscaram
proteger os seus recursos vitais, zelando para evitarem a submisso incondicional
ao exrcito em marcha13."
    Dunn faz observar que a ideologia do parentesco podia servir de base para a
unidade militar, frente a uma ameaa externa efmera; todavia, ela se mostrava
pouco eficaz "em determinadas circunstncias, mediante as quais a sobrevivn-
cia dependia, essencialmente, da capacidade de grupos com recursos comuns
em promoverem uma convergncia entre as suas polticas e os seus interes-
ses econmicos, aplicando em ordem dispersa tticas contraditrias de ataque,
de compromisso e de fuga"14. Embora esta concluso refira-se aos dawi mani,



12   C. R. Ageron, 1968, vol. 1, pp. 3-56, 239-265, 367-393, e vol. 2. pp. 737-858; A. Bernard e N. Lacroix,
     1906, pp. 122-126.
13   R. E. Dunn, 1977, p. 225.
14   Ibid.
602                                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



ela pode perfeitamente ser aplicada  histria de numerosas outras sociedades
saarianas.
    A unidade na resistncia era evidentemente possvel, a despeito das incer-
tezas ambientais e da diviso inerente  sociedade nmade, e a religio criava
um contexto prprio  maioria dos movimentos de envergadura. No transcor-
rer normal da vida no deserto, a tarika Sf , com as suas zwiya ou centros de
saber que atraam os fiis e estudantes, desempenhava um real papel poltico,
mantendo a ordem legal e agindo na qualidade de mediadora nas diferentes
disputas entre faces, segmentos sociais ou populaes inteiras. A necessidade
de educao e arbitragem das disputas valia aos santos do sufismo, bem como
aos chefes das confrarias, o respeito e a reputao de sbios, msticos e juristas.
Em tempos de crise, era natural que as ordens religiosas e os seus mais influen-
tes chefes fossem levados a desempenhar papis de ordem poltica e militar.
Anteriormente  conquista francesa, a Darkwiyya canalizou a oposio ao
domnio otomano, junto s cabildas e ao Sul do Oran. Igualmente, a resistncia
aos franceses cristalizou-se em torno dos chefes religiosos e das suas ordens,
tal qual ocorrido no caso do movimento dirigido por `Abd al-Kdir, da revolta
dos awld ad shaykh e da resistncia organizada pela Sansiyya, na Lbia, no
Tchade e no Nger, aps 190015.
    Em outro caso, circunstncias econmicas excepcionais, resultantes da pene-
trao francesa no deserto, ao longo dos anos 1850 e 1860, facilitaram a realiza-
o de uma ao unificada entre os tuaregues do Hoggar. Isolado dos mercados
do Norte, o Hoggar transformou a sua base econmica. Em consequncia de
uma relativa estabilidade, sob a autoridade do amenukal al-Hadjdj Ahmad
(1830-1877), foi possvel estender a agricultura ao Hoggar, graas ao trabalho
de camponeses assujeitados. O ataque da misso Flatters, em 1881, aconteceu
durante um perodo de seca intensa, de 1880 a 1883. Posteriormente, enquanto
os franceses ocupavam os osis do Saara Central, os tuaregues do Hoggar rea-
giram, utilizando pastagens situadas ao Noroeste do Estado do atual Nger
e praticando um comrcio baseado em caravanas, junto s regies limtrofes
meridionais do deserto. Com carregamentos de sal, da sebkha, plancie salcolas
de Amadror, tmaras e pequenas quantidades de tecidos em algodo britnicos
importados, eles se dirigiam ao Damergou, regio de agricultura sedentria
situada no limite setentrional, ao Norte de Zinder, na rota comercial Trpoli-
-Kano. A unidade da confederao do Hoggar, facilitadora destas adaptaes


15    C. R. Ageron, 1968, vol. 1, pp. 62-66; J.-M. Abun-Nasr, 1975, pp. 240-246; e B. G. Martin, 1976, pp. 36-67.
O Saara no sculo XIX                                                                                       603



econmicas, sem dvida alguma era o produto de um conflito com vizinhos. Ao
longo dos anos 1870, os tuaregues do Hoggar posicionavam-se como adversrios
determinados dos tuaregues ajjer, ao Leste e ao Norte, estes ltimos  poca
enriquecidos, em virtude das florescentes condies do comrcio Trpoli-Kano;
alm de enfrentarem grupos hostis de tuaregues e m outras direes, especial-
mente os oulliminden, ao Sudoeste, e certos tuaregues do Ar, ao Sudeste16.
    Uma completa exposio da resistncia igualmente evidenciaria a mobilidade
dos nmades cameleiros e a sua aptido demonstrada ao movimentarem-se com
os seus rebanhos, de um extremo a outro do Saara, durante tanto tempo quanto
estivessem dispostos a levarem uma vida repleta de perigos e incertezas. Um
exemplo desta situao foi a odisseia dos djeramna, ocorrida durante um per-
odo de cinquenta anos, na qual eles pela primeira vez enfrentaram os franceses,
perto de Gryville, no ano 1881, em meio  revolta dos awld sd shaykh, cuja
insurreio fora desencadeada pela escassez de terras, pela notcia do massacre
da expedio Flatters e pela retirada das tropas francesas, as quais haviam sido
deslocadas com vistas a apoiarem aquelas engajadas na campanha da Tunsia.
Quando B `Amma, lder da insurreio, foi abandonado pelos seus partidrios,
os djeramna partiram para juntar-se aos tuaregues do Hoggar. Em 1889, eles
tomaram parte em uma incurso conduzida por chaambas na estrada Trpoli-
-Kano, ao Sul de Ghadmes; pouco aps, eles participaram de uma incurso
no Feezn e outra suplementar no Sul da Tunsia. Quando a resistncia dos
tuaregues desmantelou-se, eles se retiraram nas terras altas da Tripolitnia, nas
regies limtrofes ao Sul da Tunsia e da Arglia; e, finalmente, as suas incurses
tornaram-se um dos pontos controversos na rivalidade territorial entre franceses
e turcos. Em 1925, eles por fim retornaram a Gryville, com o objetivo de ali
estabelecerem a sua submisso, cerca de cinquenta anos aps dali terem partido
para a sua vida errante17.


     O comrcio no deserto e os nmades
   A revoluo industrial acelerou os progressos da tecnologia militar europeia,
na segunda metade do sculo XIX, com tamanha intensidade que as foras
europeias, equipadas com o mais moderno armamento, encontraram, desde
ento e diante de si, adversrios munidos de um poderio blico ultrapassado. A


16   J. Keenan, 1977, pp. 63-85, 139-140, e 1972; J. Dubief, 1947, pp. 15-16; G. Gardel, 1961, pp. 126, 144-156.
17   P. Boyer, 1971.
604                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



Revoluo Industrial no somente permitiu a conquista do deserto, mas, igual-
mente, transformou a vida econmica do Saara, na justa e progressiva medida
em que a fabricao de produtos de baixo custo tornava possvel uma nova fase
de penetrao econmica europeia. O comrcio com a Europa existia desde bem
antes; entretanto, o sculo XIX foi marcado por um fortssimo crescimento em
seu volume, provocando efeitos variveis, segundo a estrutura das economias
regionais saarianas. Assim sendo, a indstria marroquina do algodo, fornece-
dora para mercados situados alm do Atlas, sucumbiu aps 1860  concorrncia
dos produtos em algodo, provenientes de Manchester; ao passo que a indstria
langera do Sul tunisiano saa-se muito melhor e continuava com os seus pro-
dutos a alimentar os circuitos comerciais transaarianos18. Nos limites do Saara,
diversos grupos comearam a exportar produtos primrios, por exemplo, ao
Norte da bacia do Senegal, crescentes exportaes de goma arbica ofereceram
um crescimento da potncia e da influncia de uma linhagem zwiya, cujos
membros especializavam-se em cincia islmica e na mediao de conflitos, alm
de organizarem caravanas comerciais com destino s escalas do rio Senegal19. Na
regio situada ao Norte do califado de Sokoto, o crescimento, ocorrido durante
os trinta ltimos anos do sculo, das exportaes de plumas de avestruz e peles
de cabra curtidas, obrigou os dirigentes nmades a se adaptarem para suprir as
necessidades comerciais geradas pela capacidade dos camponeses e agricultores
assujeitados em ganharem a sua vida coletando e vendendo estes produtos20. A
penetrao econmica igualmente exerceu uma influncia nos gostos dos consu-
midores e, justamente no transcorrer do sculo XIX, expandiu-se especialmente
o costume de beber ch fortemente adoado.
    Um importante mecanismo de fortalecimento dos intercmbios com a eco-
nomia mundial era representado pelo comrcio transaariano, do qual haviam
participado, durante sculos, mercadores saarianos, guias, transportadores e for-
necedores de produtos, tais como gneros alimentcios, peles de cabra para a
fabricao de cantis, alm de artigos de exportao, como as plumas de avestruz
destinadas ao mercado europeu. As populaes dos osis setentrionais, espe-
cialmente aquelas do Tafillet, do Mzab, de Ghadmes, do Fezzn, de Awdjla
e de Swa, desempenhavam um decisivo papel no tocante  organizao e ao
financiamento do comrcio. Talvez porque estes osis ocupassem uma posio
estratgica e em virtude de terem sido dependentes do comrcio de tmaras para

18    K. Brown, 1976, p. 9; A. Martel, 1965, vol. I, p. 125.
19    C. C. Stewart e E. K. Stewart, 1973, pp. 86-97, 119-120, 151-153.
20    S. Baier, 1977.
O Saara no sculo XIX                                                                                     605



adquirirem cereais das zonas de cultura pluvial situadas mais ao Norte, os seus
habitantes, desde um passado remoto dedicados ao comrcio, passaram natural-
mente a atuar no seio do comrcio transaariano, com o passar dos sculos e em
razo das oportunidades surgidas. Grupos de nmades, tais como os tuaregues
do Hoggar e de Kel-Ewey, os tubus (toubous) e os zuwaya do Saara Central
(grupos de bedunos a no confundir com as linhagens religiosas zwiya, da
Mauritnia), realizavam, de fato e por sua prpria conta, o comrcio de nmero
reduzido de escravos e de pequenas quantidades de produtos diversos; todavia,
o volume das suas trocas no era comparvel com aquele dos mercadores seden-
trios dos osis do Norte, os quais se beneficiavam do apoio de intermedirios
locados em portos mediterrneos e tambm daquele proveniente dos interme-
dirios de pases da Europa, particularmente quando os preos e as condies,
nas rotas comerciais, eram favorveis. Consequentemente, o principal papel
dos nmades cameleiros consistia em fornecer os animais para o transporte, os
guias e as escoltas militares para as caravanas; em suplemento, estes nmades
asseguravam servios de entrega para aquelas mercadorias cujos proprietrios
no podiam ou no desejavam acompanhar as caravanas21. A maioria dos grupos




figura 20.1 O comrcio nos confins do deserto: "Mouros" realizando o comrcio da goma na escala de Bakel,
 margem do rio Senegal. [Fonte: Colonel Frey, Cte occidentale d'Afrique, 1890, Flammarion, Paris. Ilustrao
reproduzida com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



21   Sobre o comrcio transaariano por Trpoli, conferir M. El-Hachaichi, 1912, pp. 200-202; H. Mhier
     de Mathuisieulx, 1904; T. S. Jago, 1902; no tocante aos acordos entre mercadores e linhagens tuaregues,
     relativos ao transporte, s escoltas e entregas, conferir M. Brulard, 1958.
606                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



nmades do Saara possua interesses maiores no que dizia respeito ao comrcio
que transitasse pelo seu territrio: os regibat, na via que conduzia ao Marrocos
Ocidental, os at khabbash (segmento dos at atta), em relao  rota que ligava
o Tafillet ao Twt, os chaambas, no tocante aos itinerrios ao Norte do Twt,
os tuaregues relativamente ao trajeto Trpoli-Kano, os tubus, no que tange ao
percurso de Borno at Fezzn, os mujabra e os zuwaya, em referncia ao trfego
entre Benghazi e o Wada, e os khabbbsh, finalmente, no concernente  Darb
alArba `n ("o caminho dos quarenta dias"), unindo o Drfr e o Nilo inferior.
   Uma importante dinmica na histria do deserto, no curso do sculo XIX,




figura 20.2 A kasba [citadela] de Murzuk, no Fezzn, em 1869. [Fonte: G. Nachtigal, Sahara and Sudan
(trad. e org. A. G. B. e H. J. Fisher), vol. I, 1974, Hurst, Londres.  Hurst, Londres. Ilustrao reproduzida
com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]




foram o fluxo e o refluxo do comrcio que utilizava estas vias. Grande nmero
de pesquisas ainda so necessrias, antes do detalhamento ou at mesmo da sua
definio mais geral, para que este processo possa definitivamente ser assentado;
porm,  possvel presumir que as mudanas, s quais foi submetido o comrcio,
incidiram sobre as razes de migraes e guerras constantemente presentes na
histria do deserto. O controle de uma rota comercial, graas ao produto dos
impostos ou servios por ele assegurados, era uma enorme fonte de recursos
O Saara no sculo XIX                                                        607



e, com a mesma intensidade, aqueles que o exerciam eram obrigados a vencer
a concorrncia de nmades rivais. A concentrao de riquezas em linhagens,
segmentos sociais ou grupos tnicos inteiros, muito amide perturbava o curso
natural dos assuntos polticos locais, apoiados sobre uma diviso, sensivelmente
equnime, dos poderes exercidos por fraes sociais, em dado nvel da estrutura.
Os grupos ricos possuam melhores chances de preservao das suas posies;
entretanto, a facilidade, mediante a qual as grandes caravanas, elas prprias,
caam em emboscadas nas mos dos saqueadores, introduzia um fator de ins-
tabilidade. Finalmente, o declnio de uma rota comercial, outrora ativa, exigia
readaptaes. A escassez de documentos histricos, relativos a esta questo, no
permite tirar concluses; alguns grupos,  imagem dos chaambas, reagiram 
decadncia do comrcio por eles praticado, aumentando a sua participao no
comrcio regional at os confins do deserto ou promovendo incurses junto
aos seus vizinhos abastados; ao passo que outros, como os khabbbsh do Nilo
desrtico, decididos a virarem a pgina aps a runa do "caminho dos quarenta
dias", assim como a quase exclusivamente consagrarem-se  criao de animais,
aparentam terem logrado melhor adaptao22.
    Primeiramente, o que se deve reter, em respeito  razo do deslocamento
dos eixos comerciais e da variao no volume do comrcio realizado atravs
do deserto,  o fato de ter ocorrido, na Arglia, um distanciamento do fluxo
comercial visvis dos franceses, trazendo assim a runa - por ironia do des-
tino - aos objetivos econmicos imperialistas. Nos primrdios da ocupao
francesa, o comrcio apresentou uma retomada: o trfego das caravanas entre
Fez e Tlemcen foi restabelecido, aps 1833, e os produtos britnicos importa-
dos atravs do porto marroquino de Ttouan penetraram pelo Oeste da Arg-
lia. O comrcio entre Ttouan e os domnios de Abd al-Kdir aumentou, aps
1837, e com maior nfase aps 1839; enquanto a demanda por armamento
alimentava um ativo comrcio. Contudo, aps a queda do Estado de `Abd
al-Kdir, os intercmbios comerciais conheceram um declnio, parcialmente
imputvel s proibitivas taxas de importao cobradas pelos produtos transa-
arianos em trnsito, originrios do Sudo ocidental, assim como s restries
para a entrada na Arglia das mercadorias provenientes dos territrios circun-
vizinhos. Os franceses buscaram remediar estas duas situaes nos anos 1850 e
1860; no entanto, assim mesmo o comrcio no se restabeleceu23. Outro fator
foi a profunda queda na demanda argelina por escravos; mas, conquanto este

22   Y. Tgnier, 1939, pp. 108 e seguintes; T. Asad, 1966.
23   J.-L. Mige, 1961-1963, vol. 2, pp. 158-163; vol, 3, pp. 74-75.
608                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



fenmeno seja frequentemente citado para explicar as dificuldades comerciais
da Arglia, ele merece reavaliao  luz de recentes indicaes segundo as quais
o comrcio argelino dos escravos no teria jamais sido importante, compa-
rativamente a outras zonas de importao de escravos na frica do Norte24.
Enfim, convm observar que o territrio argelino no oferecia grandes vanta-
gens quanto  segurana das caravanas, haja vista que, a qualquer momento, a
hostilidade entre os franceses e um grupo qualquer no Saara argelino sempre
fora capaz de ameaar a segurana do comrcio.




figura 20.3 A sociedade oasiana: mulheres no mercado de Murzuk, 1869. [Fonte: G. Nachtigal, Sahara and
Sudan (trad. e org. A. G. B. e H. J. Fisher), vol. I, 1974, Hurst, Londres.  Hurst, Londres. Ilustrao repro-
duzida com a autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]




24    R. A. Austen, 1979.
O Saara no sculo XIX                                                                                609




figura 20.4 Os minaretes da mesquita de Agads. [Fonte: J. Vansina, Art history in Africa, 1984, Longman,
Londres,  Werner Forman Archive, Londres.]
610                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A rota pelo Oeste da Arglia prosperou at o final dos anos 1870, quando
teve incio o seu declnio definitivo, sucedido pelo seu deslocamento para o Mar-
rocos, anteriormente ao final do sculo XIX. Concomitantemente ao progressivo
declnio da importncia de Figuig, situada perto da fronteira argelina, aumen-
tava a influncia de Ab Am, localizada a aproximadamente 240km a Sudoeste;
de tal modo que, este osis tornou-se a porta de entrada para o essencial do
comrcio de escravos com destino ao Marrocos. A maior parte do comrcio tra-
dicional deslocou-se ainda mais rumo ao Oeste, em direo ao litoral atlntico,
em consequncia da construo do porto de Mogador. A sua posio estratgica
permitiu-lhe absorver um crescente volume do comrcio transaariano aps os
anos 184025. Uma escala na rota de Mogador estabeleceu-se em Tindouf, no
lugar de um ksr, quando uma aliana apoiada essencialmente sobre os tadjakant
venceu os regibat, em meados do sculo. Uma aliana ampliada defendeu o osis
de Tindouf at 1884, no momento em que os regibat realizaram a sua revan-
che26. O declnio do comrcio representou, indubitavelmente, um fator relevante
nesta luta; o comrcio direcionado a Mogador atingiu o seu apogeu em 1878,
entretanto, comeou a periclitar, atingindo o seu ocaso quando, em 1894, os
franceses dominaram Tombouctou e outra rota, parcialmente fluvial, foi aberta
entre Tombouctou e Saint-Louis, na foz do rio Senegal27.
    O comrcio pela via Trpoli-Kano desenvolveu-se aps a metade do sculo,
sobretudo quando os otomanos lograram estabelecer a paz ao Sul de Ghadmes,
aps 1850. Os trinta anos seguintes representam a idade de ouro do comrcio
realizado atravs desta rota, pois que um sbito crescimento das exportaes
de plumas de avestruz, durante os anos 1870, elevou o volume das trocas a
nveis que, provavelmente, foram o seu recorde absoluto. O comrcio decli-
nou temporariamente no decorrer da crise dos anos 1880, mas restabeleceu-
-se aps 1890, graas ao aumento nas exportaes de peles de cabra curtidas.
Os tuaregues ajjer conduziam caravanas entre Ghadmes e Ifrouane, escala
situada na cadeia montanhosa de Ar; cabendo aos tuaregues da confederao
Kel-Ewey assegurarem a ligao entre Ifrouane e Kano. Estes dois grupos
deviam responder s ameaas dos seus vizinhos: ao Norte, os ajjers respondiam
aos ataques dos chaamba e dos tuaregues do Hoggar, ao passo que, no Sul, os
kel-ewey deviam enfrentar as ameaas dos imezureg do Damergou, grupo de
tuaregues semissedentrios cujos efetivos militares podiam contar com uma base

25    R. E. Dunn, 1977.
26    A. Pigeot, 1956; A. Laugel, 1959.
27    J.-L. Mige, 1961-1963, vol. 4, pp. 380-385.
O Saara no sculo XIX                                                         611



fixa e asseguravam a taxao do comrcio de plumas de avestruz produzidas em
sua regio. O comrcio Trpoli-Kano foi mais duradouro, comparativamente
quele realizado com Mogador, em virtude de Kano estar mais protegida da
concorrncia representada pelas rotas martimas; porm, taxas de frete martimo
pouco elevadas, combinadas com a crescente insegurana nas reas desrticas
da rota, provocaram o seu brutal declnio aps 1900. Na Nigria, os britnicos
buscavam desviar o comrcio Trpoli-Kano para o porto de Lagos, ao passo que
no Nger, os franceses esforavam-se para manter aberta a rota do deserto. O
golpe final foi proferido contra a antiga rota atravs da chegada da estrada de
ferro a Kano, em 191128.
    Ao final do sculo, a rota de Benghazi at Wada era mais vital que qualquer
outra. Este itinerrio direto entre a Cirenaica e o Ouada fora descoberto na pri-
meira metade do sculo; e os sultes do Ouada, cujo Estado tornara-se progres-
sivamente mais poderoso aps meados do sculo XVIII, demonstravam muita
vontade em criar uma rota prspera, evitando o Borno, ao Oeste, e o Drfr, ao
Leste. A partir de 1860, o futuro da rota comercial esteve intimamente ligado
 sorte da Sansiyya, confraria muulmana que atraiu para si os bedunos da
Cirenaica, aps 1843, estendendo-se posteriormente para o Sul, ao longo da rota
comercial. O sucesso desta ordem religiosa teve forte impacto sobre o comr-
cio, em virtude de uma nica organizao ter coberto toda a extenso da rota,
oferecendo aos mercadores uma mesma infraestrutura legal, social e comercial,
bem como um nico servio postal. Os dignitrios da ordem esforavam-se para
favorecer o comrcio, mantendo a paz na extenso do percurso e, para faz-lo,
postavam-se como mediadores nas diferentes disputas entre linhagens, segmen-
tos sociais ou grupos tnicos inteiros, alm de frequentemente procederem com
sucesso em prol da restituio de mercadorias roubadas nos ataques contra as
caravanas. O comrcio, por sua parte, representava uma fonte de ganhos para os
responsveis pela Sansiyya, aos quais ele proporcionava receitas provenientes de
impostos, do direito de armazenamento e das doaes dos mercadores, trazendo
um elemento de unidade aos vastos domnios sans29.
    O comrcio Benghazi-Ouada ainda sobreviveu aps a virada do sculo,
em razo da existncia da Sansiyya e porque a rota cobria regies muito mais
distantes, comparativamente s destinaes meridionais extremas do comrcio
Trpoli-Kano. A rota situada mais ao Leste, a Darb alArba `n, caiu em declnio
aps a metade do sculo, em razo do desenvolvimento do comrcio entre Ben-

28   M. Johnson, 1976a; S. Baier, 1977, 1980; C. W. Newbury, 1966.
29   D. D. Cordell, 1977, pp. 21-36.
612                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



ghazi e o Wada, assim como em funo da formao do vasto imprio de pontos
comerciais dos Djallba. Aps 1885, o Estado madista do Sudo desmantelou
a Darb alArba `n, assim como as rotas do Nilo.
    O trfico transaariano de escravos igualmente influenciou, de diversos modos,
a vida das populaes nmades. As sociedades saarianas prximas ao Sahel
oeste-africano realizavam incurses junto s populaes sudanesas, para delas
capturarem escravos; inclusive, foram registradas ocasionais incurses trans-
-saarianas, executadas com os mesmos objetivos, tal o caso dos awld sulay-
-mn antes da sua migrao rumo  bacia do Tchad, assim como aquele dos
bani muhammad, no incio do sculo XX. Por sua prpria conta, os nmades
realizavam o comrcio de um limitado volume de escravos, alm de negociarem
pequenas quantidades de produtos transaarianos; porm, em seu conjunto, eles
eram transportadores, muito mais que traficantes. O transporte de escravos era
provavelmente, para os nmades, uma fonte de rentabilidade inferior, compara-
tivamente a outras formas de comrcio; pois que, embora os mercadores talvez
no pagassem frete pelo transporte, no lhes era possvel escapar ao pagamento
dos impostos.
    Para as sociedades saarianas, o mais importante efeito do trfico de escravos
foi, sem dvida, o fato de ele facilmente prover-lhes uma mo de obra assujei-
tada, a qual se revelou preciosa durante os perodos de expanso, principalmente
nas regies limtrofes do deserto, onde os escravos podiam ser utilizados no
somente no trato dos rebanhos, mas tambm na agricultura e no artesanato.
Um caso especial  aquele dos tuaregues kel-ewey, os quais desenvolveram a sua
economia durante o sculo XIX, poca marcada a um s tempo por condies
climticas favorveis na regio, pela prosperidade do comrcio transaariano e
pela comercializao do sal, bem como por um crescente aporte de capitais em
toda a regio formada no eixo da ligao Ar-Kano. Dispomos de pouca infor-
mao sobre a evoluo dos sistemas de estratificao no deserto, com exceo
de outros grupos de tuaregues. Mencionamos a nova escolha, como atividade
essencial, da agricultura assentada na explorao do trabalho servil no Hoggar;
assim sendo, constatamos que, junto aos kel-gress e tuaregues do Imannen, a
mo de obra servil foi desde ento empregada para o recolhimento de tributos
dos agricultores sedentrios, muito mais que na guarda dos rebanhos. Esta reo-
rientao teve lugar quando guerreiros do deserto chegaram s zonas do Sahel
onde a agricultura era possvel e exigiram dos cultivadores locais o pagamento
de tributos, alm de realizarem incurses para capturarem escravos, os quais se
fundiram, com o passar do tempo,  populao sedentria e tornaram-se contri-
O Saara no sculo XIX                                                                                     613



buintes fiscais30. A necessidade de uma mo de obra servil suplementar aparece
em outro caso de expanso econmica, resultante do imperialismo dos at atta,
os quais, desde o sculo XVII e continuamente, dirigiam-se aos confins pr-
-saarianos do Marrocos. No sculo XIX, os at khabbash, segmento dos at atta,
conduziram a vanguarda desta expanso no deserto, estendendo a sua influncia
sobre o comrcio existente entre o Tafillet e o Twt, bem como extorquindo
dinheiro da populao do Twt em troca da sua proteo31.
   Pouco sabemos a respeito do volume do trfico de escravos atravs do deserto
saariano; entretanto, Ralph Austen reuniu estimativas preliminares sobre este
tema que, recolhidas de fontes muito diversas, reservam algumas surpresas.
Segundo o autor, distante do declnio no sculo XIX, na realidade o comrcio
de seres humanos estava em progresso; o nmero de escravos trazidos s regies
de importao na frica do Norte e no Oriente Mdio era,  poca, superior
quele de qualquer sculo precedente. As cifras indicadas por Austen mostram
que, entre 1800 e 1880, cerca de 500.000 escravos foram introduzidos no Egito e
250.000 outros foram levados ao Marrocos. Poucos escravos chegaram  Arglia
aps a conquista francesa; no entanto, a Arglia jamais fora um mercado to
importante comparativamente a outros existentes32. Na Lbia, a rota Benghazi-
-Ouada continuou a prover escravos para o Egito e outras regies do Oriente
Mdio, at as ltimas dcadas do sculo XIX, em virtude da menor vigilncia
dedicada pelos abolicionistas europeus a este itinerrio, comparativamente 
rota de Trpoli a Kano. Mais distante, rumo ao Leste e at os primeiros anos do
sculo XX, o transporte de escravos prosseguia nas vias do Nilo33.
   O comrcio de armas de fogo, destinadas ao deserto e transportadas atravs
dele, continuou apesar das tentativas das potncias europeias de impor-lhe um
termo. Em Trpoli e sobretudo em Benghazi, um comrcio ativo de armas de
fogo era registrado no incio dos anos 1880 e numerosos fuzis, introduzidos por
contrabando, particularmente carabinas de repetio Winchester de dezoito tiros,
foram importadas com o objetivo de serem utilizadas pelas escoltas das caravanas.
Entretanto, algumas destas modernas armas muito provavelmente chegaram s
mos de outros grupos nmades, permitindo-lhes organizarem exitosas incurses,


30   P. E. Lovejoy e S. Baier, 1975; S. Baier, P. E. Lovejoy, 1977. Sobre a sedentarizao e o pagamento dos
     impostos, conferir P. Bonte, 1976; e H. Guillaume, 1976.
31   R. E. Dunn, 1972.
32   R. A. Austen, 1979.
33   J.-P. Mason, 1971, p. 267; para o trfico de escravos da frica Equatorial com destino ao Egito, conferir
     D. D. Cordell, 1977b.
614                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 20.5 Artigos de marroquinaria tuaregue  venda em Tomboctou nos anos 1850. [Fonte: H. Barth,
Travel and discoveries in northern and central Africa, 1857, Longman, Londres. Ilustrao reproduzida com a
autorizao do Conselho de Administrao da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]
O Saara no sculo XIX                                                                                615



uma vez que o poder de fogo acrescia as vantagens tticas inerentes aos ataques
surpresa, dos quais j se beneficiavam os saqueadores34. No deserto, a introdu-
o de moderno armamento de repetio aparenta ter sobretudo acontecido ao
longo da rota Benghazi-Ouada; no entanto, outras regies foram igualmente
servidas. Joseph Smaldone reuniu indicaes segundo as quais uma reviravolta
na distribuio de armas de fogo teria acontecido junto aos tuaregues do Hoggar,
durante os anos 1890. No Noroeste, em territrio marroquino, as vendas do fuzil
Remington, modelo 1860, com carregamento pela culatra, eram de tal ordem que,
ao final do sculo, este fuzil tornar-se-ia a arma clssica de numerosos grupos em
todo o pas, inclusive dos nmades das zonas pr-saarianas. Embora as informa-
es sobre este tema estejam distantes de uma mais completa apreenso,  cabvel
pensar que a crescente insegurana na rota Trpoli-Kano, aps 1898, deva-se 
multiplicao das armas de fogo nas fileiras dos saqueadores35.
    A regio prxima  extremidade meridional da rota Trpoli-Kano  um
exemplo da influncia econmica, poltica e religiosa da populao do deserto
sobre o Sudo. Na savana, o sculo XIX marcou o trmino de um processo no
qual a centralizao das estruturas de Estado, a islamizao e o crescimento
econmico estiveram estreitamente ligados. Conquanto no representasse seno
uma fase final deste longo processo, a jihad do incio do sculo XIX cedeu lugar 
formao do califado de Sokoto, vasto Estado que favoreceu o desenvolvimento
econmico em sua regio central, nas cercanias de Sokoto, de Katsina e de
Zaria (e na sua regio central secundria, no vale Sokoto-Rima), ali instalando
populaes capturadas como escravas, fruto de incurses realizadas alm das
suas fronteiras. No corao da regio, ricas terras arveis apropriadas s culturas
de valor comercial eram cultivadas por camponeses ou escravos e esta produo
suplementar encorajava o desenvolvimento de centros urbanos e atividades
artesanais36. Kano e as cidades vizinhas criaram uma indstria txtil artesanal
que forneceu tecido a uma vasta rea do Sudo Central, bem como  regio dos
tuaregues do Norte. O desenvolvimento econmico no deserto, especialmente
no corredor entre Zinder e o macio de Ar, regio sob o domnio dos tuaregues
kel-ewey, acompanhava-se do desenvolvimento da savana. Os tuaregues troca-
vam tmaras e sal, provenientes de Bilma e Fachi, alm de animais e derivados,
por gros e artigos manufaturados do Sudo. Os kel-ewey e os seus aliados


34   P. Bettoli, 1882, p. 267.
35   J.-P. Smaldone, 1971, pp. 161-162, e 1977, pp. 100-101; H. J. Fisher e V. Rowland, 1971, pp. 233-234
     e 240.
36   P. E. Lovejoy e S. Baier, 1975; P. E. Lovejoy, 1978; J.-P. Smaldone, 1977, pp. 39-68.
616                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



mantinham, na savana, uma complexa rede comercial que englobava centros
urbanos de artesos e comerciantes especializados, em sua maioria de origem
servil, bem como propriedades rurais nas quais trabalhavam escravos ou os seus
descendentes. Estas terras, situadas em toda a extenso do Sahel e da savana,
forneciam parte dos cereais necessrios aos nmades do deserto, eram lugares
de repouso para os tuaregues em trnsito durante a estao seca, alm de cons-
titurem refgios nos perodos de grande seca37.
    Conquanto as condicionantes da perenidade das relaes mantidas entre os
tuaregues e os seus vizinhos sedentrios sejam prioritariamente pacficas trocas
econmicas, ao menos no corredor entre Kano e Ar, a fora econmica dos
nobres tuaregues residia em sua posse de camelos e armas de fogo, assim como
em sua mobilidade. Como primeira hiptese, os tuaregues podiam ser potentes
aliados dos Estados sedentrios, apreciados tanto pela sua colaborao em cam-
panhas militares contra inimigos, quanto pelo seu potencial econmico, a exem-
plo do caso representado pelas relaes com o Damagaram, Estado formado ao
Norte do califado no incio do sculo XIX, progressivamente mais potente e
tornado insuportvel ao final do perodo. Como segunda opo, os tuaregues
podiam ser inimigos devastadores, como testemunham as destruies s quais
eles se dedicaram no Borno, durante os primrdios deste mesmo sculo.
    Por sua vez, o Saara Meridional desempenhou o papel de reservatrio do
saber islmico, cujo impacto sobre a savana manteve-se contnuo no curso dos
sculos, especialmente ao longo do sculo XIX38. Certo nmero de regies
limtrofes do deserto, notadamente o Sudo Central, a bacia do rio Senegal, o
delta interno do Nger e a bacia do Tchad, forneceram cereais s populaes
vizinhas do interior do deserto; deste modo, estes laos econmicos favorece-
ram o intercmbio de ideias. O trao caracterstico das sociedades do Saara
Meridional era uma diviso entre linhagens guerreiras e linhagens de santos:
os primeiros, aspirantes  guerra e  poltica, os segundos, cultivadores de uma
ideologia pacifista, experientes comerciantes e portadores de uma tradio inte-
lectual comum. Em sua prpria qualidade de estrutura segmentar, esta bipartio
era um modelo de sociedade, muito mais que uma descrio da realidade; a tal
ponto que somente os mais santos entre os santos efetivamente abstinham-se de
participar dos combates e que famlias de guerreiros participavam do comrcio,
embora fossem menos especializadas nesta atividade que as famlias religiosas.
Todavia, as linhagens religiosas zwiya da Mauritnia, os religiosos kunta da

37    P. E. Lovejoy e S. Baier, 1975, pp. 564-571.
38    C. C. Stewart, 1976a.
O Saara no sculo XIX                                                         617



curva do Nger e os inislimin junto aos tuaregues, eram todos formados nas duas
cincias politicamente teis do fikh (jurisprudncia) e do tasawwuf (misticismo).
 imagem das linhagens religiosas da Sansiyya ou marroquinas, elas exerciam a
respeitosa funo de mediao e arbitragem, alm das suas atividades possurem
aspectos econmicos, polticos e de sabedoria. Os seus membros mantiveram e
desenvolveram a cincia islmica durante sculos e a sua influncia estendeu-se
para o Sul do deserto, onde a erudio saariana atuou simultaneamente sobre a
tradio quietista e na propagao do isl por reformadores militantes.


    Concluso
    O sculo XIX foi uma poca de espetaculares mudanas no deserto. A ocu-
pao da Arglia esfacelou a unidade econmica da frica do Norte, levando
o comrcio transaariano a utilizar rotas situadas a Leste e Oeste da Arglia,
e desorganizando o trfego caravaneiro ao longo dos limites setentrionais do
deserto. O avano do exrcito francs na Arglia representou uma manifesta-
o direta e imediata do impacto da Europa na regio; mais distante e qui
menos real, era a sua presena alhures, em virtude das variaes do comrcio
transaariano, em seu volume e sua composio. Ao final do sculo, o comrcio
transaariano, com os rendimentos e a fcil obteno de mo de obra que lhe
eram prprios, praticamente se desmantelara. A sua importncia na vida dos
nmades tende a evidenciar a necessidade de pesquisas complementares acerca
dos efeitos das mudanas s quais ele foi submetido, assim como sobre as razes
do seu declnio: qual teria sido o efeito da formao do Estado governado por
`Abd al-Kdir, de parte a outra de uma grande rota leste-oeste? Como as popu-
laes do deserto teriam elas exatamente reagido s vicissitudes do comrcio?
De qual modo o declnio do comrcio teria ele influenciado na resistncia?
A ocupao francesa do deserto introduziu, em suplemento, um novo fator
militar no mbito das relaes entre os povos do deserto e o mundo exterior.
Os nmades podiam, graas  sua mobilidade, escolher entre vrias formas de
resistncia, capazes de se cristalizarem em torno dos chefes muulmanos e das
ordens religiosas; porm, a aridez do meio limitava, muito amide, a liberdade
de grupos ou indivduos cujos recursos eram comuns, oferecendo-lhes a escolha
entre a resistncia e a sobrevivncia. Outro tema merecedor de pesquisas mais
profundas  o efeito desigual e variado da penetrao econmica europeia nas
economias regionais situadas s margens do deserto: no Marrocos pr-saariano,
dominado pela expanso dos at atta; no Marrocos costeiro, onde as relaes
618                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



econmicas atravs do Atlas e do Saara estremeceram em suas bases; na Arglia,
com o predomnio das atividades dos franceses; no Norte da bacia do Senegal,
onde as exportaes de goma exacerbavam os interesses concorrentes entre os
grupos mouros; ao Norte da curva do Nger, no califado de Sokoto, onde a
potncia econmica deve ser considerada, levando-se em conta a abolio do
trfico negreiro atlntico, assim como a islamizao e a centralizao da regio,
na bacia do Tchad e, ao Leste, com a expanso do Wada que transformaria, a um
s tempo, o deserto ao Norte e a floresta ao Sul. A histria de cada uma destas
regies suscita uma srie de questes tocantes a temas tais como as mudanas
na estratificao social, as similaridades e diferenas da reao ao exrcito fran-
cs, bem como acerca do rumo da reorientao das economias regionais. Outra
tarefa para os pesquisadores ser, como sugerido por Charles Stewart, apresentar
detalhes sobre os laos religiosos entre o Saara meridional e a frica do Oeste e
Central, considerados sobre o prisma da unidade religiosa, poltica e econmica
destas regies s margens do deserto39.
    Um tema que invariavelmente se encontra ao longo da histria do deserto 
a influncia universal do clima, a seca ou o superpovoamento, os quais expulsam
os nmades das regies ridas, lanando-os em direo a terras mais frteis, nos
confins do deserto, ou rumo s zonas situadas em regies de maior altitude e
com maiores ndices pluviomtricos. Os dados climticos existentes no auto-
rizam seno as mais genricas concluses, no que tange ao sculo XIX: quando
muito, pode-se dizer que este sculo no conheceu catstrofes como aquelas de
meados dos sculos XVII e XVIII ou como as grandes secas ocorridas no Sahel,
entre 1911 e 1914, bem como entre 1969 e 1973; que, malgrado a ausncia
de perodos de secas devastadoras, salvo na bacia do Tchad nos anos 1830, o
incio do sculo XIX foi mais seco que o perodo compreendido entre 1600 e
1800; e que certa umidade ressurgiu entre 1870 e 1895; mas que, no entanto, as
condies climticas degradaram-se aproximadamente ao final do sculo XIX
at atingirem a grande seca do incio do sculo XX40. Estas indicaes gerais
mascaram, evidentemente, mltiplas variaes locais e regionais. Informaes
detalhadas permitiriam melhor compreender numerosos aspectos da atividade
humana e, particularmente, as relaes de causa e efeito entre a penria, por um
lado, e as guerras, migraes e a estratificao, por outra parte; contudo, no resta
seno deplorar a falta, quase total, de tais informaes.


39    C. C. Stewart, 1976a. Para um estudo dos laos econmicos entre o deserto e a savana ao Norte do
      mdio-Nger, conferir R. Roberts, 1978.
40    S. E. Nicholson, 1976, pp. 98-158, 1980.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                  619



                                       CAPTULO 21


     As revolues islmicas do sculo XIX
              na frica do Oeste
                                             Aziz Batran




   O drama, cujo teatro seria a frica do Oeste, no sculo XIX, teve como palco
principal esta estreita faixa territorial que os gegrafos e historiadores rabes
da poca clssica denominariam Bild alSdn (pas dos negros). Localizada
entre o deserto do Saara que a invade continuamente ao Norte e uma zona de
clima inospitaleiro em sua face sul, esta regio deve a sua importncia histrica,
a sua prosperidade e a sua estabilidade  manuteno de um frgil equilbrio
entre o habitat, o homem e o animal; entre os agricultores sedentrios e os pas-
tores nmades; entre os habitantes das cidades e as populaes rurais; entre os
homens livres e aqueles de condio servil; igualmente, entre os muulmanos e
as populaes ainda fiis s suas crenas tradicionais. Em suplemento, o Bild
alSdn era, desde tempos remotos, um mercado internacional no qual eram
trocadas as mercadorias locais e os produtos importados do estrangeiro; alm de
constituir-se em uma zona de passagem e extraordinria miscigenao popula-
cional, como testemunha a expanso dos fulbe (peul), os quais, originrios do
Fouta-Toro, se haviam espalhado em um vasto territrio, estendido do lago
Tchad e do Camares, ao Leste, at o Oceano Atlntico, em direo ao Oeste.
Tratava-se de uma regio onde grandes Estados e imprios haviam conhecido
a prosperidade e a posterior decadncia; uma regio que fora o primeiro dr
alislm (lar do isl) na frica do Oeste.  justamente neste contexto que, aps
uma lenta gestao - um longo perodo de aprendizado e predicao, desdo-
620                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



brado em exploses de violncia - nasceriam trs califados: Sokoto, no Norte
da Nigria, Hamdallahi, no Macina, e o califado tijniyya, da Senegmbia e
do Macina.


      O pano de fundo religioso dos movimentos reformistas
    As jihad, cujo teatro foi a frica do Oeste no sculo XIX, eram essencial-
mente campanhas de inspirao religiosa, destinadas a concretizar os principais
ensinamentos e prticas, caractersticas dos primrdios do isl; mas, como este
ltimo  uma religio total que engloba todos os aspectos da vida social, os dife-
rentes mveis destes movimentos - religiosos, sociais, econmicos e polticos
- so indissociveis. Assim sendo, as revolues islmicas do sculo XIX foram
a expresso de todo um conjunto de preocupaes muito profundas, traduzidas
por uma situao de crise no Sudo.
    Os revolucionrios da frica do Oeste, xeque (Shehu) `Uthmn dan Fodio
(Uthmn ibn Fud), Seku Ahmadu (xeque Ahmad Lobbo) e Hadjdj `Umar, eram
homens de religio. Tericos de imensa estatura e chefes carismticos, cujas vidas
e aes conformavam-se escrupulosamente ao exemplo de Muhammad, bem
como s prescries da shar `a1. Eles sinceramente acreditavam que lanando o
seu apelo  restaurao e  reforma (tadjdd) e ao recorrerem, em ltimo caso, 
ao militante, estariam obedecendo s ordens de Al, cumprindo as predies do
Profeta, recebendo a aprovao dos seus pais espirituais e situando este conjunto,
deste modo, na linha direta de aes similares, passadas ou contemporneas. Eles
igualmente se consideravam instrumentos escolhidos por Deus para executar a
Sua vontade.
    Os chefes das jihad invocavam vrios versetos do Alcoro, as tradies pro-
fticas (hadth) e o consenso dos juristas (idjm`), para insistirem na obrigao
da jihad e nas numerosas recompensas que, no alm, esperavam os mudjhidn2.

1     Existem muitas obras de carter geral sobre as revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste,
      notadamente: J. R. Willis, 1967, p. 359-416; M. Last, 1974, p. 1-24; H. F. C. Smith, 1961, p. 169-185; B.
      G. Martin, 1976, p. 13-35 e 68-98; M. Hiskett, 1976, p. 125-169. Sobre a jihad de xeque `Uthmn dan
      Fodio, conferir: M. Last, 1967a; H. A. S. Johnston, 1967; F. H. al-Mastri, 1963 e 1978; M. Hiskett, 1973.
      No tocante ao movimento de Seeku Ahmadu, ver: W. A. Brown, 1969; A. Hampat B, e J. Daget,1962.
      Sobre a jihad de al-Hadjdj `Umar, conferir: J. R. Willis, 1940 e 1984; O. Jah, 1973; M. A. Tyam, 1961;
      B. O. Oloruntimehin,1972a.
2     Alcoro, s. II, v. 126: "-vos ordenado o combate, mesmo se vs o repugnais; e  possvel que vos desa-
      grade o que  bom para vs, tanto quanto  possvel que vs ameis o que  ruim para vs; Al sabe e
      vs NO sabeis." Alcoro, s. II, v. 193: "E combatei-os at terminar a perseguio e seja restabelecido o
      culto a Al. Caso eles parem, no mais haver hostilidades, seno contra os injustos." O hadth acrescenta:
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                                                     621



Na frica do Oeste, como nas outras partes do dr alislm, convm salientar, a
guerra santa coloria-se de tendncias sufi (msticas), enfatizando a mortificao
e a observncia de uma rigorosa moral. Os mudjhidn deviam levar uma vida
absolutamente exemplar e por em prtica aquilo que pregavam.
    Alm disso, a profecia de Muhammad: "Al enviar a esta umma (comuni-
dade muulmana), no incio de cada sculo, aquele que regenerar a sua religio",
no era muito conhecida, seno no Sudo Ocidental. Na realidade, o conjunto
da tradio escatolgica, transmitida pelas geraes precedentes, influenciaria
profundamente os programas e as aes dos chefes das jihad. A receptividade
encontrada por esta tradio junto ao povo e as paixes que ela foi capaz de
desencadear so fenmenos universalmente conhecidos: a figura messinica
encarnava, com efeito, as esperanas e aspiraes das massas, e vinha trazer-lhes
aquilo que elas acreditavam ser uma soluo segura para a crise. O libertador
esperado era considerado enviado de Al, para intervir energicamente, atravs
da lngua (a predicao e o ensino) e, caso necessrio, atravs da mo (a jihad),
com vistas a aplicar o preceito cornico al amr bilma `ruf walnahi `an almunkar
(ordenar o bem e obstruir o mal). Ele devia eliminar a descrena, a injustia e
a opresso; ele era convocado a construir um mundo melhor e a dotar a umma
de uma religio satisfatria.
    Em lugar algum do dr alislm, a noo de tadjdd obteve um efeito mais
profundo comparativamente ao ocorrido na frica do Oeste durante o sculo
XIX.  poca, os muulmanos desta regio esperavam impacientemente o
advento do mudjaddid (reformador/renovador)3. Segundo uma profecia atribu-
da a Muhammad, ele prprio devia ter doze califas (mudjaddidn) como suces-
sores; em seguida, viria uma era de anarquia, anunciadora do fim do mundo. As
tradies locais defendiam orgulhosamente que o Profeta reservara ao Takrr
(frica do Oeste) a honra de engendrar os dois ltimos mudjaddidn. A opi-
nio comumente admitida, no Sudo ocidental, consistia em dizer que os dez
primeiros reformadores j haviam aparecido nos pases muulmanos do Oriente
(cinco em Medina, dois no Egito, um na Sria e dois no Iraque), e que Askia al-
Muhammad, o grande monarca songhai (1493-1528), fora o dcimo primeiro.
O dcimo segundo e ltimo mudjaddid era anunciado e faria a sua apario no



     "Caso algum dentre vs perceber qualquer sorte de ao condenvel, ele a modificar com a sua mo;
     caso no lhe for possvel, ele o far com a sua lngua; caso no lhe for possvel, ele o far em seu corao;
      o mnimo que a religio lhe determina."
3    J. R. Willis, 1967; A. Batran, 1983; M. A. al-Hajj, 1967, pp. 100-115.
622                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



Sudo Ocidental, durante o sculo XVIII, ou seja, entre 1785 e 18814. No sculo
XIX, os chefes oeste-africanos da jihad souberam explorar este clima messinico.
Como notaram alguns autores, xeque `Uthmn dan Fodio e Seku Ahmadu,
ambos afirmavam serem o mudjaddid anunciado para o sculo XVIII, sculo
este decisivo para a hidjra5. A respeito de alHadjdj `Umar, ele jamais se atribuiu
o ttulo de mudjaddid ou mahd, adotando entretanto uma verso sufi tijni,
atribuindo-se a denominao Khalfat khtim alawliy' (sucessor do Braso dos
Santos, em outras palavras Ahmad al-Tidjni, fundador da tarka tijniyya)6.
    Prova suplementar da legitimidade e da validade das jihad, cada um dos trs
homens declarava ter sido investido da misso divina pelo Profeta e pelo funda-
dor da tarka (ordem ou confraria sufi),  qual eles pertenciam. Estas afirmaes
eram convincentes acerca da sinceridade do dirigente e estavam na vanguarda
dos ataques contra as jihad, provindos dos cticos e detratores - aqueles chama-
dos `ulam `alsu` (cartas devotadas e oportunistas). O xeque Uthmn garantia
queles vindos escut-lo que a ordem de travar a jihad lhe fora pessoalmente
dada pelo fundador da tarka kadiriyy, `Abd al-Kdir al-Djiln (morto em
1166), em presena do Profeta, dos seus Companheiros e de todos os grandes
santos. Ele tivera esta viso mstica em 1794, dez anos antes de promover a sua
guerra santa:
      Quando eu atingi a idade de 40 anos, 5 meses e alguns dias, Deus levou-me para
      Si, e eu vi o Senhor dos djinns e dos homens, o nosso Senhor Muhammad [...].
      Consigo encontravam-se os Companheiros, os profetas e os santos. Ento, eles me
      acolheram e me fizeram sentar entre eles. Em seguida [...], o nosso Senhor `Abd
      al-Kdir al-Djiln trouxe um manto verde [...] e um turbante! [...]. O Mensageiro
      de Deus manteve-os, por um momento, colados ao seu peito [...]. `Abd al-Kdir
      al-Djiln fez-me sentar, em seguida, vestiu-me e me colocou o turbante. Posterior-
      mente, chamou-me "imame dos santos" e me comandou fazer o que  aprovado e me
      interditou fazer aquilo considerado desaprovado; concedeu-me a Espada da Verdade
      [Sayf al-Hakk], para que eu a empregasse contra os inimigos de Deus7.




4     Ibid.
5     J. R. Willis, 1967; A. Batran, 1983, pp. 32-39; U. al-Naqar, 1972, pp. 77-78; B. A. Brown, 1969, p. 21.
6     O. Jah, 1973, p. 4 e p. 123 e seguintes. Selon J. R. Willis, 1984, e B. Martin (1963, pp. 47-57), os parti-
      drios de al- Hadjdj `Umar reivindicavam o ttulo de mahd e o de wazr almahd.
7     M. Hiskett, 1973, p. 66.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                                             623



   Al-Hadjdj `Umar teria recebido do seu guia espiritual, Muhammad al-Ghal,
da Meca, a ordem de levar a reforma ao Sudo Ocidental8. Quando, posterior-
mente, um violento enfrentamento com os seus adversrios tornou-se inevitvel,
al-Hadjdj `Umar, comeou a ser tomado por vises msticas, ordenando-lhe
lanar a jihad:
     Anteriormente, eu no fora autorizado por Muhammad e pelo xeque al-Tidjni
     seno a reunir os descrentes do isl e a gui-los na via correta [...]; em seguida, eu
     fui encarregado de lanar a jihad [...]. A autorizao foi-me transmitida por uma
     voz divina que me disse: "Tu agora tendes a permisso para conduzir uma jihad."
     Isso se reproduziu na noite do vigsimo primeiro dia da Dhul-Qa'da, no ano 1268
     [6 de setembro de 1852]9.
    Profundamente ancorados na ortodoxia e nas ideias sufi, as jihad conduzidos
na frica do Oeste, no curso do sculo XIX, no eram fenmenos isolados, mas
as ltimas manifestaes de uma tradio reformista de longa data estabelecida
no Bild alSdn, cujo objetivo consistia em instaurar, atravs da revoluo, a
equidade e a justia prometidas pelo isl, todavia recusadas por regimes opres-
sores, comprometidos e inquos.
    Certos autores tentaram ligar a uma origem comum as revolues islmicas
ocorridas na frica do Oeste: a jihad de Nasr al-Dn (morto em 1677)10, movi-
mento almorvida do sculo XI11 e, inclusive, a revoluo kharidjite do sculo
VIII, na frica do Norte12. Este procedimento cronolgico foi, a justo ttulo,
criticado em razo de "sugerir [...] laos fortuitos ligeiramente esquemticos"
com estas primeiras exploses de violncia militante, muito mais que uma filia-
o direta13. Embora seja inegvel que os chefes das jihad travados na frica
do Oeste tivessem conhecimento dessas vitoriosas campanhas e, inclusive, de
outras tentativas menos exitosas14,  todavia antes plausvel apostar que eles se
tenham diretamente inspirado em exemplos mais prximos de si, no tempo e
no espao, assim como, particularmente, em sucessos obtidos pelos seus pr-
prios ancestrais, os torodbe, no Bundu, no Fouta-Djalon e no Fouta Toro; em

8    J. R. Willis, 1984, cap. 6, pp. 1-2; O. Jah, 1973, p. 131-132.
9    Ibid.
10   P. D. Curtin, 1971, pp. 14-24.
11   M. A. al-Hajj, 1964, p. 58.
12   O. Jah, 1973, pp. 62-64.
13   C. C. Stewart, 1976a, p. 91.
14   Shaukh `Uthmn teria se referido  jihad malsucedida e, inclusive desastroso, lanado por Ahmad ibn
     Abu Mahalli, originrio do Tafillet, no incio do sculo XVII: conferir F. H. al-Masri, 1978, p. 32.
624                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



tentativas pacficas de reforma do xeque al-Mukhtr al-Kunt e de Muhammad
ibn `Abd al-Karm al-Maghl; na reao do sufi aquando da insero do funda-
mentalismo wahhabite na Arbia; e, no caso do xeque Ahmadu e de al-Hdjdj
`Umar, na recente jihad do xeque `Uthmn, em territrio hauassa.
    Os instigadores das jihad situavam as suas origens na regio mais sagrada do
Bild alSudn, o famoso Takrr (Fouta Toro), legendrio bero do primeiro
Estado islmico da frica do Oeste15; mas, sobretudo, eles pertenciam todos a
esta "sociedade" de `ulam` (letrados), conhecida sob a denominao torodbe. J.
R. Willis ensina-nos que os torodbe eram um grupo heterogneo de muulmanos
oriundos de diversas famlias tnicas do Sudo Ocidental e Central16. A "socie-
dade" dos torodbe  acrescenta ele  era composta de grupos de origem fulbe,
wolof, mande, hauassa, berbere, descendentes de escravos e indivduos de castas.
Entretanto, os torodbe eram semelhantes aos fulbe: eles falavam a sua lngua (o
fulfulde), aliavam-se a eles atravs do casamento e seguiam-nos em suas perptuas
migraes. Em todo o Sudo Ocidental, a palavra "torodbe" tornou-se sinnimo
de "fulbe" e, de fato, os torodbe formavam a elite intelectual do povo fulbe.
    O isl impregnava todos os aspectos da vida dos torodbe; eles nele encon-
travam, a um s tempo, o alimento espiritual e o seu meio de subsistncia. Eles
compartilhavam as suas preocupaes religiosas com os cls escolsticos zwiya,
vizinhos do Saara Ocidental17. Todavia, diferentemente dos cls zwiya, os
quais constituam, cada um deles, uma distinta unidade tnica na qual todos os
membros estavam unidos pelos seus laos sanguneos, os torodbe, por sua vez,
      ...se haviam libertado da noo equivalente a diferenas tnicas [...], para fundarem
      uma sociedade aberta a qualquer pessoa que desejasse assumir os seus costumes e
      crenas"18. Esta sociedade heterognea de clrigos e discpulos podia, entretanto,
      orgulhar-se por ter originado dinastias de eruditos (bayt al `ilm), como os toronkawa
      de xeque `Uthmn, os bari de xeque Ahmadu e a prpria famlia de al-Hadjdj
      `Umar, os tall. Em suplemento, os torodbe podiam orgulhosamente evocar todo um
      prestigioso passado - as jihad torodbe de Mlik S, nos ltimos decnios do sculo
      XVII, de Karamoko Ibrhm Ms e de Ibrhm Sori, em meados do sculo XVIII
      e de Sulaymn Baal, durante os anos 1770, assim como os imamados torodbe do


15    J. R. Willis, 1978, pp. 195-196; 1984, cap. 2, pp. 1-4; B. Martin, 1976, pp. 15-16; J. S. Trimingham, 1962,
      pp. 161-162.
16    J. R. Willis, 1984, cap. 1, pp. 33-34; 1978, p. 196 e seguintes.
17    Sobre os zwiya, conferir por exemplo: J. R. Wilis, 1979b, pp. 3-12; C. C. Stewart, 1976a, pp. 73-93; H.
      T. Norris, 1968; A. A. Batran, 1972.
18    J. R. Willis, 1984, cap. 3, p. 8.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                             625



     Bundu, do Fouta-Djalon e do Fouta Toro, fundados no imediato posterior a estas
     guerras. Foi justamente a esta herana histrica que al-Hadjdj `Umar fez aluso para
     despertar o esprito dos combatentes da f que encontrava-se adormecido no corao
     dos ban toro (filhos do Fouta Toro). Relembrando-lhes que a guerra santa era uma
     tradio cara ao seu povo, al-Hadjdj `Umar declarou: "os ban toro so semelhantes
     aos nossos primeiros ancestrais; trabalhadores e fortes, a fina flor da humanidade e
     justos. Ban toro [...] retornai s vossas origens: a jihad contra os inimigos de Al
     [...]. O Monte Sinai  o vosso bero em virtude da jihad [...]. Ban toro [...], sede
     dignos de vossos ancestrais19.
    A tradio revolucionria dos torodbe foi igualmente evidenciada em um
poema atribudo a Muhammad Bello, filho sucessor do xeque `Uthmn dan
Fodio. Caso suponhamos a sua autenticidade, este poema teria sido escrito por
Bello antes da sua morte, em 1837. Aps um longo elogio de al-Hadjdj `Umar,
genro de Bello, ele apresenta "gloriosos feitos" dos ban toro (os torodbe).
Segundo dizeres, al-Hadjdj `Umar anexava o poema s mensagens propagan-
dsticas, por ele endereadas aos dignitrios dos Fouta Toro, com a evidente
inteno de convencer os leitores que a famlia Fodio apoiava a sua jihad (toro-
dbe): "Estes [ban toro/torodbe] so o meu povo; a origem do meu cl; [...] em
defesa do isl, ns estamos ligados; [...] junto a eles, houve aqueles, excelidos
em cincias religiosas [...] e aqueles em guarda contra a perfdia do inimigo, os
quais proclamaram a jihad20."
    Outra fonte distinta de inspirao, os chefes da frica do Oeste que convo-
cavam para a jihad podiam encontrar um modelo no reformismo "quietista" de
xeque al-Mukhtr al Kunt (1729-1811). Aproximadamente de 1750 at a sua
morte, em 1811, al Kunt elevou fortemente o prestgio da tarka kadiryya na
frica do Oeste; dela foi o pai fundador e o chefe espiritual21. Foi atravs da
"pena" e no da "espada" que al Kunt exerceu a sua inigualvel influncia no
Sudo Ocidental. xeque `Uthmn e xeque Ahmadu consideravam-no, ambos,
como o seu chefe espiritual na via kdir. Os chefes que convocavam para a
jihad faziam muito amide referncia  sua interpretao da lei sobre questes
religiosas e invocavam o seu nome para avalizar e legitimar a ao revolucionria.
Segundo os dizeres de Muhammad Bello, quando al Kunt soube da jihad de
xeque `Uthmn, ele abenoou a empreitada e previu o seu sucesso. " `Uthmn


19   J. R. Willis, 1970, pp. 98-100.
20   Ibid., pp. 97-98.
21   A. A. Batran, 1973; 1974; 1979.
626                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



ibn Fd, teria ele declarado,  um dos santos consumados; a sua jihad  justa22."
Com estas palavras, al Kunt colocava todo o peso do seu imenso prestgio na
balana, em favor do chefe torodbe. Embora adepto de outra confraria sufi,
al-Hdjdj `Umar mantinha al-Kunt em alta estima e, tambm ele, guiava-se
pelas suas opinies23.
    Os reformadores foram igualmente influenciados pelas ideias radicais do
letrado peregrino magrebino Muhammad ibn `Abd al-Karm al-Maghl (morto
entre 1503-1506)24. Eles se apoiavam amplamente nos seus pontos de vista
para distinguir o dr alislm do dr alharb (pas da guerra/dos infiis), para
definir o Estado de kufr (descrena) e para reconhecer os `ulam' als'. Segundo
al-Maghili: "Os habitantes de um pas refletem os verdadeiros sentimentos reli-
giosos do seu mestre. Se este ltimo  muulmano, o seu pas  Bild alislm;
caso ele for kfir (infiel), seu pas ser Bild alkufr; tratando-se de uma obri-
gao expuls-lo em benefcio de um outro25."
    O julgamento defendido por al-Maghl sobre soberanos sincretistas e`ulam'
als` era claro: tratava-se de descrentes e os muulmanos tinham o dever de
conduzir a jihad contra eles. Estes chefes e letrados, afirmava ele, "envolveram
a verdade com um vu de mentira, levando certo nmero de muulmanos igno-
rantes a se desgarrarem"26.
    Os muulmanos da frica do Oeste em nada estavam fechados s influncias
externas. Os acontecimentos religiosos e polticos, advindos nos pases islmicos
do Oriente e, particularmente, aqueles que diretamente concerniam o bero
do isl - a Arbia -, tinham repercusses em todo o dr alislm. Um destes
acontecimentos foi a reao do sufismo do Oriente perante a tomada de Meca
(1803) e, em seguida, a conquista de Medina (1805), pelos fundamentalistas
wahhabites.
    Conquanto uma grande parcela do mundo muulmano tenha rejeitado
alguns dos seus aspectos doutrinrios, a revoluo wahhabite nele naturalmente
interveio como um catalisador da ao militante. Ademais, condenando as suas
crenas e prticas, os wahhabites haviam provocado uma vigorosa renovao
do sufismo, cujos expoentes foram a tarka khalwatiyya e o ilustre mestre sufi


22    A. A. Batran, 1973, pp. 349-350.
23    J. R. Willis, 1979c, p. 181.
24    M. Hiskett, 1962, pp. 578 e seguintes; M. A. al-Hajj, 1964, pp. 53 e seguintes; J. R. Willis, 1970, pp.
      38-42 e 148-151.
25    M. A. al-Hajj, 1964, p. 50; J. R. Willis, 1970, p. 38.
26    M. A. al-Hajj, 1964, p. 56.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                                             627



Ahmad ibn Idrs al-Fsi (morto em 1837)27. Esta renovao traduziu-se nota-
damente pelo nascimento da confraria tijniyya,  qual al-Hadjdj `Umar aderiu
e, da qual, os ensinamentos programticos ele propagou na frica do Oeste,
na qualidade de califa de Ahmad al-Tidjni. Al-Hadjdj `Umar teria sofrido a
influncia dos xeques khalwat, durante a sua passagem pelo Cairo, onde teria
estado em contato direto com eles28. Segundo alguns autores, a jihad de xeque
`Uthmn igualmente ligava-se ao reformismo sufi khalwat, por intermdio do
seu mentor, Djibrl `ibn `Umar29.
    Assim sendo, embora tenha sido possvel para aquelas jihad, travadas na
frica do Oeste, substiturem, no quadro mais geral, movimentos de reformas
islmicos militantes e "quietistas", havia igualmente incontestveis laos de
parentesco entre as trs correntes. De fato, a jihad de xeque `Uthmn, lanado
em 1804, despertaria o fervor religioso revolucionrio, latente sob as cinzas
no Sudo ocidental. Os escritos relativos  jihad de Sokoto, "convocando os
muulmanos a derrubarem os regimes comprometidos e pagos ou, ao menos,
a livrarem-se da sua autoridade poltica, assim como as epopeias em fulfulde,
celebrando os feitos dos fd e dos mudjhidn em territrio hauassa", eram
muito conhecidas no Bild alSdn30. Os mudjhidn fulbe da curva do Nger
teriam participado da jihad de xeque `Uthmn e, quando retornaram, teriam
levado a chama revolucionria aos seus respectivos pases de origem. Alguns
autores afirmam, sem muito fundamento, que xeque Ahmadu teria no to
somente sido aluno de xeque `Uthmn, mas que ele igualmente teria partici-
pado ativamente do jihad lanado por este ltimo31, recebendo, em suplemento,
o apoio e a beno dos chefes jihad de Sokoto. Ademais, xeque `Uthmn lhe
teria pessoalmente entregue uma bandeira, a ser conduzida  frente das suas
tropas mudjhidn32. Enfim, xeque Ahmadu correspondia-se com `Abdullaahi
dan Fodio, irmo e sucessor de xeque `Uthmn, requerendo-lhe a sua opinio
de jurista sobre o estatuto dos letrados muulmanos do Macina, os quais se


27   J. O. Voll, 1969, pp. 90-103; B. G. Martin, 1972, pp. 302-303. As reaes ao antisufismo wahhabite
     foram muito intensas no Sudo Ocidental. Shaukh al-Mukhtar al-Kunt publicou um fatw, indicando
     que os muulmanos no tinham a obrigao do hadjdj na situao que prevalecia na Arbia. Conferir
     U. al-Naqar, 1972, pp. 47-48; A. A. Batran, 1972, pp. 186-189.
28   M. Hiskett, 1976, pp. 161-162.
29   B. G. Martin, 1976, pp. 24-25. Djibrl ibn `Umar tentou sem sucesso incitar  jihad na regio do Ar.
     Conferir F. H al-Masri, 1963, pp. 438-439.
30   W. A. Brown, 1969, pp. 66-67; U. al-Naqar, 1972, p. 51.
31   J. S. Trimingham, 1962, p. 177.  verossmil que xeque Ahmadu no tenha jamais deixado o Macina.
32   U. al-Naqar, 1972, p. 51; W. A. Brown, 1969, pp. 17 e 22.
628                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



opunham  sua jihad. Alm das jihad de xeque Ahmadu, as regies setentrionais
foram o teatro de, ao menos, trs movimentos inspirados por Sokoto, entre 1816
e 1823. O primeiro, dirigido por um erudito hauassa, Malam Sa`d, visava os
tuaregues do Guimbala. Em consequncia da derrota das foras de Sa`d, os
chefes jihad hauassa desapareceram da regio, retornando sem dvida ao pas
hauassa. As duas chefes jihad, Fakh al-Husayn Koita e Alfaa Ahmad Alfaka,
eram fulbe de origem local. O movimento de Koita eclodiu no Fittuga e aquele
de Alfaka no Farimaka. Temendo que estes dois movimentos ameaassem dire-
tamente a sua jovem dina (califado), xeque Ahmadu reagiu prontamente, venceu
Koita e assegurou-se dos servios de Alfaka, como agente de Hamdallahi33.
Quanto ao terceiro chefe jihad, al-Hdjdj `Umar, este permaneceu por muito
tempo no califado de Sokoto, ali vivendo durante mais de seis anos. Ele esteve,
em duas ocasies, na rota da sua peregrinao e, posteriormente, no caminho de
retorno. Durante estas estadas, ele prosseguiu as suas atividades como pregador
e mediador, conquistando novos adeptos na confraria tijniyya.


      O substrato dos movimentos reformistas:
      motivaes e circunstncias
    Instaurar uma autntica sociedade islmica e recuar as fronteiras do dr
alislm, tais eram portanto os objetivos dos chefes que travaram a jihad na
frica do Oeste. O isl oferecia, acreditavam eles, um quadro ideal para a orga-
nizao da comunidade, assim como um meio de garantir a salvao da sua alma
no outro mundo. Todavia, para traduzirem concretamente estas convices,
faltava-lhes demonstrar capacidade em agruparem tropas totalmente devotas
 sua causa, alm de suficientemente fortes a ponto de operarem as mudanas
desejadas.
    Herdeiros de uma rica tradio escolstica, os futuros reformadores haviam
seguido os ensinamentos de ilustres mestres, nas "academias" da sua cidade
de origem ou at mesmo em distantes localidades. Eles ali haviam recebido
uma intensiva formao, englobando as cincias exotricas tanto quanto as
esotricas, tornando-se letrados perfeitos e xeques sufi dedicados ao ensino e 
pregao, bem como  expanso das suas respectivas confrarias. Os alunos que
chegavam s zwiya itinerantes de xeque `Uthmn e de xeque Ahmadu eram


33    W. A. Brown, 1969, pp. 66-67.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                                         629



iniciados na Kadiryya, ao passo que os de al-Hdjdj `Umar recebiam o wird
tijni. Seriam estes grupos de devotos iniciados os constituintes do ndulo cen-
tral dos mudjhidn. Perfeitamente instrudos acerca dos segredos da via mstica
(asrar altark), eles se conformavam fielmente aos ideais dos seus mestres. A sua
absoluta e cega obedincia aos seus guias espirituais, fruto da sua formao sufi,
transformava-os em uma fora potencialmente explosiva: eles estavam sempre
prontos para responderem a um chamado do seu xeque, bem como a lutarem
e morrerem por ele. Aos seus olhos, com efeito, os xeques eram, espiritual e
intelectualmente, superiores a todos os outros `ulam'. Eles eram os santos
favoritos de Al, detentores da baraka (beno divina e poder milagroso), alm
de representarem os nicos laos entre os discpulos e os fundadores das tarka.
De fato, eles eram os salvadores e libertadores esperados neste XII sculo da
hgira.
    No Sudo Ocidental do sculo XIX, o isl encontrava-se, seguramente, bem
distante de corresponder aos ideais dos reformadores e dos devotos discpulos,
favorveis  sua causa. Os reformadores deploravam o apoio manifestado por
numerosos soberanos e pelos seus seguidores a certas prticas contrrias ao isl.
Eles condenavam as injustias e a opresso atribudas s dinastias reinantes e
acusavam-nas de mesclar o isl aos tradicionais costumes religiosos (takhlit),
chegando a consider-las totalmente descrentes. Eles atacavam os `ulam' que
aprovassem ou mesmo tolerassem o estado de degenerescncia no qual perma-
necera o isl. Um dos fatos mais irritantes a este respeito, aos olhos de al -Hdjdj
`Umar, era a agressiva expanso militar e econmica do franceses (infiis), no
Fouta Toro e nos territrios vizinhos.
    A maioria destas reprovaes, seno todas, eram com toda evidncia fun-
dadas. Foi sobretudo por intermdio dos comerciantes e eruditos muulmanos
locais que as influncias islmicas e o conhecimento da lngua rabe se expan-
diram no Bild alSdn34. Entretanto, os seus sucessos no devem dissimular o
fato de os novos convertidos no terem contudo negado a sua herana religiosa:
com efeito, este proselitismo no violento derivou, como era devido, para uma
aproximao com o isl e com as crenas africanas tradicionais. Este islamismo
hbrido, sincrtico, era praticado pelos membros das classes dirigentes e pelos
seus assujeitados convertidos. No satisfeitos em manifestarem veementemente
a sua adeso ao isl, os soberanos do pas hauassa, do Macina e da Senegmbia,
mantinham relaes muito estreitas com as comunidades de mercadores e letra-


34   Conferir, por exemplo, N. Levtzion, 1973, pp. 183-199; J. S. Trimingham, 1969, pp. 13-28.
630                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



dos muulmanos. Os eruditos muulmanos, conhecedores do rabe e reputados
por possurem grandes poderes "mgicos", neste contexto vieram desempenhar
um papel particularmente til nas cortes reais, como conselheiros polticos ou
funcionrios. Os mercadores muulmanos, os quais sempre e muito diretamente
haviam tomado parte do comrcio internacional do ouro, do sal, dos escravos
e de outras mercadorias, constituam uma importante fonte de riquezas. Igual-
mente, os grupos muulmanos acolhiam favoravelmente a clientela e a proteo
das dinastias no poder. Naturalmente, eles toleravam a excessiva condescendn-
cia que os soberanos permitiam-se perante o isl, estando inclusive preparados
para justific-la.
    Aos olhos dos reformadores, o autntico isl no deixava margem a nenhum
compromisso. Igualmente, era necessrio impor um termo ao conjunto das
bid`a (as inovaes, ou seja, as prticas religiosas tradicionais enxertadas no
isl). Eles tentaram, primeiramente, alcanar o seu intento atravs da pregao
- exortando os muulmanos a voltarem a um isl intacto e puro. Esta pregao
acabou por solapar o poder "constitucional" estabelecido, quando a virulncia
dos reformadores estabeleceu os soberanos e letrados das cortes como alvo. Eles
repreendiam os `ulam ' pela sua moral relaxada e pelo seu cnico oportunismo,
acusando-os de conhecerem-no parcialmente e desnaturarem o isl. Eles conde-
navam a opresso cuja responsabilidade recaa sobre os chefes, repudiavam a sua
corrupo, os seus abusos de poder, os impostos no conformes  lei islmica,
atravs dos quais eles massacravam os seus assujeitados, alm de especialmente
reprovarem-lhes por "elevar a bandeira do reino temporal alm da bandeira do
isl"35. Al-Hadjdj `Umar lanou esta advertncia: "Que cada homem sensato, em
todas as pocas da histria da humanidade, saiba que aqueles que se imiscurem
nos assuntos temporais (mukkibn `ala aldunya), como os cachorros infiis, os
reis traidores e os `ulam' corrompidos, conhecero a humilhao e a desventura
neste mundo e no alm36." Tais propsitos constituem, com total evidncia, um
chamado  revoluo. Perante o estrondo da tempestade, a reao das autorida-
des no tardou. Elas tentaram esmagar na casca do ovo o eminente levante.
    Como era possvel prever, os reformadores consideravam estas tentativas
como manifestaes de impiedade e os seus autores como infiis. E, como
fora prescrito: "Se o soberano  infiel, o seu pas  Bild alkufr"; o Sudo
Ocidental era desde ento dr alharb; e a sua conquista e anexao pelo dr
alislm tornava-se um dever para os muulmanos. No perodo de alguns anos,

35    M. A. al-Hajj, 1964, p. 50.
36    O. Jah, 1973, p. 184.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                      631



os mudjhidn e os seus aliados suprimiram a autoridade dos sarki dos Estados
hauassa, aquela dos ardo do Macina e dos faama de Sgou (Segu) e do Kaarta,
assim como aquela dos almaami do Bundu, do Fouta-Djalon e do Fouta Toro.
O pas hauassa tornou-se um califado dirigido por `Uthmn dan Fodio, amr
almu`minn (comandante dos crentes); o Macina tornou-se uma dina (califado),
 frente da qual estava xeque Ahmad Lobbo, carregando desde logo o ttulo
de amr almu`minn; em seguida, a Senegmbia foi anexada ao Macina para
formar um califado tijni, sob a batuta de al-Hdjdj `Umar, Khalfat khtim
alawliy'.
    Os mudjhidn, os quais haviam humilhado os potentes regimes do Bild
alSdn, provinham de horizontes sociais e tnicos muito diversos. Eles haviam
sido recrutados junto aos fulbe, hauassa, mande, wolof e tuaregues, junto aos
pastores nmades, nas comunidades sedentrias ou semissedentrias, nas fileiras
dos `ulam' e dos murd (discpulos sufi) letrados, bem como nas classes iletradas,
em meio aos indivduos de casta, aos escravos e libertos. Cada grupo possua as
suas prprias queixas e compartilhava a esperana, segundo a qual, este questio-
namento da ordem estabelecida conceder-lhe-ia importantes vantagens.
    A direo destes mudjhidn era formada pelos discpulos (murd/tlib) que
haviam seguido os xeques em suas pregaes (siyaha) e, em seguida, em seu
exlio forado (hidjra) fora do pas do kufr. Com os letrados independentes
ou capazes de arcar com suas prprias necessidades, incorporados ao campo
dos xeques, eles formavam a Djam'a (a Comunidade dos crentes). Guiados
pelo seu zelo religioso e pelas vises de xeques, os membros destas Djam`a
tornaram-se os mais devotados combatentes na via de Al (mudjhidn f sabil
Allh). Certamente, o fervor religioso suscitado pelos reformadores igualmente
conquistou alguns elementos muulmanos que no pertenciam  Djam `a,
propriamente dita, os quais, subjugados pelo carisma dos xeques, uniram a sua
sorte  dos reformadores. Porm, estes "iniciados", pontas de lana da reforma,
no eram em nada superiores, no plano numrico ou militar, aos exrcitos que
combatiam os soberanos da frica do Oeste. Igualmente, a vitria no se tornou
possvel, seno aps a chegada dos elementos "externos", os quais reforaram as
fileiras da Djam'a, formando, sem dvida alguma, o maior componente dentre
as foras engajadas. Estes elementos "externos" eram certamente sincretistas
(mukhallitn), no entanto, a sua participao na jihad apagava, definitiva-
mente, as diferenas sociais e religiosas que os haviam separado da Djam'a. Os
"imperfeitos" desde logo se incorporariam ao bero dos mudjhidn, cuja ltima
recompensa era o paraso.
632                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A grande maioria dos "iniciados", qui igualmente dos elementos externos,
era de origem fulbe. Os prprios reformadores mantinham estreitos laos com
os fulbe e os dirigentes dos califados eram, do mesmo modo e muito amide,
fulbe. Esta influncia preponderante dos fulbe nos movimentos religiosos levou
alguns autores a conclurem que as jihad haviam sido guerras tnicas, travadas
com objetivo de assentar o domnio dos fulbe em seu pases de adoo. Indubita-
velmente, certo nmero dentre eles aderira s jihad em virtude de consideraes
de ordem etno-solidria; contudo,  evidente ter havido, entre eles, muitos que
combateram junto s foras inimigas. Alm disso, a jihad de xeque Ahmadu
Lobbo e a de al-Hdjdj `Umar foram, em grande parte, dirigidas contra os
chefes polticos fulbe, do Macina e da Senegmbia.
    A dispora fulbe se disseminara a partir do Fouta Toro, cerca de quatro e
cinco sculos antes das jihad. Por toda a parte, estas populaes, compostas
majoritariamente por pastores, viviam fora dos centros urbanos e das comuni-
dades camponesas. As suas migraes sazonais em busca de gua e pastagens
conduziam-nos, todavia, s regies rurais do Sul e aos territrios tuaregues do
Norte37. Durante a estao seca, os fulbe eram obrigados a levar os seus rebanhos
a terras cultivadas. A presso sazonal que eles assim exerciam sobre os cam-
poneses, particularmente em pocas nas quais as colheitas ainda no estavam
concludas, suscitava tenses com as comunidades camponesas. Em suplemento,
quando penetravam nas zonas controladas pelas autoridades urbanas, os fulbe
eram submetidos a impostos e restries que limitavam os movimentos dos
seus rebanhos e a utilizao das nascentes38. Eles igualmente eram submetidos a
multas em razo dos danos causados pelos seus rebanhos s plantaes. Durante
a estao mida, os fulbe conduziam os seus rebanhos para as regies mais secas
do Norte, onde se encontravam em concorrncia pela gua com os tuaregues.
Durante este perodo, os seus animais eram as principais vtimas das incurses
tuaregues39. Alm disso, estes ltimos multiplicavam as depredaes e presses
sobre os nmades fulbe, sempre que a seca ou a fome se abatiam sobre o Sahel.
Desde h muito tempo, os fulbe suportavam com dificuldades estas restries,
estes impostos, estas multas e a ameaa contnua sobre o seu rebanho. As jihad
ofereciam-lhes uma bem-vinda oportunidade de escaparem aos impostos e
multas, alm de possibilitarem-lhes proteger-se das aes tuaregues.



37    W. A. Brown, 1969, p. 60; M. Last, 1967, pp. LXII-LXIII; M. Hiskett, 1976, p. 138.
38    M. Last, 1967, pp. LXII-LXXIV; M. Hiskett, 1976, p. 138.
39    W. A. Brown, 1969, pp. 35-36; M. Last, 1967, p. LXIII.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                                              633



    Os fulbe do Macina e da Senegmbia, por sua vez, tinham outros motivos
de insatisfao. Em meados do sculo XVIII, os bambara de Sgou haviam
logrado estender a sua soberania sobre os fulbe do Macina. Todavia, os faama de
Sgou no administravam diretamente esta regio. Eles permitiam s dinastias
reinantes locais - os arma (descendentes de marroquinos que haviam conquis-
tado o Songhai) - controlarem, em seu lugar, as cidades de Djenn (Jenne),
Tombouctu e Sungojo, e aos chefes militares fulbe e dikko, concediam-lhes
governarem, por sua prpria conta, o restante da curva do Nger. Os faama
extorquiam dos fulbe um tributo anual correspondente, segundo estimativas,
a "100 meninos, 100 meninas, 100 cavalos, 100 jumentos, uma medida de
ouro" e um grande nmero de cabeas de gado40. Ademais, os rebanhos fulbe
representavam uma presa ideal para os soberanos bambara e dikko, realizado-
res de frequentes incurses nos acampamentos fulbe. Os arma somavam-se a
estas incurses. Segundo a tradio, foi no momento de uma destas expedies
(1810-1811) que os bambara teriam permanecido cerca de quatro meses no
Macina, roubando o rebanho dos fulbe e confiscando importantes quantidades
de arroz dos agricultores. O assujeitamento dos fulbe e a pilhagem dos seus
rebanhos, assim como a violncia desenfreada perpetrada contra eles, pelos
bambara e autoridades locais, constam entre as principais razes que levaram
esta etnia a se aliar ao xeque Ahmadu.
    Tudo leva a crer que a jihad de xeque Ahmadu no seja nada alm de uma
dentre as tentativas inspiradas pelos fulbe para quebrar a hegemonia bambara
nesta regio. Esta luta nacionalista teve como vencedores os dirigentes fulbe
Hammadi Bodjo e o seu filho Geljo. Em 1815-1816, apenas dois anos antes
que xeque Ahmadu lanasse a sua jihad, Geljo conquistou a regio de Kunari
dos bambara. Xeque Ahmadu apressou-se em fazer uma aliana com estas foras
patriticas. A coalizo conquistou uma impactante vitria contra os dikko e os
bambara, na batalha de Nukuma (Noukouma)41.
    O futuro dos fulbe da Senegmbia no era menos invivel. Eles igualmente
sofriam com as depredaes e a implacvel lei dos almaami torodbe que eles
haviam apoiado em sua chegada ao poder, um ou dois sculos antes. Aproxima-
damente em meados do sculo XIX, com efeito, os almaami se haviam tornado
oligarquias hereditrias tirnicas que oprimiam os seus sujeitos. Alm disso, eles
se associaram econmica e politicamente aos franceses, por eles autorizados a


40   W. A. Brown, 1969, p. 182, nota 25.
41   Ibid., passim. Foi em Nukuma que ocorreu a decisiva batalha, a qual permitiu a criao do califado de
     Hamdallahi.
634                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



construrem postos fortificados ao longo do vale do rio Senegal. A presena mili-
tar dos franceses e o seu crescente poderio militar na regio afrontavam profun-
damente as convices religiosas de alguns fulbe, para os quais estes estrangeiros
eram ahl aldhimma (populaes protegidas), tolerados atravs do pagamento da
djizya (imposto de captao ou tributo), prescrito pela lei islmica, e mediante
a condio de no exercerem influncia alguma no dr alislm42. A recusa dos
franceses em pagarem a djizya, como de resto qualquer outro tributo, era julgada
incompatvel com o estatuto tributrio a eles atribudo pelo direito muulmano.
Portanto, no causa espcie que os fulbe do Fouta Toro tenham respondido com
entusiasmo quando al-Hadjdj `Umar convocou-os a juntarem-se  sua jihad,
travado contra os dirigentes locais corrompidos e "infiis" franceses. Ao longo
de todas as diferentes fases da jihad, o Fouta Toro, pas de origem de `Umar,
no cessou o fornecimento da maior parte dos mudjhidn tijni.
    Igualmente, os reformadores encontrariam slido apoio junto  imensa
populao de escravos e indivduos de casta, estabelecidos no Bild alSdn.
A aristocracia sudanesa do sculo XIX, ou seja, as dinastias reinantes e comu-
nidades de letrados e mercadores, devia muito da sua riqueza e do seu prestgio
 explorao e ao trfico destes grupos servis. Os cls endgamos constituintes
das castas forneciam os artesos, situados  base da escala social, tais como os
ferreiros, pescadores, tecelos e curtumeiros. Os escravos eram empregados em
trabalhos agrcolas, nos rebanhos, nas tarefas domsticas e no combate (como
guerreiros e guarda-costas).
    A enorme reserva de escravos que existira no Sudo ocidental aparenta ter
consideravelmente crescido s vsperas das jihad, em consequncia da introdu-
o das armas de fogo e da espetacular expanso das exportaes de escravos,
vendidos aos mercadores europeus estabelecidos na costa43. A aristocracia local
escolhia as suas vtimas junto aos camponeses e pastores, capturando assim
tanto os muulmanos quanto os no muulmanos. O temor em serem privados
da sua liberdade e as violncias das quais se acompanhava a caa aos escravos
levaram grande nmero de vtimas potenciais a buscar refgio junto aos xeques.
Esperando obter a sua recompra ao arrolarem-se para as jihad e tornando-se
membros da nova sociedade, os escravos, muulmanos ou no, representavam


42    J. R. Willis, 1970, pp. 160 e seguintes; O. Jah, pp. 152-153, 179-181, 205 e seguintes.
43    J. R. Willis, 1978, pp. 208-210; W. A. Brown, 1969, pp. 114-115, 124-125; M. Hiskett, 1976, pp. 138-
      -139; P. E. Lovejoy, 1983, pp. 188-199. Segundo algumas estimativas, a populao de escravos do Fouta-
      Djalon representava, aproximadamente em meados do sculo XIX, cerca da metade da populao total
      da regio.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                        635



uma enorme proporo dos mudjhidn e da multido de discpulos e inicia-
dos que se agrupara em torno dos reformadores. Ambos com sucesso, xeque
Ahmadu e al-Hadjdj `Umar convocaram os escravos para combaterem junto de
si. Xeque Ahmadu teria declarado: "Todos vs, maccube (escravos), vindos hoje
a mim, vs sois livres. Todos os maccube encontraro o paraso ao meu lado44."
No  indiferente que xeque Ahmadu tenha, contra os bambara e os dikko,
tomado posio no Sebera, regio onde os escravos e os indivduos de casta
eram muito numerosos.
    Possuidores de uma imensa dvida junto a estas categorias servis, os refor-
madores recompensaram-nas generosamente. Os escravos foram libertos e rece-
beram a sua parte do butim que lhes cabia de direito. Alguns ocuparam postos
de prestgio no seio da administrao. Assim, os califados apresentam "este
estranho paradoxo equivalente a fazer ascender s mais altas funes do Estado,
os representantes das ordens mais humildes da humanidade"45.


     A comunidade dos crentes no dr alhidjra
    Os reformadores prosseguiram o seu ensinamento e a sua pregao durante
muitos decnios, antes que as autoridades comeassem a perceber o perigo.
Em contrapartida, logo que os ensinadores transformaram-se em agitadores
polticos, os dirigentes e os seus `ulam' foram levados a exil-los, a restringirem
as suas atividades e a perseguirem os seus partidrios46. Violentos e inevitveis
enfrentamentos produziram-se em consequncia da expulso dos xeques e dos
seus discpulos, cassados dos seus respectivos centros, Degel, em pas hauassa,
Kubi, no Macina, e Jegunko, no Fouta-Djalon, e aps o seu ulterior estabe-
lecimento no dr alhidjra. Foi neste territrio, em Gudu (1804), Nukuma
(1816-1817) e Dinguiraye (1849), que a Djam`a tomaria a sua forma definitiva.
Escapando, em razo do distanciamento, ao controle das autoridades, a Djam`a
preparou-se ento para a eminente exploso, reunindo e estocando armas e
erguendo defesas, enquanto `Uthmn dan Fodio e Ahmadu Lobbo adquiriam
o ttulo de amr almu`minn. Al-Hadjdj `Umar, se bem lembramos, j fora
nomeado Khalfat khtim alawliy.



44   W. A. Brown, 1969, pp. 188-189, nota 52.
45   J. R. Willis, 1984, cap. 3, pp. 23-24.
46   A. A. Batran, 1974, p.49.
636                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Um fluxo contnuo de refugiados, respondendo aos apelos dos xeques ou em
fugas das perseguies, chegava ao dr alhidjra. Mestres acompanhados dos
seus discpulos, escravos e homens livres, camponeses e nmades, amontoavam-
-se em torno dos chefes jihad, em uma atmosfera marcada por profundo fer-
vor religioso e grandes esperanas. Os discpulos eram iniciados em cincias
islmicas, especialmente, no sufismo, e recebidos na confraria - Kadiryya ou
Tijniyya, segundo o caso. Os acontecimentos que se haviam desdobrado na
hidjra (xodo) e o paralelo por ela sugerido relativamente  hidjra do Profeta,
em sua fuga de Meca para Medina (622), sem dvida constituam o tema, ao
mesmo ttulo que os preparativos para a guerra, de infindveis discusses.
    A hidjra certamente representou a fase mais crtica da ao dos reformadores.
Todavia, ela no foi absolutamente autoimposta e, contrariamente ao que leva a sus-
citar grande nmero de eruditos, tampouco foi conduzida, de modo deliberado, para
legitimar a jihad47. A jihad, em oposio ao geralmente proferido, no foi uma neces-
sidade fundamental para os movimentos reformistas oeste-africanos: com ou sem
ela, as revoltas teriam eclodido. Certamente, a organizao havia comeado vrios
anos antes da hidjra. Citando Taziyyn alWarakat de Abdullaahi dan Fodio, F. H.
al-Masri diz-nos que os preparativos do jihad de Sokoto, especialmente a coleta
de armas, remontariam a 179748. Nesta data, a jihad adquirira um mpeto quase
irreversvel; de todo modo, a ideia percorrera o seu caminho no esprito de xeque
`Uthmn: "a coleta das armas comeara desde 1797. Quando a comunidade exigira
uma jihad contra os descrentes, Dan Fodio aconselhara-lhe ento a se armar. Ele
prprio se voltara para as oraes e solicitara ao seu xeque `Abd al-Kdir al-Djailn
interceder, para que ele pudesse ver o pas hauassa sob a lei islmica49."
    Igualmente, as atividades de al-Hadjdj `Umar (recrutamento de partidrios,
agitao e coleta de armas), antes da sua hidjra em Dinguiraye (1849), haviam
suficientemente inquietado as autoridades do Macina, de Sgou e de toda a
Senegmbia, a ponto de lev-las a prend-lo, a planejarem o seu assassinato ou
interditar-lhe a travessia dos seus territrios. Segundo Willis, no  fortuito que
`Umar tenha escolhido Jegunko para ali estabelecer a sua primeira "academia",
"pois que a localizao da cidade  ideal para que [o xeque] possa dedicar-se



47    O. Jah, 1973, pp. 180-185, afirma que no se sabe realmente se al-Hadjdj `Umar teria voluntariamente
      deixado Jegunko ou se teria sido expulso pela fora. Ele sustenta entretanto que os almaami do Fouta-
      -Djalon teriam efetivamente decidido expulsar `Umar e que poderiam ter forado o xeque e a sua djama
      a partir, tornando-lhes a vida muito difcil.
48    F. H. al-Masri, 1978, p. 23.
49    Ibid.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                                                 637



ativamente ao comrcio de armas e equipamentos militares"50. Mesmo livre
da sua piedosa aparncia, segundo a jihad, a hidjra ou, antes, o exlio forado
dos reformadores, revelou-se extremamente preciosa. Ela permitiu a Djam`a
escapar ao perigo imediato, propiciando-lhe o tempo necessrio  preparao
para o inevitvel enfrentamento.
    Incontestavelmente, os reformadores dispunham de esmagadoras vantagens
frente aos seus adversrios. Profundamente convencidos do carter sagrado
da sua misso, eles souberam expressar o descontentamento e as decepes
das massas; e, sobretudo, podiam contar com a absoluta lealdade da Djam`a,
pois o ensino do sufismo enfatizava a total e cega obedincia  pessoa do xeque
altarka. Segundo os sufi: "O murd (discpulo/iniciado)  aquele que no pos-
sui outro desejo seno o voto do seu xeque. Ele deve se perder no seu xeque, a
ponto de nada restar-lhe de si mesmo. Ele [deve ser] como o cadver nas mos
do seu embalsamador ou a pena entre os dedos do copista51."
    Os reformadores ainda possuam outro trunfo, o seu carisma religioso pes-
soal. Na qualidade de guias espirituais das confrarias sufi, eles eram considerados
santos, detentores da baraka divina. Estes poderes, disso estavam convencidos os
seus partidrios, permitiam aos xeques remediarem catstrofes naturais tais como
a seca e a fome, tornar frtil a terra e fecundos os animais e as mulheres, combater
os inimigos, alm de outros feitos. Os relatos dos milagres realizados pelos xeques
circulavam e eram admitidos quase por toda a parte. Em uma sociedade na qual
se acreditava na existncia de foras sobrenaturais, os eficazes poderes "mgicos"
atribudos aos xeques, contribuam consideravelmente para a sua popularidade52.
Os mltiplos atentados, aos quais eles haviam escapado, eram a prova tangvel
da proteo divina usufruda por eles. Em suplemento, a sua superioridade inte-
lectual, o seu estilo de vida asctico e a distncia que os separava dos dirigentes
"corrompidos", fortificavam a confiana neles depositadas pelas massas.
    Os reformadores no mergulharam precipitadamente os seus seguidores em
um temerrio aventureirismo. Eles no comearam a responder s provoca-
es seno quando estavam perfeitamente preparados e no momento por eles
escolhido. xeque `Uthmn, por exemplo, colocava os seus discpulos em guarda
contra o aventureirismo, pois este ltimo "no leva seno ao revs e conduz
os muulmanos frgeis  sua derrota"53. Para conquistar to vastos territrios,

50   J. R. Willis, 1970, p. 90.
51   A. A. Batran, 1974, p. 49.
52   M. Last., 1967, pp. 3-13; W. A. Brown, 1969, pp. 48, 116, 123; O. Jah, 1973, pp. 237 e seguintes.
53   F. H. al-Masri, 1978, p. 22.
638                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



era portanto peremptrio que os xeques fossem minuciosamente preparados.
Eles seguramente conquistaram as suas vitrias "a despeito da fora dos seus
adversrios", em razo dos fatos em nada corroborarem a ideia, frequentemente
admitida e segundo a qual, o sucesso das jihad explicar-se-ia, sobretudo pelas
rivalidades entre as dinastias, assim como por um pretenso declnio geral do
poder nos Estados sudaneses54.
     interessante notar que, diferentemente das jihad de xeque `Uthmn e de
xeque Ahmadu, os quais no foram por eles estendidos alm das suas respectivas
regies de origem, o pas hauassa e o Macina, as campanhas de al-Hadjdj `Umar,
por sua vez, lanadas a partir da fronteira oriental do Fouta-Djalon, visavam
conquistar a totalidade do Sudo Ocidental. `Umar jamais logrou tornar-se mes-
tre do Fouta Toro, o seu pas natal, pois os franceses l estavam j solidamente
estabelecidos. Certamente, ele atacou as posies francesas em Medina (1857)
e em Matam (1858-1859); mas as suas tropas foram rechaadas e submetidas
a pesadas perdas. Em seguida, ele se voltaria para o Leste e dominaria Sgou
(1861) e, em seguida, o califado de Hamdallahi (1862).
    No  difcil imaginar at onde al-Hadjdj `Umar pretendia estender o seu cali-
fado, ao Leste. O seu objetivo era simplesmente assentar a autoridade do Khalfat
khtim alawliy' em todo o Bild alSdn55. As suas conquistas "no estrangeiro"
foram possveis em virtude de `Umar dispor de uma base militar mais ampla, com-
parativamente a xeque `Uthmn ou a xeque Ahmadu. As suas foras, recrutadas
em todas as regies, eram compostas de adeptos da Tijniyya, em sua maioria,
bem treinados e equipados, os quais tinham sido por ele prprio iniciados durante
as suas numerosas viagens em todo o Sudo Ocidental. Todavia, a sua trgica
morte no Macina (1864) imps um termo a esta progresso para o Leste.


      Comentrios sobre algumas consequncias dos jihad
    Foi a primeira e, talvez igualmente, a ltima vez que to vastos territrios
do Bild alSdn encontraram-se transformados em teocracias islmicas cen-
tralizadas. Entretanto, esta centralizao foi mais ou menos conduzida de um
califado a outro. Aparentemente, somente o califado de Hamdallahi (1818-
-1862) talvez tenha conhecido um poder muito centralizado, porque se tratava
de um territrio pouco extenso, habitado por uma pouco numerosa e homo-


54    M. Hiskett, 1976, p. 139.
55    O. Jah, 1973, passim.
As revolues islmicas do sculo XIX na frica do Oeste                                                 639



gnea populao, e contendo satisfatria comunicao. Por conseguinte, xeque
Ahmadu e os seus sucessores foram capazes de levar a aplicao da shar `a alm
do que era possvel em outros califados.
    As responsabilidades supremas, de amr almu `minn (ttulo que igualmente
portava Ahmadu, o filho e sucessor de al-Hadjdj `Umar) e de xeque altarka,
eram passadas aos descendentes dos reformadores residentes nas capitais. Os
califados eram divididos em imrt (emirados) cada qual governado por um
mudjhid de alto escalo. A maioria dos amr (governadores de provncia) era
composta de letrados; mas, igualmente, havia entre eles chefes de cl e escravos
libertos (al-Hadjdj `Umar teria demonstrado certa predileo pelos escravos).
Posteriormente, a nomeao para cargos de alto escalo esteve, em grande parte,
subordinada  existncia de laos sanguneos com a linhagem dos califas ou de
ilustres mudjhidn.
    Geralmente, o poder tradicional e o prestgio social foram transferidos para
uma nova elite formada por mudjhidn. Os fulbe, principal elemento das tro-
pas engajadas nas guerras santas, tornaram-se os aristocratas por excelncia do
Sudo Ocidental. Eles ocuparam a maioria dos postos administrativos; alm de
numerosos dentre eles terem sido estabelecidos em terras confiscadas ao longo
das jihad. Os fulbe e outros proprietrios fundirios necessitavam de escravos
para o cultivo das suas terras56 e estes ltimos, tudo leva a crer, ainda eram to
numerosos, nos califados e relativamente aos homens livres, quanto o eram 
poca das jihad. Os escravos que haviam participado das guerras santas foram
libertos; mas aqueles que no se haviam unido aos xeques foram novamente
assujeitados. Escravos capturados, em incurses alm das fronteiras e durante
rebelies, vieram engrossar as suas fileiras. O estatuto dos escravos capturados
fora definido pela fatw (deciso jurdica) de al-Maghl:
     Quanto quele que vs encontrais em suas mos (os descrentes), reduzido  escra-
     vatura e pretendente a ser um muulmano nascido livre, vs deveis aceitar a sua
     palavra at que se tenha provado tratar-se de um escravo [...]. Qualquer um que vs
     libertais por pretender ser um muulmano nascido livre, escravizai-o novamente caso
     torne-se evidente tratar-se de um descrente57.
   Todos os indivduos ou grupos habitantes dos califados viram serem garan-
tidas a sua proteo e segurana. Os deslocamentos dos grupos de pastores para


56   M. Last, 1974, p.28; P. E. Lovejoy, 1983, pp. 188-189. Segundo M. Last, os pastores fulbe estabeleceram-
     -se em maior nmero em Sokoto, comparativamente aos outros califados.
57   F. H. al-Masri (org.), 1979, p. 119.
640                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



o Sul foram regulamentados de modo a reduzir as tenses com as comunida-
des camponesas. As fronteiras e as pastagens do Norte foram constantemente
vigiadas para conter as incurses dos tuaregues. Imps-se um termo aos ataques
lanados contra as comunidades camponesas para a captura de escravos. Foram
criados tribunais para a aplicao da shar `a e os kd (juzes) foram nomeados
pelos califas e pelos amr. Numerosas prticas contrrias  lei islmica foram
banidas: o respeito  interdio do consumo de lcool foi garantido com rigor;
os odiosos impostos, captados pelos regimes desacreditados, foram substitudos
pelo zakt (dzimo), pelos khardj (impostos territoriais) e pela djizya, prescritos
pela lei cornica; o nmero de esposas autorizado foi limitado a quatro e assim
seguiam outras disposies58. Os impostos eram repartidos e recebidos pelos
amr, os quais, muito amide, cobravam-nos de modo arbitrrio.
    Foi na ao educativa e missionria que as revolues representaram o maior
sucesso, fundando escolas por toda parte nos califados e convencendo grande
nmero de missionrios a levarem o isl at as regies ainda no convertidas. Um
corpo de ensinadores sufi foi implantado. Alguns se estabeleceram nos centros
de cultura e ensino recentemente criados, como Sokoto, Gwandu, Hamdallahi e
Sgou ou em outras cidades e comunidades; enquanto outros perpetuavam a tradi-
o venerada da siyaha. Porm, a maioria destes ensinadores e, sobretudo, aqueles
dos distritos mais isolados, encontraram-se diante do eterno problema do takhlit.
Numerosas normas tradicionais foram finalmente toleradas. Com efeito, uma vez
derrubado o zelo inicial, alguns dos ideais originais foram progressivamente aban-
donados, o pragmatismo e o tempo atuaram favoravelmente. A prpria extenso
dos califados e a preponderncia dos "elementos externos imperfeitos" no seio
da Djam'a tornavam inevitveis estes compromissos. No se deve esquecer que,
embora o objetivo declarado dos reformadores fosse assegurar o advento de um
isl ideal, a maioria dos mudjhidn obedecia a mbeis mais concretos. No mais,
as jihad permitiram ao isl e s duas confrarias sufi rivais, a Kadiryya e a Tijniyya,
implantarem-se duravelmente na frica do Oeste. A tradio revolucionria isl-
mica dos torodbe seria perpetuada por uma nova gerao de chefes jihad, tais como
Maba Diakhou, na Gmbia (1809-1867), Mahmadou Lamine, na Senegmbia
(1885-1888) e Samori Tour, na Guin (1879-1898), os quais se postaram em
nome do isl contra os invasores estrangeiros e os seus aliados locais, porm foram
finalmente esmagados pela potente mquina de guerra dos europeus59.


58    A. G. Hopkins, 1973, p. 144, afirma que a interdio do consumo de lcool provocou um aumento na
      demanda por kola no pas Hauassa, pois este estimulante no era proibido pela lei islmica.
59    I. Hrbek, C. A. Quinn, Y. Person em J. R. Willis (org.), 1979.
O califado de Sokoto e o Borno                                             641



                                 CAPTULO 22


             O califado de Sokoto e o Borno
                                   Murray Last




    Introduo
    A regio  qual pertenciam o califado de Sokoto e o Borno foi dominada pelo
califado durante a maior parte do sculo XIX. Esta regio igualmente compreen-
dia outros Estados e populaes que, voluntariamente ou no, desempenharam
um considervel papel. Entretanto, o presente captulo tratar somente do cali-
fado em questo e do Borno, cujas estruturas e evoluo polticas influenciaram
fortemente a histria de toda a regio.
    Quase todos os Estados da regio foram o objeto de ao menos um estudo
histrico medianamente detalhado. Praticamente todos estes estudos limitaram-
-se  histria poltica. H interesse, outrossim e desde alguns h anos, em relao
 histria religiosa e, ainda mais recentemente, no tocante  histria econmica;
entretanto e malgrado a abundncia dos materiais disponveis, os nossos dados
e a sua interpretao ainda apresentam considerveis lacunas. Este captulo no
oferece uma sntese de todos estes estudos; a minha inteno consiste, antes, em
propor um quadro que permita compreender a histria da regio entre 1820 e
1880, abrindo caminho para novas pesquisas.
    O meu propsito versar, essencialmente, sobre o perodo 1820-1880, mar-
cado por uma relativa estabilidade poltica posterior aos conflitos, de um lado, e
pelas grandes fomes e pelo grande deslocamento da sociedade civil, desenrolados
642                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



na regio durante as guerras, ou jihad, por outra parte. Em termos introdutrios,
o perodo, compreendido entre aproximadamente 1775 e 1820, ser dividido em
trs partes: de 1775 a 1795, em Estados como o Gobir, o descontentamento
observado no seio do partido reformista muulmano  expresso de modo pac-
fico, embora eficazmente; aproximadamente de 1795 a 1810, a oposio de
interesses e ideias torna-se tamanha, entre os diversos grupos participantes do
poder, que os conduz a uma verdadeira guerra; finalmente, entre os anos 1810
e 1820, aproximadamente, os novos governos, buscando resolver os problemas
resultantes da guerra, experimentam novos mtodos administrativos ou tentam
povoar novas regies. Por volta de 1820, as administraes alcanam o seu maior
sucesso ao novamente propiciarem uma estabilidade poltica para a regio, o
que permite um desenvolvimento econmico sem precedentes - um perodo de
crescimento de amplitude indita, jamais ocorrido nesta regio desde os sculos
XV ou XVI. A contrapartida social deste sucesso foi a perda, por esta regio,
de grande parte da sua independncia poltica e econmica, assim como do seu
modo de vida tradicional. Ela no os perdeu sem oferecer resistncia, porm a
histria desta resistncia ainda est por ser escrita.

      O incio das reformas (aproximadamente 17751795)
    O partido reformista muulmano era o mais forte e conquistou os seus mais
notveis sucessos no no Borno, mas nos Estados huassa e no Nupe, os quais
haviam outrora feito parte de um "califado" ampliado do Borno. Homens essen-
cialmente favorveis a uma reforma religiosa chegaram ao poder, em um con-
texto urbano, por exemplo, em Nupe (o etsu Jibril), em Kano (o sarki Alwali),
em Zaria (o sarki Ishk) e em Katsina (o sarki Gozo). Inclusive no Gobir, no
Kebbi e no Zamfara, onde o xeque `Uthmn dan Fodio pregava a reforma
junto a multides progressivamente mais numerosas, os sultes, como Bawa Jan
Gwarzo, em Alkalawa, estavam prontos para um entendimento com os refor-
mistas. Entretanto, era nas campanhas que o movimento reformista apresentava
maior profundidade e obtinha os mais espetaculares sucessos. Este movimento
foi inicialmente dirigido, embora sem muita sutileza, por al-Hadjdj Jibril al
Aqdasi (de Agadez); ele se desenvolveu, em seguida, sob a direo muito mais
hbil do xeque `Uthmn que cumpria, na regio e  imagem de outros letrados, a
funo de conselheiro junto aos sultes. Primeiramente, o movimento teve como
objetivo difundir a educao muulmana e a prtica do isl nos campos. Porm,
aproximadamente aps 1788, os reformistas esforaram-se prioritariamente em
fundarem comunidades autnomas, sobretudo na periferia dos Estados huassa,
O califado de Sokoto e o Borno                                                      643
figura 22.1   O califado de Sokoto, o Borno e os seus vizinhos (segundo M. Last).
644                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



alm de pleitearem, para os muulmanos habitantes das comunidades j exis-
tentes, o direito de formarem uma "casta" autnoma1.
   Este abandono da estratgia de reforma do Estado, em favor de uma estra-
tgia de autonomia, no interior ou no exterior do Estado, acompanhou-se de
outros acontecimentos no plano poltico. O Gobir cessara, em larga medida,
de pagar o tributo ao Borno (talvez tivesse ele assim perdido, aos olhos dos
reformadores, parte da sua legitimidade islmica); do mesmo modo o sultanato
do Mandara, na extremidade sul do Borno, dele tornara-se independente aps
um levante, por volta de 1781 ao passo que, no prprio Borno, o governador
do Daya estava prestes a conquistar e afirmar a sua autonomia2. Nesta poca
de diviso poltica, os reformistas aparentemente compreendiam que seriam
somente temporrios os seus sucessos, caso eles se contentassem em fazer
nomear sultes favorveis  reforma; e que, mesmo se isso envolvesse maio-
res riscos, eles obteriam resultados mais duradouros, criando comunidades
autnomas e lutando pelo reconhecimento dos seus direitos, como "casta"
autnoma. Esta estratgia apresentava duas vantagens suplementares: pri-
meiramente, ela j fora empregada no somente no Borno, mas igualmente
alhures, na frica Ocidental; em seguida e sobretudo, ela evocava a experincia
do Profeta em Meca.

      A confrontao militar (aproximadamente 17951810)
    A reivindicao e a conquista de direitos particulares no seio do Estado
muulmano pelos muulmanos adeptos de uma orientao particular (os huassa
chamavam os reformistas "kadirawa" porque eles pertenciam  confraria da
Kadiryya) tiveram como consequncia a privao dos poderes executivos e
fiscais dos funcionrios locais em algumas de suas administraes. Com a rei-
vindicao de novos privilgios por parte crescente da populao (aqui compre-
endidos os escravos), as autoridades locais rejeitaram muitas novas demandas
e recorreram  fora para restabelecerem o seu poder. Em meio a essa agitao,

1     Para uma bibliografia detalhada do xeque `Uthmn b. Fd (ou "Dan Fodio" em huassa), consultar M.
      Hiskett, 1973. Encontraremos uma biografia do xeque, escrita por um dos seus companheiros em: U.
      F. Malumfashi, 1973. Para uma nova anlise do movimento, reposicionado no contexto oeste-africano,
      consultar M. Last, 1988.
2     No tocante ao Mandara, conferir B. M. Barkindo, 1983. Sobre o Borno no sculo XVIII, referir-se a J.
      E. Lavers, 1980, pp. 206-209. Aparentemente, Daya finalmente entrou em rebelio aproximadamente
      em 1805, consultar S. W. Koelle, 1854, pp. 212-223. As mais profundas razes para o declnio do Borno,
      por um lado, e para a penetrao do isl nos campos, por outra parte, so complexas e controversas. Uma
      das causas econmicas  o deslocamento do comrcio rumo ao Sul, no sculo XVIII, aumentando a
      importncia dos agricultores-comerciantes e levando-os a lutar pela liberdade comercial.
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escravos fugiam, buscando a liberdade em novas comunidades autnomas que
se recusavam devolv-los aos seus mestres em razo dos fugitivos serem muul-
manos. As medidas, tomadas pelo governo para novamente impor a ordem e
para recuperar as suas perdas, somente haviam agravado a diviso entre a socie-
dade urbana e a sociedade rural: os seus agentes vinham frequentemente aos
mercados confiscar os produtos agrcolas e o gado. Ainda mais graves foram os
ataques lanados - talvez a ttulo de represlia - contra os pastores fulbes (peul)
para impor-lhes a escravido e se apoderar do seu rebanho, acreditando que os
reformistas (dentre os quais muitos falavam a lngua dos fulbes, ou fulfulde)
seriam assim levados a interromperem as suas atividades. Pode -se sustentar,
retrospectivamente, que esta deciso, entre todas aquelas tomadas durante a
guerra, teria as mais pesadas consequncias: lanando os fulbes no campo dos
reformistas, ela permitiu-lhes pouco a pouco reconstiturem as suas foras, aps
desastrosas derrotas e, em definitivo, ganharem a guerra com os seus aliados pas-
tores; ela concedeu ao elemento militar formado pelos pastores uma influncia
imprevista no Estado criado aps a jihad, modificando consideravelmente, por
conseguinte, a administrao do novo Estado. Finalmente, ela reforou o clich
muito difundido entre os historiadores do Borno, segundo o qual a jihad no
passava de uma guerra de fulbes, dando portanto crdito  frmula "o Imprio
Fulbe", empregada a propsito do califado3.
    A guerra foi oficialmente declarada em 1804, aps o xeque `Uthmn, seguido
pela sua comunidade, ter consumado a hidjra de Degel  Gudum, onde ele foi
eleito im do novo "Estado". No incio de 1806, estandartes j haviam sido
distribudos e chefes militares posicionados  frente das tropas nas respectivas
regies. Em cada um dos Estados huassa, a estratgia dos reformistas equivalia,
primeiramente, a deixar as suas tropas operarem localmente para, em seguida,
reuni-las com vistas a um ataque conjugado contra a capital. Deste modo, as
foras armadas do xeque e a dos seus aliados de Kano, por exemplo, combatiam
separadamente, ao passo que, propriamente em Kano, cada unidade conduzia as
suas respectivas operaes. A derrota de uma armada no provocava, portanto,
aquela de todo o movimento; no entanto, a descentralizao teria importantes
repercusses polticas no futuro.



3    No que tange s acusaes da poca, segundo as quais, a jihad no dizia respeito seno aos fulbes,
     consultar as cartas provenientes do Borno, citadas por Muhammad Bello, 1951, e a carta do letrado
     `Abd al-Salm, citada por Muhammad Bello, 1970, vol. 1, pp. 18-35. Os documentos de poca no nos
     informam, em detalhes, seno sobre os combates da jihad desenrolados na regio de Sokoto; encontramos
     resumos em M. Hiskett, 1973, e M. Last, 1967a.
646                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Utilizando a ttica e as armas da guerrilha, os reformistas gozavam de uma
relativa segurana nos campos. Eles diziam perder menos homens em combate,
comparativamente queles mortos pela fome e pelas epidemias. Contudo, a
armada do xeque foi quase dizimada em pelo menos duas ocasies (Tsuntsua,
1804; Alwassa, 1805), e as perdas sofridas, sobretudo quando elas atingiam letra-
dos e estudantes, fizeram-lhes mais do que nunca depender do apoio dos pasto-
res. Ademais, em razo da fome, os tuaregues dirigiam-se para o Sul em nmero
sempre mais elevado, para comprarem vveres ou para se apossarem deles, alm
de disputarem as pastagens e os cereais - j raros - com os reformistas e os seus
aliados pastores. At ento (aproximadamente em 1804), os reformistas, entre
os quais havia letrados tuaregues aliados do sulto de Agadez, haviam logrado
evitar qualquer conflito de maiores propores com os tuaregues.
    Para ganhar rapidamente a guerra era necessrio tomar e conservar o palcio
do sulto de cada Estado. Com efeito, a guerra tinha como desafio maior, neste
estdio, muito mais a tomada do poder que o controle de um territrio. Somente
no Borno a autoridade do may foi forte o suficiente para sobreviver  perda da
sua capital, Birni Ngazargamo, em parte, porque os reformistas, aps terem con-
quistado a cidade, foram eles prprios incapazes de ali se manterem, finalmente
abandonando-a. No plano militar, a realeza era simbolizada - e defendida - pela
cavalaria pesada, monoplio do Estado. Graas ao seu elevado moral e  sua ttica
superior, os arqueiros e lanceiros dos reformistas podiam, apoiados por alguns
cavaleiros e assim que tivessem o controle do terreno, derrotar a relativamente
ineficaz cavalaria real. Porm, para ganharem a guerra, os reformistas necessita-
vam da sua prpria cavalaria e faltava-lhes modificarem, por conseguinte, a sua
organizao militar. As "guerrilhas" deviam transformar-se em governo.
    Em janeiro de 1809, aps quatro anos de combates intermitentes, os prin-
cipais Estados huassa haviam capitulado e os seus sultes tomado o caminho
do exlio. Os mais severos combates haviam sido travados pelas tropas do xeque
em Gobir. Em que pese a sua inferioridade numrica e blica, os reformistas
muulmanos haviam conquistado, nos anos 1807 e 1808, uma srie de vitrias
em todas as frentes, o que lhes aparentava ser um milagre e a prova da sua justa
causa; igualmente, neste caso, o paralelo com a vitria do Profeta na batalha de
Badr no fazia seno confirmar esta convico.

      As consequncias da guerra (aproximadamente 18101820)
   Aps quatro anos de guerra, fome e epidemias, o maior problema era a
reconstruo. Alguns dos vencidos, como os may do Borno e os antigos sultes
O califado de Sokoto e o Borno                                                              647



huassa, tentaram no exlio reconstituir uma corte e um exrcito para recon-
quistarem os seus reinos. Os mais exitosos foram os may do Borno, quanto
aos mais desaventurados, estes sem dvida foram os antigos sultes de Kano;
outros soberanos no exlio apenas concluram um acordo com o novo regime.
Em algumas regies, como o Nupe, a guerra ainda no findara; em outras, a
exemplo do Oyo, ela apenas comeara.
    Para os vencedores, a tarefa da reconstruo foi complicada em razo da
necessidade de rigorosa observncia da lei islmica. Inicialmente, o xeque
`Uthmn demonstrava-se muito estrito em sua interpretao da lei; no entanto,
aps 1810, a sua atitude mudou progressivamente e ele passou a tolerar pr-
ticas (por exemplo, a msica) anteriormente por ele condenadas4. Contudo, os
chefes da jihad, o xeque `Uthmn, o seu irmo `Abdullh e o filho do xeque,
Muhammad Bello, dedicaram-se a nomear, para todos os escales da adminis-
trao, homens que possussem, simultaneamente, a instruo necessria para a
compreenso da lei islmica e a autoridade necessria para aplic-la. Todavia,
muitos letrados e estudantes haviam sido mortos durante a guerra e, mesmo
na regio de Sokoto, no restava suficiente nmero de homens instrudos para
a ocupao, nos campos, de todos os postos de emir, juiz ou im. Em outras
regies do califado, esta carncia era ainda mais aguda, embora o xeque tivesse
como poltica enviar estudantes s suas regies de origem. Para compensar esta
insuficincia, foi necessrio, sob a superviso da administrao central, confiar
postos vagos a familiares de funcionrios que j estavam in loco.
    Outra soluo provisria consistia em recorrer a funcionrios do antigo
regime. Em princpio, alguns foram nomeados para postos da administrao
local ou do poder judicirio (em Kano, eles eram chamados "huassaua"), porm
a sua fidelidade ao governo foi muito rapidamente posta em dvida e muitos
foram substitudos no nvel local. Igualmente, colocava-se a questo relativa a
saber se era necessrio autorizar os comerciantes das antigas "regies inimigas"
a operarem nos mercados do califado. Tudo leva a crer que este comrcio trans-
fronteirio tenha rapidamente despertado a desconfiana, colocando em uma
delicada situao os comerciantes huassa, os quais haviam permanecido im-
veis, bem como os funcionrios huassa, dedicados a reerguerem uma economia
fundada no comrcio.
    Haja vista a inexperincia da nova administrao e a latente desconfiana, a
direo dos assuntos do califado foi, inicialmente, uma tarefa muito difcil. O


4   Para maior detalhamento sobre esta mudana, verificar F. H. al-Masri 1978, pp. 13-33.
648                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 22.2 Carta de Muhammad Bello, califa de Sokoto, 1817-1837, ao `Umar Dadi de Kanoma, fixando
os detalhes de um encontro com vistas a uma campanha. [Fonte: J. F. A. Ajayi e M. Crowder (org., History of
West Africa, vol. 2, 1974, 1a edio Longman, Londres. Foto: para a nossa grande infelicidade, no encontra-
mos vestgios do detentor dos direitos autorais desta foto; qualquer indicao permitindo cobrir esta lacuna
ser bem-vinda.]
O califado de Sokoto e o Borno                                                649



xeque era confrontado a grande nmero de disputas, surgidas em todo o califado.
Tratava-se, em primeiro lugar, de contendas opondo os chefes militares ou os
letrados, os quais disputavam entre si o governo de territrios. Na realidade, boa
parte destas disputas era resolvida pela fora ou pela deciso da parte lesada de
restabelecer a sua autoridade, sem considerar o seu adversrio e levando o pleito
diretamente ao xeque. Em segundo lugar, havia problemas referentes a queixas
resultantes de abusos cometidos, durante a guerra, pelos exrcitos da jihad - as
questes ligadas ao assujeitamento injustificado ou  apropriao ilcita de bens
ou terras. Finalmente, tinha lugar o problema relativo  decepo demonstrada
por alguns letrados, parcialmente devida  adoo das ideias milenaristas pelo
xeque, seguida da sua palindia aps 18105. Ao menos um mahd manifestou-
-se, encontrando adeptos no novo califado; mas ele foi queimado na fogueira.
Todavia, outros letrados, como Dan Buya ou os partidrios de `Abdul-Salm,
continuaram a entrar em dissidncia.
    As dissenses multiplicaram-se e se complicaram, a tal ponto que o xeque
decidiu retirar-se para se consagrar ao ensino e  escrita; ele adoeceu por volta
de 1815 e morreu dois anos mais tarde. Como desde 1812, ou seja, cinco anos
antes, a tarefa de arbitragem fora compartilhada entre `Abdullaahi dan Fodio e
Muhammad Bello, filho do xeque, a morte deste ltimo no provocou mudana
brutal na orientao poltica do califado. A maioria dos desacordos referia-se,
em parte,  estrutura dos emirados nesta poca, caracterizada pela descentra-
lizao que marcara a organizao militar da jihad. O emir, embora fosse o
primeiro titular desta funo e o seu "porta-estandarte", no era mais que o
primus inter pares; em alguns casos, havia vrios "porta-estandartes", ao passo
que, em outros, o primeiro emir no lograva impor a sua autoridade. Em 1820,
uma parte dos mais antigos "porta-estandartes" j estava morta ou se havia
concludo um acordo.
     poca, finalmente, os reformistas no dominavam sem compartilhamento
seno um territrio relativamente limitado. No que tange estritamente a Sokoto,
a zona habitada e controlada reduzia-se a uma faixa de 40 km de largura e 65
km de extenso, estendida em direo ao Sul de Sokoto. Igualmente, no tocante
a Kano, Katsina, Daura e Zaria, eles apenas controlavam uma pequena parte
do interior do pas e a sua situao territorial era provavelmente ainda mais
precria em emirados como aquele de Bauchi. O importante a reter  que, em
1820, no havia outro governo vivel, usufruindo de aparente legitimidade ou


5   Para maior detalhamento sobre o mahdismo, conferir M. A. al-Hajj, 1973.
650                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



amplo apoio, que pudesse rivalizar com a nova administrao. Por conseguinte,
o problema desta ltima consistia em ampliar a sua autoridade para os campos,
incorporando-os ao califado. No Borno, em contrapartida, o problema dos may
equivalia a usufruir dos laos que eles haviam conservado com os campos, para
reorganizar o Estado e salvaguardar a sua autonomia frente ao novo califado.

      O califado de Sokoto de 1820 a 1880
    Em 1820, o califado de Sokoto compreendia sete emirados principais e dois
outros grandes emirados ainda estavam em formao. O Borno reconstituiu-
-se aps ter perdido a sua capital e grande parte dos seus territrios a Oeste
e Sul. Para permitir a compreenso das mudanas que significavam os termos
"califado" e "emirado", cabe-nos descrever, rpida e esquematicamente, o sistema
poltico que os reformistas haviam substitudo.
    O aspecto mais notvel deste sistema era o papel nele representado pelo
rei, designado pelo nome de may, sarkin, etsu ou alafin. Antes das mudanas
polticas advindas ao final do sculo XVIII, o rei desempenhava funes rituais
e tinha um papel que exigia certo isolamento perante o seu povo; o palcio real
representava mais que uma simples morada; ele possua algo de sagrado. O rei
estava, por assim dizer, acima da poltica; ele simbolizava a autoridade suprema
e todos os atos da vida pblica eram realizados em seu nome; ele representava
o Estado. Eunucos e escravos de ambos os sexos, sem pais ou herdeiros, asse-
guravam o servio do palcio e da pessoa do reino, constituindo um setor da
administrao. Outra seo compunha-se de grandes famlias independentes,
detentoras de ttulos hereditrios dos quais os titulares possuam a sua prpria
sequncia. Uma terceira seo era composta pela famlia do rei, em particular,
pela sua me ou irm, pelos seus irmos e filhos. A composio dos conselhos
dos rgos, encarregados dos ritos ou investidos do comando militar, variava
em seu detalhamento segundo os Estados; os escravos do palcio e os homens
livres titulares de cargos eram frequentemente divididos em ordens, no seio das
quais eles podiam gozar de promoes. A rivalidade poltica limitava-se s fun-
es estabelecidas sob a autoridade do rei.  verossmil que, ao final do sculo
XVIII, o rei tenha tendido a participar mais ativamente da vida poltica, a se
conformar de modo mais exclusivo s exigncias do isl e a promover reformas
inspiradas em concepes polticas islmicas6. Na esfera econmica, tudo leva


6     Para uma anlise da estrutura poltica do Borno, antes da jihad, consultar J. E. Lavers, 1980, pp. 187-209;
      N. M. Alkali, 1978. Sobre os Estados huassa, antes da jihad, conferir A. Hassan e A. S. Naibi, 1962; M.
      G. Smith, 1960; e Y. B. Usman, 1981.
O califado de Sokoto e o Borno                                                                          651



a crer que nesta mesma poca o consumo, especialmente de tecidos em algo-
do, tenha aumentado, assim como a demanda por escravos; a necessidade de
regulamentar e proteger este mercado em expanso era notvel. Estas mudanas
repercutiram nos campos, sobre os comerciantes, cultivadores e pastores, pois
aqueles que entre si disputavam o poder poltico buscaram consolidar a base
do seu poderio. Igualmente, as vtimas destas mudanas tomaram, em grande
nmero, partido da jihad.
    Os reformistas muulmanos (que compreendiam ao menos um dos ltimos
reis huassa reformadores) pretendiam implantar um sistema poltico muito dis-
tinto. O rei foi substitudo por um emir cuja pessoa e tampouco o palcio eram
sagrados. A origem da sua autoridade no era mais o Estado, personificado pelo
rei, mas Al. Consequentemente, o emir era designado no em razo de um carter
sagrado hereditrio, mas pela sua piedade. O emir era primus inter pares; os seus
companheiros, tomados coletivamente, eram convocados a dividir o poder, sob a
sua direo. Portanto, os escravos do palcio no tinham mais como atribuio
seno o servio pessoal do emir; as dignidades da rainha-me e da rainha-irm
foram abolidas. O emir fazia parte do mundo poltico e as suas funes podiam,
teoricamente, ser ocupadas por qualquer candidato suficientemente pio. Em con-
formidade com o projeto dos reformistas, uma administrao restrita, composta
por ministros, juzes, inspetores, policiais e imames foi estabelecida; a shar `a, tal
qual interpretada pela escola malikite, deveria reger as relaes entre os indivduos
e os grupos. Tratava-se de limitar e tratar os processos polticos, evitar os desvios
das regras at ento no escritas e restringir o papel poltico do palcio, cuja
importncia aumentava progressivamente. Os reis eram muulmanos, embora
detivessem um poder ritual fundado em crenas religiosas locais e tradicionais.
Era necessrio substituir este poder ambguo por um poder fundado em Al, no
somente aceitvel para a comunidade muulmana, mas igualmente, responsvel
visvis desta comunidade. O projeto dos reformistas foi exposto, clara e nitida-
mente, por `Abdullahi dan Fodio em sua obra o Diya 'alhukkam, destinada a fami-
liarizar a comunidade de Kano com a nova constituio7. Concomitantemente ao
surgimento dos problemas, Muhammad Bello e os califas seguidores escreveram
aos dirigentes das novas comunidades para atrarem a sua ateno sobre os ele-


7    Para um estudo mais recente acerca das ideias de Abdullh dan Fodio e do seu contexto, consultar A.
     A. A. Hamid, 1980. Para um estudo geral da teoria e da ao poltica do califado, conferir M. M. Tukur,
     1977. Numerosos ttulos tradicionais anteriores  jihad foram em seguida restabelecidos, inclusive, em
     certos emirados, ttulos reservados s mulheres tendo desempenhado um importante papel na famlia
     reinante (por exemplo: madaki, em Kano e inna, em Sokoto). No tangente ao papel e  organizao das
     mulheres no sculo XIX: referir-se a J. Boyd, 1982.
652                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



mentos essenciais do novo sistema e acrescentar detalhes prticos. Pode-se consi-
derar a histria poltica e intelectual da regio, no sculo XIX, como um esforo
prolongado para aplicar, por vezes com modificaes, o projeto dos reformistas,
alm disso (o projeto tambm o justifica), como a histria de desenvolvimento e
integrao deliberados das economias rurais da regio e do estreitamento dos seus
laos, primeiramente com as economias mediterrneas e, posteriormente, com as
economias atlnticas. Os reformistas tinham uma preocupao suplementar, reves-
tida de um carter premente e grave: era preciso reerguer a tempo a comunidade,
material e espiritualmente, para a esperada vinda do Mahd.

      A funo do califa
    Uma das mais importantes inovaes dos reformistas foi o estabelecimento
da funo de califa. No sculo XVIII, os Estados huassa e os seus vizinhos eram
unidades polticas autnomas. Em diferentes pocas, o Borno exercera certa
soberania sobre estes Estados, aludindo  noo de califado; o seu may perma-
necia, no sculo XVIII, na qualidade de mais antigo soberano e, provavelmente,
o mais potente da regio. O novo sistema explicitamente colocava os emirados
sob a soberania do califado de Sokoto, designador dos detentores do poder nas
diferentes regies. Fundado na prtica constitucional do isl, o poder do cali-
fado transcendia todas as especificidades locais ou tnicas, conferindo-lhe uma
proeminncia que nenhum soberano alcanara antes de si, haja vista a origem
divina do seu poder, era preciso que ele tivesse um comportamento visivelmente
diferente daquele dos soberanos do regime precedente, recusando o decoro, a
ritualizao e a riqueza ostentatria. Antes mesmo da morte do xeque `Uthmn
dan Fodio, em abril de 1817, o califado fora dividido em duas grandes regies
administrativas (Sifawa, 1812).
    A diviso de um territrio em quadrantes  um procedimento assaz difun-
dido; ele foi provavelmente empregado no Wadi e no Borno. Os mapas sim-
blicos das cidades huassa eram concebidos segundo a mesma lgica. As quatro
zonas, agrupadas em duplas, formavam duas grandes zonas administrativas cada
qual dirigida por um chefe assistido por dois adjuntos.
    Quando Bello tornou-se califa, em 1817, esta organizao foi modificada.
Antes de 1817, o califa, o xeque `Uthmn delegava todos os seus poderes ao seu
irmo `Abdullh, na qualidade de vizir, e ao seu filho Muhammad Bello, como
mir al-Sdn ("Emir dos Negros"). Em 1817, o novo califa (Muhammad Bello)
deixou, por sua vez, o governo dos emirados ocidentais ao seu tio `Abdullh,
desde logo simplesmente chamado "o emir"; entretanto ele guardou para si
O califado de Sokoto e o Borno                                                                     653




Diviso do califado em quadrantes. A maioria dos emirados indicados neste mapa foi fundada aps 1812.



mesmo o governo dos emirados orientais, delegando somente poderes executivos
ao seu amigo e servidor Gidado, quem recebeu o ttulo de vizir.
    Como a administrao tinha como responsabilidade a cobrana do imposto,
era normal que os mais ricos emirados fossem diretamente colocados sob a
autoridade do califa. Os emirados orientais, em particular Kano e Zaria, durante
o perodo inicial, podiam suprir as necessidades financeiras do califado. Sem a
sua contribuio, teria sido difcil desenvolver a capital e as regies interioranas
ou at mesmo receber os visitantes com a devida generosidade. Estes dois emi-
rados enviavam regularmente escravos a Sokoto, assim como tecidos e outros
produtos. Estes escravos eram especialmente indispensveis para expandir as
terras cultivadas em torno de Sokoto e localidades vizinhas (pois esta regio
no era antes absolutamente cultivada), alm de serem fundamentais para a
construo de obras defensivas: muralhas em terra e prdios com tetos acha-
654                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



tados  prova de fogo, bem como mesquitas permanentes destinadas s novas
comunidades8.
    As relaes entre Sokoto e Guandu eram demasiado complexas para que
fosse aqui possvel descrev-las em detalhes; inclusive, elas dependiam em parte
da personalidade dos emires. Contudo, elas derivavam do sistema dualista, to
expandido na frica Ocidental: enquanto Guandu desempenhava o papel do tio
e representava o poder ritual (os emires de Guandu eram conhecidos pela sua
piedade), em Sokoto, por sua vez, o califa desempenhava o papel de sobrinho
empreendedor, depositrio da responsabilidade pelos negcios e detentor do real
poder poltico. Uma relao deste gnero aparenta ter existido entre `Abdullh
e Bello e entre Khall e `Al, inibindo qualquer conflito e explicando porque
Guandu em nada se preocupou com o fortalecimento do seu poder sobre os
emirados a ele subordinados.
    As relaes entre os emires e o califa, durante o perodo 1820 -1845,
assemelhavam-se muito mais quelas que uniam antigos companheiros de armas
ou antigos condiscpulos, comparativamente s verdadeiras relaes hierrquicas.
O emir Yakubu de Bauchi, companheiro de primeira ordem e de origem no
fulbe, contrariamente aos demais emires, manteve com os califas, aps a morte
de Bello, relaes particularmente estreitas, quase correspondentes quelas de
um tio com os seus sobrinhos. Os emires adquiriram inevitavelmente uma
grande autonomia, consolidando as bases territoriais da sua autoridade; porm
 difcil determinar com preciso se o califa no verificava ou no recomendava
certas nomeaes nos emirados (por exemplo, aquele de Kano), do mesmo
modo que, durante a jihad, o xeque `Uthmn as supervisionara minuciosamente,
distribuindo com rigor os estandartes.

      A administrao do califado
   Como Muhammad Bello acumulava trs funes (califa, chefe dos emirados
orientais e chefe da regio de Sokoto), ele foi obrigado a estabelecer uma admi-
nistrao. Na qualidade de califa, ele era chamado a escrever livros e cartas de
opinio; como chefe militar local, ele devia assegurar a defesa de Sokoto. Alm
disso, ele somente se movimentava entre Sokoto e Zamfara. A sua administra-
o era, por conseguinte, em larga medida encarregada da administrao dos


8     No se sabe exatamente quando comearam estas fortificaes, tampouco qual foi a sua dimenso. As
      somas requisitadas aumentaram brutalmente aproximadamente em 1850. Conferir M. G. Smith, 1960,
      pp. 154 e 157.
O califado de Sokoto e o Borno                                                655



emirados orientais e, especialmente, da arrecadao dos impostos necessrios
ao califado.
    O califa recrutava os seus funcionrios nos cinco grupos seguintes: entre os
seus domsticos, em sua maioria escravos ou eunucos, os quais se ocupavam, por
exemplo, dos estbulos; entre os seus antigos companheiros de armas que agora
desempenhavam as funes de conselheiros ou mensageiros extraordinrios;
entre os parentes prximos do seu pai, o xeque; entre os chefes de cls fulbe;
e, finalmente, entre as famlias que haviam pertencido  comunidade dirigida
pelo seu pai, as quais agora formavam, em Sokoto, a classe dos letrados. A estes
ltimos foram confiadas funes jurdicas ou religiosas na nova administrao,
alm de postos regionais subalternos, ao passo que as mais importantes respon-
sabilidades, em Sokoto, eram atribudas aos chefes de cls e aos parentes do
califa. Os conselheiros do califa, portadores de ttulos tais como waziri, magajin
gari, magajin rafi ou galadima, eram encarregados das relaes do califa com os
emirados, os quais dependiam, em sua maioria, da administrao do vizir. Estes
funcionrios possuam, eles prprios, empregados domsticos, sendo-lhes reser-
vados alguns bairros de Sokoto; no entanto, eles inicialmente desempenharam
um papel relativamente menor na administrao da regio, assim como na vida
poltica local; pois eles estavam eclipsados pelo sarkin yaki ou pelos letrados
da famlia do xeque. Contudo, durante o sculo e na justa medida em que a
sua prpria linhagem se desenvolvia e enriquecia, eles passaram a exercer uma
crescente influncia na poltica de Sokoto, particularmente no tocante  eleio
do califa.
    Uma das principais tarefas da administrao do califado consistia em nomear
os emires ou ratificar a sua nomeao, assim como regular as querelas sucessrias.
O delegado do califa (por exemplo, o waziri) instalava o novo emir em suas
funes; ele trazia consigo a carta apropriada, com o braso do califa, na qual
bastava inscrever o nome do emir. No ano seguinte, o novo emir ia pessoalmente
a Sokoto para homenagear o califa. Como os interregnos podiam facilmente
tornar-se perodos de anarquia e distrbios, era importante no permitir o seu
prolongamento alm de uma semana. A responsabilidade dos delegados do califa
era, portanto e em alguns casos, considervel. Deste poder, referente a nomear
ou demitir os emires, derivava uma funo de mediao, exercida pelo califa e
pelos seus delegados: eles tratavam, em ltima instncia, os graves diferendos
com os quais estava envolvido um emir. Concomitantemente  ampliao das
suas competncias, o waziri foi necessariamente chamado a resolver problemas
de mais e mais diversos, sobretudo porque este ministro, ele prprio possuidor de
656                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



delegados residentes permanentes nos dois grandes emirados de Kano e Zaria,
era o nico delegado itinerante do califa9.
    Outra tarefa da administrao consistia em receber ou coletar as doaes, os
impostos e os tributos destinados ao Tesouro de Sokoto. Os pagamentos ocor-
riam ao menos duas vezes por ano, por ocasio das duas festas do ano muul-
mano; porm as contribuies eram invariavelmente cobradas nos emirados
aps as colheitas, qualquer fosse a data destas festas. Ns no sabemos em qual
proporo as somas pagas em cada emirado eram enviadas a Sokoto. Em suple-
mento, quando morria um emir, o califa herdava parte da sua fortuna; e, aquando
da sua posse, os novos emires lhe ofereciam um presente. O califa igualmente
recebia uma parte do butim recolhido pelos emires aps as suas campanhas; a
parte do califa era ento, ao que tudo indica, maior ou menor, segundo os emires
e em funo de insistncia com a qual o seu delegado a tivesse reclamado. Como
muito destes pagamentos no supunham nenhuma formalidade, no causa esp-
cie que se tenha, muito amide, taxado a administrao do califado como rapi-
nante. Considerando o crescimento da dimenso poltica e da importncia das
suas funes, o waziri foi obrigado a exigir ainda mais riquezas, para distribu-
-las e conservar a sua posio no sistema. Ao longo do sculo, quando comeou
a desempenhar um papel de maior importncia na poltica interna do califado,
ele se viu obrigado a basear a sua potncia em recursos financeiros comparveis
queles dos outros notveis, os quais, por sua vez, administravam diretamente
os territrios. As necessidades financeiras do califa igualmente aumentaram
durante o sculo, na justa medida em que aumentava o prestgio internacional
do califado. Em razo da relativa pobreza da regio de Sokoto, em virtude dos
letrados estudantes serem particularmente numerosos na regio, em funo do
pequeno nmero de agricultores e do elevado nmero de pastores - os quais
escapavam todos do imposto, com exceo da zakt (caridade legal) -, Sokoto
representava um fardo para os emirados. Aparentara ser desejvel, inicialmente,
estabelecer a nova comunidade na regio praticamente inabitada, com o objetivo
de isol-la das tentaes do materialismo. Em consequncia, o califado deveu
constantemente contar com a generosidade dos emirados, bem como com a sua
capacidade administrativa em mant-la.
    A prpria extenso do califado impunha um problema; muito tempo era
necessrio para percorrer distncias to considerveis: quatro meses para atra-
vessar o pas de Leste a Oeste e dois meses para percorr-lo de Norte a Sul,


9     Para um estudo detalhado do vizirato, consultar M. Last, 1967a.
O califado de Sokoto e o Borno                                                                           657



segundo clculos de um contemporneo. Um mensageiro podia superar a p,
em oito dias, os 650 km que separam Sokoto de Bauchi; porm funcionrios
como o vizir, no percorriam em mdia seno 25 km por dia. Por outro lado, a
presena militar era fraca.

     Atividades militares e diplomticas
    O califado no possua exrcito permanente. Em realidade, comparado a
outros Estados de superfcie equivalente, o califado de Sokoto no representava,
de modo algum, uma mquina de guerra10. Frequentemente, as manobras anuais
no tinham outro objetivo seno manifestar a fidelidade da armada ao califa,
impressionar os adversrios do regime e manter a paz nas fronteiras. Aps as
campanhas iniciais, cujo objetivo fora estabelecer estas fronteiras, jamais as
foras do califa se uniram para conquistar novos territrios; ademais, nenhum
projeto foi concebido a este fim. As iniciativas de alguns emires e chefes mili-
tares independentes permitiram ao califado, pouco a pouco, estender-se a Sul
e Leste; entretanto, esta expanso resultou tanto da poltica dos emires quanto
daquela do califa. Alm da obrigao religiosa da jihad, a nica razo que podia,
permanentemente, levar o califado a realizar aes militares nos emirados era a
necessidade de sanar o constante deficit oramentrio de Sokoto. O califa ento
participou de numerosas campanhas na regio de Sokoto e de Zamfara, jamais
alhures. Importantes campanhas foram igualmente conduzidas,  poca, nos
emirados orientais; mas foi o vizir (ou, por duas vezes, o emir de Bauchi) quem
dirigiu as foras de Sokoto.
    Os soldados no eram profissionais nem escravos. Os funcionrios recrutavam-
-nos junto aos seus domsticos e nas localidades por eles administradas. Em
geral, no era o Estado que fornecia armas ou cavalos aos soldados e eles no
recebiam outro salrio seno aquele correspondente a uma parte do butim. O
servio militar era considerado um dever, conquanto no fosse obrigatrio;
inclusive, era certamente muito perigoso permanecer em sua localidade para
defend-la dos saqueadores e dos animais selvagens. As campanhas ocorriam
na estao seca, mais frequentemente a partir da poca das colheitas (mesmo

10   No tocante s questes militares, conferir os estudos que lhes foram dedicados por J. P. Smaldone, 1977;
     R. C. C. Law, 1980 (consultar, entretanto, R. Harris, 1982). O meu ponto de vista difere um pouco das
     anlises de Smaldone e Law, sobretudo na medida em que acordo menor importncia ao papel dos
     militares. Mme Jean Boyd amavelmente chamou-me a ateno para a formao, aproximadamente em
     1850, de uma guarda pretoriana, aparentemente encarregada de proteger o califa tanto no exterior quanto
     no interior do palcio (Alhaji Junaidu, 1957, p. 54). No h estudo sobre a organizao da segurana no
     palcio e acerca dos homens dela encarregados, embora esta questo seja frequentemente evocada.
658                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



que faltassem voluntrios), com o objetivo de destruir as colheitas do inimigo.
Era praticamente impossvel fazer a guerra durante a estao das chuvas, no
somente porque era necessrio ento dedicar-se a outros trabalhos ou em razo
do estado da terra, mas igualmente porque a chuva tinha um efeito desastroso
sobre os escudos em couro e sobre as cordas dos arcos. A atividade militar dimi-
nua ao final da estao seca, em virtude da escassez de gua para os soldados e
os seus cavalos, embora pequenos bandos pudessem executar ataques-surpresa
durante todo o ano.
    A maioria dos soldados era armada com lanas, arcos ou espadas; em cada
regimento, alguns montavam cavalos ou camelos. Algumas etnias, especializadas
no arco e flecha, envenenavam as suas flechas para compensar a insuficiente
fora de penetrao. Outras utilizavam lanas farpadas. As espadas eram menos
difundidas, pois que elas podiam representar antes uma deficincia, quando no
produzidas em ferro local de boa qualidade ou ao importado. Os fuzis no
surgiram seno ao final do perodo considerado; eles foram ento, sobretudo
utilizados pelas armadas particulares, semiprofissionais e, portanto, compostas
de escravos; entretanto, a falta de treinamento impediu esta nova armada de pro-
duzir todos os seus efeitos.  imagem dos Estados do sculo XVIII, a cavalaria
constitua a arma mais eficaz do califado. Durante a jihad, a falta de cavalos e
camelos trouxera desvantagens aos reformistas, relativamente aos tuaregues e
s armadas do Gobir. Contudo, a cavalaria no obteve sucesso algum frente aos
soldados muito motivados da jihad e, tampouco, perante as cidades fortificadas
e fortalezas situadas nas montanhas. A histria do califado  composta, em igual
medida, de derrotas e vitrias; as formaes compostas somente por pequeno
nmero de cavaleiros eram provavelmente muito mais eficazes. s batalhas
entre tropas enfileiradas (daga), geradoras de considerveis perdas, opunham-se
os assaltos (hari), dirigidos contra a populao civil. Haja vista o carter hete-
rogneo muito mbil da sociedade huassa, composta de mercadores, escravos e
refugiados, era fcil introduzir espies e elementos infiltrados em uma comuni-
dade inconsciente do perigo e, deste modo, tomar de surpresa as cidades.
    Em suma, o califado em nada inovou nos mbitos da estratgia ou da tcnica
militar, no gozando de nenhuma vantagem determinante, salvo a abundncia
dos seus potenciais recursos - embora estes ltimos no fossem jamais mobi-
lizados em conjunto. Durante boa parte do sculo, ele sofreu com a guerrilha,
originria nos sucessivos deslocamentos populacionais provocados pela jihad,
nas disputas ocasionadas pela desorganizao da agricultura ou, simplesmente,
nos ganhos a serem obtidos com a venda de prisioneiros. Pode-se facilmente
exagerar a importncia da insegurana, mas  possvel dizer que, ao menos em
O califado de Sokoto e o Borno                                                                        659



algumas regies, era grande a possibilidade do indivduo ser reduzido  escravi-
do durante parte da sua vida11. Certos prisioneiros pagavam um resgate, outros
eram liberados, alguns conseguiam escapar; mas, como era frequente, se toda
uma localidade ou famlia fosse dispersa em razo de um ataque, a sua liberdade
efetivamente no lhes servia. A guerra no aparenta ter causado grande dano
ao comrcio, embora ela por vezes isolasse algumas regies. Os mercadores
deslocavam-se em caravanas armadas e alguns tinham, como principal atividade,
fornecer cavalos e armas s foras armadas, em troca de prisioneiros, por eles
vendidos em alguma localidade distante do seu lugar de origem.
    Considerando as insuficincias do califado na esfera militar, a diplomacia
possua um importante papel em sua poltica12. Tudo leva a crer que os prprios
califas se tenham encarregado do essencial da correspondncia diplomtica. Eles
no estiveram jamais em visita oficial ao estrangeiro, tampouco enviaram qual-
quer importante funcionrio em representao diplomtica. Os viajantes - sbios,
peregrinos, mercadores - atuavam como mensageiros e levavam informaes
acerca de acontecimentos polticos advindos no estrangeiro. A correspondncia
mantida com o Marrocos, Trpoli e a Inglaterra chegou ao nosso conhecimento;
entretanto, no h dvida que comunicaes muito mais importantes, verbais
ou escritas, no nos foram acessveis. O interesse de Muhammad Bello pelas
relaes exteriores era de ordem intelectual, tanto quanto comercial ou poltica.
Este califa, cobioso e capaz de se manter informado sobre os acontecimentos,
ideias e inovaes na frica do Norte e no restante do mundo, preocupava-se
em aproximar o califado dos outros pases muulmanos. Ademais, atento  ideia
da proximidade do fim do mundo e ao possvel imperativo de se estabelecer
em Meca, esforou-se em manter aberta a via que deveria para l conduzi-lo,
encarregando um parente distante do xeque de vigiar o trecho desta estrada que
atravessava o Baguirmi.
    A diplomacia tambm ocupava um importante posto no mbito das rela-
es do califado com os seus vizinhos do Norte e do Oeste. Na fronteira norte,
as relaes com os tuaregues eram to ambguas que a situao poltica era
fluda. Um dos mais antigos aliados do califado era o sulto de Agadez, quem
pretendia controlar as populaes sedentarizadas, qui at mesmo as popula-


11   Encontraremos um testemunho direto e muito vivo sobre uma destas capturas, aproximadamente no
     ano 1850, em A. H. M. Kirk-Greene e P. Newman (org.), 1971, pp. 29-101.
12   Para estudos gerais sobre questes diplomticas, consultar R. A. Adeleye, 1970, e M. Minna, 1982. As
     relaes diplomticas com os outros Estados sem dvida caracterizam-se por uma importncia secun-
     dria, em respeito a pessoas que acreditavam no eminente fim do mundo; isso talvez explique as razes
     pelas quais existam to poucos vestgios nos arquivos de Sokoto.
660                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



es nmades, da regio. O califa igualmente possua aliados entre os xeques e
mercadores. Um destes xeques, Muhammad Djailani, o qual tentou iniciar um
jihad, aparenta ter logrado maior xito nesta ao que Jibril b. `Umar, ao final
do sculo XVIII13. Porm, a nobreza targui, especialmente os ulemiden, conse-
guiu, com a ajuda dos seus vassalos, impedir a formao de um potente grupo
muulmano. Consequentemente, o califado no pde contar, nesta regio, com
a ajuda de uma rede de xeques, anloga quela dos kunta, em Tombuctu. O
califa tentou criar uma rede deste gnero em Sokoto e desempenhar o papel de
mediador junto aos tuaregues; mas ele no obteve seno muito limitado sucesso.
Em contrapartida, ele permitiu aos letrados tuaregues e aos seus partidrios
refugiarem-se em Sokoto.
    Entretanto, as relaes com os xeques kunta de Tombuctu eram excelentes.
Como se tratava do principal centro muulmano do Oeste, os letrados de Sokoto
voltavam-se muito mais para esta regio, comparativamente ao Borno. Poemas
e visitas eram trocados. Os letrados de Sokoto tomaram por emprstimo dos
kunta o seu wird kdir e parte do seu salasil. No tocante  controvrsia relativa
 Tijniyya, os kunta de Tombuctu foram os campees da ortodoxia kdir14.
    O surgimento de um novo califado, no Macina, provocou problemas em
Sokoto, tanto quanto para os xeques kunta. Ainda  insuficientemente conhecida
a histria das relaes Sokoto-Macina, todavia, elas aparentam estar inextrica-
velmente ligadas aos problemas mais circunscritos do conflito entre o Macina
e os kunta15. O califa de Sokoto podia pretender exercer a sua soberania alm
do Liptako, at as fronteiras do Macina, mas no sobre o prprio territrio do
Macina, haja vista que o emir de Guandu no podia ali assegurar presena mili-
tar. A evidente impossibilidade de controlar o eixo Argungu-Mauri-Zaberma
constitua o obstculo maior, com o qual se confrontava a poltica das relaes
com o Oeste; entretanto, a reticncia do emir de Guandu em organizar-se mili-
tarmente talvez igualmente representasse um srio obstculo. Contrariamente
ao califa de Sokoto, ele no podia em nada contar com Yauri, Nupe e Ilorin,
todas vtimas de desordens civis desconhecidas dos emirados orientais. O emir
de Guandu desempenhava o papel de mediador e conselheiro, inclusive dirigia-
-se pessoalmente a Nupe; porm as condies necessrias para a organizao



13    No que tange  jihad de Muhammad Djailani, consultar H. T. Norris, 1975, captulo 11; conferir D.
      Hamani, 1979.
14    Relativamente aos kunta, consultar A. Zebadia, 1974.
15    No tocante ao Macina, conferir W. A. Brown, 1969, e C. C. Stewart, 1979.
O califado de Sokoto e o Borno                                                661



de um exrcito eficaz, bem como os meios para a sua manuteno, faltaram ao
emirado de Guandu, ao menos at o final do sculo XIX.
    Finalmente, na fronteira com o Borno, cujos territrios ocidentais consti-
tuam os embrionrios emirados do Hadejia, Katagum, Missau e Gombe, o
fracasso da primeira tentativa de compromisso (na clebre correspondncia
trocada entre Muhammad Bello e o xeque al-Kanmi durante a jihad) deveria
dar o tom para o resto do sculo. Qualquer mediao foi rejeitada quando, de
1824 a 1826, o Borno invadiu o Leste do emirado de Kano e a paz jamais seria,
futura e oficialmente, assinada entre os dois Estados. As hostilidades organiza-
das cessaram progressivamente, sem interveno diplomtica e sem que um dos
adversrios tivesse conquistado a vitria decisiva. Portanto, os dois Estados no
trocaram "presentes", estes smbolos essenciais das relaes internacionais.
    O califado foi mais exitoso quando, combinando diplomacia e ao militar,
obteve trguas (por exemplo, o Lafiyar Togo com Kebbi, de 1886 a 1874) ou
tratados com comunidades vizinhas de menor importncia, s quais oferecia a
sua proteo (amana), em contrapartida de um imposto. Em algumas regies,
este imposto, estabelecido em uma base coletiva, deveria ser pago na forma
de escravos ou produtos txteis, assemelhando-se portanto ao imposto pago
pelos emirados. Entretanto, ns ignoramos em qual medida o montante do
imposto (por habitante) diferia do montante cobrado junto aos muulmanos
do califado.
    Alm dos aspectos diplomtico e militar, o instrumento mais comumente
utilizado na poltica das relaes entre Estados era o instrumento econmico. A
destruio das colheitas e celeiros pelos soldados no representava seno um dos
meios empregados. Alguns grupos, a exemplo dos tuaregues, podiam encontrar
o bloqueio do seu acesso aos mercados, poos ou ao direito de comprar certos
produtos, como cereais. Haja vista as variaes pluviomtricas anuais, tais medi-
das podiam ser muito eficazes. Menos eficazes eram, por exemplo, os embargos
sobre a exportao ou importao de cavalos, armas, sal e alguns tipos de tecido,
em virtude da enorme dificuldade em se manter o completo bloqueio de uma
cidade ou regio e dos elevados lucros gerados pelo consequente contrabando.
Todavia, os danos causados ao comrcio exterior do califado pelos ataques dos
ningi e dos mbutawa, por exemplo, eram suficientemente srios, a ponto de pro-
vocarem uma reao. As graves disputas e a interrupo do comrcio dos cereais,
produzidas durante a jihad, haviam transformado homens como Muhammad
Bello, tornando-os extremamente sensveis  importncia consistente em faci-
litar as trocas, mantendo abertas as rotas comerciais, criando mercados e apli-
cando leis para garantir a honestidade das transaes. Por conseguinte, como
662                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



a economia do califado era pouco produtiva e os povos vizinhos dependiam
de mais e mais do sistema comercial e dos mercadores do califado, a poltica
econmica tornou-se progressivamente, para este ltimo, um instrumento de
dominao mais eficaz que a guerra.

      A estrutura poltica dos emirados
   Neste captulo no seria cabvel estudar separadamente a evoluo de cada
um dos emirados. A minha inteno consiste em compar-los, para permitir
evidenciar as principais diferenas que existiam entre eles, assim como poste-
riormente formular algumas observaes gerais sobre a sua estrutura social.
   Embora, inicialmente, a funo do emir fosse teoricamente acessvel a nume-
rosos candidatos, em todos os emirados - com exceo de somente um -, o
emir era escolhido com base nos princpios de hereditariedade e ancianidade de
uma determinada linhagem; em alguns emirados, muitas ramificaes de uma
linhagem "real" alternavam-se no trono. Foi somente em Zaria que o emir era
escolhido, alternadamente, em trs linhagens completamente distintas.
   A natureza e a repartio dos cargos oficiais variavam em cada emirado;
contudo, pode-se distinguir, por via de regra, dois tipos de estruturas polticas,
cada qual subdividido em dois subtipos:
      1. Os emirados apoiados em importantes e coerentes grupos, nos quais
         alguns dos mais importantes postos da administrao central e regio-
         nal eram repartidos entre os membros destes grupos ou entre aqueles
         a eles associados. Os titulares destes postos transmitiam-nos aos seus
         descendentes com o correlato patrimnio. Estes emirados, fundados na
         linhagem, eram subdivididos em duas subcategorias:
         a) Aqueles emirados, tais como Zaria e Kano, onde os principais funcio-
              nrios (aqui compreendidos os parentes do emir) residiam na capital
              e formavam o conselho do emir, contando com recurso de delegados
              para administrarem os territrios sob a sua responsabilidade.
         b) Os emirados, outros, tais como Sokoto e Katagum, nos quais os fun-
              cionrios da administrao regional (aqui includos os parentes do
              emir) residiam fora da capital; o conselho do emir era, nestes casos,
              constitudo por conselheiros designados a ttulo pessoal e desligados
              dos grupos de presso determinados; estes conselheiros atuavam
              como intermedirios entre o emir e os potentes funcionrios que
              residiam fora da capital.
O califado de Sokoto e o Borno                                               663



    2. Os emirados (uma pequena minoria) que no se apoiavam em um ou
        vrios grupos importantes, mas sobre um conjunto heterogneo de indi-
        vduos, pessoalmente ligados ao servio do emir, como amigos ou escra-
        vos. No foi criada, nestes emirados, nenhuma dinastia de funcionrios e,
        por conseguinte, nenhum posto permanente acompanhado de correlato
        patrimnio (com exceo, bem entendido, do caso do emir). Estes emi-
        rados (fundados na clientela) subdividiam-se em duas subcategorias:
        a) Em um emirado como aquele de Hadejia, o poder era estvel e con-
             centrado nas mos do emir, em sua capital; a administrao igual-
             mente contava com grande nmero de escravos; o conselho do emir
             no tinha carter oficial e no possibilitava o encontro de diversos
             grupos de interesse.
        b) Emirados, tais como Ilorin ou Nupe, ou a administrao do
             al-Kanmi, no Borno, foram, ao menos durante um curto perodo,
             diarquias: o soberano tradicional observava a sua corte, ao passo
             que o mallam (em Nupe e Ilorin) ou o xeque (no Borno) dirigia
             a sua prpria administrao centralizada, fundada em relaes de
             clientela.
    Os emirados do segundo tipo geralmente conheciam a guerra civil. Nas
diarquias, o soberano tradicional foi rapidamente eliminado (nos anos 1830
em Nupe e Ilorin, e em 1846 no Borno), entretanto, a sua eliminao no
trouxe necessariamente a paz. Guerras civis eclodiram entre pretendentes no
seio da dinastia do emir, em Hadejia, Nupe e no Borno; nem Hadejia, nem
Nupe, tiveram governos estveis antes de 1860, aproximadamente. Uma estru-
tura poltica do tipo 1 (a) foi ento estabelecida em Nupe (como em Zaria,
embora aqui houvesse um lao de parentesco entre as linhagens mediante as
quais o emir era escolhido alternadamente), ao passo que Hadejia e Borno
conservaram um governo fundado nas relaes de clientela, controlado por
um emir possuidor do poder supremo e apoiado por um importante grupo
de escravos reais.
    Os emirados do primeiro tipo eram mais numerosos e, por conseguinte, mais
variados. O lugar de residncia dos funcionrios ofereceu um critrio cmodo,
embora superficial, caso queiramos distinguir estes emirados entre si. A des-
centralizao dos lugares de residncia supunha a existncia, na capital, de uma
categoria de intermedirios que podemos,  primeira vista, considerar como
"clientes" do emir. Mas, neste sistema poltico, baseado na noo de linhagem,
os intermedirios constituram suas prprias linhagens. Em consequncia, o
emir criou uma nova categoria de clientes entre aqueles que no podiam cons-
664                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



tituir linhagens, a saber, os escravos do palcio; todavia, eles desempenharam
um papel de menor importncia. A centralizao dos lugares de residncia, em
contrapartida, no supunha intermedirios entre o emir e a sua administrao;
no entanto, o emir finalmente transformou alguns escravos do palcio em seus
agentes pessoais, confiando-lhes importantes funes polticas. A centraliza-
o dos lugares de residncia igualmente significava que um funcionrio podia
administrar cidades, localidades ou populaes muito dispersas (situao que
impedia a formao de centros de poder regionais). Ao contrrio, a sua descen-
tralizao geralmente significava que o alto-funcionrio residia em uma regio
que lhe fora submetida em seu conjunto, com a possvel exceo de algumas
localidades ligadas a outra administrao.
    O lugar de residncia dos funcionrios no oferecia, portanto, um critrio
muito preciso. Numerosos emirados modificaram, no transcorrer do sculo, as
suas regras relativas ao lugar de residncia de diversos funcionrios. No emirado
de Bauchi, por exemplo, o madaki, que residia em Wase, exerceu novamente as
suas funes na capital, a partir do incio do sculo. Era frequente que os fun-
cionrios tivessem muitos lugares de residncia e no se sabe exatamente quanto
tempo eles passavam em cada uma delas, tampouco se conhece a frequncia dos
deslocamentos realizados pelos funcionrios residentes fora da capital, com o
objetivo de irem at ela e participarem de importantes reunies. Finalmente, a
importncia relativa dos postos da administrao podia evoluir; em um emirado,
como aquele de Bauchi, tudo leva a crer que ora a administrao central, ora
administrao de certas regies tenham detido os mais relevantes poderes. O
lugar de residncia dos funcionrios reflete melhor a situao de cada emirado
no incio da sua histria e permite atrair a ateno sobre importantes diferenas,
existentes entre os emirados nos planos econmico e poltico.
    A estrutura poltica dos emirados do tipo 1 (b) (ou seja, aqueles nos quais
os funcionrios da administrao regional residiam fora da capital) respondia 
exigncia fundamental da jihad, consistente em estabelecer e defender fronteiras
no interior das quais a economia do emirado pudesse se reerguer. Estes emira-
dos, desprovidos de cidades e de concentraes populacionais sedentrias sobre
as quais pudessem se apoiar, estavam em uma situao muito precria no plano
militar. Inicialmente, grande parte da mo de obra e do tempo disponveis foi
empregada na construo das fortalezas (tradicionalmente designadas no isl
sob o nome ribt, nas quais os habitantes eram chamados murbitn), assim
como na organizao da agricultura frente aos ataques e s ameaas de ataques.
Ademais, quando pastores deviam ser sedentarizados ou uma populao no
mulumana devia ser assimilada no emirado, era preciso ajud-los a adaptarem-
O califado de Sokoto e o Borno                                                  665



-se s atividades e regras da vida mulumana nas ribt. As obras dos dirigentes
reformistas e as cartas trocadas entre eles oferecem uma excelente ideia sobre
os problemas encontrados a este respeito.
    No plano econmico, os emirados sofriam com uma penria crnica de mo
de obra. As rotas comerciais ainda no estavam bem estabelecidas e bem pro-
tegidas. No havia terras suficientes, passveis de cultivo sem incorrer no risco
de ser atacado por populaes em trnsito ou hostis. Em suma, no se deve
subestimar a precariedade da situao de alguns emirados no incio do perodo,
nem tampouco e, por conseguinte, acordar demasiada importncia  estrutura
formal da administrao ou da organizao poltica. Haja vista esta funda-
mental instabilidade, o maior perigo, tanto no incio quanto durante o restante
do sculo, era que um funcionrio potente buscasse tornar-se completamente
independente, solicitando a Sokoto que lhe concedesse o ttulo de emir. Neste
caso, a diplomacia nem sempre lograva impedir um conflito armado.
    Ao longo do sculo, os postos da administrao central tenderam a ganhar
maior importncia, comparativamente queles da administrao regional, com
uma ou duas possveis excees. Por conseguinte, os funcionrios desta ltima
administrao (particularmente os parentes do emir com pretenses relativas
 sucesso) tenderam a residir preferencialmente na capital, visando preservar
a sua situao. Esta tendncia estava ligada ao crescimento demogrfico e ao
estabelecimento de uma maior segurana nas fronteiras,  assimilao progres-
siva, pela sociedade mais homognea do califado, de grupos antes distintos, bem
como  oficializao do papel do emir, na qualidade de nica fonte do poder
no emirado.
    Os emirados do tipo 1 (a), cujos principais funcionrios residiam na capi-
tal, oferecem um leque de situaes muito heterogneas no incio do califado.
Somente os emirados de Kano e Zaria apresentavam as condies exigidas
para que uma "corte" importante pudesse se desenvolver na capital, porque esta
ltima j estava construda, bem como em razo da produo agrcola e das
redes comerciais j estarem bem organizadas. Embora as cidades, tambm neste
contexto, tivessem sido batizadas ribt, a defesa do territrio colocava menos
problemas que alhures, pois que a vasta populao sedentarizada no estava
disposta  rebelio e os reis depostos de Kano e Zaria no representavam uma
real ameaa em seu longnquo exlio.
    A potncia econmica destes emirados tornava-os financeiramente indispen-
sveis e estabelecia o risco, caso o emir lograsse estabelecer um poder indivisvel,
de incit-los a se colocarem como rivais do califa. Eis a razo do objetivo da
administrao do califado, assim como dos grupos que no podiam alcanar a
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funo do emir, relativo a impedir uma excessiva concentrao do poder. Em
Zaria, o problema foi resolvido atravs da escolha dos emires e de alguns impor-
tantes funcionrios de modo alternado nas trs distintas linhagens; alm disso, o
califa no hesitava em depor os emires de Zaria; finalmente, estes ltimos jamais
reinaram por muito tempo (os dois reinos mais duradouros no existiram alm
de quatorze anos). O inconveniente desta situao era que, por vezes, o emir
tornava-se um incapaz. Em Kano, contrariamente, a longa guerra civil posterior
 chegada do segundo emir, Ibrhm Dabo, bem como a durao do seu reinado
(27 anos, de 1819 a 1846), interditaram o recurso  alternncia para limitar a
concentrao do poder. O poder dos alto-funcionrios nos territrios por eles
administrados, a sua independncia como conselheiros, bem como a sua influn-
cia na designao dos emires, estavam garantidos - todavia no completamente,
haja vista que o segundo reinado de 27 anos, aquele do quarto emir, `Abdullh,
filho de Dabo, ainda concentrou fortemente os postos e os recursos nas mos
dos seus familiares. Caso suponhamos que ele tenha detido o poder, o califa
de Sokoto no tinha razo legtima para depor o emir de Kano. O nmero de
pessoas, susceptveis de ocuparem um cargo na administrao, diminuiu por-
tanto rapidamente (em razo deste direito ser transmitido de pai para filho).
Os "excludos" sofriam com um relativo empobrecimento e com uma perda de
prestgio, os quais igualmente atingiam os seus descendentes e dependentes.
Portanto, era forte a concorrncia entre os membros da linhagem "real" e esta
situao provocou uma guerra civil que rasgou o emirado de 1893 a 1895. A
concentrao da administrao na capital no somente custava sempre mais,
em razo da necessidade de se manter uma classe de funcionrios cujo nmero
aumentava rapidamente e com possibilidades de transformar-se em classe diri-
gente (inicialmente, talvez somente Kano e Zaria possussem os meios), mas,
alm disso, esta concentrao podia igualmente provocar um conflito no corao
do emirado. Em contrapartida, as guerras civis que atingiram, ao final do sculo,
emirados do tipo 1 (b), aqueles de Gombe e Katagum, foram guerras centr-
fugas. Paradoxalmente, no emirado de Bauchi, foi necessrio descentralizar a
administrao para prevenir revoltas centrfugas. Entretanto, ao diminuir ainda
mais a importncia dos postos que os parentes do emir podiam ocupar na capital
(na qual, ao final de um perodo de centralizao, a administrao do palcio,
composta de conselheiros pessoais do emir e de escravos-funcionrios, tornara-
-se relativamente potente), a descentralizao no provocou seno o aumento
da concorrncia para um nico posto verdadeiramente importante que restara,
o posto do emir. Deste estado de coisas resultou uma guerra desastrosa que
devastou a capital e o seu entorno, aproximadamente em 1881-1882.
O califado de Sokoto e o Borno                                                667



   No caso de Katsina, a centralizao inicial, relativamente limitada e fundada
na linhagem, sob a influncia do militarismo cedeu lugar a um poder palaciano,
de mais em mais autocrtico. Esta transformao operou-se sem desordens civis,
parcialmente porque as zonas perifricas sempre haviam gozado de considervel
autonomia; era precisamente a prosperidade econmica destas zonas que dimi-
nua a importncia dos funcionrios da administrao central.
   At o presente momento no consideramos seno os escales superiores da
administrao. Em seus escales inferiores, esta ltima apresentava uma maior
uniformidade, assemelhando-se quela das outras regies da frica Ocidental.
As unidades menores - lares ou acampamentos - eram agrupadas no seio de
unidades mais importantes, definidas territorialmente ou atravs das relaes de
parentesco, s quais era atribuda a maior relevncia na sociedade pastoril, entre
tuaregues e fulbes, comparativamente ao papel por elas desempenhado junto aos
agricultores; igualmente, os pastores conservaram os seus prprios ardo' en ou
tambura como chefes. A sua coeso conferia-lhes uma potncia poltica da qual
no dispunham os cultivadores, menos unidos; porm esta relativa superioridade
no durou alm de meados do sculo.
   As cidades e as mais importantes localidades, criadas h muito tempo, esta-
vam recortadas em setores cujos representantes subordinavam-se a um chefe
escolhido entre eles, chamado may gari, magaji, dagaci ou mukoshi. A ligao
entre estes representantes e o poder central era assegurada por servios ou por
agentes da administrao local chamados jakadu. Igualmente, o contato entre
a administrao e o emir era garantido por mensageiros. A tarefa essencial da
administrao consistia em receber os tributos, embora, neste caso, a ao fosse
tanto poltica quanto econmica: pagar o imposto representava, outrossim, um
ato simblico de submisso, ao passo que, recusar-se a pag-lo representava um
gesto de rebeldia. Naquilo que diz respeito  arrecadao do imposto, a admi-
nistrao era convocada a recolher informaes de ordem poltica; a ratificar
as nomeaes; a recolher uma parte das heranas; a administrar os bens dos
estrangeiros que, em trnsito, tivessem falecido no emirado; a encarcerar os
criminosos e escravos fugitivos; a assegurar a presena dos defensores nas con-
trovrsias judiciais civis; a conceder a liberdade s pessoas detidas injustamente
ou constrangidas a pagarem fianas; a atuar como mediadora nos litgios inso-
lveis ou a comparecer, ela prpria, perante o tribunal pessoal do emir, quando
fosse acusada de malversao ou, finalmente, em tempos de guerra, a organizar
as operaes de recrutamento. Correspondncias de funcionrios, conservadas
pelos seus descendentes, oferecem-nos uma imagem daquilo que seria a admi-
nistrao, ao final do sculo XIX, em Sokoto, Gombe e Bauchi.
668                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



      A estrutura social
    A sociedade prpria ao califado compreendia, em linhas gerais, dois compo-
nentes. O primeiro, baseado nos funcionrios, comportava alm destes ltimos,
os seus parentes, letrados, clientes e escravos; o outro abrangia agricultores,
comerciantes e diversos artesos, cujo trabalho contribua para a complexa e
prspera economia do califado, assim como para os seus escravos. A demarca-
o entre as duas categorias jamais foi muito ntida e era possvel transitar de
uma categoria a outra. Letrados e escravos, em especial, podiam ligar-se a cada
uma das duas categorias. Por exemplo, os letrados encontravam-se distantes de
tenderem todos em favor da categoria dos funcionrios; esta postura conduzia-
-os a um modelo de devoo segundo o qual as funes administrativas no
possuam o seu espao, extraindo a sua inspirao junto ao fundador do califado
'Uthmn dan Fodio.
    Os funcionrios, bem como aqueles a eles eventualmente associados,
caracterizavam-se pela sua fraca mobilidade. Quando eles deixavam o emirado,
no qual tinham o direito de ocupar um posto oficial, perdiam este privilgio em
seu exlio, inclusive nos casos em que eram autorizados, por concesso, a con-
servarem o seu ttulo. Em contrapartida, nada impedia aos sujeitos ordinrios
de abandonarem um Emirado rumo a outro; atitude tomada sempre que eles se
julgassem vtimas de uma represso excessiva. Como os escravos dificilmente
podiam mover-se sem evitar a sua captura como fugitivos, eram justamente os
plebeus livres (talakawa) que detinham o controle sobre o comrcio, os trans-
portes e sobre todas as atividades exigidas pelos deslocamentos; caso necessrio,
eles eram acompanhados dos seus escravos, os quais lhes serviam como ajudantes
ou carregadores.
    Os funcionrios, bem como aqueles a eles eventualmente associados, igual-
mente caracterizavam-se pelo seu interesse atribudo  genealogia, s alianas
dinsticas e s regras, relativamente estritas, de sucesso patrilinear. Em con-
trapartida, os plebeus identificavam-se, por via de regra, com uma regio ou
grupo tnico determinado, pelos traos faciais e costumes especficos; embora
no conhecessem detalhadamente a sua genealogia. Os plebeus exerciam, geral-
mente, o mesmo ofcio que os seus pais; no entanto, no havia sistema rgido
de castas,  imagem de outras regies da frica Ocidental. Ademais, enquanto
as esposas dos alto-funcionrios viviam confinadas nos cmodos da casa a elas
reservados, de onde comandavam grande nmero de concubinas e serviais, as
mulheres dos plebeus gozavam de maior liberdade e, na maioria das regies do
califado, participavam do comrcio, da produo artesanal e da agricultura.
O califado de Sokoto e o Borno                                                                            669



     impossvel avaliar com preciso qual proporo da populao era represen-
tada pelos funcionrios e pelo seu squito. Todavia, estimou-se que os escravos
representavam, relativamente aos homens livres, uma proporo varivel entre
vinte e cinco e cinquenta por cento; entretanto, no sabemos ao certo como
esta proporo foi calculada. O nmero de escravos pertencentes a esta catego-
ria social provavelmente cresceu ao longo do sculo; a importncia dos cargos
que alguns dentre eles ocupavam na administrao certamente aumentou, na
justa medida em que os emires tomavam conscincia da sua necessidade de
apoiarem-se em funcionrios fiis e desprovidos de ambio poltica. Ns no
sabemos como a proporo de escravos variou nos campos; porm,  provvel
que o seu nmero tenha aumentado durante o sculo. Recorria-se ao trabalho
dos escravos para compensar a penria crnica de mo de obra, sobretudo nos
territrios subpovoados, como Sokoto, fundado  margem dos antigos Estados
da regio. Igualmente, as regies das grandes plancies, como Bauchi, requeriam
homens para o trabalho da terra. A porcentagem de escravos reexportados,
com vistas a serem revendidos na costa atlntica ou na frica do Norte, no 
conhecida; no entanto, sabemos que a revenda de certas categorias de escravos
estava submetida a restries e que o trfico diminuiu no transcorrer da segunda
metade do sculo16.
    Os escravos estavam autorizados a possurem bens e podiam dispor do tempo
para trabalhar por sua prpria conta, esperando, com isso, o benefcio da pos-
sibilidade de comprarem a sua liberdade. Os seus proprietrios no tinham,
invariavelmente, suficiente trabalho para atribuir-lhes, e estavam dispostos a
permitir-lhes oferecerem os seus servios a terceiros. Igualmente, era plaus-
vel que um proprietrio concedesse a alforria a um dos seus escravos, para
recompens-lo ou para agradecer a Al por um feliz acontecimento. Neste caso,
tampouco sabemos quantos escravos puderam ser libertos ou qual o ritmo desta
concesso.
    As mulheres escravas podiam casar-se com outros escravos e as suas crian-
as, elas prprias escravas, em geral participavam do servio ao mestre como
domsticas. Uma escrava podia igualmente ter filhos com um homem livre, cir-
cunstncia que conferia a liberdade a esta criana e  sua me, a quem a alforria
seria dada na ocasio da morte do seu mestre. Tal qual nas famlias reinantes, os

16   Todavia, no existe estudo detalhado sobre a escravatura, em todas as suas formas, no califado de Sokoto;
     contudo, vrios estudos tratam deste problema tal como ele se coloca em uma regio e um perodo deter-
     minados. Por exemplo, no que se refere ao emirado de Kano, conferir P. Hill, 1977, captulo XIII; para
     o emirado de Zaria, J. S. Hogendorn, 1977; no tangente ao Adawama, P. Burnham, 1980; em referncia
     ao trfico de escravos em geral, consultar D. C. Tambo, 1976.
670                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



homens apoderavam-se de concubinas antes do seu casamento oficial; os primo-
gnitos eram, muito amide, filhos de concubinas. A lei islmica, contrariamente
 tradio dos pastores fulbes, no estabelecia, em matria de sucesso, nenhuma
distino entre os filhos nascidos de uma esposa livre e aqueles nascidos de uma
concubina. Por conseguinte, certo nmero de emires eram filhos de concubinas;
de fato, a qualidade de filho de concubina era uma condio necessria para que
eles se tornassem "verdadeiros" emires, porque neste caso, indubitavelmente,
no haveria temor de uma possvel influncia da sua famlia materna. A lei
islmica tampouco reconhecia a distino, frequentemente realizada na frica
Ocidental, entre escravos nascidos cativos e aqueles nascidos livres, segundo a
qual os primeiros no poderiam, em princpio, ser separados dos seus pais para
serem vendidos. Embora esta condio continuasse a vigorar em certas regies e
classes (a palavra huassa cucenawa era a mesma no Borno e no Fezzn, onde era
sinnimo de haratin), aparentemente, os reformistas da jihad no interditaram
a exportao de escravos nascidos cativos, seno nos casos de escravos muul-
manos, em particular quando eles deviam ser vendidos a Estados cristos. Estes
escravos pertenciam, desde o nascimento, no a uma linhagem determinada, mas
 sociedade muulmana como um todo. Esta modificao igualmente indica
que os escravos eram mais facilmente comercializveis e, por conseguinte, que
a escravatura era mais amplamente difundida.
    Os escravos no pagavam imposto. Eles geralmente trabalhavam com os
filhos e mulheres do seu mestre, no quadro do gandu (ou seja, por conta do
chefe da casa);  sua imagem, eles consagravam setenta e cinco por cento do seu
tempo de trabalho ao servio do seu mestre; todavia e contrariamente aos filhos
do mestre, eles no podiam contar suced-lo: eles permaneciam sempre "filhos".
Nas comunidades escravistas, pertencentes ao Estado ou a famlias, os escravos
possuam as suas prprias casas e trabalhavam sob a direo do seu chefe; nada
aparentemente distinguia estas comunidades das outras.
    Se os escravos no pagavam imposto, muitos dos seus mestres tampouco o
faziam. No sabemos exatamente quem eram os contribuintes e quanto eles
pagavam em tal ou qual momento. Os habitantes de Sokoto, por exemplo, eram
isentos do imposto fundirio geral, o kurdin kasa, tambm chamado haraji (Kha
radj). Os pastores fulbes pagavam um imposto (jangali) referente aos rebanhos,
ao qual se denominava ora pela nomenclatura oficial, djizya, ora pelo nome zakt
(esmola legal). Aproximadamente em 1850, no emirado de Kano, os agricultores
huassa pagavam cada um cerca de 2500 cauris/ano; ao passo que, no emirado de
Zaria, havia um imposto sobre as enxadas (sem dvida porque as mulheres neste
territrio desempenhavam um papel particularmente importante na agricul-
O califado de Sokoto e o Borno                                               671



tura); talvez pela mesma razo, os maguzawa (huassa no muulmanos) pagavam
a Kano impostos mais elevados que os outros habitantes do emirado. Inclusive,
o imposto era mais oneroso para todas as comunidades no muulmanas, haja
vista o seu estatuto de comunidades tributrias dos Estados muulmanos. Os
comerciantes e alguns artesos, como os tintureiros e os camponeses que culti-
vavam alguns produtos de luxo, pagavam impostos cobrados durante a estao
seca. Em suplemento, doaes anuais eram obrigatrias, por ocasio de festas
ou lutos; era necessrio depositar esmolas e, sem dvida, fornecer vveres s
armadas em trnsito pelo local.  evidentemente impossvel avaliar o montante
de todas estas contribuies, as quais, de todo modo, podiam variar muito sensi-
velmente. Contudo, caso possa permitir-me supor uma estimativa geral, eu diria
que o imposto agrcola basal no representava seno uma frao relativamente
pequena da renda anual; talvez sequer equivalesse a uma jornada de trabalho
por semana, ao longo de toda a estao de trabalhos agrcolas.
    A contribuio dos funcionrios tomava sobretudo a forma de impostos
sobre o direito de herana; impostos a pagar aquando do incio do exerccio
funcional; alm de presentes a oferecer ao emir ou ao califa, por ocasio da sua
nomeao. Eles extraam a sua prpria renda atravs da cobrana de taxas sobre
os impostos que eles arrecadavam, bem como sobre os butins e presentes por
eles recebidos; entretanto, o essencial das suas fontes de renda provavelmente
provinha da explorao das terras cultivadas pelos escravos, as quais constituam
o patrimnio ligado  sua funo oficial ou eram pertencentes  sua famlia.
    Os funcionrios do califado no tinham despesas to ostentatrias quanto
aqueles dos outros Estados. Alm dos cavalos e das vestimentas, os sinais mais
visveis de riqueza correspondiam ao nmero de homens "ociosos" do squito
e  amplitude da sua generosidade. Portanto, era necessrio suficiente volume
de alimentos; mas estes alimentos, salvo algumas raras especiarias, a carne, o
mel, a noz de cola, no eram particularmente refinados. As funes oficiais,
inclusive no caso do califa, tampouco exigiam aparato custoso: nenhum trono
ou banquetas em ouro; nada de coroas ou joias preciosas; sequer fantasias, tais
como a utilizao de tecidos axnti (os altos dignitrios deviam simplesmente
vestir roupas brancas).
    Havia, entretanto, grandes diferenas de fortuna, no somente entre os fun-
cionrios e os plebeus, mas, igualmente, entre os prprios plebeus; a repartio
dos escravos constitua, quanto a isso, o melhor ndice: alguns cultivadores (e
certos escravos) possuam uma centena ou mais destes escravos; todavia, o preo
dos escravos era suficientemente reduzido, a ponto de permitir  maioria das
famlias possurem um ou dois. Os pastores fulbes, por exemplo, utilizavam-nos
672                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



para guardar os seus rebanhos; os maguzawa integravam-nos s suas famlias.
Contudo, a riqueza era algo muito precrio. Uma famlia de cultivadores podia
arruinar-se em poucos anos,  imagem daquela de Baba de Karo17, caso devesse
pagar um resgate e, alm disso, na hiptese de fuga dos seus escravos. Ela podia,
outrossim, ser arruinada pela perda de uma caravana. Em suplemento, em razo
de no momento da morte do chefe da famlia a sua sucesso ser dividida entre
todos os seus filhos, assim como em virtude dos ricos terem tendncia a pos-
surem vrias mulheres e, por conseguinte, filhos, era raro que uma famlia
plebeia conservasse a sua fortuna durante vrias geraes. Finalmente, como
demonstram os escritos dos fundadores do califado e os poemas de inspirao
popular dos letrados, a tica em vigor questionava o valor a ser atribudo, em
ltima anlise,  riqueza e ao luxo.
    Portanto, parece-me provvel que:
         o imposto pago pelos homens livres no fosse geralmente exorbitante;
          quanto aos escravos, as taxas incidentes sobre a sua produo, embora
          bem mais pesadas, no seriam insuportveis, haja vista que provavel-
          mente no ultrapassem a cota de contribuio cobrada de um filho a
          trabalho no gandu do seu pai;
         o nvel de consumo dos funcionrios fosse relativamente baixo; mesmo
          quando, em certas regies como Sokoto, o volume de consumidores era
          provavelmente elevado;
         como a populao do califado era relativamente densa (comparativa-
          mente aos sculos precedentes), a proporo entre o nmero de benefici-
          rios do imposto e de contribuintes permanecesse suficientemente baixa,
          para que a soma das pequenas contribuies, pagas por grande nmero
          de indivduos, fosse suficiente no somente para manter a administrao,
          mas, igualmente, para financiar as despesas ostentatrias que, no califado,
          estavam na base das diferenas sociais;
         finalmente, conquanto os ganhos obtidos atravs do comrcio exterior no
          constitussem a principal fonte de renda, aqueles mais relevantes, que podia
          prover a exportao de escravos, fossem aparentemente suficientes para
          permitir enfrentar qualquer deficit. Entretanto, em que pese a demanda
          das exportaes, muitos escravos permaneciam no califado. Por outro lado,
          este ltimo no detinha,  imagem de outros Estados, o monoplio sobre
          a extrao do ouro ou do sal e, tampouco, de certas culturas como aquelas


17    M. Smith, 1954. Baba evoca, bem entendido, acontecimentos posteriores a 1880.
O califado de Sokoto e o Borno                                                 673



         da coleira e da palmeira; ele no possua o monoplio sobre as licenas
         comerciais, os transportes e as importaes (o que corresponderia impor
         um ponto de passagem obrigatria). Aparentemente, na realidade no
         houve sequer o monoplio da fora. Caso esta anlise da economia do
         califado esteja exata - baixo nvel de explorao dos recursos e limitado
         controle estatal -, isso indica a existncia de um potencial excedente de
         riquezas e fora de trabalho, suficiente para favorecer o desenvolvimento
         das trocas e da produo durante a segunda metade do sculo.
    O fundamento econmico desta expanso  a infraestrutura agrcola, implan-
tada pelo califado graas a considerveis investimentos em mo de obra cuja
composio, inicialmente, devia-se em grande parte  importao de escravos.
As terras foram desmatadas e progressivamente fertilizadas, atravs de uma
drenagem metdica, pela rotao das culturas e graas ao emprego do esterco
dos rebanhos que os novos cultivadores desde antes possuam. As rotas segui-
das pelos rebanhos foram delimitadas com cercas; poos foram escavados para
suprimir a necessidade do transporte de gua; as ribt, recentemente fortificadas,
asseguravam maior segurana. Contudo e provavelmente, a agricultura tambm
se tornou relativamente mais produtiva em virtude de uma melhor diviso do
tempo de trabalho, do estmulo  produo privada, bem como em razo da pos-
sibilidade de dispor de suficiente quantidade de ferro para produzir ferramentas
agrcolas e utiliz-las em larga escala, com finalidades especficas. O shadf sur-
giu em Sokoto e - outra inovao tcnica - criou-se, aparentemente a partir de
um modelo similar ao modelo brasileiro, pequenas plantaes de cana-de-acar,
assim como usinas de beneficiamento. Eu acredito que o aprimoramento da
produo agrcola permitiu a extenso das culturas comerciais, como o algodo,
a cebola e o amendoim (transformadas para rapidamente serem consumidas),
alm de crer que esta prpria extenso tenha provocado um progressivo desen-
volvimento da atividade dos artesos e, igualmente, dos cultivadores, os quais
ademais exerciam as funes relativas ao transporte e  comercializao. Em
funo da falta de documentos,  todavia difcil avaliar e datar, precisamente,
estes progressos; porm, a importncia do investimento global, na agricultura
dos primrdios do califado, no poderia ser negligenciada.

    A evoluo do califado de Sokoto, de 1820 a 1880
   Eu indiquei, em mltiplas passagens deste captulo, as tendncias e as evo-
lues. Talvez fosse til, neste estdio, resumir as transformaes ocorridas,
674                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



dividindo o perodo 1820-1880 em trs fases: uma fase de organizao (1820-
-1845); uma fase de transio e agitao (1845-1855); e uma fase de expanso
econmica (1855-1880).

      18201845
    O perodo de 1820-1845 foi dominado por dois imperativos: primeiramente,
a necessidade de se defender contra os ataques dos povos vencidos ou deslocados
por ocasio do estabelecimento do califado e, em segundo lugar, a necessidade
no somente de reconstruir uma economia agrcola desorganizada pela guerra e
pela pilhagem, mas, do mesmo modo, de integralmente criar unidades agrcolas
e militares com indivduos que, em muitas ocasies, ainda no haviam conhecido
similar experincia.
    Para vencer esses desafios, eram necessrios chefes de considervel carisma e
com um esprito de corpo originado, junto aos muulmanos, na sua f comum
e, no que diz respeito aos fulbes, em seu orgulho de pertencerem a este grupo.
Existia, igualmente, um sentimento de urgncia, pois que se acreditava no emi-
nente fim do mundo e porque, em certos emirados, a vida era ento muito
precria.
    A histria deste perodo reduz-se, portanto e frequentemente, a uma crnica
relatando as campanhas,  fundao de tal ou qual ribt ou ao controle de tal
ou qual cidade, indicando o nmero de mortos ou prisioneiros. O califado no
conheceu, durante este perodo, as grandes fomes, as epidemias e as invases
de gafanhotos que haviam marcado os anos da jihad. Trata-se tambm de um
perodo de relativa estabilidade poltica interna, durante o qual as administra-
es comearam a se formar e os cargos (os quais em geral conservam a sua
antiga nomenclatura huassa) eram atribudos a homens de cujas informaes
so escassas.
    Kano, Zaria e Katsina so excees, haja vista que a infra-estrutura constitu-
da pelo antigo Estado huassa neles fora mantida intacta. Entretanto, o comrcio
destas regies sofreu com as hostilidades em relao ao Borno e, ao Norte, com
os tuaregues e os huassa. Em Kano (1819) e Zaria (1821), a ascenso de um
novo emir provocou uma reorganizao do sistema poltico. Em Zaria, esta
reorganizao produziu-se sem a transformao das ameaas em atos concretos
de violncia. Em Kano, o emir foi obrigado a reprimir um vasto movimento de
revolta dirigida pelo seu prprio galadima e a caar o chefe muulmano Dan
Tunku, quem posteriormente tornar-se-ia emir de Kazaure.
O califado de Sokoto e o Borno                                                                        675



    Ao final deste perodo, os emirados estavam solidamente implantados, com
exceo de Nupe. Por toda parte, salvo no emirado de Hadejia, capitais haviam
sido construdas e, segundo relatos de viajantes europeus concernentes ao Nger,
o comrcio era bem organizado, malgrado as incertezas relativas  situao em
Nupe e apesar de uma certa inflao. A administrao do califado se havia
demonstrado ativa, intervindo em Zaria no tocante  nomeao de alguns fun-
cionrios do emirado. Finalmente, por volta de 1840, o perigo de invaso dimi-
nura consideravelmente.
    A vida intelectual, durante este perodo, se reflete na produo ininterrupta
de livros, poemas e cartas que o califa Muhammad Bello escreveu em rabe,
versando sobre temas muito variados, desde o direito constitucional, passando
pela medicina, at o misticismo. Porm, ele no  o nico a escrever, o seu vizir
Gidado escrevia obras de histria e a sua irm, Asma, poemas; em suplemento,
deve-se grande nmero de escritos aos parentes e discpulos do xeque. Visi-
tas, cartas e poemas enfatizando a adeso comum  Kadiryya foram trocados
com o xeques Kunta de Tombuctu e com Qamar al-Dn. O califa igualmente
recebeu a visita de al-Hadjdj `Umar, quem logrou, aps uma permanncia de
cerca de oito anos, traduzir alguns letrados de Sokoto e alhures para o wird
tijni. Durante todo este perodo, o esprito da jihad no deixou de inspirar os
letrados, os quais continuaram a gozar de um papel importante na vida poltica
da maior parte dos emirados. Um exemplo tpico  aquele do emir de Kano,
Ibrhm Dabo, quem encontrou tempo para escrever uma obra sobre a prtica
do misticismo, embora tenha sido, inclusive, assaz realista ao restabelecer, com
a permisso do califa Muhammad Bello, alguns smbolos e prticas huassa
anteriores  jihad, afim de fortalecer a sua autoridade sobre os huassa. Entre-
tanto, este perodo foi sobretudo marcado pelo desenvolvimento da educao,
tanto na cidade quanto nas localidades menores. No dispomos de estatsticas
para o sculo XIX; todavia, estimou-se a existncia de 40.000 mallam em 1920
(portanto, provavelmente mais em 1900, antes da imigrao); tambm sabemos,
que grande nmero de letrados e estudantes haviam falecido durante a jihad,
no somente em razo de guerra, mas, igualmente, em funo de doenas e da
fome18. O papel desempenhado pelas mulheres, no curso dos primeiros anos da
educao cornica das crianas no seio das grandes famlias,  um dos fatores


18   O recenseamento de 1921 situa 34.903 mallam sob a rubrica "professores", indicando todavia cerca de
     46.000 pessoas no exerccio da profisso de mallam e embora reconhecendo que, bem entendido, as
     duas categorias estivessem, sobrepostas. Estes nmeros devem naturalmente ser tratados com precauo.
     Conferir C. K. Meek, 1925, vol. II, pp. 218, 226 e 256-257.
676                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



deste desenvolvimento; no entanto, tambm devemos levar em conta a difuso
da poltica consistente em copiar os manuais, derivada da aparente possibilidade
em se obter papel em maior quantidade e a um custo inferior, comparativamente
a perodos precedentes.

      18451855
   Estes dez anos representaram uma transio, marcada por grandes mudan-
as. Trata-se de um perodo decisivo, durante o qual o esforo realizado para
estabelecer um Estado estvel, baseado em princpios islmicos, foi temporaria-
mente ameaado. A causa principal destas mudanas foi, to simplesmente, o
envelhecimento. Em 1840, os reformistas que haviam dirigido a jihad estavam
envelhecidos e estes lderes morreriam, uns aps os outros, ou aposentar-se-iam,
aps terem governado por mais de trinta anos: Buba Yero de Gombe, em 1841;
Atiku de Sokoto, em 1842; Yakubu de Bauchi, em 1845; Sambo de Hadejia,
em 1845, Dan Kawa de Katagum, em 1846; Ibrhm Dabo de Kano, em 1846;
e Adama de Adamawa (Fombina), em 1848. Os emirados orientais foram os
mais atingidos; por outro lado, no Oeste, o emir de Yauri perdeu o poder de
1844 a 1848 e aquele de Nupe foi substitudo por um chefe de mercenrios, de
1847 a 1856.
   Na esfera militar, multiplicaram-se as ameaas e derrotas. Em 1843 e 1844,
os katsinawa refugiados no Maradi desencadearam, no Oeste do emirado de
Katsina, um grave levante, reprimido pelas foras aliadas de seis emirados; a
zona rebelde foi com tamanha severidade punida pelo emir de Katsina que
o califa foi obrigado a destitu-lo. Muito mais graves foram a sublevaes em
Zaberma, Kebbi e Gobir, de 1849 a 1854, as quais puseram em perigo Sokoto e
Guandu; assim como a rebelio dirigida por Bukhari, em Hadejia, que ao final
das contas levou  derrota de Sokoto. A autonomia de Hadejia, em vigor de
1843 a 1863, provocou a devastao e uma grande fome, em larga escala, bem
como o assujeitamento de populaes inteiras. Em 1847, o emirado de Kano
pela primeira vez conhecera a fome, aps vrias dcadas, de modo que as guerras
travadas por Bukhari tiveram como efeito prolongar esta fome durante muitos
anos ao leste do emirado.
   Finalmente, movimentos intelectuais e religiosos provocaram emigraes
durante o decnio 1845-1855. O lanamento do livro de al-Hadjdj `Umar, em
1845, atiou a controvrsia referente  confraria da Tijniyya e, em particular,
acerca do interesse que lhe teria conferido o califa Muhammad Bello - assunto
O califado de Sokoto e o Borno                                                                          677



que levou os vizires de Sokoto a redigirem longas cartas contestatrias19. O
primeiro-ministro do emir de Guandu, Modibo Raji, quem igualmente era um
eminente letrado da poca da jihad, pediu demisso aproximadamente em 1850,
revelando que pertencera secretamente  Tijniyya e, posteriormente, partindo
rumo ao Leste para estabelecer-se em Adamawa. Outros tijn, vindos de Kano,
juntaram-se a ele, ao passo que Zaria tambm se tornava um polo de atrao para
os letrados tijn. Uma linhagem "real", os mallawa, aderiu  Tijniyya, entretanto
o nico emir tijn de Zaria no sculo XIX, Sd `Abd al-Kdir, foi deposto aps
nove meses de reinado, em dezembro de 1854. Associados, talvez erroneamente,
a este movimento, Mallam Hamza e quinze outros letrados deixaram Kano em
sinal de protesto e, finalmente, estabeleceram-se no Ningi; em seguida, eles orga-
nizaram um Estado nessa regio de onde incurses foram realizadas, com sucesso,
contra os emirados de Kano e Bauchi. Por volta de 1855, um certo Ibrhm Sharf
al-Dn, sem dvida fortalecido em seus objetivos pela situao econmica reinante
no Leste do emirado de Kano, logrou xito em conduzir numerosos sujeitos de
Kano e dos emirados orientais para uma vasta migrao de inspirao mahdista
rumo ao Leste, onde foram massacrados no Baguirmi.
    Malgrado todas estas revoltas, certos sinais de estabilidade subsistiram.
Justa e finalmente, esta estabilidade do sistema deve consistir em seu trao
mais notvel. Durante todo o perodo considerado, as duas principais figuras
do califado, o emir de Guandu, Khall, cujo reinado durou de 1833 a 1858
sem contudo tomar parte nas operaes militares a partir de 1849, e o jovem
califa `Al b. Bello (1842-1859) permaneceram no exerccio das suas funes, 
imagem de vrios jovens emires ao Leste do califado. Ns conhecemos, parti-
cularmente bem, a situao geral do califado no perodo em questo, graas ao
dirio do viajante Heinrich Barth, habitante da regio de 1851 a 1855. Barth
nota um sentimento de insegurana; entretanto, nada em seu relato indica o
reinado da desordem, situao plausvel em razo das revoltas acima evocadas.
O ajudante huassa de Barth, Dorugu, nesta poca escravo na fronteira entre o
emirado Daura e o Damagaram, forneceram, todavia, um testemunho pessoal
sobre os efeitos que as incurses e a fome exerciam na vida dos cultivadores e
das suas famlias20.


19   U. al-Ft, 1845. Sobre a controvrsia, consultar M. Last, 1967a, pp. 215-219. No tangente a relaes
     em certa medida divergentes sobre a carreira de al-Hadjdj `Umar, conferir J. R. Willis, 1970, e O. Jah,
     1973.
20   H. Barth, 1857. A autobiografia de Dorugu est reproduzida em: A. H. M. Kirk-Greene e P. Newman
     (org.), 1971, pp. 29-201.
678                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Talvez seja simplista dizer que, ao longo deste perodo de transio, o poder
tenha passado de uma gerao  sua sucessora, no somente no califado, mas
tambm junto aos seus inimigos, por exemplo no Borno e no Maradi. Mas o fato
concreto  que, dos dois lados da fronteira, a maioria dos emires reinantes por
volta de 1855 permaneceu no exerccio das suas funes ainda durante quinze
ou vinte anos, efetivamente constituindo em conjunto uma nova gerao. Cabe
observar que o califado e os seus vizinhos no eram os nicos Estados do mundo
que, aps terem vivido uma grande revolta no incio do sculo, conheceram um
perodo crtico nos idos de 1850; refiro-me, evidentemente, ao Egito,  Frana,
 ustria e  Itlia. Aquilo que caracteriza a dcada, tanto no califado quanto
nestes pases,  o mal-estar intelectual que, tudo leva a crer, conduziu ao ques-
tionamento da legitimidade do Estado, em nome dos prprios princpios que
este ltimo supostamente deveria encarnar. Ainda no sabemos exatamente
porque este mal-estar manifestou-se  luz do dia, nem qual foi a reao dos
letrados ligados ao regime; porm, haja vista a natureza da controvrsia e dos
antagonismos, certo nmero de documentos escritos chegaram s nossas mos
a este respeito. Tenho a impresso que nesta poca a comunidade dos letrados
dividiu-se, de forma duradoura, em dois campos, uns renunciariam doravante a
ocuparem-se dos assuntos do Estado, outros tentariam preservar uma adminis-
trao islmica. Cinquenta anos mais tarde, quando as potncias coloniais crists
impuseram o seu domnio, um problema similar causou semelhante diviso,
porm o desafio era ento mais claro.

      18551880
    O mais notvel resultado dos acontecimentos ocorridos entre 1845 e 1855
foi o estabelecimento do status quo poltico, aceito tanto pelo califado quanto
por numerosos dentre seus inimigos. Em 1863, com a morte do emir rebelde
Bukhari, Hadejia foi, automtica e novamente, submetida  autoridade do califa.
Inclusive em Nupe, as guerras civis interromperam-se ao final de 1859. Nupe
tornou-se, pela primeira vez, uma entidade poltica estvel: entretanto, este fato
ocorreu em detrimento dos seus vizinhos do Norte, onde um novo emirado,
Kontagora, formava-se na fronteira do emirado de Yauri, de Nupe e do emirado
de Zaria. Kontagora atraiu os aventureiros, muitos dentre os quais de sangue
"real", que no podiam satisfazer as suas ambies nos emirados existentes. Estes
aventureiros eram igualmente atrados por outras regies, notadamente aquela
da fronteira entre os emirados de Zaria e de Bauchi e, no Leste, pelos emirados
semiautnomos de Adamawa. Entre os imigrantes, no havia peregrinos; porm
O califado de Sokoto e o Borno                                                        679



no existiam somente guerreiros. Os elementos mveis da populao, de origem
tanto externa quanto interna ao califado, no mais praticavam os ofcios das
armas; alguns viviam do transporte, do comrcio ou da caa de elefantes, em
razo do marfim e, posteriormente, da extrao do ltex. Estes homens, qual
fosse a sua origem, eram geralmente chamados "huassa", o que indicava per-
tencerem no a um determinado grupo tnico, mas  sociedade mais ampla do
califado, com a sua economia atomizada e complexa e a sua lngua veicular21.
    Ao longo deste perodo, a histria dos emirados apresenta duas caracters-
ticas principais. A primeira  representada pela paz e pela estabilidade relativas
das quais gozava a regio. Incurses e ataques prosseguiram, no entanto, no
se tratava de invases capazes de colocar o califado seriamente em risco ou de
derrub-lo. Igualmente, os emires prosseguiram com as suas atividades militares,
contudo, os adversrios se neutralizavam. Os inimigos do califado haviam, eles
prprios, estabelecido regimes polticos estveis. Foi justamente aps 1880 que
a regio recomeou a viver crises.
    A segunda importante caracterstica  a expanso econmica do califado,
da qual testemunham os seguintes fatos: a valorizao de novas terras; o esta-
belecimento de novas comunidades e o prosseguimento da imigrao de mo
de obra livre ou servil; o crescimento quantitativo dos mercadores e trans-
portadores estabelecidos em pas huassa, nas principais vias comerciais e em
atividade comercial ligada aos principais produtos, situao que aparentemente
indica a vinda e a instalao de mercadores estrangeiros nas cidades huassa;
o aumento do raio de ao dos mercadores huassa em direo a novas zonas
situadas distante das fronteiras do califado, com a simultnea adoo do cauri
como moeda nestas regies; a elevao das exportaes de tecidos processados
e outras mercadorias para outras regies do Sudo ocidental, assim como, por
exemplo, das exportaes de marfim e manteiga de carit para a Europa e o
aumento nas importaes de produtos muito apreciados, como a noz-de-cola e
diversos produtos europeus. Tudo leva a crer que se teria facilmente encontrado a
mo de obra suplementar necessria no somente para a produo, mas tambm
para o transporte e o acondicionamento: por exemplo, embora Michael Mason
tenha calculado serem necessrios 1.500 potes para acondicionar somente 25
toneladas de manteiga de carit, as exportaes de manteiga de Nupe passaram
de 120 para 1.500 toneladas entre 1871 e 187822.


21   Sobre a dispora huassa, consultar M. Adamu, 1978.
22   M. Mason, 1970, captulo 3. No tocante aos tecidos, conferir P. J. Shea, 1974.
680                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    O desenvolvimento econmico foi acompanhado de inflao. Todavia, 
impossvel conhecer com preciso no somente as consequncias sociais desta
inflao, mas, inclusive, as suas caractersticas e, tampouco, as especificidades
locais. As taxas de cmbio publicadas por Marion Johnson mostram que o dlar-
-moeda, equivalente a 2.500 cauris em 1855, era trocado por 5.000 cauris em
189023. De acordo com os nmeros fornecidos por M. G. Smith, os impostos
aparentam ter aumentado quase no mesmo ritmo, ao passo que, segundo os
preos mencionados por Barth e outros viajantes que posteriormente visitaram
o califado, o custo de vida, ao menos para os ricos, teria aumentado duas vezes
mais rapidamente24. Caso as estimativas estejam aproximadamente corretas,
isso significaria que a baixa nobreza, captando recursos medianos, embora no
provindos da esfera estatal, tampouco da venda de escravos ou do comrcio
exterior especializado, foi obrigada a sofrer uma reduo no seu padro de vida
para progressivamente aproximar-se daquele prprio aos produtores primrios
- cultivadores e artesos, escravos ou livres -, os quais provavelmente tiraram
algum proveito da inflao. Esta evoluo teria permitido avivar a concorrncia
pelos cargos administrativos e, simultaneamente, favorecido as ideias milena-
ristas que continuavam latentes no califado, a ponto de suscitar as imigraes
e as guerras civis que marcaram os vinte ltimos anos do sculo. Estas crises
evidenciavam um fundamental problema do derradeiro perodo do califado: o
perigo do aumento contnuo do nmero de funcionrios, dos seus familiares e
clientes, com as suas respectivas expectativas, a despeito de qualquer recesso
econmica.
    No plano intelectual, o perodo em questo est marcado pelo crescente
emprego da lngua huassa, em detrimento do uso do rabe e do fulfulde, nos
livros e poemas. Familiares do xeque traduziram poemas da poca da jihad, o
que suscita pensar que as ideias e aes dos primeiros reformistas interessavam
a um pblico relativamente vasto, com maior domnio do huassa transcrito em
caracteres rabes, comparativamente ao rabe25. So menos numerosas as obras
originais deste perodo s quais tivemos acesso, comparativamente quelas dos

23    M. Johnson, 1970.
24     muito difcil avaliar a elevao do custo de vida para tal ou qual grupo. Podemos, segundo indicaes
      de H. Barth, 1857, estabelecer o preo de diversos produtos, entretanto, as informaes que nos fornecem
      os relatos de viajantes so menos completas e precisas para os anos 1880 e 1890; consultar, por exemplo,
      P. Staudinger, 1889; P. L. Monteil, 1894; C. H. Robinson, 1895. O problema  ainda mais complexo em
      razo dos preos terem consideravelmente variado, segundo as regies e estaes climticas. Estas varia-
      es so talvez acentuadas, no caso de Monteil, pelo grande nmero de pessoas que o acompanhavam
      e, em relao a Robinson, pela guerra civil no emirado de Kano. Sobre Kano, conferir M. G. Smith.
25    Sobre este movimento, consultar B. Sa `d, 1978.
O califado de Sokoto e o Borno                                                    681



perodos precedentes. Aparentemente, inclusive em Adamawa, houve certa ten-
so entre o governo e os letrados; o emir buscou impor a sua vontade no tocante
aos livros a serem estudados; porm esta medida, sem dvida dirigida contra os
tijn, foi revogada pelo seu sucessor, o emir Sanda, quem permitiu a entrada
dos letrados no seu conselho. Como o sculo XIII da hgira alcanava o seu
fim (1300 da hgira = 1883 da era crist),  muito provvel que tenha havido
expectativas milenaristas; mas elas no ganhariam uma expresso poltica seno
por volta de 1883, em Kano, sob o impulso de Liman Yamusa, na fronteira do
Borno, sob o impulso de Jibril Gaini, assim como em Adamawa, sob a direo
do bisneto do xeque Hayatu. Em outras regies a situao permaneceu tran-
quila, em funo da provvel imigrao dos habitantes do Oeste em direo a
estes domnios do Estado para realizarem a sua ltima peregrinao, ocorrida
somente em 1903.


    O Borno de 1820 a 1880
    A histria do califado est inextricavelmente ligada quela dos seus vizinhos
e inimigos. Os pequenos Estados vizinhos do califado foram conduzidos, sob o
efeito desta proximidade, a adotarem instituies polticas capazes de resistirem
s presses externas; estas instituies espelhavam-se, muito amide, naquelas
dos Estados muulmanos. Chefes ou "homens fortes" surgiram em sociedades
que nunca haviam tido organizao poltica unificada -, mas a histria destas
sociedades ainda est por ser escrita e  possvel que ela jamais seja analisada. O
sismo de cujo Sokoto foi o epicentro teve repercusses que alcanaram regies
muito distantes; os dependentes do califado voltaram-se contra os seus vizi-
nhos mais fracos, contra os quais realizavam incurses e dos quais exigiam, eles
prprios, um tributo. Entretanto, as relaes no se traduziam em guerras. O
comrcio estava organizado h sculos, em que pese o fraco desenvolvimento
demogrfico e econmico dos Estados concernidos. Os mercadores do cali-
fado,  imagem do que haviam anteriormente feito aqueles de outros Estados
dominantes, infiltraram-se sem se preocuparem com as fronteiras desta rede
comercial, desenvolvida e transformada por eles.
    Na realidade, a palavra "fronteiras",  de difcil emprego neste contexto; ela era
aplicada, aparentemente, muito mais no mbito do direito de imposio, compara-
tivamente ao seu uso na esfera da movimentao dos indivduos. Isso igualmente
aplica-se  palavra "inimigo". Deste modo, o emir da Katsina, Siddiku, rechaou
invases vindas de Maradi; posteriormente, aps a sua deposio pelo califa, em
682                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 22.3 Artigos do artesanato huassa colecionados por Gustav Nachtigal, em 1870. [Fonte: G. Nachti-
gal, Sahara and Sudan (traduo de A. G. B. e H. J. Fisher), 1980, vol. II, Hurst, Londres.  Hurst, Londres.
Ilustraes reproduzidas com a autorizao do Conselho Administrativo da Biblioteca da Universidade de
Cambridge.]
O califado de Sokoto e o Borno                                                                              683



razo de ter demasiado severamente punido os aliados de Maradi, ele se refugiou
em Maradi e com a sua ajuda invadiu o Zamfara, dependente do califado; final-
mente, quando se retirou, foi novamente em Sokoto que escolheu estabelecer-se.
Igualmente, qualquer rebelado contra um emirado podia refugiar-se no emirado
vizinho, sem que isso provocasse tenso entre os dois emirados. Os mercadores
huassa comercializavam frequentemente com o inimigo, em tempos de guerra, e
seguiam qualquer armada invasora, prontos a comprarem os prisioneiros que ela
fizesse com armas e cavalos, utilizados como moeda.
    Em suma, as identidades fundadas com base nos nacionalismos locais ou na
origem tnica serviam, caso necessrio, para organizar as relaes entre os grupos
e no para isol-los. O califado formava, por conseguinte, juntamente com os
Estados e os povos circunvizinhos, um conjunto social e econmico, no qual - o
que no causa surpresa - os acontecimentos polticos que se reproduziam em
um Estado podiam provocar um eco praticamente imediato em outro, em cuja
orientao geral e a cronologia destes acontecimentos eram similares.
    A histria do Borno oferece um exemplo desta interdependncia. O Borno
era o adversrio e o mais importante vizinho do califado, o qual lhe usurpara a
supremacia; o ocorrido no plano poltico em um desses dois Estados revestia-se
de grande importncia para o outro. Embora o modelo do Borno fosse muito
diferente daquele do califado, ele oferecia uma soluo alternativa  qual o xeque
`Uthmn quase recorrera.
    No  possvel neste captulo detalhadamente retraar a jihad conduzido
pelo xeque `Uthmn dan Fodio e, tampouco, descrever os efeitos imediatos que
ele teve no Borno26. Basta relembrar que o Borno resistiu aos ataques lanados
contra as suas populaes e, por conseguinte, perdeu temporariamente a sua
capital - tomada pelos mudjahindn - e, definitivamente, grande parte do seu
territrio. O may de Borno adquiriu armas similares quelas de Sokoto para
enfrentar, simultaneamente, o desafio ideolgico e o desafio militar: ele fez
chamado ao xeque al-Hadjdj Muhammad al-Amn al-Kanmi, estimado letrado
que conhecia bem a vida poltica do mundo mediterrneo e possua ligaes
no Fezzn; no prprio Borno, ele era ligado aos pastores rabes shuwa e o seu
entourage compreendia indivduos kanembu. Em suma, ele representava a ordem
internacional estabelecida frente aos reformistas "fellata" (fulbes).
    Aps as vitrias militares de al-Kanmi, um may concedeu-lhe o estatuto
de chefe semiautnomo residente em Ngurno, uma espcie de vice-rei compa-

26   Para precises sobre a jihad, conferir L. Brenner, 1973, pp. 26-47. O principal texto sobre a jihad escrito
     por um contemporneo  aquele de Muhammad Bello, 1951 ou 1964.
684                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



rvel ao tradicional galadima do Borno que, por sua vez, residia em Nguro. Ele
no recebeu ou alcanou nenhum ttulo oficial; embora tenha posteriormente
sido qualificado como waziri, este ttulo indicaria a sua aceitao no somente
do regime poltico, mas, igualmente, do seu papel subordinado neste regime27.
Ademais, como nenhum outro dignitrio, anteriormente a ele, desempenhara
funes to abrangentes, haja vista que estava, a um s tempo, investido do
comando militar e encarregado da administrao de um territrio sobre o qual
exercia uma autoridade mais pessoal, comparativamente s funes do may no
resto do Borno. Dado este estado de coisas, al-Kanmi delegou aos seus escravos
o governo das cidades e estendeu o seu prprio poder, administrando direta-
mente as chefaturas semiautnomas a ele subordinadas. Ele muniu-se de uma
armada permanente de lanceiros kanembu e estabeleceu nas fronteiras, sob o
comando de escravos, guarnies comparveis aos murbitn de Sokoto. O seu
conselho era composto de seis dentre os seus amigos, alguns por ele conhecidos
desde a sua infncia. Como o territrio sobre o qual ele exercia a sua autoridade
era, nos primrdios, relativamente exguo e pouco povoado, o comrcio e a venda
de escravos proporcionavam-lhe maior rendimento que os seus feudos, nos quais
ele buscava atrair diversos grupos populacionais. A sua corte era restrita e ele
confiava, preferencialmente, as tarefas oficiais a escravos, pois que estes ltimos
no pertenciam a grandes famlias, alm de lhe serem eles totalmente fiis e,
igualmente, custarem menos.
    Em contrapartida e ao conservar a sua corte, o may no mais extraa suficien-
tes recursos do seu consideravelmente reduzido territrio, recursos estes capazes
de permitirem-lhe manter e recompensar os seus cortesos; em suplemento, ele
no pde ou no desejou amparar-se de uma chefatura semiautnoma como
aquela de Marte, integrante do seu raio de influncia. Porm, ele conservava a
autoridade tradicional, graas  sua legitimidade dinstica, assim como  esta-
bilidade e ao sentimento de identidade ligados a estas circunstncias.

      O primeiro perodo: a diarquia do Borno (18201845)
   Em 1820, o Borno dividia-se politicamente em duas zonas que, por vezes,
sobrepunham-se: o xeque e seus conselheiros, residentes desde ento em Kakawa,
exerciam a sua autoridade sobre o Sul, o Leste e o Oeste; o may e a sua corte,
em Birni Kafela, exerciam-na sobre o restante do Borno. Em 1820, a posio


27    Consultar o documento traduzido por H. R. Palmer, 1928, vol. II, p. 119 (tratando da restaurao de
      Dunama como may e da "dposition" de Ngnileroma).
O califado de Sokoto e o Borno                                                                                685




figura 22.4 O xeque Muhammad al-Amn al-Knemi. [Fonte: Denham, Clapperton e Oudney, Narrative
of travels and discoveries in northern and central Africa, 1826, Londres. Ilustrao reproduzida com a autorizao
do Conselho Administrativo da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]
686                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



do xeque se fortalecera consideravelmente, tornando-se praticamente oficial.
O may Dunama fora morto durante uma batalha travada contra o Baguirmi e
al-Kanmi presidira a ascenso ao trono de Ibrhm, filho caula de Dunama.
Justamente neste momento, al-Kanmi adquiriu o ttulo de xeque e o seu bra-
so exibia a data de 1235 (equivalente a 1819-1820 da era crist), como ano
da sua prpria chegada ao poder, visto que esta era a data que ele primava em
comemorar.
     habitual relatar a histria do Borno como se fosse a partir deste momento
que al-Kanmi teria passado a exercer a autoridade suprema. Talvez esta apre-
ciao seja exata, porm os documentos dos quais dispomos no so conclusivos.
Trata-se notadamente dos relatrios de duas testemunhas oculares, os enviados
britnicos Denham e Clapperton28. Estes relatrios manifestam tamanha par-
cialidade em favor de al-Kanmi e contra o may Ibrhm que eles no podem
absolutamente ser considerados como anlises polticas objetivas29. Convidado
de al-Kanmi, amigo de mercadores norte-africanos que frequentavam a sua
corte e viajavam sob a proteo de um tripolitano e habitual parceiro comercial
do xeque, Denham manifesta considerveis reservas contra o may, de quem ele
no frequenta e em nada compreende a corte.
    Aparente e retrospectivamente, h forte possibilidade que al-Kanmi tenha
alcanado assaz prematuramente a autoridade suprema; porm este domnio
sem dvida no se revelou to nitidamente aos olhos dos seus contemporneos.
O may Ibrhm mantinha uma corte ainda muito numerosa: segundo Denham,
de 260 a 300 cortesos assistiam ao despertar do may e, entre eles, certamente
havia feudatrios acompanhados dos seus seguidores. O prprio al-Kanmi
devia,  imagem de todos os outros feudatrios, enviar ao may uma parte das
rendas que arrecadava dos seus feudos - a metade do total, segundo Denham.
Alguns partidrios do may mostravam-se particularmente hostis aos recm-
-chegados, por exemplo, os sugurti kanembu, os negros shuwa e renomados
letrados, tais como Mallam `Abdullh, de Yale Garua, ou o Mallam Fanami,
de Manga. Era igualmente previsvel que os dignitrios tradicionais, como o
galadima ou o martema se opusessem ao aumento do poder de al-Kanmi.
Poder-se-ia igualmente mencionar os chima jilibe, comandantes dos cls kanuri;


28    H. Clapperton, 1829.
29    L. Brenner, 1973, pp. 21-22 e 46-47, cita trechos de Denham e Clapperton, sobre al-Kanmi e o may
      Ibrhm, nos quais a sua parcialidade nitidamente aparece. A maioria das informaes que figuram nesta
      seo foi extrada desta obra de L. Brenner e do estudo de J. E. Lavers, 1977. Devo grande reconheci-
      mento a John Lavers, pelos seus comentrios sobre esta seo; todavia, ele no est de acordo com todas
      as minhas interpretaes.
O califado de Sokoto e o Borno                                               687



entretanto, os escritos dos historiadores no permitem saber em qual medida,
inicialmente, estes chefes de cls ainda eram nomeados pelo may ou se eles lhe
permaneciam leais. Tampouco sabemos exatamente a partir de quando os res-
ponsveis regionais (chima chidibe) foram nomeados por al-Kanmi; no entanto,
os pleitos posteriormente formulados concernentes  extenso do domnio dos
shuwa (na provncia de Gazir, em 1842) levam a supor que esta extenso no
tenha sido muito rpida e tampouco integral. Finalmente, a diviso do poder
entre responsveis regionais e chefes de cl podia facilmente ser adaptada ao
tipo de diarquia por mim evocada. Eis a razo pela qual, embora no saibamos
ao certo quais chima residiam na corte do may em Birni Kafela, estimo ser
plausvel supor que a maioria dos negros da "aristocracia kanuri" ali residisse,
embora fossem simultaneamente representados em kukawa, junto ao xeque, por
um familiar mais jovem.
    Para melhor compreender a conduta de al-Kamni,  necessrio enxergar, na
pessoa do may Ibrhm, no o personagem ridculo que Denham descreve-nos,
mas o chefe de um Estado ainda potente. As funes de al-Kamni, as quais
faziam dele uma espcie de "super-galadima" ou vice-rei, compreendiam a vigi-
lncia fronteiria no somente no sudoeste (ao galadima cabendo o encargo da
fronteira do Oeste), mas, igualmente, no Sul. Ele tinha o direito de mobilizar
tropas. Os norte-africanos instalados no Borno dele dependiam, do mesmo
modo que as relaes internacionais derivadas da presena destas populaes.
Em direo ao Oeste, de 1824 a 1830, al-Kamni preocupou-se em menor grau
com ataques contra o califado, comparativamente  ateno dedicada ao resta-
belecimento, em Nguderi, de um Borno ocidental que escapasse  autoridade do
galadima. A sua provvel inteno consistia em incluir, neste Estado, alguns dos
emirados orientais de Sokoto e, qui, de Kano; todavia, ele no logrou xito em
seus planos. Entretanto, ele conseguiu caar Muhammad Manga, um tributrio
do califa, alm de, ao avanar at Kano, ter demonstrado a potncia militar do
Borno nesta regio fronteiria. Alm disso, ele contribuiu para novamente esta-
belecer o Estado de Gumel, do qual obteve ajuda, ganhando apoio dos manga
que ele recentemente derrotara. Assim acuado, o galadima evadiu-se para Sokoto
e, posteriormente, voltou a se submeter a al-Kamni, quem no lhe concederia
seno um territrio muito reduzido. Em 1830, al-Kamni possua, portanto,
o seu prprio Estado, o Borno ocidental, por ele governado com o concurso
de escravos - os katchella -, no qual as diversas populaes no demonstravam
particular lealdade visvis do may.
    A este "sub-Estado" ocidental acrescentava-se, ao Sul, uma zona similar,
tambm administrada por escravos e compreendendo essencialmente as cidades
688                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



kotoko e os mercados de Barguirmi. Inicialmente, de 1818 a 1824, al-Kamni
em vo ensaiara, com a ajuda dos norte-africanos, estabelecer no sudeste um
grande protetorado do Kanem, contando com o Baguirmi como vassalo. As
guerras que permitiram esta expanso atraram certamente inumerveis volunt-
rios - cavaleiros vindos de Birni Kafela -, comparveis aos voluntrios de Sokoto
que partiram para combater nos emirados de Zaria e de Bauchi. Contudo, a
maior parte do Borno, propriamente dito, situada ao Leste do Lago Tchad,
permanecia sob a tradicional autoridade dos chefes kanuri, fiis ao may.
    Inexistem razes para crer que esta diviso de poder no tenha sido exitosa: o
may governava a maior parte do pas kanuri, dele extraindo a sua renda, o xeque
governava as zonas fronteirias, do Oeste e do Sul, utilizando a cavalaria do
Borno e enviando ao may a sua cota-parte das rendas. Na realidade, sob certos
aspectos, eles se conformavam ao antigo modelo que prev uma separao de
alguns quilmetros da cidade real tradicional relativamente  cidade comercial,
somente habitada por muulmanos, com exceo de um bairro reservado aos
estrangeiros. E, para estrangeiros como Denham e os seus amigos, toda atividade
aparentava estar concentrada em Kukawa.
    Pouqussimas indicaes chegaram-nos acerca das atividades da corte do
may Ibrhm, tanto quanto foram raros aqueles que sobreviveram  destruio
da dinastia em 1846. Durante a sua visita ao Borno, al-Hadjdj `Umar converteu
 Tijniyya um importante membro da famlia do may, o que veio a trazer-lhe,
segundo a tradio histrica, a hostilidade de al-Kanmi (na realidade, ignora-
mos tratar-se de al-Kanmi ou do may)30.
    Segundo a minha apreciao, uma das razes para o bom condicionamento
do dispositivo implementado pelo may e por al-Kanmi teria sido a notvel
ausncia, no caso deste ltimo, de qualquer dogmatismo ou ambio. Ele no
aparenta ter planejado a transformao do Borno. Os seus escritos no contm
nenhum projeto de reforma. Ele no compartilhava nem as expectativas mine-
rrias, nem a vontade de agir rapidamente, prpria aos dirigentes de Sokoto,
alm de no atrair em torno de si homens com o mesmo sentimento referente a
terem uma misso a cumprir. Ele repugnava a si mesmo informar sobre as razes
que lhe obrigavam a permanecer no Borno. A sua curiosidade o conduzia para
amplos horizontes e ele recusava fidelidade a uma etnia determinada. A ausn-
cia de ideologia, desta segurana e deste dinamismo que uma ideologia pode
inspirar, confere ao Borno uma ntida distino frente ao califado de Sokoto. A


30    U. al-Naqar, 1972, pp. 72-74 e 144.
O califado de Sokoto e o Borno                                                                             689




figura 22.5 Um dos lanceiros kanembu do xeque al-Kanmi. [Fonte: Denham, Clapperton e Oudney,
Narrative of travels and discoveries in northern and central Africa, 1826, Londres. Ilustraes reproduzidas com
a autorizao do Conselho Administrativo da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]




poesia nele no cantava a glria dos "mrtires". Embora tenha terminado com o
monoplio do conjunto de facilidades das quais o may se havia beneficiado at
ento, al-Kanmi no ofereceu nada em contrapartida, seno a nova facilidade
em relao  sua prpria pessoa, uma hostilidade comum visvis dos fulbes de
690                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



Sokoto e uma adeso ao mundo islmico, em seu conjunto, ao qual ele mesmo
tinha a sensao de pertencer. Ele soube se servir da realeza como uma institui-
o em torno da qual podia reunir todos os habitantes do Borno, transcendente
aos interesses dos diferentes grupos; do mesmo modo, o may podia apoiar-se
no xeque, precisamente porque este ltimo no compartilhava o zelo reformista
que teria destrudo o Borno tradicional. Mesmo que tivesse desejado, al -Kanmi
provavelmente no era assaz poderoso, a ponto de derrubar o may e tampouco
poderia introduzir reformas fundamentais por tanto tempo quanto necessitasse
do may para preservar a unidade do Borno. Certamente, ele enviou durante os
anos 1830 um representante diplomtico junto  Porta, atitude que demonstra
a sua rejeio  tradicional pretenso do may ao ttulo de califa; entretanto,
isso no teve consequncia alguma  poca. O Borno no se encontrou em
dificuldades quando o Estado no pde apoiar-se nas instituies tradicionais
e tampouco em uma mobilizao ideolgica suficientemente forte; justamente
a partir deste momento (e no antes, a meu juzo)  possvel analisar a poltica
do Borno em termos de relao patro-cliente, considerando o interesse pessoal
como a motivao essencial.
    A relao de interdependncia entre o may Ibrhm e al-Kanmi devia-se 
personalidade dos dois homens. Foi notvel, aquando da morte de al-Kanmi
em 1837, a necessidade do estabelecimento, em novos parmetros, das rela-
es do may com o xeque; tudo leva a crer, foram os trs conselheiros shuwa
de al-Kanmi, muito mais que o seu filho `Umar, que propuseram, ou melhor,
determinaram ao may as novas condies. O may, aparentemente a justo ttulo,
ordenou a vinda de `Umar  sua corte para nela assumir as funes do seu pai;
entretanto, os conselheiros kukawa ameaaram o may com a possibilidade de
atacarem Birni Kafela, caso ele prprio no viesse oferecer fidelidade ao novo
xeque. Jamais, ao nosso conhecimento, o may teria antes visitado Kukawa e o
significado simblico deste ato no poderia ser subestimado. Naturalmente, o
novo xeque no se contentou com esta afronta e depositou ao may um tributo
inferior quele anteriormente pago pelo seu pai. Os conselheiros de `Umar com-
prometeram, deste modo, os resultados de vinte anos de cooperao com o may,
o que lhes custou a vida, tal como sucedeu com o mais antigo conselheiro de
al-Kanmi, al-Hadjdj Sudani, quem teria sem dvida preferido ver outro filho
seu como sucessor do xeque, `Abd al-Rahmn. A ascenso de `Umar deveria,
portanto, no somente op-lo ao may Ibrhm, mas, igualmente, ao seu prprio
irmo.
O califado de Sokoto e o Borno                                                691



    Borno (18451855): um perodo de transio
    De 1845 a 1855, o Borno conheceu dificuldades ainda muito mais graves
que o califado, em razo no somente das invases, da guerra civil e das exe-
cues, mas tambm pelas reviravoltas no sistema poltico. A dignidade do
may foi abolida e a sua corte dissolvida; a corte do xeque, desprovida de brilho,
embora mantivesse diversas relaes internacionais, tambm ela desapareceu.
Promovendo a fuso das funes do xeque e do may, `Umar estabeleceu um novo
modo de governo que no somente diferia dos regimes anteriores do Borno, mas,
igualmente, do regime do califado de Sokoto.
    Eis aqui, brevemente expostos, os acontecimentos deste decnio. Acom-
panhando a seriedade do questionamento  sua autoridade, em 1846, o may
Ibrhm incitou o sulto de Wada a invadir o Borno. Deste modo, ele nova-
mente incorria no erro que custara a vida ao seu pai Dunama, vinte e sete
anos antes, quando este ltimo chamara o sulto de Baguirmi para combater
al-Kanmi. Dois dentre os principais conselheiros do `Umar, Mallam Tirab e
Ahmad Gonimi, foram mortos durante uma batalha contra as foras do Wada;
aps esta batalha, `Umar ordenou a execuo do may Ibrhm e, em seguida,
deps o seu sucessor, o may `Al.
    O novo vizir, al-Hadjdj Bashir, tornou-se o favorito do xeque, suplantando
`Abd al-Rahmn. Em 1853, este ltimo deps `Umar e Bashir foi morto, porm
no ano seguinte, ele prprio foi deposto e executado. `Umar retomou o poder,
exercendo-o durante vinte e seis anos, at a sua morte em 1881.
    Eu creio que no se deva entrever uma simples coincidncia no fato de a
mesma dcada se ter revelado crtica, tanto para o califado quanto para o Borno.
A jihad, opondo os dois Estados, neles havia conduzido ao poder homens com
idades correspondentes; no causa, portanto espcie que os problemas suces-
srios tenham surgido simultaneamente nos dois Estados. Em suplemento, o
califado no mais exercia uma presso to relevante sobre o Borno: no plano
ideolgico, os espritos estavam, durante os anos 1840, mais preocupados com
o milenarismo e a Tijniyya, comparativamente ao interesse demonstrado pela
jihad; ao passo que, no plano militar, a distenso reinava, malgrado campanhas
episdicas e limitadas nas fronteiras. Talvez tenha sido justamente esta distenso
que permitiu a manifestao das rivalidades internas: a corte de Kukawa no
mais necessitava do may como smbolo da unidade do Borno; sequer ainda
havia necessidade de unidade em Kukawa. Uma reao em cadeia sobreveio: a
guerra civil do Borno encorajou Bukhari a se revoltar contra Sokoto; a confu-
so reinante na fronteira ocidental do Borno conduziu Bashir a tomar riscos
692                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



excessivos; e `Abd al-Rahmn foi levado a ousar depor o `Umar. O efeito destes
acontecimentos nas massas manifestou-se pelo apoio por elas dedicado ao diri-
gente milenarista, Ibrhm Shar al-Dn, aquando da sua marcha para o Leste,
atravessando o Borno em 1856. Entretanto, salta aos olhos que nenhum dos
dois Estados tenha podido ou desejado tirar proveito das desordens que ocor-
riam em seu vizinho, bem como que a situao tenha rapidamente recuperado
a normalidade aps 1855.

      O segundo perodo (18551880): o sistema poltico do Borno
    O Borno foi, durante este perodo, um Estado unitrio. `Umar, embora con-
servasse o ttulo de xeque e continuasse a residir em Kukawa, conferiu  sua
funo de chefe de Estado um carter mais formal, fazendo-se acompanhar de
uma corte mais numerosa. Ele nomeou um primeiro-ministro ao qual conferiu
considerveis poderes; entretanto, toda a autoridade estava concentrada em
suas mos e ele a delegava a quem julgasse convir. A corte era composta, como
anteriormente, de parentes do xeque, notveis livres e escravos funcionrios;
ademais, decidiu-se preservar os nomes dos conselheiros de al-Kanmi para
os novos ttulos criados; porm os escravos, aqui compreendidos aqueles que
constituam um exrcito real composto por cerca de 3.000 homens, desempe-
nhavam um papel mais relevante que outrora, embora os seus postos, a ttulo
puramente individual, estivessem totalmente submetidos  boa vontade do
xeque. Era possvel que o filho de um escravo herdasse o posto de seu pai; no
entanto, os escravos no podiam pretender, em virtude de um direito heredit-
rio, uma funo ou um patrimnio determinados. O crescimento da proporo
de escravos na administrao teve um efeito no processo de recrutamento de
funcionrios livres: efetivamente, o ttulo herdado por um funcionrio livre no
supunha forosamente funes ou poderes especficos. Portanto, era imposs-
vel preservar o "equilbrio de poderes" e no havia linhagens tradicionalmente
fortes, dispondo de base prpria; muitos personagens importantes no tinham
ttulo oficial. O avano dos funcionrios ocorria no quadro de uma hierarquia
definida por relaes de clientela, caracterizada, em seu topo, pela presena do
xeque. No tocante a Sokoto, a concorrncia era livre, sem que direitos relativos
ao nascimento ou ao grau constitussem obstculos.
    Caso esta anlise, a caracterizar a poltica do Borno como um sistema de
relaes de clientela, esteja correta (ela  inclusive similar quela de R. Cohen
O califado de Sokoto e o Borno                                               693



e L. Brenner), este sistema dataria da poca de al-Kanmi que, inicialmente,
confiara a administrao do Estado a escravos e alguns amigos31.
    Como os membros das linhagens mais antigas permaneciam, sem dvida,
fiis ao may, o xeque no pde recorrer a funcionrios hereditrios; posterior-
mente, a morte dos seus antigos conselheiros, durante as desordens de 1846-
-1854, interrompeu na raiz qualquer evoluo neste sentido. Como, por outro
lado, os funcionrios do may caram em descrdito aps 1846, dificilmente pode-
mos imaginar qual outro sistema de recrutamento poderia ter sido aplicado pelo
xeque `Umar. Todavia, talvez seja cometer um anacronismo considerar, no incio
do sculo XIX, as relaes de clientela como o sistema tradicional do Borno
ou mesmo como o seu sistema dominante. Os conselheiros de al-Kanmi no
eram seus clientes, mas, antes e sobretudo, associados seus, os quais gozavam de
grande independncia; de onde deriva o papel capital por eles desempenhado
nos acontecimentos posteriores  sua morte. Ter-nos-ia ainda sido possvel assis-
tir  fundao de dinastias de ministros. Considerando este conjunto, eu creio
poder dizer que importantes mudanas polticas efetivamente produziram-se
aps o perodo 1845-1855, entrementes, estas mudanas tornaram-se mais fceis
pela simples aplicao, ao conjunto do quadro poltico funcional, do princpio
observado por al-Kanmi no mbito da designao dos escravos-funcionrios.
    To importantes quanto estas tendncias polticas foram as transformaes
da economia que serviria de base ao sistema poltico. O fato marcante do per-
odo, como observamos,  o surgimento do comrcio e da produo no califado,
com a colonizao das terras virgens no interior das fronteiras e, externamente,
uma considervel extenso do raio de ao dos mercadores huassa. No somente
estes ltimos dirigiam-se ao Borno, mas os mercadores do Borno tendiam a se
instalar, em nmero cada vez maior, no pas huassa. A distenso poltica e ideo-
lgica entre os dois Estados permitia este intercmbio; finalmente, os embargos
do incio do sculo eram considerados medidas excepcionais, se contextualizados
na longa histria de trocas mantidas pelo Borno com os pases situados ao Oeste.
Porm, tudo leva a crer que o Borno, em concorrncia com os pequenos centros
comerciais do califado, tenha sido incapaz de oferecer variedade de produtos.
Ele continuava a exportar natro, embora sem dvida enfrentasse a crescente
concorrncia de outros tipos de sal produzidos em outras regies. Outra expor-
tao bsica, de escravos, aparentemente diminuiu de forma progressiva; embora
seja possvel que o emprego de mo de obra servil tenha aumentado no Borno,


31   L. Brenner e R. Cohen, 1988.
694                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 22.6 Blusa bordada de uma mulher do Borno, feita nos anos 1870. [Fonte: G. Nachtigal, Sahara and
Sudan (traduo de A. G. B. e H. J. Fisher), 1980, vol. II, Hurst, Londres.  Hurst, Londres. Ilustraes repro-
duzidas com a autorizao do Conselho Administrativo da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



a base produtiva da sua economia no aparenta ter se desenvolvido no mesmo
ritmo que a sua correspondente no califado.  imagem das rotas utilizadas
pelo comrcio de natro e escravos, a exportao ou a re-exportao das peles,
do couro, do marfim ou das plumas de avestruz, ocorriam atravs dos mesmos
itinerrios comerciais dos huassa, enquanto novos produtos de importao eram
buscados sob o controle do califado, como o marfim de Adamawa. Em suma,
aparentemente o Borno foi levado a desempenhar, em relao  economia do
califado, o papel de fornecedor de matrias-primas e consumidor de produtos
de luxo; estado de coisas que provocou uma diminuio dos ganhos extrados
atravs do comrcio pelos detentores do poder. Final e aproximadamente em
1850, a entrada do Borno na zona monetria do cauri, englobando a frica
Ocidental, simboliza esta evoluo. Outro smbolo: as dificuldades encontradas
pelos mercadores no sentido de receberem os seus crditos na capital - talvez
o volume das trocas no mais justificasse estas despesas - levaram os merca-
O califado de Sokoto e o Borno                                                 695



dores norte-africanos a comearem a evitar o Borno. O comrcio transaariano
constitura um importante elemento da poltica de al-Kanmi e, por esta razo,
o Borno retomara, ao longo dos anos 1840, o controle de Zinder, importante
localidade do ponto de vista do comrcio exterior. Todavia, esta vantagem no
era suficiente a ponto de permitir ao Borno resistir  concorrncia do califado.
    Caso somarmos todos estes fatores - aumento do nmero de cortesos
(escravos e homens livres), aumento do preo dos produtos de luxo, insuficincia
da produo destinada  exportao, fim da hegemonia comercial do Borno -,
melhor compreenderemos as razes pelas quais a cobrana dos crditos comer-
ciais se tenha tornado mais complexa ou porque, em 1883, tenha sido necessrio
confiscar a metade dos bens de cada contribuinte. Na justa medida em que
este confisco foi a consequncia da crnica incapacidade dos contribuintes em
pagarem o seu imposto anual, podemos supor que a economia rural no mais
produzia excedentes. Contudo, nada sabemos com preciso sobre o que se repro-
duziu nos campos, de 1855 a 1880, seno que no houve revoltas camponesas
antes dos movimentos milenaristas dos anos 1880.
    A estagnao da economia, provvel e parcialmente, devia-se  incompe-
tncia do xeque `Umar; mas ela sem dvida possua uma razo mais profunda,
devida  relao existente entre a economia do Borno e a economia em expanso
do califado.
    Caso isso seja verdade, o Borno oferece uma esclarecedora ilustrao dos
efeitos exercidos pelo desenvolvimento econmico do califado sobre um Estado
limtrofe, assim como um modelo que permite comparar a experincia de outros
Estados em uma mesma situao perifrica. Retrospectivamente, tudo leva a crer
que, do ponto de vista poltico, a escolha das possibilidades, oferecidas ao xeque
`Umar e  sua administrao, tenha sido limitada. O Borno, desde ento com
dificuldades em conservar o controle do Damagaram, no Nordeste, via as suas
possibilidades de real expanso territorial limitadas, a Oeste e Sul, pela expanso
do califado, bem como, no Leste, pelo Baguirmi e pelo Wada. Outra soluo
possvel consistiria em reduzir o nmero de cortesos e descentralizar a adminis-
trao; entretanto, esta poltica chocar-se-ia com a tendncia seguida h muitas
dcadas, solapando o sistema fundado em relaes de clientela e requerendo
uma expanso territorial ou das migraes. Neste caso,  estabilidade do reino
do xeque `Umar sucedeu um terceiro tipo de situao - a irrupo da violncia
na poltica e a eliminao dos rivais; porm estes acontecimentos ultrapassam o
enquadramento proposto neste captulo.
696                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



      Concluso
   Malgrado as notveis diferenas, no tocante  superfcie e  populao,
existentes entre o Borno e o califado, a comparao entre estes dois Estados
evidencia os fatores que explicam a divergncia em suas respectivas evolues
histricas. Caso nos posicionemos ao nvel mais reduzido, relativo s pessoas, a
oposio inicial pode assim ser resumida:
         Al-Kanmi devia dividir o poder com um may que, a despeito da sua
          fraqueza militar, possua grande autoridade fundada no ritual; em contra-
          partida, o califado no tinha,  poca de Muhammad Bello, um soberano
          tradicional deste gnero.
         Al-Kanmi no dispunha da vasta rede de relaes de cls e familiares,
          sobre a qual to eficazmente podia apoiar-se Muhammad Bello.
         Conseguintemente, al-Kanmi apoiava-se em escravos e nos seus ami-
          gos, concentrando o poder em suas mos, ao passo que Muhammad
          Bello foi obrigado a delegar parte dos seus poderes aos seus companhei-
          ros mudjhidn e murbitn, os quais tinham tendncia a constiturem
          linhagens ou grupos de presso locais.
         Aps as derrotas sofridas pelo Borno, al-Kanmi foi levado, para unir o
          pas, a recorrer  tradicional fidelidade perante o may e a contar com o
          seu prprio carisma, no sentido do interesse pessoal, e com o sentimento
          de hostilidade compartilhado visvis dos fulbes; ao passo que Muham-
          mad Bello, aps o espetacular sucesso da jihad, pde unir os seus emires,
          muito dispersos, em torno da forte motivao milenarista do isl.
    Para compensar a diminuio das suas rendas, o Borno dependia da expor-
tao de escravos, parcialmente estimulada pelas privilegiadas relaes mantidas
entre o Borno e a frica do Norte; Sokoto, dispondo de recursos mais diversi-
ficados, era em contrrio comprador de escravos; esta demanda era estimulada
pelas diversas linhagens e pela pequena nobreza, as quais necessitavam de mo
de obra para a produo agrcola e artesanal, para grande proveito da economia
do califado, a longo prazo.
    Estas tenses entre os dois Estados, durante o primeiro perodo, constituem
em suplemento um importante fator para a sua revoluo poltica e ideolgica.
Inversamente, a relativa atenuao destas tenses favoreceu indiretamente as
desordens do perodo 1845-1855 e a sua conteno.
    Aps 1885, quando a rivalidade tornou-se mais econmica que poltica, o
sistema poltico do Borno tendeu a conceder importante espao para as relaes
O califado de Sokoto e o Borno                                                697



de clientela e para o crescimento individual; ao passo que o governo do califado
favorecia a criao de grupos de interesse, preservando todavia a fidelidade ao
isl que, embora no mais fosse dominada pela inspirao milenarista, permitia
limitar estes interesses e propiciava uma regra moral. Em razo do relativo dina-
mismo do califado que, alm de tudo, dispunha de riquezas naturais superiores,
o Borno acompanhou o progressivo enfraquecimento da sua economia; embora
a distenso tenha permitido aos agricultores e mercadores do Borno mais facil-
mente escoarem os seus produtos no mercado em expanso do califado. Se, no
Borno, foram justamente os habitantes da capital que mais fortemente sofreram
com o declnio econmico, no califado, por sua vez, foi a devota pequena nobreza
quem aparenta ter sido a principal vtima da evoluo do regime.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                   699



                                       CAPTULO 23


             O Macina e o Imprio Torodbe
                 (Tucolor) at 1878
                                          Madina LyTall




    O Macina
    Como observamos nos captulos 21 e 22, o final do sculo XVIII e o incio
do sculo XIX so marcados, quase por toda a frica Ocidental, pela emer-
gncia de uma categoria social, at ento dominada pelos sedentrios, os fulbes
nmades. Aps o sculo XV, o seu nmero no cessou de aumentar graas s
sucessivas ondas migratrias e, paralelamente, o seu peso econmico igualmente
no cessou de crescer, desde que o ouro deixou de ser o motor da economia no
Oeste africano.
    Sucessivamente, no Futa Djalon e no Futa Toro, guiados pelas ideias de
justia e igualdade do isl, eles se libertaram do domnio dos sedentrios. Nos
primeiros anos do sculo XIX, o movimento ganhou as regies haussas e, a partir
destas regies, o Liptako e o Macina. Desde anteriormente, nos ltimos anos
do sculo XVIII, sob o reinado do faama de Sgou, Ngolo Jara (Diarra) (1766-
-1790), uma primeira tentativa de emancipao dos fulbes do delta interno do
rio Nger se consumara em derrota1. Porm, foi sobretudo no incio do sculo

1    Durante oito anos, Ngolo Jara travou uma guerra sem trgua contra os fulbes. Muitos se refugiaram
     no Wasulu, conferir E. Mage, 1868, p. 401. Igualmente consultar L. Tauxier, 1942, p. 90. No que diz
     respeito s datas dos reinos dos faama de Sgou, ns adotamos em geral aquelas propostas por L. Tauxier,
     que delas faz um estudo crtico e comparado. Ns sabemos que todas estas datas no so seno muito
     aproximativas.
700                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



XIX, com Da Monzon (1808-1827), que a presso bambara mostrou toda a
sua fora no delta interior do rio Nger, criando uma situao de insegurana
para os fulbes.


      A revoluo islmica muulmana no Macina:
      O reino de Seku Ahmadu (xeque Ahmad Lobbo)
      Situao de insegurana dos fulbes, no delta interior do rio
      Nger, no limiar do desencadeamento da revoluo
    Desde o reinado de Ngolo Jara, o poder de Sgou no cessou de expandir-
-se em direo a todas as regies vizinhas. Sob Monzon Jara (1790-1808), ele
manifestou-se at o Bundu (Boundou), no Oeste, e em pas dogon, ao Leste2.
Com Da Monzon, as exaes dos tonzon de Sgou nos acampamentos fulbes
somente aumentaram. Paralelamente, nos centros muulmanos como Djenn
( Jenne), o isl perdera toda a sua vitalidade, em razo da sua acomodao a
prticas habituais e exigncias do comrcio3. Naquele perodo, desde a segunda
metade do sculo XVIII, os sucessos das revolues islmicas fulbes, no Futa
Djalon e no Futa Toro, haviam aberto novas perspectivas para toda a comuni-
dade islmica da frica do Oeste. Proximamente ao Macina, no Sokoto e no
Liptako, as chefaturas tradicionais recm haviam sido derrubadas, de 1804 a
1810. Numerosos fulbes do delta interior do Nger haviam participado deste
movimento. Aquando do seu retorno  sua terra de origem, eles contriburam
para a difuso das novas ideias revolucionrias.

      Os primrdios da revoluo islmica no delta interior do Nger
   Entre 1815 e 1818, muitos marabutos tentaram explorar a atmosfera revolu-
cionria prevalecente no delta, para sacudir o jugo bambara. Foi primeiramente
um letrado, vindo de Sokoto em 1815, Ibn Sa`d, que logrou conquistar para a
sua causa toda a provncia do Gimballa. Entretanto, ele finalmente fracassaria
junto aos outros fulbes e sobretudo em meio aos tuaregues. Simultaneamente, no
Farimaka, outro marabuto, Ahmadu Alfaka Kujajo, pregava pela jihad. Todos se



2     L. Tauxier, 1942, p. 101. Em 1796, todos os pases compreendidos entre o Nger, o Kaarta e o Bundu
      foram devastados, os pases mais prximos (Beledugu, Dedugu, Fuladugu) foram submetidos.
3     C. Monteil, 1932, pp. 52 a 54.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                            701



prevaleciam da fidelidade a `Uthmn dan Fodio4. Todavia, os dois candidatos de
maior sucesso foram Ahmadu Hammadi Bubu Sangare, de Runde Siru (xeque
Ahmad Lobbo), e al-Husayn Koyta, da provncia de Fittuga5. Justa e finalmente,
foi o primeiro que se imps como chefe da jihad no Macina.

     Seku Ahmadu, fundador da Diina do Macina
   Nascido aproximadamente no ano 1773, em Malangal, na provncia do
Macina, ele era notvel pela sua piedade, honestidade e humildade; qualidades
que o tornavam uma excelente liderana para outros homens. De modesta ori-
gem social, ele recebera uma formao teolgica das mais ordinrias6. Foi em
idade avanada, por volta de vinte e dois anos, que ele comeou a aprofundar
os seus conhecimentos junto a um grande mstico de Djenn, Kabara Farma.
A sua reputao de santidade, bem como a sua pregao em favor do retorno a
um isl puro, rapidamente atraram para si uma multido de tlib (discpulos),
desde anteriormente conquistados para as ideias vindas de Sokoto. Em 1816,
ele solicitou a devoo a `Uthmn dan Fodio, que lhe enviou um estandarte,
concedendo-lhe o ttulo de xeque7. Ele recebera de Sokoto, na mesma ocasio,
muitos livros de direito muulmano8.
   Foi justamente na forma de uma revolta, organizada por Seku Ahmadu
contra as exigncias da dinastia dos ardo e dos seus aliados de Sgou, que o
movimento eclodiu em 18189. O faama de Sgou, subestimando a amplitude
do movimento, solicitou a uma das suas colunas, em movimento no Gimballa
para uma operao policial, para que "punisse, de passagem, o marabuto e os
seus partidrios"10. A derrota da armada de Sgou em Nukuma (Noukouma)
provocou um reagrupamento da grande maioria dos fulbes, em torno daquele


4    H. Diallo, 1979, p. 138, e F. B. S. Diarah, 1982, pp. 97, 98
5    L. Diallo, 1979, p. 140.
6    F. B. S. Diarah, 1982, p. 84.
7    Este nome tornou-se, nas lnguas oeste-africanas, Sheykhu, Saykhu ou Seeku, que ns escrevemos Seku,
     para simplificar; de onde Seku Ahmadu, Sayku `Umar.
8    Segundo algumas fontes, ele recebeu quatro livros que tratavam do comando, do comportamento do
     prncipe, das instrues em matria de justia e dos trechos difceis do Alcoro; conferir H. Diallo, 1979,
     p. 138. Alm desta fidelidade do chefe do jihad de Sokoto, ao menos inicialmente, Seku Ahmadu foi
     fortemente favorecido pela manipulao que ele imps ao Ta `rikh alFattsh, para se fazer passar pelo
     dcimo segundo califa, cuja chegada fora predita por Askiya Muhammad, aquando da sua peregrinao
      Meca (consultar M. Ly-Tall, 1972). A crena das populaes oprimidas do sculo XIX em um madh
     j fora bem explorada por `Uthmn dan Fodio no pas haussa.
9    Consultar A. Hampat B e J. Daget, 1962, pp. 29-31.
10   C. Monteil, 1932, p. 103.
702                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 23.1 As pginas iniciais de al-Idtirar, supostamente o nico livro escrito por Seku Ahmadu (xeque
Ahmad Lobbo). [Foto: A. Batran.]



que desde ento figurava como protetor contra a tirania bambara. Paralelamente,
os marabutos de Djenn, os quais haviam desde a abordagem demonstrado
grande hostilidade por Seku Ahmadu, foram reduzidos, em 1819, aps um
longo cerco. Os fulbes converteram-se em massa e, muito rapidamente, graas
a um excepcional esprito de organizao, o Macina imps-se como um potente
Estado muulmano, s portas de Sgou. A guerra foi implacvel entre os dois
vizinhos, sob o reinado de Da Monzon. Ela ainda estava muito viva em maro
de 1828, quando Ren Cailli chegou a Djenn: "Sgo-Ahmadou, chefe do pas
de Jenn, ainda mantm um combate muito acirrado com os bambaras de Sgo
que ele pretendia aliar sob o estandarte do Profeta; todavia, estes bambaras so
belicosos e lhe demonstram resistncia11."



11    R. Cailli, 1830, tomo II, p. 214.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                   703



    A guerra no foi interrompida seno muito aps a passagem do viajante
francs, em consequncia do esgotamento dos combatentes, provocado por uma
grande penria na regio12. Os bambaras finalmente renderam-se  evidncia
e aceitaram a ideia da presena, em suas fronteiras, de um Estado muulmano.
    Mas Seku Ahmadu teria que enfrentar outra resistncia mais insidiosa, refe-
rente aos fulbes do Fittuga, onde outro marabuto, al-Husayn Koita, dirigia um
movimento que tambm tinha como vocao o lanamento de uma jihad no
delta interior do rio Nger. Situado na rota que ligava Tombuctu a Guandu, o
Fittuga tinha capital importncia comercial, a um s tempo, para os kunta e
para Sokoto. Muhammad Bello, o sucessor de `Uthmn dan Fodio, apoiava com
tamanha intensidade o movimento de al-Husayn Koita, que Seku Ahmadu,
por sua vez, tirou proveito da crise de sucesso, advinda de modo explosivo no
imediato posterior ao desaparecimento de `Uthmn dan Fodio, para romper a
obedincia a Sokoto. O Fittuga, apoiado pelos kunta e por Muhammad Bello,
resistiu a Seku Ahmadu, at 1823, data em que ele foi reduzido e o seu chefe
executado13. A via estaria aberta, doravante, para a conquista de Tombuctu.
    Desde o desmembramento do Imprio Songhai, nenhum poder poltico se
impusera de modo durvel em Tombuctu. Submetida ora  influncia dos arma,
ora quela dos bambaras ou tuaregues, Tombuctu lograra manter a prosperidade
do seu comrcio graas  proteo dos kunta, "tribo moura" que se impusera na
segunda metade do sculo XVIII. Finos comerciantes, eles se haviam tornado
os protetores de todas as estradas que religavam as diferentes regies do Saara
a Tombuctu. Eles se beneficiavam, concomitantemente, de grande autoridade
religiosa, em toda a regio, desde quando um dos seus, Muhammad al-Mukhtar
al Kunt (1729/1730-1811), ali introduzira, no incio do sculo XIX, a confraria
Kadiryya. O seu neto al-Mukhtar al-Saghr, aps o chamado dos comerciantes
e chefes polticos de Tombuctu, foi ao socorro, em 1826, da clebre metrpole
invadida pelas tropas do Macina:
     Em 1826, os fulbes do Macina dominaram Tombuctu e, prtica e definitivamente,
     arruinaram o seu comrcio, enquanto as exaes dos conquistadores estendiam-se
     no somente sobre a populao idlatra (mandingue, mossi, sonrhai), mas, igual-
     mente, sobre os correligionrios mercadores do Touat e de Gadams. Estes ltimos,
     considerando-se oprimidos, promoveram a vinda, de Azaouad, do xeque El-Mou-




12   L. Faidherbe, 1863, p. 11.
13   H. Diallo, 1979, pp. 138-142.
704                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



      chtar, irmo mais velho de El-Bekhay, da tribo dos kunta, homem muito influente
      junto s populaes berberes, e confiaram-lhe os seus interesses14.
    O xeque kunta no logrou impedir a conquista da cidade e a sua ocupao
por uma organizao militar, at a morte de Seku Ahmadu15. No imediato pos-
terior a este desaparecimento, em 1845, a autoridade do Macina estendeu-se
de Djenn at Tombuctu, assim como da regio de Nampala ao pas dogon16.
Em vinte e cinco anos de reinado, Seku Ahmadu igualmente dotou o novo
Estado teocrtico, apelidado diina (a religio), de slidas estruturas religiosas e
administrativas.

      As instituies da diina
    Como no Futa Djalon, no Futa Toro e nas regies haussas, a lei islmica regia
todos os setores vitais do Estado. Um grande conselho de quarenta membros,
designados por Seku Ahmadu, concedia-lhe assistncia em todas as esferas do
exerccio do poder. Para ser membro desta ilustre assembleia, era necessrio ser
casado, ter uma vida irrepreensvel, gozar de uma boa cultura e ter quarenta anos.
Dois dentre estes grandes conselheiros constituam um conselho restrito, junto
a Seku Ahmadu, com o qual examinavam todos os assuntos do Estado, antes
de submet-los ao grande conselho.
    A justia era invariavelmente exercida em primeira instncia, pelos kd. A
organizao judiciria suprema era, teoricamente, o grande conselho; entretanto,
decorridos os primeiros anos durante os quais ele no lograra invariavelmente
manter o seu poder junto a alguns velhos marabutos, mais instrudos que ele17,
Seku Ahmadu finalmente conquistou o apoio do grande conselho para todas
as suas posies. Diversas anedotas, reportadas por A. Hampat B e J. Daget,
tendem a mostrar que Seku Ahmadu no respeitava invariavelmente as insti-
tuies relativamente democrticas, por ele prprio estabelecidas. Ele se ops,
notadamente e de modo muito incisivo,  abolio das castas, decidida pelo
grande conselho:
      Os marabutos do grande conselho, baseados no versculo cornico: "todos os crentes
      so irmos", haviam demandado a abolio das castas. No dia seguinte, Seku Ahmadu


14    J. Ancelle, 1887, p. 114; conferir tambm H. Barth, 1863, vol. IV, pp. 32-33; P. Marty, 1920-1921, vol.
      I, p. 75; A. Raffenel, 1856, vol. II, pp. 352-353.
15    L. Faidherbe, 1863, p. 11; M. Delafosse, 1972, vol. II, pp. 236-239.
16    M. Delafosse, 1972, vol. II, pp. 236-237; igualmente consultar L. Faidherbe, 1863, p. 51.
17    A. Hampat B e J. Dage, 1962, p. 62.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                    705
figura 23.2   O Macina em seu apogeu, 1830 (segundo M. Ly-Tall).
706                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



      ordenou o preparo de lagartos, rs, peixes, frangos e carneiros, tudo ao mesmo tempo.
      Ele apresentou o prato aos marabutos e convidou-os a comerem. "Como, indagaram
      eles, tu queres nos fazer experimentar tal mistura?" "Entre estas carnes, haveria ao
      menos uma que seria proibida pelo Coro" replicou Sekou Ahmadu. "No. Entre-
      tanto, embora o Livro no o proba, ele nos desaconselha a comermos lagarto e rs,
      bem como a misturarmos estas carnes com aquelas que temos o hbito de consumir".
      "Igualmente, embora o Livro no proba, ele repugna misturar os nobres e os indi-
      vduos de casta, assim como suprimir a barreira atravs da qual ns temos o hbito
      de separ-los"18.
    As sanes eram muito severas. Ahmadu-Hammadi Samba-Bukari, diz
Hambarke Samatata, que desempenhava o ofcio de representante do minist-
rio pblico, era de um rigor implacvel: "Ele sempre tinha ao alcance das suas
mos o seu livro de jurisprudncia, o seu Alcoro, o seu sabre e o seu chicote.
Durante todo o tempo de permanncia da diina em Nukuma, ele fazia a justia
in loco e executava, ele prprio, a imediata sentena19."
    Com o mesmo rigor, impostos e taxas eram cobrados por funcionrios par-
cialmente remunerados com o fruto do seu trabalho. Alm das obrigaes ordi-
nrias previstas pelo isl (zakt, muddu, usuru), o grande conselho instituiu o
paabe, ou esforo de guerra, para aqueles que no podiam dela participar fisi-
camente e para os camponeses vencidos e no islamizados20. Ademais, grandes
superfcies eram cultivadas por cativos, em prol da diina. A provncia do Macina
produzia muito arroz, paino e legumes diversos21.
    Em contrapartida, o comrcio sofreu sobremaneira com o constante estado
de guerra mantido com os vizinhos bambaras. Djenn, a grande metrpole
comercial da regio, no mais se relacionava com o Bure (Bour) e os seus mer-
cados estavam dizimados pelos mouros:
      Esta guerra traz muito prejuzo ao comrcio de Jenn, porque ela intercepta toda
      espcie de comunicao com Yamina e Sansanding, Bamako e Bour, de onde 
      retirado o ouro que circula em todo o interior [...]. Os mercadores e negociantes de
      Jenn sofrem muito com esta guerra, porm eles temeriam reclamar abertamente;
      eu creio, inclusive, que eles no ganhariam nada com isso. Muitos Negros disseram-



18    A. Hampat B e J. Daget, 1962, pp. 67-68. Sobre o carter frequentemente pessoal do poder de Seku
      Ahmadu, consultar igualmente C. Monteil, 1932, p. 108 e pp. 112-113.
19    A. Hampat B e J. Daget, 1962, p. 65.
20    Ibid., p. 67 e 280.
21    R. Cailli, 1830, vol. II, pp. 217-128.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                     707




figura 23.3 Runas de uma torre de defesa do tat [fortaleza] de Hamdallahi. [Foto: Institut fondamental
d'Afrique noire (IFAN), Dakar.]



     -me que, desde que ela eclodiu, os mouros desertavam desta posio comercial para
     dirigirem-se a Sansanding22.
    Administrativamente, o pas foi dividido em cinco provncias militares, con-
fiadas a parentes ou fiis discpulos. No Jenneri, `Uthmn Bukhari Hamma-
dun Sangare, o seu primeiro discpulo, devia vigiar o trfico no rio Nger e na
fronteira entre o Nger e o Bani; ele portava o titulo de amiirumanngal23. De
Tenenku, o chefe da provncia do Macina, Bori Hamsala, sobrinho de Seku
Ahmadu, devia zelar pela fronteira ocidental. O chefe de Fakala, Alfaa Samaba
Fuuta, era encarregado de vigiar a margem direita do rio Bani. Finalmente, o
chefes do Hare, do Nabbe e Dunde, deviam respectivamente guardar as fron-
teiras orientais e a regio dos Lagos.
    A nova capital, Hamdallahi, criada em 1820, era a sede do poder central.
Nukuma, situada em plena zona natural de inundaes era muito vulnervel
durante a estao das guas. Seku Ahmadu preferiu instal-la em um stio mais
defensivo, a 25 quilmetros ao Sul/Sudeste da atual cidade de Mopti, em uma zona
de contato, intermediria entre as terras inundveis e as terras secas. Os trabalhos


22   Ibid., pp. 214-215.
23   Tratava-se do general em chefe da armada.
708                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



durariam 3 anos. A mesquita, construda por pedreiros de Djenn, e o palcio de
Seku Ahmadu eram os monumentos mais imponentes do lugar. A cidade popular,
composta por aproximadamente vinte e oito bairros, era cercada por um muro
fortificado atravessado por quatro portas. O servio policial era garantido por
setes marabutos assistidos por um grande nmero de cavaleiros que, em pequenos
grupos, faziam a ronda nestes bairros. A cidade era reputada como limpa24.
    A vida em Hamdallahi era organizada por uma enorme austeridade. A utili-
zao do tempo das diferentes categorias da sociedade era rigorosamente regu-
lamentada. Aps as oraes da noite, por exemplo, qualquer pessoa encontrada
na rua era obrigada a apresentar a sua identidade e, caso fosse casada, ela teria
que comparecer perante a justia. Na cidade, os cavaleiros no podiam, sob pena
de graves sanes, lanar o olhar em direo ao interior das habitaes que eles
percorriam; as vivas, jovem ou idosas, deveriam ser enclausuradas para evitar
que os velhos rememorassem a sua juventude, etc.
    A obra-prima de Seku Ahmadu foi, incontestavelmente, um esforo empre-
endido para sedentarizar os fulbes. Alm de Hamdallahi, ele promoveu a
construo de numerosas cidades, baseadas na plantao e no pastoreio. Esta
ltima atividade, como era imaginada, reteve toda a ateno dos organizadores.
As pastagens e o trnsito humano foram minuciosamente regulamentados.
Encontrava-se igualmente um tipo de organizao paramilitar25.
    Todas estas instituies no trouxeram os seus frutos seno sob Ahmadu-Seku.

      O reinado de Ahmadu: 18451853
   Este reino era considerado no Macina como o mais calmo e prspero, em
oposio quele do seu pai, repleto de guerras, assim como quele do seu filho,
profundamente marcado pelo conflito com Sayku `Umar (al-Hadjdj `Umar)26.
Entretanto, no foram fceis os primeiros tempos deste reino. As primeiras difi-
culdades surgiram no momento da sucesso. Seku Ahmadu morreu no dia 19 de
maro de 1845. Segundo a tradio do Macina, os nicos critrios observados,
em princpio, no tocante  nomeao de um novo chefe da diina, eram a cincia
e a devoo. Se os partidrios de uma sucesso dinstica em favor da famlia
de Seku Ahmadu puderam, por sua vez, acalmar os apetites do seu sobrinho
Balobbo, concedendo-lhe o posto de general-chefe do exrcito, por outro lado,


24    A. Hampat B e J. Daget, 1962, pp. 43-50; referir-se igualmente a F. B. S. Diarah, 1982, pp. 122-139.
25    A. Hampat B e J. Daget, 1962, pp. 81-103; conferir igualmente N. Wagalo, 1977, pp. 8 e 9.
26    I. Barry, 1975, pp. 24-25.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                            709




figura 23.4 Sepultura de Seku Ahmadu em Hamdallahi. [Foto: Institut fondamental d'Afrique noire
(IFAN), Dakar.]




restavam outras pessoas, como Alfaa Nuhum Tayru e al-Hadjdj Modi Seydu,
que no eram da famlia do falecido chefe, mas, no entanto, melhor cumpriam as
condies exigidas, comparativamente ao primognito deste ltimo27. A nome-
ao de Ahmadu-Seku no deixaria de provocar certo mal-estar.
    O rigor da diina tornava-se de mais e mais intolervel para os jovens. Do
mesmo modo, assim que o novo chefe manifestou as suas intenes de prosse-
guir, sem modificar em nada, a poltica do seu pai, panfletos foram cantados em
toda Hamdallahi, contra "estes velhos marabutos de turbante, sempre prontos a
levarem  estrita aplicao das leis islmicas, sem a menor indulgncia"28.
    A estas dificuldades internas acrescentou-se, desde o anncio da morte de
Seku Ahmadu, o levante dos bambaras do Saro e dos tuaregues da regio de
Tombuctu: "quando anunciou-se a morte de Seku Ahmadu, enquanto o Macina
sofria, tambores felizes ecoavam nas regies bambaras e os prprios tuaregues,




27   Ibid., p. 15.
28   Ibid., p. 21; consultar igualmente A. Hampat B e J. Danget, 1962, p. 259.
710                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



precisamente aqueles do lago de Gossi, imediatamente organizaram festejos para
agradecer aos cus por t-los livrado do seu mais temido inimigo"29.
    Se a represso em Saro, regio de origem da me de Balobbo, jamais fora
demasiado violenta contra os tuaregues, em contrapartida, ela foi empreendida
com a maior energia pelo prprio Balobbo, que, dizia-se, pretendia aproveitar
esta ocasio para provar ao grande conselho que este se enganara, ao preterir-lhe
em prol do seu primo30.
    Tirando proveito da crise de sucesso em Hamdallahi, os tuaregues da regio
de Tombuctu se haviam livrado de Sansirfi que ali representava o poder central;
eles haviam inclusive proclamado a sua independncia. Desde o incio do ano
1846, Balobbo marchou contra eles. Atacados de surpresa, eles foram retalhados
em pedaos pelos lanceiros fulbes, nas proximidades do lago de Gossi. Eles soli-
citaram a intercesso da famlia Kunta em seu favor. Com a morte do xeque Sd
al-Mukhtar, pouco aps o falecimento de Seku Ahmadu, foi o seu irmo, o xeque
Sd al-Bekkaay que esteve  frente das negociaes com o Macina. Ilegalmente
promovido ao ttulo de xeque al-Kunt, Sd al-Bekkaay decidira realizar todos os
esforos com o objetivo de assumir a efetiva direo dos assuntos de Tombuctu31.
Malgrado a oposio dos chefes de Hamdallahi, ele ali esteve em 1847; Sd
al-Bekkaay logrou obter a dissoluo da guarnio militar de Tombuctu; porm
ele no conseguiu evitar a retorno de Sansirfi ao seu posto. Aps os tuaregues, os
bambaras de Monimpe representaram o segundo alvo prioritrio de Hamdallahi,
sob Ahmadu-Seku. Os derradeiros anos deste reinado foram todavia assaz tran-
quilos e, em seu conjunto, aliando a um s tempo firmeza e diplomacia, o sucessor
de Seku Ahmadu logrou manter intactas as fronteiras do reino e estabelecer um
certo entendimento em seu interior. No momento da sua morte, em fevereiro de
1853, as dificuldades tanto internas quanto externas ressurgiram, amplificadas.

      AhmaduAhmadu, ltimo rei do Macina: 18531862
   Este reinado iniciou-se com uma grande crise sucessria, confrontando os
diferentes membros da famlia de Seku Ahmadu. Fora estabelecido o hbito de
escolher o chefe da diina junto aos descendentes de Seku Ahmadu. Balobbo, 


29    I. Barry, 1975, p. 21.
30    A. Hampat B e J. Danget, 1962, pp. 259, 266-267.
31    Ele recm-afastara o seu irmo mais velho, xeque Sd Hammada, do ttulo de xeque alKunt, destinado
      de direito a este ltimo. Barth, que todavia era seu amigo, identificaria entre os traos de carter de Sd
      al-Bekaaya o fato de ele no hesitar em empregar todos os meios para alcanar os seus objetivos (H.
      Barth, 1863, vol. IV, p[p]. 86-87); conferir igualmente A. Hampat B e J. Daget, 1962, p. 274).
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                                711



poca certamente gozando de prestgio como chefe militar, tinha conscincia da
sua incapacidade em preencher todas as condies da escolha, notadamente em
referncia  erudio. Ele ento conspirou com o jovem Ahmadu-Ahmadu, filho
do falecido32, alcanando convenc-lo a nome-lo para a suprema magistratura
e esperando mant-lo sob tutela33, lanando assim os germes da discrdia no
Macina. O candidato que preenchia todas as condies para se eleito, Abdullahi-
-Seku, irmo do falecido, no se deu por vencido:
     Ele decidiu, com o apoio dos kunta, das armadas do Kunari e do Hare, marchar
     em direo a Hamdallahi, por ele cercada. A capital dividiu-se entre partidrios de
     Ahmadu-Ahmadu e de Abdulaye-Seku. A emoo era viva. O choque podia acon-
     tecer a qualquer momento; o pior foi evitado graas  interveno da anci Adya
     junto ao seu filho Abdulaye- Seku34.
    Entretanto, a partir deste momento, o Macina estaria dividido em partes
inimigas, em guerra no declarada35.
    O reinado de Ahmadu-Ahmadu no produziu seno o agravamento destas
divises. Ele no possua nem a cultura e tampouco a envergadura poltica
dos seus antecessores. Desde a sua chegada ao poder, ele provocou profundas
reviravoltas nos prprios fundamentos da diina: os venerveis marabutos foram
substitudos por jovens da sua idade e os hbitos foram liberalizados36. Quarenta
anos aps a fundao da diina, informa-nos Ibrahima Barry, o entusiasmo se
dissolvera, "as rivalidades, as mesquinharias e os interesses pessoais estariam
novamente  frente"37. Este mesmo autor reporta-nos uma anedota assaz sig-
nificativa, relativa  atmosfera reinante em meio  classe dirigente do Macina:
um dos membros do compl de Balobbo, detido por Sayku `Umar, confidenciou
um dia ao seu carcereiro que dele debochava, "independentemente da pena 
qual eu for submetido [ele seria condenado  morte], eu a prefiro ao comando
do pequeno". O pequeno era Ahmadu-Ahmadu38.



32   A sua idade varia entre dezoito e vinte e quatro anos, segundo os informadores.
33   A. Hampat B e J. Daget, 1962, p. 286. Consultar tambm I. Barry, 1975, pp. 29-30; N. Wagalo, 1977, pp. 1-2.
34   Tratava-se igualmente da me do morto e da av de d'Ahmadu-Ahmadu. Ela deixava entrever uma
     preferncia pelo seu neto.
35   N. Wagalo, 1977, p. 2.
36   I. Barry, 1975, pp. 32, 36, 38-41; N. Wagalo, 1977, p. 34. Igualmente consultar F. B. S. Diarah, 1982, pp.
     321-332.
37   I. Barry, 1975, p. 42.
38   Ibid. Acerca das divises internas do Macina sob o reinado de Ahmadu-Ahmadu, tambm conferir E.
     Mage, 1868, p. 263; al-Hajj `Umar, 1983, pp. 52-53.
712                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



   Compreende-se facilmente que ao Macina, minado pelas suas divises inter-
nas, no lhe tenha sido possvel opor resistncia eficaz ao movimento de Sayku
`Umar.


      O Imprio Torodbe (Tucolor)
    No Sudo Ocidental, como no Sudo Central, o trfico negreiro, ao abalar os
tradicionais fundamentos da sociedade, criou uma situao de crise constante e
favoreceu o quase generalizado surgimento de Estados que somente sobreviviam
graas ao comrcio de escravos. No Futa Djalon, no Futa Toro, em Sokoto e no
Macina, regies onde a comunidade muulmana possua relativa importncia,
a reao do isl a este estado de coisas revestiu-se do carter de uma revoluo
nacional, dirigida pela etnia mais oprimida da poca, os fulbes. A escravatura
no foi suprimida, embora tenha sido regulamentada por um texto jurdico,
o Alcoro. Ao Oeste do Nger, entre o Macina, o Futa Djalon e o Futa Toro,
uma quantidade dispersa de pequenos Estados, mais ou menos dependentes de
Sgou ou do Kaarta, ainda escapavam  lei islmica. Fragmentados e em meio
a divises internas, no lhes seria possvel opor resistncia eficaz ao proselitismo
combatente de uma jovem confraria islmica, a Tijniyya39.

      A jihad de alHadjdj `Umar e o nascimento do
      imprio muulmano de Sgou, 18521864
   Aps o sucesso do sculo XVIII e do incio do sculo XIX, a islamizao
encontrava-se em relativa estagnao quase por toda parte. As novas teocracias
haviam igualmente sido sacudidas pelas crises de sucesso s quais  necessrio
acrescentar, no tocante ao Sudo Ocidental, o perigo representado pela potncia
francesa, resoluta adversria da revoluo muulmana. Assim sendo, no Futa
Toro, durante a primeira metade do sculo XIX, o isl tambm estava ameaado
internamente, tanto a Leste quanto Oeste. O movimento de Sayku `Umar foi
uma resposta a esta situao.



39    Do nome do seu fundador Ahmad al-Tijni (1737-1815), esta confraria nasceu no Sul argelino, apro-
      ximadamente em 1782. Ela se expandiu muito rapidamente em toda a frica do Norte, especialmente
      no Marrocos, onde a Zwiya de Fez tornou-se o mais importante centro. Ela se diferenciava das outras
      confrarias pelo seu carter relativamente mais liberal e pela simplicidade dos seus princpios de base.
      Foi atravs dos Idawa `li que ela foi introduzida pela primeira vez no Sul do Saara; entretanto, ela no
      conheceria uma maior difuso nesta regio seno atravs de Sayku `Umar.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                          713



     Os traos gerais da vida de `Umar Saydu
    `Umar Saydu (al-Hadjdj `Umar) nasceu aproximadamente no ano de 179640,
em Halwar, no Toro, a mais prxima provncia da colnia francesa de Saint-
-Louis. Oriundo de uma famlia que participara ativamente da grande revolu-
o islmica no final do sculo XVIII, toda a sua infncia repousa na cultura
islmica. A sua excepcional inteligncia e a sua perspiccia fazem-lhe assimilar
e muito precocemente aprofundar todas as cincias islmicas. Ele tardou em
rejeitar a velha confraria Kadiryya41, consequentemente  qual se haviam criado,
de modo quase generalizado na Senegmbia, verdadeiros feudos marabutos.
Iniciado na jovem confraria tijni, ele deixou o Futa em 1826 para investigar a
fundo, diretamente na fonte, os princpios da sua nova confraria. Ele retornaria
 sua localidade natal somente no incio 184742.
    Vinte anos de viagem, dos quais trs em lugares santos do isl, proporcionaram-
-lhe um saber nico na frica negra desta poca e uma grande experincia, tanto
no tocante aos pases muulmanos percorridos, quanto em relao aos Estados
no islmicos visitados. Ele retornou com o ttulo de califa da Tijniyya43, com
a misso de concluir o processo de converso da frica negra ao isl.
    Em Sokoto, onde permaneceria de 1830 a 183844, ele adquiriu junto a
Muhammad Bello conhecimentos sobre a guerra santa. A sua vasta cultura e a
sua forte personalidade transformaram-lhe em um dos personagens mais impor-
tantes do Estado muulmano de Sokoto. Em 1838, convocado pelos seus, ele se
dirigiria ao seu pas. O Futa Toro, enfraquecido pelas intervenes sempre mais
frequentes dos franceses e pelas incurses peridicas dos massassi nas provncias
orientais, no mais podia representar uma base slida para o lanamento de
uma jihad. `Umar fixou-se portanto no Futa Djalon, onde a Tijniyya contava
com numerosos adeptos e na qual, no prprio seio da Kadiryya, ele sabia que
poderia contar com o apoio dos alfaayaa, muulmanos integralistas e fervorosos



40   As tradies do Futa sugerem o seu nascimento na vspera da batalha de Bungowi, travada em 1796
     pelo Almami Abdul-Kadri para converter ao isl o damel do Kayor, Amari Ngone Ndella. Justamente,
     foi o eminente nascimento de `Umar que impediu o seu pai Saydu `Uthman, um dos condiscpulos de
     Sulaymn Bal, de participar desta batalha. Consultar, entre outros, M. Kamara, 1975, p. 154, e F. Dumont,
     1974, p. 4.
41   A kadiryya  uma das mais antigas confrarias ao Sul do Saara, onde foi introduzida pelos kunta.
42   F. Carrre e P. Holle, 1855, p. 194.
43   Em outros termos, o comandante supremo da confraria para o pas dos negros.
44   Estas so as datas consagradas pelos historiadores da Universidade Ahmadu Bello, em Zaria (Nigria),
     aps uma correspondncia de 24 de dezembro de chefe de departamento da poca, Mahd Adamu.
714                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



partidrios de um islamismo combatente45. Malgrado a hostilidade do partido
soriyaa, no poder  poca, Sayku `Umar fez de Jegunko a primeira base para as
suas operaes; recrutamentos e compra de armas intensificaram-se. Paralela-
mente, ele conclui, atravs da sua mais clebre obra, o Rimah, o instrumento
ideolgico da sua ao46. Em seu retorno da campanha de esclarecimentos e
recrutamento no Futa Toro, em 1847, ele acelera os preparativos e transfere a
sua capital para Dinguiraye, em regio jalonke, cujo chefe Gimba Sakho no
tardaria em arrepender-se por ter-lhe concedido asilo. Todavia, convencido da
sua superioridade militar, Gimba Sakho lanou as suas tropas contra Dingui-
raye. Ele foi expulso e, aps vrios sucessos em pequenas localidades vizinhas,
os mudjhidn47 dominaram, em 1852, a temida fortaleza de Tamba, a capital
do pas jalonke.

      O desencadeamento da jihad
    Vindos da regio de Sgou, os massassi fundaram, entre meados do sculo
XVIII e o sculo XIX, um Estado cuja influncia manifestou-se do Bakhunu
(Bakhounou) at Gajaga.
    A sua potncia assentava-se sobre um temido exrcito profissional, essencial-
mente composto de cativos da Coroa, devotos de corpo e alma aos seus mestres.
Sempre em primeira linha, eram eles os encarregados de abrirem brechas nos
campos inimigos. O chefe desta fora militar desempenhava um papel proe-
minente na corte do faama48, sobretudo por ocasio das mudanas de reinado.
Era ele quem dirigia todos os assuntos do pas, entre a morte de um faama e a
ascenso do presumido herdeiro49. O segundo elemento que conferia este poder
s tropas do Kaarta, foi justamente a sua cavalaria montada quase que exclusi-
vamente por massassi. Finalmente, um certo domnio na fabricao da plvora
fazia desta armada uma das mais temidas do alto Senegal.


45    Conferir Tal, al Hajj `Umar, sem datao b, T. Diallo, 1972, pp. 37, 38, 148 a 150. Os soriyaa, contra-
      riamente, originados do chefe militar Ibrahima Sori-Mawdo, que deveu a sua entronizao somente 
      presso exercida pelos jalonke e fulbes sobre o novo Estado, aqueles eram mais polticos que religiosos.
46    Ele desenvolve, em uma linguagem simples que o coloca ao alcance dos seus compatriotas, as principais
      teses da Tijniyya, enriquecidas pela sua experincia pessoal e pelos comentrios de numerosos sbios
      desta nova confraria. Recopiado em numerosos exemplares, ele foi difundido em toda a frica subsaa-
      riana e mesmo alm dela. F. Dumont (1974, pp. 64-75) diz-nos que o Rimah  ainda atualmente "o livro
      por excelncia dos letrados tijni, do mais modesto marabuto ao mais elevado guia".
47    Nome no isl atribudo aos combatentes da f.
48    Trata-se do ttulo que portavam os reis bambaras.
49    A. Raffenel, 1856, vol. I, p. 387.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                           715



    O poder era organizado em uma espcie de monarquia absoluta, com suces-
so em linha colateral no seio da famlia Kurubari (Kulibali). Uma justia rpida
e severa finalmente concedia a este Estado uma grande eficincia de interveno,
ao passo que, atravs de um criterioso sistema endogmico, os massassi fortale-
ciam a sua potncia graas a alianas matrimoniais devidamente planejadas.
    Muito rapidamente, eles se haviam tornado os grandes rbitros de todos os
conflitos da Senegmbia50. O seu apoio era frequentemente requerido para regular
as controvrsias que opunham um pas a outro, estado de coisas que lhe permitia
realizar frutuosas incurses. Muito mais bem formados na arte da guerra, compa-
rativamente aos seus vizinhos, eles extraam, em suplemento e graas a estes ser-
vios prestados, um pesado imposto. Deste modo, uma a uma, todas as pequenas
chefaturas da regio, o Bundu, o Xaso e o Gajaga, foram desestabilizadas. A sua
presso era notvel at nas provncias orientais do Futa Toro51.
    Assim prosseguiu a situao at a guerra civil que eclodiu, em 1843, no
Kaarta, entre massassi e jawara (diawara). Quando eles chegaram  regio, apro-
ximadamente em meados do sculo XVIII, os primeiros comportaram-se como
protetores dos segundos, os quais haviam sido encontrados in loco. Porm, uma
vez  frente do pas, eles no tardariam em comportarem-se como verdadeiros
mestres, expulsando os jawara em direo ao Sul e impondo-lhes, doravante,
pesados impostos e toda espcie de humilhaes52. Em 1843, os jawara, expulsos
da sua capital Nioro, revoltaram-se e mergulharam o Kaarta em uma guerra civil
que duraria sete anos. Os massassi ganharam a guerra em 1850; no entanto,
estariam desde ento enfraquecidos e divididos53.
    Os massassi do Oeste (aqueles da regio de Koniakary) no haviam aceitado
participar da guerra contra os jawara, segundo eles, declarada por Mamadi Kan-
dia, o ltimo rei kurubari, por razes pessoais54. Aps a tomada de Koniakary,
os massassi reuniram-se em Yeliman, no ms de fevereiro de 1855, constituindo




50   A. Hampat B, gravaes dos dias 10 e 11 de fevereiro de 1982. Referir-se igualmente a F. Carrre e
     P. Holle, 1855, p. 181; e a E. Mage, 1980, p. 97.
51   Os escravos, capturados aquando destas guerras e invases, eram vendidos s autoridades de Saint-Louis
     ou da Gmbia, das quais eles se haviam tornado os grandes fornecedores.
52   A. Raffenel, 1846, pp. 298-301, e 1856, vol. I, p. 337.
53   A. Hampat B, gravaes dos dias 10, 11 e 15 de fevereiro de 1982; F. Carrre e P. Holle, 1855, p. 184.
54   O pretexto para o conflito foi o assassinato de um prncipe jawara pelo filho de Mamadi Kandia. Porm, a
     mais profunda razo era que os jawara no mais suportavam a dominao bambara, tornada insuportvel
     (arrogncia, tributos exorbitantes e, alm disso tudo, a sua expulso de Nioro), segundo o jeli bambara
     reportado por D. S. Diallo, 1977, p. 10.
716                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



a entrada triunfal dos mudjhidn em Nioro. As regras do isl foram impostas
aos massassi.
    Eles suportaram em seu cotidiano tamanhas reviravoltas que revoltas no
tardariam a explodir de modo quase generalizado, mantendo as tropas muul-
manas em alerta at 1856. A represso foi de extrema violncia; o Mamadi Kan-
diae e grande nmero de massassi foram aniquilados. Aqueles que escaparam
refugiaram-se nas fronteiras de Sgou.
    Sayku `Umar deixou a provncia sob a direo de Alfaa `Umar Ceerno Baylaa
e dirigiu-se rumo ao Khasso que os franceses haviam retirado da sua esfera de
influncia e onde haviam criado uma confederao dirigida pelo seu amigo
Diouka Sambala, de Medina. O cerco desta cidade foi o mais difcil dentre os
enfrentados pela armada muulmana. Em que pese uma artilharia que a des-
pedaava, ela resistiu com uma disposio de tal ordem que gerou a admirao
dos seus adversrios. O desafio era relevante. Tratava-se, no que tange aos fuu-
tanke, de devolver muitos anos de humilhao e vexaes impostas pela nova
poltica francesa praticada no Senegal. No foi obra do acaso que o general de
maior destaque em Medina tenha sido Mamadou Kuro, o chefe da localidade
de Ngano, destruda pelas tropas francesas em 1854.
    Toda a base ideolgica da jihad repousava sobre a proteo divina; compreende-
-se, por conseguinte, que os discpulos de Sayku `Umar, Mohammadou Aliou
Tyam e Ceerno `Abdul55, tenham ensaiado justificar a derrota de Medina pela
indisciplina dos tlib ou pelo fato do seu xeque no ter recebido a misso de
combater os brancos. A durao do cerco, os sucessivos reforos encaminha-
dos a Medina e a raiva demonstrada pelos mudjhidn durante os combates,
demonstram perfeitamente a concordncia do xeque. Inclusive, nos primeiros
relatos dos quais dispomos sobre a batalha, em momento algum h referncia de
quaisquer reservas de Sayku `Umar, acerca do desencadeamento do conflito. Em
contrapartida, sabemos que Mohammadou Aliou Tyam teve, ao longo de toda
a sua obra, a preocupao de justificar todas as derrotas da armada muulmana
pela indisciplina dos tlib56. O cerco durou trs meses e a situao dos sitiados
era quase desesperadora, quando uma alta inesperada das guas permitiu a Fai-
dherbe, ele prprio, vir desbloquear a fortaleza, em 18 de julho de 1857.
    O Futa perdeu, em Medina, muitos dos seus filhos, dentre os quais, os
melhores. Fora dada a prova que os franceses se haviam tornado os senhores
da Senegmbia. Para recompor as suas foras, Sayku `Umar prosseguiu a sua

55    Trata-se do principal informador de E. Mage sobre a vida de Sayku `Umar.
56    As atuais tradies, pelas mesmas razes, no fazem seno retomar esta verso.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                      717
figura 23.5    Imprio Torodbe em seu apogeu (segundo M. Ly-Tall).
718                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



marcha rumo ao Bundu e ao Futa. Por toda parte, ele exortou as populaes
a recusarem a coabitao com os brancos, emigrando rumo ao novo Estado
muulmano por ele recm-fundado no Leste. Desde ento, produziu-se a luta
sem piedade contra os franceses, em Ndium-du-Ferlo (fevereiro de 1858), em
Matam (abril de 1859), bem como em Arundu (Arundou) e Gemu (Gmou)
(outubro de 1859).
    Acompanhado de uma fora avaliada em ao menos 40.000 indivduos, por
ele trazidos do Futa em julho de 185957, que a luta contra os franceses no tenha
sido a misso primordial assumida por Sayku `Umar, quanto a isso no resta
dvida alguma; porm malgrado uma conscincia muito ntida da superioridade
do seu armamento, ele os combateu com vigor em Medina, Gemu, Ndium e
Matam58.

      A marcha rumo a Sgou
   Com maior intensidade que aqueles do Kaarta, os bambara do Beledugu
(Beledougou) e de Sgou eram refratrios ao isl. Aqueles de Sgou haviam
especialmente resistido a muitos sculos de proselitismo dos marabutos marka
(dafin), bozo, somomo e  jihad da diina do Macina. Fundada na primeira metade
do sculo XVIII, em razo do vazio poltico criado pelo desmembramento dos
imprios do Mali e do Songhai, o fanga (poder) de Sgou, era exercido com
fora sob Ngolo Jara (1766-1790), do Mande at Tombuctu. Guarnies de
tonjon (os escravos da Coroa), estacionados nos diferentes pontos estratgicos,
garantiam a segurana do pas, ao passo que o restante da armada, atravs de
incurses regulares nos vizinhos, provia escravos aos mercados de Kangaba e
Sansanding. Era essa a principal fonte de renda dos faama e dos tonjon. No
mbito administrativo, o pas estava dividido em cinco provncias, cada qual
tendo  frente um filho do faama.
   Sob Monzon, filho e sucessor de NgoloJara (1790-1808), a fora de Sgou
manifestou-se at a Senegmbia. Em 1796, todos os pases situados entre o
Nger, o Kaarta e o Bundu, foram pilhados pelas suas foras armadas; os vizi-
nhos imediatos, o Beledugu, o Dedugu (Dedougou) e o Fuladugu (Fuladougou),
foram dominados59.

57    Segundo as informaes recolhidas por par E. Mage em Sgou, no ano 1864, numerosos contingentes
      o haviam precedido em Nioro. Mas no podemos piamente considerar estes nmeros.
58    De modo generalizado, na frica Ocidental, os franceses eram os agressores e no os agredidos. Foram
      eles que tomaram a iniciativa de combater os chefes que atrapalhassem os seus interesses econmicos.
59    L. Tauxier, 1942, p. 101.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                              719



    Com o reinado de Da Monzon (1808-1827), iniciou-se uma longa decadn-
cia, especialmente marcada pela emancipao dos fulbes e pelo nascimento, nas
fronteiras orientais de Sgou, de um Estado muulmano de mais em mais ame-
aador, a diina de Hamdallahi. Foi um pas em crise, aquele visitado aproxima-
damente em 1839 por Sayku `Umar, aquando do seu retorno da Meca. O faama
reinante, Cefolo, estava muito doente, quase morto. A luta pelo poder j estava
em curso no seio da famlia real. Um dos pretendentes ao trono, Torokoro Mari,
inclusive aceitou, na priso, a sua converso pelo marabuto tucolor, mediante
as suas bnos e oraes60. Uma aliana entre eles selada deveria permitir, em
momento oportuno, uma islamizao pacfica de Sgou.
    Entretanto, em 1859, Torokoro Mari, cujas resolues haviam sido satis-
feitas e reinante h seis anos, foi denunciado e executado pelos tonjon61. Sayku
`Umar, retornando do Futa, decidiu marchar sobre a capital bambara. Ele deixou
Nioro em 12 de setembro de 1859, dirigindo-se rumo a Sgou, pregando e
convertendo durante o percurso. No Beledugu, em 20 de novembro de 1859, a
temida cidadela de Merkoa, na qual haviam encontrado refgio os fugitivos do
Kaarta, ops uma severa resistncia a este avano do isl e, pela primeira vez,
os mudjhidn foram obrigados a empregar dois lana-morteiros tomados dos
franceses em 1858. Desde logo, a progresso tornou-se lenta. Em 25 de maio de
1860, o Nger foi atacado em Niamina. A armada muulmana assim penetrou
no territrio de Sgou.
    Na capital bambara, `Al Monzon Jara substitura, em 1859, Torokoro Mari,
julgado demasiado favorvel aos funcionrios; ele no foi empossado seno aps
ter jurado defender Sgou contra qualquer intruso do isl62. Portanto e apesar
do seu nome muulmano, ele no podia sinceramente abraar esta religio,
como o fariam posteriormente os chefes do Macina. Ele reuniu uma poderosa
armada sob o comando do seu prprio filho em Wotala. A batalha travada nesta
localidade  considerada como uma das mais mortferas da jihad. Esta fortaleza
foi tomada somente aps quatro dias de combates, em 9 de setembro de 1859,
abrindo caminho para a marcha sobre Sgou.
    A nica via de salvao para `Al Monzon era a aliana com os seus adver-
srios de outrora, os chefes do Macina. Desde a revoluo islmica neste pas,
Hamdallahi e Sgou haviam sempre estado em guerra. Todas as tentativas dos
diferentes chefes do Macina com vistas a submeterem Sgou se haviam tradu-

60   A. Kon, 1978, p. 62.
61   Ibid.; igualmente conferir E. Mage, 1868, pp. 234-246.
62   E. Mage, 1868, p. 246.
720                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



zido em derrota63. Tirando proveito inclusive das crises de sucesso no Macina,
os bambaras ali haviam travado a guerra em mltiplas ocasies64. Entretanto,
o chefe de Hamdallahi demonstrara,  imagem daquele de Sgou, tamanha
disposio em fazer tbula rasa do passado, que Sayku `Umar, em razo da sua
presena no Sudo nigeriano, questionava a um s tempo a sua hegemonia
poltica e a sua supremacia religiosa. Porm, confrontados a profundas crises,
ambos no seriam capazes de oferecer eficaz resistncia frente  armada do
xeque, mais unida, mais bem organizada e equipada. Em 9 de maro de 1861,
a armada muulmana entrou em Sgou. `Al Jara, informado, somente teve o
tempo necessrio para salvar a sua cabea, refugiando-se no Macina.

      O conflito com o Macina
    De Sokoto a Jegunko, o peregrino tucolor, com as suas imponentes foras,
os seus numerosos bens e as suas mal veladas intenes de entrar em guerra
contra os infiis, no deixou de inquietar os soberanos, tradicionalistas ou no.
Os muulmanos espalhavam-se entre trs grandes reas de influncia: o Futa
Toro (no Nordeste), o Futa Djalon (no Sudoeste) e o Macina (no Leste). No
interior deste tringulo, excetuado o Bundu, havia uma massa de regies no
muulmanas, na qual, quando se apresentavam as condies, os muulmanos
lanavam expedies caracterizadas como guerras santas; entretanto, o seu mbil
essencial era, muito amide, permitir a captura de escravos65. No era menos
frequente, de modo quase generalizado, que os soberanos muulmanos, aps os
sucessos dos primeiros anos, antes estivessem na defensiva. Justa e notoriamente,
era este o caso daqueles do Macina, no mbito das suas relaes com os seus
vizinhos no muulmanos.
    Sayku `Umar no podia deixar de ser visto como um perigoso rival. Aps
a sua vitria sobre os massassi, em abril de 1855, ele anunciou a "boa nova" a
grande nmero de soberanos muulmanos, dentre os quais aquele do Macina; a
resposta deste ltimo, ordenando o seu retorno aos seus domnios, no sugeria
nada de positivo quanto s relaes futuras entre as duas personalidades reli-
giosas do Sudo nigeriano66. A partir do ano seguinte, em agosto de 1856, uma


63    M. Delafosse, 1972, vol. II, p. 293.
64    I. Barry, 1975, p. 27.
65    Encontramos este fenmeno igualmente nos pases haussas, onde os soberanos muulmanos dedicavam-
      -se a islamizar todo mundo, com o objetivo de no se privarem de reservas de escravos.
66    Para Ahmadu-Ahmadu do Macina, todos os pases no muulmanos compreendidos entre o Nger e o
      Kaarta, estavam em sua zona de influncia.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                          721



armada do Macina postou-se perante Sayku `Umar. O confronto, em Kasakary,
constituiu o ponto de partida de um conflito que duraria at 1864.
    E, todavia, os chefes muulmanos haviam tentado, atravs de vrias correspon-
dncias, encontrar uma soluo para as suas discrdias. No entanto, esta relao
praticamente assemelhava-se a um dilogo de surdos: Sayku `Umar apoiava-se
em sua vasta cultura islmica para demonstrar ao soberano do Macina que,
distante de combat-lo, este ltimo deveria associar-se a ele para lutar contra
os infiis; Ahmadu-Ahmadu, quanto a ele, apresentava argumentos de ordem
sobretudo poltica, considerando todo o territrio, de Sgou at Kaarta, como
pertencente ao seu raio de influncia67.
    Aps a entrada da armada de Sayku `Umar em Sansanding, em outubro de
1860, as foras armadas de Sgou e do Macina, coligadas, acampariam s portas
desta cidade. Este face a face duraria dois meses e nenhuma das partes tomaria
a iniciativa dos combates. Contudo, em meio a esta atmosfera de grande tenso,
um pequeno incidente bastaria para provocar o choque, em fevereiro de 186168.
    Entrevemos, portanto, que Sayku `Umar at o ltimo instante no aparenta
ter desejado o conflito69. Ele prprio no teria condenado, em termos violentos,
o conflito armado entre os sultes do Borno e de Sokoto? Aparentemente,
era muito sincera a sua proposta sugerindo-lhe a ele se associar, endereada
ao soberano do Macina, o qual no lograra converter os bambaras de Sgou70.
Porm, era igualmente difcil para Ahmadu-Ahmadu aceitar esta proposio,
pois que ela equivaleria a reconhecer a supremacia daquele outro. Em que pese a
troca de numerosas cartas, o conflito era, portanto e dificilmente, evitvel, dada

67   Consultar, acerca desta troca de correspondncias entre `Umar e Ahmadu-Ahmadu, a recente traduo
     e anotao, em al-Hjj `Umar Tal, 1983; podemos igualmente conferir, com interesse, F. Dumont, 1974;
     F. B. S. Diarah, 1982 e M. al-Hafiz al-Tidjani, 1983.
68   Tiros dos macinanke sobre os partidrios de Sayku `Umar que se banhavam, segundo F. Dumont, 1974,
     p. 126; trocas de tiro de fuzil entre os pescadores dos dois campos, segundo E. Mage. Quando Sayku
     `Umar, informado, tentou conter as suas tropas, elas j haviam comeado a atravessar o rio, E. Mage,
     1980, p. 106.
69   Segundo todos os nossos informadores do Futa, ele no o quis (O. B, sem datao, p. 109, verso; Tapsiru
     Ahmadu Abdul Niagane, gravao do dia 3 de maio de 1981; al-Hadj Ahmadu Ibrahima Datt, gravao
     do dia 4 de maio de 1981). No desencadeamento da grande jihad, em junho de 1854, o Kaarta e Sgou
     eram os nicos objetivos que se fixava `Umar, segundo M. A. Tyam, 1935, p. 45. Igualmente do lado das
     tradies do Macina, N. Wagalo (1977, p. 6) reporta-nos que a misso de Ahmadu Haimut de Har
     tinha o objetivo de evitar o conflito e de solicitar o apoio do chefe do Macina, para o prosseguimento
     do jihad em direo ao pas Mossi.
70   Com a aproximao de Sayku `Umar, algumas mudanas circunstanciais aconteceram; entretanto, elas em
     nada transformaram o fundo do problema: os bambaras de Sgou permaneciam profundamente ligados s
     suas religies. Os numerosos smbolos de adorao encontrados em Sgou seriam expostos em Hamdallahi
     (M. A. Tyam, 1935, pp. 183-184). Sobre a religio dos bambaras antes do jihad do xeque, consultar E.
     Mage, 1868, M. Delafosse, 1972, L. Tauxier, 1942, C. Monteil, 1977 e al-Hjj `Umar Tal, 1983.
722                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



a intransigncia das respectivas posies71. A aliana do chefe do Macina com
Sgou proporcionou a Sayku `Umar o argumento jurdico para combat-lo.
    Aps permanncia de um ano na capital bambara, `Umar marchou rumo
ao Macina, em abril de 1862. Hamdallahi foi ocupada a partir do ms subse-
quente. Ahmadu-Ahmadu, ferido durante a batalha de Tyayawal (10 de maio
de 1862)72, foi rendido. Balobbo, que jamais renunciara ao trono do Macina,
submeteu-se assaz facilmente, esperando assim alcanar os seus objetivos.
Mas Sayku `Umar jamais abandonava o poder queles seus antigos inimigos.
Acreditando ter realizado, com o desaparecimento de Ahmadu-Ahmadu, a to
solicitada unidade com o Macina, ele abandonou todos os grandes dignitrios
no exerccio das suas funes no pas73; todavia, em janeiro de 1863, ele os
forou  dependncia visvis do seu filho Ahmadu, propondo-se, ele prprio,
a "continuar a operar contra os infiis,  frente das suas tropas, acrescidas por
aquelas do Macina"74.
    Balobbo, decepcionado, voltou-se para Tombuctu, em maro de 1863; ele
sabia ter encontrado, na pessoa de Sd Ahmad al-Bekkaay, um adversrio reso-
luto contra Sayku `Umar. Informado, este ltimo arrestou-o, assim como nume-
rosos dentre os seus partidrios.

      A coalizo TombuctuMacina e o fim de Sayku `Umar
   Vimos que Tombuctu formalmente dependia de Hamadallahi. A realidade
do poder estava, efetivamente, nas mos dos kunta, cujo chefe, Sd Ahmad
al-Bekkaay, demonstrava particular apego por determinada supremacia religiosa,
por ele mantida em todo o Sudo nigeriano. A progresso da armada do xeque
no poderia deixar de inquiet-lo. Desde 1860, ele entrou em contato com os
bambaras, oferecendo-lhes o seu apoio moral75. Dois anos mais tarde, em 1862,
enquanto propunha a paz a Sayku `Umar, ele simultaneamente oferecia o seu



71    Conferir os detalhes destas cartas em F. Dumont, 1974, pp. 141-182, e em al-Hjj `Umar Tal, 1983.
72    Tyayawal era um bosque em uma zona de mangue que se encontrava nas proximidades de Sofara. Foi ali
      que aconteceu o ltimo grande enfrentamento entre as armadas de Ahmadu-Ahmadu e Sayku `Umar.
      Os macinanke defenderam-se com ardor, entretanto, alguns chefes militares do Macina se ausentariam
      voluntariamente do combate de Tyayawal (N. Wagalo, 1977, p. 32) e, sobretudo, a armada do xeque
      dominava aquela do Macina, tanto pelo seu armamento quanto pela sua fora organizacional. As aes
      de impacto individual tinham demasiado grande importncia junto aos fulbes.
73    N. Wagalo, 1977, p. 33.
74    E. Mage, 1868, p. 268.
75    Em 1860, ele envia uma carta neste sentido a `Al Monzon (C. Gerresch, 1976, p. 894).
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                       723



apoio na revolta que rondava Hamadallahi76. Balobbo e os seus partidrios eva-
didos organizaram a revolta com o seu apoio. Primeiramente em Mani-Mani,
seguidos pelo Kunari, os coligados impuseram  armada do xeque, severas derro-
tas; causando a perda dos seus melhores generais, Alfaa `Umar Ceerno Baylaa e
Alfaa `Uthmn, em maio e junho de 186377. Aps oito meses de cerco, o restante
da armada tentou uma sada, no dia 7 de fevereiro de 1864. Perseguido, Sayku
`Umar refugiou-se na gruta de Degembere, onde morreria em 14 de fevereiro de
1864, horas antes da chegada dos reforos enviados pelo seu sobrinho Tijjaani-
-Alfaa. Este ltimo, enraivecido, permaneceu em furiosa luta contra os coligados,
desde logo em total desentendimento (cada qual pretendendo a exclusividade do
poder). Um a um, eles foram batidos. Em fevereiro de 186578, Sd al-Bekkaay, a
alma da coalizo, foi morto, em um combate em Sare Dina, no Sebera. Tijjaani
tornou-se o mestre do Macina e do Tombuctu. Aps Kaarta e Sgou, esta se
tornaria a mais importante provncia do imprio.

     Estruturas polticas, econmicas e sociais do Imprio torodbe
     Sayku `Umar e o exrcito dos mudjhidn
   Com a ocupao do Macina, o imprio atingiu os seus limites mximos,
cruzando terras do Gidimaka a Tombuctu e de Dinguiraye ao Saara79. Alm
de um Estado centralizado, este imenso territrio apresentava-se como uma
sequncia de fortalezas nas quais uma administrao poltico-religiosa tinha
como vocao consolidar a converso ao isl. Sayku `Umar, acima do prestgio
sobre quem repousava toda esta construo, considerava-se exclusivamente um
mudjhid, um combatente da f. Ele no se preocupava sobremaneira com a
organizao ou a administrao, contentando-se em nomear os tlib, em todas
as localidades recm-convertidas. Esta escolha efetuava-se, por via de regra,
baseada nos critrios da instruo e da moralidade80.



76   C. Gerresch, 1976, p. 895. Toda a famlia kunta no compartilhava as posies de Sd Ahmad al-Bekkaay.
     Grande parte desta famlia era antes favorvel a Sayku `Umar (C. Gerresch, 1976, p. 893).
77   M. A. Tyam, 1935, pp. 190-192, notas 1092 e 1110.
78   E. Mage, 1868, p. 450.
79   E. Mage, 1980, p. 113, sugere como limites ocidentais, Medina e Tengrela; Dinguiraye e o Gidimala
     aparentam melhor corresponder  realidade.
80   Como bem demonstrou F. Dumont (1974, p. 121), tratava-se de um "anti-sulto".  significativo que
     tenha sido um estudioso do isl quem, pela primeira vez, tenha salientado este carter fundamental de
     Sayku `Umar. Infelizmente, numerosos escritos deste ltimo ainda no foram traduzidos.
724                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Coube aos tlib a tarefa da organizao. Sayku `Umar, ele prprio, era antes
e sobretudo um mstico81, convencido da sua predestinao a uma misso divina
consistente em concluir o processo de converso dos negros ao islamismo.
Durante a execuo desta tarefa, nada o interrompia, nem a hostilidade de
alguns soberanos muulmanos e tampouco a feroz resistncia dos no muulma-
nos.  imagem do profeta, de quem estava convencido ser o herdeiro, os obst-
culos encontrados, distantes de desestimul-lo, fortaleciam a sua determinao:
"O herdeiro herda tudo aquilo que possui aquele de quem ele  o herdeiro"82.
No plano fsico, o nico testemunho ocular do qual dispomos, referente a ele,
 pertencente a Paul Holle, que afirma t-lo visto, em agosto de 1847, em
Bakel; ele o apresenta como "um homem de notvel presena, sobre a qual se
delineiam viva inteligncia e um sentimento de meditao e clculo"83. Ele era
brilhantemente auxiliado pelo seu mais importante general, Alfaa `Umar Ceerno
Baylaa Waan, com o qual ele dizia possuir, invariavelmente, total identidade
de propsitos84. O segundo personagem que lhe era mais prximo, `Abdullaahi
Hawsa, seguira-o desde Sokoto. De um modo geral, em que pese a ascendncia
pessoal que tinha sobre os seus companheiros, a qual reforava a doutrina da
Tijniyya referente s relaes entre o xeque e os seus discpulos, ele associava
os tlib a todas as grandes decises. Esta situao inclusive no podia ser dife-
rente neste meio predominantemente torodbe, no qual cada um zelava pela sua
pequena personalidade. Justamente durante os seus retiros espirituais, ocorreu
o amadurecimento de grande parte dos seus projetos, amplamente inspirados
na experincia do profeta Muhammad e dos seus califas do isl, os seus prede-
cessores. Em seguida, ele submetia as suas teses  aprovao do conselho dos
tlib85. Com efeito, era muito importante, para o sucesso da jihad, conquistar a
adeso permanente destes discpulos desgarrados, os quais haviam abandonado
a famlia e a ptria para segui-lo. Igualmente, ele no media nenhum esforo
para lig-los  sua pessoa, tanto por meio de demonstraes dos seus poderes
sobrenaturais, quanto atravs de distribuies de bens. As tradies guardaram a


81    Ele estava frequentemente em khalwa. Todas as grandes decises eram tomadas aps um dos seus retiros
      espirituais.
82    Al-Hjj `Umar Tal, sem datao, (b).
83    F. Carrre e P. Holle, 1855, pp. 191-192.
84    Tapsiru Ahmadu Abdul Niagane, gravao do dia 3 de maio de 1982.
85    M. A. Tyam (1935) mostra-nos frequentemente em khalwa. Este mesmo autor traz-nos o conhecimento
      de desobedincias dos tlib, embora sempre para justificar uma derrota. Igualmente no sabemos qual o
      crdito que se deve acordar a estes diferentes testemunhos; a sua quantidade basta para militar em favor
      da veracidade de alguns.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                        725



sua imagem, como a de um homem muito generoso86. Ele zelava especialmente
pela manuteno da armada.
    Foi nas regies haussas que Sayku `Umar recrutou os primeiros elementos
deste exrcito, o qual no deixaria de crescer, de Sokoto at Dinguiraye. Mul-
tirracial, esta fora compreendia os contingentes do Futa Toro, do Haussa, do
Futa Djalon, do Khasso, do Kaarta e de Sgou. Os primeiros eram largamente
os mais importantes: de Jegunko at a partida de Nioro em 1859, o Futa Toro
no deixou de alimentar a armada da jihad87.
    Esta armada compreendia quatro batalhes organizados, cada qual em torno
de um contingente do Futa: o batalho do Toro compreendia o Toro, o Bundu, o
Gidimaka, e uma parte do Futa Djalon; o batalho dos yirlabe reunia os yirlabe,
os habbiyabe, o Xaso, o Diafunu (Diafounou), o Bakhunu, os fulbes wolarbe;
quanto ao batalho do Ngenar, ele compreendia os ngenar, os bosseyabe, os
jawara, os massassi; finalmente, o batalho do Murgula reagrupava os malinke e
uma parte dos futa-djalon. A guarda do xeque era garantida por um importante
grupo predominantemente haussa88. Cada um dos batalhes era representado
por uma bandeira distinta (preta para os yirlabe, vermelha e branca para os
toro).
    O armamento era essencialmente composto por fuzis de assalto e sabres:
alguns raros privilegiados possuam fuzis de dois tiros. Um importante grupo
de ferreiros seguia a armada e a reabastecia de munio89.
    No ms de julho de 1858, em Ndium-du-Ferlo, partidrios do Sayku `Umar
tomaram do capito Cornu, naquele momento em debandada, dois obuses de
campanha, em pane. Reparados pelo engenheiro militar Samba Ndiaye, eles
desempenharam um importante papel nas campanhas do Beledugu e de Sgou.
Porm, o que tornava fortes os mudjahidn, era sobretudo a sua f e uma estra-
tgia relativamente elaborada. Regularmente, o xeque os entretinha com pro-



86   Distribuio de bens em Nioro, antes da partida rumo a Medina, e em Sgou, antes da partida para o
     Macina.
87   Em cada ocasio em que ele teve que reconstituir a sua armada, foi em direo ao Futa Toro que enviou
     os seus emissrios: em 1849, para preparar o ataque de Tamba, em 1854, antes da grande jihad, e aps a
     mortfera batalha de Teliman, em 1855 (M. A. Tyam, 1935, pp. 43, 44, 47). O movimento continuaria
     sob o seu filho Ahmadu. Ele prprio percorreu, em 1858-1859, antes de marchar sobre Sgou, um
     importante circuito, aps o qual trouxe consigo, entre civis e militares, mais de 40.000 pessoas.
88   O. B, sem datao, p. 78 (verso). Ns observamos que os sofa ainda no existiam como batalho.
89   E. Mage faz-nos o inventrio das munies de Ahmadu, na vspera da batalha de Toghu: 4.200 kg de
     plvora local, 15 a 20 kg de plvora europeia, 9 sacos grandes de pedra para fuzil, 150.000 balas (E.
     Mage, 1868, p. 415).
726                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



messas de deleite neste mundo e no outro, dirigidas aos combatentes da f90.
Nos momentos imediatamente precedentes aos mais difceis combates, ns o
acompanhamos redobrar a sua atividade. Bebendo na fonte do Alcoro e nos
principais escritos sobre a vida do profeta Muhammad e dos seus companheiros,
ele incentivava os seus homens a superarem bravamente todas as dificuldades.
Assim aconteceu em Yaguinne,
      o Diferenciador ordenou aos gritadores para convocarem a armada; a armada
      reuniu-se, o xeque fez o sermo, o sbio que no se engana [...]. L, o nico
      acolheu aos talibs; atraiu a sua ateno para as promessas [de recompen-
      sas] e para as ameaas de [castigos eternos]; as tradies, [em respeito ao
      Profeta] e as mximas foram expostas. Ele pregou, preencheu o corao
      dos seus seguidores [de aspiraes] rumo ao outro mundo, de tal modo que
      apresentou para eles este mundo como um rolo compressor e o outro mundo
      tornou-se [o seu] objetivo91.
   Do mesmo modo, durante o cerco a Medina, ns o acompanhamos despren-
der uma inesgotvel energia para levantar o moral da suas tropas e assegurar-lhes
a proteo divina no paraso. E quando Paul Holle, para denegri-lo, disse a um
jovem tlib moribundo: "Infeliz, porque o teu Al Aghi no marchou na linha
de frente da incurso? O moribundo, lanando sobre Paul Holle um olhar de
pura piedade, gritou: `Meu Deus, meu Deus! Eu te agradeo, eu morro! Eu vejo
o paraso' [...]".
   Esta fantica armada tinha diante de si adversrios frequentemente dividi-
dos, tal foi o caso no Bambuk (Bambouk), no Kaarta, em Sgou e no Macina.
Ela igualmente possua uma ntida superioridade em relao  estratgia de
combate: manobra de divises, cerco ao inimigo, rapidez de movimento, todas
tcnicas militares que j haviam permitido ao Profeta e aos seus companhei-
ros reconquistarem, em alguns anos, imensos territrios. Inclusive o terror era
uma arma estratgica: massacres humanos, reduo das mulheres e crianas 
escravatura92, quebrando a moral dos pases ameaados e conduzindo alguns
 rendio sem combate. Na chegada a um pas, o procedimento era sempre
similar: emissrios eram enviados junto ao chefe para convid-lo  converso;
caso consentisse, se lhe raspavam a cabea, davam-lhe um chapu, um satala,


90    Segundo as tradies, ele pregava todas as noites (O. B, sem datao, p. 86).
91    M. A. Tyam, 1935, pp. 56-57.
92    A lei muulmana no permite matar em combate seno aqueles capazes de portar uma arma. As mulheres
      e crianas de menos de quinze anos eram poupadas.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                  727
Figura 23.6   De Dinguiraye a Hamdallahi (segundo M. Ly-Tall).
728                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



ensinavam-lhe as regras elementares do isl, procedendo deste modo junto aos
seus sujeitos; um tlib e uma pequena guarnio eram encarregados de concluir
esta converso. Este recurso  converso pacfica permitiu-lhes evitar nume-
rosas batalhas, dentre as quais, algumas poderiam ser difceis. Assim sendo, a
temida cidadela de Farabana foi tomada sem grande resistncia em 1854. Em
1856, novamente Sayku `Umar mostrou-se muito conciliador com os habitan-
tes revoltados de Farabugu (Farabougou); e, aps a tomada de Dyangunte no
mesmo ano, ele no hesitou em negociar com os kamori, para conduzi-los a se
conformarem s regras muulmanas relativas s posses dos vencidos93.
    O combate no era levado a cabo seno quando havia recusa em abraar o
isl, caso infelizmente mais recorrente.
    O grande general desta armada foi Alfaa `Umar Ceerno Baylaa Waan. Certo
dia, uma controvrsia eclodiu acerca da definio sobre quem, entre Alfaa `Umar
Ceerno Baylaa e `Abdullaahi Hawsa, era o mais ligado a Sayku `Umar. Para
alguns, era o primeiro, para outros o segundo. Para definir a situao, as duas
partes dirigiram-se junto ao prprio Sayku `Umar que, por sua vez, disse-lhes:
"Se algum aparece com um sabre e solicita que se escolha entre a sua cabea
e a cabea de `Umar, ser `Abdullaahi Hawsa que apresentar a sua. Caso eu
tenha algo muito importante a realizar, Alfaa `Umar ter integralmente a mesma
opinio que a minha94."
    Alfaa Umar Ceerno Baylaa Waan representou o brao forte da jihad; pode-se
dizer que Sayku `Umar dele no foi nada alm do crebro.
    Outros chefes militares tornaram-se muito clebres na memria dos fuutanke.
Tal foi o caso de Alfaa `Umar Ceerno Molle Lii, um dos primeiros companhei-
ros, morto em Merkoa; de Alfaa `Uthmn, morto em Macina; e de Mammadu
Hamat Kuro Waan, um dos mais intrpidos. Originrio da localidade de Ngano
(perto de Kanel), onde se havia particularmente sofrido com as exaes da nova
poltica de interveno das autoridades de Saint-Louis, este ltimo juntou-se a
Sayku `Umar, acompanhado de todos os seus concidados, em Farabana, no ano
de 1854. Tratava-se de um dos mais violentos adversrios dos franceses. Foi ele
quem, enfrentando as balas dos canhes, logrou escalar a fortaleza de Medina e
ali cravar a bandeira muulmana. Pouco aps, ele foi derrubado por uma rajada
de fuzil-metralhadora.



93    M. A. Tyam, 1935, pp. 81, 82, 98, 100, 124-126. Ele daria provas do mesmo esprito no Gidimala e no
      Diafunu.
94    Tapsiru Ahmadu Abdul Niagane, gravao do dia 3 de maio de 1981.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                       729



   Malgrado a sua coragem e a sua organizao, esta armada no escapava deste
grave defeito prprio a todas armadas africanas da poca: serem dependentes do
butim de guerra. Embora a lei muulmana concedesse certa ordem na partilha
desses recursos, no era menos verdade que o butim tivesse uma crucial impor-
tncia nos combates, a ponto de no poder condicionar os seus desdobramentos.
A personalidade de Sayku `Umar e a sua preocupao em dividir este esplio,
equnime e regularmente, mantiveram a coeso da armada at a sua morte. No
sucedeu de modo semelhante durante o perodo de Ahmadu. Pois que a armada
desempenhava um papel muito importante no sistema e dela especialmente
dependia a submisso das diferentes provncias do imprio.

     A administrao das provncias: uma administrao descentralizada
    As provncias, como observamos, eram demarcadas por fortificaes, a partir
das quais o isl deveria exercer o seu poder de expanso. As mais importantes
eram Dinguiraye, Kundian, Nioro, Koniakary, Dyangunte, Diala, Farabugu,
Murgula e Sgou. Dinguiraye, Nioro, Koniakary e Sgou existiam na qualidade
de capitais regionais.
    Nos confins do Futa Djalon e do pas Mande, Dinguiraye  a primeira
provncia histrica do imprio. Foi ela que abrigou, durante muito tempo, toda
a famlia de Sayku `Umar, sob a direo do seu filho Mohammadu Habibu
(neto de Muhammad Bello). Dela, igual e teoricamente, dependia a fortaleza
de Kundian, no Bambuk, construda em 1858 sob o acompanhamento direto do
prprio Sayku `Umar; ela deveria assegurar o respeito de todos os pases mande95.
Mage, impressionado diz-nos "que ela imporia grandes dificuldades ao ataque de
tropas regulares". A administrao apresentava-se bicfala: um liberto, Django,
assistido por um tlib, e Racine Tall, primo de Sayku `Umar.
    O Nioro era a mais importante provncia sob Sayku `Umar. Ele contava
com numerosas fortalezas, dentre as quais as mais importantes eram aquelas de
Farabugu, Dyangunte e do prprio Nioro. Uma forte colnia fulbe e torodbe
ocupava maior parte das localidades das quais os massassi haviam sido expulsos.
Concomitantemente ao aumento da opresso do poder colonial, intensificava-se
o afluxo de imigrantes do Futa. A administrao provisria, instaurada em 1857
sob a direo geral de Alfaa `Umar Ceerno Baylaa, foi sensivelmente modificada


95   E. Mage, que passou por Kundian em 1863, descreve a fortaleza como "um quadrado de 60 metros pro-
     tegido por seis torres, com altura de 4 a 8metros, com uma espessura na base de 1,5 metros" (E. Mage,
     1868, p. 82-83).
730                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



em 1859 para permitir enfrentar as necessidades da campanha de Sgou96. Com
a quebra definitiva da resistncia massassi, Sayku `Umar partiu de Nioro com
numerosos chefes de distrito. No restaram no Kaarta seno civis protegidos
por pequenas guarnies. Em Dyangunte, Ceerno Buubakar Siree Lii substituiu
`Abdullaahi Hawsa; em Farabugu e no Nioro, os libertos Dandangura e Mustaf
sucederam Khalidu Elimane Demba e Alfaa `Umar Ceerno Baylaa.
    O Diombokho era a provncia mais prxima de Medina e Bakel. O tata de
Koniakary97, construdo em janeiro de 1857, devia proteger o Diombokho, simul-
taneamente contra os franceses e o seu aliado Diouka Sambala. Em 1866, o chefe
dos tlib, Ceerno Muusaa98, instigador da conveno local assinada em 1860 com
o comandante de Bakel, nesta ocasio reservou uma cordial recepo a Mage; o
governador militar, San Mody, em contrapartida no escondeu a sua hostilidade.
    Nioro encontrava-se muito prximo dos franceses; e, no entanto, ns sabemos
que Sayku `Umar particularmente detestava a coabitao com eles. Eis o que certa-
mente explica a importncia adquirida por Sgou no Imprio Torodbe, do qual ela
tornar-se-ia a capital sob Ahmadu. Anteriormente a 1864, ela no passava de uma
capital provincial como as outras, tendo  frente, a partir de abril de 1862, o pri-
mognito de `Umar. Ele era assistido por alguns velhos companheiros do seu pai,
como Ceerno `Abdul Segu, Ceerno Ahmadu e Samba Ndiaye, engenheiro chefe
da maioria das fortificaes do imprio99. Porm, os mais influentes personagens
da corte eram, sem dvida, Baba Ulibo e Bobbo, respectivamente vice-rei e con-
selheiro diplomtico100. No que tange  defesa da cidade e do seu entorno, ele no
dispunha, no momento da partida de Sayku `Umar em direo ao Macina, seno
de 1.500 tlib e de um contingente jawara e massassi de sofa, sob a direo-geral
de Ceerno Alasan Baa. Ahmadu deveu, portanto, tudo organizar nesta provncia,
na qual, como sempre ocorrera alhures, Sayku `Umar somente havia passado101.

96    Eis como se apresentava esta administrao em 1857 (O. B, op. cit., p. 96, verso): Thierno Djubaru Bubu
      Haruna, no Diafunu, Thierno Ahmadu Umakala, no Kaniarene, Modi Mamadu Pakao, em Niogomera,
      Sulayman Baba Raki, em Diala, Kalidu Elimane Dema, em Farabugu, `Umar Mamadu Lamine, em
      Gemukura, Abdulaye Hawsa, em Dyangute, `Abdulaye `Al no Bakhunu. Igualmente consultar B. O.
      Oloruntimehin, 1972, p. 92.
97    Inteiramente erguida em pedra, ela tinha dois metros de espessura e muitos metros de altura; os vestgios
      que resistiram  artilharia de Archinard ainda so impressionantes.
98    Foi ele quem substituiu Thierno Djibi neste posto, em 1859.
99    E. Mage, 1868, p. 222.
100 O segundo era originrio do Haussa. Ele desempenhou um papel muito importante nas negociaes
    entre Mage e Ahmadu. Tratava-se do mais antifranceses dentre os colaboradores de Ahmadu. Quanto
    ao primeiro, filho de Ulibo B, que acompanhara Sayku `Umar desde Nioro; ele prprio era, em contra-
    partida, pr-franceses.
101 Ele permaneceu um ano em Sgou, tempo por ele empregado sobretudo para redigir a sua obra, le Bayn
    m waqa `a.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                   731



Em fevereiro de 1863, este vasto territrio teoricamente engrandeceu-se com o
Macina. Porm, a revolta ali eclodida, desde o ms subsequente, impediu a com-
pleta concretizao deste engrandecimento. Aps o desaparecimento do `Umar, a
reconquista do Macina foi realizada por Tijjaani-Alfaa, em seu proveito.
    Em todas as fortalezas muulmanas dos territrios recm-convertidos, nos
quais no se escondia a hostilidade frente ao isl, a administrao era invaria-
velmente bicfala, contando com um chefe religioso para dar continuidade 
islamizao, sob a proteo de um governador militar. Em cada uma delas, Sayku
`Umar possua uma casa e abrigava uma parte da sua famlia. Portanto, no era
concebvel a existncia de uma residncia fixa,  moda dos chefes temporais.
    Como no Futa Toro, cada uma das provncias estava organizada de modo
autnomo; Sayku `Umar era somente o chefe espiritual de todo este conjunto.
O sistema era muito eficaz, caso dermos crdito ao testemunho de Mage, que
visitou a maior parte delas, de 1863 a 1866. Malgrado a existncia de alguns
focos de revolta (dificilmente poderia ser diferente, considerando todas as revi-
ravoltas que o novo poder trazia no tocante aos hbitos ancestrais das popula-
es concernidas), o viajante francs impactou-se com a ordem e a segurana
reinantes neste conjunto102.
    Em todas as provncias, a justia era garantida segundo a lei cornica, atravs
dos kd, ao nvel dos delitos civis; os crimes e delitos polticos eram levados
 apreciao do chefe religioso da capital provincial. Assim sendo, em Sgou,
Mage nos informa que os dois grandes justiceiros eram o kd e o prprio
Ahmadu e os seus julgamentos no admitiam recurso. As sanes eram idnticas
quelas de todos os pases muulmanos; os enforcamentos eram o mtodo mais
frequente, aos quais no escapavam sequer os altos-funcionrios do imprio103.

    A economia e as finanas do Imprio
    O objetivo autoatribudo por Sayku `Umar deixava pouco espao para o
desenvolvimento econmico dos territrios conquistados. As riquezas acumula-
das desde Sokoto e o butim de guerra cobrado das populaes vencidas bastavam
amplamente para por em marcha a mquina de guerra, cuja desmobilizao no
aconteceria seno por ocasio da sua morte. Portanto, incumbiu-se justamente
s autoridades provinciais a deciso sobre as desavenas de ordem econmica.

102 E. Mage, 1868, p. 86. Ele no pde deixar de comparar esta situao com aquela que prevalecia, por
    exemplo, no Xaso, segundo ele caracterizada por uma desordem e uma total insegurana, provocadas
    pelas mltiplas invases organizadas por Diuku Sambala nos pases vizinhos.
103 E. Mage, 1968, p. 344.
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    As consequncias da guerra foram, por via de regra, relativamente nefastas
para a economia dos pases conquistados. No entanto, todas as provncias no
haviam sido atingidas de modo semelhante. A agricultura, setor mais afetado
pela jihad, aparentemente esboou uma sensvel retomada, nos anos 1863-1864.
Os pases mande, atravessados por Mage, eram particularmente ricos em algo-
do. Na provncia de Kita, as localidades eram circundadas pelas plantaes de
tabaco, legumes, melancias e vitelrias104. Em Guettala, no Bague, os kagoro,
livres da intensa presso dos massassi, haviam aumentado o seu vigor para o
trabalho: "Eles me diziam estarem felizes, por no serem mais saqueados, pela
tranquilidade em vigor no seu pas e em virtude de todo mundo trabalhar graas
s ordens determinadas pelo al-Hadjdj `Umar"105.
    No Kaarta e no Dyangunte, Mage refere-se  existncia de uma verdadeira
abundncia (boa colheita de paino, em Bambara Mutan e Madiaga). Porm,
foi sobretudo a prpria localidade de Dyangunte, rica com suas culturas de
arroz, paino, milho, amendoim, algodo, feijo, tomate, cebola e tabaco, que
impressionou o viajante francs: "Na realidade,  noite, os meus homens rece-
beram um copioso cuscuz e a mim ofereceram seis litros de leite; ns recebemos
ainda maior abundncia de comida em virtude da nossa oferta de presentes a
Fahmara"106. Inclusive os rebanhos, includos em grande proporo no butim
da jihad, encontravam-se em abundncia no Kaarta107. A provncia de Sgou,
propriamente dita, no era menos prspera: a agricultura era relativamente
variada108 e numerosos rebanhos bovinos alimentavam o tradicional comrcio
em direo ao Bure (Bour).
    No Sudo Central, o estado de guerra jamais fora totalmente interrompido,
pois que todos os beligerantes tinham os seus interesses nesta regio. As princi-
pais rotas das caravanas, ligando o Sudo Central ao Norte e ao Sul, permaneciam
ativas. Numerosas caravanas transportavam sal e animais de Nioro para o Bure,
de onde traziam ouro e escravos109. Nioro, Koniakary, Kita, Banamba, Niamina
e Sgou representavam importantes escalas para este comrcio, cujo destino
encontrava-se tradicionalmente em Bakel, Mdine, Freetown, Bathurst ou na
regio moura. Aps o conflito com os franceses, as relaes com Medina e Bakel


104 Ibid., pp. 89-100.
105 Ibid., p. 116.
106 Ibid., pp. 137-138.
107 Ibid., p. 123.
108 Ibid., pp. 148, 156, 161, 165.
109 Ibid., pp. 105-123.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                     733



haviam sido suspensas110. Um dos objetivos da viagem de Mage era precisamente
negociar o restabelecimento deste fluxo comercial. Todavia,  necessrio notar
o declnio de cidades tais como Niamina e Sansanding, decadncia esboada
desde a revoluo teocrtica do Macina. Na qualidade de entreposto comercial
de Tombuctu, Sansanding fora igualmente o primeiro mercado de escravos da
regio. Reis de Sgou e chefes ciss da cidade haviam enriquecido considera-
velmente graas a este trfico de escravos111. Ocupando-a em setembro de 1860,
Sayku `Umar eliminou os diversos impostos pagos a uns e outros (transformando
Boubou Ciss em adversrio) e substituiu-os por taxas mulumanas. Todavia,
desde maro de 1863, no prprio momento em que os enviados de Sd Ahmad
al-Bekkaay tentavam sublevar todo o Sgou e o Macina, Ahmadu foi desatento
ao impor um imposto especial  cidade. A rica cidade soninqu basculou para o
campo rebelde do qual no tardaria a tornar-se o centro nervoso.
    Aps cada vitria, todos os bens dos vencidos eram embargados e divididos
em cinco partes, das quais uma era concedida ao Estado e as quatro restantes
aos combatentes. Considerveis reservas de ouro, rebanhos e suprimentos de
toda espcie foram acumulados em Dinguiraye, Nioro e Sgou. Sayku `Umar
periodicamente delas fazia uma grande distribuio aos seus tlib112, ele prprio
no vivia seno dos seus prprios bens. O zakt, ou dzimo, era arrecadado in
natura e, exclusivamente, junto aos muulmanos; ele servia para suprir as nume-
rosas exigncias referentes  hospitalidade e na ajuda aos indigentes e rfos113.
O mudu, ou doao anual, era cobrado de todo muulmano na poca da festa
do Ramad; ele era destinado aos funcionrios do culto (imm, kd, consultores
jurdicos e leitores do Alcoro) e igualmente aos indigentes. O usuru era, inicial
e unicamente, pago pelas caravanas, na proporo de um dcimo do valor das
mercadorias; ele seria posteriormente estendido aos criadores, na razo de uma
cabea de gado para cada trinta animais114.
    Embora as modalidades e o destino destas diferentes prestaes fossem
sempre perfeitamente respeitados durante a hegemonia do chefe da jihad, sob
Ahmadu, elas seriam uma fonte frequente de revoltas115. Igualmente ocorreu


110 Ibid., p. 120.
111 Ibid., p. 126.
112 Tal foi o caso, primeiramente de Nioro, em 1859, e posteriormente de Sgou, em 1862.
113 Uma considervel parte servia para o abastecimento das famlias dos soldados mortos no jihad.
114 B. O. Oloruntimehin, 1972a, p. 117.
115  imagem daquela da comunidade soninqu de Sansanding, em 1863, provocada pelo recolhimento de
    uma altssima e excepcional contribuio (E. Mage, 1868, p. 275).
734                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



uma surda oposio dos tlib, os quais reprovariam ao sucessor de Sayku `Umar
por no ser to generoso quanto o seu pai.

      Uma sociedade dominada pelos tlib
    Os tlib, ou discpulos de Sayku `Umar, pertenciam a todas as etnias e a todo
o pas116. Eles eram provenientes dos mais diversos meios sociais. Em meio aos
mais prximos companheiros, identificavam-se tanto prncipes quanto antigos
escravos. Vimos que um dos objetivos do xeque era democratizar a sociedade
contra o jugo das famlias feudais.
    Portanto, quase generalizadamente no imprio, a tradicional aristocracia,
fundada em laos sanguneos, foi suplantada por essa nova elite poltico-religiosa
recrutada com base nos seus conhecimentos e prticas islmicos. Em todas as
sedes provinciais, em todas as grandes localidades, l estavam eles, em nmero
sempre relativamente importante, para ajudar a populao recm-convertida a
familiarizar-se com os ritos da sua nova religio. Assim sendo, em Dyangunte,
no ms de fevereiro de 1864, eles eram 540 indivduos, vindos de todos os
horizontes; alguns inclusive falavam um pouco de francs, o que leva a acreditar
serem procedentes de Saint-Louis. Sob a direo de Ceerno Buubakar Siree Lii,
eles passavam boa parte do seu tempo em um hangar, perto da mesquita, lendo e
escrevendo ou ensinando o Alcoro117. Eles monopolizavam todas as funes do
imprio. Igualmente, sob Ahmadu, eles no tardariam a constiturem-se como
uma importante aristocracia. Ahmadu, que no possua a envergadura religiosa
ou militar, comparativamente a Sayku `Umar, tinha dificuldades para se impor
perante os antigos companheiros do seu pai; estado de coisas que lhe permitiu
naturalmente apoiar-se sobre os sofa.
    Esta ltima categoria social, possuidora de funes mais militares que reli-
giosas, era constituda pela massa dos povos vencidos arrolados para servirem 
armada da jihad. Recm-convertidos ao isl, apenas elementar era o seu conhe-
cimento a este respeito118. Sob Sayku `Umar, eles eram integrados ao batalho do
Ngenar. Entretanto, aps a partida de grande parte da armada rumo ao Macina,
Ahmadu necessitava reconstituir uma armada para si; os imigrantes do Futa
preferiam permanecer no Kaarta, mais proximamente do seu pas; no lhe res-


116 Ibid., pp. 78-344.
117 Ibid., p. 141.
118 A diferena entre sofa e tlib era uma simples diferena de nvel de instruo. Os antigos escravos bem
    instrudos tornavam-se tlib.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                     735



tavam seno voluntrios das regies dominadas; eles foram organizados em um
batalho autnomo. Ahmadu lhes confiou inclusive algumas pequenas funes
na administrao, para reduzir a influncia dos tlib. Esta rivalidade entre os
tlib e os sofa foi uma das dificuldades com as quais o sucessor de Sayku `Umar
teve de confrontar-se ao longo do seu reinado.

    Os problemas impostos pela sucesso de Sayku `Umar: as
    tentativas de Ahmadu para prosseguir a obra do seu pai
    Uma difcil sucesso: os primeiros anos do
    governo de Ahmadu (18621869)
    No imediato posterior ao desastre de Degembere, Ahmadu, o primognito
de Sayku `Umar, encontrava-se  frente de um imenso imprio muito descentra-
lizado e organizado em torno de quatro provncias to distintas quanto o Din-
guiraye, com Mohamadou Habibu Sayku, o Kaarta, sob o comando de Mustaf,
liberto do Bornouan, o Diombokho, com Ceerno Muusaa, e o Sgou, do qual ele
prprio era o chefe. Cada um destes chefes de provncia devia periodicamente
passar-lhe um relatrio sobre a sua gesto119. Entretanto, embora o primeiro ano
de sua instalao em Sgou tenha se passado sem problemas, desde maro de
1863, simultaneamente a Hamdallahi, um compl foi descoberto. O bloqueio
das comunicaes com o Macina, desde o final de maio, imps uma difcil
situao a Ahmadu, levando-o ao isolamento em um pas hostil, acompanhado
de um punhado de homens (1.500 tlib). Para enfrentar esta situao, impostos
excepcionais foram cobrados, provocando um aumento do descontentamento.
A rica cidade soninqu, Sansanding, entrou em rebelio declarada, em dezem-
bro de 1863; malgrado o reforo de mais de 2.000 homens enviados de Nioro,
Ahmadu no logrou restabelecer a sua autoridade nesta localidade. No resta
dvida que este novo contingente de imigrantes torodbe, recentemente chegados
em Nioro, deixara o Futa muito mais para escapar ao poder colonial que para
fazer a jihad. No se tratando daqueles pessoalmente doutrinados pelo prprio
xeque, eles estavam mais voltados para os bens desta terra. Mestres desde logo
de Sansanding, a sede pelo butim fez-lhes perder a sua vitria120.


119 No h dvida que Sayku `Umar tenha deixado ao seu filho mais velho a totalidade da sua sucesso. E.
    Mage (1980, p. 113) obteve esta informao em Sgou, apenas um ano depois da primeira confirmao
    desta nomeao, em um momento onde no era certo que o prprio Ahmadu tenha duvidado desta
    deciso de Sayku `Umar.
120 Conferir E. Mage, 1868, p. 279.
736                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 23.7 Entrada do palcio de Ahmadu, em Sgou-Sikoro. [Fonte: E. Mage, Voyage au Soudan occidental,
1868, Hachette, Paris. Illustration:  Hachette, Paris.]



    Ahmadu encontrava-se, portanto,  frente de dois tipos de tlib, os antigos
companheiros do seu pai, mais motivados pela f, embora o considerassem como
uma criana121, e os novos tlib, menos desinteressados e mais disciplinados. Ele
fez uso, para a sua infelicidade, de uma terceira carta, referente aos voluntrios
dos pases dominados, os sofa122.
    Muito culto, Ahmadu fora formado pelo prprio Sayku `Umar, que, segundo
Mohammadou Aliou Tyam, dera-lhe tudo. Porm, em que pese uma notvel
inteligncia e uma grande piedade, ele no soube impor-se, como o fizera o seu
pai; ele era menos enrgico, como descreve Mage:
     primeira vista, eu atribura a Ahmadu dezenove ou vinte anos; na realidade,
ele alcanara trinta anos. Sentado, ele aparentava ser pequeno; e ele era antes
grande e tinha belos traos. Sua face era muito doce, seu olhar calmo e indicava
ser inteligente [...]. Ele carregava  mo um chapu que ele desfiava, resmungando




121 Ibid., p. 318.
122 Sobre as dificuldades de Ahmadu com os tlib do seu pai, consultar E. Mage, 1868, pp. 222-305.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                      737



durante os intervalos da conversa. Diante de si, sobre a sua pele de cabra, estavam
dispostos um livro em rabe e as suas sandlias, bem como o seu sabre123.
    Os primeiros anos do seu reinado foram anos marcadamente difceis. Mal-
grado uma importante guarnio estacionada em Niamina, com o objetivo de
assegurar as comunicaes com o Nioro, e uma outra em Tenengu, a revolta
ecoava de modo generalizado na regio. At 1866, as vitrias foram duvidosas; a
existncia mais resoluta provinha de Beledugu. Em alguns momentos, a rota de
Nioro foi inclusive interrompida. A revolta de Belegudu, assim como aquela de
Sansanding, apoiada por Mari Jara, mantiveram as populaes em compasso de
espera, at 1869. A agricultura e inclusive o comrcio sofreram muito. De loca-
lidades tais como Tombula, cuja prosperidade impressionara Mage, em 1863,
no restavam seno runas apenas dois anos depois. Entretanto, a situao estava
longe de ser desesperadora. Em 1866, o emissrio francs, a quem no escapava
 percepo nenhuma fraqueza do regime de Sgou, acreditava que Ahmadu
finalmente restabeleceria a sua autoridade, seno sobre todo o seu imprio, ao
menos sobre toda a provncia de Sgou. Fato consumado em 1869.
    Todavia, enquanto estava em conflito com a resistncia bambara, Ahmadu
era menos capaz de se ocupar das outras partes do imprio. Conquanto Mustaf,
de Nioro, abastecesse assaz regularmente a sua guarnio (numerosos emissrios
de Nioro haviam chegado a Sgou enquanto Mage ali estava), o mesmo no
aconteceu relativamente ao seu primo Tijjaani-Alfaa, que, aps ter submetido
o Macina, administrava-o de modo totalmente independente. Ele igualmente
declarava-se legtimo sucessor de Sayku `Umar, do qual exibia algumas rel-
quias para justificar a sua assero. Ele soube habilmente lidar com a raiva
nutrida pelos habs contra os seus antigos mestres fulbes. Um grande chefe
militar fortalecido por um grande chefe religioso, Tijjaani-Alfaa perpetuou em
Bandiagara, a sua nova capital, o fervor religioso do seu tio: "Em Bandiagara,
a jornada se desenrola em meio a preces e poder-se-ia dizer que a cidade  um
vasto seminrio, do qual Tidjani era o superior. Nem um grito, sem cantos,
msica ou danas"124.
    Mas a oposio de maior fria a Ahmadu proveio do seu irmo Mohammadu
Habibu, que, aps o desaparecimento do seu pai, tomara certo distanciamento125.

123 Ibid., p. 214.
124 Relatrio do lugar-tenente de navio Caron, citado em Y. J. Saint-Martin, 1970, p. 103.
125 As relaes entre os dois irmos eram aparentemente boas antes que Habibu soubesse que o seu pai tudo
    deixara para Ahmadu. Assim, em fevereiro de 1864, Mage percorreu um bom trecho com mercadores
    soninqu, dentre os quais havia um encarregado de levar a Ahmadu ricos presentes de Habibu (E. Mage,
    1868, p. 108).
738                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



Outro irmo, Mukhtar, instalara-se por sua prpria conta em Koniakary e,
em acordo com Habibu, aspirava substituir Mustaf em Nioro, todavia fiel a
Ahmadu. Em 1869, a calma voltara  regio de Sgou; Ahmadu ali deixou o seu
irmo Agibu e dirigiu-se para o Kaarta, de onde Mustaf acabara de adverti-lo
sobre a ameaa que os seus irmos Mohammadu Habibu e Mukhtar faziam
pesar sobre Nioro, onde muitos tlib j estavam ganhos para a sua causa. Ambos
netos de Muhammad Bello, atravs da sua me, eles acrescentavam a esta ilustre
filiao materna uma grande inteligncia, assim como muita generosidade e
savoirfaire126.

      Ahmadu fortalece a sua autoridade: 18691878
    Ahmadu, por sua vez, no podia deixar um chefe hostil instalar-se em
Nioro, localidade que representava o pulmo do Sgou. Ao final de 1869, ele
chegou ao Kaarta. Na mesma poca, um xerife marroquino da dinastia alawite,
conferiu-lhe o importante ttulo religioso de amr almu `minn, em outros
termos, "chefe dos crentes". Ele poderia doravante impor -se sobre todos os
seus outros irmos. Durante quatro anos, ele conduziu uma rdua luta contra
todos aqueles que haviam permanecido no Kaarta, habitantes que apoiavam
Habibu e Mukhtar em suas reivindicaes em favor de uma partilha da herana
paterna. Paralelamente ele aumentou a sua autoridade em Gidimaka e no ter-
ritrio xasonke do Logo127, alm de destruir alguns focos rebeldes bambara e
soninqu.
    Em 1874, ele estava no auge da sua potncia128. Porm, embora ele tenha
sado vitorioso desta guerra fratricida, o mal-estar persistiu durante muito
tempo no Kaarta. Os tlib desaprovaram a ligao entre Habibu e Mukhtar.
Ahmadu foi portanto obrigado a mostrar-se mais conciliador perante os seus
dois outros irmos e a muito mais levar em conta a sua vontade de participarem
na administrao do imprio estabelecido pelo seu pai. Deste modo, Mustaf
foi confirmado  frente de Nioro, onde Ahmadu o designara desde maro de
1873. Ele tornou-se o chefe de todo o Kaarta, mantendo sob a sua autoridade
os seus irmos Seydu, em Dinguiraye, Bassiru, em Koniakary, Daye, em Diala e
Nuru, em Diafunu. Anualmente, por ocasio da festa da tabaski, todos deveriam



126 B. O. Oloruntimehi, 1972a, p. 179.
127 Os chefes do Logo jamais aceitaram a supremacia de Diouka Sambala, imposta pelos franceses.
128 Y. J. Saint-Martin, 1967, p. 150.
O Macina e o Imprio Torodbe (Tucolor) at 1878                                                      739



encontrar-se em Sgou para negociar129. Ainda em Sgou, Ahmadu reforou a
sua administrao. O seu conselho informal, composto por autoridades militares
e religiosas como Ceerno Alasan Baa, Ceerno Abdul-Qaadiri Baa, Baaba Ulibo
e Bobbo, era acrescido dos seus parentes, como Seydu Jelyia e Muhammadu
Jeliya. Nos confins, o sistema administrativo tradicional era geralmente mantido;
Ahmadu teve somente que substituir os chefes recalcitrantes pelos seus parentes
mais favorveis e nomear junto a eles um quadro pessoal de fiscalizao; loca-
lidades torodbe fortificadas, criadas de modo quase generalizado, reforaram a
segurana nas zonas dominadas130.
    Paralelamente  retomada dos fluxos comerciais tradicionais junto s casas
comerciais francesas do alto Senegal131, o comrcio com os estabelecimentos
ingleses desenvolveu-se, criando certa diversificao econmica132. O comrcio
haussa e o trfico da noz-de-cola igualmente se intensificaram. Ao abrigo das
ingerncias dos franceses, voltados desde 1866 sobretudo para os rios do Sul, um
novo equilbrio desenhou-se no Sudo Central. Contudo, o processo foi brutal-
mente interrompido em 1878, em razo da interveno francesa no Logo.


    Concluso
   Em 1878, Ahmadu superara todos os obstculos que se lhe haviam imposto,
no imediato posterior ao desaparecimento do seu pai. Certamente, os bambara,
sobretudo aqueles originrios de Beledugu, ainda no haviam renunciado 
defesa das suas crenas ancestrais. Mas eles no mais representavam um rele-
vante perigo para a consolidao do imprio133. As numerosas guarnies, temi-
das  poca, e a vocao universal do isl produziriam, neste grande conjunto, um
cimento nacional. A aliana com todas as etnias e categorias sociais, inaugurada
pelo prprio Sayku `Umar, foi amplamente seguida pelos seus filhos e todos
os torodbe, criando as condies para uma integrao cultural.  significativo,
neste particular, que o Sudo francs, pas que no representava seno o antigo
Imprio Torodbe, tenha sido, entre os Estados do Oeste africano, um dentre


129 Este sistema no funcionaria como devido e, em 1884, Ahmadu retornaria novamente ao Kaarta para
    lutar contra a dissidncia dos seus irmos.
130 Arquivos da antiga A. O. F., Notice sur le cercle du Sgou, 1 G320/I, 1904, pp. 15-16.
131 Ahmadu suspendera as relaes comerciais durante toda a durao da luta contra os seus irmos.
132 B. O. Oloruntimehin (1972a, p. 207) nota o envio de uma misso inglesa dirigida pelo prprio gover-
    nador da Gmbia at Sgou, em maio de 1876.
133 Y. J. Saint-Martin, 1970, p. 119.
740                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 23.8 Ahmadu recebendo a corte do seu palcio. [Fonte: E. Mage, Voyage au Soudan occidental, 1868,
Hachette, Paris. Illustration:  Hachette, Paris.]



os quais havia menor volume de problemas tnicos. Assim sendo, embora a
violncia - atravs da qual o isl fora imposto a povos moldados durante vrios
sculos pela crena em suas religies tradicionais - explicasse facilmente as suas
reticncias, o campo aparentava estar pronto para um mais pacfico proselitismo,
fosse na Senegmbia, na qual a potncia colonial acreditava ter eliminado a sua
influncia, ou no Sudo Central, onde a maior parte dos grandes chefes reli-
giosos, emergentes aps Sayku `Umar, de um modo ou de outro reclamaram-se
da sua herana.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                                  741



                                     CAPTULO 24


             Estados e povos da Senegmbia
                    e da Alta Guin
                                            Yves Person




   Haveria unidade na histria dos povos da costa ocidental da frica, desde
o Senegal at o Bandama1? Esta apreciao parece duvidosa, embora o perodo
do pr-imperialismo, estendido do incio do sculo, com o final do trfico
institucionalizado, at o perodo imediatamente anterior ao grande avano
colonial, apresente uma relativa homogeneidade.  precisamente porque o
setor assim definido abrange zonas culturais muito diversas, de tal modo que
o nico fator de unidade que se impe  justamente a influncia europeia
presente ao longo de toda a costa, em razo da formao dos primeiros encla-
ves coloniais, tema estudado em outro captulo; justamente em razo disso, o
presente captulo deve necessariamente ser construdo do ponto de vista dos
povos africanos. Ele seguir, portanto, um plano geogrfico, abordando suces-
sivamente as grandes zonas culturais, a saber, a Senegmbia, a Alta Guin e
o Fouta-Djalon, as regies kru, os mande do Sul e, finalmente, os mande do
Alto-Nger at o Bandama.




1   O autor gostaria de agradecer Charles Stewart, que generosamente leu a primeira verso deste captulo
     qual trouxe certo nmero de sugestes teis.
742                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



      A Senegmbia
    A Senegmbia2  a nica regio na qual o antigo eixo cultural do Sudo Oci-
dental, caracterizado por grandes Estados, com um importante, porm minori-
trio isl, confluiu para as margens do Atlntico, com a zona onde a corrosiva
potncia da Europa era exercida desde sculos e manifestava-se especialmente
pelo trfico de negros para a Amrica. Estas sociedades, cujo carter sudans
e muulmano as tornava mais estveis comparativamente quelas do Golfo da
Guin, no foram menos sacudidas pelo aumento da demanda externa, consti-
tuda pelas suas riquezas. O trfico de negros comeara a regredir nesta regio
desde 1760, em que pese uma breve retomada nos anos 1780. Nem a abolio
do trfico pela Inglaterra, em 1808, e sequer a efetiva aplicao da legislao
francesa antiescravagista, em 1831, tiveram grande efeito sobre um comrcio,
j demonstrando indcios de declnio, mas que se manteve em escala reduzida,
sob vrias formas travestidas ou clandestinas, at 1880. A exploso dos preos
representada pelos produtos da Senegmbia marcou o principal ponto de infle-
xo econmico. Em 1830, o valor mdio anual das exportaes de Goma j se
encontrava em nveis cinco vezes superiores queles que as exportaes de escra-
vos haviam atingido, no auge do trfico. Paralelamente  retomada do comrcio
da goma, as exportaes de ouro, couro, marfim e cera de abelha conheciam um
notvel desenvolvimento, ao passo que o amendoim, chamado a desempenhar
em meados do sculo o papel de primeiro item de exportao, comea a surgir no
mercado3. Esta reestruturao do comrcio externo teve igualmente profundas
repercusses na economia local, arruinando os antigos beneficirios do trfico,
em proveito de grupos bem posicionados com objetivo de tirar partido desta
nova produo.
    A partir do final do sculo XVIII e por razes, as quais ao menos par-
cialmente, no tinham nada em comum com o fator europeu, o isl adquirira
novo dinamismo. As classes camponesas convertiam-se em massa, especial-
mente para protestar contra os excessos de uma aristocracia que buscava tirar
proveito dos novos circuitos econmicos, arruinando o povo em lugar de
proteg-lo. Portanto, as sociedades da Senegmbia encontravam-se presas
s garras de duas foras perturbadoras: o novo e agressivo isl e a profunda
mutao em curso na economia mundial, sob o efeito da industrializao. As
velhas estruturas polticas e sociais, devido  sua incapacidade de renovao,

2     J. Dubief, 1973, pp. 125-130.
3     A. Cauneille, 1968, pp. 108-109.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                    743




figura 24.1 Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin (mapa de Y. Person).
744                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



seriam impotentes para enfrentar a grave crise que assim se inaugurava, cuja
durao alcanaria o dia do estabelecimento do sistema colonial, imposto na
qualidade de nova ordem.
    Isso  particularmente ntido, ao Norte, no tocante aos reinos dos wolof e
dos serere, pois que estas duas nacionalidades constituem uma unidade histrica
bem distinta.
    A derrota avassaladora de almaami Abdul-Kdiri Kaan, do Fouta-Toro, frente
ao damel do Kayor (Cayor), Amari Ngone, em 1786, restabelecera o poder da
aristocracia neste Estado e no Waalo. Mas, na justa medida em que os prncipes
revelavam um retorno s prticas religiosas tradicionais, as massas acentuavam
a sua converso ao isl.
    O Waalo era corrodo em sua circunvizinhana imediata pela feitoria francesa
de Saint-Louis, a qual cairia em mos britnicas de 1809 a 1817. Ele igualmente
sofria a presso direta dos mouros trarza, aos quais recm havia cedido a margem
direita do rio e dos quais ele no lograva repelir as frequentes incurses.
    Justamente este pas, fraco e transtornado, foi o palco onde novas relaes
com a Europa, no sem dificuldades, adquiriram os seus contornos. O trfico
ilegal organizava-se, entretanto, ele no logrou estender-se ao Norte da Guin
portuguesa. Quando os franceses reocuparam Saint-Louis e Gore em 1817,
foi necessrio encontrar um novo objeto para as relaes comerciais. A goma,
as peles e a cera eram gneros que qualquer campons poderia produzir. Os
franceses, no Senegal, a exemplo dos britnicos, mais ao Sul, em Serra Leoa,
desejavam criar plantaes em substituio quelas das Antilhas. Este foi o
objeto do grande esforo de colonizao agrcola, sobretudo fundado no algo-
do, exercido pelo governador Schmaltz e o baro Roger  custa do Waalo,
de 1819 a 1827. O projeto fracassou, por erros tcnicos, falta de mo de obra,
oposio ao comrcio e hostilidade dos autctones. Retornou-se ento a uma
poltica puramente comercial, mediante  qual os negociantes de Saint-Louis
foram levados  acomodao, em funo da crescente influncia de grandes
casas exportadoras, sobretudo originrias de Bordus. Aquando das enchentes,
os captadores de impostos dirigiam-se s escalas situadas nas duas margens do
rio, moura e negra, rio-acima at Bakel, situada no Gadiaga.
    Direitos progressivamente mais importantes foram momentaneamente pagos
 aristocracia wolof, o que no fez seno agravar as guerras de sucesso, normais
neste sistema. De 1827 a 1840, a luta  constante entre as matrilinhagens tejek
(teedyekk) e os jos (dyoos), representados notadamente pelos brak Fara Penda
Adam Sall (1827-1840) e Xerfi Xari Daaro (1830-1835). Entretanto, o povo no
respondeu e tudo aparentemente arruinou-se em 1830, quando um movimento
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                745



muulmano, reprimido no Cayor, em 1827, e refugiado na fronteira do Waalo,
passou a ser liderado por um homem de casta, o ferreiro Diile. Em algumas
semanas, este ltimo conquistou todo o pas em nome de um isl igualitrio e o
sistema tradicional parecia destrudo, porm ele seria brevemente restabelecido
pelo governador de Saint-Louis, o qual interveio militarmente, massacrou Diile,
arrestou-o e levou-o publicamente  forca.
    Aps isso, a Frana recusou-se a intervir na luta das faces, na qual se
ingeriram progressivamente os trarza que atravessavam sistematicamente o rio
e devastavam o Waalo. Renunciando ao combate, alguns dignitrios formaram
um partido mouro elevaram ao casamento, em 1833, a jovem lingeer Njambot
(Ndybt), oriunda do cl tejek, com Muhammad al-Habb, emir dos trarza,
atitude que no conduziu  paz. O governador de Saint-Louis, furioso ao notar-
-se cercado por mouros, ofereceu desde ento todo o seu apoio aos jos. Os tejek
saram entretanto vitoriosos e, com a morte de Njambot, em 1846, sob o manto
de um brak fantoche, Mo Mbodj Maalik (1840-1855), o domnio do pas passou
para a sua irm, Ndate Yalla.
    Esta hostilidade na periferia de Saint-Louis tornava-se insuportvel quando
a Frana adotava uma atitude imperialista. A primeira tarefa de Faidherbe con-
sistiu na total anexao do Waalo, em trs campanhas militares, conduzidas de
janeiro a junho de 1855. O pas foi dividido em cinco regies; entretanto, em
que pese o despovoamento, o ocaso do velho reino seria mal assimilado. Em vo
os franceses tentaram usar Lon Diop Sidia, herdeiro dos brak educado por eles:
eles foram obrigados a deport-lo para o Gabo. Entretanto, seria exatamente
neste pas, de 1855 a 1880, que os franceses poriam em prtica os mtodos
administrativos e de conquista que demonstrariam a sua eficcia, pouco mais
tarde em todo o Oeste africano.
    Muito mais rico e povoado, comparativamente ao Waalo, e mais afastado de
Saint-Louis, o Cayor primeiramente demonstrou fortssima resistncia. Desde
meados do sculo XVIII at 1855, uma unio pessoal passou inclusive a lig-
-lo ao reino parcialmente seereer formado em Bawol (Baol). Neste caso e uma
vez mais, a ascenso do isl, ao redor do centro de Koki, ameaou a aristocracia
tradicional. Malgrado a vitria real de 1786, os muulmanos refugiaram-se em
grande nmero no Cabo Verde, onde constituram a "repblica" dos lbu. Os
damel no lograram atingir a pequena costa seno pelo dificultoso porto de
Rufisque; alm disso, a provncia vizinha do Jaander (Diander), profundamente
islamizada, no era segura. Aps a represso dos muulmanos do Norte, em
1827, o reinado de Maisa Tenda Joor (1832-1855) foi, entretanto, um perodo
de calmaria.
746                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Porm, comea a seguir a crise derradeira. Os franceses, comprimidos em
Gore, ocuparam Dakar em 1857 e rapidamente projetaram uni-la a Saint-
-Louis por telgrafo. O Cayor encontrar-se-ia desde logo preso. Ele mergulharia
na desordem durante os breves reinados de Makodu (1859-1861) e Majoojo
(Madiodio) (1861-1864). Contudo, aps 1862, o partido da resistncia ao damel
conduziu a eleio do jovem Laat Joor Ngone Latir Jop (Lat-Dior). Cassado
pelos franceses, este ltimo refugiou-se junto a Maba, o chefe muulmano de
Salum, convertendo-se ao isl em sua forma tijni. A confraria de al-Hadjdj
`Umar Tal e diversos movimentos religiosos semelhantes proliferariam muito
rapidamente em um pas que no conhecia seno a velha Kdiryya. Esta diver-
sidade anunciou o fenmeno marabuto, marcante na regio no perodo colonial
e futuro constituinte de um dos aspectos da resistncia africana. Sabemos que a
crise europeia de 1867 e, com maior intensidade, o desastre de 1870 incitaram
a Frana ao recuo alm-mar/aqum-mar. Laat Joor, novamente em Cayor como
chefe de canto, conquistou o ttulo de damel e imediatamente dedicou-se a con-
cluir a islamizao do pas, com vistas a restabelecer a unio entre a aristocracia
e o povo. Ele articulou com a Frana, decidido a no ceder fundamentalmente
em sua ao. Justamente com a ajuda dos franceses, em 1875, ele expulsou o
marabuto tukuloor Amadu Sheku, do Jolof, para ali empossar o seu parente
al-Buuri Ndyay.
    Entretanto, j desde 1850, a cultura do amendoim expandiu-se em toda a
Senegmbia, estabelecendo assim a sua dependncia perante o mercado mun-
dial. Esta situao seria consumada, em 1879, pelo projeto da estrada de ferro
Dakar-Saint-Louis, em princpio aceito por Laat Joor. Entretanto, ele percebeu
estar em vias de perder o seu pas e, aps ter tergiversado, interrompeu os traba-
lhos em 1881, preferindo a resistncia sem esperanas  submisso. A sua morte,
aps uma longa guerrilha, em 1886, marcaria o fim do reinado e a instalao
da ordem colonial.
    Pobre e isolado no interior do pas, os jolof tambm enfrentaria a ascenso
do isl, no sentindo to diretamente a influncia da Europa. A sua histria est
ligada quela do Cayor, contudo, al-Buuri seria capaz de prolongar a sua resis-
tncia at 1890, ora ativa, ora passivamente. Recusando-se a aceitar a submisso,
ele ento se somou a Ahmadu de Sgou, filho de al-Hadjdj `Umar, e com ele
ganhou os confins de Sokoto, onde encontraria a morte, aproximadamente no
ano 1900, em um dos ltimos setores da frica livre.
    Apesar de uma lngua muito diferente, muito mais prxima do fulfulde
dos fulbes que do wolof, os seereer, com o seu notvel sistema agro-pastoral,
formaram, a partir do sculo XIV, slidos reinos fundados no mesmo tipo de
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                 747



organizao social que os reinos wolof. O Siin (Sine), puramente seereer, igno-
rou absolutamente o isl at a colonizao francesa. O Salum, mais potente,
era menos homogneo. No sculo XVIII, ele estava em plena expanso militar
e estendia o seu territrio at o Gmbia. Todavia, estas terras a Leste eram
exclusivamente povoadas pelos wolof e malinke. A autoridade dos maad (buur)
imps-se fora do Salum, ao Sul, sobre os velhos reinos malinke do Nyumi e
do Baadibu (Rip). O isl, minoritrio estava invariavelmente presente sob a sua
forma wolof-tukuloor ou sob a sua forma malinke. O nico setor puramente
seereer que permaneceu ligado s tradies foi a provncia vizinha da capital,
Kahane (regio de Kaolack).
    Nesta rea, iniciou-se muito cedo a cultura do amendoim, exportada simulta-
neamente pelo Gmbia e pela Pequena Costa ( Joal, Portugal), onde as misses
catlicas atuavam desde 1849. Elas esperavam tirar proveito da ausncia do isl e
da existncia de uma antiga comunidade luso-africana, a qual recm-abandonara
o emprego do crioulo portugus.
    A exemplo do Baixo Senegal, a aristocracia tradicionalista, seereer ou
malinke, encontrava-se em uma difcil situao, acuada entre as exigncias
dos europeus e o isl contestador, o qual contra ela organizou os camponeses
e as minorias. O dinamismo da Tijniyya veio incorporar-se a este contexto,
com a visita de al-Hadjdj `Umar, aproximadamente em 1847, antes de iniciar
a sua guerra. Seria um dos seus discpulos, Maaba Jaaxu (Maba), um marabuto
tukuloor instalado nas comunidades wolof do Baadibu, que viria transtornar
a antiga ordem. Em homenagem ao seu mestre, ele batizou a sua residncia
com o nome Nioro.
    A "guerra dos marabutos" abatia-se desde 1845 sobre o Kombo, nos arredores
de Banjul, ao Sul do rio, quando, em 1859, Faidherbe e o governador da Gmbia,
Benjamim d'Arcy, lanaram uma ao convergente sobre o Salum (ocupao de
Kaolack) e no Baadibu. Em 1861, Maba levantou os muulmanos do Baadibu,
do qual brevemente ele seria o mestre, e em seguida interviria na guerra civil do
Nyumi, onde limitou os seus sucessos, para no desagradar aos britnicos. Aps
unificar os muulmanos do Salum oriental, ele lanar-se-ia em 1862 ao assalto
deste Estado, cujo buur, Samba Laobe Fal, mostrar-se-ia incapaz de opor-lhe
resistncia, apesar do apoio dos franceses. A partir desta regio, com o apoio
de Laat Joor, ele se tornaria mestre de uma parte do Bawol e de todo o Jolof,
em 1865.  ameaa sobre Cayor, os franceses reagiriam queimando Nioro, no
Baadibu, aps uma indefinida batalha.
    O fim, entretanto, originou-se alhures. Em julho de 1867, Maba invadiu o
Siin, enfrentando, todavia, neste pas homogneo sem muulmanos, uma verda-
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figura 24.2   Chefes da regio costeira de Mandinka na Gmbia em 1805.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                    749



deira resistncia nacional dos seereer. Ele foi ento derrotado e morto pelo buur
Kumba Ndofen Juuf (Diouf ) (1853-1871).
   O imprio mal unificado de Maba rapidamente enfraquecer em meio s
querelas dos seus sucessores, permitindo certa reconstruo do Salum, onde
a interveno dos franceses de Kaolack seria de mais em mais direta. Namur
Ndari, sucessor de Maba, estendeu contudo a sua influncia rio acima, na Gm-
bia, atingindo Niani e o Wuli, porm as suas intervenes ao Sul do rio foram
mal-sucedidas. Os franceses ocupariam a regio sem dificuldades em 1887.


    A Alta Guin e o FoutaDjalon
    O Gmbia, navegvel em centenas de quilmetros, garantia h sculos o
escoamento por via martima da produo das minas de ouro em pases mande,
no Alto Senegal e no Alto Nger. Mais ao Sul, entramos em um mundo dife-
rente, a Alta Guin, onde povos de cultivadores sem tradio de centraliza-
o poltica, frequentemente empregando lnguas oeste-atlnticas, controlaram
durante muito tempo a costa. A zona sudanesa no estabeleceu de fato ligaes
com o mar, da Monrvia ao Gmbia, seno a partir do sculo XVIII. Tambm
nesta regio estabeleceu-se um dos mais antigos centros de influncia europeia,
na Guin-Bissau, bero da cultura crioula e, posteriormente, em Serra Leoa e na
Libria. Como a Senegmbia, esta regio teve certa importncia para o trfico
negreiro desde o sculo XVI, embora o seu papel tenha declinado durante o
sculo XVIII.
    Alm da zona costeira, os dois mais importantes povos eram os malinke,
cujo imprio do Kaabu (Gabu) sem dvida remontava ao sculo XIII e era
independente do velho Mali desde o sculo XVI, e os fulbes, presentes ao menos
desde o sculo XV embora no tivessem constitudo o Estado muulmano do
Fouta-Djalon seno em 1727.
    No incio do sculo XIX, a influncia portuguesa estava em declnio, porm
o trfico clandestino prosseguiria por um perodo relativamente longo, de parte
a outra do centro antiescravagista de Serra Leoa. O Kaabu dos malinke difi-
cilmente manteve a sua influncia at as margens ao Sul do Gmbia, mas os
seus antigos vassalos, os costeiros bainuk, estavam a caminho da runa. Os
foa (balanta), camponeses sem tradio de centralizao poltica, destruiriam a
capital dos bainuk em 1830 e a maior parte dos sobreviventes seria assimilada
pelos malinke ou pelos joola (diola), estes robustos rizicultores, tradicionalistas e
"anarquistas", que controlavam toda a zona costeira ao Norte. Ao Leste, os fulbes
750                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



do Fouta-Dijalon dominavam os malinke at a Gmbia (Kantora). No Kaabu
e dependncias, a maioria fulbe ganhou maiores propores, tendo dificilmente
suportado a sua posio subordinada.
    Justamente neste momento os franceses instalaram-se em Casamance, na
Karabane, no ano 1836, em seguida em Seeju (Sediou), no ano 1838. O comr-
cio de amendoim organizou-se rapidamente, com previsveis consequncias
econmicas e sociais4.
    Entretanto, a perturbao da antiga ordem comeou em 1859, quando o Fouta-
-Dijalon e, particularmente, o grande alfaamoLabe, Yaya Mawdo, iniciaram uma
decisiva luta contra o Kaabu, cujo rei Yargi Sayon foi assassinado. O velho imprio
entrou em colapso no ano 1867, na catarata de Kansala (situada na futura Guin
portuguesa), aps o almaami Umara de Timbo ter se juntado ao alfaamoLabe.
Dentre os reinos malinke vassalos, o Brasu rapidamente sucumbiria frente a Alfaa
Moolo, mas o Oio manteria a sua liberdade at a conquista portuguesa em 1905.
    A queda do Kaabu teve considerveis repercusses, uma vez que os fulbes
revoltaram-se contra os seus mestres malinke at as margens do Gmbia. Em
1869, Alfaa Moolo, personagem de origem obscura, organizou o reino do Fula-
dugu, de Kolda a Velingara, rio acima a partir de Seeju. Ele reconheceu vaga-
mente a autonomia de Timbo, aplicando uma poltica de assimilao sistemtica
dos seus sujeitos. At a sua morte, em 1881, este neo-muulmano seria o grande
obstculo dos malinke.
    Estes ltimos tentaram se organizar em torno de Seeju com Sunkari Kamara,
cuja oposio ao comrcio brevemente lan-lo-ia contra os franceses. A revolta
por ele desencadeada em 1873, contra a influncia francesa, estaria contudo
fadada  derrota, haja vista que os balanta e os fulbes de Muusa Moolo (filho
de Alfaa Moolo) haviam cerrado fileiras junto aos franceses. Sunkari foi levado
a submeter-se, antes de se lanar, em 1882, em uma derradeira e v revolta que
marcaria o fim da sua carreira.
    Mais eficaz foi o reagrupamento dos malinke ribeirinhos da Gmbia, rea-
lizado em torno de um chefe religioso de origem jaaxanke (dyakhanke, alto
Senegal), o famoso Fobe Kaba Dumbuya. A partir de 1875, ele se transformou
em chefe de guerra, com o apoio de indivduos de Maba, para resistir a Alfaa
Moolo. Entretanto, este ltimo expulsou-o rumo ao Oeste e, a partir de 1878,
Fode Kaba manter-se-ia dominante, ao conquistar os joola (diola, dyola, jola,
djola) do Fonyi, os quais ele parcialmente converteria ao isl.


4     D. M. Hart, 1967, 1970; E. Gellner, 1972, 1969, pp. 35-69; E. E. Evans-Pritchard, 1949, pp. 29-61.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                  751



    A resistncia dos malinke da Casamance, constritos entre os fulbes e france-
ses, finalmente demonstrou-se eficaz, em razo deles terem logrado preservar a
sua nacionalidade, aliando-se massivamente ao isl sob a influncia de Sunkari
e Fode Kaba. A aliana com a Frana, desde 1883, promovida por Muusaa
Moolo, filho de Alfaa Moolo, seria contudo capaz de conceder certa vantagem
aos fulbes. Tirando proveito das rivalidades franco-inglesas, o Fode Kaba seria
capaz de se manter na fronteira da Gmbia, at a sua derrota em 1901. Quanto
 resistncia armada dos "anarquistas", como os joola, ela manter-se-ia at 1913,
qui at o imediato posterior  Primeira Guerra Mundial.
    Da Gmbia  Serra Leoa, a histria de toda a regio foi dominada, desde o
incio do sculo XVIII, pela evoluo do grande Estado fulbe do Fouta-Djalon5.
Graas a ele, o comrcio de longas distncias, caracterizado por influncias
sudanesas, desembocava fortemente no mar, onde ele se associava aos europeus,
ao passo que, at o incio do sculo XVIII, ele apenas dificilmente ocorria, neste
mundo marcado por sociedades descentralizadas. Rotas de caravanas regulares
desciam rio abaixo desde ento do alto Nger, atravs dos altos planaltos do
Fouta, em direo s feitorias portuguesas do rio Geba (Bissau, Buba), rumo ao
rio Nuez e ao rio Pongo, onde os franceses construram Boke, em 1866, e Boffa,
em 1867, assim como em direo a Serra Leoa. Nesta regio, surgia novamente
o amendoim, embora ele estivesse no limite da sua fronteira natural: tratava-se
justamente da famosa costa dos rios, to cara aos viajantes franceses do sculo
XIX. Os ingleses, os quais a consideravam desde Serra Leoa, denominavam-na
"os rios do Norte" (Northern Rivers). Em razo dos seus profundos recuos e das
suas baas de difcil acesso, esta regio foi um dos pontos onde o trfico clandes-
tino de negros prosseguiria de modo mais duradouro, at meados do sculo.
    Esta persistncia explica-se pela proximidade do Fouta-Djalon, uma vez que
o grande Estado fulbe, muito vido por escravos, pilhava e importava grande
nmero destes ltimos no interior do pas ou deles apoderava-se como meio de
pagamento cobrado junto s minorias costeiras. Alguns estavam ento dispo-
nveis para a exportao. No incio do sculo XIX, a sociedade fulbe do Fouta-
-Djalon aparentava estar relativamente estabilizada. Os vencedores da guerra
santa constituram uma nova aristocracia, estabelecida  frente de uma sociedade
extremamente rgida e hierarquizada. Ao nvel do Estado e na esfera das ampla-
mente autnomas nove provncias (diiwal) que o constituam, tanto quanto
no mbito das "parquias" (misiide), as quais uniam uma localidade "nobre" e


5    E. Gellner, 1978.
752                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



numerosas aglomeraes de agricultores, era justamente uma classe altiva e certa
de si que imperava. Os vencidos, sobretudo antigos jalonke (yalunke), foram
oprimidos a ponto de perderem a sua lngua; as suas fileiras foram acrescidas
por escravos importados. Compondo ao menos trs quartos da populao, eles
eram fortemente vigiados e duramente explorados. Em meio s redes desta cruel
sociedade, encontramos os marginais, excludos e no limite da legalidade. Foram
especialmente as linhagens fulbe pobres que no puderam se amparar de terras
durante a guerra, sobrevivendo de magros rebanhos nos intervalos territoriais
localizados entre as misiide. No ativo, pode-se agregar uma notvel difuso da
cultura islmica, acompanhada, fato raro na frica negra, por um frequente
emprego da lngua fulfulde, em uma forma escrita. Embora fosse muito culta,
a aristocracia caracterizava-se entretanto pela criao de animais e pela guerra,
assim como por certas modalidades aventureiras de comrcio. A tradio cultu-
ral, fundamento da construo poltica, permanecia viva e localizava-se no diiwal
de Fugumba, no qual os marabutos arbitravam as lutas polticas, consagrando
os almaami.
    No entanto, os fulbes no preservaram o monoplio da funo religiosa,
inclusive dela confiaram o mais prestigiado exerccio a algenos, considerados
neutros. Ela foi obra de uma minoria tnica muito bem conhecida, os jaaxanke,
os quais cobriam, desde o sculo XVI, a Gmbia, o Fouta e a Regio dos Rios,
com as suas empresas comerciais. Os joola (diola) do Oeste eram, primeira-
mente, homens de religio e, em princpio, no violentos. No Fouta,  margem
do comrcio de longas distncias, eles tornaram-se os mestres da cultura reli-
giosa desde que fundaram Tuba, nas proximidades de Labe, aproximadamente
em 1810. A aristocracia encorajou-os, em razo da sua neutralidade poltica
e a sua influncia extensa de Kankan, na bacia do alto Nger, at as feitorias
europeias de Serra Leoa.
    A potncia do Fouta-Djalon repousava a sua fora militar sobre esta massa
de cavaleiros vestidos de branco que desciam dos altos planaltos rochosos para
executarem as incurses, a eles retornando logo aps as aes. Entretanto, esta
fora dependia da sua unidade poltica, quase totalmente abalada em seus fun-
damentos pelas perturbaes ao final do sculo XVIII. Em um reflexo de sobre-
vida, a aristocracia limitou os danos ao ratificar o compromisso de 1799. Cada
uma das duas grandes famlias, alffayaa e soriyaa, designava simultaneamente
um almaami e estes dois personagens reinavam alternadamente em Timbo onde
cada qual exercia o seu poder de dois em dois anos. Este clebre compromisso
no foi invariavelmente respeitado e provocou inumerveis combates; porm,
essencialmente, ele mostrou-se eficaz. As guerras civis eram na realidade um
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                  753




figura 24.3 Vista de Timbo, capital de Futa Djalon, c. 1815.



trao estrutural, uma via normal de acesso ao poder e a regra limitava a violncia.
Em razo destas circunstncias, elas prprias, a exploso do Estado encontrava-
-se excluda: estava presente a clivagem entre os dois partidos ao nvel de cada
diiwal e de cada misiide. Assim sendo, embora o grande diiwal do Norte, o Labe,
dominado pelos jallo (diallo), fosse sozinho mais potente que todo o restante do
Fouta, ele no sonhou em nenhum momento, em separar-se deste ltimo.
    Embora no fossem menos profundas, estas divises limitavam a potncia
de agresso do fulbes. Com efeito, no incio do sculo XIX, o territrio do
Fouta estava constitudo e no mais se estenderia, cabendo ao Labe constituir
a grande exceo. Aqueles dentre os jalonke que no haviam sido subjugados
organizaram-se ao Leste e ao Sul, apoiados pelos malinke aos quais progres-
sivamente assimilar-se-iam. Assim sendo, constitui-se o reino de Tamba que
fecharia a rota do Nger e dominaria as minas de ouro do Bure. Deste modo,
organizou-se o Solimana, entorno da fortaleza de Falaba, a qual fecharia a rota
do Sul aos fulbes, igualmente barrada por Farana, instalado nos vaus do Nger,
pelos malinke do Sankaran.
754                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    No incio do sculo XIX, a nica exceo a este bloqueio de fronteiras foi
Labe que,  poca, rumo ao Norte, no ultrapassaria o curso superior do rio
Grande. Contudo, a partir dos anos 1810-1820, ele se lanaria alm destes
limites e rapidamente atingiria a alta Gmbia, onde dominaria os malinke do
Kantora. Esta expanso, responsvel por um verdadeiro genocdio junto a diver-
sos povos tradicionalistas da famlia badiar ou tanda (chapi, pakesi, bassari), foi
obra dos potentes alfaamolabe, na ocasio fortalecidos pelos prprios almaami,
os quais convocariam s armas todo o Fouta para uma espcie de cruzada. Este
seria especialmente o caso de Umaru, almaamia soriya, de 1840  sua morte em
1869, que compensaria, com as suas guerras ao Norte, as suas derrotas frente aos
hubbu. Vimos que esta expanso triunfou definitivamente com a destruio, em
1867, do Imprio Malinke do Kaabu e com a associao, ao menos provisria,
do novo Estado fulbe de Alfaa Moolo.
    Enquanto o Labe desenvolve-se ao Norte, a luta das faces entorno de
Timbo primeiramente no passava de um jogo estril e sangrento, ao longo da
primeira metade do sculo. O detalhamento desta situao  bem conhecido,
vo seria aqui retra-lo. Aps a interminvel luta que ops, no incio do sculo,
`Abdullaahi-Babemba (alfaayaa) e `Abdul-Gadiri (soriya), o filho do primeiro,
Bubakar Mawdo, manteve-se durante doze anos no poder, violando a alternncia
(1827-1839). A guerra civil atingiria o seu auge em 1844, quando al-Hadjdj
`Umar, retornando da sua famosa peregrinao, instalou-se no Fouta e imps a
aceitao da sua mediao.
    O sistema funcionaria doravante quase regularmente; entretanto, no se
poderia explic-lo unicamente pelo crdito do marabuto da Tijniyya, que inclu-
sive abandonara o Fouta, aproximadamente em 1847. Na realidade, a partir
de meados do sculo, a aristocracia do Fouta logrou calar as suas querelas, em
razo da sua necessidade de enfrentar um perigo sem precedentes: a revolta dos
hubbu.
    Os Hubbu rassulAllaahi, "aqueles que amam o Enviado de Deus", adquiriram
um perfil de uma seita religiosa composta por membros extremistas e puritanos
da Kdiriyya, os quais se distanciavam da aristocracia fulbe, no momento em
que esta ltima passava, em grande parte, para a Tijniyya, sob a influncia
de al-Hadjdj `Umar, todavia incitando este ltimo a deixar o pas, temendo o
seu radicalismo. Era certamente deste modo que o fundador, Hubbu Moodi
Mamadu Juhe (Dyuhe), renomado sbio que estudara na Mauritnia junto a
Shaykh Sidia, via as coisas. Embora as pesquisas fundamentais no tenham
sido realizadas, pode-se entretanto avanar a hiptese segundo a qual esta efer-
vescncia religiosa permitiu aos excludos da sociedade fulbe organizarem o
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                                         755



seu protesto. Os hubbu aparentavam ter reunido fulbes marginais, excludos
da partilha, com servos de origem jalonke ou escravos recm-importados. O
movimento estourou quase de modo generalizado atravessando o Fouta; em
1849, entretanto, ele foi julgado no conjunto do pas, os insurrectos refugiaram-
-se na periferia, na zona costeira ou em direo ao alto-Nger. Estes ltimos,
sob a direo pessoal de Juhe, em seguida do seu filho Abal, protegeram-se no
Fitaba, constituindo-se desde logo em uma temida ameaa, jamais eliminada
pelos almaani. Malgrado a sua fraqueza numrica, eles atraram para si margi-
nais de toda origem, criando em sua fortaleza, Bokeeto, uma atmosfera de febril
misticismo. Eles foram temidos combatentes e devem ter despertado algo na
conscincia dos fulbes, pois que os almaani no lograram, em absoluto, mobili-
zar estes ltimos contra aqueles. Os hubbu poriam Timbo s chamas, em duas
ocasies, e todos os ataques lanados contra Bokeeto encontrariam o fracasso.
Em 1871, o almaani alfaayaa, Ibraahiima Sori Daara, morreria tentando derrotar
a fortaleza. Seria finalmente necessrio que os fulbes apelassem a Samori, cujo
acesso ao mar era perturbado pelos hubbu, para que este foco de contestao
fosse esmagado, em 1884.
    A aliana com Samori, chegado s suas fronteiras em 1879, mostrar-se-ia
proveitosa para os fulbes do Fouta, os quais lhe venderiam bois em troca de
escravos. Mesmo com a diminuio da ameaa, esta sociedade no seria todavia
capaz de manter o equilbrio entre as suas divises, no oferecendo seno uma
fraca resistncia  conquista colonial.
    Substituindo uma estrutura poltica esfacelada, a formao do Fouta-Djalon
abrira um imenso espao para o comrcio sudans direcionado ao caminho do
mar, no obstante a segurana permanecesse relativa e embora a aristocracia
fulbe tivesse uma curiosa concepo acerca da proteo s caravanas. Ren
Cailli, que atravessou o pas de Boke ao Nger, testemunhou desta situao
desde 1827.
    A abertura do litoral s influncias sudanesas transformaria profundamente
a civilizao dos povos das terras baixas, com tamanha intensidade que muitos
dentre eles seriam obrigados a aceitar a autoridade poltica da Fouta-Djalon6.
    Em direo Noroeste, os fulbes dominavam grande parte da atual Guin-
-Bissau, este domnio foi ampliado em sua extenso aps a queda de Kansala
(1867). Mais ao Sul, eles controlavam a navegao do rio Nuez, impondo a
sua autoridade sobre os landuman de Boke, junto aos quais era feita a ligao

6    A. Martel, 1965, vol. 1, pp. 101-132. Sobre o papel dos britnicos no bloqueio da progresso francesa
     rumo a Ghadmes, consultar: A. A. Boahen, 1964, pp. 132-212.
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com os brancos. Embora tenham massacrado os comerciantes fulbe em 1840,
os landuman foram incapazes de se libertar e se lanaram em uma longa guerra
civil de 1844 a 1849. Em 1856, Faidherbe levou-os a precocemente entrar na
era colonial, construindo um forte.
    Na faixa martima, os biafada na Guin Bissau e os nalu no rio Nues esca-
pavam  autoridade dos Fulbe em eu pas alagado, porm em nada perturbavam
o comrcio com os brancos. Conquanto a sua cultura sequer se assemelhasse
quela dos mande, a linhagem nalu dos tawela reivindicava para si a mesma
origem; tal estado de coisas foi ilustrado pela ambgua resistncia do rei Dina
Salifu frente  autoridade francesa.
    Foi mais ao Sul, no rio Pongo, junto aos soso (susu), vizinhos de Boffa, que
a autoridade de Timbo fora mais forte. Parentes prximos dos mande, os soso
tinham ento uma cultura profundamente marcada pelo substrato costeiro e
florestano, bem como e especialmente pelos baga, parentes dos temne, os quais
teriam sido assimilados pelos soso. Eles haviam sido fortemente atingidos pelo
trfico negreiro e a influncia europeia caracterizava-se, em seu contexto social,
pela existncia de numerosas famlias de mestios, originadas pela presena de
mercadores de escravos americanos ou britnicos. Pela ao destes ltimos, o
trfico clandestino no decidia extinguir-se. Posicionados nos confins do Fouta-
-Djalon, os soso percebiam no entanto a infiltrao do isl e a sua cultura voltaria
a ser fortemente influenciada pela cultura sudanesa, em ritmo crescente durante
a era colonial. Aqueles do rio Pongo constituam o reino de Tya, dominado
pelo cl damba (kati). A "guerra dos mulatos", iniciada em 1865, saldou-se pela
derrota do partido escravagista e pr-fulbe: os lightburn timbo recm se haviam
resignado a este fracasso quando ocorreu a ocupao francesa em 1868.
    Mais ao Sul, a autoridade do Fouta no se estendeu at o mar, mas a influn-
cia sudanesa no era menos profunda. Desde meados do sculo XVIII, o Moera
(Melakori) era dominado por uma linhagem do cl ture, linguisticamente assi-
milado aos soso e proveniente graas ao comrcio de Kankan, mantido todavia
estritamente muulmano7. Os almaami deste pequeno Estado impuseram-se
com a ajuda dos jalonke do Solimana. A partir de 1865, uma interminvel guerra
civil dividiu-os, opondo o partido islamizante do almaami Bokari aos "mala-
guistas" de Maliki Gheli. A instalao dos franceses, no distantes, em Benty
desde 1869, no traria nenhuma soluo, pois que, este conflito tornar-se-ia um
elemento da rivalidade fronteiria franco-inglesa. Ele suscitaria a interveno

7     Para uma histria geral da Tripolitnia, conferir L. C. Fraud, 1927. Para uma histria da Awdjla,
      consultar J. P. Mason, 1971, pp. 200-206, e a Rvue d'histoire maghrebine, 1976, vol. 6, pp. 180-188.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                                              757



dos temne de Satan Lahay e dos soso de Karimu, senhores do Tambaxa e grande
inimigo dos ingleses. Samori, ele prprio, interviria aps 1884 e o assunto no
seria resolvido seno aps a delimitao franco-inglesa de 1889.
    O caso do Morea ilustra a contento o fenmeno sociocultural em curso,
desde o sculo XVIII, na regio costeira dos Rios. Os povos de lnguas diversas
que viviam em civilizaes agrcolas costeiras haviam sofrido, no sculo XVI,
um impacto proveniente do Norte, a invaso somba; porm, eles no o haviam
absorvido. Desde ento, com a chegada ao mar do comrcio sudans, estas
culturas transformaram-se profundamente. Instalaram-se de modo generali-
zado linhagens malinke ou fulbe, impondo-se politicamente e introduzindo
um novo conceito sobre a poltica. Assim sendo, sociedades igualitrias e pouco
hierarquizadas aceitaram uma organizao baseada em chefaturas guerreiras,
quase Estados. Estes povos guardaram entretanto a sua particularidade cultu-
ral: estes recm-chegados, pouco numerosos, foram totalmente assimilados no
plano lingustico. Este fenmeno cobriu essencialmente o Sul do pas soso e os
domnios dos limba, loko e temne. Ele se interrompeu nitidamente na altura
de Serra Leoa, ou seja, no seio do domnio florestano do Sul, extremamente
fechado s rotas do comrcio sudans. Fenmenos sociais maiores estenderam-
-se, no entanto, muito mais alm. Deste modo, a vida social e poltica dos temne
kpelle da Libria era dominada por grandes sociedades de iniciao, dentre
as quais a mais conhecida, prpria aos homens, frequentemente denominada
poron (a ser comparada com o poro, dos senufo)8. Trata-se portanto de um dado
social fundamental, transcendente aos limites das zonas histricas logo acima
por mim definidas.
    Os loko, vanguarda dos mande, encontravam-se isolados entre os temne e os
limba, fortemente acuados. Eles sobreviveriam sob a direo de uma linhagem
de origem malinqu que lhes proveria um grande chefe, Pa-Koba, aliado de
Samori9.
    Os temne, falantes de uma lngua oeste-atlntica prxima do baga e do lan-
duman, foram obrigados a ceder Serra Leoa, aps 1787,  colnia inglesa que
servia como base  cruzada anti-escravista e onde viria brevemente constituir-se


8    D. D. Cordell, 1977a; E. E. Evans-Pritchard, 1949.
9    Para uma exposio geral a obra a resistncia no interior da Tripolitnia, consultar A. Martel, 1965, pp.
     103-106; no que concerne uma histria detalhada dos Awld Sulaymn, sobre a qual apoia-se a exposio
     pr-citada, consultar D. D. Cordell, 1972, pp. 11-45. Neste caso, soff refere-se a um pacto realizado entre
     os Awld Sulaymn e um outro grupo de bedunos; porm, as alianas soff,  imagem das alianas leff no
     Marrocos, igualmente eram capazes de unir grupos no interior de uma cabilda e, eventual e parcialmente,
     substituir as relaes de descendncia ou se ops a elas.
758                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



a etnia crioula (krio). O seu grande centro foi Porto-Loko, destino das carava-
nas do Fouta e do alto-Nger, onde os soso tomaram o poder ao final do sculo
XVIII. Em 1818, indivduos temne islamizados expulsaram os soso e seu chefe,
o alkali, aliando-se aos britnicos a partir de 1825. O Norte do pas temne
era dominado por Kambia, onde reinava a famlia Satan Lahay que pretendia,
malgrado a sua total assimilao, ser originria dos ture do Bate (kankan). Ao
Sul do Rokel, os yoni, os quais compunham a vanguarda dos temne, sentiam-
-se isolados na justa medida do desenvolvimento do comrcio de Freetown, em
torno deles, e da expanso dos kpa mende, fechando-lhes o Sul. Eles se lana-
riam em longas guerras para se libertarem e a resoluo do problema seria obra
da armada britnica, em 1886.
    Porm ao Sul do Rokel, entramos em um novo setor onde a imponncia
do macio florestal impediu a manuteno das ligaes sudanesas esboadas
no sculo XVI. O trfico negreiro, em contrapartida, exerceu-se fortemente na
regio costeira e persistiria at 1845, na clandestinidade, em que pese a proxi-
midade com Freetown e Monrvia. O interior no se estruturaria e tampouco
se esclareceria aos nossos olhos, seno em meados do sculo, quando uma rede
comercial animada pelos crioulos de Serra Leoa iria penetr-lo, encetando a
sua integrao ao mercado mundial, todavia sem alcanar os destinos das pistas
sudanesas, como ocorrido ao Norte. Este novo campo de foras multiplicaria os
conflitos locais, imprimindo-lhes uma nova configurao.
    Ao Sul dos temne, o sculo XVIII foi o momento da potente retomada da
expanso de um grande povo mande do Sul, os mende, parentes prximos dos
toma. Eles se aproximaram do mar ao terem absorvido os bulom, os quais se
encontravam desde logo definitivamente separados dos kissi. Os mende cons-
tituram grandes chefaturas guerreiras, quase pequenos Estados, cabendo s
mulheres, em seu meio, um excepcional papel poltico. A sua vanguarda, os
kpa-mende, aos quais a luta contra os yoni atrairia para a aliana britnica,
seria governada, aproximadamente em 1880, pela famosa Madam Yoko. Em
direo ao extremo leste do domnio mende, a grande chefatura de Luawa seria
dominada, ao final do sculo, por um potente conquistador de origem kisse, Kai-
-Lundu, cuja armada de mercenrios enfrentou as vanguardas samori e invadiu
profundamente os pases kpelle e toma, na atual Libria10.



10    A. Bernard, 1906, pp. 16-110; no que tange  regio fronteiria entre a Arglia e o Marrocos, referir-se
      a R. E. Dunn, 1977, pp. 137-175; em relao  vitria sobre os tuaregues, consultar J. Keenan, 1977, pp.
      72-85.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                                          759



    O avano dos mende separou dois povos mande muito prximos, os kono,
encravados nas montanhas do interior, onde se escondiam diamantes at ento
desconhecidos, e os vai, estabelecidos o mais tardar em meados do sculo XV,
na costa, no limite entre Serra Leoa e Libria. Estes ltimos mantinham che-
faturas assaz importantes, oriundas do "Imprio" somba do sculo XVI, e parti-
ciparam ativamente do crescimento do trfico negreiro, marcante na regio no
sculo XVIII. No causa espcie, portanto, que eles tenham colaborado com o
trfico clandestino cujo mais eminente representante em sua regio foi o espa-
nhol Pedro Blanco, at aproximadamente 1845. Estas relaes ambguas com
o mundo exterior suscitaram uma forte aculturao dos vai, embora tenham
igualmente valorizado a sua iniciativa criadora. Com efeito, foi por volta de 1818
que eles inventaram, em condies obscuras, um dos raros sistemas de escrita
tipicamente africanos11.
    Contudo, aps o sculo XVIII, os vai e os seus vizinhos a Leste, os de da
Monrvia, falantes da lngua kru, encontravam-se comprimidos na costa, em
razo da extremamente vigorosa expanso de um povo do interior12. Tratava-se
dos gola que, falantes de uma lngua oeste-atlntica como os kissi, deixaram
a sua ptria do Kongaba para expandirem-se em direo ao mar, empurrados
para o Norte pelos mende e povos aparentados. No incio do sculo XIX, a sua
vanguarda, alcanando o contato com os kpelle, interpunha-se entre a costa e
a rota do Sudo.
    Atingimos, na realidade, o eixo do Saint-Paul que unia a costa da Monrvia
s altas terras do Konyan, marcando o limite do mundo sudans dos malinke.
Em seu conjunto, a barreira florestal permanecera inviolada ao Sul do Rokel,
assim como da ligao do alto-Nger e da costa de Serra Leoa, atravessando o
Fouta-Dijalon, at o Bandama e inclusive no Como, bem alm rumo ao Leste.
Este eixo do Saint-Paul, abertura isolada entre a savana e o mar, determinante
na configurao da Monrvia e na localizao dos vai, foi valorizado em virtude
da grande invaso somba no sculo XVI, entretanto, entrara posteriormente em
inatividade. No sculo XVIII, quando o trfico negreiro desenvolveu-se da Serra
Leoa  costa dos kru, tal rota, ao permitir o escoamento dos escravos provenien-
tes do interior, conheceu novo vigor. Assim sendo, ao final do sculo, um afluxo
de malinqu vindos do Konyan constituiu o Estado guerreiro do Kondo, em


11   R. E. Dunn, 1972, pp. 106-107 e pp. 31-49, 137-175; E. Burke III, 1972, pp. 176-178, e 1976, pp. 1-40;
     J. M. Abun-Nasr, 1975, pp. 284-303; sobre os kunta, conferir A. Zebadia, 1974, e A. A. Batran, 1974.
12   C. R. Ageron, 1968, vol.1, pp.3-56, 239-265, 367-393, e vol. 2, pp. 737-858; A. Bernard e N. Lacroix,
     1906, pp. 122-126.
760                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



torno da chefatura de Bopolu. Encarregados em manter aberta a via, os chefes
de Bopolu organizaram, no baixo Saint-Paul, uma confederao de chefaturas
loma (toma), kpelle (guerze), vai, de e gola. Pouco aps 1820, Bopolu tornou-se
a capital de um oficial por mrito, o famoso Sau Boso, que estreitamente ligar-
-se-ia,  imagem dos vai, aos fundadores da Libria. Aps 1830, no entanto, o
seu poder foi ameaado pelo chefe Gola Jenkins e, aps a sua morte, em 1836,
a hegemonia do Kondo sucumbiria13. Seriam justamente os gola, hostis e dora-
vante hegemnicos, com os quais deveriam negociar os liberianos: notadamente,
este estado de coisas estaria  origem da viagem de Anderson que alcanaria o
Konyan, em 1869. Os samorianos interviriam para reabrir a rota, aps 1885, e
somente em 1898 uma parte dos gola aliar-se-ia ao governo do Monrvia.


      O bloco kru
    De Monrvia a Bandama, o ltimo setor costeiro que ns devemos exa-
minar serve como fachada ao enorme e macio florestal, habitado pelos povos
da famlia kru14. Cultivadores da floresta, caadores e tambm notveis mari-
nheiros, sabemos que os kru distinguiam-se pela antropologia fsica (ausncia
de siclemia) e pelas lnguas tonais por eles faladas, cuja tamanha originalidade
impossibilitava a sua filiao a qualquer outro grupo conhecido.
    Nesta ocasio, nenhuma comunicao entre o mar e a savana era possvel a
Oeste do Bandama, cujo vale inclusive foi fechado pelos baul (baoul), no incio
do sculo XVIII. Os rios eram pouco navegveis. Neste pas protegido, no qual
as sociedades no conheciam nenhuma tradio de centralizao poltica ou de
comrcio a longa distncia, este ltimo foi substitudo por um sistema de inter-
mediao que assegurava as trocas entre povos vizinhos. O passado deste pas
, portanto, caracterizado pela existncia de pequenos grupos que se cindiram
ininterruptamente para ocupar o espao, pelas suas trocas culturais e tcnicas e
pelas suas relaes com o comrcio martimo europeu ao longo dos sculos pre-
cedentes. O nome kru aparenta representar uma deformao de krawi, nome de
uma das etnias costeiras do grupo ocidental, entre os bassa e os grebo. Este nome
foi estendido ao conjunto da famlia lingustica do qual ele era o mais conhecido
membro. Com efeito, em que pese a grande homogeneidade dos kru, pode-se



13    R. E Dunn, 1977, p. 225.
14    Ibidem.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                                              761




figura 24.4   Barqueiros kru. [Fonte: L. G. Binger, Du Niger au golfe de Guine, 1892, Hachette, Paris.]
Figura 24.5 Casas kru. [Fonte: G. Brooks, The Kru mariner in the nineteenth century, 1972, Liberian Studies
Association, Newark, N. J. (original em J. L. Wilson, Western Africa, 1856, New York).]




distinguir duas subfamlias, de parte a outra do Sassandra: o grupo bete-dida ao
Leste e o grupo bakwe a Oeste, do qual primeiramente nos ocuparemos.
    No incio do sculo XIX, um movimento do Leste para o Oeste das linha-
gens wenyon (kran, gere) estava em marcha h sculos nas terras pouco povoadas
do interior. Aps expandir-se do Sassandra at Cavally, atravessando os planaltos
de Guiglo e Toulepleu, ele encontraria o seu fim aproximadamente em meados
do sculo, quando a sua vanguarda chocar-se-ia com os gio (dan), solidamente
estabelecidos no alto-Cestos, ao passo que  sua esquerda, aqueles que tomaram
o nome de sapo aproximar-se-iam do mar, em direo  foz do Sino, quase
dividindo os krawi em dois. Grupos de mesma origem, estabelecidos rio Cavally
abaixo, integraram-se ao grupo grebo, cujos componentes costeiros, vindos do
Leste, pelo mar, estavam estabilizados ao menos desde 1701.
    As mais espetaculares e conhecidas transformaes produziam-se, entretanto,
na costa martima. A oposio entre camponeses e marinheiros, "bushmen" e
"fishmen", era antiga; porm, a importncia que tomou o trfico negreiro, no
sculo XVIII, nesta regio relativamente poupada, reforou a posio dos pri-
meiros. Um particular papel foi entretanto desempenhado, neste trfico, pelo
famoso grupo das "cinco cidades kru", as quais aparentemente teriam chegado
assaz recentemente do interior (sculo XVI) e onde as duas sociedades, campo-
nesa e marinha, estavam fortemente integradas. Este distrito, corao do pas
762                                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



krawi, em torno de Setta-Kru, estabeleceria muito em breve laos privilegiados
com Serra Leoa, esboando assim um processo de renovao cultural. Aparen-
temente, desde os anos 1780, numerosas embarcaes habitualmente encarre-
gavam "fishmen" como intrpretes ou prticos, antes de prosseguirem rumo ao
golfo da Guin. Este movimento, interrompido pelas guerras da Revoluo e
do Imprio, foi retomado com fora aps 1815, ao passo que o trfico clandes-
tino coexiste com o comrcio legtimo em vias de implantao. Rapidamente,
os kru instalaram-se em grande nmero na cidade de Freetown, posterior-
mente na Monrvia, como prticos ou lenhadores. Eles guardaram a sua coeso,
impregnando-se contudo da cultura crioula. As linhagens costeiras ("fishmen"
ou "krumen") utilizaram muito rapidamente seus laos com o interior para
mobilizarem mo de obra. Durante todo o sculo XIX, as embarcaes no
mais passaram pela costa, em seu rumo para o Leste, sem contratar "krumen",
desenvolvendo esta atividade at Sassandra. Ela mudaria um pouco de carter,
mas no de importncia, a partir de 1850, quando o vapor substituiria a vela.
    A atividade europeia aparentava inserir-se em uma antiga comunidade de
pescadores costeiros, estendida at o Krawi a Leste a partir da Gold Coast,
simbolizada pelo culto ao famoso "Big Devil" de Hedie, perto da foz do Cavally,
onde se chega a partir do pas alladian (Costa do Marfim). No caminho de
volta, os veleiros que navegavam em direo ao Oeste, em geral afastavam-se
da costa para evitar os ventos e correntes contrrios. Porm, os "krumen", ao
desembarcarem com os seus soldos muito distantes para o Leste, no encontra-
ram dificuldade alguma em voltar ao pas. O problema sequer estaria colocado
 poca dos vapores, visto que estes ltimos faziam o caminho de volta ao longo
da costa.
    A partir de 1821, a faixa litornea passou a ser relativamente dominada pelas
autoridades do governo liberiano; o que no constitui objeto deste captulo. Nota-
remos, entretanto, que a aculturao esboada em Freetown acentuar-se-ia em algu-
mas zonas sob a influncia das misses protestantes, especialmente junto aos grebo,
os quais comeariam a escrever a sua lngua e atingiriam o limiar de uma conscincia
nacional. Em 1871, aps tomarem conscincia da existncia da confederao fanti,
na Costa do Ouro, eles fundaram um "reino dos grebo", cujo domnio militar, em
um primeiro momento, os liberianos demonstraram-se incapazes de levar a cabo.
Somente em 1910, eles lograram-na efetivamente. Um dos inspiradores do nacio-
nalismo grebo seria o futuro profeta Harris, clebre na Costa do Marfim15.


15    C. R. Ageron, 1968, vol. 1, pp. 62-66; J. M. Abun-Nasr, 1975, pp. 240-246; e B. G. Martin, 1976, pp. 36-67.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                                               763



   Alm do Sassandra, era possvel encontrar as maiores concentraes huma-
nas do pas kru junto aos bete de Gagnoa e alguns dida, em regies que haviam
sido submetidas a um certo esmagamento em razo da expanso para o Norte
dos povos pr-florestanos, como os mande do Sul, os guro ou os baule, os quais
haviam sido dotados de slidas estruturas polticas por uma minoria akan, no
sculo XVIII, alm do Bandama. Esta presso e a instalao de outros akan, os
avikan, vanguarda dos nnajan (alladian), na foz do Bandama, haviam provocado
o encravamento dos Dida, inclusive penetrados por linhagens baule.
   Em contrapartida, o eixo do Sassandra permanecia sob dominao kru: uma
certa navegabilidade existia em seu curso e movimentos leste-oeste de linha-
gens, provenientes de Soubr ou de Gagnoa com o objetivo de conquistar a
costa martima, mostravam que a influncia do comrcio europeu era crescente.
Estas linhagens fortaleciam, na foz do rio, o povo neyo, cuja cultura comeara a
se alterar pelo contato com navegadores europeus notadamente originrios de
Liverpool. Contudo, violentos incidentes mostraram que os marinheiros eram
os herdeiros daqueles que, por muito tempo, haviam feito valer a esta regio o
nome de "Costa da Gente Ruim".


     O Sul do mundo mande
    Entre as savanas guineanas e os povos costeiros, estendia-se a faixa dos povos
mande do Sul, mende, toma, kpelle (guerze), dan (yakouba) e kwenu (gouro),
para no citar seno os principais dentre eles16. Habitantes das savanas pr-
-florestais ou profundamente embrenhados na grande selva, eles levaram as suas
vanguardas at a costa atlntica. Oriunda dos confins da savana, a civilizao
desses povos, porm tinha muitos traos em comum com aquela das populaes
ribeirinhas, salvo com os kru. Na ausncia de qualquer formao estatal centrali-
zada, a vida poltica era dominada por grandes e secretas sociedades de iniciao,
as quais produziam, entre outros objetos, mscaras espetaculares.
    A histria destes povos de transio  inseparvel daquela dos habitantes
costeiros, aos quais eles sempre se misturaram. Porm, ela no pode ser abordada
sem entender os mande do Sul, os quais os delimitavam ao Norte e, h scu-
los, os haviam feito recuar, alm de t-los invadido e aculturado, sem contudo
demonstrar conscincia acerca do longnquo parentesco de todas as lnguas
mande.

16   J. Keenan, 1977, pp. 63-85, 139-140, e 1972; J. Dubief, 1947, pp. 15-16; G. Gardel, 1961, pp. 126, 144-156.
764                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Os mande do Sul, em outros termos, negligenciando os kono e os vai, os
malinke do alto-Nger, ocuparam um territrio que abrangia os confins do
Fouta-Djalon at o Bandama, onde eles se depararam com os senufo ou com
os baule. Eles pertenciam manifestadamente ao mundo sudans das savanas.
Esta zona meridional das savanas jamais pertencera ao Imprio do Mali, mas,
no incio do sculo XIX, h muito tempo, os malinke do Sul j haviam nesta
regio suplantado ou assimilado os mande do Sul ou voltaicos, cobrindo toda a
regio com um tecido social relativamente malevel, inervado pelas malhas de
uma rede comercial de longa distncia que dirigia, rumo ao eixo do Nger, os
kola das florestas do Sul. Estas estradas meridianas desembocavam necessaria-
mente na zona de grandes aldeias de comerciantes em contato com os habitantes
da floresta. Graas s relaes regulares que mantinham com os "brbaros", o
abastecimento em noz-de-cola, para os comerciantes ambulantes e as caravanas,
estava assegurado. Importantes setores do artesanato, especialmente tecelagem,
estavam ligados a estas atividades.
    De Leste a Oeste, cada setor pr-florestano estava acoplado a uma zona de
etapas situada mais ao Norte: os Sankaran e o Kuranko, pelo contato com os
kissi, o Toron e o Konyan de Beyla, pelo contato com os toma e kpelle, o pas
de Odienn (Kabadugu) e o Maw de Touba, pelo contato com os dan, e, final-
mente, o Worodugu de Sgula e o Koyara de Monkono, pelo contato com os
gouro. Ren Cailli muito bem descreveu este comrcio notavelmente especu-
lativo, pois a noz-de-cola no se conservava e a sua cotao estava submetida a
variaes extremas.
    Nesta sociedade globalmente tradicionalista, dominada por uma aristocra-
cia guerreira, o isl, minoritrio embora necessrio e invariavelmente presente,
encontrava-se naturalmente ligado a esta rede comercial. Mas esta ltima esbar-
rava ao Sul perante a muralha intransponvel representada pela floresta, de onde
saam os kola, pois que o trao mais notvel da regio, at a conquista colonial,
era o seu isolamento relativamente  costa martima. Vimos que o mar no era
acessvel seno pelo Oeste, do alto-Nger at o Fouta-Djalon, a Regio dos
Rios ou Serra Leoa, em menor escala do Konyan ao Cape Mount (regio da
Monrvia). Estas rotas somente adquiririam certa importncia no sculo XVIII,
com a ascenso do trfico negreiro. A Leste, o Bandama outrora assegurara uma
via de escoamento para o Worodugu e, mais alm, ao pas de Kong; mais este
derivativo fora fechado pelos baule, aproximadamente em 1720, e foi necess-
rio desde ento dirigir-se at o Como ou a Kumasi para encontrar uma sada
martima. Portanto, o pas dos mande do Sul representava um impasse, mirando
tradicionalmente para o Sudo nigeriano, de cuja civilizao provinha.
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                 765



    Somente em direo ao extremo oeste ele alcanaria o mar, graas ao
Fouta-Djalon. Tirando proveito desta situao, a cidade de Kankan, no Milo,
transformou-se ao longo do sculo XVIII em poderosa metrpole comercial,
simtrica ao Kong, no Como. Kankan estava admiravelmente posicionada
rio acima relativamente ao canal navegvel aps Bamako, no ponto de con-
vergncia das rotas mais curtas originrias da floresta, em pas kissi, com o
mar, atravs do Fouta-Djalon ou de Serra Leoa. Justamente, era este o bero
dos famosos maninkamori, ou malinke muulmanos, cuja cultura impregnava
todo o mundo dos juula (dioula), pobres comerciantes ambulantes ou ricos
negociantes, os quais animavam as rotas do Sul. Os Kaba, dominantes em
Kankan, eram uma famlia a um s tempo poltica, comerciante e religiosa,
no obstante, nesta ltima atividade, houvesse a concorrncia dos sherifu.
Mamadu Sanusi Kaba, por muito tempo comandante da cidade (aproximada-
mente de 1810 a 1850), mantivera a aliana com Timbo e relativamente pouco
combatera, seno contra os jalonke de Tamba, os quais haviam interrompido,
em mltiplas ocasies, o comrcio pela rota do Sgou. Mas al-Hadjdj `Umar
visitara a cidade por volta do ano 1845, ao retornar de Meca, e os kaba por
ele convertidos ajudaram-no, em 1851, no incio da guerra santa, a destruir o
reino jalonke de Tamba. Alfa Mamadu Kaba em seguida pretendeu impor a
sua lei, atravs das armas, aos seus vizinhos tradicionalistas; mas Kankan, iso-
lada, encontrava-se impotente. Os kaba conheceram graves revezes e a cidade
foi submetida a um verdadeiro bloqueio comercial; o que explica, em 1874, o
seu pedido de socorro junto ao novo conquistador muulmano, organizador
das terras ao Sul, Samori Tour.
    Na realidade, a reviravolta da antiga ordem, junto aos malinke do Sul, come-
ara ao Sul de Kankan, no Toron e no Konyan, antes da visita de al-Hadjdj
`Umar.
    A explicao mais verossmil para este fenmeno indica que a abertura da
Regio dos Rios, no sculo XVIII, e das rotas em direo  costa, tenha acrescido
o peso social e a importncia do papel social dos comerciantes e muulmanos. A
exportao dos escravos produzidos pelas guerras locais prosseguiria at meados
do sculo, no que diz respeito ao trfico clandestino e, at a conquista colonial,
no tocante ao Fouta-Djalon. Posteriormente, a necessidade de importao de
tecidos e armas europeias muito bem se estabelecera. Indispensvel  sociedade
global, a crescente minoria juula encontrava-se, atravs do isl, sensibilizada
pelas guerras santas e pelas teocracias muulmanas do Norte. A influncia do
Fouta-Djalon avanava pelo Kankan e as caravanas de kola alcanavam inclu-
sive o Macina, de Seku Ahmadu. Chegara o momento no qual a etnia juula
766                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



muulmana no mais aceitava o posto a ela atribudo pela sociedade global,
ao passo que esta ltima, bloqueada pela tradio, era incapaz de se reformar.
Assistimos ento a uma srie de conflitos localizados, do Noroeste da Costa do
Marfim at o alto-Nger. Porm, a resistncia permanecia insupervel. Fez-se
necessrio, para generalizar o movimento, o surgimento de um filho do pas,
quem visivelmente desejasse transformar e no destruir a sociedade da qual
advinha, porm suficientemente aberto ao mundo exterior a ponto de promover
novos mtodos. Isso seria obra de Samori e eu propus denominar o conjunto
do movimento como revoluo juula; todavia, tratava-se ento da segunda, caso
igualmente se conceda esta denominao  formao do imprio de Kong, no
incio do sculo XVIII.
    Muito distante em direo ao Sul, nos confins do Toron e do Konyan, a
curta distncia dos toma, produtores de kola, foi nesta regio onde o primeiro
movimento comeou, aproximadamente em 1835. Isso foi obra de Moriwle
Sise, homem de religio originrio da regio de Kankan, entretanto formado
no Fouta, quem reuniu em torno de si aventureiros de toda origem, na nova
cidade de Madina (Toron). Aps um perodo de radicalismo destruidor, ele foi
morto em 1845 e o seu Estado quase caiu em desgraa. Quando ele foi recons-
trudo pelos seus filhos Sere Burlay (Abdulaye) (1845-1859) e Sere Brema
(Ibrahima) (1859-1881), a necessidade de um compromisso com os autctones
e de um relativo respeito s suas instituies era a todos imposta. Contudo, o
seu domnio permaneceu invariavelmente estvel e frgil. Conquanto tenham
eles, durante certo tempo, amplamente expandido o seu poder em direo ao
Sul, atravessando o alto-Konyan, at os confins florestais do pas Kpelle, rumo ao
Norte, eles jamais lograriam estabelecer a ligao com o Kankan. Nesta direo,
no Sabadugu, um grande chefe de guerra tradicionalista, Nantenen-Famudu
Kuruma, organizou a resistncia contra as duas potncias muulmanas, entre as
quais se interps (baixo-Toron).
    No alto vale do Milo, a cavalo sobre o Toron e o Konyan, contrariamente,
foi uma outra linhagem juula, os berete, quem constituiu, em nome dos tradi-
cionalistas konate, uma hegemonia local que bloqueava o Oeste aos sise. Em
duas ocasies, estes ltimos finalmente venceriam, porm isto aconteceria para
preparar o terreno em proveito de Samori.
    Moriwle fora eliminado por Vakaba Ture, um jovem juula originrio da
regio de Odienn que, embora primeiramente tivesse combatido sob as suas
ordens, viera defender a sua localidade materna. A regio de Odienn estava
ocupada desde o sculo XVIII por um Estado militar tradicionalista, o Nafana,
o qual repulsara os senufo para proteger os juula. Vakaba soube mobilizar os
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                 767



muulmanos e ganhar a adeso de numerosos tradicionalistas, com o objetivo
de destruir Nafana e construir, sob as suas runas, o Kabadugu (ou Kabasarana).
Mais bem enraizado, este novo reino mostrou-se muito mais estvel e slido
que o domnio dos sise. Ele estendeu a sua autoridade ao longo das vias medi-
terrneas de kola, at as portas do Touba. Vakaba morreu em 1857 e o mais
guerreiro soberano da famlia foi o seu filho Vamuktar (1858-1875). Em duas
ocasies, ele incentivou o seu primo Bunu Mameri a conquistar um novo reino
para os tour, nas estradas do Norte, no Wasulu de Bougouni (Mali) (1868-1870
e 1873-1875). A interveno dos sise e a reao dos Wasulunke provocaram a
derrota deste grande projeto, interrompido com a morte de Vamuktar.
    O Kabadugu conheceu ento uma grave crise, quando grande parte dos
cantes vassalos revoltou-se com a ascenso de Mangbe Amadu, ltimo filho
de Vakaba (1875-1894). Um dos principais generais, Vakuru Bamba, patrocinou
uma secesso e construiu perto de Touba um pequeno Estado militar que ele
estenderia posteriormente em direo a Sgula e Mankono. Ahmadu levou
muitos anos para impor pelas armas a sua autoridade; assim compreende-se
porque o Kabadugu, enfraquecido, tenha se aliado sem hesitar a Samori, desde
a chegada deste ltimo s fronteiras, em 1881. Alianas matrimoniais selaram
esta submisso que se revelaria sincera e durvel.
    O espao  aqui insuficiente para a abordagem de movimentos juula secun-
drios,  imagem daquele de Fode Drame no Sankaran, no alto-Nger, de Mori-
-Sulemani Savane, nas grandes bordas florestais do pas Kissi ou de Hedi Mori,
no Koyara de Mankono (Costa do Marfim). Todos esto ligados, em diferentes
aspectos, ao isl e ao mundo do comrcio. Malgrado a sua diversidade, eles
demonstram claramente que esta minoria no mais aceitava a posio que ela
tradicionalmente ocupava e estava prestes a revolucionar a sociedade como um
todo. Eles oferecem o quadro necessrio para entender Samori, que conduziu o
movimento ao seu ponto culminante, eliminando ou fazendo aliana com todos
os seus rivais, alm de ter tornado aceitvel ou mesmo desejvel a reviravolta por
ele imposta ao conjunto dos malinke, aqui compreendidos os tradicionalistas aos
quais ele estava estreitamente ligado.
    Samori Tour era originrio do baixo-Konyan, ou seja, do vale do alto-
-Milo, nos confins do Toron. Seus ancestrais eram comerciantes ambulantes
vindos da regio de Kankan, porm, isolados em um meio tradicionalista no
qual se casavam, eles haviam pouco a pouco retomado prticas religiosas tradi-
cionais, estabilizando-se como tecelos, agricultores e criadores. Samori, nascido
aproximadamente no ano 1830, em Manyambaladugu, descendia sobretudo de
768                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



ancestrais de Kamara ou Konate, camponeses tradicionalistas, muito mais que
de comerciantes muulmanos.
    De volta  atividade comercial para escapar da autoridade paterna, Samori
descobriu a sua vocao guerreira engajando-se junto aos sise para libertar a
sua me, capturada durante a guerra contra os berete (1848). Em seguida, estes
ltimos solicitaram as suas competncias quando ele irritou-se com os mestres
de Madina (1859-1861). Mas, finalmente em 1861, Samori encontrava-se s
e coagido, sendo levado a comear a sua carreira pessoal na mais precria das
situaes.
    Neste espao no  cabvel retomar e expor estes acontecimentos, tema de
abundantes publicaes.
    Samori foi vitorioso, aliando os tradicionalistas do baixo-Toron, seus parentes
maternos, os quais, sentindo-se impotentes diante dos conquistadores muul-
manos vindos de toda parte, fizeram chamado s competncias militares deste
brilhante "sobrinho". Este ltimo efetivamente os protegeria at a invaso fran-
cesa, sem contudo deixar de diminuir em certa medida a sua liberdade. Em
contrapartida, eles lhe ofereceram os meios para a conquista do seu primeiro
domnio.
    O seu estilo de comando e a transformao que ele imps  sociedade
malinke, colocando um fim aos conflitos, abrindo as estradas e libertando os
juula muulmanos sem assujeitar os tradicionalistas, brevemente fariam afluir
os partidrios e surgir as alianas. Assim sendo, posta em marcha a mquina
de guerra, a expanso adquiriu toda a sua fora com mpeto crescente, de 1871
a 1881, e o apogeu se aproximava quando a irrupo imprevista dos franceses
transformou o carter do movimento.
    Apoiado pela maioria dos Kamara e submetendo os demais, Samori, insta-
lado em Sanankoro, tornou-se primeiramente mestre do alto-Milo, impondo a
sua ao junto aos sise, os quais ele to logo convocaria contra os berete. Uma
vez eliminados estes ltimos, Sere-Brema contudo inquietou-se com a nova
potncia e Samori evitou o conflito refugiando-se na floresta, juntos aos toma.
Retornando em 1867 com novas foras, ele tirou proveito da mobilizao dos
sise no Wasulu, onde eles usavam a sua energia contra os tour.
    Samori organizou-se ento e cuidadosamente armou-se, abandonando o
alto-Konyan aos Kamara tradicionalistas de Saxajiigi, contra os quais ele decla-
rava no pretender combater, em razo do seu parentesco. Em 1871, ele marchou
diretamente para o Norte, eliminando a tradicional hegemonia de Nantenen-
-Famudu, diante do qual os sise haviam definitivamente fracassado. Foi justa-
mente nesta regio recm-conquistada, em Bissandugu (Bissandougou), onde
Estados e povos da Senegmbia e da Alta Guin                                     769



ele instalou a sua capital, para indicar que ele estava a criar o seu prprio imprio,
independentemente dos seus pais e do seu pas natal.
    Em razo dos sise no reagirem, Samori aliou-se ento, em nome do isl,
com o Kankan, regio que ele livrara do bloqueio comercial. Guardando para si
a autoridade sobre os vencidos, ele amparou-se consequentemente do rico vale
do alto-Nger, das fronteiras do Fouta-Djalon e de Kurussa (Kouroussa) at o
Siguiri e o Bure.
    Deste modo, ele encontrava-se  frente de um imprio, amplamente superior
queles dos seus predecessores e vizinhos, cuja organizao territorial suscitava,
no imediato, difceis problemas. Ele os solucionou inspirando-se no imprio
tukuloor, do qual se tornara vizinho e ao qual to logo oporia uma surda hosti-
lidade. Era possvel prever que lhe seria necessrio elimin-lo caso pretendesse
prosseguir a sua expanso ao Norte.
    Entretanto e primeiramente, esse crescimento demasiado acelerado desenca-
deou uma grave crise. Em 1878, os sise expulsaram Samori do Sankaran, plane-
jando reconquistar o Oeste at Serra Leoa, com o objetivo de enfrentar e limitar
o domnio do conquistador. Kankan, sob a influncia dos tukuloor, quebrou a
solidariedade com ele mantida. Ento, em 1879, Samori voltou-se simultanea-
mente contra os seus dois vizinhos muulmanos. Tirando proveito da disperso
do seu dispositivo, ele os eliminou em duas brilhantes campanhas (dezembro de
1879 a abril de 1881). Kankan finalmente submeteu-se relativamente sem ofere-
cer grande resistncia, com a fuga de uma parte dos kaba para o Sgou, de onde
eles retornariam com os franceses. Os sise estiveram desde ento cativos, Madina
foi destruda e a sua populao foi transferida para Bissandugu. Finalmente,
Odienn tambm se aliou, abrindo os horizontes da alta-Costa do Marfim.
    Foi precisamente nesta regio, a Gbeleba, que Samori passou a invernada
de 1881, quando o lugar-tenente senegals Alakamessa vem apresentar-lhe o
desafio proposto pelos franceses, ento em marcha rumo ao Nger, em nome
do comandante de Kita. Este ltimo o proibiu de atacar Kenyeran, para onde
haviam recuado os vencidos de Kankan. O confronto militar, desencadeado no
incio de 1882, duraria com intervalos de paz at 1896. O seu estudo ultrapassa
o propsito deste volume, tanto temtica quanto cronologicamente.
    Em 1881, o Imprio de Samori estava essencialmente estabelecido. Tratava-
-se de uma hegemonia militar que transformara a sociedade malinke sem toda-
via destru-la; neste caldo de cultura social, os elementos comercial e muulmano
tiveram seu espao ampliado, embora o elemento tradicionalista tenha guardado
a sua liberdade. O soberano, a quem fora atribudo, aproximadamente em 1868,
o ttulo de faama, denotando um poder militar, no adotaria a titulao almaani,
770                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



inspirado no Fouta-Djalon, seno em 1884. Isso indica, inclusive, o crescimento
da influncia muulmana aps a anexao de Kankan; porm, a crise de iden-
tidade subsequente no pode aqui ser analisada: ela est ligada ao incio da luta
contra a Frana.
    Em 1880-1881, o novo imprio, em que pese a sua direo ter sido assegurada
por uma classe islamizada, no pode ser considerado como Estado muulmano.
Samori no era um muulmano culto, no obstante tenha tardia e notavelmente
empreendido esforos para se instruir. Ele estabeleceu um controle territo-
rial militar, inspirando-se por vezes em algumas realizaes dos fulbe ou dos
tukuloor; no entanto, negligenciando o voluntarismo religioso destes ltimos.
Samori, um gnio empirista, lograra em vinte anos oferecer a esta sociedade um
novo equilbrio, mais favorvel aos juula, encontrando assim uma soluo para
a crise que ela atravessava h meio sculo. Ns o deixamos aqui, no auge do
seu triunfo, quando ele subitamente defrontou-se com a irrupo dos franceses,
estado de coisas que conferiria um novo sentido a este seu final de carreira. No
mais se trataria de reconstruir uma sociedade africana, com contornos africanos,
para responder a uma crise africana, mas de tentar repelir a irrupo estrangeira
e, na justa medida do realizvel, durar tanto quanto possvel.


      Concluso
    Portanto e a justo ttulo, o nico fator comum a toda a regio estudada,
durante o perodo precedente  conquista colonial da frica, foi a progresso
da influncia europeia. Esta ltima era evidentemente forte na costa. O trfico
clandestino ali persistiu at meados do sculo; entretanto, o fato maior consis-
tia no surgimento de novos produtos africanos, leo de palma ou amendoim,
os quais permitiram a difuso, nas massas, de produtos europeus reservados 
aristocracia. A zona costeira encontrava-se assim integrada ao mercado mundial
e submetida  dependncia econmica muito antes que a conquista militar e a
dominao poltica adquirissem atualidade.
    Estas influncias so muito menores no interior, onde a tradio sudanesa
ligada ao isl prosseguia. Entretanto, o crescimento do comrcio com o mundo
exterior explica a revoluo juula. Sem sab-lo, foi em certa medida em resposta
aos impulsos do mundo exterior que Samori construiu um imprio, logrando
retardar em cerca de vinte anos o advento da conquista colonial.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                771



                                      CAPTULO 25


          Estados e povos do Arco do Nger
                     e do Volta
                              Kwame Arhin e Joseph KiZerbo




    Para os pases do Arco do Nger e do Volta, o sculo XIX foi incontesta-
velmente um perodo de decisivas e multiformes reviravoltas, desmantelamen-
tos polticos e institucionais que atingiram particularmente as estruturas estatais
centralizadas, sobretudo quando elas estavam articuladas em imprios como o
Ashanti, o Kong, e os reinos mossi e bambara. Estes distrbios eram, bem enten-
dido, o resultado de tenses internas, embora derivassem progressivamente de
aes externas, notadamente as grandes mudanas nos fluxos comerciais. Assisti-
mos a deslocamentos populacionais, sobretudo daqueles grupos no centralizados,
Vlkerwanderungen, os quais muito amide desenharam o mapa tnico tal qual
ele apresenta-se ainda nos dias atuais. Mutaes econmicas consagram o final
de um mundo e anunciam uma nova era, o perodo colonial. Estas mudanas
so frequentemente a causa e, por vezes, a consequncia das reviravoltas polti-
cas. Assistimos igualmente  acelerada expanso das religies islmica e crist,
favorecidas pelas hegemonias islmicas estabelecidas nas regies sahelianas ou
pelo impulso colonizador dos europeus. Todos estes processos contribuem para
remodelar vigorosamente a fisionomia desta regio, para enfraquec-la e facilitar,
qui convocar, o estabelecimento do sistema colonial.
772                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



      Reviravoltas polticas e institucionais
    Os pases da bacia voltaica e do Arco do Nger foram, durante o sculo
XVIII, o bero de poderes polticos que extrapolaram a regio e sucederam o
vasto Imprio de Gao, derrubado ao final do sculo XVI, ou tentaram explorar
as novas condies econmicas e polticas instauradas na Costa do Ouro atravs
do trfico negreiro. Entretanto, novas condies provocaram, no sculo XIX,
o desmantelamento dos grandes reinos e desencadearam migraes junto aos
povos no integrados pelos poderes centralizados.

      O sistema ashanti: do apogeu ao declnio
    Observamos, no volume precedente1, os meios pelos quais as dinastias ashanti
se haviam formado, no sculo XVIII, no corao da floresta e no Arco da Volta
Negra, constituindo um vasto imprio. Graas a Osei Tutu, o fundador, a Opoku
Ware e a Osei Kodjo, este conjunto estava fortemente integrado em seu ndulo
central, em torno de Kumashi e da Banqueta de ouro (sikadua).
    Ele exercia na costa, assim como nos reinos dependentes ao Norte, um incon-
testvel poder poltico e econmico. Na regio central, os reinos associados ao
cl oyoko de Kumashi tornaram-se pouco a pouco subordinados e dependentes,
graas s reformas estruturais realizadas por Osei Kodjo, primeiramente no reino
de Kumashi, em seguida,  custa dos reinos akan vizinhos: Manpong, Nsuta,
Dwaben, Bekwai, Kokofu, Bono, bem como, Denkyira, Ahafo, Sefwi, Adansi etc.
Nesta regio, o kumasihene (rei de Kumashi) tornou-se o ashantihene. A partir
desta base, as dinastias ashanti controlaram poltica e economicamente os reinos
akan da regio costeira (Wassa, Nzima, Twifu, Akwamu, Akyem, Akwapim,
Ga, Adangbe) e, sobretudo, a faixa litornea das chefaturas fanti. Igualmente,
ao Norte, os reinos de Gyaman (Abron), do Gonja, de Dagomba e inclusive do
Mamprusi, tombaram sob dominao do Ashanti, sobretudo a partir do tratado
de 1794, estado de coisas do qual derivaria um tributo anual (ayibuade) de dois
mil escravos.
    Eis que o sculo XIX inaugurar-se-ia com o reinado de um dos maiores
ashantihene, Osei Bonsu (1801-1824). Em uma srie de campanhas (1807, 1811,
1814), ele conduziria as suas foras militares vitoriosas at a costa. Os ingleses,
 poca envolvidos nas guerras napolenicas e sem doutrina precisa para os seus
estabelecimentos da Costa do Ouro, no tiveram outra opo, seno reconhece-


1     Consultar B. A. Ogot, 1992, captulo 12.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                  773
figura 25.1   Povos e cidades da frica Ocidental mencionados no texto (segundo K. Arhin).
774                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 25.2 A banqueta de ouro dos ashanti. [Foto realizada por K. Arhin, com a autorizao do ashantihene.]



rem atravs do coronel Torrane, presidente do Conselho dos mercadores e dos
seus sucessores, a realidade correspondente  autoridade, qui soberania, do
Ashanti sobre todos os povos costeiros.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                              775



    Os ashanti tiraram proveito para esmagar, ao Norte, uma rebelio do Gonja
e, posteriormente, do Gyaman (Abron). Todavia, aps ter ganho tempo, trans-
ferindo a responsabilidade das casas comerciais para a London Company of Mer
chants e expedindo para a corte do ashantihene emissrios (Bowdich e Dupuis)
portadores de projetos de tratados que praticamente permaneceriam letra morta,
a Coroa britnica retomaria os fortes para confi-los  autoridade do governador
de Serra Leoa, sir Charles McCarthy. Este ltimo, no curso da arriscada ofensiva
em direo a Kumashi, sofreu o desastre de Nsamanku (1824), onde foi derro-
tado pelas foras ashanti2. Estimulados por este xito, os ashanti retomaram a
ofensiva rumo  costa, sendo todavia esmagados em Dodowa (1826) por uma
grande coalizo de povos da costa, sob a gide dos ingleses. Era o anncio do
final da potncia ashanti.
    O perodo seguinte (1826-1874) foi marcado por algumas vitrias sem efeito
decisivo para as tropas ashanti e, sobretudo, pela direo pacfica do governador
George Maclean (1830-1843), assim como pelas notveis tentativas dos fanti e
de outros povos da costa no sentido de alcanarem uma real autonomia, frente
s ameaas de Kumashi e s invases dos europeus.
    A carreira de Maclean3 desenvolveu-se a partir da nova retirada das auto-
ridades britnicas, as quais, acuadas entre os seus incmodos aliados da costa e
o dinamismo batalhante dos ashanti, estimaram que a Costa do Ouro custava
demasiado caro, em dinheiro e vidas humanas, em que pesasse a sua vitria
de Dodowa. Assim sendo, Maclean, presidente do Conselho dos mercadores
que herdara os fortes, pde liberar, frequentemente ignorando as instrues de
Londres, o seu agudo tino comercial e a sua capacidade de avaliao sobre os
seres humanos. O seu objetivo era duplo: manter uma relao respeitosa com
os ashanti e dominar os povos da costa. Deste modo, ele promoveu a assinatura
de um tratado tripartite, fanti-ingls-ashanti, atravs do qual estes ltimos reco-
nheciam a independncia dos pases costeiros ao Sul do rio Pra, aceitavam enca-
minhar perante a parte inglesa os eventuais conflitos e engajavam-se a manter
abertas as rotas comerciais. Maclean tentou familiarizar os fanti, paulatinamente,
aos princpios jurdicos ingleses, atravs de uma hierarquia de tribunais com
base nas cortes de chefes at alcanar a jurisdio por ele prprio presidida. As
milcias locais, posicionadas junto aos chefes, ajudavam na aplicao das novas
normas, ao passo que a introduo dos cauris para as transaes de menor porte


2    No tocante a sir Charles MacCarthy, referir-se a A. A. Boahen, 1974, pp. 188-189.
3    Sobre a carreira de Maclean, conferir G. E. Metcalfe, 1962, pp. 33-34 e p. 45.
776                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



e o encorajamento  produo de leo de palma comeavam a transformar a
estrutura econmica.
    Mas o governo britnico decidira retomar o controle sobre os estabelecimen-
tos da costa em 1843, regendo-os por uma conveno judicial que oficializava a
lei britnica (Bond de 1844)4. Atravs da portaria municipal de 1858, a Costa
do Ouro, na qualidade de protetorado, foi novamente separada de Serra Leoa e
recebeu um governador que controlava um conselho legislativo e um conselho
executivo.
    Segundo o princpio geral mediante o qual as populaes locais deveriam
arcar com os custos do seu progresso material, social e intelectual, um imposto
de captao de um shilling foi instaurado em 1852, sendo geralmente aceito,
embora de modo efmero5. Na realidade, a resistncia contra o imposto rapida-
mente tornou-se muito viva, nem tanto porque os empregados encarregados da
coleta suplantassem os chefes, mas, antes, porque somente 8% das receitas eram
destinadas s escolas e estradas, servindo o essencial para pagar toda a gama de
funcionrios empregados na administrao. Malgrado as tentativas ulteriores de
reformas e as expedies punitivas, o governador Pine foi obrigado a renunciar
ao imposto em 1864.
    Justamente, este foi o primeiro movimento de resistncia de carter pura-
mente social e nacional, ou seja, no tnico. Inclusive, ele foi muito rapidamente
seguido por uma ao6 de alcance muito mais considervel, pois que diretamente
poltica.
    Desde 1864, os chefes da Costa do Ouro enviavam um caderno de reclama-
es ao governador, protestando contra as usurpaes dos seus direitos e inte-
resses, mostrando-as atravs de exemplos concretos, como a sua subordinao a
simples funcionrios e a intensidade do questionamento  sua dignidade7. Pouco
aps, Aggrey, "rei" de Cape Coast, iria mais alm, seguindo conselhos de um
advogado, Charles Bannerman. Ele protestou contra o fato de se tratar os habi-
tantes do seu territrio como indivduos britnicos, exigiu que as relaes entre
os chefes e o governador fossem definidas e questionou sobre as razes pelas
quais a ele no cabia nenhuma participao nas receitas fiscais8. Finalmente, ele


4     Lord Stanley ao lugar-tenente governador H. W. Hill, 16 de dezembro de 1843, no 124, em: G. E.
      Metcalfe,1964.
5     The Poll Tax Ordinance, 19 de abril de 1852, no 181, em: G. E. Metcalfe, 1964.
6     Conferir A. A. Boahen, 1974, p. 239.
7     Documento no 243, em: G.E Metcalfe, 1964.
8     Carnavon a Blackhall, 23 de fevereiro de 1867, no 258, em: G. E. Metcalfe, 1964.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                    777



ameaaria montar uma milcia local para a segurana do seu territrio. Aggrey
foi deportado para Serra Leoa.
    No entanto, o movimento foi retomado com ainda maior intensidade, sob
a inspirao dos intelectuais africanos que o Colonial Office j identificara, em
1855, como uma classe intermediria, semicivilizada, com ideias adquiridas
junto aos missionrios e de outras fontes. Eles impulsionavam a emancipao
dizendo aos africanos: "Vs no sois cidados britnicos, portanto, nada vos
obriga  obedincia. Vs tendes direito a uma parcela do poder em vosso pas.
Somente a unio levar-vos- a alcanarem os vossos direitos." Tais eram as
ideias de J. Africanus Horton, serra-leons, de Joseph Smith, Henri Barnes, T.
Hugues, F. L. Grant e R. J. Ghartey. No entanto, os chefes da regio costeira
estavam muito sensibilizados por estes argumentos, em virtude dos aconteci-
mentos que se desenrolavam. Temendo os retornos ofensivos dos ashanti, eles
estavam decididos a contriburem em prol da sua prpria defesa, embora repro-
vassem a impassibilidade dos holandeses perante Kumashi e o seu aliado local,
Elmina. Portanto, estes chefes opuseram-se  troca de fortes que os ingleses
haviam previsto com os holandeses, com vistas a homogeneizar os seus respec-
tivos territrios. Mas eles igualmente temiam serem abandonados pelos ingleses,
os quais os impulsionavam para a unio contra o Ashanti, visando  defesa da
costa, embora no lhes provessem os meios necessrios. Duas experincias de
autonomia foram ento ensaiadas, no Oeste e ao Leste da costa.
    No Oeste, a assembleia de Mankessim, composta pelos chefes fanti e, igual-
mente, de delegados do Denkyira, de Wassa, de Twifu e da Assnia, elaborou
sucessivamente trs constituies9: a primeira, em 1868, a segunda, assinada e
selada por 31 chefes e reis, instaura um rei-presidente eleito pelos seus pares e
que preside a Assembleia Nacional composta pelos chefes. Por sua vez, a Assem-
bleia representativa, esta terceira, era constituda por delegaes na proporo
de dois membros (um chefe e um letrado) por reino e presidida pelo vice-
-presidente, quem igualmente dirigia o Conselho Executivo. Ora, desde 1872,
esta constituio fora emendada para submeter  legitimidade da Confederao
ao reconhecimento do governo britnico, o qual era solicitado, por outro lado,
para fornecer a metade de oramento da Confederao e, caso necessrio, para
assumir todas as suas responsabilidades, transformando a Costa do Ouro em
colnia.



9    Quassie (Kwassi); Edoo e colaboradores ao sir A. F. Kennedy, 24 de novembro de 1871, documento
     contido no no 278, em: G. E. Metcalfe, op. cit.
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    Em trs anos, a Confederao alcanara funcionalidade, organizando um
exrcito de 15.000 homens, estabelecendo as instituies e encarregando as
personalidades, inclusive para a Corte Suprema, bem como instaurando um
imposto cujos dois teros do total destinavam-se  Confederao e a tera parte
restante cabia s chefaturas participantes.
    Ela chegou a inspirar a Leste, no entorno de Accra, uma confederao sim-
trica, todavia muito tmida comparativamente  potncia dos chefes desta regio.
No Oeste, por outro lado, o movimento autonomista esgotava-se desde 1872,
haja vista que, neste ano, os holandeses finalmente haviam vendido os seus for-
tes e haviam deixado o litoral, atitude que suprimia um dos motivos do receio
dos chefes confederados. Alm disso, o exrcito destes ltimos no era capaz
de forar a deciso contra o forte de Elmina, alm de demonstrar-se a notria
insuficincia de recursos financeiros. Mas, sobretudo, os britnicos utilizaram
todos os meios para reprimir os intelectuais e dividir os chefes, at o esfacela-
mento da Confederao fanti.
    Embora de curta durao, a Confederao fanti adquiriu muita importncia.
ltimo sopro de protesto na Costa do Ouro contra o avano do colonialismo,
ela tentava recriar a unidade fanti, destruda sob o efeito decisivo da presena
europeia, e anunciava o papel que a elite instruda futuramente desempenharia
nos negcios do litoral: guiar os chefes tradicionais, totalmente analfabetos.
Portanto, ela mostrava como, ao instruir, o colonialismo fornecia a arma que
conduziria um dia  sua derrota. A hostilidade, posteriormente manifestada
pelos governos coloniais frente  elite destruda, encontra aqui a sua origem.
    Aps ter eliminado a Confederao e comprado a retirada dos holandeses,
em 1872, os ingleses aproveitaram a primeira oportunidade para resolverem,
em definitivo, a questo ashanti. A invaso ashanti, ocorrida naquele ano para
reconquistar Elmina, h muito tempo considerada como sua pelo Ashanti, e
para reivindicar novamente Assin, Denkyira e Akyem, forneceu-lhe o pretexto.
Em 1874, eles enviaram um potente exrcito, comandado pelo general Wolseley,
que capturou e incendiou Kumashi. No mesmo ano, Kofi Karikari foi obrigado
a assinar o Tratado de Fonema, atravs do qual o Ashanti renunciava definiti-
vamente a todos os seus direitos sobre o litoral.
    No ano seguinte, o Ashanti enfraquecer-se-ia ainda mais, em razo da guerra
entre Kumashi e Dwaben, a ponto de ser esmagado e ver os seus habitan-
tes refugiarem-se no protetorado britnico. Na ocasio, Dwaben era um dos
mais valorosos e fiis centros ashanti. Desde ento, a anarquia instalou-se em
Kumashi e nos pases tributrios ao Norte, malgrado a poltica de consolidao
de Kwaku Dwa III, dito Prempeh (o Gordo). Este ltimo seria detido por extor-
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                            779



so, no momento da corrida colonial, e deportado. O que havia consolidado a
incontestvel potncia do Ashanti, no sculo XVIII e incio do sculo XIX, fora
certamente a sua posio intermediria entre os polos representados pelo Arco
do Nger e pela costa do golfo da Guin; e, igualmente, o gnio da organizao
poltico-administrativa que possuam os seus dirigentes10.
    No incio do sculo XIX, este sistema atingira um alto grau de perfeio
e eficincia que por si s justificava a sua crescente extenso at englobar os
Estado fanti. O grande conjunto ashanti compreendia ento trs tipos de uni-
dades territoriais.
    Em primeiro lugar, o grupo de chefaturas ashanti, unidas de longa data sob
a autoridade do ashantihene, graas  unidade lingustica,  contiguidade geo-
grfica, a uma vasta rede de laos de parentesco e afinidades, a um sculo de
atividade e fidelidade militares comuns, assim como  sano mstica da f na
potncia tutelar da Banqueta de Ouro dos ashanti e dos espritos dos ancestrais
do ashantihene11. Os testemunhos concretos do pertencimento  unio eram
os seguintes: participao dos chefes dos Estados membros na entronizao
do chefe de Estado de Kumashi, soberano ashanti; juramento de fidelidade a
este ltimo; participao na assembleia geral (nhyamu) dos chefes, na qual se
deliberava acerca dos assuntos polticos mais relevantes (guerra, paz, tratados
etc.); aceitao do grande juramento dos ashanti, como instrumento de justia
suprema sob todos os territrios do ashantihene12.
    Estas instituies integradoras constituam as bases essenciais do aparelho
de Estado. Elas eram encontradas em todos os Estados akan no exterior do
Ashanti, situao que indicava a superao da ideia de identidade poltica fun-
dada no parentesco e na religio pela ideia da legitimidade do poder atravs da
guerra.
    Assim sendo, a segunda categoria de Estados neste vasto imprio foi cons-
tituda por Estados akan limtrofes do pas Ashanti. Os povos destes Estados
compreendiam o significado destas instituies. Esperava-se deles que vivessem
sob a autoridade do ashantihene, com objetivo de lhes extrair os mesmos bene-
fcios que aqueles subtrados dos prprios povos ashanti.
    Finalmente, a terceira categoria de Estados compreendia territrios geo-
grfica e culturalmente distantes, como o Dagomba, o Mamprusi e o Gonja.
Eles eram essencialmente considerados como obrigados a contriburem para o

10   Consultar B. A. Ogot, 1992.
11   Conferir R. S. Rattray, 1929, pp. 398-409; K. A. Busia, 1951; I. Wilks, 1975, captulo 2.
12   I. Wilks, 1975; J. M. Sarbah, 1906; K. A. Busia, 1951, p. 78; R. S. Rattray, 1929, pp. 388-389.
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desenvolvimento econmico ashanti. Estes Estados no akan do Norte esta-
vam submetidos a um controle militar e poltico, em razo dos seus recursos
econmicos. Eles igualmente forneciam, sob a forma de imposto, grande parte
dos homens destinados s guerras e  agricultura do Ashanti13. Esta importante
distino foi contestada, pretendia-se que as motivaes econmicas e polticas
estivessem presentes em todas as guerras ashanti. No mesmo sentido, invocou-se
a existncia de representantes do Ashanti em todos os tipos de Estado, assim
como foi sugerida a "ashantizao" do exrcito do Dagomba ou as intervenes
do ashantihene nas querelas sucessrias do Gonja e do Dagomba14.
    Todavia,  evidente que os comissrios regionais possuam mandatos diferen-
tes, em cada caso especfico. Nas regies akan, eles deviam ocupar-se da soluo
dos conflitos, zelando pelo comprimento do juramento perante o ashantihene, de
modo a confirmar a sua soberania sobre estes territrios; a cobrana dos impos-
tos nestas regies, considerada pelos observadores europeus da poca como
uma explorao, no suscitava problemas para o ashantihene, pois os mesmos
encargos pesavam sobre os Estados ashanti, propriamente ditos15. O verdadeiro
problema consistia na soberania territorial. Nas regies no akan, os comis-
srios dedicavam-se a fortalecer os termos do "tratado" entre o ashantihene e
o Dagomba, por exemplo16, no tocante ao tributo. Em contrapartida, ns no
possumos documentos que atestem a presena de contingentes do Gonja ou
do Dagomba no exrcito ashanti, nem tampouco o pagamento, por estes pases,
do imposto de guerra ashanti (apeatoo). A soluo dos conflitos sucessrios no
Gonja e Dagomba devia, portanto, ser considerada como uma ao poltica de
objetivo econmico: a paz nestes territrios garantia o pagamento do tributo,
no mesmo sentido agia a "ashantizao" do exrcito dagomba. Um velho infor-
mador ashanti declarava a este propsito: Na yene wonom nko nhyiamu ("Ns
no participvamos do conselho com eles").
    Com os Estados akan, o problema essencialmente consistia na questo da
soberania. A dimenso econmica das conquistas ashanti no Sul  indubitvel.
Embora seja claro que, no incio do sculo XIX, os ashanti interessavam-se
essencialmente em dominar politicamente os outros povos akan, aos quais eles
buscavam impor as suas prprias instituies centrais. Primeiramente, o tributo
extorquido junto aos povos vencidos foi, neste caso, pouco a pouco transformado

13    T. E. Bowdich, 1819, pp. 320-321.
14    J. K. Fynn, 1974; I. Wilks rejeita esta categorizao, 1975, pp.42-60.
15    B. Cruickshank, 1853, vol. II, p. 143.
16    T. E. Bowdich, 1819, p. 235.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                          781




figura 25.3 A corte das finanas, Kumashi, 1817. [Fonte: T. E. Bowdich, Mission from Cape Coast Castle to
Ashantee, 1819, Londres, John Murray. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho Administrativo
da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



em imposto de guerra (apeatoo)17. Em seguida, o grande juramento ashanti,
Ntam Kesie, considerado como o supremo instrumento da justia, foi institudo
junto aos povos akan e os seus prprios juramentos locais lhe foram subordina-
dos18. Em terceiro lugar, a presena dos principais dirigentes akan da periferia
era exigida aquando da festa anual do Odwira, na qual eles deviam homenagear
o seu "soberano", o ashantihene19. Finalmente, contingentes de todos os Estados
akan combatiam como foras ashanti nas guerras dos ashanti, no interior e no
exterior do imprio. O problema da soberania estava na origem dos frequentes
choques entre os ashanti e os outros akan ou contra os europeus. O fechamento
das rotas comerciais com destino a Accra, decretada pelos akim e pelos akwapim,
provocou guerras com o ashantihene, em razo deste ltimo sobretudo t-la
interpretado como uma rebelio, uma recusa  dominao poltica dos ashanti.
Os ataques destes ltimos contra os fanti eram inspirados por esta mesma von-
tade de hegemonia poltica.

17   Ibid., p. 320.
18   Conferir Major Chisholm a sir Charles MacCarthy, em 30 de setembro de 1822, documento no 56, em:
     G. E. Metcalfe, 1964.
19   J. M. Sarbah, 1906.
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figura 25.4 O primeiro dia da festa anual do Odwira, em Kumashi, 1817. [Fonte: T. E. Bowdich, Mission
from Cape Coast Castle to Ashantee, 1819, John Murray, Londres. Ilustrao reproduzida com a autorizao do
Conselho Administrativo da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]



    Como prova da sua soberania, o ashantihene citava documentos que engajavam
os signatrios a pagarem um aluguel pelo castelo de Cape Coast e pelo forte de
Anomabo, os quais ele dizia ter adquirido por ocasio da conquista do pas fanti, em
180720. Aps a derrota do Gyaman, em 1818, o ashantihene declarou que os habitan-
tes de Kommenda e de Cape Coast deviam a aseda, contribuio a ttulo de gratido,
como prova de alegria pela vitria do seu senhor e mestre21. Finalmente, em 1822,
os comissrios do ashantihene exigiram o julgamento e a punio de um sargento
de polcia do forte de Anomabo, porque ele no reagiu corretamente quando um
mercador ashanti pronunciara diante dele o juramento do ashantihene22.

      Os Estados mossi
   O pas Mossi, o qual desde o sculo XVI conhecera um notvel desenvol-
vimento culminante no sculo XVIII23, estava, no incio do sculo XIX, em
estado de decomposio que paralisou por dentro e desmantelou por fora os


20    T. E. Bowdich, 1819, pp. 47 e 68.
21    O governador e o Conselho para o comit africano, 11 de janeiro de 1819, documento no 39, em: G. E.
      Metcalfe, 1964; igualmente consultar o governador e o Conselho ao comit, em 22 de maro de 1819,
      documento no 110, ibid.
22    Conferir o documento no 63, ibid.; K. A. Busia (1951, p. 78) define um sermo como "uma frmula este-
      reotipada aludindo, muito obscuramente, a um evento trgico" na histria da comunidade poltica  qual
      ele se refere e na qual o chefe  considerado "possuidor do sermo". Relembrando o evento em questo, o
      sermo seria supostamente capaz de perturbar os espritos dos ancestrais falecidos da linhagem real; estes
      ltimos deveriam ser apaziguados atravs de sacrifcios. Razo pela qual um sermo no devia ser pronun-
      ciado seno mediante regras prescritas, como instrumento judicial intimando uma parte de um conflito a
      comparecer perante o tribunal do dirigente ao qual o sermo era prestado ou na qualidade de meio para o
      recurso a um tribunal superior. Referir-se a R. S. Rattray, 1929, pp. 76, 102-104, 315 e seguintes.
23    Consultar B. A. Ogot, 1992, captulo 12.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                  783



dois principais reinos de Uagadugu e do Yatenga. Somente o reino de Busuma
(Boussouma) tirou proveito desta debacle para se ampliar e se consolidar. Dois
exemplos bastaro para demonstrar a grave decadncia na qual sucumbira o
potente reino de Uagadugu: a guerra de Busuma e a guerra de Lall.
    O reino de Busuma, em plena expanso, chocou-se no incio do sculo com
o seu consorte de Uagadugu, ento comandado por Mogho Naaba Dulugu.
Foi imiscuindo-se na querelas intestinas do Salmatenga (regio de Kaya) que
Naaba Piga de Bussuma logrou colocar a mo sobre esta chefatura. Entretanto,
ao acolher um exilado do reino de Uagadugu, ele sofreu a invaso das foras de
Mogho Naaba Dulugu, sendo levado a refugiar-se em Mane, localidade na qual
ele prprio guerreara contra o chefe do Zitenga, um protegido de Uagadugu.
Tratava-se ento de uma guerra circular, durante a qual numerosos prncipes
descontentes com a campanha contra Mane desertaram e na qual Mogho Naaba
Dulugu de Uagadugu foi mortalmente ferido. O sucessor de Naaba Piga, consi-
derando que o chefe de Mane fora o responsvel pela morte de Mogho Naaba
Dulugu, obrigou o naaba de Mane a envenenar-se, enquanto o sucessor de
Dulugu, Naaba Sawadogho, obrigava o chefe de Zitenga, o seu prprio irmo
que ousara com ele disputar o trono, a se suicidar.
    Cinquenta anos aps, Uagadugu, aliado de Boulsa, atacaria uma vez mais
Bussuma, aliado de Pisila. No entanto, Naaba Ligidi de Bussuma, embora ator-
mentado, lograria organizar uma invaso com a sua cavalaria sobre a capital do
mogho naaba, em Uagadugu, no curso da qual os danos materiais e humanos
seriam considerveis24.
    Por outro lado, as guerras entre o Bussuma e o reino de Riziam permiti-
ram, no sem dificuldades, anexar as chefaturas do Salmatenga e de Pikutenga
(Pikoutenga). Para estas mobilizaes, Naaba Koabgha de Riziam solicitara o
apoio de um chefe fulbe do Djelgodji.
    Na ocasio, em 1881, Naaba Ligidi de Bussuma lanava uma expedio
contra Koala, ao Norte do pas gulmance e nas fronteiras do reino fulbe de Dori
e do pas mossi. As tropas de Bussuma dificilmente venceram a resistncia da
fortificao de Koala, localidade da qual o emir de Dori esperava a derrota para
dela se apoderar. Naaba Ligidi tomou as devidas precaues para no favorecer
este objetivo dos fulbes25.
    Aquando de sua morte, em 1890, Naaba Ligidi j levara as fronteiras do
reino de Bussuma aos seus mais extremos limites. Ao preo de numerosos

24   Y. Tiendrebeogo, 1964, pp. 57-58.
25   P. Delmond, 1953, p. 39.
784                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



enfrentamentos, ele assegurara a sua preponderncia na fronteira do pas fulbe
e gulmance.
    Enquanto o Bussuma impunha-se ao Leste de Uagadugu, no Oeste, o mestre
de Lalle, uma potente chefatura vizinha do pas gurunsi, rebelava-se fortemente.
Esta guerra, de longa durao, reiniciada aps cinquenta anos, conduziria pro-
gressivamente os povos a tormentas, at a conquista francesa.
    Ela comea sob Naaba Karfo (1842-1849) de Uagadugu a partir de um
incidente banal, o que demonstra o grau de decrepidez do sistema mossi nesta
poca. Ela foi terrivelmente agravada pelo fato de, contra o mogho naaba de
Uagadugu, terem se aliado um dos seus mais potentes vassalos e o seu principal
"ministro", o widinaaba26. Esta coalizo era temida, pois que ela reunia dois
grupos sociais geralmente antagnicos: um elemento da nobreza posicionada 
frente dos comandos territoriais e o mais eminente representante da casta "buro-
crtica" de origem plebeia, o qual, em torno do soberano e todavia, gerenciava os
grandes negcios do Estado. Nesta guerra civil que anunciava o ocaso do reino
de Uagadugu, Naaba Wobgho de Lalle, cuja parte oriental do territrio estava
demasiado encravada no meio de terras legalistas, apoiou-se de mais em mais na
zona ocidental, em grande parte povoada por elementos gurunsi, os quais foram
amplamente levados a colaborar, enquanto o mogho naaba de Uagadugu lograva,
atravs de estratagemas, provocar o aniquilamento do seu "ministro" rebelde.
    Entretanto,  poca de Mogho Naaba Sanem de Uagadugu (1871-1889),
o conflito foi retomado com maior intensidade com Naaba Wobgho de Lalle.
Ele prosseguiu sob o mogho naaba de Uagadugu, tambm chamado Wobgho
(1889-1897). A primeira batalha levou  debandada das foras reais. O mogho
naaba, incapaz de abafar a rebelio, voltou-se, renunciando a combater, para os
mercenrios zamberma (zambarima) com o objetivo de resolver a questo.
    Os zamberma haviam deixado o seu pas (atual Nger) para escaparem das
exaes dos fulbes27. Eles se colocaram ao servio de Ya Na, rei de Yendi, Na
Abdoulaye, como caadores de escravos. Eles marchavam sob as ordens de Alfa
Hano, posteriormente de Gazari e, finalmente, de Babato. Em razo de discr-
dias com o rei de Yendi, eles empenharam-se em controlar o rico pas gurunsi
ao qual impuseram onerosos sacrifcios. Como Mogho Naaba Wobgho os con-
vocara contra o Lalle, eles avanaram em pas Mossi sem ningum perdoar. Os
"chefes" fiis ao mogho naaba de Uagadugu opuseram-se a eles e barraram-lhes
a estrada, como em Sapon, onde eles foram esmagados, e em Kayao. O prprio

26    Y. Tiendrebeogo, 1964, pp. 48-49.
27    M. Izard, 1970, tomo I, pp. 183 e seguintes.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                   785



exrcito do rei lhes infligiu pesadas perdas e o tapsoba (comandante em chefe)
no os deixou passar seno a contragosto, aps ter recebido a ordem de Uaga-
dugu. Justa e posteriormente a muitos sangrentos combates, os enfraquecidos
zamberma refugiaram-se em grande nmero na provncia rebelde do Lalle que
os confinou nos pntanos onde foram dizimados. Somente fragmentos desta
coluna de interveno alcanariam Lo28. A macabra ironia do destino quis
que a conquista europeia provocasse, ao final do sculo, a fuga do mogho naaba
de Uagadugu, rumo ao territrio britnico em 1897, enquanto o seu vassalo
e homnimo Wobgbo de Lalle era derrotado e executado pelos franceses em
Uagadugu.
    No pas Mossi ao Norte, a preponderncia do Yatenga era patente: porm, no
transcorrer do sculo XIX, a decadncia igualmente era evidente. Na realidade,
salvo algumas operaes de expanso com vistas  integrao, como nos reinos
de Yako e do Tatenga (Riziam), as outras aes do Yatenga consistiriam, durante
este perodo, em reaes contra as ameaas externas, dentre as quais os exemplos
tpicos residem nas operaes de Djelgodji e na interminvel guerra civil entre os
pretendentes ao trono, aps a qual a maioria no teria tempo para alcan-lo.
    Em matria de integrao pela conquista, as duas principais iniciativas foram
aquelas de Naaba Tuguri (1806-1822) contra Yako29. Mas o mestre deste reino,
intermedirio entre o mogho naaba de Uagadugu e aquele do Yatenga, estava
antes sob as ordens do primeiro. Naaba Silem de Yako, destitudo por Naaba
Tuguri do Yatenga, no se manteria durante mais de um ano. E, sem dvida, com
a ajuda do grande vizinho de Uagadugu, ele retomaria o seu comando.
    Quanto  ao contra o Riziam, ela no podia seno produzir os seus frutos.
Com efeito, este reino, cuja capital Sabce estava descentralizada na regio Sul,
havia conduzido todos os seus esforos nesta regio, particularmente contra os
potentes naaba de Bussuma. O Norte, cuja comunicao com a regio Sul no
era possvel seno atravs de um estreito e pouco povoado corredor, no mais
estava ligado  base meridional do reino. Em contrapartida, esta regio seten-
trional estava, desde o reinado de Naaba Kango, sob a influncia e a presso
do Yatenga. As campanhas dos naaba Totebalbo (1834-1850) e Yemde (1850-
-1877) desdobraram-se na anexao pura e simples dos territrios de Titao e de
Toulf, situao que isolou ainda mais a chefatura rumba de Mengao e aquela
do Toulf; na realidade, um chefe guerreiro de origem escrava, estabelecera-se
em Titao. Com o chefe de Kossouka encarregado da vigilncia, o mestre de

28   Y. Tiendrebeogo, 1964, pp. 70-71.
29   Conferir D. Nacanabo, 1982.
786                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 25.5 Personagens mascarados mossi, provavelmente "sacerdotes da terra" representando a autori-
dade aborgene, no incio do sculo XIX. [Fonte: J. Vansina, Art history in Africa, 1984, Longman, Londres.
Ilustrao:  Frobenius Institute.]




figura 25.6 Mogho Naaba Sanem festejado pelos seus sujeitos em 1888. [Fonte: L. G. Binger, Du Niger au
golfe de Guine, 1982, Hachette, Paris. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho Administrativo
da Biblioteca da Universidade de Cambridge.]
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Zitenga em Tirak encontrava-se sob um severo controle; estado de coisas que
o conduziria a reaproximar-se ainda mais do seu "irmo", o naaba do Datenga
e at mesmo do rei de Riziam.
    Por outro lado, as campanhas extremamente rudes do Riziam, pas de colinas
escarpadas, haviam custado muito caro ao Yatenga, inclusive a prpria vida de
Naaba Totebalbo. Os frutos das campanhas contra o Djelgodji igualmente teriam
um preo muito elevado. Certamente, a fronteira com o Imprio do Macina fora
ento mais bem estabelecida; porm, o Djelgodji extrara das intervenes mossi
um anseio suplementar de independncia visvis do Yatenga30.
    Finalmente, no tocante  anarquia e  guerra civil, elas j se encontravam
potencialmente contidas na eleio de Naaba Tuguri, no incio do sculo, contra
a vontade dos seus numerosos irmos. Frequentemente, dois concorrentes se
sucederiam em curtos intervalos, reinando por alternncia ou mesmo simul-
taneamente, cada qual com o seu cl e a sua capital. Foram estes os casos de
Naaba Wobgho e Naaba Nyambemogho, por um lado, e de Naaba Korogho e
Naaba Ragongo, por outra parte. Os prncipes compunham ento as suas tropas
junto aos povos san (samo) de Gomboro (fornecedores de arqueiros) e/ou fulbe
de Tiou (fornecedores de cavaleiros), para forar a deciso poltica atravs das
armas31.
    Em seu conjunto, o processo histrico no Yatenga do sculo XIX mostrou-se,
 imagem do sculo XVIII, muito extrovertido, com a particularidade dos desa-
fios e riscos que se revelavam desde ento muito mais graves. Sob Naaba Baogho
(1885-1894), apoiado pelos filhos de Sagha (com exceo do cl de Tuguri), as
lutas fratricidas se instalaram. Com efeito, os filhos de Sagha subdividiram-se,
por sua vez, em um cl de Totelbalbo e outro de Yemde. Eles finalmente se
entenderam para impor Naaba Baogho; porm, este ltimo seria brevemente
contestado pelos filhos de Tuguri: ocasio propcia  interveno francesa32.

     Os planaltos voltaicos a Oeste e Sul
   Nesta regio, grupos e cls de mesma linhagem, em sua maioria sem poder
centralizado, resistiram relativamente bem s reviravoltas do tempo, cujos
vetores, j h alguns sculos, eram os juula (dioula) ou os marka (dafin) que


30   M. Izard, 1970, tomo 2, p. 350.
31   Ibid., pp. 331-333.
32   J. Ki-Zerbo, 1953. As guerras fratricidas entre "os filhos de Tuguri" e "os filhos de Sagha" geraram a
     possibilidade de interveno francesa.
788                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



constituam, juntamente com os autctones, amlgamas biolgicos, sociais e
econmicos dentre os quais um dos prottipos seria o povo bobojuula. Inclusive,
no  necessrio traar uma fronteira puramente terica entre os povos com
o poder centralizado e os demais. Na realidade, a centralizao pde tomar
formas que no eram polticas,  imagem do poro de Senufo, comunidade de
grande envergadura, de carter religioso que determinou a hierarquia social. Era,
portanto, normal que os povos pouco hierarquizados politicamente acusassem
os golpes das convulses do sculo XIX de modo diferente, comparativamente
s sociedades politicamente pouco estruturadas. Estas observaes ajudam a
compreender a tumultuada histria dos grupos voltaicos desta regio, durante o
sculo - invases, incurses preventivas, resistncias, adaptaes e mestiagens
diversas. Em geral, embora repelindo mais ou menos vigorosamente as tentativas
de dominao dos grupos mande, mossi, zarma, marka, fulbe, os povos mais
sedentrios, seno autctones, acomodaram-se com a sua presena e com a sua
atividade econmica, admitindo o risco de operar transferncias geogrficas
quando a presso poltica ou a puno econmica se tornavam demasiado fortes.
Vejamos alguns exemplos a este propsito.
    O Gwiriko e o Kenedugu (Kndougou) eram ambos emanaes do poder
dos ouattara de Kong33. Eles seriam substitudos, aproximadamente ao final do
sculo XIX, pelo deslocamento rumo ao Leste de outro imprio juula (dioula),
aquele de Samori Tour34.
    O Gwiriko35, formado no sculo XVIII no entorno de Bobo-Dioulasso e do
arco norte do Volta Negro, florescia graas a revoltas mates, entre as sucessivas
hegemonias do Arco do Nger (Sgou, Macina, Imprio Tucolor) e os reinos do
planalto central mossi. Porm, aps Maghan Oul Outtara (1749-1809) e o seu
filho, Diori Ouattara, o imprio se esfacelou de modo generalizado - em razo
de resistncias secessionistas dos povos submetidos pela imigrao de pequenos
grupos juula (dioula), os quais tentavam a seu turno alcanar a bonana. Os tifo,
bobo-juula (dioula), bolon etc., estremeceram o jugo. Bako Morou (1839-1851)
interrompeu momentaneamente a debacle, aliando-se aos tifo e aos bobo-juula
(dioula) para esmagar as foras do Kenedugu em Oulni, onde o futuro rei,
Tiba, seria capturado e vendido como escravo.
    Aps este perodo, a decadncia prosseguiu. Assim sendo, ao redor de Boromo
uma famlia de marabutos marka, proveniente de Djenn, instituiu um feudo

33    No tocante  ascenso do imprio de Kong, consultar B. A. Ogot, 1992, captulo 12.
34    Conferir o captulo 24, acima.
35    Referir-se a B. A. Ogot, 1992, captulo 12.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                     789



que, sob as ordens de Mamadou Karantao, reuniu Marka, Mossi e Dagari-Juula
(Dioula). Os k autctones foram expulsos de Boromo. Em seguida, desafiando
a autoridade dos ouattara, Mamadou Karantao lanou-se  conquista do Bwamu
(pas dos bwaba) e fundou Ouahabou. O seu filho, Karamoko Moktar, prosse-
guiu a sua obra, no sem dificuldades e derrotas, no Bwamu e em terras dagari
e wiile.
    As intenes de Karamoko Moktar, ao Sul do Gwiriko, foram alcanadas
pelo Kenedugu pelo Norte. Organizado no sculo XVIII em torno de Sikasso,
tratava-se de uma extenso longnqua de Kong sob os traor, Senufo dioulass,
ou seja, islamizados. Foi entre 1850 e 1860 que Laoula consolidou a potncia dos
traor, com base em pequenas chefaturas senufo. Este poder seria confirmado a
partir de 1875 pelo rei Tiba, aliado dos franceses. Aps se ter aproximado dos
kiembagha de Korogho e ter vitoriosamente repelido o cerco de Samori, atrs
da fortaleza fortemente construda de Sikasso, ele prprio fracassaria, em 1890,
perante Sinmatiali.
    Os povos do Sudoeste do Alto Volta (Burkina Faso) viveram neste perodo
em meio ao mesmo clima de presses, instabilidades e conflitos. Migraes
tnicas: tal  o esquema geral que prevalecia nesta regio. Aqui os pwa, sissala,
gan, dyan, birifor, dagara, dagara-juula sucederam-se, pressionados, repelidos,
esposados e separados, sobretudo durante os primeiros decnios do sculo XIX.
Bem entendido, no se tratava de um tsunami humano36. M. Pre, citando os
seus informadores, menciona grupos restritos, por vezes compostos de algumas
unidades em movimento-relmpago "para conferir se o lugar era bom"; poste-
riormente, outros, "ao perceberem realmente tratar-se de um lugar adequado",
uniam-se aos primeiros. Fato notvel aqui consiste em haver, entre estas etnias,
o parentesco mais ntimo em meio  mais estrita diversidade. Eles se uniam, por
exemplo, aos quatro grandes cls matriarcais, adotando as suas matronmias37.
Eles falavam todos lnguas voltaicas, frequentemente prximas uma das outras.
Eles tinham os mesmos hbitos culturais, funerrios, matrimoniais e de inicia-
o, o mesmo habitat disperso, estruturas sociais similares, mtodos agrrios
anlogos (intensivos nas terras aluviais ou domsticas, extensivos alhures), entre
outros. E, no entanto, em todas estas esferas, havia diferenas o bastante para
que cada grupo mantivesse por todos os meios a sua prpria identidade.
    Na aurora do sculo XIX, os kulango, teese, gan, pwa e dyan j se encon-
travam presentes, sucederam-nos ento os lobi, muito mais numerosos. Eles

36   Consultar H. Guilhem e J. Hbert, 1961, 1961, pp. 87 e seguintes.
37   M. Pre, 1982. As matronmias eram: Hien/Da/Kambou-Kambir/Sib-Sou-Pal.
790                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



atravessaram o Volta Negro, ao final do sculo XVIII, vindos do atual Gana
em dois grupos: ao Norte, aqueles de Nako (os lobi da plancie) e, ao Sul, os
lobi montanheses. Eles repeliam os dyan, gan e teese em um processo contnuo,
difuso e sem grandes choques; atravs de migrantes pioneiros e desmatadores,
oriundos de regies superpovoadas,  custa dos povos esparsos; situao que no
exclua conflitos localizados em zonas marginais de frico. Posteriormente, em
trs eixos principais e da mesma origem, chegaram os birifor. Eles se incrustaram
entre Dagara-Wiile e Lobi, entre Dyan e Pwa, bem como em pleno corao do
pas lobi. Eles eram os prottipos, por excelncia, da mestiagem, aproximando-
-se dos lobi, no plano cultural, e dos dagara por intermdio da lngua; eles eram,
muito amide, trilngues. Finalmente, foram os dagara que, por sua vez, atraves-
saram o Volta Negro, de Leste (margem esquerda) a Oeste (margem direita).
Distinguimos junto a eles dois grupos: os dagara-wiile, instalados no Nordeste,
e os dagara-lobi, estabelecidos s margens do rio.
    Todos estes povos passariam a maior parte do seu tempo ocupados em
implantarem-se e defenderem-se, no tanto contra os seus vizinhos imediatos,
mas contra os contingentes juula (dioula), os quais os exploravam por toda parte,
sem lograr assujeit-los.

      Outros povos
    A mesma observao vale igualmente para os povos voltaicos de poder no cen-
tralizado, a exemplo dos gurunsi, bisa e samo (sanan), no sculo XIX. Vimos como
os zamberma sangraram intensamente os gurunsi, os quais em tempos de normali-
dade pagavam um pesado tributo aos reinos mossi, assegurando todavia com estes
ltimos uma pronunciada mestiagem, perene durante sculos. Os bisa no somente
mantiveram as suas posies no Sudoeste do bloco moaga, mas, inclusive, aparentam
ter migrado durante este perodo. "Para ns, tudo leva a crer que, distantes de serem
repelidos pelos mossi, os bisa [...] teriam ganhado terreno sobre os seus vizinhos. A
chefatura bisa de Garango seria, deste modo, muito recente38."
    Quanto ao pas san (samo) do Norte, na fronteira com o Yatenga, longe de ser
conquistado, ele serviu em mltiplas ocasies como base de recuo e "santurio"
para as interminveis lutas dinsticas do Yatenga, durante o perodo em questo.
Eles e outros povos igualmente deviam contar com as chefaturas marka (dafin),
recentemente instaladas  imagem daquelas chefaturas de Lanfiera. Em suma, ao
final do sculo XIX, os povos de poder no centralizado apresentavam desem-


38    M. Izard, 1970, tomo 2, p. 226.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                    791



penhos relativamente considerveis. Desde 1885, uma coalizo entre os bwaga,
k e gurunsi, similar s coalizes que se estabeleciam alhures contra Kong, Bobo
ou Sikasso, infringiu aos zamberma uma derrota acachapante. Estas democracias
baseadas em pequenas localidades africanas, adeptas da religio tradicional, pos-
suam um mpeto notvel, o qual se afirmaria brilhantemente frente aos coloniza-
dores, porm a sua histria no mereceu suficiente apreciao at os nossos dias.

     As regies orientais dos planaltos voltaicos
    Aqui na regio Norte, o Djelgodji e o Liptako formavam uma zona intermedi-
ria entre os novos poderes do Macina e do Sokoto, por um lado, e o envelhecido
Yatenga, por outra parte. Seria o Liptako que tiraria maior proveito desta situao
para repelir rumo ao Sul a presena recm-dominante dos gulmanceba.
    No incio do sculo, os fulbes aqui se apresentavam na forma de agrupamen-
tos e acampamentos assujeitados, ao Norte, dos ardo fulbes do Arco do Nger,
ou, ao Sul, dos chefes gulmanceba.
    No Djelgodji, ao incio do sculo, os fulbes djelgobe estavam dependentes
dos jallube, para os quais eles pastoreavam os rebanhos em uma regio povoada
por indivduos kurumba, eles prprios tributrios dos jallube. Contra estes lti-
mos, os djelgobe revoltaram-se e, final e possivelmente contando com o apoio
do Yatenga, livraram-se da sua dominao. Simultaneamente, eles abalaram a
tutela dos autctones dirigidos pela aristocracia dos konf, sob a gide do ayo
(rei) do Lurum (Louroum) sediado em Mengao, fundando os principados de
Djibo e Barbulle. No Liptako, os fulbes ferobe, tambm provenientes do Macina,
instalaram-se em Weendu sob o comando de Birmali Sala Pat, na dependncia
dos gulmanceba de Koala, at aproximadamente 1810.
    A vitria da jihad em Sokoto foi  ocasio considerada por estes fulbes
como um assunto islmico e fulbe. Ela lhes inspirou um levante etno-religioso
contra os seus mestres gulmanceba, devotos da religio tradicional39. Brahima
Sadou Diandikko enviou ento uma delegao a Sokoto para solicitar ao xeque
`Uthmn a sua beno. Ele traria um estandarte, legitimando a luta contra os
gulmanceba. As artimanhas e exaes dos senhores gulmanceba permitiram, na
ocasio, a ao dos fulbes: gestantes mortas, leite derramado ou bebido por ces,
mulher fulbe amarrada e com a cabea raspada, confisco das heranas; tudo isso
depunha contra o isl e a "via fulbe".



39   H. Diallo, 1979, pp. 97 e seguintes.
792                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Brahima Sadou, o jooro (chefe local) de Weendu, designado pelo chefe
gulmance de Kaola, tornou-se amiiru (emir) e lanou uma jihad que se desdo-
brou no recuo dos gulmanceba para o Sul, embora deixando amplas zonas de
povoamento misto.
    Entretanto, os outros cls fulbe (torodbe e kamba [akamba]) contestaram
o crescente poder de Brahima Sadou. Por conseguinte, eles enviaram uma
delegao a Dan Fodio, quem lhes respondeu ser "de maior valia deixar o poder
quele a quem Deus o havia destinado", perguntando-lhes todavia por que,
apesar da sua autoridade neste meio "pago", comparativamente aos ferobe,
eles no haviam declarado a jihad40. A influncia poltico-religiosa de Sokoto
sempre manteve a nova dinastia e interveio quando necessrio, como em 1890,
para apartar candidatos rivais do emirado. Em contrapartida, o emir de Dori
ofereceu relativamente pouco a Sokoto: ele no lhe trouxe ajuda militar e, no
tocante ao tributo anual em espcie (gros, gado, escravos, tecidos), foi frequen-
temente impossvel encaminh-lo, em razo da falta de segurana das estradas,
sobretudo quando, aps a diviso do imprio, Dori dependeu do Gwandu. Efe-
tivamente, o Kebbi rebelde, posteriormente o Arewa e os zamberma formavam
uma temida cortina. A jihad do Macina, em contrrio, no produziu um impacto
relevante sobre as chefaturas de Djibo e Barbulle. Nestas regies, as influncias
das religies tradicionais persistiram, ao passo que, malgrado o tributo pago a
Hamdallahi at 1858, Djibo e Barbulle no se consideravam dependentes do
Macina41, talvez em razo deste ltimo no possuir nenhum representante in
loco. Havia autonomia, ao menos de fato. Portanto, o tributo representava um
ato de deferncia, visando igualmente e sem dvida prevenir uma eventual
pretenso de conquista. No Macina, contrariamente, ele constitua indubitavel-
mente a materializao de um controle que se pretendia fortalecer. A ocasio
surgiu em 185842, aquando de uma querela sucessria em Barbulle. Um corpo
de interveno foi enviado por Hamdallahi, sob o comando de Alhajji Modi.
Este ltimo esmagou as foras finalmente reconciliadas de Djibo, Barbulle e
Tongomayel. O Yatenga e o Datenga, inquietos, responderam ao chamado de
Djelgodji. Reunidos em Pob Mengao, eles impuseram uma derrota cabal aos
macinankobe. Estes ltimos retornaram fortemente com Balobbo. Ora, neste
nterim, as exaes e pretenses dos vencedores mossi haviam sido de tal ordem



40    Ibid., p. 107.
41    Ibid., p. 118.
42    A. Hampat B e J. Daget, 1962; M. Izard, 1970, tomo 2, 1970, pp. 334 e seguintes.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                   793



que os fulbes rebelaram-se, massacraram os mossi e estreitaram os seus laos
com o Macina.
    Na realidade, em Djibo, a exemplo de Barbulle, muitas famlias disputavam
arduamente o poder entre si e, em razo disso, eram levadas a apoiarem-se sobre
o Yatenga quando os rivais estavam prximos do Macina. Cabe acrescentar,
neste contexto, as lutas intestinas entre as chefaturas e a surda resistncia dos
autctones de Kurumba, o qual, sob o principado de Aribinda, tornou-se, ao
final do sculo, um perigo suficientemente importante a ponto de provocar a
coalizo entre Djelgodji e Liptako.
    Seria igualmente necessrio contar com os tuaregues. Desde 1804, os tua-
regues oudalan se haviam instalado na regio que levava o seu nome, extor-
quindo um tributo dos gulmanceba e dos Songhai. Sori Hamma (1832-1861)
e, posteriormente, Bokar Sori (1890-1892), foram por eles batidos e levados
a fortificarem Dori com muralhas. Efetivamente, a consolidao do Imprio
do Macina expulsara os tuaregues para o Leste, onde eles se estabeleceriam ao
longo do rio Bli.
    A organizao poltica do Liptako integrava nas suas prprias estruturas a
vontade de equilbrio entre os cls. Com efeito, o poder transmitiu-se na des-
cendncia linear patriarcal de Sadou, pai de Brahima, aquele que dirigiu a jihad.
Porm, os ferobe finalmente decidiram ou aceitaram que os seus antagonistas,
os torodbe, constitussem o colgio eleitoral para designar o emir. Este colgio
pronunciava-se, aps efetuar levantamentos, sobre as qualidades pessoais (jus-
tia, piedade), os servios prestados, a importncia dos laos matrimoniais etc.,
do candidato a emir. Mediante esta participao, os torodbe, embora excludos
do poder, exerciam uma espcie de arbitragem entre os pretendentes ferobe,
integrando-se deste modo ao sistema43.
    O pretenso emir era submetido a uma entrevista e devia responder a questes
capciosas. Em seguida, animais eram sacrificados para os gnios e para uma
serpente fetiche. Procedia-se posteriormente  confeco de um novo tambor
tradicional, integrado aos atributos do poder segundo o conselho de Sokoto44.
Coberto com o turbante por um dos torodbe, perante o im e o kd e em frente
ao estandarte, o novo emir jurava respeitar os costumes e princpios do isl e
garantir a felicidade do seu povo. Havia neste contexto um ritual de revitalizao
poltico-ideolgica de dimenses csmicas, objetivando a conciliao com as
foras sobrenaturais de toda ordem. As autoridades religiosas eram constitudas

43   H. Diallo, 1979, pp. 155 e seguintes.
44   Ibid., p. 161.
794                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



pelo kd de Dori e investidas do poder judicirio, na qualidade de tribunal de
ltima instncia. Por outro lado, uma rede de imames das localidades era coroada
pelo grande im de Dori.
    O poder local era organizado para tambm associar os mais antigos cls
fulbes, os quais no podiam pretender ao emirado; na realidade, era junto aos
chefes de famlia das mais antigas linhagens que se escolhia os jooro (chefes
locais). Em Djelgodji, apresentava-se o mesmo sistema de integrao dos cls:
o chefe era escolhido por um colgio eleitoral composto por notveis ancios
da linhagem dos sadaabe, os quais dominavam o interior do pas  chegada
dos djelgobe, nicos pretendentes  chefatura. Esta ltima foi inclusive de fato
monopolizada pela famlia de Nyorgo. A insgnia principesca era um basto
(simbolizando o pastoreio) adornado com gneros agrcolas. Aqui, igualmente,
sacrifcios realizados pelos autctones kurumba garantiriam a prosperidade
material do reino.

      Os reinos bambara de Sgou e do Kaarta
    Aps terem atingido o seu auge durante o sculo XVIII, estes reinos sobre-
viveram marcados pelos aspectos mais negativos da sua poltica: ajudas conside-
radas como atos de bravura; incurses sem esforo de organizao; assim como
guerras fratricidas entre si e no interior de cada um dentre eles. Na realidade,
os massassi do Kaarta, de linhagem real, consideravam os mestres de Sgou, ao
menos a partir dos sucessores de Denkoro, filho de Biton Kulibali, como chefes
militares escravos, profissionais da guerra. Na ocasio, o reino de Sgou era
mais povoado e mais forte. Os reis de Sgou detestavam os massassi, os quais
cordialmente os desprezavam. De onde derivam estes persistentes assaltos de
Sgou contra o Kaarta, geralmente batido, porm jamais conquistado45.
    Este perodo foi igualmente marcado pela crescente importncia adquirida
pelos tonjon (libertos tornados guerreiros) que abusavam da sua fora. Assim
sendo, ao longo de uma guerra promovida por Toukoro Mari (1854-1856)
contra o seu irmo Kgu Mari, em Massala, os tonjon mobilizados pelos dois
irmos decidiram atirar a esmo46. Percebendo no existirem feridos em meio aos
invasores e tampouco junto aos sitiados, Toukoro espantou-se. Foi ento que
um tonjon declarou-lhe sem delongas: "Ns estamos fartos das vossas guerras
fratricidas.  preciso que elas cessem!" E esta guerra cessou.


45    L. Tauxier, 1942, p. 143.
46    Ibid., p. 99
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                          795




figura 25.7 Tipos de casa bambara, 1887. [Fonte: L. G. Binger, Du Niger au golfe de Guine, 1982, vol. I,
p. 17, Hachette, Paris. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho Administrativo da Biblioteca
da Universidade de Cambridge.]



   No reino de Sgou, Monzon Jara (1787-1808) distinguiu-se por campanhas
contra o Kaarta e o Macina e igualmente contra os dogon e os mossi. O seu
sucessor, Da Jara (1808-1827), foi derrotado por Seku Ahmadu do Macina,
durante a tentativa de socorrer o seu prprio vassalo, o ardo Dikko, fulbe no
muulmano. Ele ento compreendeu que o principal inimigo no era o reino
"irmo" do Kaarta. Da Jara era um homem feroz e prfido47. O seu sucessor,
Cefolo (1827-1839), cometeu o erro de capturar um peregrino pouco ordinrio
vindo da Meca; tratava-se de al-Hadjdj `Umar, quem jamais esqueceria esta
humilhao mesmo aps ter sido libertado mediante a insistncia de notveis
muulmanos dentre os quais o tucolor Ceerno `Abdul.




47   A este respeito, vale lembrar o episdio de Mama Dyetoura, "o mais belo dos homens", segundo a
     apreciao das mulheres de Da Monzon, quem, mortalmente enciumado, lograria elimin-lo em uma
     cilada. Conferir C. Monteil, 1977, pp. 92 e seguintes.
796                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Os anos de anarquia posteriores ao reino de Cefolo foram marcados pela
lendria figura e pica de Bakari Dyan, chefe dos deferobe (fulbes libertos para
servirem ao Estado, porm no exclusivamente fulbes, longe disso). Bakari Dyan
no somente resistiria vitoriosamente aos ataques provenientes do Macina,
inclusive matando o temido Blissi, mas, inclusive, tomaria numerosas localida-
des, para a grande alegria dos habitantes de Sgou.
    Sucedeu-lhe uma srie de reis insignificantes at `Al Monzon Jara, quem
seria vencido e morto por al-Hadjdj `Umar. A resistncia bambara continuaria
todavia sob os chefes eleitos, a partir da margem direita do Bani.
    O reino do Kaarta era obrigado a mover-se entre as bacias do Senegal e do
Nger. Ao passo que Desse Koro, no incio do sculo, tirou proveito dos distr-
bios de Sgou para amparar-se de Nyamina; Moussa Koura Bo, o seu sucessor,
aliou-se ao Bundu contra o `Abd al-Kdir do Futa Toro, quem seria vencido e
morto em 1807. Porm, ele igualmente operou contra os kagoro do Beledugu
e o Mande. Sob Bodian Moriba le Grand (1815-1838), aconteceu a aliana
com o Alto-Galam contra o almaami do Bundu, ligado ao Xaso. Os kaartanke
alcanaram uma vitria decisiva em 1818, enquanto o filho de Moriba devastava
o Fuladuu (regio de Kita).
    Perante o expansionismo fulbe e tucolor, Naniemiba (1839-1841) e Kirango
B (1841-1844), de Sgou, finalmente negociaram a reconciliao com Nyaralen
Gran (1832-1843) e Mamadu Kandyan (1843-1854), os quais lutavam contra
os jawara (Diawara). Demasiado tarde, eles seriam todos varridos - aqui incluso
o adversrio fulbe do Macina - pela jihad de al-Hadjdj `Umar.
    Assim sendo, no centro e no Norte das regies concernidas pelo presente
captulo, vrios conjuntos polticos degradaram-se a um ritmo acelerado no curso
do sculo XIX, por vezes em proveito de novas hegemonias, particularmente
aquelas produzidas pelas jihad. Estes ltimos tiraram proveito da decomposio
interna dos poderes estabelecidos para implantarem-se antes de serem rejeitados,
a seu turno, por foras estrangeiras diferentemente temidas.
    Como sempre, a explicao para tamanho declnio no poderia ser unvoca,
por exemplo, sugerindo exclusivamente a existncia de influncias externas e
uma espcie de predestinao para a colonizao.
    Certamente, no tocante aos reinos e aos povos de regime no centralizado,
processos em curso h muito tempo haviam atingido o limiar da ruptura, tanto
no plano interno quanto do ponto de vista dos impactos externos.
    Sucessivamente, na realidade, os reinos mossi, bambara e juula haviam
ensaiado garantir um espao que inclua, a um s tempo, as margens do deserto
e as bordas da floresta. Embora nenhum deles tenha persistido de forma durvel
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                   797



nesta regio, cada um dentre eles viu coincidir o seu apogeu com o mximo da
sua extenso, a Norte e Sul, conquanto o imprio bambara de Sgou agregasse
sobremaneira ao seu ncleo o eixo oeste-leste do vale do Nger. No entanto,
com o sculo XIX, a instabilidade poltica e os deslocamentos populacionais
prevaleceram. Os brutais extermnios e os fenmenos secessionistas provinham
justamente daqueles que supostamente deveriam constituir os fundamentos
do poder, como os tonjon de Sgou ou os ministros da corte de Uagadugu.
Malgrado algumas brilhantes excees, o ritmo e a amplitude dos conflitos se
acentuaram. Esta tendncia para o deslocamento estava indubitavelmente ligada
 circunstncia, em funo da qual, com progressiva facilidade, os poderes peri-
fricos e rebeldes podiam adquirir armas e, por conseguinte, desafiar os chefes
reinantes.
    Por outro lado, os cativos, dos quais estes reinos necessitavam, na qualidade
de moeda de troca para comprarem os gneros raros ou equipamentos de guerra,
eram capturados a um ritmo cada vez menos compatvel com a sobrevivncia
destas sociedades, inclusive e sobretudo quando eles eram arrancados de povos
submetidos  tributao; pois esta ao esgotava as reservas dos poderes domi-
nantes. No entanto, em consequncia de uma decalagem normal, as decises
europeias, referentes  abolio do trfico, no impediriam este ltimo de atingir
o seu paroxismo, durante o sculo XIX, em numerosos pases do Arco do Nger e
da bacia superior dos Voltas. A libertao pelo Estado ou a reintegrao ao nvel
das linhagens, lograram apenas reduzir os efeitos destruidores desta desgraa que
se abateria sobre a regio at o final do sculo XIX. Efetivamente, estes pases,
cuja economia encontrava-se recentemente irrigada pelos "portos do deserto",
estes pontos de chegadas das caravanas, estavam agora cercados e bloqueados,
em razo de estarem separados da costa por outros Estados, no momento em
que o essencial dos fluxos comerciais basculava. Portanto, eles no podiam seno
declinar lentamente, porm inexoravelmente.
    Nestas condies, como frequentemente acontece nos perodos de crise, as
clivagens sociais agravaram-se, transformando as estruturas mais igualitrias que,
at bem pouco, haviam marcado as sociedades do Sahel, em sua fase ascendente.
A isso se acrescentava a evoluo dos movimentos religiosos que, tolerantes em
relao aos cultos tradicionais durante os sculos precedentes, transformaram-se
sob a influncia do rigorismo veiculado pelas jihad, os quais triunfaram em Lip-
tako e varreram os Estados bambara. Embora os yarse do pas mossi, at ento
muito flexveis nos planos religioso e poltico, tivessem comeado a endurecer
as suas posies e fazer proselitismo. Mas os Estados muulmanos sucessores
seriam, eles prprios, efmeros, pois que estavam dominados pelas mesmas
798                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



condies objetivas que desde ento condenavam ao fracasso o desenvolvimento
autnomo dos Estados africanos.
   Todavia, no esqueamos que, sob a casca dos aparelhos de Estado que,
durante este perodo foram enfraquecidos ou deslocados, numerosos povos
prosseguiram, em razo das punes das quais foram vtimas e por vezes
atravs de dramticas migraes, por uma via tenaz de produo econmica
e reproduo social. Esta evoluo relembra-nos que, alm dos sobressaltos
endgenos ou provocados por foras externas, os grupos bsicos estavam dis-
tantes do esgotamento, estado de coisas confirmado pela sua notvel capa-
cidade em superarem os maiores desafios, notadamente aquele representado
pela intruso colonial.


      Tenses socioeconmicas
      Produo e comrcio
    Durante este perodo, muito mais que atualmente, a base da atividade eco-
nmica era a agricultura. Na falta de estatsticas, pode-se dizer sem incorrer
em erro que 99% da populao desta regio estava empregada nesta atividade,
particularmente os povos sedentrios e autctones. A pequena minoria, alm
dos artesos, que se dedicava ao comrcio, era sobretudo composta de grupos
originrios dos povos mercadores ou atrados pela conquista, eventualmente
combinando estes dois perfis, a exemplo dos juula (dioula). A ttulo de esquema
geral,  possvel dizer que, entre os pases costeiros compradores essencialmente
de escravos, de ouro e fornecedores de produtos europeus, por um lado, e o Sahel,
consumidor de noz-de-cola, das suas armas e exportador sobretudo de sal, de
gado e de escravos, por outra parte, havia zonas intermedirias de savana que
vendiam, igualmente elas, escravos e gado (asnos para o comrcio, cavalos para
a guerra e para as cortes principescas), alm de cereais e ouro.
    Aps a abolio da escravatura pela Inglaterra em 1807, um desequilbrio
estrutural ocorreu neste esquema, sobretudo no Sul, onde os controles foram os
mais estritos e precoces, embora a escravatura domstica fosse tolerada48. Assim
sendo, durante a segunda metade do sculo XIX, sobretudo no Arco do Nger,
a escravatura conheceu um enorme crescimento: como as armas eram vendidas
a preos crescentes, era necessrio em troca fornecer cada vez mais escravos.


48    A. A. Boahen, 1974, p. 179.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                    799



Compreendem-se as razes pelas quais grupos inteiros, como os zamberna, se
tenham especializado nesta indstria de extrao do "minrio negro". Porm, os
principais fornecedores no eram somente as grandes jihad dos lderes muul-
manos do Norte, nem tampouco os conflitos dos mogho naaba. O complexo
escravista era alimentado por uma enormidade de canais coletores baseados
nos povos, nas centenas de chefaturas, desde os territrios dos tuaregues at as
proximidades das casas comerciais estabelecidas na costa. Durante os ltimos
decnios do sculo XIX, praticamente jamais houve poca de paz em qualquer
regio, isso equivale a dizer que sempre houve cativos. As vtimas eram essen-
cialmente as comunidades agrcolas sedentrias, verdadeiros viveiros para o
trfico. De onde derivavam as zonas de subpovoamento por vezes identificadas
em algumas regies literalmente sangradas. Os tributos pagos com cativos eram
frequentemente muito pesados. E quando os autctones se organizavam para se
defenderem, no se hesitava em recorrer a eles como mercenrios, para travar a
guerra em outros setores; tal foi o caso de alguns gurunsi recrutados na horda dos
zamberma e dos samo (sanan), engajados nas guerras dinsticas do Yatenga.

    Os circuitos comerciais
    No Sul da regio considerada, como vimos, o Ashanti lutou desesperada-
mente para controlar as casas comerciais instaladas na faixa litornea, verdadei-
ros bales de oxignio para a sua sobrevivncia, as quais lhe proporcionavam o
domnio nas duas extremidades da cadeia comercial. Pois que a supresso do
trfico, responsvel por nove dcimos do total de exportaes da Costa do Ouro
no incio do sculo, introduziu abruptamente uma mutao econmica. Desde
1840, o principal item de exportao da costa oriental fora o leo de palma, espe-
cialmente graas  poltica de Maclean. A exportao de borracha comeou entre
os anos 1870 e 1880 e, juntamente com o leo de palma, lanaria as bases para
a transformao das estruturas econmicas na regio sul da Costa do Ouro.
    Enquanto o ouro ashanti e voltaico dirigia-se sobretudo para o Sul, a noz-de-
-cola destinava-se para o Norte. Entretanto, as rotas do Oeste, atravs de Kong
e Buna, cedem progressivamente quelas do Nordeste, atravs do pas dagomba
e haussa, como testemunha Thomas Bowdich. O comrcio do Norte foi ativado,
em suplemento, pela supresso do trfico costeiro, pelo fechamento espordico
das rotas para o pas fanti e pela estabilidade poltica do Borno aps a jihad
de `Uthmn dan Fodio. Assim sendo, os produtos de luxo europeus chegavam
atravs da frica do Norte, do Fezzn e de Trpoli ou at mesmo pela costa do
Daom alcanando Kano e, a partir deste ponto, eram encaminhados para o
800                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



Arco do Nger. As sedas e tapetes da Turquia e de Trpoli, o natro de Borno e
as vestimentas haussas eram assim trocados pela noz-de-cola e pelo ouro, pelos
tecidos em algodo do Dagomba, do Mossi e do Mande, pela manteiga de carit,
bem como pelo gado do Sahel sudans.
    De onde derivou, nesta poca, a expanso fulgurante de Salaga49. Este centro
substituiu ento Gbuipe, no Gonja. De Salaga ia-se rumo a Yendi, Sansanne-
-Mango e, deste ponto, em direo aos pases voltaicos, haussa ou iorub. Salaga,
diz-nos Dupuis, possua o dobro do tamanho de Kumashi, com uma populao
de 400.000 almas. Este desenvolvimento prosseguiria at a queda do poder
ashanti, quando as rotas seriam desviadas em direo a Kintampo. Nas tran-
saes, geralmente prevalecia o escambo, mas igualmente o ouro em p era
empregado nas trocas mais importantes, assim como os cauris que Maclean
legalizou na regio costeira. J. B. Kietegha descobriu em Logofiela reservas de
cauris vizinhas a fragmentos de jarros, os quais seria possvel reconstituir assim
como exumar a partir dos bancos de areia da regio de Pura50.
    Alm do ouro ashanti e lobi, a margem esquerda do alto-Volta Negro conhe-
ceu, sobretudo no sculo XIX, uma notvel concentrao de pioneiros de diver-
sas origens: Dyan, Dagara, Bobo-Juula (Dioula), Bwaba e Mossi, alm dos
gurunsi autctones. A explorao realizava-se com a ajuda de instrumentos
rudimentares (alvies, picaretas, jarros, cabaas e gamelas). A diviso do trabalho
reservava aos homens, exclusivamente, a prospeco, a escavao e a moagem
do quartzo, alm de serem eles os nicos que podiam "ver o ouro e mat-lo", ao
passo que, s mulheres, cabiam o transporte e a lavagem do mineral. Ao final do
sculo, a proporo de escravos nestas comunidades era considervel (sessenta
por famlia de Pura)51.  notvel aqui tratar-se de uma explorao familiar ou
individual, no ligada a um Estado centralizado. A invaso dos zamberma em
vrias localidades do setor aurfero conduziu os camponeses a esconderem os
seus instrumentos nas colinas e a se colocarem em p de guerra; os homens cap-
turados eram vendidos por 100.000 cauris e as mulheres pelo dobro deste valor.
Com efeito, e em certa medida, havia contradies entre a produo de ouro
e a caa aos escravos. Todavia, os grupos armados evidentemente preferiam os



49    K. Arhin, 1979, captulo III.
50    Os pequenos cauris, preferidos em relao aos grandes, eram trocados contra estes ltimos  razo de
      10.000 por 11.000. De onde derivam as operaes dos cambistas que nelas ganhavam 10%; conferir
      L.G. Binger, 1892, citado por J. B. Kietegha, 1983, p. 185.
51    J. B. Kietegha, 1983.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                        801




figura 25.8 Um mercador ambulante mossi, 1888. [Fonte: L. G. Binger, Du Niger au golfe de Guine, 1892,
vol. 1, Hachette, Paris. Ilustrao reproduzida com a autorizao da Biblioteca Nacional, Paris.]
802                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880
figura 25.9   Mapa de Kintampo, cidade comercial do interior da Costa do Ouro. (segundo L. G. Binger,
1892).
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                       803




Figura 25.10    Salaga em 1888.



escravos, os quais rendiam muito mais52, alm de igualmente serem utilizados no
garimpo. Na primeira metade do sculo XIX, a produo anual de ouro atingia
possivelmente 50 kg, somente na regio de Pura53.
    Enquanto este ouro seguia sobretudo em direo ao Saara e ao Marrocos,
o ouro do Lobi rumava para a Costa do Ouro ou para a Libria. Este ouro era
parcialmente entesourado sob a forma de p ou pepitas, em cilindros de bambu
ou peas de tecido, escondido nos stos ou enterrado em potes cermicos.
Ele era transportado pelas rotas comerciais locais e regionais, quer seja rumo
a Bobo, San, Djene e Mopti ou para Kong e o Ashanti, quer seja para Gaoua
(Lobi) ou Salaga, passando por Wessa e Wa, ou ainda rumo a Uagadugu, e de
l para Puytenga, Tenkodogo e Salaga. Nas trocas locais, ele servia para comprar
o sal, a noz-de-cola, os bubus, os escravos e os gros. Segundo L. G. Binger, o
sal em barras do deserto, era excepcionalmente mais estimado; ele chegava de
Taoudeni por Tombouctou, Mopti, Djene, Bla e San, de onde era disseminado
no Sahel e na savana. Igualmente ocorria em relao ao sal vindo por Adrr e


52   A venda de escravos teria proporcionado aos negreiros um ganho 90 vezes maior que o ouro, segundo
     V. Kachinsky, 1935, p. 192, citado por J. B. Kietegha, 1983, p. 155.
53   J. Sagatzky, 23 de julho de 1940, folha 5.
804                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



Tichitt com destino a Sgou. O sal marinho da costa e o sal em p de Daboya
eram direcionados at Kong. No Sahel voltaico, os chefes de Djibo tinham um
meio astucioso para acumular os escravos. Se um escravo matasse algum e fosse
confidenciar-se junto ao chefe, ele seria absolvido e passaria a ser escravo deste
ltimo; em caso de roubo, se o ladro fosse rico, o chefe apropriar-se-ia da sua
riqueza54. Ao final do sculo, havia 50.000 cativos para cada 50.000 homens
livres em Dori. No entanto, em sua passagem pela regio, aproximadamente
no ano 1853, Heinrich Barth, sempre to preciso e perspicaz, no se refere
a escravos. No entanto, na segunda metade do sculo houve um considervel
crescimento do trfico negreiro nesta regio.
    A concentrao de estradas em torno de Dori oferece uma ideia da abertura
do Sahel para todos os horizontes. Como a legislao do Imprio do Macina era
muito dura em Tombouctou (pesadas taxas, interdio do tabaco), os mercadores
desviaram as rotas para Gao, controlado pelos mouros e tuaregues, numerosos
em Dori. Enquanto a rota de Kayes at Dori, passando por Bamako e Bandia-
gara, era controlada pelos juula (dioula), aquela ligando Sokoto a Dori, passando
por Sansann-Mango, era dominada pelos haussas. Aquelas de Ouahigouya at
Dori, passando por Yako e Kaya, ou de Uagadugu a Dori, passando por Zitenga
e Puytenga, estas eram praticadas pelos mossi. Importavam-se para Dori o
tabaco, esteiras, gado, o sal do Norte, produtos fornecidos em troca de faixas de
algodo, turbantes haussas e produtos manufaturados europeus. Do pas haussa
vinham as cangas e os bubus, trocados pelo gado e pelo sal. Do Mossi provinham
escravos, faixas de tecido, cobre trabalhado e asnos, os quais eram trocados por
noz-de-cola do Ashanti, sal e gado. Dos pases juula (dioula) chegavam estopas
da Guin e quinquilharias trocadas por sal e gado. Em Djibo, onde abundavam
comerciantes yars oriundos de Ouahigouya, prevalecia o escambo, ao passo
que os cauris eram utilizados em Dori. Nesta cidade, os comerciantes estavam
associados, em virtude da sua prpria profisso, aos cls aristocrticos, aos quais
eles eventualmente se associavam atravs de casamentos; porm, instalados em
bairros exclusivos, eles eram mantidos  margem da poltica.
    Em seu conjunto, embora marginal relativamente ao conjunto da economia, a
atividade dos mercadores teve um notvel impacto qualitativo na vida de todos.
Para convencermo-nos deste estado de coisas, basta relembrar a importncia de
localidades intermedirias, tais como Begho, Kafaba, Kintampo, Atebibi, nas
quais sociedades pluri-tnicas rapidamente foram constitudas. Para Salaga,


54    H. Diallo, 1979, p. 169.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                             805



afluam os gonja, juula (dioula), haussas, dagdon, ashanti, fulbes, iorubs, dendi,
bornouan, bariba, kulango, gurunsi etc.55. Tratava-se de um verdadeiro microcos-
mos onde, comparativamente  sociedade autctone mais homognea, a diviso
do trabalho era mais intensa, com proprietrios, locatrios, intermediadores e
diversos artesos56.

     Tenses sociais
    As tenses sociais eram normais em perodos de reviravoltas. Tal foi o caso
dos pases do Arco do Nger e da bacia do Volta, no sculo XIX. Porm, em
que pese a raridade de documentos sob este aspecto do processo histrico, apa-
rentemente, abalos sociais afetaram muito mais os Estados centralizados que as
sociedades fundadas com maior nfase na auto-gesto, atingindo sobremaneira
as regies costeiras, comparativamente s zonas interioranas, e incidindo muito
mais sobre as regies islamizadas se confrontadas com as demais. Com efeito,
as sociedades sedentrias com poder no centralizado, embora se apresentassem
como as mais marcadas pelas convulses da poca, refugiavam-se na fidelidade
ao seu cdigo de vida tradicional, como antdoto para a agudez dos desafios.
    A condio dos escravos e homens de casta era bem mais grave nos Esta-
dos centralizados. A mais radical reviravolta, indubitavelmente, foi aquela dos
agrupamentos fulbes que, de nmades e assujeitados nos Gulmanceba, alguns
anos aps a jihad, transformaram-se em senhores dominantes perante popu-
laes autctones ou reduzidas ao estatuto de plebeus, cativos e servos (bellah
ou riimaaybe), fadados aos trabalhos agrcolas e ao pastoreio. Neste contexto,
acrescentam-se os artesos e gris. Sociedade minuciosamente estratificada onde
cada um possua e reconhecia o seu posto. Alm da quinta parte recolhida sobre
o butim das invases57, o emir do Liptako recebia doaes e cobrava um tributo
sobre as colheitas batizado zakt. Os chefes de Djibo igualmente recebiam
presentes por ocasio das "saudaes" e recolhiam o imposto sobre o sal junto
aos comerciantes. Os aristocratas estavam por vezes rodeados de centenas de
dependentes. Conquanto a sorte dos escravos melhorasse com a ancianidade (os
riimaaybe podiam tornar-se proprietrios), a condio dos cativos criaria pro-
blemas no Liptako. O prprio Dan Fodio recomendou ao emir a libertao dos
escravos que tivessem participado dos combates contra os gulmanceba. Por outro


55   L. G. Binger citado em M. Johnson, sem datao, SAL/19/1.
56   K. Arhin, 1979, captulo III.
57   Segundo a estrita ortodoxia, era o kdi quem deveria receb-lo; conferir H. Diallo, 1979, p. 274.
806                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



lado, em 1861, o emir Seeku Saalu foi obrigado a enfrentar uma insurreio
servil, estimulada pelo marabuto `Abdul-Kaadiri, cuja inteno era amparar-se
do poder. O emir no poderia livrar-se desta situao seno determinando a
concesso das libertaes.
   Quanto aos artesos, excludos dos direitos pertinentes aos homens livres e
nobres, eles foram reduzidos  endogamia. Enquanto um nobre podia casar-se
com garotas escravas, o arteso no podia esposar a filha de um ferreiro58. E, no
entanto,  imagem do gri, que atravs da magia do verbo consolidava o poder
e tambm dele participava muito marginalmente, o ferreiro era temido em
razo do carter mgico da sua profisso. Este ltimo igualmente exercia funo
similar quela de um mediador, nos conflitos entre indivduos e famlias. Neste
contexto no faltariam temas criadores de tenses59.
   No reino mossi de Uagadugu, transformava-se escravos em eunucos em
nmero suficiente para permitir a sua exportao em direo ao Norte. No
tocante ao Ashanti, a massa de rebanhos humanos obtida atravs da tribu-
tao era tamanha que, quando o trfico foi abolido, o ashantihene declarou
ser-lhe impossvel alimentar os 20.000 cativos que ele detinha, acrescentando:
"Salvo matando-os ou vendendo-os, eles se multiplicaro e mataro os meus
sujeitos60."
   No entanto, as relaes sociais entre os escravos e os seus proprietrios, apa-
rentemente, foram menos conflituosas nas sociedades sem poder centralizado.
H informaes, segundo as quais, em uma localidade de Pura, os escravos eram
alimentados "como todo mundo".
   M. Pre diz-nos que, no pas lobi, cada subcl matriarcal era dividido
em dois grupos: os weya de nascimento autntico e os dea de origem cativa.
Acrescentavam-se os indivduos adotados em razo de serem fugitivos de uma
grande fome ou de uma invaso; eles teriam sido encontrados pela manh em
frente  porta. Entretanto, tanto uns quanto os outros estavam intimamente
integrados na estrutura social, na qualidade de fora produtiva e reprodutiva.
A este ttulo, o escravo vivia na mesma habitao do seu mestre, a quem cha-


58    Tal era a situao no Yatenga at meados do sculo XX.
59    Foi reportado que caso fosse ordenado ao chefe da localidade para que ele trouxesse um cavalo e ele
      o pegasse de um ferreiro, todos os ferreiros do Liptako se reuniam. Eles pegavam as suas bigornas e
      vinham coloc-las diante do amiiru. Eles lhe diziam: "O pas te pertence, mas as nossas ferraduras nos
      pertencem. Ns no fabricaremos nem enxada, nem enxado, nem lana. Caso as pessoas queiram que
      elas no mais cultivem". Ao final o amiiru entendia-se com eles, enviava-lhes o cavalo e eles voltavam
      para a sua morada. (H. Diallo, 1979, p. 186).
60    J. Dupuis citado por A. A. Boahen, 1974, p. 179.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                   807



mava "meu pai"; ele participava do mesmo grupo de parentes que o seu mestre,
estava sujeito aos mesmos rituais e proibies, a trabalhos idnticos, dele rece-
bia uma mulher, possua um campo e podia fazer frutificarem os seus cauris,
at novamente comprar ou comprar outro homem para substitu-lo61. Aqui se
manifestava uma vontade de utilizao da escravatura como um processo de
fortalecimento dos grupos clnicos ou territoriais.
    Outros tipos de tenso acentuaram-se nos Estados centralizados desta poca;
trata-se dos conflitos entre os senhores ou nobres e o soberano, tanto no Ashanti
quanto nos reinos bambaras, no yatenga e no reino de Uagadugu ou no Gwiriko.
No reino de Ouadagoudou, por exemplo, Mogho Naaba Karfo (1842-1849)
decidiu distribuir aos pobres da plebe os bens confiscados dos ricos. Os nobres
bem como os plebeus tinham igual acesso a ele, quando lhe cabia tomar medidas
judiciais.  fortemente provvel que esta poltica social tenha contribudo para a
grande rebelio dos prncipes em seu prprio reino, instigada pelo seu principal
ministro, o widinaaba.
    Finalmente, citemos o caso das regies costeiras, nas quais as dinmicas
comercial e educacional produziam uma estratificao social de gnero qua-
litativamente novo. Na realidade, a partir do momento em que as transaes
no mais repousavam sobre o comrcio de escravos, mas sobre a troca dos
produtos europeus pelo ouro, o marfim, o leo de palma e a borracha, desde
logo uma nova classe comerciante emergia, operando a partir de crditos de
campanha concedidos por companhias europeias, das quais na verdade ela era
representante. Este foi o ponto de partida para o surgimento de numerosos
atacadistas, estabelecidos nas ruas dos centros costeiros. Abaixo deles, um
grande nmero de pequenos recolhedores de impostos, cujo papel consistia
em agilizar os trmites junto a fornecedores que gravitavam e dependiam dos
negociantes62. Era igualmente necessrio contar com os mercadores ashanti,
os akonkofo63, os quais controlavam a oferta de produtos africanos provenientes
do interior.
    Do mesmo modo, no mbito educacional, categorias ou at mesmo classes
sociais instalar-se-iam na costa. No topo da hierarquia, estavam os descendentes
das grandes famlias comerciantes que, como os Bannerman da Costa do Ouro,
haviam sido, desde o comeo do sculo, educados na Europa ou no Fourah
Bay College (Serra Leoa), fundado em 1827. Eles se faziam passar por "gen

61   M. Pre, 1982, pp. 214 e seguintes.
62   B. Cruickshank, 1853, vol. II, pp. 30-94.
63   I. Wilks, 1975, pp. 699-705.
808                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



tlemen ingleses" e se comportavam como tais. Aceitos no meio europeu, se lhes
eram atribudas responsabilidades na qualidade de magistrados, comandantes
de fortificaes etc. Na outra extremidade, havia um vasto grupo de indivduos
sumariamente instrudos, ironicamente chamados "os eruditos de Cape Coast".
Empregados como secretrios, mal pagos ou desempregados, eles se resignavam
a percorrer a selva como representantes dos negociantes ingleses ou africanos.
Eram tratados com desprezo, como caricaturas da civilizao inglesa, como
parasitas vivendo sobre as costas dos chefes no letrados e dos seus povos. Entre
os dois encontravam-se os africanos que, sem terem levado muito adiante os
seus estudos, haviam recebido uma razovel formao a ponto de permitir-lhes
atuarem como comerciantes independentes ou gerentes em cidades litorneas64.
Desta forma, estabeleciam-se as bases das ulteriores contradies sociais. Toda-
via, deve-se notar que a Confederao fanti no teria sido possvel sem a coo-
perao desta classe mdia instruda.


      Expanso religiosa
   O sculo XIX foi, nesta regio, um perodo de acelerada progresso do isl,
no Norte e no Centro, e de reimplantao do cristianismo no Sul. Como nunca,
estas duas religies foram ornamentadas pelo prestgio da educao, pelo dom-
nio da escrita e associadas a um universo que ultrapassava sobremaneira o hori-
zonte local.
   Ao Norte da regio, foi a propagao das jihad de eminentes personalidades
(`Uthmn dan Fodio, de Sokoto, Seku Ahmadu, do Macina, e al-Hadjdj `Umar
Tal) que produziu efeitos intensos e durveis, por exemplo, em razo da jihad e
do emirado do Liptako.
   Inclusive os reinos bambara e mossi foram atrados ou influenciados por esse
sobressalto de proselitismo islmico. Com efeito, embora o clich que descreve
os bambaras e os mossi como "muralhas contra a expanso do isl" jamais se
tenha mostrado verdadeiro, esta apreciao pode ser pertinente para o sculo
XIX, durante o qual, o isl agiu nestes reinos, simultaneamente, no topo e sobre
todas as camadas do corpo social. Para atermo-nos ao reino de Sgou, no in-
cio do sculo, sob Monzon Jara, a sua me Makoro recorreu aos marabutos de
Sgou Sikoro e Tgou para reconcili-lo com o seu irmo Nyanakoro Da. O
seu sucessor, Monzon Jara, solicitou a um sbio marabuto dos seus amigos um

64    P. Foster, 1965, pp. 68-69.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                 809



talism de vitria. Torokoro Mari (1854-1856) confiou a educao de um dos
seus filhos a al-Hadjdj `Umar.  verdade que os sofa (guerreiros do monarca)
o abandonaram em razo disso, assassinando-o por afogamento e declarando
ao seu sucessor: "Ns eliminamos o teu irmo porque ele pretendia nos forar
a tornamo-nos muulmanos e porque ele desperdiava os bens do Estado, em
presentes aos marabutos65." Nos reinos mossi, os nicos muulmanos at ento
eram os yarse. A partir do sculo XIX, os mogho naaba aderiram abertamente 
f islmica, criando eles prprios centros de proselitismo.
    Naaba Dulugu de Uagadugu construiu uma mesquita e transformou o im
em um importante personagem da corte. Entretanto, talvez para evitar uma
mudana demasiado brutal, ele afastou o seu filho, o futuro Naaba Sawadogo, e
destituiu Pwanda, chefe de Kombissiri. Estes dois adeptos inclusive recolheram-
-se em Basan-Warga dela fazendo uma base religiosa. Quando Naaba Sawadogo
tomou o poder, ele restabeleceu a chefatura de Kombissiri, a qual se tornou,
por sua vez, um centro da religio, alm de enviar o seu prprio filho  escola
cornica de Sarabatenga Yarse.
    Sob Naaba Karfo, o rebelde Naaba Wobgho de Lalle encontraria o im de
Uagadugu, para solicitar-lhe que intercedesse em seu favor junto ao rei. Ao final
das contas, Naaba Kutu recebera uma verdadeira educao cornica. Renunciando
conciliar a sua f com as prticas rituais tradicionais, ele confiou estas ltimas aos
seus ministros, procedendo da mesma forma no tocante  justia fundada nos
costumes. Ele construiu uma mesquita na porta oriental (utilizada pelas mulheres
e pelos cativos) do palcio, satisfez as prescries islmicas e enviou um dos seus
filhos  escola cornica. Em contrapartida, Naaba Kutu ajudou Naaba Peogho
de Bulsa (Boulsa) a reprimir um movimento rebelde de inspirao muulmana,
suscitado pelo fulbe Modibo Mamadou, oriundo do Futa-Djalon. Decepcionado
com a atitude do naaba perante os seus apelos favorveis  converso, este per-
sonagem, auto-intitulado wl (santo), no hesitou em provocar uma insurreio
especialmente sustentada por foras yarse, maranse (Songhai) e pelos fulbes. Ele
foi obrigado a fugir e o seus tlib (discpulos) foram massacrados66. A bem da
verdade, a partir do momento em que os mossi engajaram-se em maior nmero
no comrcio, eles no podiam deixar de ser levados  islamizao. Esta ltima
ganhara mpeto h muito tempo no Oeste do Volta e prosseguia sob a gide de
Kong, do Gwiriko, de Bobo-Dioulasso, e por um breve perodo, posteriormente,
de Samori Tour. Este processo expandia-se em regies bwa, san, gurunsi ou lobi,

65   C. Monteil, 1977, p. 100.
66   Consultar G. Chron, 1924, p. 653; J. Withers-Gill, 1924; N. Levtzion, 1968, p. 170.
810                                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 25.11 Uma oficina de carpintaria da misso de Bal, em Christiansborg (Accra). Gravura realizada
segundo um clich original, provavelmente em 1870.



relativamente refratrias, graas a comerciantes juula ou marabutos marka (dafin),
como aqueles de Wahabu e Lanfiera.
    No centro da regio em questo, foi no sculo XIX que o isl tornou-se
a principal religio do Dagomba e do Mamprusi, assim como em Sansanne
Mango. Os imames eram personagens religiosos e polticos. No Ashanti, Osei
Kwane (1777-1801) foi um simpatizante do isl. Seria essa a razo de sua desti-
tuio? Quanto a Osei Bonsu, ele declarava: "O Alcoro  forte, eu o amo, pois
que se trata do livro do Grande Deus." Bowdich indica a existncia de milhares
de muulmanos em Kumashi, sob a batuta de Muhammad al-Ghamba, dito
Baba; tratava-se do filho do im do Mamprusi; ele se valia de ser membro do
Conselho Real. Bem entendido, os comerciantes muulmanos vindos do mundo
rabe afluam para a capital e a cotao dos amuletos, sobretudo aquele do colete
de guerra, preparado pelos marabutos, era elevada67. Certamente, no se deve
superestimar o impacto exercido pelo isl sobre o sistema religioso autctone
do Imprio Ashanti, praticamente identificado com a estrutura poltica. Porm,
esta influncia existia e tinha como particular efeito desviar os prncipes dos



67    Conferir A. A. Boahen, 1974, vol. II, pp. 191 e seguintes.
Estados e povos do Arco do Nger e do Volta                                                     811



missionrios e da religio crist, como igualmente era o caso no Buganda, apro-
ximadamente na mesma poca.
   Conquanto tenha sido introduzido em Tombouctou, pelos padres missio-
nrios brancos, somente ao final do sculo XIX, o cristianismo ressurgiria aps
muito tempo na parte meridional da Costa do Ouro.
   A misso evanglica de Ble e a posterior misso de Brme estabeleceram-
-se, desde 1828, em todo o Sudeste da Costa do Ouro (costa akwapim, Accra,
regio akyem, Ada e nas regies de Keta e Peki, de lngua ewe), na qual eles
implantaram unidades rurais modelo e escolas tcnicas68. Sob a gide de George
Maclean, os missionrios metodistas concentravam os seus esforos na costa
oeste, onde Cape Coast servia-lhes de base. Um homem de grande envergadura,
Thomas Birch Freeman, esforou-se para multiplicar as escolas metodistas nas
regies interioranas, at o pas ashanti, e na regio litornea, alcanando o pas
iorub69.
   Ele estava inspirado pelos ideais da Sociedade para a Abolio do Trfico e
pela Civilizao da frica, cujos objetivos eram os seguintes:
     Estudar os principais dialetos e lnguas, assim como a transcrio dos mais impor-
     tantes dentre estes ltimos; introduzir a imprensa escrita e as manufaturas locais de
     papel; pesquisar o clima das diferentes localidades e introduzir a cincia mdica;
     melhorar as estradas e as vias para os transportes e criar um sistema eficaz de dre-
     nagem com objetivos sanitrios; compartilhar com os africanos os mais adiantados
     conhecimentos em matria agrcola e fornecer-lhes equipamentos e sementes de
     qualidade, alm de prover-lhes informaes acerca das mais apropriadas culturas
     para o mercado mundial70.
    Os metodistas, a exemplo da misso de Ble, criaram unidades agrcolas
modelo no distrito de Cape Coast. Eles abriram vagas para meninas cujo nmero
atingia frequentemente um tero dos efetivos em suas escolas71. Ainda melhor,
com o objetivo de eliminarem a barreira lingustica que impedia a evangelizao,
eles haviam, desde o sculo XVIII, traduzido os textos fundamentais do cristia-
nismo para o idioma ga. O reverendo J. G. Christaller redigiu, em 1875, uma



68   H. W. Debrunner, 1967, captulos VI-VII.
69   Referir-se a T. B. Freeman, 1843.
70   H. W. Debrunner, 1967, p. 104.
71   Testemunho do reverendo J. Beecham. Atos do Comit Especial sobre o Relatrio do Doutor Madden,
     1842, em G. E. Metcalfe, 1964, p. 176.
812                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



gramtica da lngua twi; alm disso, o seu dicionrio da lngua akan, publicado
em 1881, ainda atualmente permanece o melhor nesta matria72.
    Malgrado os esforos do cristianismo e do isl na regio, a religio tradicional
permaneceu amplamente majoritria, inclusive sobrevivendo no bojo das novas
religies.


      Concluso
   Em seu conjunto, os pases do Arco do Nger e da bacia do Volta prepa-
raram, em razo dos seus conflitos fratricidas e intestinos, ocorridos durante
todo o sculo XIX, as condies favorveis para agresses externas que, even-
tualmente, chegaram ao ponto de serem suscitadas, com vistas  obteno de
uma arbitragem. Mas este processo, no estaria ele potencialmente contido
nas contradies econmicas desencadeadas h sculos pelo trfico negreiro?
As migraes e a nova implantao dos povos, as tenses sociais e mesmo as
expanses poltico-religiosas no so compreensveis na ausncia de referncia
a este fenmeno maior, dominante ao longo dos sculos precedentes, para o
qual o sculo XIX constituiu, a um s tempo, o paroxismo e o arremate. Neste
sentido, aqui e alhures na frica, o sculo XIX  perfeitamente o final de um
perodo muito longo.




72    J. G. Christaller, 1875, 1933.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                813



                                     CAPTULO 26


       Daom, pas iorub, Borgu (Borgou)
           e Benim no sculo XIX
                                           A. I. Asiwaju




    A regio contida entre o Mono e o
    Nger como unidade de anlise
    A regio estudada neste captulo  delimitada a Oeste pelo rio Mono (atual
fronteira entre o Benin e o Togo), a Leste e Norte pelo rio Nger e no Sul pelo
golfo do Benin, frente o Oceano Atlntico. Essencialmente, ela  constituda
pela plancie ondulada, apresentando uma elevao geral da costa em direo
ao interior, onde o relevo culmina com a cadeia montanhosa de Atakora e o
Kukuru. Em seu conjunto, a vegetao pertence  famlia das herbceas. As
florestas midas, muito densas, so encontradas principalmente no Sudeste 
ou seja, nesta parte do antigo Imprio do Benin onde atualmente encontra-se
no Estado de Bendel, na Nigria  e, em menor escala, ao longo dos vales dos
principais cursos de gua.
    A regio ocupa uma extensa parte da famosa zona de "anomalia" climtica
da frica Ocidental, onde o cinturo de savanas do Sudo Ocidental e Central
prolonga-se atravs da zona das florestas at o mar. A totalidade do antigo
imprio fon de Daom e a metade ocidental do pas iorub, assim como o
Borgu, situam-se na mesma faixa. Diversos rios irrigam a regio, dentre os quais
Nger, Benin, Owena, Osun, Ogun, Yewa, Weme (Oum nos mapas franceses),
Opara, Zou e o Mono.
814                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Quatro grandes reas culturais distintas, embora manifestadamente entre-
cruzadas, dividem a regio: aja no Oeste, iorub no centro, borgu (pronunciado
bohou) ao Norte e edo a Leste. Como era previsto, cada uma das reas apresenta
vrias subdivises em funo de traos culturais, como o dialeto, a ecologia ou
a ocupao especfica.
    As populaes de lngua aja1 dividem-se em trs grandes subgrupos: os fon,
dominantes no antigo imprio de Daom; os gun, do vale do Weme e da rea
situada entre Porto-Novo e Badagri, em ambas as partes da atual fronteira entre
a Nigria e o Benin (antigo Daom); e, finalmente, os ewe estabelecidos entre
os rios Cufo (Coufo) e o Mono, no Sudoeste do atual Benin, a grande maioria
dentre eles ocupando as regies vizinhas do Sul do Togo e do Gana. A Norte e
Leste do territrio fon, encontravam-se os mahi, concentrados no planalto de
Abom (Abomey) em Paouignan, Savalu Weze, Dassa-Zoum, Jaluku e Kove
(Cov), que igualmente apresentavam traos culturais secundrios aja e conser-
vavam a lembrana de um distante vnculo de parentesco com esta etnia.
    A rea cultural iorub (nag) , consideravelmente, a mais importante da
regio Mono-Nger2, porque engloba os Estados de Ogun, Lagos, Oyo e Ondo,
na atual Nigria, bem como quase a metade do Estado de Kwara, alm de
regies contguas, ao Leste do Benin, e, finalmente, aquelas do centro do Togo,
mais ao Oeste. Ela inclui numerosas subdivises, desde as menores como os
if, formando um nico imprio, at os ekiti, organizados em variadas monar-
quias autnomas. Na regio da Nigria, os principais subgrupos iorubs eram
representados pelos oyo (o mais numeroso, em relao ao qual o territrio e a
populao dividiam-se entre os Estados de Oyo e Kwara); pelos ibarapa, esta-
belecidos em ambas as partes da fronteira entre os Estados de Oyo e de Ogun;
pelos if e os ijesa, estabelecidos no atual Estado de Oyo; pelos ijebu, ocupantes
de um territrio situado entre os Estados de Ogun e de Lagos; pelos egba e os
egbado no Estado de Ogun; pelos ondo, ikale, ekiti, owo e akoko no Estado de
Ondo; por fim, pelos awori e os subgrupos egbado que lhes eram aparentados,
no Estado de Lagos. Na atual fronteira entre a Nigria e o Benin sucediam-se,
de Norte a Sul, os sabe (sav), os ketu, os ohori (holli), os ifonyin e os anag.
A esta lista, j bem longa, ainda  preciso acrescentar os ana, os fe (if) e os
mayinbiri (manigri), os quais povoavam as pores medianas do Benin e a regio
de Atakpam, no Togo.


1     A. I. Asiwaju, 1979.
2     D. Forde, 1951; J. Bertho, 1949; E. G. Parrinder, 1947 e 1955; P. Mercier, 1950.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                                              815




figura 26.1 Escultura representando um guerreiro sobre os ombros de um babala [feiticeiro-curandeiro],
provavelmente proveniente do Nordeste do pas iorub, esculpida entre 1850 e 1875. [Fonte: W. B. Fagge e
J. Pemberton III, Yoruba sculpture of West Africa (org.: Bryce Holcombe), 1962, New York. Foto:  National
Museum, Lagos.]
816                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A exemplo do pas iorub, nos dias de hoje o Borgu  uma rea cultural
fragmentada pelas fronteiras internacionais3. Busa e Illo (dois dos trs gran-
des centros polticos tradicionais) situavam-se em uma faixa que corresponde,
essencialmente, ao distrito atual de Borgu, no Estado de Kwara, e s pores
vizinhas do Estado de Sokoto, na atual Nigria, ao passo que Nikki, o terceiro e
mais extenso dos Estados tradicionais, no presente momento  dividido em dois
pela fronteira entre a Nigria e o Benin: a cidade de Nikki e a metade ocidental
do antigo imprio encontram-se em territrio beninense e a parte restante do
lado nigeriano.
    As subdivises culturais correspondem aproximadamente ao perfil e aos
nveis de diferenciao sociopolticos tradicionais. Como a justo ttulo nota
Marjorie Stewart, o Borgu  descoberto, sem dvida, ao final do sculo XV,
como um conglomerado de Estados politicamente independentes, cujos grandes
centros eram Busa, Nikki e Illo. Aparentemente, estes imprios nasceram muito
cedo, a partir da fuso de um grupo de recm-chegados, muito provavelmente
de lngua mande, do Mali, e de uma populao autctone, resultando na for-
mao de um novo Estado e de uma cultura distinta. Eis o que tenderiam a
confirmar as tradies relativas  origem dos Estados do Borgu e o que aparenta
perfeitamente ser corroborado pelo fato de duas grandes lnguas serem faladas
nesta regio: o batonu (igualmente chamado baruba, bariba ou barba), lngua
voltaica em uso pela maior parte das massas, e o boko (igualmente chamado
zugwenu), lngua sul-oriental da famlia mande, empregada pela classe dirigente
dos wasangari.
    Cada uma destas duas grandes lnguas formou diversos dialetos distintos.
O boko, por exemplo, divide-se em quatro dialetos principais, dentre os quais
o bokobusa (bisagwe), falado em Busa e Wawa; o boko-nikki, em Nikki,
Segbana e Kandi, no atual Benin e em diversas chefaturas ligadas a Nikki
(Yeshikera, Kaiama, Sandiru, Ilesa Bariba, Aliyara e Okuta, em territrio
nigeriano); e o tienga ou kienga, em Illo, Dekala e ao Norte do distrito de
Aliyara. A unidade lingustica do Borgu ser garantida pelo bilinguismo que
permitiria superar o abismo existente entre o povo e as classes dirigentes tra-
dicionais. A unidade cultural, aparente no emprego lingustico,  consolidada
pelas tradies que atribuem uma origem comum aos diferentes imprios,
convergindo para o reconhecimento de Busa como bero ancestral de todos
os soberanos do Borgu.


3     O. Bagodo, 1979; M. Stewart 1984-1985.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                                              817
figura 26.2 O pas iorub-aja e o antigo Imprio Oyo (incio do sculo XIX). [Fonte: J. F. Ade. Ajayi e M.
Crowder (org.), History of West Africa, Longman, 1974, p. 131.]
818                                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



    A quarta grande rea cultural da regio em questo  aquela composta pelos
povos de expresso edo, no reino do Benin4, a saber, no somente os edo da
cidade de Benin e dos seus arredores, como tambm os povos que lhes so apa-
rentados, simultaneamente pela lngua e pela histria: os ishan (esan), ivbiosakan
e akoko edo ao Norte, e os itsekiri, urhobo e isoko a Sul e Sudeste.
    Estas quatro reas culturais no estavam voltadas para si mesmas. De fato, no
incio do sculo XIX, a interpenetrao cultural ou tnica atingira tal ponto que
no mais se discernia, seno uma nica civilizao, da qual, os iorubs, os aja, os
povos do Borgu e os edo podem ser considerados como subconjuntos. Abstrao
feita da ideologia unitria, realada pelas tradies que proclamam uma origem
comum, procurando estabelecer relaes ao menos entre as elites dirigentes
tradicionais de quatro ramificaes culturais, outros fatores, culturais  espe-
cialmente lingusticos , econmicos e polticos explicam estas inter-relaes.
Estes laos, evidenciados por diversos estudos5, indicam imigraes sucessivas,
provocando afluxos e refluxos populacionais, persistentes at o sculo XIX,
antes de serem formalmente desestimuladas pelo estabelecimento dos Estados
coloniais europeus, cujos territrios eram rigorosamente delimitados por rgidas
fronteiras. A histria da regio que se estende do Mono ao Nger deve, portanto,
ser considerada sobretudo como aquela da interpenetrao no somente entre
os aja, iorubs, bariba e edo, entre si, mas, igualmente, de um ou vrios dentre
estes povos com os seus vizinhos  nupe, jukun, kanuri, gbari, hauassa e fulbe,
ao Norte; ewe, ga, adangbe, krobo e fanti, no Oeste; e, finalmente, ijo, itsekiri,
isoko, urhobo, igbo ocidentais, igala, igabira e basa, ao Leste.


      A queda do antigo Oyo
   No incio do sculo XIX, o mais forte Estado, dominante em grande parte
dos territrios e populaes da regio contida entre os rios Mono e o Nger, era
o imprio do Oyo (Old Oyo)6. Embora o ncleo deste famoso Estado iorub
no se estendesse alm das localidades situadas entre as bacias do Osun e do

4     R. E. Bradbury, 1957; A. F. C. Ryder, 1969.
5     As tradies dos kisra, relativas  sua origem, ligam os iorub ao Borgu. Ife  reconhecido como o bero
      ancestral de todos os monarcas iorub e beninenses, assim como os aja, por sua vez, situam a sua longnqua
      origem a Ife. Consultar os atos do Colquio Internacional sobre a histria dos povos ajaewe, realizado sob os
      auspcios da UNESCO, na Universidade Nacional de Benin, em Cotonou, no ms de dezembro de 1977 (F. de
      Medeiros, 1984), assim como aqueles da Conferncia sobre a Civilizao Iorub, organizada na Universidade
      de If, em julho de 1976 (I. A. AKinjogbin e G. O. Ekemode [org.], 1976).
6     R. C. C. Law, 1977a.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                                               819



Ogun, territrio sobre o qual ele arrecadava tributos e onde, em diversos nveis,
exercia uma influncia ou um controle militar, poltico, econmico e cultural
perceptvel, esta poro territorial correspondia aproximadamente  metade
ocidental da regio que nos interessa.
    Rumo ao extremo oeste, o Estado aja de Daom fora forado ao tributo em
1748, aps uma srie de ataques lanados por Oyo, aproximadamente a partir
de 1740; situao mantida at o incio dos anos 1820. Porto-Novo conhecera o
mesmo destino quando Oyo dele se apoderou, tornando-o o seu principal porto
para o trfico de escravos7. A rota unindo este porto a Oyo atravessava os terri-
trios dos subgrupos iorubs, egba e egbado, nos quais as autoridades imperiais
de Oyo foram levadas, para control-los, a enviarem funcionrios (ajele), espe-
cialmente a estabelecimentos egbado, to importantes estrategicamente quanto
Ilaro e, posteriormente, Ijanna. No plano cultural e econmico, os territrios
egba e egbado foram igualmente submetidos a uma intensa penetrao por
parte de Oyo: colnias de Oyo seriam fundadas naquela regio e comerciantes




figura 26.3 A porta da cidade iorub de Ipara, no pas ijebu, aproximadamente em 1855. [Fonte: Church
Mission of Gleaver, 1855. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho Administrativo da Biblioteca
da Universidade de Cambridge.]




7    P. Morton-Williams, 1964.
820                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



do imprio ali exerceriam as suas atividades8. Dois outros importantes povos
iorubs, fundadores a Oeste dos imprios de Ketu e Sabe, haviam preservado
a sua tradicional autonomia poltica, mas, igualmente, mantinham relaes de
boa vizinhana com Oyo, beneficiando-se da influncia protetora exercida pelo
imprio sobre toda a regio. O Borgu oriental, a exemplo do Sudoeste de Nupe,
tambm reconhecia a autoridade do alafin (rei e imperador) de Oyo. Em todas
estas regies, situadas na rea de "anomalia climtica" j mencionada, a cavalaria
oyo podia agir e os representantes do governo dispunham, evidentemente, de
facilidades bem razoveis de acesso e comunicao.
    A outra parte da regio, ou seja, a sua metade oriental, encontrava-se na
rea de florestas tropicais. Alm do restante da rea cultural iorub  terri-
trios dos if e ijesa, no centro, dos ekiti, ondo, akoko e owo, ao Leste, dos
ijebu, ikale, okiti-pupa e awori, ao Sul , ela englobava o imprio do Benin,
o outro grande Estado africano da regio, rival em poder hegemnico e
esplendor frente ao imprio do Oyo; porm e inclusive neste caso, muitos
indicadores atestam a existncia de laos vitais com o imprio do Oyo.
Alguns indicam que este ltimo interveio, mais ou menos constantemente,
na histria dos if, ijess, ekiti, ondo e dos ijebu. Alm das tradies reco-
lhidas por Samuel Johnson9, h a opinio de S. A. Akintoye, segundo a qual,
"em diferentes pocas e graus diversos, os ekiti, ijesa e igbomina igualmente
foram submetidos  influncia de Oyo"10. Conquanto nada permita afirmar,
como o fez Peter Morton-Williams, que os ekiti, ijesa e akoko tenham
servido como "reservas de escravos" para o imprio do Oyo11, algumas indi-
caes certamente provam que este ltimo exerceu presses militares sobre
os ijesa  os quais vitoriosamente resistiram. A fundao de Ede pelo Oyo
e de Osogbo pelos ijesa foram explicadas pela necessidade demonstrada
pelos dois Estados iorub de disporem de um posto militar avanado, para
mutuamente vigiarem-se. As relaes posteriormente estabelecidas entre as
duas comunidades vizinhas testemunham o grau de interpenetrao ao qual
chegariam estas duas culturas iorubs.
    As relaes entre os imprios do Oyo e do Benin so ainda mais ampla-
mente atestadas12. As dinastias reinantes nos dois Estados afirmavam ambas


8     H. Clapperton, 1829; R. Lander, 1830.
9     S. Johnson, 1921, citado em J. F. A. Ajayi e M. Crowder, 1974.
10    S. A. Akintoye, 1971, pp. 29-30.
11    Ibid.; P. Morton-Williams, 1964.
12    J. F. A. Ajayi e M. Crowder (org.), 1974, vol. II.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                                                      821



no somente serem originrias do If, mas, igualmente, descenderem de um
mesmo fundador: Oranyan. Portanto, ambas mantinham laos rituais com
If. Estes sentimentos fraternais recprocos provavelmente eram tanto mais
fortes quanto fossem reduzidos os riscos de conflito entre os dois Estados:
a potncia do Oyo era fundada em sua cavalaria e, de certo modo, limitada
s reas relativamente descobertas, a Oeste e Norte da regio em questo; ao
passo que, as tticas militares do Benin no se adequavam seno s famosas
"florestas ombrfilas" da sua metade oriental. Inclusive, foi justamente em
razo destas diferenas ecolgicas que as atividades comerciais dos Estados
tambm se mostraram complementares.
    A principal concluso a derivar destas observaes  que o imprio de Oyo
esteve, a esta altura, no corao da histria de toda a regio, do Mono ao Nger,
e que a sua queda, no terceiro decnio do sculo XIX, no poderia deixar de
provocar um turbilho no plano social e poltico, no exclusivamente em pas
iorub, mas, alm, no Daom, no Borgu e na regio do imprio do Benin. Como
observa to oportunamente J. F. A. Ajavi, "a queda do imprio de Oyo [...] teria
importantes consequncias para os povos de lngua aja, no Oeste, tanto quanto
para o imprio do Benin, ao Leste"13. Efetivamente, ela marcou na regio o
incio de um perodo quase ininterrupto de guerras e insegurana generalizada.
Os seus inevitveis efeitos negativos sobre o comrcio europeu, ao longo do
litoral atlntico no golfo do Benin, criaram nesta regio condies propcias s
intervenes rivais da Gr-Bretanha, da Frana e, posteriormente, da Alemanha,
nos assuntos polticos da regio.
     impossvel e sem dvida suprfluo14 aqui relatar detalhadamente a queda
do imprio de Oyo. Bastaria observar que,  imagem de outros Estados to
solidamente estabelecidos e antigos, este no foi um desmoronamento brutal. Os
sinais do declnio j eram perceptveis no sculo XVIII e somente intensificar-
se-iam durante os dois primeiros decnios do sculo XIX.
    s causas internas, das quais a manifestao mais notvel foi a luta pelo
poder que ops vrios e sucessivos alafin a chefes de linhagem, a partir da
segunda metade do sculo XVIII, acrescentaram-se progressivamente os efeitos
de fatores externos: o declnio do trfico de escravos com o ultramar e, com
maior nfase, a extenso rumo ao Sul da jihad de `Uthman dan Fodio.



13   Ibid.; p. 129.
14   Ver J. F. A. Ajayi, 1974, pp. 129-166; R. C. C. Law, 1977; J. F. A. Ajayi e S. A. Akintoye, na obra publicada
     sob a direo de O. Ikime, 1980, pp. 280 a 302; I. A. Akinjogbin, 1965.
822                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



   Desde o sculo XVIII, igual e paradoxalmente, poca durante a qual ele
conheceu a sua maior expanso e encontrou-se no cume da sua potncia, o
imprio de Oyo comeara a apresentar sinais de vulnerabilidade e desinte-
grao nos planos militar e territorial. Aps a vitria da rebelio fomentada
pelos egba, sob a direo de Lisabi, o seu legendrio heri, aproximadamente
em 1774, as foras militares de Oyo seriam vencidas pelo Borgu em 1783, e
pelos nupe, em seguida, no ano de 1791. A debacle do imprio produziu-se
por volta de 1835, ao trmino de um perodo de total desorganizao poltica
no curso do qual se sucedeu uma srie de efmeras alaf in, em sua maioria
impotentes, dentre as quais Aole e Maku, encerrando-se por um prolongado
nterim de cerca de duas dcadas.
   A revolta de Afonja, areonakakanfo (comandante em chefe) da armada
imperial, que tentou, com a ajuda dos iorubs muulmanos de Oyo, procla-
mar-se soberano independente de Ilorin, precipitou a queda do reino. Como
Afonja no tardou a perder o controle da Djm'a - a fora armada que os seus
partidrios muulmanos iorub haviam composto para sustent-lo -, o fulbe
muulmano al-Slih Alimi, pregador e mstico itinerante com o qual Afonja se




figura 26.4 Vista de Ibadan, em 1854, em primeiro plano as instalaes da Church Missionary Society.
[Fonte: A. Hinderer, Seventeenn years in Yorubaland, 1872, Londres. Ilustrao: British Library, Londres.]
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                       823



aliara para conduzir com xito a sua revolta contra a autoridade do alafin, tomou
a frente da Djam'a e finalmente eliminou-o. Justamente, foi `Abdul-Salm,
filho e sucessor de Alimi, quem realizou a independncia de Ilorin visvis de
Oyo. Aps ter obtido a beno do califado de Sokoto e se ter transformado no
primeiro emir, ele fez de Ilorin, "provncia rebelde de Oyo, um posto avanado
da jihad dos fulani"15.
    A queda de Oyo foi sentida muito mais profundamente na metade ocidental
da regio, onde o imprio, mais forte e diretamente, exercera a sua influncia.
Em linhas gerais, seria uma situao de guerra e, por conseguinte, insegurana
generalizada que reinaria praticamente at o final do sculo, provocando final-
mente a desorganizao do comrcio litorneo e a interveno dos europeus
nos assuntos polticos das regies interioranas. Uma vez mais, ns abordamos
um episdio da histria africana que foi to satisfatoriamente explorado, sobre
o qual dispomos de tamanha profuso de publicaes, que somente um simples
resumo deve bastar.
    Aps se ter estendido at Ilorin, em favor da crise que tomava o reino de
Oyo, a jihad de `Uthmn dan Fodio expandiu-se em outras direes, alcanando
o Borgu e Sabe, Estado iorub do Noroeste muito estreitamente ligado a ele,
atingindo igualmente as regies vizinhas de expresso aja16. Segundo algumas
indicaes, elementos considerados partidrios da jihad fulbe pelas populaes
locais faziam incurses em comunidades egbado do Norte17. Fato caracterstico,
a ameaa fulbe levou os Estados do Borgu a cerrarem fileiras frente ao inimigo
externo comum. O Borgu e Oyo fecharam uma aliana no bojo de um esforo
desesperado, embora vo, de enfrentar os fulbes: trata-se da guerra de Eleduwe,
em 1836. A ameaa de um prosseguimento da expanso do califado de Sokoto
at o corao do pas iorub, ao Sul de Ilorin, no seria freada seno aps a
derrota decisiva que lhe foi imposta em Osogbo, no ano 1840.
    Todavia, as mais devastadoras guerras no foram estas jihad, mas as lutas
intestinas entre iorubs.
    Elas podem ser decompostas em trs grandes fases: a guerra de Owu, de
aproximadamente 1820 a 1825; aquela de Ijaye, de 1860 a 1865; e aquela de Eki-
tiparapo ou Kiriji, com durao de dezesseis anos, de 1877 a 189318. A primeira
foi essencialmente uma luta pelo controle do mercado de Apomu entre, por um


15   J. F. A. Ajayi, 1974, p. 144.
16   D. Ross, 1967.
17   A. I. Asiwaju, 1976.
18   J. F. A. Ajayi e R. S. Smith, 1964; S. A. Akintoye, 1971; B. Awe, 1964.
824                                                           frica do sculo XIX  dcada de 1880



lado, os if, aliados dos ijebu e, por outra parte, os owu, os quais se teriam bene-
ficiado do apoio dos seus vizinhos egba. A coalizo dos if e dos ijebu tinha o
apoio de guerreiros oyo que faziam parte da importante populao de refugiados
instalados ao Sul, em consequncia de distrbios ocorridos em Oyo.
    A guerra de Owu desdobrou-se na destruio deste reino e no deslocamento
rumo ao Oeste da totalidade das comunidades egba desde sempre estabelecidas
na floresta. A fundao de Ibadan, complexo militar mantido pelos vencedores
em Owu, por volta de 1829, bem como a fundao de Abeokuta, campo de
refugiados egba, aproximadamente em 1830, foram descritas como consequncias
desta guerra. Igualmente nesta poca, ou quase, situam-se a fundao de Ijaye,
sob o reinado de Kurumi, assim como a reconstituio do imprio de Oyo, com
uma nova capital em Ago-Oja (na localizao da atual Oyo, a cerca de 50 km
de Ibadan), pelo alafin Atiba. Estas aglomeraes rapidamente tornar-se-iam
novas potncias em pas iorub, rivalizando para obterem a supremacia poltica e
ocuparem o posto, por assim dizer, deixado vago com desaparecimento da antiga
Oyo. A guerra de Ijaye, opondo principalmente Ijaye e o seu aliado Abeokuta, em
Idaban, deve ser interpretada como um episdio maior desta luta pela hegemonia.
Embora a destruio de Ijaye, em 1862, tenha dela sido o ponto culminante, as
hostilidades no cessariam realmente seno aps os derradeiros combates de
Ikorodu, em 186519. Como o nome indica, Ekitiparapo era uma coalizo que
reunia, contra Ibadan, os ekiti, os ijesa e os igbomina que Ibadan conquistara e
agregara ao seu imprio nascente, aps o seu triunfo sobre Ijaye20.
    O surgimento do Daom (Danxome) como reino independente, aproxima-
damente em 1820, e as suas frequentes incurses no pas iorub, ao longo de
todo o sculo XIX, at a conquista francesa em 1892, tambm so consequncias
diretas do desaparecimento do antigo imprio de Oyo21. Estendendo a sua auto-
ridade do Weme, ao Leste, at o Cufo, no Oeste e a 7 graus de latitude norte
do Oceano Atlntico, o reino do Daom representava, por volta do ano 1800,
acerca da tera parte do territrio do atual Benin.
    Todos os monarcas daomeanos desde Kpengla (1774-1789) haviam buscado
livrar-se da tutela de Oyo; porm, o reino no se libertaria do jugo imperial
seno nos primeiros anos do reino de Ghezo (1818-1858). A despeito dos
ocasionais distrbios e de violentos episdios na corte de Abom - como o
assassinato do rei Agonglo (filho e sucessor de Kpengla), em 1797, e a deposio

19    J. F. A. Ajayi e R. S. Smith, 1964, p.120.
20    B. Awe, 1964.
21    D. Ross, 1967; K. Folayan, 1967; S. O. Biobaku, 1957.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                                          825



de Adandozan (reinante de 1797 a 1818) em favor de Ghezo (seu irmo caula)
-, o Daom distinguiu-se do imprio de Oyo, nos sculos XVIII e XIX, pela
notvel durao dos reinados dos seus soberanos.
    Esta estabilidade poltica era reforada pelo bom funcionamento da
administrao, muito centralizada, objeto de fama para o reino. O movi-
mento abolicionista conferiu um golpe na economia do pas, fundada quase
exclusivamente no trfico de escravos. Ghezo, no entanto, continuou tanto
quanto antes a satisfazer a demanda dos negreiros portugueses, aproveitando
inclusive a possibilidade de exportar leo de palma, produto finalmente des-
tinado a substituir os escravos como principal item de exportao22. Estes
sinais de relativa prosperidade poltica e econmica no Daom tornaram-se
perceptveis exatamente na mesma ocasio em que os sintomas de um avan-
ado declnio de Oyo ganhavam progressiva notoriedade. Justamente, foi a
conjugao destes fatores que estimulou Ghezo a proclamar unilateralmente
a independncia do Daom, no incio dos 1820.
    Segundo a verso geralmente aceita, Oyo teria respondido enviando um corpo
expedicionrio dirigido por um certo Balogun Ajnaku. No entanto, esta fora
armada teria sido levada  debandada pelo Daom. Na realidade, tudo indica
ser evidente que, nesta poca, Oyo no estivesse, em hiptese alguma, em con-
dies de enviar um exrcito digno deste nome, para acalmar uma rebelio em
lugar to remoto quanto o Daom. Realmente, as pesquisas efetuadas sobre este
tema indicam que, ao invs de exrcito imperial oficial, as tropas lanadas contra
Daom, sob a direo de Ajanaku, no incio dos anos 1820, eram com maior
probabilidade uma expedio conjunta entre Sabe e Ketu23. Elas eram compostas
por guerreiros iorub e mahi, e embora Ajanaku fosse frequentemente descrito
como um balogun (chefe militar) de Oyo, ele era, caso considerarmos verdadeiras
as mais confiveis tradies locais dos fon, originrio, na realidade, de Sabe. Esta
operao militar inscrevia-se no quadro familiar de alianas que os iorubs e as
comunidades aparentadas, as quais precedentemente se haviam beneficiado da
proteo de Oyo contra o Daom, formavam para se defender e lanarem ataques
preventivos contra o inimigo comum, uma vez destrudo o imprio24. De toda



22   Para um estudo da poltica econmica do reino independente do Daom, referir-se a E. Soumoni,
     1983.
23   D. Ross, 1967, pp. 37-40.
24   No sculo XIX, alianas deste tipo haviam sido notadamente firmadas entre os ketu e os ohori, bem
     como entre os okeodan e os ipokia. Consultar A. I. Asiwaju, 1976.
826                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



forma, as tropas de Ajanaku seriam desmobilizadas e ele prprio capturado e
executado por Ghezo.
    Foi ento que o Daom se lanou em uma srie de invases sistemticas
sobre o pas iorub, ditadas por consideraes de segurana tanto quanto pela
insacivel procura por escravos - para a exportao, as plantaes comerciais ou
a agricultura de subsistncia, assim como para os sacrifcios humanos, comuns
nos famosos rituais anuais -, estas invases no se limitariam a toda a regio
do territrio iorub, situada a Oeste do Ogun, porm estender-se-iam at as
comunidades e Estados aja e mahi, situados a Leste de Weme, aqui incluso
Porto-Novo25.
    Enquanto na dcada precedente, os mahi estabelecidos no Sudeste, proxi-
mamente ao Norte de Abom (Abomey) e de Porto-Novo, seriam os invadidos,
a partir de 1830, as campanhas daomeanas concentrar-se-iam, desta feita, em
Ijanna e Refurefu, invadidas respectivamente em 1831 e 1836. Ijanna, como
vimos, fora a residncia do representante imperial de Oyo e o principal centro
de arrecadao e encaminhamento de impostos, levantados junto aos egbado e
territrios vizinhos. No decorrer dos anos 1840 e novamente nos anos 1880,
Okeodan e Sabe seriam a seu turno devastadas. Igualmente, o reino de Ketu,
invadido a partir do final dos anos 1870, seria de fato destrudo em 1886, quatro
anos aps o incndio de Imeko, outra grande cidade do imprio.
    Nos anos 1850 e 1860, os ataques ativeram-se ao novo Estado egba-iorub
de Abeokuta, em cujo Agbome julgava perigoso o desenvolvimento, naquilo que
dizia respeito  independncia do Daom. O perigo tornou-se real quando os
egba engajaram-se em campanhas militares e estenderam a sua influncia pol-
tica at inclusive as regies do Oeste do pas iorub, onde o Daom igualmente
executou incurses. O confronto travado na cidade awori de Ado-Odo, em 1844,
e a derrota final do Daom, estariam  origem de futuros rancores. Conquanto
as duas ofensivas lanadas diretamente pelo Daom contra Abeokuta, em 1851
e 1864, tenham se saldado por retumbantes derrotas, a expedio punitiva con-
duzida contra os egbado, aliados dos egba, desdobrou-se, em 1862, na destruio
de Isaga e na devastao da regio circundante. As incurses daomeanas nos
territrios iorub do alto-Ogun manter-se-iam durante os anos 1880 e o incio
dos anos 1890, no cessando realmente seno aps a derrota imposta ao reino
fon pelos franceses, em 1892.




25    A. I. Asiwaju, 1979; T. Moulero, 1966.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                         827



    No mais que as outras guerras da mesma poca, aquelas conduzidas pelo
Daom no eram necessariamente conflitos entre etnias diferentes. Testemu-
nham desta apreciao no somente a invaso das comunidades aja do vale do
Weme, mas, igualmente, as mortferas campanhas contra Porto-Novo, ao final
dos anos 1880 e no incio dos anos 1890, aps a ruptura de um acordo que,
concludo pouco aps os ataques dos anos 1820, garantira, durante dcadas,
pacficas relaes entre os dois Estados aja e os seus satlites.
    As guerras que, no sculo XIX, devastaram a metade ocidental da regio Mono-
Nger, provocariam deslocamentos populacionais e reviravoltas demogrficas de
considervel alcance. Em primeiro lugar, os iorubs e as populaes aja a eles apa-
rentadas foram massivamente reduzidos  escravatura e deportados para o Novo-
Mundo e tambm rumo a Serra-Leoa, proximamente situada. No prprio seio
das comunidades da frica Ocidental concernidas, massivas migraes populacio-
nais provocaram mudanas sociopolticas de carter revolucionrio26. Em territrio
iorub, estas guerras desembocariam na destruio de numerosos estabelecimentos,
anteriores ao sculo XIX, na fundao de toda uma srie de novas cidades e no
considervel desenvolvimento daquelas pr-existentes. Na regio de Old Oyo, onde
o despovoamento foi especialmente impressionante, cidades desde h muito estabe-
lecidas, como a prpria antiga capital Oyo e outras, como Igboho, Ikoyi, Igbon, Iresa
e Oje, foram destrudas. Mais alm, a mesma sorte abateu-se sobre outras cidades
iorubs, como Sabe, Ketu, Owu e um grande nmero de estabelecimentos egba e
comunidades remo aparentadas.
    Deste modo,  possvel explicar estas "cidades em runa", observadas em pas
iorub pelos viajantes do sculo XIX. O xodo geral para o Sul, das populaes
em fuga das turbulentas regies ao Norte, provocou a criao de numerosos
estabelecimentos, especialmente Ibadan, Abeokuta, Sagamu, Okeodan e Aiyede.
O litoral e as suas regies mais prximas, no imediato interior do pas, em seu
conjunto menos povoadas por volta do ano 1800, tornaram-se, ao final do sculo,
o formigueiro da regio.
    Na regio lingustica aja, as migraes realizaram-se, em sua maior parte, do
Sul rumo ao Leste. No sculo XIX, os refugiados aja, em fuga do vale do Weme e
da regio de Porto-Novo, engordariam as fileiras das comunidades aparentadas,
estabelecidas no sculo XVIII em territrios vizinhos dos Estados de Lagos e
Ogun, na atual Nigria, aps a conquista dos Estados aja litorneos de Allada
e Ouidah pelo Daom, respectivamente em 1724 e 172727. Esta expanso para

26   P. Verger, 1955, pp. 3-11; C. Fyfe, 1962, pp. 292-293.
27   A. I. Asiwaju, 1979.
828                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880



o Leste da rea cultural aja, devida s guerras do sculo XIX, contribuiria for-
temente para a mistura tnica da regio.
   Por via de regra, as guerras e as suas repercusses sociais derivaram para
o surgimento de uma nova sociedade que, por sua vez, exigiu a elaborao de
novos mtodos e estilos de governo. Assim sendo, os guerreiros tornaram-se a
classe dominante, banindo a antiga classe monrquica, especialmente na regio
iorub, onde de modo generalizado os oba perderam o seu poder em proveito
dos balogun ou chefes militares. As tentativas de instaurao de uma ditadura
militar em Ijaiye, sob Kurumi, de uma federao em Abeokuta, sob Sodeke, e de
uma monarquia constitucional em Epe, sob Kosoko, ilustram perfeitamente os
esforos empreendidos no sculo XIX, em pas iorub, para forjar novas consti-
tuies, mais bem adaptadas  administrao poltica da nova sociedade nascida
das guerras28. A posterior adoo, no sculo XX, do ttulo e das funes da oba,
segundo o modelo iorub, por algumas comunidades aja da regio da Nigria, 
um bom exemplo da continuidade deste processo de adaptao cultural29.


      O declnio do reino de Benin
    A excepcional potncia da sua monarquia e a solidez das suas instituies cen-
tralizadas evitaram que o Benin conhecesse, a exemplo do Oyo, um verdadeiro des-
moronamento anterior  era da conquista europeia - estado de coisas que, todavia,
no significa ter ele escapado das influncias destrutivas do sculo XIX30.
    Por volta do ano 1800, o reino do Benin estendia-se sobre um territrio
equivalente, por pouco que no,  metade oriental da regio compreendida entre
o Mono e o Nger, a Leste de uma linha norte-sul ligando Otun, em pas ekiti,
ao litoral. Este territrio englobava os Estados iorub orientais de Ekiti, Ondo
e Owo, as comunidades dos igbo ocidentais, a Oeste do delta do Nger, bem
como os territrios dos urhobo, itsekiri e ijo, ao Sul. Enquanto os edo da cidade
de Benin e arredores formavam o corao do reino, os outros povos deste grupo
lingustico - como os esan e os edo setentrionais, no Nordeste, ou os urhobo e
os isoko, no Sudeste - poderiam ser considerados como constituintes da pro-
gresso do reino, nos limites do territrio submetido  sua autoridade. Mais
alm, a influncia do Benin, seno a sua soberania, era reconhecida em toda a


28    G. O. Oguntomisin, 1979; J. A. Atanda, 1984.
29    A. I. Asiwaju, 1979, pp. 22-23.
30    R. E. Bradbury, em D. Forde (org.), 1967; O. Ikime, 1980.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                         829




figura 26.5   Altar no recinto do rei, Benin.




costa atlntica at Lagos, no Oeste, e mesmo alm destes limites.  imagem do
caso dos itsekiri, era geralmente muito aceito que as dinastias do Benin esti-
vessem ligadas s elites dirigentes da maioria das chefaturas dos awori-iorub
e dos anago, as quais lhes eram aparentadas e cujos ttulos e cerimoniais da
corte (como aqueles de Ekiti, de Owo e Ondo) carregavam ainda nitidamente,
inclusive, a marca da influncia beninense31.
    O Benin dos sculos XVIII e XIX foi geralmente descrito como um reino em
inexorvel declnio. Caso seja verdadeiro que este declnio, longe de ter sido cont-
nuo, como apontaram pesquisas recentes, tenha sido recortado por fases de renas-
cimento e expanso territorial, entrementes, no aparenta ser nada duvidoso que os
trs ou quatro decnios, precedentes  perda da sua independncia, tenham sido para
o reino do Benin, atacado em trs frentes, uma poca de recuo radical.
    A jihad fulbe, que vencera a resistncia do imprio de Oyo, igualmente
ganhou o Norte e o Nordeste do reino do Benin. Enquanto os fulbes estabele-


31   A. I. Asiwaju, 1976, pp. 18-19.
830                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 26.6 Vista da cidade de Benin na poca da invaso britnica, 1897.




cidos em territrio nupe foravam alguns grupos edo do Norte, como os esan
e os ivbiosakon, a pagarem um tributo ao emir de Bida e tornarem-se perme-
veis  islamizao, a Djam`a de Ilorin realizava incurses nos Estados ekiti
do Norte.  ameaa fulbe, acrescentava-se a expanso para o Leste de Ibadan,
novamente empenhada em conquistar os domnios do Benin situados no Leste
do pas iorub. A impotncia do Benin em socorrer estes Estados vassalos, assim
assediados, provava nitidamente que o prestigioso Estado da floresta da frica
Ocidental atravessava um perodo sombrio.
    Derradeira ameaa, a penetrao europeia acontecia, simultaneamente,
pelo Lagos, o mais importante centro litorneo, situado na rea de influncia
do Benin, e pelo Nger, no Sudeste. O reino do Benin dela sentiu os primei-
ros efeitos quando os privilgios dos quais ele gozava no comrcio litorneo,
especialmente o controle do trfico no Benin, no Oeste do delta do Nger,
comearam a ser ameaados pelos comerciantes europeus, em sua maioria
britnicos e pelos seus intermedirios africanos, particularmente itsekiri e
ijo. O eclipse do seu porto fluvial de Ughoton (Gwato) representou, para o
Benin, a dolorosa prova do fim da poca equivalente ao seu quase monoplio
sobre o comrcio litorneo.
    Junto aos itsekiri, este comrcio alimentou o desejo de autonomia poltica.
Alm da guerra que ele finalmente provocou entre o olu, de Warri, e o oba, do
Benin, esta nova riqueza alimentou conflitos polticos no prprio seio do reino
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                        831



de Warri. Assim sendo, as rivalidades e hostilidades entre cls, as querelas suces-
srias desencadeadoras de migraes, assim como a criao de centros de poder
independentes e rivais, multiplicaram-se a tal ponto que, at o final do sculo, foi
impossvel encontrar um sucessor, aceitvel por todos, ao trono do olu de Warri,
aps a morte, em 1848, de Akengbuwa, o seu ocupante desde 1809.  imagem
do reino de Itskiri, Agbor, Estado vassalo do Benin cuja monarquia estava
organizada com base no modelo beninense, tornar-se-ia progressivamente um
Estado autnomo, em grande parte favorvel ao novo comrcio litorneo. Foi
especialmente com a inteno de restaurar parte da potncia do seu reino que
Ovonramwen, o ltimo oba do Benin independente, lanou uma expedio con-
tra Agbor, com vistas a restabelecer a sua autoridade nesta regio, todavia muito
tardiamente: em 1897, as tropas beninenses estavam apenas recm-posicionadas
em Obadan, quando chegou a notcia indicando que o corpo expedicionrio
britnico, enviado contra o prprio Benin, estava s portas da capital32.
    Enquanto o reino sofria estes ataques externos, a calma estava distante de
reinar na capital. As querelas sucessrias desestabilizavam consideravelmente
a monarquia. Embora por ocasio da morte do oba Osemwede, em 1851,
Adolo o tenha sucedido, esta substituio no aconteceria seno aps uma
violenta crise sucessria. A multiplicao dos sacrifcios humanos em Benin,
na capital, a partir do final dos anos 1880, pde ser interpretada como um
sinal do desespero dos dirigentes, os quais teriam buscado, atravs destas pr-
ticas rituais, conjurar o eminente esfacelamento poltico. A legitimidade do
oba Ovonramwen aparenta ter sido abertamente contestada por Orokhoro,
o seu prprio irmo, e alguns chefes de alto escalo, como Eriko, Oburaye
e Osia. Determinado a consolidar a sua posio pessoal e a regenerar o seu
reino, o oba foi obrigado a levar estes dignitrios  execuo. Para melhor
medir o sentimento antieuropeu, reinante no Benin durante os anos 1890, s
vsperas da conquista britnica,  necessrio avali-lo a partir da perspectiva
desta desesperadora situao interna.


     A progresso dos interesses europeus
    Para analisar a expanso dos interesses europeus na regio da frica Oci-
dental que nos ocupa,  adequado distinguir duas fases: uma poca de livre-
iniciativa, at 1861, data da anexao de Lagos  Coroa britnica, sucedida por

32   O. Ikime, 1980.
832                                                               frica do sculo XIX  dcada de 1880



um perodo de rivalidades entre a Frana, a Gr-Bretanha e, aps os anos 1880,
a Alemanha, situao que no terminaria seno em 1889, com a partilha da
regio entre a Gr-Bretanha e a Frana. Aquilo que todavia merece ser subli-
nhado diz respeito, invariavelmente,  configurao das atividades dos europeus
na regio, realizadas em funo das exigncias das metrpoles europeias e das
possibilidades locais.
    Na primeira fase, os comerciantes, exploradores ou viajantes europeus, assim
como os missionrios cristos, agiam na frica sem que a sua nacionalidade
fosse considerada. O clebre explorador alemo Heinrich Barth podia assim
participar de uma "expedio oficial britnica", enquanto um explorador brit-
nico da estatura de H. M. Stanley, tornado clebre no Congo, estava a servio
do rei Leopoldo da Blgica.
    As grandes misses crists, como a Church Missionary Society (CMS),
anglicana, e a Socit des Missions Africaines (SMA), catlica e sediada em Lyon,
recrutavam pastores europeus de diversas nacionalidades. O padre Boghero,
que  frente da SMA esforou-se, no sculo XIX, para reintroduzir a religio
catlica na frica Ocidental, era italiano. Os padres da SMA, promotores de
uma obra pioneira na maior parte da regio hoje representada pela Nigria,
eram franceses, e foram missionrios britnicos, como o metodista Thomas
Birch Freeman ou o anglicano Samuel Ajayi Crowther, que implantaram as
primeiras misses crists no territrio futuramente representado pelo Daom
francs (o atual Benin)33. Os comerciantes britnicos, franceses, alemes e por-
tugueses estabeleciam-se lado a lado e, como testemunha o caso de Badagri, os
grandes portos da costa do Golfo do Benin abrigavam bairros residenciais para
europeus de diversas nacionalidades.
    Os negociantes moviam-se de um porto a outro, em busca de condies
mais vantajosas e em funo da riqueza varivel destes portos e Estados, cuja
economia passou a progressivamente depender deste comrcio.
    A esta mobilidade na composio e nas atividades das diferentes categorias
de europeus, correspondia uma no menos importante mobilidade na situa-
o local que, como observamos, caracterizava-se muito mais por uma rede de
relaes e uma interpenetrao histricas e culturais que por rgidas diferencia-
es. Foi em grande parte o movimento abolicionista que esteve  origem dos
deslocamentos e das expedies dos comerciantes, viajantes e missionrios, em
virtude da sua compreenso, segundo a qual, o trfico de escravos no poderia


33    A. O. Makozi e G. J. A. Ojo, 1982; E. G. Parrinder, 1967.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                    833



ser eficazmente jugulado seno em sua fonte de abastecimento, as regies inte-
rioranas. A explorao da frica pelos europeus, ilustrada na regio que nos
interessa por Mungo Park, Hugh Clapperton e os irmos Lander, visava a reco-
lher tanto dados cientficos quanto informaes de ordem poltico-estratgica,
principalmente empregados pelo movimento abolicionista; igualmente por esta
razo, missionrios geralmente seguiam ou acompanhavam os exploradores.
Bem entendido, esta nova corrente tambm deixava espao para os interesses dos
comerciantes europeus, pretendentes ao acesso direto aos mercados do interior,
preferencialmente a continuarem a tratar com os intermedirios litorneos.
    Em todas estas atividades, os europeus deviam considerar a situao local.
Exploradores, missionrios e comerciantes eram obrigados a utilizar os meios de
transporte e os sistemas de comunicao existentes, alm de levarem em conta
a estrutura das interaes geogrficas e etnogrficas. Mungo Park encontrou a
morte no rio Nger, a bordo de uma piroga - modo secular e tradicional de trans-
porte -, no distante de Busa, no Borgu. Para as clebres expedies em busca
da nascente do Nger, Hugh Clapperton e os irmos Lander utilizaram uma
antiga pista que ligava diferentes subgrupos iorubs aos seus vizinhos de lngua
aja, assim como o pas iorub no Borgu, ao pas hauassa, no Borno, prosseguindo
mais alm. Os missionrios cristos no foram capazes de atravessar as vastas
extenses iorubs de Norte a Sul e de Leste a Oeste, nem tampouco puderam
mover-se entre o pas iorub e o Daom, mesmo com a pregressa existncia das
vias necessrias para ligar estes territrios.
    Em razo deste entrelaamento de territrios e populaes, o que acontecia
em um setor jamais deixava de repercutir e ter consequncias em outros. Assim
sendo, os abolicionistas europeus deram-se conta que, para impor um termo
ao trfico de escravos e s guerras interioranas, era-lhes necessrio contar no
somente com os dirigentes do litoral, mas, em suplemento, com os diferentes
soberanos do interior. Na primeira metade do sculo, as misses organizadas
pelos abolicionistas britnicos ou franceses, a partir de diferentes pontos da
costa da Baixa-Guin, foram obrigadas com frequncia a dirigirem-se a Abom,
junto aos reis do Daom. Para desempenharem o papel de mediadores nas
guerras entre o Daom e os iorubs, eles foram levados a empreenderem visitas
a Abeokuta e a Abom. Do mesmo modo que os britnicos, os quais no sculo
XIX esforaram-se para pacificar os iorubs, foram conduzidos a praticamente
percorrerem toda a correlata rea cultural.
    Infelizmente, a postura europeia foi um fator de diviso, haja vista que ela
tendeu a traduzir-se por uma diferenciao ao nvel das estruturas polticas.
Este fenmeno era perceptvel desde o final dos anos 1840 e incio dos anos
834                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



1950. A nomeao de John Beecroft, em 1849, para o posto de cnsul britnico
nos golfos do Benin e de Bonny (antigo Biafra) marcou o incio de uma nova
era. A Gr-Bretanha passou a proteger exclusivamente os seus prprios inte-
resses frente queles dos outros pases europeus, defendendo-os em detrimento
daqueles dos africanos locais. J assinalamos a penetrao britnica na zona do
Benin, a partir do delta do Nger, assim como o golpe que ela provocara em
seu comrcio no interior do pas, a ponto de causar o abandono de Ughoton, o
tradicional porto do reino. Mais a Oeste, os anseios polticos da Gr-Bretanha
comearam a se precisar quando, em 1851, a esquadra antiescravista britnica
bombardeou Lagos.
    Todavia, o verdadeiro ponto de inflexo aconteceria com a oficial anexao de
Lagos pela Coroa britnica, em 1861, e com o ataque lanado sobre Porto-Novo
pela frota inglesa, pouco aps, durante o mesmo ano34. Estas duas operaes
britnicas naturalmente acenderam os nimos dos franceses, detentores de con-
siderveis interesses comerciais em Ouidah e Porto-Novo. Em 1863, atendendo
a pedidos das prprias autoridades de Porto-Novo, eles declararam este Estado
aja litorneo um protetorado francs, visando bloquear qualquer nova expanso
britnica rumo ao Oeste, pela costa. Os britnicos, como os franceses, no tar-
daram a se render  evidncia: era o comrcio com o interior iorub e aja, por
eles compartilhado, que conferia o verdadeiro interesse de Lagos e Porto-Novo.
Esta interveno da Gr-Bretanha e da Frana, respectivamente, nos assuntos
comerciais e polticos destes dois portos, desencadeou entre estas duas potn-
cias uma espetacular fase de concorrncia, cujo desafio era o controle do pas
iorub, particularmente das suas partes ocidentais, assim como das comunidades
vizinhas, de expresso aja. O Oeste do pas iorub tornou-se ento o principal
teatro desta rivalidade anglo-francesa, em razo da reao favorvel das popu-
laes autctones que percebiam nesta interveno dos europeus a soluo para
o problema referente s contnuas invases do seu territrio pelos seus mais
potentes vizinhos.
    Eis a razo pela qual, a partir dos anos 1860, quando os governos francs e
britnico eram ambos hostis, em seu conjunto, a uma poltica de colonizao e
expanso na frica, os dados particulares da situao local conduziram, desde
logo, as duas naes mais ativas da Europa a uma luta pela posse de territrios
nesta parte do continente. Pela conveno franco-inglesa de agosto de 1863,
as duas potncias chegaram a um acordo sobre a partilha deste setor, de parte


34    C. W. Newbury, 1961; A. I. Asiwaju, 1976.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                     835



a outra do rio Yewa, a cerca de vinte quilmetros a Oeste do futuro traado
fronteirio de 1889. As declaraes atravs das quais a Frana e a Gr-Bretanha
instituram protetorados nesta regio, entre 1862 e 1863, jamais seriam oficial-
mente ratificadas e, durante os anos 1870, seriam consideradas nulas. A luta
seria todavia retomada no sculo seguinte, reanimada, por um lado, em razo
de novas invases daomeanas, as quais incitariam os dirigentes de Porto-Novo
e dos Estados da zona ocidental do pas iorub a buscarem a proteo dos
franceses ou britnicos. A conquista francesa do Daom, em 1892, a partilha
do Borgu entre a Inglaterra e Frana, em 1895, a extenso da autoridade brit-
nica at o restante do pas iorub e a conquista inglesa do Benin, em 1897, no
podiam representar seno a concluso lgica desta rivalidade que opusera as duas
potncias nos anos 1860, como consequncia do isolamento pr-existente das
regies interioranas do pas visvis dos portos, atravs dos quais elas buscavam
garantir o domnio da costa.


    Mudana socioeconmica e adaptao das instituies
   A despeito do seu espetacular carter, as guerras do sculo XIX e a conse-
quente interveno dos europeus nos assuntos polticos da regio Mono-Nger
no devem levar a esquecer as transformaes internas, muito mais profundas
embora menos marcantes, que conheceram as sociedades desta regio, neste
mesmo perodo. J evocamos os efeitos dos massivos deslocamentos populacio-
nais, tanto no interior deste setor quanto alm dele. Estas migraes foradas
acentuaram a interpenetrao e o amlgama dos diferentes grupos e subgrupos
tnicos, alm de terem provocado o desenvolvimento de novos estabelecimentos
no seio da regio, simultneo a um afluxo de escravos e, por conseguinte, a um
aumento da populao de origem africana no Novo-Mundo, especialmente no
Estado da Bahia, no Brasil. Esta chegada massiva de escravos ao continente
americano, originrios da zona Mono-Nger, desempenharia um importante
papel na modernizao desta regio, com o retorno dos "Saros" e "Amaros"
(brasileiros) e a chegada dos missionrios cristos.
   Houve, como observamos, uma forte corrente migratria de povos de expres-
so aja do Oeste para o Leste, em particular, na segunda metade do sculo
XIX, quando o Daom novamente invadiu os Estados e as comunidades gun e
iorub situadas ao Leste do vale do Weme. Estes movimentos provocaram no
somente o desenvolvimento, para o Leste, de estabelecimentos aja j existentes,
836                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



mas, igualmente, a criao de numerosas novas localidades no Oeste e Sudoeste
do atual territrio dos Estados de Lagos e Ogum, na Nigria35.
    Um processo de colonizao idntico podia ser observado mais ao Leste. Em
pas iorub, por exemplo, produzia-se uma interpenetrao e uma mistura not-
veis entre diferentes subgrupos tnicos. Nesta zona, o fenmeno mais marcante
foi a dispora oyo, esboada nos dois primeiros decnios do sculo, quando a
capital do antigo imprio tornou-se motivo de uma incontrolvel instabilidade.
Desde 1830, Ibadan, Ijaye e a atual cidade de Oyo, ao Norte de Ibadan, eram
os principais focos de imigrao oyo. Todavia, foi com a expanso imperialista
de Ibadan, nas dcadas de 1840 a 1860, que a dispora oyo ganharia toda a sua
amplitude. Muitas comunidades oyo, oriundas do Nordeste, estabeleceram-se
assim junto aos igbomina, ijesa, ekiti, akoko, ondo, ikale e aos ilaje, do Leste e
do Sudeste do pas iorub36. Em sentido inverso, alguns grupos orientais iorub,
como os ekiti e os ijesa, trazidos como cativos ou vindos por vontade prpria,
fixaram-se em Ibadan e em muitos outros estabelecimentos situados a Oeste
e Sul, nos territrios dos osun, ijebu e dos egba. No Borgu, a jihad fulbe do
sculo XIX desencadeou um movimento populacional orientado para o Sul,
em direo  rea cultural iorub, comparvel quele produzido no sculo XVI,
sob a presso dos mande vindos do Norte, aps a queda do Imprio Songhai37.
As migraes do sculo XIX viriam fortalecer a rede pr-existente de relaes
de interpenetrao entre o Borgu e algumas comunidades iorubs do Noroeste,
como os oyo, os sabe e os ketu.
    Este amlgama de grupos e subgrupos tnicos provocou considerveis inter-
cmbios de ideias e materiais culturais. Como observamos, a expanso dos aja na
rea cultural iorub deve-se s migraes do sculo XIX e dos sculos preceden-
tes, justamente a elas devemos remeter a evoluo que, no sculo XX, conduziu
os aja, estabelecidos no territrio do atual distrito de Badagri, no Estado de
Lagos, na Nigria, a adotarem a instituio monrquica iorub, denominada oba.
Igualmente,  preciso reconhecer nas influncias culturais oyo, identificadas na
parte oriental do pas iorub - culto de Xang, difuso do ofcio tecelo mascu-
lino e do tambor com ala -, nem tanto uma prova da hegemonia exercida pelo
Oyo antes de 1800, mas, sobretudo, uma consequncia da dispora desta etnia
no sculo XIX, aps a queda do imprio38.

35    A. I. Asiwaju, 1979.
36    S. A. Akintoye, 1971, pp. 213 e seguintes.
37    T. Moulero, 1964; A. I. Asiwaju, 1973.
38    J. F. A. Ajayi, 1974.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                      837



    A influncia anloga exercida pelo Benin, notadamente sobre as cerim-
nias da corte, as insgnias da realeza e os ttulos das chefaturas dos owo, ekiti,
akoko, ondo e dos ijesa - tal como junto aos awori, estabelecidos de parte a
outra da atual fronteira entre a Nigria e o Benin -, mostra a amplitude dos
fenmenos de interpenetrao dos grupos e, consequentemente, da adaptao
das instituies resultantes. A dimenso demogrfica desta influncia cultural
do Benin exercida sobre os iorubs encontra-se facilmente em algumas tradies
identificadas em estabelecimentos beninenses nas zonas iorubs em questo. A
influncia sociopoltica do Benin sobre as outras etnias de lngua edo, assim
como sobre os itsekiri, urhobo e isoko do Leste e do Norte, foi muito mais
metodicamente estudada39.
    Acima de tudo, o sculo XIX seria marcado pela fundao de estabeleci-
mentos de tipo moderno, os quais tiraram grandes vantagens da sua localizao
litornea e das suas proximidades - testemunha, por exemplo, a elevao do
prestgio de Warri no Benin; de Lagos em relao ao restante do pas iorub;
e dos portos de Porto-Novo, Ouidah e, sobretudo, de modo particularmente
espetacular, de Cotonou, sobre a costa aja. Este perodo tambm anunciaria as
novas sociedades da era colonial e ps-colonial, atravs de uma mais estreita
associao, seno integrao, com a economia e a cultura europeias.
    Estas mudanas resultavam da conjugao de mltiplos fatores: as guer-
ras do sculo XIX que, por exemplo em pas iorub, haviam transformado as
zonas litorneas em focos de imigrao relativamente seguros e atrativos para as
populaes do interior, onde se concentrava o essencial dos combates; o comr-
cio martimo que, com o abandono do trfico de escravos em prol das trocas
"legtimas", tomaram carter permanente, assim conferindo s regies costeiras
uma vantagem econmica incontestvel; finalmente, a contnua expanso dos
interesses europeus, ampliadora do papel tradicional de muitas cidades do litoral,
como Lagos, Porto-Novo e, posteriormente, Cotonou, na justa e proporcional
medida em que elas assumiam novas e crescentes funes, tanto como portos
quanto na qualidade de capitais dos nascentes Estados coloniais e das naes
africanas independentes que lhes sucederiam.
    De todo modo, foi o fator econmico que aparentemente desempenhou,
nestas mudanas, o papel determinante, especialmente no referente  presena
europeia. Foi o comrcio que conduzira os europeus  frica; ele foi o motivo
da sua permanncia.


39   S. A. Akintoye, 1969; A. I. Asiwaju, 1976, pp. 18 e 19.
838                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880



   O sculo XIX seria um perodo particularmente crtico em razo da aboli-
o do trfico de escravos ter abalado a estrutura de trocas, das quais ele fora
o principal componente h trs sculos. Designada nos documentos europeus
anteriores  abolio sob a nomenclatura "costa dos escravos", a parte da frica
Ocidental que nos ocupa foi um dos mais ativos focos do trfico negreiro; se
a passagem para o comrcio "legtimo" efetuou-se sem muitos choques, justa-
mente e em ltima anlise, esta situao deveu-se  capacidade de adaptao
das sociedades autctones, s quais cabe o mrito.




figura 26.8 Esttua de um homem em p, brao direito levantado e esquerdo dobrado, considerada uma
representao simblica do rei Ghezo (1818-1858).
figura 26.9 O rei Gll (1858-1889), simbolicamente sob a forma de um leo. [Ilustraes: Photothque,
Muse de l'Homme, Paris.]
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                     839



    No existe, indubitavelmente, melhor exemplo a este respeito que o caso
do Daom, tradicionalmente considerado como o ltimo pas da frica Oci-
dental a capturar e vender escravos. Se, em 1851, a esquadra antiescravista
britnica, por sua vez, alcanara jugular o trfico transatlntico ao longo da
costa, na regio de Porto-Novo, o porto daomeano de Ouidah, a seu turno,
no abandonaria realmente este trfico seno aps abolio da escravatura
no Brasil, em 188840. Esta complacncia do Daom transformou a costa aja
e, especialmente, a poro do litoral compreendida entre Weme e Mono, em
um territrio preferencial para os negreiros portugueses (em sua maioria
brasileiros) que haviam sido expulsos de portos como Lagos e Badagri, nos
quais as medidas antiescravistas dos britnicos haviam muito cedo entrado
em vigor. O Daom continuou a praticar o trfico de escravos, desde que
houvesse clientela.
    Na realidade, as autoridades daomeanas no podiam compreender as razes
pelas quais muitas delegaes, britnicas e francesas sucessivas, lhes houvessem
solicitado impor um termo a este trfico, enquanto os negreiros portugueses
instalados no Brasil prosseguiam o seu trfico nos portos daomeanos.
    O Daom seria todavia levado a compreender que as coisas cambiavam.
Ele visivelmente iniciou a sua adaptao em face das novas realidades, aproxi-
madamente em meados do sculo, ocasio em que, sob o impulso da feitoria
francesa Victor Rgis, o seu soberano, o rei Ghezo (aproximadamente nos anos
1818-1858), foi persuadido a desenvolver o comrcio do leo de palma, inicial-
mente de modo complementar e, posteriormente, como principal componente
da sua atividade econmica voltada para a exportao41. Para passar do trfico
de escravos ao comrcio "legtimo", ele foi obrigado a conservar maior volume
de prisioneiros de guerra, com vistas a assegurar o bom andamento e a expan-
so da indstria do leo de palma. Assim sendo, existiam escravos empregados
no carregamento de mercadorias entre o interior e o litoral, em lugar de serem
vendidos como itens de exportao. No momento da conquista francesa, nos
anos 1892-1894, as bases da economia daomeana, fundada na monocultura
dos elis, j haviam sido lanadas. Este tipo de evoluo desdobra-se em outras
partes da regio Mono-Nger, como em pas iorub, onde cativos que at muito
recentemente seriam vendidos e deportados para o estrangeiro, estavam desde
logo e em massa empregados na explorao das plantaes ou no transporte das
mercadorias entre as regies interioranas e o litoral.

40   E. Soumoni, 1983; P. Verger, 1976.
41   E. Soumoni, 1983.
840                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Em suplemento, o movimento abolicionista teve outras consequncias de
grande alcance para a regio Mono-Nger, dentre as quais as mais importantes
so incontestavelmente aquelas tocantes ao processo de modernizao. O fator,
a este respeito, mais determinante foi, manifestamente, o retorno dos escravos
libertos - em sua maioria os "Saros" de Serra Leoa e os "Amaros", ou "brasileiros"
da Bahia, porm igualmente de Cuba e outras regies das Antilhas. Alm de
terem justificado originalmente a chegada dos missionrios cristos europeus,
dos quais conhecemos a ao modernizadora no golfo da Guin42, estes africa-
nos libertos desempenharam, nos primrdios, o papel crucial correspondente a
representarem a primeira gerao de classe mdia no continente. Em razo da
sua submisso, segundo a frmula de um autor,  "dura escola da escravatura"43,
os libertos em retorno de Serra Leoa constituam uma "elite j formada" e
profundamente ligada aos modelos culturais da Inglaterra vitoriana de ento,
ao passo que aqueles vindos do Brasil eram artesos, comerciantes, mecnicos
e "cultivadores experientes". Alguns atuaram como pioneiros, seja a servio das
Igrejas crists,  imagem do bispo Samuel Ajayi Crowther e do reverendo James
Johnson (por vezes chamado "santo" Johnson), ilustres na regio da Nigria, seja
no estudo das lnguas africanas, no mbito da atividade grfica, na edio ou no
desenvolvimento de outras atividades do mesmo gnero, a exemplo de outros
menos proeminentes.
    Primeiramente estabelecidos ao longo do litoral, em cidades como Ouidah,
Agou, Porto-Novo, Badagri e Lagos, eles todavia tornaram sensveis  sua
influncia e  sua ao, em territrio muito mais distante, nos confins do pases
iorub e aja, e alm deles. Na realidade, a verdadeira insero da dispora dos
"Saros" em pas iorub ocorreu sobretudo em Abeokuta, comparativamente a
Lagos; e a influncia da arquitetura brasileira - um dos principais marcos da pre-
sena dos brasileiros em Lagos, no sculo XIX - se havia estendido, fato pblico
e notrio, at Ijebu Ode, Ibadan e Ilesa. Os "Saros" e "Amaros" estabeleceram-se
voluntariamente ao longo do golfo do Benin, sem sofrerem excluso ou segrega-
o: alguns "Saros" viviam e trabalhavam em Porto-Novo ou mais a Oeste44, ao
passo que, na colnia de Lagos - particularmente sob a administrao de Alfred
Moloney (em mltiplas ocasies governador entre 1878 e 1890) -, a poltica
britnica favorecia expressamente a implantao dos "brasileiros". No entanto, a
cultura e a histria representaram fatores de diferenciao entre os dois grupos,

42    J. F. A. Ajaya, 1969; E. A. Ayandele, 1966.
43    A. B. Aderibigbe, 1959, p. 174.
44    P. Verger, 1976, pp. 536-537.
Daom, pas iorub, Borgu (Borgou) e Benim no sculo XIX                      841



suscitando o surgimento de reas de efetiva concentrao e de influncia global
bem distintas. Assim sendo, os "Saros" anglfonos, majoritariamente protestan-
tes, marcaram sobremaneira a sua presena na regio situada a Leste do vale
do Weme, a qual se havia tornado, ao final do sculo, uma zona de influncia
colonial anglo-sax, antes de passar para o controle britnico.
    Rumo ao Oeste, os africanos do Brasil, em sua maioria catlicos e lusfonos,
primeiramente encontraram um ambiente cultural mais acolhedor em Porto-
Novo e Ouidah, onde os havia precedido uma comunidade "brasileira", fundada
por negreiros portugueses do Brasil, constrangidos a circunscreverem-se em sua
totalidade nos limites da costa aja, em consequncia das atividades desenvolvidas
mais a Leste, pela esquadra antiescravagista britnica. A chegada dos franceses,
substitutos dos portugueses nesta parte do golfo de Benin, a Oeste do Weme,
suficientemente preservara a cultura latina, a ponto de conferir maior poder atra-
tivo a esta regio, aos olhos dos negros do Brasil, comparativamente ao exercido
pelas regies situadas mais a Leste, nas quais esta cultura estaria condenada a
desaparecer. Outrossim, seria neste territrio do futuro Daom francs - em
outros termos, na parte ocidental da regio que nos interessa - que os africanos
do Brasil exerceriam a maior influncia. Alm de terem colaborado com os fran-
ceses com o objetivo de ajud-los a conquistar o Daom e transform-lo em uma
nova colnia, os "brasileiros" foram posteriormente os mais prestes a plenamente
tirar proveito da educao colonial francesa, contribuindo assim, decisivamente,
a fazer do Daom o "Quartier latin da frica Ocidental francesa"45.
    No se deve todavia acreditar que esta dicotomia, ao nvel dos focos de influ-
ncia entre "Saros" e "brasileiros", em nada contradiga a ideia segundo a qual a
regio compreendida entre o Mono e o Nger desenvolveu-se, em seu conjunto,
como um todo homogneo. A fora dos sentimentos de solidariedade, fundados
em laos de parentesco especficos e afinidades histrico-culturais gerais, que
uniam os descendentes dos da Silva, d'Almeida, dos Regos, de Souza, Pedro,
Martin, Pereira e outros, de Lagos, como de Ouidah, Agou ou Porto-Novo,
deve prevenir contra tal interpretao. Com efeito, a perpetuao at os dias
atuais dos laos de unio entre as famlias dos brasileiros da frica Ocidental
s suas bases originais no Brasil, especialmente no Estado da Bahia, ilustra de
modo impactante a unidade fundamental da frica, no somente em respeito
 sua histria, mas, em suplemento, em referncia aos contatos de importncia
vital que o continente manteve com a dispora negra.


45   D. d'Almeida, 1973, captulos 1 e 2.
O delta do Nger e Camares                                                843



                                CAPTULO 27


                O delta do Nger e Camares
                                 Ebiegberi J. Alagoa
                      com as contribuies de Lovett Z. Elango
                            e de Nicolas Metegue N'Nah
                      para Camares e Congo, respectivamente




    O presente estudo dedica-se  regio e ao litoral do golfo do Benin e da baa
de Bonny, antigo Biafra, estendida do esturio do Benin, a Oeste,  bacia de
Ogou, a Leste. No Oeste, a maior parte da regio costeira, aqui compreendidos
as regies alagveis e os mangues do delta do Nger, era habitada pelos ijo; entre-
tanto, vastas zonas do delta assim sofreram a influncia do pequeno reino de
Itsekiri, situado em sua poro mais ocidental. Foi nas terras interioranas, ime-
diatamente a Oeste desta regio, onde se estabeleceu o potente reino do Benin,
no qual viviam diversos grupos a ele ligados por laos polticos ou culturais. O
imenso interior igbo estendia-se de cada lado da poro norte do delta do Nger,
nas duas margens do curso inferior do rio. O pas igbo era muito mais vasto na
parte ao Leste do rio, prolongando-se at o Norte da bacia do Cross.
    Ao Leste do delta do Nger, corre o Cross, cujo esturio, no sculo XIX
era dominado pelo Estado efik de Calabar. O resto do vale do Cross era e
permanece essencialmente habitado por diversos grupos ibibio e, em sua parte
setentrional, por um mosaico de povos aparentados aos bantos. A quarta sub-
-regio compreendia a costa de Camares e o seu interior, a Leste do Cross. A
quinta regio englobava a bacia do Ogou e as regies circunvizinhas da Guin
Equatorial e do Gabo.
844                                                                frica do sculo XIX  dcada de 1880
figura 27.1   O delta do Nger e Camares no sculo XIX (segundo E. J. Alagoa).
O delta do Nger e Camares                                                      845



   Todas as populaes da regio estavam ligadas entre si desde tempos pr-
-histricos; pertenciam todas, na realidade,  famlia lingustica ngero-congolesa1.
Os igbo e as outras populaes da periferia do delta do Nger eram ligados 
subfamlia dos kwa, ao passo que as populaes do vale do Cross e a maioria das
populaes litorneas de Camares e da Guin Equatorial eram grupos bantos.
Os ijo do delta constituam uma subfamlia distinta.
   Antigos parentescos, atestados por semelhanas lingusticas, tradies liga-
das  origem dos povos e migraes, foram reforados, no sculo XIX, por
contatos comerciais2. Anteriormente ao sculo XIX, as rotas comerciais atra-
vessavam o delta do Nger de Leste a Oeste e penetravam rumo ao interior
onde cruzavam outras rotas orientadas para o Norte. O Nger, o Cross e os
outros grandes cursos d'gua da regio, eram artrias comerciais que serviam
como elo entre as populaes instaladas s suas margens, as quais recebiam as
mercadorias que lhes eram encaminhadas atravs das rotas interioranas, tais
como aquelas ligando o vale do Cross ao interior da regio camaronesa e a
costa, ao Sul.
   O comrcio europeu realizado ao longo da costa e, posterior e paulatina-
mente, rio-acima pelos cursos d'gua, utilizava os antigos centros comerciais
do litoral para receber as mercadorias do interior. A presena europeia na
costa representou, por conseguinte, um novo fator de unidade na histria
da regio, em razo da semelhana entre os problemas por ela provocados e
pelas mudanas por ela incitadas. Assim sendo, cada uma das populaes da
regio, em face das influncias estrangeiras e do desafio da intruso europeia,
foi conduzida a adaptar as suas estruturas sociais, polticas e culturais. A
influncia europeia fez-se sentir nas seguintes esferas: no trfico de escravos
e nos efeitos da sua abolio, no sculo XIX; na passagem do trfico de escra-
vos para o comrcio dos produtos locais, por vezes denominado "comrcio
legtimo"; na chegada dos missionrios cristos  regio; e, finalmente, no
incio do imperialismo europeu e da conquista colonial. Desde logo, convm
analisar estes diferentes aspectos da questo relativamente a cada sub -regio,
com o objetivo de extrair uma ideia geral da histria do conjunto da regio
no sculo XIX.




1    J. H. Greenberg, 1966.
2    E. J. Alagoa, 1970; R. Harris, 1972; E. M. Chilver, 1961.
846                                                                        frica do sculo XIX  dcada de 1880



      O delta do Nger
      O Oeste do delta
   O reino itsekiri de Warri (Ode Itsekiri) foi, do sculo XV ao incio do sculo
XIX, o mais importante centro comercial e poltico da parte ocidental do delta
do Nger. Os ijo, estabelecidos de parte a outra dos itsekiri, eram mais numero-
sos; porm, no criaram entidades polticas centralizadas suficientemente fortes
a ponto de lhes estabelecerem uma real concorrncia. No interior mais prximo,
os urhobo e os isoko estavam, igualmente e em certa medida, organizados em
comunidades descentralizadas e forneciam escravos, assim como ulteriormente,
leo de palma e de palmiste aos intermedirios itsekiri. Contudo, at o sculo
XIX, os viajantes europeus consideravam o reino itsekiri como um simples
"principado" do reino do Benin. Habitualmente, aqueles que se deslocavam para
a parte ocidental do delta do Nger atravessavam portanto o Benin at o porto
de Gwato (Ughoton), onde negociavam com os agentes da oba do Benin.
   Aproximadamente a partir do final do sculo XVII, a influncia direta do
reino do Benin sobre a parte ocidental do delta do Nger comeou a declinar e
os comerciantes europeus emprestaram os portos do delta, Escravos e Forcados,




figura 27.2 Uma localidade itsekiri no rio Benin, nos anos 1890. [Fonte: H. Ling Roth, Great Benin, its
custom, art and horrors, 1903 (ilustrao original publicada em Globus, vol. 1, p. XXII), Kings and Sons, Halifax,
reproduzida com a autorizao do Conselho Administrativo da Universidade de Cambridge.]
O delta do Nger e Camares                                                                            847




figura 27.3 Nana Olomu de Itsekiri. [Fonte: O. Ikime, Merchant Prince of the Niger delta: the rise and fall
of Nana Olomu, last governor of the Benin river, 1968, Heinemann, Londres.]
848                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880



situados nos esturios do Benin. Por volta do incio do sculo XIX, muitos chefes
itsekiri deixaram Warri (Ode Itsekiri) para estabelecerem feitorias no esturio
do Benin e, muito rapidamente, o porto beninense de Gwto (Ughoton) deixou
de ser um centro para o comrcio exterior. Deste modo, no curso do sculo XIX,
os itsekiri tornaram-se os verdadeiros mestres do comrcio do delta ocidental
e foram eles que abasteceram o reino de Benin em mercadorias europeias3. O
Benin, tentando manter o seu domnio sobre o reino itsekiri, exigia de olu de
Warri o pagamento de um tributo, realizado com artigos oriundos do trfico, sob
pena de fechamento das rotas comerciais no interior do pas. Olu Akengbuwa,
contudo, soube resistir ao oba de Benin, inclusive a ponto de conceder asilo a
um chefe dissidente beninense. Mas, aquando da morte de Akengbuwa, em
1848, os seus sujeitos acreditaram ter ele sido vtima de uma maldio do oba,
 qual igualmente atribuiu-se o fato dos itsekiri terem sido privados de chefe,
entre 1848 e 1936.
    Olu Akengbuwa instalara agentes, os "governadores do rio", no esturio do
Benin, com o objetivo de recolher os impostos junto aos comerciantes europeus
e fixar o preo dos produtos. No incio do sculo XIX, os "governadores do rio"
eram de fato os mais elevados chefes na hierarquia, como o iyatsere (capito de
guerra) e o uwangue (porta-voz do chefe e guardio das insgnias reais). Porm,
durante os anos 1840, Akengbuwa confiou estes postos aos seus filhos. Conse-
quentemente, aps 1848, o procedimento de nomeao para este cargo tornou-
-se impreciso e os cnsules e comerciantes britnicos intervieram em numerosos
conflitos. Deste modo, eles empossaram Diare, em 1851, e depuseram Tsanomi,
o seu sucessor, em 1879, em razo da sua tentativa de forar os comerciantes
britnicos a pagarem um preo justo pelo leo de palma. Nana Olomu, o mais
clebre e ltimo dos "governadores do rio" Benin (1884-1894), foi obrigado a
travar uma guerra sangrenta com fuzileiros navais ingleses, antes de ser captu-
rado e exilado em Calabar, no ano 1894, vtima, entre outros, da conquista da
Nigria pelo Imprio Britnico.
    Os ijo do Oeste do delta controlavam a maioria das vias navegveis. Dada a
sua impossibilidade de diretamente entrarem em contato com os comerciantes
europeus, eles haviam recorrido  pirataria, perseguindo os navios dos europeus
e dos itsekiri. Entrementes, algumas comunidades ijo continuavam a manter,
em escala local, relaes comerciais com os itsekiri e com os outros grupos. Os
itsekiri forneciam cermica a comunidades ijo, como os Gbaramatu e os Bassan,


3     P. C. Llyod, 1963; O. Ikime, 1968; A. F. C. Ryder, 1961.
O delta do Nger e Camares                                                    849



alm de venderem sal aos comerciantes vindos do Leste do delta que, em seguida,
subiam o Nger. Os ijo de Egbema e Olodiama, os quais viviam na regio florestal
deste curso superior do Benin, igualmente fabricavam pirogas e recolhiam, nas
regies de lagunas, madeira para pintura por eles vendida no Oeste, em pas
Ijebu e inclusive em Lagos (Eko). Em contrapartida, os ijebu forneciam-lhes
tecidos de fabricao local. Outros ijo tambm trocavam peixe seco e sal, produtos
igualmente preparados pelos itsekiri, juntamente com os urhobo, isoko e igbo,
habitantes da periferia do delta e do curso inferior do Nger.
    No sculo XIX, o Oeste do delta no desempenhou um papel to impor-
tante, comparativamente ao Leste, no tocante  exportao de escravos, leo de
palma e palmiste. Assim sendo, nos anos 1840, somente duas empresas inglesas
comercializavam nos portos de Bobi e Jakpa; trs outras viriam agregar-se no
curso da dcada seguinte. John Beecroft, primeiro cnsul da Gr-Bretanha para
o golfo do Benin e a baa de Bonny, em 1849, instalou-se em Fernando Poo,
proximamente ao litoral camarons e  parte oriental do delta oriental do Nger.
Somente em 1891, um vice-cnsul seria enviado a Sapele, no delta ocidental,
para acompanhar a colonizao desta regio do interior do pas nigeriano. A esta
poca, a corrida para os territrios africanos j comeara e Nana Olomu deveu
combater para tentar interromp-la. Os missionrios seguiram o movimento
rumo ao delta ocidental do Nger.

    O Leste do delta
    Os grupos ijo do delta criaram instituies estatais em torno de algumas
cidades ou aglomeraes como Nembe, Bonny, Elem Kalabari e Okrika4. Estes
Estados ou, para retomar a terminologia de K. O. Dike5, estas "cidades-Estado"
haviam baseado as suas instituies originais sobre um alicerce comum, a saber,
as comunidades ijo com estruturas polticas descentralizadas, a Oeste e na parte
central do delta, ao empreendida com o objetivo de responder s condies
ecolgicas dos mangues a Leste do delta, s necessidades comerciais dos distan-
tes centros do interior do pas igbo (troca de peixe e sal contra inhame, escravos
e outros produtos) e s exigncias do comrcio do sal, dos objetos cermicos, de
subprodutos da mandioca e pirogas, com a parte ocidental do delta.
    Nestes Estados, o comrcio longnquo e o trfico atlntico de escravos esta-
vam nas mos dos dirigentes polticos, a saber, os reis ou amanyanabo, e os "chefes


4    R. Horton, 1969; E. J. Alagoa, 1917a.
5    K. O. Dike, 1956.
850                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



de casa" (chefes das wari, unidades polticas de carter familiar que constituam
as cidadelas). Os critrios oficiais de promoo neste sistema administrativo
facilitavam o recrutamento de novos membros, escravos ou refugiados.
     importante reconhecer esta situao dos Estados ao Leste do delta antes
do sculo XIX caso desejarmos melhor compreender as repercusses s quais eles
foram submetidos, em razo da influncia e da interveno europeias, sempre
crescentes ao longo do sculo seguinte. Foram as diferenas entre as situaes
iniciais que determinaram as distines entre os efeitos de influncias externas
semelhantes exercidas sobre os Estados do delta, bem como sobre Calabar e a
regio litornea de Camares.
    A abolio do trfico de escravos pela Gr-Bretanha, em 1807, representou
um importante fator de mudanas. Os esforos dos ingleses para imporem um
termo ao comrcio dos escravos haviam conduzido comerciantes, cnsules e ofi-
ciais da marinha britnica a empreenderem novas atividades e, por conseguinte,
estabelecerem um novo tipo de relao com os Estados do delta. Primeiramente,
estes esforos provocaram um fortalecimento da presena inglesa na baa de
Bonny. Assim sendo, por exemplo, em 1827, uma esquadra foi estacionada
em Fernando Poo e, em 1849, foi nomeado o primeiro cnsul britnico, John
Beecroft, para todos os territrios do golfo de Benin e da baa de Bonny. Alm
disso, o "Tribunal das Comisses Mistas" foi constitudo em Freetown (Serra
Leoa), para julgar os capites de navios negreiros capturados e libertar os escra-
vos. Para os Estados do delta, estes novos fatos implicavam a demonstrao
da potncia britnica em suas guas e inauguravam a era da "democracia dos
canhes": os cnsules britnicos serviam-se da potncia naval para negociar
melhores condies em benefcio dos seus compatriotas comerciantes, mission-
rios e exploradores. Na realidade, os cnsules continuaram uma poltica lanada
no decorrer dos anos 1830 por Edward Nicolls, governador de Fernando Poo,
inclusive intensificando-a, sobretudo aps 1850, poltica esta consistente em
assinar tratados com os chefes locais6. Estes tratados estipulavam que os chefes
deveriam eliminar o trfico de escravos e substitu-lo pelo "comrcio legtimo"
(ou seja, pelo comrcio de gneros diferentes dos escravos), eles enunciavam
regulamentos para a realizao do comrcio legtimo e estipulavam as tarifas
aduaneiras (comey) impostas aos comerciantes, assim como os subsdios que o
governo britnico deveria conceder aos dirigentes locais que houvessem renun-
ciado ao trfico de escravos.


6     G. I. Jones, 1963, pp. 221-242; E. J. Alagoa e A. Fombo, 1972, pp. 90-121.
O delta do Nger e Camares                                                     851



    Todos estes aspectos da atividade britnica na costa testemunham da gradual
degradao do poder dos dirigentes locais, eroso particularmente manifesta
quando os cnsules e oficiais da marinha ajudaram os comerciantes ingleses a
criarem o seu prprio sistema judicirio, superposto s leis locais, instituindo
as "Courts of Equity", tribunais essencialmente compostos por comerciantes
britnicos, dos quais participavam alguns chefes locais. Naturalmente, estes
tribunais encontravam-se submetidos  autoridade dos ingleses e no quela
dos chefes locais.
    Aos cnsules e oficiais da marinha britnica, instalados na costa,
acrescentavam-se os comerciantes e missionrios britnicos que tentavam
penetrar no interior do pas, por exemplo, patrocinando viagens de explorao.
Os esforos empreendidos pelos ingleses, durante muitas dcadas, para des-
cobrirem o curso e a nascente do Nger, foram coroados de sucesso em 1830,
quando Richard e John Lander foram a Aboh e Nembe (Brass), aps convite
do rei Boy Amain. Quando descobriram que os numerosos esturios do delta
eram vias de acesso ao grande rio Nger, os ingleses redobraram o interesse
por uma regio que lhes abriria a rota, rumo s ricas extenses territoriais
interioranas da Nigria e da frica Ocidental. Durante os anos 1830 e at o
final dos anos 1850, comerciantes britnicos como McGregor Laird, homens
guiados por um ideal humanitrio e missionrios tentaram subir a partir do
delta rumo ao interior do pas.
    Na zona oriental do delta, sob a direo do bispo Ajayi Crowther, antigo
escravo nigeriano, a Church Missionary Society criou misses em Bonny, no ano
1864, em Twon-Brass, no reino nembe, no ano 1868, em Elem Kalabari (nos
documentos chamados New Calabar), no ano 1874, e em Okrika, no ano 1880.
Em Bonny e Nembe, as autoridades locais convidavam os missionrios por
algumas razes especficas. Alguns pretendiam que eles abrissem escolas onde
as suas crianas pudessem aprender a ler, escrever e falar ingls, para facilitar as
suas relaes comerciais com as empresas britnicas. Eles acreditavam que, ao
autorizarem a instalao dos missionrios, contribuiriam assim para melhorar
as relaes junto ao governo britnico, representado pelos cnsules e oficiais da
marinha, assim como e consequentemente, para consolidar a sua posio em
suas lutas intestinas pelo poder, travadas com os pases vizinhos. Estas mesmas
razes por vezes levaram  rejeio dos missionrios em outras partes da zona
oriental do delta. Foi assim que, aps a instalao da Chuch Missionary Society
em Bonny, Jaja de Opobo, que se separara de Bonny em 1869 para formar o
seu prprio Estado, Opobo, sequer admitia meno a esta misso. A criao de
misses crists chocava-se todavia com potentes interesses, haja vista que, no
852                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 27.4    O rei Jaja de Opobo. [Ilustrao: Nigerian Information Service Centre, embaixada da Nigria,
Paris.]



sculo XIX em todos os Estados do delta, o cristianismo representou um fator
de agitao social. Segundo o professor Dike, o cristianismo teria transformado
os escravos em revolucionrios, os quais estariam na origem de levantes nestes
Estados; porm, trabalhos recentes mostraram ser necessrio atribuir a outros
fatores sociais e polticos os problemas que os Estados do delta conheceram no
sculo XIX7.
   Os problemas sociais dos Estados do delta podem ser explicados em funo
das dificuldades equivalentes, para os grupos dirigentes,  passagem de uma
economia fundada no trfico de escravos para uma economia baseada no leo
de palma e de palmiste. Estes grupos, praticantes de longa data do trfico, no
estavam conscientes da fora dos elementos externos, subjacentes ao movimento
abolicionista, e no demonstravam capacidade em consagrarem-se inteiramente
a um comrcio novo e difcil. Esta reorientao supunha uma mudana de anti-
gos hbitos e mtodos comerciais, assim como das relaes comerciais com novos
comerciantes brancos. No plano interno, por outro lado, era relativamente difcil


7     K. O. Dike, 1956, notadamente captulo V, pp. 135-165; E. J. Alagoa, 1971b; G. I. Jones, 1963, pp. 124-
      -132, 150-161.
O delta do Nger e Camares                                                   853



tratar o leo de palma e quebrar o babau para dele extrair o leo de palmiste.
Os comerciantes do delta deviam penetrar mais profundamente no interior do
pas para atingirem as zonas de produo, alm de ser-lhes necessrio utilizar
pirogas e uma mo-de-obra mais numerosa. Esta situao era capaz de provocar
a queda de dirigentes h muito no poder e propiciar a ascenso de novos chefes
empreendedores. Ela teve trs grandes consequncias: primeiramente, as exign-
cias do novo comrcio provocaram um recrudescimento do trfico de escravos
no interior do pas, com vistas a satisfazer necessidades referentes  mo-de-
-obra, nos Estados do delta; em segundo lugar, o desenvolvimento de novas casas
administrativas e novos chefes perturbou o equilbrio poltico interno (consultar
"As revoltas de escravos" de Dike); e, em terceiro lugar, a luta pelos mercados
interioranos esteve na origem de muitas guerras entre os Estados do delta.
    A introduo de escravos nas comunidades do delta comeara bem antes
do sculo XIX e cada Estado j estabelecera modalidades de integrao para os
novos componentes da sociedade. Entretanto, na maioria dos Estados durante
o sculo XIX, aumentou o nmero de escravos a serem integrados e a sua
aculturao foi realizada segundo novos e radicais mtodos. Em quase todos os
Estados do delta, raspava-se ritualisticamente o crnio do novo escravo como
aquele de um recm-nascido, buscando assim simbolizar o seu renascimento na
comunidade. Desde logo, ele tornava-se filho de um dos ancios da famlia do
chefe que o comprara. O escravo assim adquiria todos os direitos de um membro
de uma unidade familiar, alm de poder, segundo as suas capacidades, evoluir na
hierarquia do grupo, bem como dele tornar-se um chefe.
    Pertencer a sociedades secretas ekine ou sekiapu provocava uma rpida acultu-
rao dos escravos, nos planos folclrico e lingustico. Em certos Estados, como
Elem Kalabari, os membros de uma milcia, os Koronogbo, aterrorizavam aqueles
que no adotassem, completa ou rapidamente, a sua cultura. Nestas condies, os
escravos no tinham identidade social prpria, no constituindo um grupo assaz
distinto, nem tampouco suficientemente vtima de medidas discriminatrias, a
ponto de serem levados  revolta ou serem capazes de empreend-la.
    Todavia, o recrutamento de mo-de-obra para o comrcio do leo de palma
aumentou o nmero de pessoas dependentes de chefes secundrios, as quais
finalmente separar-se-iam do seu grupo familiar. O crescimento de algumas
famlias, atravs da formao de novos ramos familiares, acontecia por vezes 
custa de famlias mais antigas, abandonadas por alguns dos seus membros, em
prol de outras mais prsperas, em razo de endividamento ou outras causas.
Esta concorrncia para o comrcio e a mo-de-obra rapidamente provocou
uma perturbao no equilbrio das riquezas e do poder poltico em nvel local.
854                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



Inclusive nas antigas famlias, o poder trocou de mos. Assim sendo, ao longo do
perodo crucial 1860-1870, Jaja e Oko Jumbo, ambos descendentes de escravos,
tomaram a frente das duas faces reais de Anna Pepple e de Manilla Pepple, no
reino de Bonny. A luta pelo poder no Estado de Bonny, durante os anos 1860,
desdobrou-se na criao, em 1869, do novo Estado de Opobo, do qual Jaja foi o
amanyanabo ou o rei. Convm notar que o monarca reinante de Bonny, George
Pepple (1866-1888), foi incapaz de impor um termo  luta das faces.
    Elem Kalabari conheceu, em 1882-1884, uma crise similar quela de Bonny.
Duas faces, ambas de ascendncia real, lutavam pelo poder. A faco de
Amakari saiu vitoriosa e aquela de Barboy ou de Will Braide foi obrigada
a instalar-se na nova cidade de Bakana. No entanto, inclusive o grupo vito-
rioso foi obrigado a deixar Elem Kalabari, perigosamente prxima do Estado
rival de Bonny. Duas novas cidades foram fundadas no imediato posterior ao
desmembramento de Elem Kalabari: Buguma, onde residia Amakiri, o chefe
superior de Kalabari, e Abonnema, ambas mais prximas dos planaltos das
regies interioranas.
    Nos dois outros Estados ao Leste do delta, Nembe e Okrika, o sistema pol-
tico no sofreu nenhuma perturbao importante. A nica crise interna, jamais
outrora ocorrida no Estado de Nembe, no sculo XIX, sobreveio aquando dos
funerais do rei Ockiya, em 1879, durante os quais os cristos e os adeptos da
religio tradicional disputaram entre si o direito de praticar os ritos fnebres
sobre os restos mortais do defunto. O acordo produziu-se baseado em um com-
promisso, segundo o qual cada grupo praticaria os ritos isoladamente do outro.
Os escravos e os homens livres no constituam faces distintas. Durante o
sculo XVIII, Nembe e Okrika haviam conhecido grandes crises polticas, com
a chegada ao poder de novas dinastias, dos mingi, no Nembe, e aquela dos ado,
no Okrika. Estas dinastias ainda estavam no poder no sculo XIX e nenhuma
oposio relevante se constitura. Convm notar que o comrcio destes dois
Estados com o estrangeiro no atingia nvel similar quele dos Estados de
Bonny e de Elem Kalabari.
    O reino de Elem Kalabari aparentava ser o piv do equilbrio de poder no
Leste do delta. Em meados e ao final do sculo XIX, ele lutou contra Nembe, no
Oeste, contra Bonny, no Sudeste, e contra Okrika no Leste. Estes outros Estados
eventualmente formavam alianas, embora Okrika tenha dificilmente suportado
a sua situao de aparente dependncia perante o reino de Bonny, do qual ele
utilizava o porto para exportar os seus produtos. O reino de Elem Kalabari,
entretanto, teve um aliado, ao menos contra o Estado de Bonny, aps a instalao
de Jaja em Opobo, no ano de 1869. At o final do sculo, Opobo tentou manter
O delta do Nger e Camares                                                  855



Bonny distante dos seus tradicionais mercados no vale do Imo. Tornou-se, por
conseguinte, ainda mais urgente para Bonny buscar outros mercados rio-abaixo,
rumo  foz do New Calabar, na regio de Obiatubo, reivindicada pelo Estado
de Elem Kalabari, assim como no territrio dos kalabari, at o Baixo-Nger, ao
Norte do pas Nembe. Os Kalabari, tambm eles, subiram os rios Engenni e
Orashi em territrios anteriormente submetidos  autoridade de Nembe.
    Os cnsules ingleses do litoral tentaram tirar proveito destas guerras entre
Estados para abrirem a rota rumo ao interior do pas, em benefcio dos seus
compatriotas comerciantes e missionrios. Eles se desdobraram para atuarem
como mediadores entre os Estados concernidos, por ocasio da concluso dos
tratados de paz. Assim sendo, atravs da sua mediao, tratados foram assinados
entre os Estados de Bonny e Elem Kalabari, em 1871, e entre Opobo e Bonny,
no ano 1873, Bonny e Elem Kalabari, em 1879, Elem Kalabari e Okrika, no ano
1871, e Nembe e Elem Kalabari, em 1871. As guerras travadas entre os Estados
no abalaram a sua resoluo consistente em impedir que os comerciantes euro-
peus se intrometessem em sua zona comercial ou ameaassem a sua soberania.
Desde 1854, os ingleses entraram em conflito com Willian Pepple, rei de Bonny,
quem eles foram obrigados a exilar em Fernando Poo, Ascension, Serra Leoa
e em Londres. A luta das faces lhes havia servido como pretexto. Em 1887,
eles no mais podiam invoc-la no momento em que provocaram a queda de
Jaja, rei de Opobo, quem se opunha  instalao de comerciantes britnicos no
vale do Imo. Os dirigentes de Nembe (Brass), reino situado no Nun, principal
afluente do Nger, estavam envolvidos em querelas que opunham, desde os anos
1830, os exploradores e os comerciantes ingleses s populaes locais, quando
alguns cidados britnicos haviam sido baleados, provocando a morte de alguns
dentre eles. Contudo, foi em 1895 que ocorreu a derradeira prova de fora, na
ocasio em que os nembe atacaram e destruram o principal depsito da Royal
Niger Company, em Akassa, protestando contra as tentativas realizadas pela
companhia com vistas a monopolizar o comrcio entre Akassa (no delta) e
Lokoja (na confluncia do Nger e da Bnou). No ano 1898, o rei de Okrika,
Ibanichuka, foi capturado pelo cnsul britnico em razo de ter se recusado a
obedecer s ordens da administrao do novo protetorado da Nigria do Sul.
O rei de Nembe, Koko, logrou escapar da priso escondendo-se nas longnquas
localidades do seu reino.
    Desta forma, por volta do final do sculo XIX, o poder passara s mos
dos britnicos na parte oriental do delta do Nger e, durante os vinte ou trinta
primeiros anos do sculo XX, estes Estados no poderiam coroar novos reis; no
856                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



entanto, a perda da sua soberania no provocaria o seu definitivo desapareci-
mento, tampouco dos seus valores culturais e sociais fundamentais.

      No interior do pas Igbo
    Durante muito tempo, o pas igbo aparentemente caracterizou-se por uma
populao relativamente densa e pela sua organizao em pequenas unidades
polticas. Estas caractersticas transformavam-no em um pas especialmente
vulnervel aos efeitos destruidores do trfico de escravos, na justa medida em
que no havia Estados assaz potentes a ponto de protegerem os seus residentes.
Com efeito, as diversas comunidades igbo, tudo leva a crer, envolveram-se em
guerras entre grupos, incurses e capturas de homens, por eles posteriormente
vendidos aos Estados do delta e aos efik de Calabar, os quais atuavam como
intermedirios. Em outros termos, embora o pas Igbo tenha fornecido a maioria
dos escravos vendidos nos portos de Bonny, de Elem Kalabari, no delta do Nger,
e em Calabar, no esturio do Cross, os igbo no entraram em contato direto
com os europeus antes dos ltimos anos do sculo XIX e no incio do sculo
XX. Quando houve o contato, ele ocorreu ao longo de vias navegveis como o
Nger, o Imo e o Cross. Assim sendo, os centros comerciais situados nestes rios,
onde se encontravam os atravessadores do litoral e os comerciantes do inte-
rior do pas, tornaram-se mais bem conhecidos que o restante do pas. Os aro,
controladores das rotas comerciais do interior e de alguns mercados nos quais
os intermedirios compravam escravos e posteriormente, leo de palma e de
palmiste, tornaram-se clebres pela sua aptido para o comrcio e pelos orculos
que eles ofereciam. Igualmente, as cidades ndoki de Akwete e Ohombele, no
Imo, serviam como centros comerciais para os Estados de Bonny e Opobo. No
Nger, os Estados de Aboh, Osomari, Oguta, Asaba e Onitsha transformaram-se
em centros comerciais e, consequentemente, em focos de influncia estrangeira
e para contatos com o exterior.
    O comrcio transatlntico de escravos, embora oficialmente abolido pelos
ingleses em 1807, persistiu no litoral at aproximadamente 1850. Durante a
segunda metade do sculo, desenvolveu-se o trfico interno em meio aos povos
do litoral, em razo das exigncias do comrcio do leo de palma. As demandas
similares por mo-de-obra destinada  explorao do leo de palma e de pal-
miste,  agricultura e aos servios rituais, encorajaram a continuao do trfico
de escravos em pas igbo8. O trfico e a escravatura devem, por conseguinte, ser


8     W. R. G. Horton, 1954; E. Isichei, 1973.
O delta do Nger e Camares                                                    857



considerados como um importante fator de mudana no pas igbo, durante a
maior parte do sculo XIX.
    O comrcio de escravos possua um carter eminentemente perturbador
sob diversos aspectos. Primeiramente, a maneira atravs da qual os escravos
eram obtidos tendia a destruir as estruturas sociais e polticas. Os fora da lei e
delinquentes eram reduzidos  escravatura. Alguns indivduos eram vendidos
durante os perodos de grande fome ou para a quitao de uma dvida. Porm,
 verossmil que a maioria dos escravos tenha sido obtida no decorrer de gran-
des capturas, incurses ou guerras. Sabe-se igualmente que o sacerdote dos aro
vendia as pessoas sempre que as julgasse culpadas. Mas a rede comercial dos
aro estendida sobre a maior parte do pas igbo obtinha a maioria dentre os seus
escravos em incurses efetuadas pelos seus aliados mercenrios, os abam, ohaffia,
abiriba e edda. Vemos, portanto, que a grande influncia exercida pelos aro no
pas igbo, por intermdio do seu orculo, no teve efeito unificador9. A influncia
dos aro distingue-se, conseguintemente, pelo carter violento inerente ao trfico
de escravos, originado na influncia religiosa precedentemente exercida pelos
nri sobre vastas regies do pas igbo.
    Igualmente, na esfera econmica, as atividades agrcolas normais devem
ter sido consideravelmente perturbadas. Alm disso, como era o caso entre os
atravessadores do litoral e os europeus, o produto obtido pelos igbo em troca
dos escravos que lhes eram fornecidos, no era proporcional a tudo que eles
perdiam em razo do trfico. Os escravos eram trocados contra sal, peixe, licores,
armas de fogo, chapus, colares e barras de ferro, cobre e bronze. As barras de
metal eram transformadas em objetos de estanho, sinos rituais, espadas solenes,
tornozeleiras ornamentais e outros adereos. Entretanto, o fornecimento destes
produtos metlicos substituiu as indstrias locais, levando os ferreiros akwa a
virarem as costas s suas fontes locais de metal. Do mesmo modo, a importao
de sal e de tecidos ps fim a indstrias locais.
    Os primeiros relatos diretos sobre as regies interioranas igbo foram repor-
tados na Europa por Richard e John Lander, em 1830, quando passaram por
Onitsha, Asaba e Aboh com o objetivo de alcanarem o delta do Nger. Eles
foram seguidos por outros exploradores, comerciantes e missionrios ingleses,
em 1841 e 1854. Em 1856, MacGregor Laird criou a primeira casa comercial em
Onitsha e, em 1879, a United African Company foi constituda em consequncia
da fuso de numerosas firmas britnicas rivais que tentavam se instalar ao longo


9    S. Ottenberg, 1958; F. I. Ekejiuba, 1972.
858                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



do Nger. Em 1886, uma carta real, transformando-a na Royal Niger Company,
conferiu-lhe poderes administrativos. Ela estabeleceu um dos seus principais
depsitos no territrio igbo, em Asaba, munindo-lhe de um posto policial e de
uma casa comercial. A atividade das misses, junto aos igbo do Nger, comeara
desde 1856 em Onitsha, sob a direo do bispo Ajayi Crowther e de outros
escravos libertos oriundos de Serra Leoa, dentre os quais alguns eram de origem
igbo e membros da Church Missionary Society. Entrementes, a Socit de Missions
Africaines (SMA), vinda de Lyon, estabeleceu misses catlicas rivais na margem
ocidental do Nger, aproximadamente a partir de 1880, primeiramente em Asaba
e, posteriormente, em Isele-Uku e Ibusa.
    Foram os comerciantes e missionrios que primeiramente penetraram em
pas igbo, seguindo o curso do Nger. Sabemos que eles se chocaram com a
resistncia da populao10. Junto aos igbo ocidentais, a resistncia tomou a forma
de revoltas organizadas pelas sociedades secretas ekumeku, entre 1898 e 1911.
Em um primeiro momento, a Royal Niger Company e, aps 1900, o governo do
protetorado britnico reprimiriam dura e brutalmente qualquer manifestao de
resistncia. O mais espetacular esforo dos ingleses foi, em 1900, a expedio
contra os aro que ocupou 15.500 km2 do territrio igbo, da qual participaram
quatro unidades provenientes de Unwana, Itu, Akwete e Oguta, convergentes
rumo a Bende e Arochukwu. Assim sendo, o pas igbo foi oficialmente con-
quistado no curso de uma operao pouco gloriosa, pois que o sistema dos aro,
militarmente atacado pelos britnicos, no passava, ao final das contas, de um
grupo de padres e comerciantes trabalhando em colaborao. As foras britni-
cas no encontrariam nenhuma resistncia armada. O desafio lanado pelos aro
contra a autoridade britnica fora indireto, ou seja, comercial e ideolgico.
    Todos os atuais estudos sobre a conquista do pas igbo pelos ingleses, os quais
desmontaram o sistema dos aro fundado no orculo e venceram a oposio da
sociedade secreta ekumeku, no interior do pas asaba, permitem compreender as
razes pelas quais, posteriormente, a sociedade igbo se abriria amplamente s
influncias estrangeiras. A converso para o cristianismo, por exemplo, tornar-
-se-ia "massiva" e "espetacular". Segundo F. K. Ekechi, "o movimento de massas
mais desconcertante da primeira dcada do sculo XX foi atribudo parcialmente
s tentativas realizadas pelos igbo com vistas a contornarem certos aspectos da
dominao britnica", ao passo que, para Simon Ottenberg, os igbo se teriam
demonstrado particularmente receptivos  mudana, em razo das suas estrutu-


10    F. K. Ekechi, 1972; P. A. Igbafe, 1971.
O delta do Nger e Camares                                                   859



ras sociais, da sua mentalidade e da sua histria11. Porm, nada comprova que os
igbo tenham realmente abandonado a sua cultura e a sua religio tradicionais,
para abraar o cristianismo de modo mais amplo, comparativamente  postura
de outros grupos da Nigria e do restante da frica.


     A bacia do Cross
    O Estado efik de Calabar, no esturio do Cross, controlava o comrcio na
regio ribeirinha deste rio. Ao longo do litoral, a sua zona comercial encontrava
a sua consorte no Estado de Opobo, situado na bacia do Ibeno e do Qua-Iboe.
Entretanto, o mais importante grupo tnico da bacia era formado pelos ibibio,
de onde provinha a maior parte dos escravos exportados a partir desta zona da
costa. Os produtos agrcolas, originrios do curso superior do Cross e do pas
igbo ao Nordeste, atingiam os mercados efik por intermdio dos aro, controla-
dores do mercado ibibio de Itu. Contudo, alguns dos grupos do curso superior
do Cross, os quais igualmente ensaiavam obter uma parte dos benefcios obtidos
atravs do comrcio com os efik, interceptavam as mercadorias ou impunham o
pagamento de taxas. De modo que os itu, os umon e os akunakuna, entre outros,
invariavelmente opunham-se, de forma ou outra, s feitorias de Calabar. Alguns
dos grupos do curso superior do Cross mantinham diretamente, tambm eles,
relaes comerciais com as populaes do Norte de Camares, bem como com
os Ikom, no Oeste, e com o Calabar, ao Sul.
    Embora o Estado de Calabar tenha, tambm ele,  imagem dos Estados do
delta, comercializado escravos, em seguida leo de palma e de palmiste, ele teve
uma histria diferente, porque o seu meio ecolgico e a sua estrutura social
eram diferentes. As duas principais comunidades do Estado efik - Duke Town
e Creek Town - estavam instaladas em terra firme, ao passo que, no Oeste, os
seus vizinhos viviam em regies de mangue do delta. Portanto, Calabar dispunha
de unidades agrcolas nas quais trabalhavam escravos e atravs das quais eram
satisfeitas algumas das suas necessidades, inclusive provendo-lhe alguns produ-
tos de exportao como o leo de palma. Porm, a estrutura social do Estado de
Calabar no favorecia a integrao dos escravos ao sistema poltico. Embora os
escravos domsticos que viviam nas cidades igualmente participassem do comr-
cio exterior e pudessem se tornar ricos e influentes, a sociedade secreta ekpe de
Calabar interditava-lhes o acesso aos graus superiores e, consequentemente, ao

11   S. Ottenberg, 1959; F. K. Ekechi, 1972, p. XIII.
860                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



poder de Estado. Esta atitude contrastava com aquela das sociedades ekine ou
sekiapu dos Estados do delta, as quais, abertas a todos, eram verdadeiras agentes
de aculturao e integrao dos escravos  comunidade.
    Os fatores externos de mudana representados pelos comerciantes, cnsules e
missionrios europeus, exerceram uma influncia maior em Calabar. Os comer-
ciantes no foram imediatamente autorizados a criarem feitorias em terra firme;
eles eram obrigados a viver sobre plataformas, navios cobertos e ancorados em
permanncia no rio, onde instalaram os seus alojamentos e escritrios. Eles ten-
tavam exercer alguma influncia oferecendo crdito aos mercadores efik e, por
vezes, recorriam a sanes econmicas, interrompendo coletivamente qualquer
comrcio com um negociante efik que faltasse com as suas obrigaes. No sculo
XIX, quando os efik comearam a se desentender entre si, os comerciantes
intervieram como rbitros e na qualidade de fazedores de reis.
    Os missionrios da Igreja da Esccia, instalados em Calabar, no ano de 1846,
formavam uma pequena colnia autnoma, estabelecida em Duke Town e Creek
Town, composta de cinco ou seis missionrios brancos, professores, domsti-
cas e convertidos. A misso servia como abrigo para os refugiados. Porm, os
missionrios igualmente observavam a vida local, endereavam relatrios ao
cnsul da Gr-Bretanha e tentavam exercer uma influncia moral ou intervir
por outros meios.
    Como o esturio do Cross era muito acessvel para a esquadra preventiva
britnica, estacionada em Fernando Poo, foi relativamente fcil impor um termo
ao trfico de escravos em Calabar. Um tratado de abolio foi assinado, em
1842, em virtude do qual as autoridades de Calabar deviam receber uma sub-
veno anual. A partir de 1842, a influncia britnica em Calabar gradualmente
acresceu-se, at a criao de um protetorado no ano 189112.

      O obong de Calabar
    Uma das razes da interveno britnica em Calabar foi a difcil posio
do seu rei, o obong, devida ao relativo ineditismo da instituio real. Viajan-
tes que percorreram o delta do Nger e seguiram o curso do Cross, no sculo
XVIII, falam de um rei nico para o pas do delta, mencionando todavia "reis"
(no plural) quando se trata de Calabar. Alguns destes dirigentes talvez fossem
chefes de linhagem ou nobres ekpe. A posio do obong (ou rei) no comearia
a consolidar-se seno a partir do incio do sculo XIX. Duke Ephram (Efiom)


12    D. Forde (org.), 1956; K. K. Nair, 1972; A. J. H. Latham, 1973.
O delta do Nger e Camares                                                  861



(aproximadamente 1800-1834) tornou-se o primeiro chefe superior de Duke
Town e o mais potente chefe ribeirinho do Cross. Eyo Honesty I de Creek
Town (morto em 1820) ocupava um posto semelhante em Creek Town. Em
razo das suas imensas riquezas adquiridas graas ao comrcio exterior, estes
dois homens impuseram-se perante os seus pares.
    A monarquia de Calabar, alm do seu ineditismo, era muito frgil sob
outros aspectos. Em primeiro lugar, dois reis rivais coexistiam, um em Duke
Town e outro em Creek Town; em segundo lugar, vrios dirigentes polticos
membros da sociedade secreta ekpe lutavam pelo poder. A sua rivalidade os
conduziu a solicitarem a arbitragem do cnsul da Gr-Bretanha, de comer-
ciantes ou missionrios britnicos e, sobretudo, no sculo XIX a funo de
obong finalmente identificar-se-ia com o comrcio exterior. As tradicionais
atribuies e autoridade do obong eram limitadas; toda a sua atividade balizava-
-se pelo comrcio com o estrangeiro. Ele cobrava as taxas ou comey junto aos
comerciantes estrangeiros, outorgava direitos de ancoragem e comrcio aos
sobrecargas e desencadeava os procedimentos judiciais tradicionais, caso o
pedido lhe fosse endereado. O poder de produzir leis e zelar pela sua aplica-
o pertencia ao chefe da sociedade secreta ekpe. A principal funo do obong,
no sculo XIX, era, portanto, servir como intermedirio entre as comunidades
locais e os brancos, de onde derivava o interesse acordado por estes ltimos
 sua nomeao.
    Os poderes relativos dos reis de Duke Town e Creek Town variaram durante
a primeira metade do sculo XIX. Duke Ephram de Duke Town (1800-1854)
era no somente o mais rico chefe da regio, mas, alm disso, portava o ttulo
de eyamba, mais elevada titulao na hierarquia da sociedade ekpe. Cabia-lhe
a maior parte do comey, do qual ele dividia o restante entre os outros chefes.
Aps a morte de Duke Ephram, Eyo Honesty I de Creek Town (1836-1858)
tornou-se o mais influente comerciante. Em 1852, ele j recebia dois teros do
comey, ao passo que o rei de Duke Town dele no arrecadava seno a tera parte.
Malgrado a riqueza dos reis de Creek Town, aqueles de Duke Town geralmente
lograram conservar o ttulo eyamba da sociedade ekpe, reservando aos soberanos
de Creek Town o segundo ttulo, obunko.
    Os conflitos sucessrios em Duke Town e Creek Town representavam uma
serssima fonte de dificuldades para o sistema poltico da regio. A linhagem
dos eyo muito cedo logrou consolidar a sua autoridade em Creek Town e a
conserv-la at o final do sculo. A linhagem rival dos akabom imigrou e fundou
Cobham Town. A situao era distinta em Duke Town. Quando Duke Ephram
morreu, em 1834, ele teve como sucessor Eyamba V, em outros termos, o quinto
862                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



eyamba da sociedade ekpe e no o seu filho ou de um membro da sua linhagem.
Aps a morte de Eyamba V, em 1847, as famlias do eyamba e de Duke Ephram
disputaram o poder entre si. Os ingleses empossaram um terceiro candidato,
Archibong I. Na ocasio da morte deste ltimo, em 1852, os comerciantes e o
cnsul reconheceram Ephram Duke, provocando um conflito entre as linhagens
de Duke, de Eyamba e Archibong. Uns e outros se acusavam mutuamente de
bruxaria e haviam recorrido a ordlias, utilizando com este objetivo um veneno
extrado da semente do eser ou fava-de-Calabar13.

      A sociedade ekpe e os bloodmen
    A sociedade ekpe de Calabar estava ligada a um culto do leopardo, praticado
por numerosos grupos florestanos do vale do Cross e de algumas regies de
Camares. Este culto tomava a forma de uma dana mascarada da qual par-
ticipavam jovens indivduos vestidos com um manto em rfia, cujo cerimonial
exigia das mulheres e pessoas estranhas  sociedade a permanncia em suas casas.
Cabendo aos membros o papel essencial referente a examinarem questes sociais
durante reunies hebdomadrias.
    A sociedade ekpe, composta nas localidades do interior por todos os ancios,
tornou-se, na sociedade comerciante de Calabar, uma organizao secreta e
fechada. Alm disso, ela se hierarquizou progressivamente e as suas patentes,
em nmero de cinco no ano 1828, passaram a dez em 1840 e a onze no ano
1858. Originalmente, os escravos estavam excludos da sociedade; no entanto, os
escravos da terceira gerao nascidos em famlias dos seus membros finalmente
seriam admitidos nas patentes inferiores. Todavia, como era necessrio pagar
para alcanar uma patente, os homens livres e afortunados da nobreza mono-
polizavam as patentes superiores, das quais as mais elevadas eram reservadas aos
chefes polticos de Duke Town e Creek Town.
    No sculo XIX a sociedade ekpe detinha os poderes legislativo e executivo
em Calabar e, a este ttulo, os europeus utilizaram-na. Assim sendo, em 1850,
missionrios, sobrecargas e o cnsul exerceram presses sobre as autoridades
de Calabar, para que elas promulgassem uma lei concernente  sociedade
ekpe, proibindo sacrifcios humanos aquando da morte dos chefes. A socie-
dade ekpe pode ser considerada como um trunfo interessante no sistema
poltico de Calabar, na justa medida que ela reagrupava todos os homens
livres, ricos e influentes no prprio seio da organizao. Porm, em meados


13    A. J. H. Latham, 1972.
O delta do Nger e Camares                                                                       863



do sculo XIX, o seu ostracismo perante os pobres e a numerosa populao
de origem servil, provocou distrbios sociais, as "revoltas de escravos", men-
cionadas por Dike.
    A associao dos Bloodmen, reagrupando escravos de plantaes, esteve na
origem de um grupo de presso destinado a impedir os sacrifcios de escravos
aquando da morte dos reis ou chefes de linhagem. Esta organizao, fundada
no pacto de sangue, pde constituir-se em Calabar em razo da concentrao
de escravos nas plantaes e dos males dos quais eles padeciam. Esta associa-
o todavia no desencadeou revoltas pela emancipao dos escravos ou pela
conquista do poder poltico controlado pela sociedade ekpe. O mximo que
ela pde fazer foi organizar uma grande reunio em Calabar toda vez que
um notvel estivesse convalescendo ou morrendo, assim como na ocasio em
que escravos corriam o risco de serem sacrificados ou submetidos  prova do
veneno. A sua agitao desdobrou-se na promulgao, pela sociedade ekpe,
em 1850-1851, da lei contra os sacrifcios humanos; e o rei Archibong I
julgou necessrio assegurar o seu apoio na luta contra as faces pelo ttulo
de obong.
    Portanto, Calabar conheceu uma histria social e poltica similar quela
dos Estados do delta, pelos tipos de presso externa aos quais estava exposto o
sistema poltico, porm distinta no tocante  maneira pela qual os problemas
eram internamente resolvidos. A sociedade ekpe, a situao da monarquia e os
Bloodmen so fenmenos prprios a Calabar.


     O litoral camarons e as regies interioranas14
   A costa de Camares, aqui includas algumas ilhas rochosas nela situadas,
geralmente apresenta-se sob a forma de um labirinto de mangues, baas e bra-
os de mar, aos quais imediatamente sucede a floresta tropical mida. Ela era
habitada pelos trs principais grupos bantos do Nordeste, a saber, os kpe-mboko,
os duala-limba e os tanga-yasa15, divididos em numerosos cls e subcls. Estas
populaes que, segundo as suas tradies, teriam origens comuns e afinidades,
eram essencialmente compostas por agricultores, pescadores e caadores. Nos
mercados, elas trocavam o peixe por produtos agrcolas. Elas estavam geralmente


14   Esta seo resume um estudo do Doutor Lovett Z. Elango, conferencista do departamento de histria
     da Universidade de Yaound.
15   E. Ardener, 1956, p. 39.
864                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



organizadas em vilarejos, mas, eventualmente, tinham  sua frente chefes de mais
baixo escalo, notadamente os bubi, dualas e isuwu. Relativamente aos dualas,
aos isuwu e a outros povos, a sociedade secreta mais prestigiada era o jengu,
fundada na venerao dos espritos da gua16.
    No sculo XIX, como no caso das populaes do delta do Nger, todas
estas sociedades bantas do Noroeste sofreram a presso das misses crists, dos
comerciantes e dos imperialistas europeus. Elas estiveram sobretudo expostas
aos ataques dos abolicionistas17, pois que, no incio do sculo, elas compreen-
diam uma casta inferior de escravos e os esforos empreendidos para abolir a
escravatura colocaram-nas em uma situao econmica crtica, obrigando-as a
encontrarem, por um lado, produtos como o leo de palma e de palmiste, capa-
zes de substituir os escravos, e, por outra parte, a mo-de-obra necessria  sua
produo e ao seu transporte.
    Os dualas de Camares provavelmente viviam no litoral desde o sculo XVI,
todavia, no fundariam um Estado seno aps terem submetido e integrado
outros grupos bantos, a partir de aproximadamente 170618. Eles possuam um
chefe superior; porm os comerciantes ingleses, instalados no rio, foram obri-
gados a intervir, desde 1792, em um conflito sucessrio. Eles impuseram aos
dualas um candidato de baixa linhagem, conhecido sob o nome de King Bell.
Em 1814, Akwa, mais popular candidato e melhor nascido, proclamou a sua
independncia. Por conseguinte, durante a maior parte do sculo XIX, os dualas
estiveram divididos em dois grandes grupos, os bell e os akwa; e era justamente
em torno dos reis Bell e Akwa que gravitava a vida poltica dos dualas. Os grupos
rivais eram subdivididos em "municpios" ou "distritos". Porm, para preserva-
rem a sua solidariedade tnica em face da tendncia  ciso, os dualas criaram
uma nova sociedade, o ngondo, assembleia de notveis dualas que compreendia
representantes de todos os conselhos dos diferentes vilarejos dualas19.
    Na vertente oeste do monte Camares e nas margens do Bimbia, afluente do
Camares, estava instalado o Estado isuwu de Bimbia, cuja principal atividade
era o comrcio. Este Estado, composto por trs vilarejos  frente de cada qual
havia chefes de linhagens assistidos por um conselho de chefes, era conhecido
como centro comercial secundrio, ao menos desde meados do sculo XVII. O
poder e a autoridade destes chefes e do prprio Bimbia derivavam do seu papel,


16    R. Bureau, 1962, pp. 107-138.
17    L. Z. Elango, 1974.
18    E. Mveng, 1963.
19    V. T. Levine, 1971.
O delta do Nger e Camares                                                                         865



na qualidade de intermediadores, exercido no comrcio exterior. Os chefes de
Bimbia igualmente obtinham o seu prestgio do jengu, do qual eles eram mem-
bros e sobre o qual se apoiavam.
    O mais rico e clebre dentre os prncipes comerciantes de Bimbia era Bile,
chamado rei William pelos europeus. A sua me era oriunda da famlia diri-
gente de Bimbia; porm, em sua infncia, ele vivera junto ao seu pai duala, na
foz do rio Camares. Conduzido a Bimbia por homens da sua famlia paterna,
ele estabeleceu laos mais estreitos com o primognito dos seus tios maternos,
que lhe empregara como emissrio para os assuntos ligados  sua relao com
os europeus, em virtude da experincia por ele adquirida junto ao seu pai. Bile,
fortalecido pelas suas riquezas, pela sua nova experincia e pela sua influncia,
foi designado como o sucessor lgico do seu tio. Em 1833, ele logrou con-
vencer o coronel Nicolls, representante da Gr-Bretanha em Fernando Poo, a
reconhec-lo como rei de toda a regio litornea, estendida de Bimbia a Rio del
Rey, incluindo as ilhas Bubi, oferecendo-lhe em contrapartida ceder esta regio
 Inglaterra sob a forma de protetorado. Malgrado a rejeio pelos ingleses a
esta cesso voluntria, Bile conservou o ttulo de rei at a sua morte, em 1879.




figura 27.5 A casa do rei Bell, na dcada de 1840. [Fonte: Allen e Thompson, Narrative of an expedition,
1848, Londres. Ilustrao reproduzida com a autorizao do Conselho Administrativo da biblioteca da
Universidade de Cambridge].
866                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



Portanto, os Estados de Duala e Bimbia estabeleceram relaes no sculo XIX.
Estes laos culturais foram fortalecidos tanto pela solidariedade dos membros do
jengu quanto pela ascendncia duala do rei William. Os negociantes de Bimbia
e de Bell Town cooperavam para o desenvolvimento do comrcio na regio do
Rio del Rey. Eles criaram duas rotas principais: a primeira foi a estrada costeira,
atravessando as enseadas que ligam as duas zonas, ainda atualmente utilizada.
Alguns comerciantes dualas ou originrios de Bimbia se haviam instalado em
diferentes vilarejos, situados ao longo da estrada, com o objetivo de fazerem
escambo com as populaes locais. A segunda estrada passava pelas terras e
era usada quando a estrada das enseadas apresentava perigos, em razo do mau
tempo e das condies martimas. Esta rota, contornando o monte Camares,
escoava igualmente os recursos em marfim. A rede de estradas comerciais do
interior das zonas comerciais de Bimbia e de Bell Town sobrepunha-se quela
dos comerciantes efik de Calabar e do Cross, em torno do Rio del Rey.
    A unidade comercial da regio Camares-Bimbia-Rio del Rey era tambm
intensificada pelas relaes que cada uma destas partes mantinha com as prada-
rias de Bamenda, no interior do pas20. Assim sendo, grande nmero de escra-
vos que atingiram o litoral entre os anos 1820 e 1840 provinham desta regio
e alcanavam Bimbia e o Camares passando pelo Rio del Rey. Entretanto,
aproximadamente em meados do sculo XIX, os mercadores de Bell Town e
de Bimbia, naquele momento j associados, haviam iniciado uma concorrncia
pacfica com os grandes negociantes do Rio del Rey.
    Os escravos que alcanaram o litoral ao longo dos anos 1840, os quais, em
sua maioria, haviam sido capturados durante invases dos Bali-Chamba, nas
pradarias de Bamenda, constituam um elemento decisivo na passagem das
sociedades costeiras, baseadas no trfico de escravos, para o comrcio legtimo.
No esturio do Wouri e em Bimbia, tanto quanto em Calabar e no delta do
Nger, os escravos eram empregados na extrao do leo de palma e de pal-
miste, bem como de outros gneros comerciais legtimos. Em Bimbia e nas
margens do esturio do Wouri, um sistema muito bem organizado permitia
aos reis William e Bell alugarem os seus escravos para a West African Company
de Fernando Poo. Este sistema era de carter contratual e constitua uma
fonte suplementar de riquezas para os dois monarcas. No entanto, em razo
de abusos, ele provocou uma investigao do Parlamento Britnico e levou o
rei William a protestar, no somente contra a no retribuio do trabalho dos


20    E. M. Chilver, 1961.
O delta do Nger e Camares                                                  867



seus homens pela companhia, mas, igualmente, contra os maus tratos que ela
lhes impunha.
    O interesse que os ingleses atribuam  abolio do trfico de escravos e 
instituio do comrcio legtimo desdobrou-se na assinatura de tratados e na
progressiva perda da soberania dos dirigentes locais. Em que pese a rejeio
do tratado de 1833, concludo entre Nicolls e o rei William, agentes britnicos
concluram, em 1840 e 1844, tratados que legitimavam a sua interveno na
poltica local. Esta interveno consistia, muito amide, em utilizar canhes
para intimidar os chefes que violassem as clusulas dos tratados ou com o
objetivo de recuperar somas devidas a europeus. Em 1852, John Beecroft inclu-
sive chegou ao ponto de presidir a eleio de um novo chefe para Akwa. A
interveno e a arbitragem dos ingleses eram eventualmente solicitadas pelos
chefes locais. O rei William, por exemplo, a ela recorreu para consolidar a sua
autoridade em Bimbia e Rio del Rey. Porm, as intervenes britnicas tinham
mais frequentemente como pretexto a mediao das disputas que opunham
europeus a comerciantes locais, aos quais eles haviam oferecido crdito. Em
1856, o sistema de arbitragem e soluo de conflitos entre africanos e euro-
peus fora institucionalizado e dependia de um tribunal denominado "Court of
Equity", sediado em Duala.
    Os missionrios representavam um importante elemento da influncia
estrangeira. Em 1843, a British Baptist Mission Society enviou para Fernando
Poo o mulato antilhano Joseph Merrick. Este ltimo criou, no mesmo ano, uma
misso em Bell Town e, posteriormente, em Bimbia21, no ano 1844. Progres-
sivamente, ele construiu igrejas, escolas e oficinas de marcenaria com os seus
colaboradores, alm de estabelecer uma grfica em Bimbia. Muito rapidamente,
o seu proselitismo suscitou a oposio das populaes locais. Os conflitos com
os missionrios intensificaram-se, ao longo dos anos 1850, com as epidemias de
varola, as guerras intertnicas e as grandes fomes, a tal ponto que os ingleses
foram obrigados a intervir para protegerem os missionrios e os convertidos.
Como o governador espanhol proclamara oficial o catolicismo em Fernando
Poo, no ano 1858, a situao dos batistas tornou-se insustentvel em Clarence.
Consequentemente, Alfred Saker fundou, em junho de 1858, na baa de Ambas,
uma nova colnia denominada Victoria. Entretanto, a oposio local aos batistas
permaneceu muito viva, com ainda maior intensidade em razo de numerosos




21   S. N. Gwei, 1966.
868                                                             frica do sculo XIX  dcada de 1880



colonos anglo-antilhanos de Victoria fazerem concorrncia aos comerciantes
de Bimbia.
    No decorrer dos anos 1860 e 1870, o comrcio do litoral de Camares peri-
clitou, criando um sentimento de insegurana junto aos dirigentes e a constante
insubordinao dos pequenos chefes locais. A situao conduziu, por conse-
guinte,  solicitao da proteo da rainha Victoria. Foi mediante estas circuns-
tncias que os alemes anexaram Camares em 1884. A resistncia  anexao
alem foi quase imediata e sustentada, em certa medida, pelos ingleses. Ela
se endureceu ainda mais, quando os chefes compreenderam que os alemes
estavam determinados a penetrar no pas e, por conseguinte, a destruir o seu
monoplio na intermediao. A resistncia e as tentativas de pacificao no
cessariam seno com o desencadeamento da Primeira Guerra Mundial22. Os
ingleses, por sua vez, demonstravam incapacidade em reverter a situao. Victo-
ria permaneceu como um nico ponto de apoio ingls; porm, uma vez mais, os
missionrios no estavam em condies de resistirem aos constantes ataques dos
alemes. Victoria foi finalmente cedida  Alemanha, em 28 de maro de 1887.
Os alemes imediatamente penetrariam no interior, at a regio de Bamenda,
para assegurarem o controle sobre o comrcio do interior do pas e afast-lo de
Calabar que comeara a atra-lo.

      A bacia de Ogou e as regies circunvizinhas23
   Ao Sul de Camares, a bacia do Ogou e as regies circunvizinhas (bacia do
Woleu, da Noya e do Como, rumo ao Norte, bacia da Nyanga, em direo ao
Sul) correspondiam, grosso modo, aos territrios da Guin Equatorial e do Gabo.
Em sua maior parte, coberta pela floresta equatorial, esta vasta regio compreen-
dida nos limites da bacia do Congo, a Norte e Leste, foi habitada pelo homem
desde os mais remotos tempos da histria, como atestam os vestgios de objetos
em pedra talhada descobertos durante escavaes arqueolgicas conduzidas em
diversos stios do Gabo, h cerca de vinte anos.
   Contudo, nada sabemos at o momento dos traos fsicos e tampouco sobre
os hbitos e o modo de vida destes primeiros habitantes da regio. Talvez eles
tenham sido os ancestrais dos pigmeus, atualmente encontrados de modo dis-
perso em pequenos grupos na floresta, onde vivem da caa e da pesca cujo


22    H. R. Rudin, 1938; R. A. Joseph, 1974.
23    Esta seo resume um estudo de Nicolas Metegue N'Nhah, chefe do departamento de histria da
      Universidade de Libreville.
O delta do Nger e Camares                                                                            869



produto alimenta as trocas, na forma de escambo, por eles mantidas com os
vizinhos povos bantos.
    Estes ltimos formavam, no sculo XIX, numerosas entidades polticas mais
ou menos importantes: cidades-Estado (Fang, Kl, Sk, Benga), confederaes
(Mpongw, Gisir, Punu, Obamba) e reinos (Nkomi, Orungu, Galwa, a partir de
1860)24. No interior destas entidades polticas, os diferentes povos dedicavam-se
a diversas atividades: agricultura itinerante baseada em queimadas, caa, pesca
e artesanato. Este ltimo distinguia-se sobretudo pela qualidade dos seus pro-
dutos, tais como os objetos em ferro fabricados pelos fang - considerados, no
sculo XIX, pelos viajantes europeus como os melhores ferreiros da regio - e os
tecidos dos povos do alto-Ngunyi (Gisir, Apindji e Mitsogo, notadamente). Os
produtos destas atividades econmicas alimentavam importantes intercmbios
comerciais entre as diferentes comunidades. Assim sendo, entre a confederao
mpongw, no esturio do Como, e o reino orungu, no delta do Ogou, realizava-
-se um ativo comrcio de farinha de mandioca e peixe seco; do alto-Ngungyi
provinham at a costa, passando por Ogou e Rembo-Nkomi, os famosos bongo,
produtos de tecelos das regies interioranas; finalmente, do litoral atlntico,
partiam em direo ao interior do pas, comboios carregados de fardos de sal,
originado localmente. Aps a chegada dos portugueses ao litoral, em 1471, estes
intercmbios comerciais intensificaram-se a ponto de se tornarem a principal
atividade dos povos litorneos nos sculos XVII, XVIII e XIX, poca em que
o conjunto dos produtos europeus (fuzis, bebidas alcolicas, tecidos, artigos em
vidro e diversos bibels) era sobretudo trocado por escravos, marfim, leo de
palma, borracha, bano e sequia.
    Este desenvolvimento da atividade comercial no litoral teve importantes con-
sequncias. Por um lado, provocou a migrao de alguns povos, como os fang, os
quais, a partir da regio englobando o Norte do Gabo, o Sul de Camares e o
Leste da Guin Equatorial, onde estavam instalados h muito tempo, dirigiram-
-se rumo ao litoral, precedidos pelos kl, continuando at Eliva Nkomi (laguna
do Fernan-Vaz), alcanada ao final do sculo XIX. Por outro lado, ele esteve na
origem de uma profunda mutao das sociedades autctones. A antiga estru-
tura social, marcada por laos sanguneos e permitindo em cada cl trs classes
sociais, a saber, os puro-sangue (fumu, em punu, awontche, em amyene, atem
bo bayong, em fang), os metecos (awoga, em omyene, mintobe, em fang) e os
escravos, comeou a ser substituda por outra estratificao social baseada na

24   Consultar N. Metegue N'Nhah, 1979.  necessrio sublinhar que, at o sculo XVII, os reinos tyo e vili
     englobavam vastas regies do atual Gabo.
870                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 27.6 Ouassengo, comerciante de Ogou, empunhando presas de elefante, acompanhado das suas
mulheres. [Fonte: E. M'Bokolo, Noirs et Blancs en Afrique quatoriale, 1981, ditions de l'cole des hautes
tudes en sciences sociales, Paris. Ilustrao reproduzida segundo Griffon du Bellay, "Le Gabon", Le tour du
monde, 1865 (detentor dos direitos autorais desta foto desconhecido).]



fortuna, colocando em relevo, ao lado de uma classe mdia e das camadas mais
inferiores, uma burguesia comerciante essencialmente composta por chefes e
notveis, os quais monopolizavam o grande comrcio.
    Esta evoluo social, pouco evidente em meio aos povos interioranos do pas,
no incio do sculo XIX, era mais acentuada no litoral, onde foram assinados,
a partir de 183925, os tratados que deram origem  feitoria francesa do Gabo,
da qual Libreville, fundada em 1849 na foz do Como, tornou-se a sede. Deste
estabelecimento muito cedo partiriam numerosas misses de explorao que
estenderam as possesses francesas em profundidade, rumo ao interior do pas,
transformando o Gabo na porta de penetrao europeia para a frica Cen-
tral: viagens de Paul Belloni du Chaillu (1856-1859 e 1863-1865), de Serval


25    O primeiro tratado de ocupao colonial, assinado na regio em questo, foi concludo no dia 9 de
      fevereiro de 1839, por E. Bout-Willaumez e Antchuwe Kowe Rapontchombo, igualmente conhecido
      como "rei Denis".
O delta do Nger e Camares                                                                            871




figura 27.7 Antchuwe Kowe Rapontchombo (o "rei Denis"), soberano das margens do Ogou, com a sua
grande mulher. [Fonte: E. M'Bokolo, Noirs et Blancs en Afriqu quatoriale, 1981, ditions de l'cole des
Hautes tudes en sciences sociales, Paris. Ilustrao reproduzida segundo Griffon du Bellay, "Le Gabon", Le
tour du monde, 1865 (detentor dos direitos autorais desta foto desconhecido).]



e Griffon du Bellay (1862), de Aymes (1867), de Alfred Marche e do Mar-
qus de Compigne (1873-1874), de Pierre Savorgnan de Brazza (1875-1878,
1879-1882 e 1883-1885), de Paul Crampel (1888-1889), de Fourneau e Doli-
sie (1889). Rumo ao Norte, os franceses chocaram-se com os espanhis que,
estabelecidos em Fernando Poo desde 1778, lanaram vrias expedies para o
rio Muni, notadamente aquelas de Nicolas Mantorela e Guillemar de Aragon
(1845), de Manuel Iradier, Ossorio e Montes de Oca (1884).
    Enquanto avanava a explorao do pas e malgrado a resistncia empreen-
dida pelos autctones contra a penetrao europeia, desde o seu incio, tratados
eram concludos com alguns chefes, possibilitando a implantao de comercian-
tes e missionrios ocidentais em diferentes regies. Aproximadamente em 1882,
a bacia do Ogou e as regies circunvizinhas comportavam mais de noventa
estabelecimentos comerciais pertencentes, em geral, s companhias inglesas
( John Holt, Hatton e Cookson), alems (Woermann, Schulze, Lbke, Kder-
ling), espanholas (Transatlantica) e francesas (Dubarry Frres). Contava-se, em
872                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



suplemento, mais de vinte estaes missionrias e um nmero aproximadamente
similar de escolas exclusivamente confessionais.
    Porm, apesar desta profunda penetrao da influncia ocidental, as socieda-
des autctones souberam conservar a sua originalidade. Com efeito,  necessrio
dizer que, aproximadamente ao final do sculo XIX, vastas regies permaneciam
pouco afetadas por estas influncias externas. Alm disso, onde estas influncias
j eram muito fortes, a exemplo da regio litornea, elas enfrentavam elementos
irredutveis que lhes opunham as culturas locais. Assim sendo, o macio processo
de evangelizao das populaes chocava-se com a prtica de cultos autctones,
amplamente difundidos,  imagem do Bwiti, do Bieri e do Ombwiri, assim como
com alguns hbitos, a exemplo da poligamia.


      Concluso
    Deste modo, o sculo XIX viu os ingleses progressivamente expandirem
a sua influncia em uma grande parte da regio, igualmente acompanharam-
-nos os franceses, sucedidos pelos alemes, ao fincarem os ps em Camares.
Todavia e nitidamente, o interior do pas escapou da influncia direta europeia
at o final do sculo. Inclusive, at mesmo a conquista das regies litorneas, as
quais haviam estado em contato direto com os comerciantes europeus, muito
anteriormente ao sculo XIX, no ocorreu sem dificuldades; alm disso, a sua
histria interna foi determinada por fatores locais e, muito amide, pelas suas
relaes com os Estados vizinhos. Assim sendo, embora todas as comunidades
do litoral tenham tomado parte no comrcio exterior, cada uma delas estabeleceu
instituies diferentes para limitar o seu impacto e os problemas comuns foram
resolvidos em contextos histricos e culturais distintos. A instituio dos wari
ou casas, nos Estados do delta, era diferente daquelas dos efik do Cross River,
os quais adaptaram a novas funes a sociedade ekpe das populaes do interior.
Em circunstncias semelhantes, as populaes litorneas de Camares criaram a
sociedade dos jengu, diferente da sociedade secreta ekpe dos efik e da sociedade
aberta dos mascarados ekine ou sekiapu dos Estados do delta, ou bwiti, bieri e
ombwiri da bacia do Ogou e do Gabo.
    Ademais, no se deve perder de vista que, no sculo XIX, malgrado a impor-
tncia do comrcio exterior de escravos, em seguida, do leo de palma e de
palmiste, no desenvolvimento destas comunidades, a economia da maioria da
populao essencialmente repousava no comrcio interno e na troca de produ-
tos agrcolas entre os diferentes grupos. Na esfera poltica, os fatores culturais
O delta do Nger e Camares                                                873



internos ainda predominavam, inclusive ao longo da costa: os itsekiri do delta
ocidental do Nger ainda consideravam a maldio do oba do Benin como um
fator histrico determinante, em que pese a soberania de fato e os sucessos do
comrcio exterior conquistados no sculo XIX pelo reino de Warri.
   Em suma, a importncia atribuda s foras externas - comrcio europeu,
ao dos missionrios e conquista colonial - no suplantaria o primado dos
fatores internos na histria das populaes instaladas entre o delta do Nger
e a bacia do Ogou no sculo XIX. Em outros termos, os fatores externos
no tinham, em absoluto, profundas consequncias imediatas e as populaes
continuaram a gozar de certa autonomia, na maioria dos aspectos da sua
existncia. Esta autonomia, essencial no referente ao nascente imprio do
mundo ocidental, manter-se-ia durante todo o perodo colonial, de modo
que as populaes locais no perderiam inteiramente a sua cultura, as suas
instituies e a sua identidade.
A dispora africana                                                                               875



                                       CAPTULO 28


                             A dispora africana
                               Franklin W. Knight
                com contribuies de Yusuf Talib e Philip D. Curtin




   Em virtude da sua amplitude, a imigrao dos africanos rumo s Amricas,
ao Oriente Mdio e  Europa, em funo dos diferentes itinerrios, notada-
mente transatlnticos, empregados pelo trfico de escravos, constitui um dos
acontecimentos dominantes da histria da frica e do mundo1. Esta imigrao,
essencialmente consumada contra a vontade dos participantes, durou sculos e
deixou, de modo generalizado na Europa, no Oriente Mdio e nas Amricas,
comunidades residuais de propores diversas2.
   O xodo rumo  sia Menor e ao Levante Mediterrneo  o mais antigo e
durvel dentre as correntes da dispora africana. Provavelmente, ele teve incio
muitos sculos antes da era crist, conhecendo o seu apogeu a partir do sculo
VII, no curso da expanso do isl. A maior parte dos africanos assim chegou pelas
diversas vias do trfico transaariano, conquanto bom nmero tenha igualmente
imigrado por sua prpria vontade, como intelectuais, professores, comerciantes e

1    A obra de J. M. McPherson, L. B. Holland et al (1971) forneceu uma boa base inicial para o estudo da
     dispora africana. Aps a sua publicao, assistimos a uma verdadeira florada de excelentes monografias,
     tratando especialmente o tema afro-americano. Citemos, entre outros: D. B. Davis, 1975; R. W. Fogel e
     S. L. Engerman, 1974; H. G. Gutman, 1975; E. D. Genovese, 1974; S. L. Engerman e E. D. Genovese
     (org.), 1975; G. M. Hall, 1971; D. W. Cohen e J. P. Greene (org.), 1972; H. Hoetink, 1973; R. Anstey,
     1975; J. Palacios Preciados, 1973; R. Sheridan, 1976; R. S. Dunn, 1972; C. A. Palmer, 1976, 1981; R.
     Bean, 1975; H. Klein, 1978; L. Rout, 1976; F. P. Bowser, 1974; W. Dean, 1976; B. W. Higman, 1976;
     M. Craton, 1978, 1979; O. Patterson, 1982; I. Berlin e R. Hoffman (org.), 1983; P. D. Curtin, 1979.
2    Consultar R. David, 1970, pp. 33-50; L. Bugner, 1980; M. Moreno Fraginals, 1977.
876                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



peregrinos vindos s cidades sagradas de Meca e Medina. Como o mundo medi-
terrneo no praticava a agricultura extensiva, o nmero de africanos de origem
subsaariana nele permaneceu invarivel e relativamente fraco, provavelmente
nada alm de algumas centenas de imigrantes por ano. No Imprio Otomano,
muitos eram empregados como soldados e marinheiros, eunucos, concubinas,
administradores e, eventualmente, como ocorrido com Ab `l-Misk Kfr do
Egito (morto em 968), inclusive tornaram-se chefes de Estado. Nos Estados
muulmanos, o estatuto de escravo no era hereditrio; houve exemplos nos
quais africanos foram capazes de manter a coeso da sua cultura em interao
com aquela dos seus anfitries.
    Os africanos seguiram o movimento de expanso do isl que alcanou,
por via terrestre ou martima, a ndia e o Extremo Oriente. At os anos 1520
e 1530, havia cerca de 5.000 soldados africanos junto s tropas do sulto do
Bahadur do Gujarat, ao passo que outros serviam em sua marinha. Havia,
outrossim, certo nmero nas foras armadas do sulto de Delhi, bem como no
Bengale e no Deco. Finalmente, a expanso do Imprio Otomano na Europa
do Sudeste do mesmo modo trouxe africanos, como soldados e empregados
administrativos.
    O contato dos africanos com a Europa teve lugar no prolongamento da ati-
vidade comercial e militar no Mediterrneo. No sculo XV, o trfico de escravos
africanos era um pequeno e muito prspero setor do comrcio, encontravam-se,
por conseguinte, africanos em bom nmero na Siclia, em Chipre, Creta, bem
como no litoral meridional da Espanha. Sevilha possua, no incio do sculo
XVI, uma populao de aproximadamente 5.000 habitantes negros cujo nmero
era igualmente relevante em Mlaga, Huelva, Cdiz e Lisboa. As ligaes mar-
timas diretas entre a Europa e a frica aumentaram os seus efetivos, de modo
que, por volta do final do sculo XVIII, havia 2.000 negros na Frana e 15.000
na Inglaterra. Estes so, bem entendido, nmeros derrisrios se comparados s
ondas de africanos despejados, na mesma poca, nas Amricas, conquanto e
todavia fossem suficientes para preocuparem as autoridades dos dois pases. Os
casamentos inter-raciais foram proibidos na Frana, por decreto real, em 1777,
ao passo que, na Inglaterra, o clebre decreto Mansfield institua, em 1772, que
os africanos no podiam ser mantidos como escravos.
    No entanto, foi nas Amricas que a dispora africana teve a sua amplitude
mxima. Os africanos e os seus descendentes, chamados em geral africanos-
americanos (expresso recm-substituda por afro-americanos), desempenha-
ram um papel de forte importncia no desenvolvimento de todas as sociedades
do Novo Mundo, desde a descoberta da regio pelos europeus, ao final do
A dispora africana                                                           877



sculo XV, at os tempos modernos. Qualquer tenha sido o nmero de africa-
nos em tal ou qual pas, a frica imprimiu, na Amrica, a sua marca profunda
e indelvel.
    Escravos ou homens livres, os africanos e afro-americanos contriburam
para domesticar toda a extenso selvagem do continente americano, do Alaska
at a Argentina. Eles atravessaram os grandes rios com os primeiros explora-
dores do Novo Mundo. Eles ajudaram a conquistar e a submeter as populaes
autctones menos civilizadas e as evoludas civilizaes do Mxico e do Peru.
Eles participaram ativamente da criao das novas comunidades de onde nas-
ceriam as sociedades heterogneas e multilngues da Amrica. Eles ajudaram
a construir as novas cidades dos espanhis e portugueses: Santo Domingo em
1496; Cidade do Mxico e Havana em 1522; Pernambuco e Lima em 1535;
Buenos Aires e Valparaso em 1536; Bahia em 1549; Rio de Janeiro em 1565.
Igualmente, foram eles que ergueram as cidades porturias dos colonos ingleses
no sculo XVII e no incio do sculo XVIII: Boston, Nova Iorque, Filadlfia,
Jamestown e Charleston.
    Do mesmo modo que os grupos de imigrantes livres vindos para as Am-
ricas entre os sculos XVI e XIX, os africanos trabalharam em todos os tipos
de produo e desempenharam todos os papis sociais. Eles foram pioneiros e
conquistadores, piratas e bucaneiros, gachos, llaneros, bandeirantes, propriet-
rios de escravos, negociantes, domsticos e escravos. Eles melhor se distinguiram
em certos ofcios comparativamente a outros, mas, no entanto, o acesso s mais
elevadas posies sociais lhes fora interditado pela lei. Aps o sculo XVII,
entretanto, os africanos eram os nicos escravos legais nas duas Amricas e as
populaes africanas no seio das sociedades americanas estariam predestinadas
a carregar, durante um longo perodo, os estigmas desta condio3. Antes da
abolio definitiva da escravatura no Brasil, em 1888, a maioria dos africanos das
Amricas era escrava e eram eles quem cumpriam a maior parte dos trabalhos
manuais e dos servios que exigiam um esforo fsico, frequentemente estafante,
sem os quais as colnias, possesses e naes no teriam sido capazes de alcanar
a prosperidade econmica.
    Desde muito tempo associados, em importantes e variadas atividades, 
evoluo das sociedades americanas modernas, os africanos lograram impor
peremptoriamente a sua marca nas lnguas, culturas, economias, alm de parti-
cipar, quase invariavelmente, na composio tnica das comunidades do Novo


3    D. B. Davis, 1966, pp. 223-261.
878                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 28.1 Figura masculina de tipo negride suportando nas costas o peso de um cris indonsio preso 
cintura, provavelmente proveniente da regio do atual Vietn e datado,  verossmil, do sculo XVII. [Fonte
e : Arts of Asia, maro-abril 1978, Hong-Kong.]
A dispora africana                                                                                       879



Mundo4. A sua influncia alcanou mais fortemente as regies do latifndio
agrcola, em comunidades cujo desenvolvimento ocorreu nos territrios s mar-
gens do Atlntico e do mar das Antilhas, do Sudeste dos Estados Unidos da
Amrica do Norte at a poro nordeste do Brasil, e ao longo das costas do
Pacfico, na Colmbia, Equador e no Peru.


    O Oriente Mdio e o Sudeste Asitico5
    Os etopes eram muito estimados na Arbia e na ndia, em razo da sua
inteligncia e do seu aspecto fsico. Os escravos exportados da Etipia no sculo
XIX, para diversas regies da sia, eram principalmente crianas com idade de
oito a dezesseis anos. Alguns destes escravos eram cativos capturados no curso
das guerras que o reino de Shoa, na Etipia do Sul, travava contra os povos
oromos (galla), habitantes das suas regies fronteirias; eles eram encaminhados
s centenas em caravanas at a costa etope, da qual embarcavam nos portos
de Berbera, Zeila, Tajura, Assab, Obock e Massaoua, para atravessarem o Mar
Vermelho e chegarem aos portos de Djeddah, Moka e Hoideida. Nestas regies,
eles eram vendidos aos compradores oriundos de muitas cidades do Imen e do
Hedjz, assim como a marinheiros mercantes de Hadramawt, Zanzibar, Om,
da ndia e do Golfo Prsico. Este comrcio estava em grande parte nas mos
dos rabes, apoiados por financistas indianos do Gujarat (os banianes)6.
    Todavia, a frica Oriental era a principal fonte para o aprovisionamento deste
trfico de escravos. Como sublinhou J. B. Kelly7, o trfico de escravos provenientes
de Zanzibar era praticamente monopolizado pelos rabes de Mascate e os seus che-
fes obtinham as suas rendas atravs das taxas aduaneiras recolhidas deste comrcio.
Mascate era, no incio do sculo XIX, o maior mercado de escravos ao servio do
golfo, da Prsia, do Iraque e da ndia; posteriormente, no transcorrer deste sculo, a
sua preponderncia foi nova e progressivamente posta em causa pela concorrncia
do porto de Sur, mais ao Sul. A maioria dos escravos desembarcados em Mascate


4    Edio especial de Deadalus ( Journal of the American Academy of Arts an Sciences), 1974, 103, no 2; S. W.
     Mintz, 1971; B. Nuez, 1980; R. M. Levine, 1980; N. Sanchez-Albornoz, 1974.
5    A necessidade de trabalhos mais aprofundados j foi sublinhada por B. A. Ogot, 1979, p. 175. No
     tocante aos arquivos turcos, consultar C. Orhanlu, 1972 e 1976-1977, pp. 145-156. Para os primeiros
     trabalhos de antropologia, consultar R. Skene, 1917; G. Pesenti, 1912, 1929; D. C. Philliot e R. F. Azoo,
     1906-1907.
6    R. H. K. Darkwah, 1975, p. 168; J. B. Kelly, 1968, pp. 417-418.
7    J. B. Kelly, 1968, pp. 413-414.
880                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 28.2 O trfico de escravos da frica do Leste nos anos 1850, visto por sir Richard Burton. [Fonte:
R. F. Burton, First footsteps in East Africa, 1966, Routledge e Kegan Paul Ltd, Londres. Ilustrao: British
Library, Londres.]



era vendida em Om. Os outros eram comprados por agentes dos Estados da
Trgua, especialmente o Kawsim, para serem revendidos no litoral e nos merca-
dos da Prsia, do Iraque, de Bahren, do Kuwait, de Hasa e de Najd. Os escravos
tambm eram transportados de Mascate e de Sur, nos pores de barcos vindos de
Bahren, do Kuwait e da ndia, rumo aos portos de Sindh, Kutch, Kathiawar e 
presidncia de Bombaim. Aqueles destinados  Prsia eram desembarcados em
Bushire ou enviados atravs do golfo at Lingah, a partir de Sharjah. Observamos
quo era raro, no incio do sculo XIX, que os escravos fossem transportados do
Mar Vermelho atravessando toda a Arbia para serem vendidos na costa do golfo.
Basra era o principal mercado para os escravos destinados ao golfo.
    Os negreiros britnicos e holandeses igualmente tomaram parte neste lucra-
tivo negcio. Escravos principalmente provenientes de Madagascar - conhecidos
como "Kfirs"8 - eram importados pelas presidncias de Bombaim e Madras, na


8     Da palavra rabe kfir que significa: infiel, miservel, impiedoso, indivduo que no reconhece os desg-
      nios divinos; mas tambm quer dizer cobrir, dissimular, negar. Apelao em geral conferida pelos rabes
      a todos os no muulmanos e, portanto, entre eles a determinados grupos. Conferir The OxfordEnglish
      Dictionary, Oxford, 1933, p. 18. A palavra era frequentemente usada na ndia e no arquiplago malaio
      para designar os escravos africanos, no cristos e no muulmanos. Consultar H. Yule e A. C. Burnell,
      1886, pp. 141-142.
A dispora africana                                                                                       881



ndia, assim como em todos os primeiros estabelecimentos britnicos na costa
oeste de Sumatra, para suprir as necessidades de mo-de-obra das suas respec-
tivas fbricas9. Faz-se necessrio sublinhar que toda a regio do Oceano ndico
foi, no sculo XIX, o teatro de movimentos no somente de populaes africa-
nas, mas, igualmente, de malaios, indianos, chineses, escravos ou trabalhadores
contratados. Estas interaes entre indivduos vindos de diversos horizontes,
inclusive, merecem ser estudadas mais profundamente10.
    Convm, outrossim, notar que a peregrinao anual a Meca desempenhou
um importante papel, embora sazonal, nos movimentos populacionais volun-
trios e involuntrios para o Oriente Mdio. Numerosos peregrinos oeste-afri-
canos chegavam a Meca em caravanas, pelo Cairo ou passando pelos portos de
Suakin e Massawa, no Mar Vermelho, constituindo consequentemente pequenas
comunidades da dispora11. Desde a poca do grande rei do Mali, Mansa Ms,
estes ricos peregrinos africanos "levavam em sua companhia certo nmero de
escravos dentre os quais alguns eram vendidos durante o trajeto como uma
espcie de cheque-de-viagem, para pagar os custos da expedio"12. Portanto,
no  fortuito que Meca tenha figurado como principal mercado de escravos
da pennsula arbica. A ela eram levados para venda no somente escravos
africanos, mas, igualmente, escravos circassianos, malaios, indianos e da sia
Central. Estes escravos eram, em seguida, dispersos pelos seus compradores em
todo o mundo muulmano13.
    Um pequeno nmero de africanos permanecia nas cidades santas da Arbia
Ocidental para ali levarem mais adiante os seus estudos teolgicos. Os mais
numerosos eram africanos do Oeste, pertencentes  escola de direito maliquita14.
Aqueles da frica Oriental iriam sentar-se aos ps dos seus professores shfi



9    H. H. Dodwell (org.), 1920, pp. 100, 104, 135, 159-160, 188, 202, 223; F. W. Mees (org.), 1928, p. 76.
10   Estas comunidades da dispora no contavam exclusivamente com escravos; igualmente havia certo
     nmero de exilados polticos. Por exemplo, os chefes das revoltas anticoloniais abortadas na Indonsia,
     que foram deportados para estabelecimentos holandeses do Sri Lanka e para a Colnia do Cabo. Para
     estimativas relativas ao nmero de escravos transportados em direo  sia, referir-se a B. A. Ogot,
     1979, p. 177. Para outros nmeros, consultar J. B. Kelly, 1968, pp. 414-416; W. Wilburn, 1913, vol. 1,
     pp. 35, 60.
11   Para recentes estudos sobre os peregrinos oeste-africanos, conferir U. al-Naqar, 1972, e J. S. Berks,
     1978.
12   B. Lewis, 1971.
13   Para maior detalhamento sobre o mercado de escravos de Meca, conferir J. S. Hurgronje, 1970, pp. 14-15;
     R. F. Burton, 1964, vol. 1, p. 252. Sobre a redistribuio dos escravos africanos, consultar R. Winstedt,
     1958, p. 53; W. Ochsenswald, 1980.
14   J. S. Hurgronje, 1970, p. 182.
882                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



`tes nas cidades iemenitas do Norte, como Zabid e Beit al-Fakh, e nos clebres
centros religiosos de Hadramawt-Tarim, como `Ainat, Seiwun e Gaidun15.
     imagem dos sculos precedentes, a mo-de-obra africana servil era
indispensvel em diversas esferas econmicas, polticas e sociais de numerosas
sociedades da sia. Nas regies dominadas pelas potncias coloniais britnica
e holandesa, particularmente na ndia e no arquiplago malaio, os escravos,
sobretudo africanos, estavam na base de uma economia fundada no grande
latifndio agrcola, similar quela encontrada nas Amricas. No Oriente Mdio,
especialmente na Arbia, um grande nmero de escravos africanos ocupava
profisses diversas, tais como domsticos, especialmente empregadas domsticas,
marinheiros, soldados, empregados administrativos, ajudantes em boutiques etc.
Nas regies rurais, eles eram empregados como operrios agrcolas, carregado-
res de gua, cameleiros e pastores. Como j dissemos, os etopes, em oposio
aos nbios, sudaneses e africanos do Leste, eram os mais apreciados e foram
encarregados das tarefas menos penosas16. J. L. Burckhardt, o viajante da poca
vitoriana, observava que lado a lado com os seus compatriotas assujeitados, pere-
grinos africanos pobres, vindos em sua maioria da frica Ocidental - conhe-
cidos in loco pelo nome "Tekrourys" -, se ocupavam durante a sua estadia como
carregadores, estivadores, varredores de rua, lenhadores, barristas, tapeceiros,
cesteiros e fabricantes de uma bebida embriagante chamada "bouza"17.
    Na ndia, os escravos africanos eram encarregados das tarefas junto aos
ancilares, as quais os indianos no podiam (em razo das restries de casta) ou
no pretendiam desempenhar, e que os britnicos estimavam indignas para eles.
Nos Estados principescos, os escravos, sobretudo africanos, em geral serviam
como domsticos, concubinas, eunucos, carregadores de gua, barbeiros, guarda-
costas, estribeiros etc. Sabemos que o rei de Oudh (o atual Uttar Pradesh) tinha
ao seu servio, no incio do sculo XIX, numerosos escravos etopes, homens e
mulheres, e que pagava somas principescas para adquiri-los. No momento da
sua compra, eles eram todos convertidos ao isl. -nos igualmente reportado
que "os ricos aristocratas muulmanos, em particular aqueles que viviam em
cidades como Patna e Calcut, possuam, alm dos escravos de ambos os sexos,
um grande nmero de eunucos habshi18" (etopes).  imagem das pocas pre-
gressas, a posse de escravos africanos era um sinal externo de riqueza que con-


15    Referir-se  revista Majalah alRabitah al `Alawi, 1350 de l'hgire, vol. IV, pp. 30-31.
16    J. S. Hurgronje, 1970, pp. 11, 13.
17    J. L. Burckhardt, 1829, pp. 258-275, 382.
18    A. K. Chattopadhyay, 1977, pp. 29, 40-41.
A dispora africana                                                                                      883



feria prestgio. A posio social de um proprietrio era avaliada pela quantidade
dos seus escravos, os quais compunham uma considervel frao do seu squito
e equivaliam a um indicador no estabelecimento dos nveis de riqueza e poder.
    Nas presidncias do Bengale, de Bombaim e de Madras, os escravos, notada-
mente malgaxes, alm de serem naturalmente encarregados da obras, igualmente
desempenharam papis econmicos e militares essenciais no desenvolvimento
destas colnias da Coroa Britnica, ainda embrionrias. Os livros da Companhia
Inglesa das ndias Orientais, ao final do sculo XVIII e no incio do sculo XIX,
so testemunhos do rude labor realizado pelos escravos durante a construo das
fortificaes (por exemplo no forte Saint-David, no Sul da ndia), na qualidade
de soldados, marinheiros, estivadores e operrios agrcolas19.
    No arquiplago malaio, especialmente na costa oeste de Sumatra, a exemplo
do estabelecimento britnico de Benkulen20, os escravos africanos no somente
efetuavam a triagem e o transporte da pimenta, mas, igualmente, estavam ocu-
pados em todo tipo de funo, como soldados, mecnicos, pedreiros, ou car-
pinteiros. Os mais desafortunados eram aqueles a trabalharem em condies
desumanas, nas minas de ouro holandesas, especialmente em Salida21.
    A assimilao dos povos de origem africana s populaes locais da sia no
ocorreu com tamanha frequncia, tal como usualmente sugerido, a despeito do
ancestral costume da concubinagem22. Observavam-se, muito amide, traos
caractersticos de um "modo de escravismo fechado", anlogo quele praticado


19   H. H. Dodwell (org.), 1920, pp. 104, 135.
20   F. W. Mees (org.), 1928 (Court to Fort Marlborough, 25 fvrier 1773). Os escravos tambm trabalhavam
     na produo de acar e de arak.
21   Consultar J. Paulus (org.), 1917-1921, pp. 806-811.
22   Consultar o artigo de propaganda resumido em C. Doughty, vol. 1, 1926, pp. 554-555. "Junto aos
     africanos, no h vestgio de ressentimento pelo fato de terem sido reduzidos  escravatura - eles eram,
     frequentemente, cativos feitos prisioneiros em suas prprias guerras -, embora os ladres de homens os
     tenham arrancado de suas famlias. Os senhores que os adquiriram empregaram-nos em suas dependn-
     cias domsticas, os homens so circuncisos - fato que liberta as suas almas, mesmo na longa saudade do
     seu pas - e Deus os visitou no penar; eles dizem: `Isso foi a Sua Graa', haja vista que deste modo eles
     aderiram  religio salvadora. Eis, portanto, dizem eles, o melhor dos pases". A comparar com as descri-
     es de crueldade, discriminao, fugas e revoltas que abundam em todo tipo de documento, por exemplo:
     SFR (Fort Malb. to Court, 10 de abril de 1818); D. Lombard, 1971, p. 237; A. K. Chattopadhyay, 1977,
     pp. 42, 45, 53; P. H. Colomb, 1873, pp. 101-102; H. R. Dickson, 1941, p. 502, sobre as atitudes dos
     rabes concernentes ao tratamento dos escravos domsticos; e D. C. Philliot e R. F. Azoo, 1906-1907,
     pp. 431, 434, sobre os manifestos preconceitos dirigidos aos africanos no Hadramrawt. Sobre os ils de
     Negrais, na foz do rio Bassein, na baixa Birmnia, um estabelecimento criado pelo governo do Forte
     Sait-George, na ndia, onde reinava, "em razo da postura inflexvel e perversa" do seu superintendente,
     um clima de permanente ebulio. "Os escravos cafres, os quais haviam sido introduzidos para o cultivo
     da terra, levantaram-se contra os seus senhores e, dominando os barcos pertencentes  ilha, lograram
     fugir" (M. Symes, 1800, p. 10).
884                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



nos sistemas escravagistas das Amricas. Era inconcebvel que um africano,
escravo ou liberto, pudesse ser aceito no sistema parental do seu mestre.
    Os africanos eram "mantidos em grupos tnicos separados, nos quais a repro-
duo natural era completada por um constante recrutamento". Formidveis
barreiras sociais eram erguidas para impedir a sua introduo no principal corpo
societrio. No somente eles no eram assimilados, mas, inclusive, eram "manti-
dos  distncia unicamente em funo da sua condio escrava, a estigmatizar-
lhes"23.
    Nos vales e cidades da Arbia do Sudeste, ainda nos dias atuais h grupos
populacionais muito diversos de origem africana: Akhdam, Subyan, Hudjr e
Gabart24. Eles dedicam-se  maioria dos ofcios inferiores, como lixeiros e var-
redores, julgados aviltantes e impuros pelos habitantes rabes. Eles eram prati-
camente considerados prias e viam-se obrigados a viver em bairros separados.
Os peregrinos africanos pobres do Hedjz no tinham absolutamente melhor
sorte. Os relatos destes homens os apresentam, em sua maioria, amontoados em
miserveis barracos de "El Menakh", na cidade santa de Medina25. Caso dermos
crdito a H. R. Dickson26, nenhum rabe digno de si teria esposado uma escrava
liberta. Isso equivaleria a sujar a honra e o sangue dos seus. Numerosos sidi
viviam na cidade indiana de Bombaim, onde possuam o seu prprio bairro, nos
arredores da priso municipal27. Os escravos da Companhia Inglesa das ndias
Orientais, na ilha de Sumatra, eram forados a habitar em "um pequeno vilarejo
 beira-mar - separado das moradias malaias e do forte28".
     interessante notar que estas comunidades dspares da dispora africana
eram bem organizadas e conservavam vivas as suas prprias tradies nacionais.
J. S. Hurgronje observa que os nbios da Meca no eram muulmanos seno


23    Conferir a anlise de M. I. Finley, 1976.
24    R. B. Serjeant, 1966, pp. 28-33.
25    J. L. Burckhardt, 1829, p. 382.
26    H. R. Dickson, 1941, p. 503.
27    The Gazetter of Bombay City and Island, Bombay, 1910, II, p. 262. O termo "sidis", em ingls da ndia,
      designa africanos e etopes (NT).
28    J. Bastin, 1977, p. 43. No Imprio Britnico da ndias, o possuidor de escravos tinha, legalmente, a inte-
      gral propriedade do seu bem. Julgava-se totalmente legtimo buscar recuperar os escravos em fuga. Era
      ilegal, para todo indivduo, "Conceder asilo a estes fugitivos, assim como aceitar, com conhecimento de
      causa, um bem roubado". O escravo que fugisse era passvel de castigo - em geral, o flagelo. Numerosos
      anncios eram publicados na imprensa da poca, oferecendo recompensas a quem recapturasse escravos
      em fuga, advertindo contra o possvel emprego do escravo em questo. Conferir A. K. Chattopadhyay,
      1977, p. 57. Na Idade Mdia, os casos de escravos fugitivos eram recorrentes e remontavam, tanto quanto
      se pode saber com segurana, ao Iraque do sculo X. Para maior detalhamento, consultar C. Pellat, 1953,
      pp. 233-234. Para Sumatra, referir-se a J. Bastin, 1977, p. 89.
A dispora africana                                                                                          885




figura 28.3 Servial negra e eunuco negro com a criana do seu mestre na ndia Oriental, no sculo XIX.
[Fonte: J. S. Hurgronje, Mekka in the latter part of the ninettenth century: daily life, customs and learning: the
Muslims of the EastIndian Archipelago, 1970, E. J. Brill, Leyde. Ilustrao:  E. J. Brill.]
886                                                                    frica do sculo XIX  dcada de 1880



superficialmente, falavam pouco o rabe e "fazem a festa de quinta-feira aps o
almoo at sexta-feira pela manh, entregando-se aos prazeres da msica, dos
cantos e danas tpicos do seu pas. Cada uma destas comunidades negras tem
o seu prprio xeque, a quem cabe promover a justia, e um subalterno, armado
com um basto, mantido ao seu lado para executar as sentenas29".


      A dispora na Europa
    Embora a dispora africana essencialmente explique-se pela matriz do trfico
de escravos, muito amide, africanos abriram um caminho fora dos limites fri-
cos, como homens livres, independentemente do trfico, ou, em uma nova etapa
da sua existncia, posterior a um perodo de escravido nas Amricas. De fato, a
presena dos africanos na Europa Ocidental remontava  Antiguidade Clssica,
conquanto o seu nmero somente se tenha sensivelmente elevado, a partir do
sculo XV, quando os africanos negros surgiram, primeiramente como escravos
e, posteriormente, como libertos, no Sul da Espanha e de Portugal, onde che-
garam, sobretudo, atravs do trfico transaariano em direo  frica do Norte.
Em seguida, quando comeou a se abrir a rota comercial martima direta com a
Europa, na segunda metade do sculo, os africanos estiveram progressivamente
em maior nmero na Europa30.
    Muitos dentre eles foram escravos em um primeiro momento, sobretudo
em Portugal, pas este que, aproximadamente na metade do sculo XVII, era a
nica potncia europeia substancialmente dedicada ao trfico de escravos. Aps
certo tempo, contudo, numerosos dentre eles abriram um caminho na sociedade
europeia, embora isso acontecesse no mais baixo escalo da hierarquia social,
pois que a sua condio assemelhava-se quela dos seus irmos africanos, sobre
os quais recaa a maior parte do labor fsico executado nas colnias tropicais. O
seu estatuto jurdico era igualmente ambguo. No conjunto da Europa do Norte,
a lei no mais reconhecia a condio escrava, conquanto a aceitasse em suas
colnias. Aps 1685, a residncia na Frana supostamente conferiria a liberdade,
tal qual na Inglaterra, aps o decreto legal, antes mencionado e assinado pelo
lorde Mansfield em 1772. Todavia, nestes dois pases, os escravos vindos das
colnias eram sempre, em muitos casos invariavelmente, escravos de fato, at o
momento em que as potncias europeias aboliriam a escravatura nas prprias


29    J. S. Hurgronje, 1970, pp. 11-12. Igualmente conferir M. B. Hashim, 1350 de l'hgire, pp. 42-43.
30    A. C. de C. M. Saunders, 1982.
A dispora africana                                                                                  887



colnias, em 1834, no tocante  Gr-Bretanha, no ano 1848, para a Frana, e
em 1888, no caso do Brasil.
    Em que pese toda a ambiguidade deste estatuto jurdico, havia ainda um
considervel nmero de africanos livres no conjunto da Europa do Oeste, ao
menos a partir da metade do sculo XVIII. As estimativas so variveis, porm,
aproximadamente em 1800, certamente deles havia alguns milhares por pas, na
Espanha, em Portugal, na Frana e na Gr-Bretanha; na Espanha e em Por-
tugal, provavelmente houvera maior nmero no passado. De todo modo, estes
efetivos eram fracos, relativamente ao total das populaes europeias; entretanto,
os imigrantes africanos tendencialmente concentravam-se nas grandes cidades,
especialmente as porturias, de forma que a sua presena era mais notvel que
a impresso proporcionada pelos nmeros31. Obviamente, em qualquer poca
anterior aos anos 1840, era possvel encontrar muito mais indivduos originrios
da frica Tropical na Europa, comparativamente aos europeus estabelecidos na
frica Tropical.
    Esta comunidade de africanos na Europa exercia igualmente as suas ativi-
dades em determinadas funes, especialmente o servio domstico, em parte
porque se tratava de uma das tradicionais ocupaes dos africanos vindos das
Antilhas, onde eram escravos, e tambm por outro lado devido  inclinao dos
europeus pelos serviais exticos. As frotas mercantis igualmente contavam, 
poca, com numerosos marinheiros africanos, embora marcassem maior pre-
sena em Portugal, comparativamente  Frana e Gr-Bretanha. Outro grupo
notvel, embora menor, era formado pelos estudantes, os quais comearam a
chegar em nmero relativamente importante  Europa, a partir de meados do
sculo XVIII, e cujos efetivos cresceram ao longo de todo o sculo XIX. Em uma
poca na qual as relaes comerciais entre a Europa e a frica intensificavam-
se progressivamente, era notoriamente necessrio para os negociantes africanos
saberem ler e escrever uma lngua europeia e possurem algumas noes sobre
os sistemas europeus de contabilidade. Muitos destes estudantes chegavam
portanto atravs dos bons ofcios dos mercadores de escravos europeus e estu-
davam sob a sua proteo nos principais portos do trfico, tais como Liverpool
ou Nantes.
    Outra particularidade das comunidades africanas na Europa corresponde a
serem elas compostas, quase exclusivamente, por homens, fato de importantes conse-
quncias. A comunidade africana no se renovava por si mesma. O seu efetivo seria

31   P. D. Curtin (org.), 1967, em particular pp. 3-16; W. Rodney, 1975; W. B. Cohen, 1980, especialmente
     pp. 110-152.
888                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



e era constantemente mantido com a chegada de novos imigrantes. Esta situao
no significa que os africanos no mantivessem relaes sexuais com mulheres euro-
peias; entretanto, o fruto destas relaes tendia a se agregar  cultura europeia, muito
mais que  africana. Aps algumas geraes, os traos fsicos africanos tinham uma
inclinao a fundirem-se na massa do patrimnio gentico europeu.
    Outrossim, alguns africanos infiltraram-se at a Europa Oriental, conquanto
as ligaes martimas com a frica nesta regio fossem muito menos intensas. A
principal rota era o trfico otomano de escravos, no qual os africanos do Norte
no eram os nicos concernidos, pois que ela inclua africanos subsaarianos,
conduzidos atravs do Saara at os portos associados ao Imprio Otomano,
a exemplo de Trpoli, ou trazidos do atual Sudo Meridional, rumo ao Norte,
descendo o Nilo32.
    Em alguns raros casos, pequenos bolses de cultura africana mantiveram-se
em algumas localidades do Imprio Otomano, at o sculo XX: podemos citar,
notadamente, uma pequena comunidade de lngua haussa ainda existente na
ex-Iugoslvia.


      A dispora africana nas Amricas:
      situao geral no sculo XIX
   A dispora africana foi muito mais importante nas Amricas que na Europa
e na sia. No incio do sculo XIX, a populao afro-americana total, livre e
assujeitada, correspondia a cerca de 8,5 milhes de pessoas. Deste total, mais
de 2 milhes, ou seja, aproximadamente 25%, viviam nos Estados Unidos da
Amrica do Norte, a sua grande maioria nos "Estados escravocratas" s margens
do Atlntico, do Delaware at a Flrida, com pequenas concentraes repar-
tidas em todos os Estados setentrionais e do interior, ao Leste do Mississipi,
especialmente nas grandes cidades, como Nova Iorque, Boston e Filadlfia. Em
1810, havia cerca de 2 milhes de africanos e afro-americanos nas ilhas do mar
das Antilhas. Pouco acima de um milho encontrava-se nas ilhas das Antilhas
inglesas: Jamaica, Saint-Christophe, Antgua, Nevis, Anguilla, Sainte-Lucie,
Saint-Vicent, Barbados, Granada e Trinidad. Aproximadamente 450.000 viviam
no Haiti, a antiga e florescente colnia francesa de Santo Domingo, produtora
de acar. Cuba comportava 400.000 e Porto Rico 280.000. O Brasil abrigava


32    E. R. Toledano, 1982.
A dispora africana                                                                                     889



2,5 milhes e a Amrica espanhola continental um total combinado de 1,3
milho. A maioria dos afro-americanos de Porto Rico era liberta, assim como
grande parte dos 400.000 residentes no Mxico, dos 400.000 estabelecidos na
Venezuela, dos 200.000 habitantes na Colmbia, dos 50.000 do Equador, dos
30.000 do Chile e dos 30.000 locados na Argentina33.
    A situao geral na qual se encontrava a populao africana e afro-americana,
no sculo XIX, dependia consequentemente de mltiplos fatores. Um dentre estes
consistia na relativa importncia da populao no branca. Outro era o nmero
de escravos proporcionalmente aos libertos. As caractersticas do trfico, a gnese
de cada colnia e as transformaes socioeconmicas advindas com o passar do
tempo, igualmente influenciaram a situao dos negros nas Amricas. Esta influ-
ncia era muito varivel em todo o Novo Mundo, no devendo ser considerada
como um vetor nico e estvel em todas as colnias e regies. A sociedade afro-
americana modelou-se sempre em funo das condies locais, embora seja poss-
vel discernir, dos Estados Unidos da Amrica do Norte ao Brasil, esquemas sociais
que ilustrem uma uniformidade ou uma similaridade fundamentais34.
    As divises essenciais da sociedade e da cultura afro-americanas originaram-
se em menor grau nas fronteiras coloniais, influentes na evoluo das sociedades
americanas, comparativamente  influncia das circunstncias fortuitas do lugar,
da explorao agrcola e das estruturas socioeconmicas. Em todo o continente
americano, os africanos - escravos ou libertos - que viviam e trabalhavam nas
cidades, aparentemente, beneficiavam-se de mais amplos contatos e tinham
maiores oportunidades de ascenso social e maiores possibilidades de alcana-
rem a liberdade, comparativamente queles cujos indivduos compunham gran-
des grupos de trabalho, nas plantaes, fazendas e usinas de cana-de-acar. Esta
generalizao aparentava ser vlida alm das divises coloniais convencionais.
Por outro lado, salvo nos Estados Unidos da Amrica do Norte, a expectativa de
vida dos escravos era muito inferior quela da populao livre, o que significava
que todas as sociedades escravagistas americanas estabelecidas ao Sul do Rio
Bravo (denominado Rio Grande nos Estados Unidos da Amrica do Norte)
computavam um declnio em termos absolutos da populao assujeitada, no seio
do setor no liberto35.

33   Os nmeros populacionais, arredondados e ajustados em alguns casos, foram extrados de J. H. Franklin,
     1969, pp. 120, 145-149, 171, 174, 186; F. Tannembaum, 1946, pp. 8-14; R. Conrad, 1972, p. 283; D.
     Lombardi, 1971a, p. 35; P. D. Curtin, 1969, p. 22; G. Aguirre Beltran, 1972, pp. 233-234; F. P. Bowser,
     1974, p. 333; D. W. Cohen e J. P. Greene (org.), 1972, pp. 4, 10, 14.
34   M. Harris, 1964; H. Hoetink, 1973; R. B. Toplin (org.), 1974, 1981; P. Villiers, 1982.
35   P. D. Curtin, 1969; S. L. Engerman e E. D. Genovese (org.), 1975.
890                                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Os latino-americanos tinham maior experincia que os seus homlogos colo-
nos da Amrica francesa ou britnica, no concernente  instituio da escravido
e dos seus efeitos sociais. Independentemente da sua experincia nos confins
ibricos, os colonos espanhis e portugueses utilizaram o africano como escravo
durante mais de cem anos antes da criao, pelos ingleses e franceses, das suas
colnias escravistas em Barbados, na Jamaica, em Plymouth, na Virgnia, na
Carolina, na Louisiana e em Santo Domingo36.
    Contudo, no incio do sculo XIX, os regimes escravistas do continente
americano apresentavam entre si diferenas de grau, muito mais que distines
fundamentais de natureza. Em todos estes regimes, a libertao do escravo era
relativamente rara, as mulheres dispunham de um tratamento legal mais favorvel
que os homens, a integridade familiar permanecia frgil, assim como a cor e a
origem constituam fatores dominantes no tocante s consideraes estatutrias.
    Teramos uma ideia do triste destino ao qual, por via de regra, foi submetida a
populao afro-americana, durante os sculos da sua existncia nas Amricas, caso
considerssemos que o efetivo total de 8,5 milhes de africanos e afro-americanos
habitantes do Novo Mundo, no incio do sculo XIX, era provavelmente inferior
ao total de africanos transportados pelo Atlntico a partir do ano 160037.
    O Brasil foi o maior importador de africanos. Ao longo de todo o perodo
de trfico negreiro, este pas recebeu cerca de 38% do efetivo total de africa-
nos introduzidos no Novo Mundo. A regio, a qual atualmente compreende
a Amrica Latina e as Antilhas, absorveu ao total 86% do trfico de escravos,
cabendo s ilhas do mar das Antilhas receberem 36%. Porm, no se pode for-
mular uma opinio sobre a histria dos africanos no Novo Mundo unicamente
considerando nmeros absolutos do trfico, como se estivssemos lidando com
algum carregamento de produtos a granel descarregado em diversos Estados
das Amricas. Melhor avaliaramos as repercusses, maiores ou menores, da
presena dos africanos e das suas possibilidades diversas de desenvolvimento,
caso examinssemos o peso relativo destas regies, sculo a sculo. As variaes
de efetivos no ponto inicial do trfico transatlntico e as flutuaes da aceitao



36    L. Hanke, 1970; M. Crahan e F. W. Knight (org), 1979.
37    A estimativa relativa ao nmero de africanos que chegaram s Amricas, atravs do trfico de escravos,
      varia de um mnimo de 3,5 milhes a 25 milhes. P. D. Curtin (org.), 1969,  quem oferece a melhor
      imagem global da grandeza deste fluxo, sugerindo uma cifra de aproximadamente 10 milhes. Esta
      estimativa foi recentemente aumentada de 2 a 3%, com base em dados muito numerosos surgidos aps
      1969. Consultar J. E. Inikori, 1976a; E. Vila Vilar, 1977; S. L. Engerman e E. D. Genovese (org.), 1975,
      pp. 3-128; H. A. Gemery e J. S. Hogendorn (org.), 1979 e, sobretudo P. E. Lovejoy, 1982.
A dispora africana                                                                                 891



na outra extremidade, desempenharam um papel determinado nas formaes
demogrficas e culturais que surgiriam nas Amricas, ao final do sculo XIX.
    Anteriormente a 1600, as Amricas eram, propriamente ditas, exclusivas dos
ibricos; os espanhis e os portugueses dividiam os africanos que chegavam
ao Novo Mundo, aos primeiros coube obterem cerca de 60% do total, ou seja,
125.00038. Estes africanos contriburam para manter a viabilidade da sociedade
quando as novas doenas, introduzidas pelos europeus e africanos, dizimaram as
populaes indgenas autctones, sobretudo nos planaltos do Mxico e do Peru39.
Quando se conhece a histria ulterior dos africanos no Novo Mundo,  interes-
sante notar que, ao final do sculo XVI, em geral os africanos consideravam-se
superiores aos indgenas, tratando-os com uma arrogncia e uma condescendn-
cia iguais quelas dos conquistadores espanhis na Amrica espanhola40.
    Aproximadamente um milho e meio de africanos desembarcaram na Am-
rica durante o sculo XVII. Deste total, 41% foram ao Brasil, 35% para as
colnias recm-fundadas pelos britnicos, holandeses e franceses (sobretudo
no conjunto da regio das Antilhas) e 22% tiveram como destino a Amrica
espanhola. Este perodo foi marcado pelo incio do trfico negreiro atlntico,
perfeitamente organizado e fortemente alimentado por capitais. O nmero
mdio anual de africanos importados, cujo total fora de apenas 1.800 durante
o sculo XVI, passou para mais de 17.000. A diminuio da parte relativa aos
espanhis resultava da recomposio demogrfica das populaes indgenas do
continente. Entretanto, esta inflexo no setor espanhol era mais que compensada
pela crescente demanda de mo-de-obra, devida  expanso das zonas aucarei-
ras do Nordeste brasileiro e ao desenvolvimento do complexo socioeconmico
aucareiro nas ilhas orientais do mar das Antilhas.
    O sculo XVIII correspondeu ao apogeu da migrao dos africanos para as
Amricas. As sociedades baseadas no latifndio agrcola da Amrica e o trfico
negreiro que satisfazia as suas necessidades em mo-de-obra, atingiram  poca
o seu pleno desenvolvimento. Nmero superior  metade dos africanos vindos
ao Novo Mundo, ao longo de toda a histria, nele desembarcaram entre 1700
e 1810. Eles foram talvez mais de seis milhes. Do ponto de vista demogrfico,
este provavelmente foi o perodo de mais profundo impacto recproco entre a



38   P. D. Curtin, 1969; E. Vila Vilar, 1973, 1977; J. Palacios Preciados, 1973.
39   W. M. Denevan (org.), 1976; E. Wolf, 1959, pp. 194-196; C. Gibson, 1967, pp. 140-159; A. W. Crosby,
     1972.
40   J. Lockhart, 1968, pp. 171-198.
892                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



frica e o vasto mundo, graas aos laos comerciais estabelecidos tanto atravs
do Oceano ndico, quanto com a Europa e as Amricas.
    Do conjunto impressionante de africanos importados no sculo XVIII, a parte
do Brasil foi de 31,3%, ou seja, mais de 1,8 milho de indivduos.  sua consorte
das Antilhas britnicas correspondeu 23,2% - ou seja, cerca de 1,4 milho de
escravos -, dos quais mais de 600.000 tiveram como destino a Jamaica, principal
ilha produtora de acar. As Antilhas francesas receberam 22,3% do total, mais
de 1,3 milho de africanos, dos quais cerca de 800.000 em sua principal colnia
produtora, Santo Domingo, a parte ocidental do Haiti. A Amrica espanhola
importou 9,6%, 600.000 escravos, sobretudo dirigidos s ilhas antilhanas de Cuba
e Porto Rico, para as colnias da costa setentrional da Amrica do Sul e rumo ao
interior do Peru, atravs da regio do Rio de la Plata. As Antilhas holandesas e
dinamarquesas importaram 8% do total de africanos, aproximadamente 450.000
indivduos, e os Estados Unidos da Amrica do Norte - os quais, at 1776, englo-
bavam as colnias da Amrica do Norte britnica - absorveram cerca de 5,8%,
em outros termos, pouco menos que 400.000 africanos41.

 Tabela 28.1     Importao de escravos de 1700 a 1810

                                      Percentagem
                                                                    Nmero aproximado de
           Regio                    aproximada do
                                                                         africanos
                                   total de africanos*
           Brasil                         31,3                               1.800.000
     Antilhas britnicas                  23,2                               1.400.000
     Antilhas francesas                   22,3                               1.300.000
     Amrica espanhola                     9,6                                600.000

     Antilhas holandesas
                                             8,0                              450.000
      e dinamarquesas
       Amrica do Norte
      britnica/Estados
                                               5,8                               350.000
     Unidos da Amrica
           do Norte

            TOTAL                                                              5.900.000
 *     O total no  igual a 100 porque os nmeros foram arredondados.



41    Estes nmeros so baseados naqueles de P. D. Curtin, aps ajustes, 1969 e 1976.
A dispora africana                                                            893



    Portanto, o sculo XVIII representou por excelncia o perodo do desenvol-
vimento das sociedades baseadas no latifndio agrcola, fundado na escravatura
do Novo Mundo. Os exemplos clssicos so as plantaes de acar, anileira,
caf e ervas da regio das Antilhas e do Brasil, assim como as florescentes
plantaes de algodo do Sul e do sudoeste dos Estados Unidos da Amrica do
Norte, aps 1790. Este perodo foi aquele durante o qual a revoluo agrcola
estava em pleno desenvolvimento nas Amricas, simultaneamente ao desenvol-
vimento e  estabilizao das economias locais de exportao42. Alm disso, ao
final do sculo, as sociedades locais haviam atingido um determinado grau de
solidez, segurana e maturidade, as quais influenciariam as suas atitudes e os seus
modos de vida nos ltimos anos do sculo XIX. Estas atitudes determinaram
as tendncias para a incluso ou no incluso de todos os imigrantes vindos
posteriormente s Amricas, estabelecendo definitivamente as caractersticas
de todos os grupos nas sociedades locais. No causa espanto que, no prprio
momento durante o qual as colnias americanas dos europeus quebravam, em
nome da liberdade, os laos que as prendiam  sua metrpole, elas se tenham
dedicado a restringir, rigorosa e progressivamente, a liberdade, as esperanas
e os direitos da populao no branca. Seria justamente no sculo XVIII que
comearia o mais sombrio perodo de aviltamento e explorao dos africanos
no Novo Mundo43.


     O perodo do abolicionismo
    Entretanto, em 1810, a situao comeara a inexoravelmente evoluir para
a sociedade escravagista americana, cujas instituies pouco a pouco desaba-
riam, tanto interna quanto externamente. A liberdade poltica que conferia aos
americanos brancos uma maior margem de gesto dos seus prprios assuntos,
o interesse econmico, os sentimentos humanitrios e a incompatibilidade com
o colonialismo, estes componentes formavam um curioso amlgama que, ao
se combinar com a sede permanente de liberdade das populaes assujeitadas,
finalmente destruiu o sistema escravista americano44. A independncia poltica
dos Estados Unidos da Amrica do Norte, aps 1776, do Haiti, no ano 1804,
das colnias espanholas do continente, a partir de 1825, e do Brasil, em 1822,


42   R. Davis, 1973.
43   F. W. Knight, 1974; R. B. Toplin (org.), 1974.
44   I. Berlin e R. Hoffman (org.), 1983.
894                                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



modificou profundamente, em sua dimenso poltica, o sistema escravagista e
o trfico negreiro, repercutindo alm do quadro das particularidades de cada
imprio, colnia ou Estado.
    A perda das colnias norte-americanas pela Coroa Britnica, em 1783, e
o trmino do comrcio britnico de escravos, no ano 1808, tiveram profundas
incidncias sobre a escravatura e o destino dos africanos. O mais importante e
eficaz fornecedor retirava-se do mercado por iniciativa prpria, empreendendo
uma ativa campanha com o objetivo de incitar os outros Estados europeus a
seguirem o seu exemplo. A campanha antiescravista britnica reduziu forte-
mente o nmero de africanos levados para as Amricas no curso do sculo XIX,
embora o total permanea impressionante. At o final do trfico, em 1870, o seu
perfil permaneceu o mesmo que prevalecia em seus primrdios45. As colnias
espanholas e portuguesas voltaram a ser os principais importadores. De um total
de quase dois milhes de africanos que pisaram no Novo Mundo no transcorrer
deste perodo, mais de 1,1 milho ou 60% foram para o Brasil. Mais de 600.000,
aproximadamente 31,9%, desembarcaram nas Antilhas espanholas, majoritaria-
mente em Cuba. Os demais foram para as Antilhas francesas e apenas alguns
se dirigiram aos Estados Unidos da Amrica do Norte.
    O trfico transatlntico de escravos e, por conseguinte, a migrao dos afri-
canos respondia s crescentes demandas por mo-de-obra, com vistas ao desen-
volvimento do potencial agrcola das terras recm-descobertas e igualmente
explicavam-se em razo da possibilidade em se obter africanos na frica 46.
A maioria dos africanos que chegaram s Amricas foi portanto utilizada em
complexos latifundirios agrcolas.
    Contudo, haja vista a diversificao dos sistemas agrcolas, os fatores de
desenvolvimento das relaes sociais, mediante as quais seria moldada a cul-
tura americana prpria aos africanos, igualmente variavam. Por conseguinte,
de parte a outra das Amricas, o amlgama cultural ocorreu segundo os mais
diversos modos.
    Este fenmeno  certamente visvel no tocante  evoluo do culto de
Xang, provavelmente a mais difundida variante da religio africana no Novo
Mundo47. Embora jamais houvesse dvida que este culto seria originrio da
Nigria, mais precisamente junto aos iorubs, Xang tomou formas muito


45    H. Hoetik, 1979, pp. 20-40.
46    H. S. Klein, 1978, pp. 239-245; S. Miers e I. Kopytoff (org.), 1977, pp. 3-78.
47    W. R. Bascom, 1972; R. G. Hamilton, 1970; M. Schuler, 1980, pp. 30-44; G. E. Simpson, 1978, pp.
      75-82 e 190-192.
A dispora africana                                                          895



diversificadas segundo o lugar onde o seu culto era praticado, em Cuba, Trini-
dad, Haiti ou no Brasil. Especificamente em Cuba, o culto foi profundamente
catolicizado e o Xang africano, em sua origem masculino, tornou-se femi-
nino, ao passo que outras formas do ritual, assim como do simbolismo, eram
transpostas e transformadas em algumas regies. O que ocorreu em relao ao
culto de Xang igualmente atingiu outros aspectos da vida e da organizao
das comunidades. Tornou-se progressivamente mais difcil para os africanos,
quo numerosos fossem eles, conservarem no Novo Mundo as suas formas
sociais originais, em razo do estabelecimento de uma estrutura, estabilizada no
incio do sculo XIX, da qual eles foram obrigados a fazer parte, consentindo
o necessrio esforo de adaptao.
    Os africanos vindos ao Novo Mundo, no sculo XIX, no podiam escapar da
realidade, segundo a qual, simultaneamente  sua influncia - sempre por eles
exercida - sobre as formas de transmisso cultural, eles prprios sofreram, em
larga medida, as repercusses das profundas transformaes que a escravatura e
o trfico negreiro haviam suscitado na frica, na Amrica e na Europa. Estas
transformaes tinham, naturalmente e por sua vez, efeitos na cultura destas
trs regies, contribuindo para uma distino e uma discriminao mais ntida
da cultura especfica de cada regio48.
    Evidentemente, um aspecto desta realidade consistia na extrema diversidade
de situaes nas quais podia encontrar-se um africano no momento da sua che-
gada. Nas Antilhas, os africanos compunham a maioria da populao, portanto
o fentipo era negro. Nos Estados Unidos da Amrica do Norte, em contra-
partida, os fentipos negros eram minoritrios em meio  populao nacional,
qualquer fosse a sua concentrao nos diversos Estados. Em muitas regies da
Amrica Latina, notadamente no Equador, Chile e na Argentina, os negros
se haviam, por assim dizer, geneticamente dissolvidos nos grupos indgenas
americanos e junto aos europeus, estado de coisas que derivou em uma grande
variedade de miscigenaes biolgicas49.
    Por outro lado, a evoluo demogrfica das diferentes regies no seguiu
a lgica da participao no trfico transatlntico dos negros. O componente
afro-americano das sociedades americanas no necessariamente correspondia
 proporo de africanos importados ao longo dos sculos de trfico. O Brasil,
por exemplo, importou cerca de quatro milhes de escravos durante o perodo
do trfico, nmero que representa, como observamos, aproximadamente 38% do

48   H. L. Shapiro, 1953.
49   G. R. Andrews, 1980.
896                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



trfico transatlntico50. Em 1890, momento da abolio da escravatura, este pas
possua uma populao afro-americana de cerca de quatro milhes de pessoas,
representando 33% da populao brasileira local e por volta de 36% do total da
populao afro-americana no continente. A regio das Antilhas importou cinco
milhes de escravos, aproximadamente 43% do trfico; e, no entanto, quando
a ltima das ilhas a abolir a escravatura, Cuba, o fez em 1886, a regio contava
menos de trs milhes de afro-americanos, os quais, embora constitussem 60%
da populao local, no representavam seno 18% dos afro-americanos. Os
Estados Unidos da Amrica do Norte receberam, atravs do trfico, aproxima-
damente meio milho de africanos, correspondentes a cerca de 4,5% do trfico;
mas, quando determinaram o final da escravatura, em 1865, eles tinham uma
populao afro-americana de aproximadamente 4,5 milhes de indivduos. Este
grupo no equivalia seno a 7% da populao local, embora representasse 40,5%
do total de afro-americanos do continente.

 Tabela 28.2    Importaes de escravos e populaes no sculo XIX

                                                  Populao  Percentagem da
                   Escravos        Percentagem
     Regio                                    afroamericana populao Local
                   (milhes)        do trfico
                                                  (milhes)    Continental
   Brasil              4,0             38,0       4,0 (1890)   33,0     36,0
 Antilhas              5,0             43,0       2,2 (1886)   60,0     18,0
  Estados
 Unidos da
                       0,5                4,5              4,5 (1865)                7,0          40,5
 Amrica
 do Norte

    Os nmeros acima realam nitidamente as diferenas marcantes, segundo as
regies, relativas  aptido das populaes negras em se desenvolverem durante
o perodo do trfico negreiro e da escravatura. Por via de regra, com exceo
daquelas dos Estados Unidos da Amrica do Norte, as populaes afro-ame-
ricanas estiveram estagnadas ou em situao de incapacidade de crescimento
natural. Na Amrica Latina e nas Antilhas, as populaes escravas diminuram
na espantosa proporo de 2 a 4% ao ano, de modo que, no momento da abolio
da escravatura, o total da populao assujeitada era muito inferior ao nmero


50    Nmeros relativos  importao de escravos segundo P. D. Curtin, 1969; populaes afro-americanas
      extradas de D. W. Cohen e J. P. Greene (org.), 1972, pp. 4-14.
A dispora africana                                                            897



total de escravos importados para as colnias, diminuio esta que no poderia
ser compensada pelo crescimento sadio e normal da populao livre.
    Alguns exemplos ilustram perfeitamente esta tendncia geral. Somente no
transcorrer do sculo XVIII, a Jamaica importou mais de 600.000 escravos.
Em 1838, momento da abolio da escravatura, a populao assujeitada cor-
respondia a menos de 250.000 indivduos e a populao negra total sequer
alcanava 350.000. Santo Domingo importou mais de 800.000 escravos, ao
longo do sculo XVIII e, no entanto, a populao servil no ultrapassava 480.000
indivduos em 1790, s vsperas da revoluo nesta colnia. A populao no
branca no alcanava, em seu conjunto, meio milho de indivduos. Entre 1810
e 1870, Cuba importou aproximadamente 600.000 escravos africanos. Em 1810,
a populao livre no branca atingia cerca de 114.000 indivduos. Em 1880, a
populao escrava era estimada em 200.000 e a populao livre no branca em
pouco mais de 269.000.
    O brutal declnio das populaes de escravos no continente americano
(com exceo do caso dos Estados Unidos da Amrica do Norte) constitui
a acusao de maior gravidade que possa ser formulada contra o escravismo,
dada a sua terrvel incapacidade, tanto para criar uma sociedade naturalmente
vivel e capaz de se reproduzir por si mesma, quanto para prover, de modo
eficaz e seguro, a mo-de-obra necessria. Em suplemento, as sequelas da
escravatura comprometeram por muito tempo as possibilidades das populaes
afro-americanas em ocuparem, de fato, um espao nas estruturas polticas, eco-
nmicas e sociais dos pases onde elas no constituam a esmagadora maioria
da populao.


    O impacto da frica
   Quando, durante o sculo XIX, os sistemas escravistas americanos se desin-
tegraram, as formas institucionais e as posturas sociais das sociedades j estavam,
essencialmente, estabelecidas. De modo geral, as sociedades americanas foram
hostis aos africanos e  cultura africana.
   Todavia, a frica no poderia deixar de exercer influncias sobre numerosos
aspectos da sociedade americana: fentipo, lngua, msica, religio, culinria,
artes, agricultura e arquitetura. Em alguns casos, as influncias africanas foram
suficientemente fortes e penetrantes para que se constitusse uma autntica
cultura afro-americana, capaz de concorrer e, por vezes, completar as formas
derivadas da cultura europeia.
898                                                      frica do sculo XIX  dcada de 1880



    Nos Estados Unidos da Amrica do Norte, a estrutura poltica impunha na
populao uma peremptria distino entre brancos e negros, segundo a qual
todo indivduo que minimamente tivesse sangue africano nas veias era relegado
 categoria dos negros51. Em contrapartida, no restante de todo o continente
prevalecia uma estrutura social com trs escalas, correspondentes aos principais
grupos: negros, mulatos e brancos. Como as pessoas de raa branca, ocupantes
do topo da pirmide social, eram relativamente pouco numerosas em grande
parte das sociedades, as maiorias africanas no tiveram dificuldade alguma em
impor os seus valores e as suas culturas ao restante da sociedade.
    No interior desta estrutura de trs nveis, cada casta tinha o seu prprio
sistema de direitos legais e privilgios sociais, assentados em uma combinao
de parmetros de cor, fortuna e profisso. Nas reas de economia aucareira e
latifundiria do Brasil, das Antilhas e das plancies do Mxico, da Colmbia e do
Peru, os direitos dos escravos e aqueles das pessoas de cor livres tinham tendn-
cia a serem limitados, em funo das exigncias gerais do seu trabalho. Nas reas
cafeeiras e nas regies de criao de gado e de pesca, do Sudeste do Brasil, de
Porto Rico e do Leste de Cuba, assim como nas provncias do interior da Vene-
zuela e da Argentina, a tendncia era para uma maior mobilidade social, para
a reduo das distncias sociais e para diferenciaes internas, de classe e casta,
menos rgidas e sistemticas, comparativamente s zonas de plantao extensiva.
Entretanto, em cidades como Buenos Aires, Lima, So Paulo, Caracas, Havana,
Vera Cruz, Puebla e Mxico, os africanos gozavam, em ampla medida, de uma
ausncia de obstculos e podiam frequentemente postular certos empregos, do
mesmo modo que outros membros livres da sociedade. Estas disposies sociais
influenciaram mas no determinariam as relaes entre os afro-americanos e o
restante da populao, ao final do sculo XIX e durante o sculo XX.
    Durante todo o perodo de escravatura, a maioria dos africanos e afro-ame-
ricanos foi utilizada quer seja como trabalhadores agrcolas ou na funo de
domsticos. Porm, 20% desta populao exerceu a profisso de marinheiros,
salgadores, artesos, arreeiros, babs, amas-de-leite, negociantes, proprietrios
(inclusive de escravos), comerciantes, mestres mineiros ou aucareiros, peixeiros,
vendedores de condimentos e alimentos. Com efeito, por exemplo, ao final do
sculo XVIII, Edward Long deplorava que, na Jamaica, o dinheiro estivesse em
grande parte nas mos desta frao da populao e que ela monopolizasse os
meios de transporte, tanto nas regies interioranas quanto ao longo do litoral52.

51    L. Foner, 1970; W. Jordan, 1968; P. Mason, 1970.
52    E. Long, 1774.
A dispora africana                                                            899



    Esta situao em nada mudou aps a abolio da escravatura, embora o
nmero de camponeses, agricultores de ascendncia africana, tenha fortemente
aumentado nas Antilhas. A atividade exercida e a herana biolgica podiam
aumentar, e efetivamente fizeram-no, a mobilidade de classe e de casta, durante
e aps a escravatura. Um indivduo ou uma famlia podia abrir caminhos fora
da servido e, frequentemente, melhorar a sua condio social em liberdade
ou, ainda, passar da condio de negro para aquela de mulato (especialmente
no Brasil e na Amrica espanhola) ou, at mesmo, da condio de mulato para
aquela de branco (feito excepcional que exigia muito dinheiro), quando os sinais
distintivos da raa eram mais fortemente culturais que biolgicos. Ao final do
sculo XVIII, alguns plantadores e comerciantes hispano-americanos, incertos
acerca do seu estatuto, compraram da Coroa certificados chamados de limpieza
de sangre, os quais garantiam que eles no possuam nenhum trao de sangue
mouro ou judeu desde, ao menos, quatro geraes. Em ltima instncia, todavia,
a mobilidade social interna e a qualidade geral de vida dependiam do contexto
imediato da comunidade: fatores demogrficos, econmicos e jurdicos, filosofia
poltica e social, bem como grau de pluralismo cultural. Tanto menos estvel e
madura fosse a sociedade, tanto mais os africanos e afro-americanos influen-
ciariam a sua estrutura e conquistariam um espao para si mesmos e para os
seus descendentes.
    Quando lhes era possvel - caso no lhes restasse outro recurso -, os africanos
e afro-americanos adaptavam-se s condies nas quais se encontravam. Em um
ambiente de simbiose cultural, a contribuio dos africanos era ao menos igual
quela que eles aceitavam do restante da sociedade. Evidentemente, tanto mais
estavam eles desmunidos e abandonados  sua prpria sorte, maior era o estmulo
 sua criatividade, como revelam os patos falados nas antigas ilhas francesas do
Leste antilhano e o papiamento das antigas Antilhas holandesas. A criatividade
tornava-se particularmente necessria quando um pequeno nmero de europeus
vivia em meio a um grande nmero de africanos, a exemplo de muitas colnias
de explorao, como a Jamaica, Barbados, Trinidad e Santo Domingo. Quando
a populao europeia no atingia uma determinada massa crtica, os africanos
eram levados a construir uma sociedade a partir de uma coletividade heterclita,
cujos indivduos nada possuam em comum seno a cor da sua pele e a sua
servido. A adoo dos seus costumes e do seu comportamento pela frao no
africana da populao indica a medida do seu sucesso.
    Os africanos nem sempre se acomodaram  sociedade na qual se encon-
travam introduzidos. Durante sculos, a "marronnage", em outros termos, a
900                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



fuga de escravos, foi parte integrante do universo escravista53. No Nordeste
do Brasil, o exemplo foi o Quilombo dos Palmares, com quase um sculo de
durao e cujo aniquilamento exigiu o recurso  mais potente fora militar
jamais reunida na Amrica, pelos portugueses e brasileiros. Cidades de escra-
vos "marrons" existiram, durante perodos igualmente duradouros, na provncia
de Esmeraldas, no Equador, e em algumas partes das Blue Mountains e da
Cockpit Country, na Jamaica. A "marronnage" no somente indicava um desejo
de ser livre; ela era uma eloquente e visvel condenao do sistema escravocrata
pelos africanos.
    Quando a escravizao dos africanos foi abolida em toda a Amrica, a situ-
ao da frao africana da populao dramaticamente piorou, relativamente ao
que fora um sculo antes. A reconstruo poltica e econmica subsequente 
guerra de Secesso nos Estados Unidos da Amrica do Norte foi acompanhada
de um movimento de discriminao legalizado e de excluso econmica e social
da populao no branca, caracterizado pela existncia de instituies separadas,
linchamentos, sociedades e organizaes abertamente racistas, as quais perdu-
raram at meados do sculo XX54. A condio dos negros americanos era ento,
em seu conjunto, comparvel quela que conheceram, at recentemente e em
grau mais extremo, os negros da frica do Sul.
    Nos Estados Unidos da Amrica do Norte, os afro-americanos compunham
uma pequena minoria quase impotente em matria poltica. No Haiti, contraria-
mente, eles tomaram o comando do Estado a partir da revoluo de 1789 e, ao
longo de todo o sculo XIX, o renascimento da cultura africana tornou-se o mais
slido cimento social, unificando este pas empobrecido e isolado, como prova,
por exemplo, o culto sincrtico do vodu. Alhures, como em Cuba, Barbados, na
Jamaica e no Brasil, um pequeno nmero de afro-americanos atingiu posies
que conferia prestgio social e poder poltico aos seus membros. As guerras civis,
duradouras, rduas e difceis travadas em Cuba, entre 1868 e 1898, transforma-
ram alguns afro-cubanos em heris nacionais e figuras internacionais da luta
pela independncia poltica,  imagem de Antonio Maceo e Maximo Gomez.
Entretanto, em 1912, Cuba ainda permanecia rasgada por uma guerra racial e a
hostilidade relativa aos afro-cubanos no seria desarmada seno aps a revoluo
castrista de 1959.
    As realizaes individuais e coletivas dos afro-americanos foram notveis,
no decorrer do sculo XIX. Malgrado as vias divergentes seguidas pela frica

53    Y. Debbasch, 1961-1962, pp. 1-112, 1962; M. Schuler, 1970; R. Price, 1973.
54    G. Myrdal, 1944.
A dispora africana                                                           901



e pelas Amricas, apesar da monumental incapacidade da qual padeciam nos
planos jurdico e social, mesmo com as suas enormes desvantagens econ-
micas, em que pese o agressivo antagonismo dos americanos de raa branca,
os africanos lograram com sucesso criar comunidades em toda a extenso do
continente americano. Eles fundaram instituies educacionais, a exemplo
dos colgios Mico na Antgua e na Jamaica, do Colgio Codrington, em
Barbados, assim como de alguns colgios universitrios nos Estados Unidos
da Amrica do Norte: Virginia Union University (1864), Atlanta University
e Fisk University (1865), o Hampton Insitute e Howard University em 1867.
Afro-americanos desempenharam um papel importante no mbito da inova-
o tecnolgica norte-americana. Benjamin Banneker, matemtico e editor
de almanaques, nativo de Maryland, ajudou a criar o distrito de Colum-
bia. Entre 1835 e 1836, Henry Blair, escravo de Maryland, patenteou duas
moendas para milho. Durante os anos 1850, Benjamin Montgomery, escravo
pertencente a Jefferson Davis, presidente dos Estados Confederados do Sul,
inventou uma hlice para barcos. Norbert Rilleux, nascido em Nova Orle-
ans e formado em Paris, em 1846 inventou a cuba para evaporao a vcuo,
geradora de considerveis progressos nos mtodos de refino de acar. Em
1852, Elijah McKoy inventou um sistema que permitia lubrificar mquinas
em estado de funcionamento. Jan Matzeliger, nascido na Guiana holandesa,
inventou a mquina que revolucionaria de modo duradouro a indstria do
calado, na Nova Inglaterra. George Washington Carver, qumico-agrnomo
do Tuskegee Institute, inventou mais de 300 produtos derivados do amen-
doim, conferindo novo vigor  economia agrcola de numerosas regies do
Sul norte-americano55.
    A dispora foi uma cruel e difcil experincia para os africanos transferidos.
Arrancados do seu ambiente e transportados para terras estrangeiras, submeti-
dos  mais penosa servido e, muito amide, inseridos em meio a uma populao
hostil, estes africanos provaram possuir uma pacincia, uma perseverana, uma
capacidade de adaptao e uma criatividade hericas. Em suma, eles tornaram-
se, por fora das circunstncias, parte integrante da maioria das sociedades
americanas. Atravessando guerras civis e internacionais, em perodos prsperos
ou de crise econmica, em meio a todo tipo de mudanas polticas, os africanos
trabalharam, combateram e, finalmente, conquistaram um espao no seio das
diferentes naes que compem as Amricas e a Europa.


55   J. H. Franklin, 1969, p. 197.
902                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880




figura 28.4 Toussaint Louverture, lder da revoluo de Santo-Domingo e patrono da independncia do
Haiti. [Fonte: gravura de Rainsford. Foto: Harlingue-Viollet, Paris.]
A dispora africana                                                          903



     A dispora e a frica
    Entrementes, o pensamento africano permaneceu um tema constante, man-
tido com maior ou menor aplicao por americanos, brancos e negros. Nos
Estados Unidos da Amrica do Norte, a ideia da repatriao dos africanos
fora eventualmente emitida, ao longo de todo o sculo XVIII e, especialmente,
em 1777, quando Thomas Jefferson assumiu a defesa de um relatrio sobre a
questo perante uma comisso do corpo legislativo da Virgnia. Porm, no seria
seno a partir de 1815 que efetivamente iniciar-se-ia o repatriamento, quando
um pequeno grupo de 38 americanos negros retornou  frica conduzido por
Paul Cuffe. Em 1830, sob o impulso da American Colonization Society e com
o apoio financeiro do Estado Federal e dos governos de numerosos Estados
da Unio, a Libria tornar-se-ia o espao para uma colnia geral de africanos
repatriados, antigos escravos em sua maioria. Em 1860, somente cerca de 15.000
indivduos haviam retornado  frica. Aps a Guerra de Secesso, a despeito
da rpida deteriorao das condies de vida dos afro-americanos nos Estados
Unidos da Amrica do Norte, sequer 2.000 fizeram a viagem.
    Houve ainda duas outras correntes migratrias de retorno. A primeira era
composta de um nmero desconhecido de escravos "marrons" e de africanos
retirados dos navios negreiros confiscados durante o sculo XIX, os quais
seriam reembarcados para a frica pelos britnicos que tentavam, com muito
zelo, colocar um ponto final no trfico de escravos com vistas a substitu-
lo por um "comrcio legtimo". A segunda corrente migratria de africanos
de retorno compreendia um nmero ainda menos relevante de missionrios
recrutados nas Antilhas e nos Estados da Amrica do Sul, principalmente
pelos irmos morvios e pelos presbiterianos, para ajudar a evangelizar a frica
do Oeste. O exemplo mais conhecido desta poltica talvez tenha sido a ini-
ciativa de Ble nos montes Akwapim, em Gana, entre 1830 e 1840, e a sua
deciso, em 1843, de empregar jamaicanos em lugar de missionrios alemes
ou suos, cujo ndice de mortalidade revelava-se demasiado elevado para que
a evangelizao fosse eficaz.
    Enquanto os africanos desembarcados no Novo Mundo so contados aos
milhes, os seus descendentes retornados  frica no passariam de alguns
milhares56. Existem vrias razes para esta disparidade, a menos importante no
era a indubitvel falta de meios financeiros que permitissem criar um sistema


56   T. Shick, 1980.
904                                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



de transporte anlogo quele precedente que facilitava o trfico transatlntico
de Leste a Oeste. No decorrer do sculo XIX, o repatriamento oferecia poucas
perspectivas de vantagem material para os europeus e no europeus e, em 1900,
o contraste entre a frica e a Amrica do Norte tornara-se demasiado elevado.
Os americanos de descendncia africana no estiveram imunes  onda naciona-
lista xenfoba da poca que deixava de conferir  frica boa parte do seu poder
de atrao. Alm disso, o interesse suscitado pela frica, aps o final do trfico
negreiro, derivava de apetites nacionais por potncia e riqueza; ora, os afro-
americanos no possuam a potncia poltica e tampouco a riqueza necessrias
para estimular o seu prprio interesse ou para influenciar aqueles que estavam
em vias de dividir a frica em domnios coloniais. As aspiraes afro-americanas
concentraram-se, antes e sobretudo, nas novas perspectivas que eram oferecidas
em seu continente. As migraes internas e inter-regionais, assim como a luta
pela conquista de melhores condies de vida, perante novos e perturbadores
desafios, absorveram a sua ateno. O lao africano tornou-se impreciso embora
no tenha desaparecido. O movimento de retorno  frica encontrou promoto-
res individuais que foram capazes, em certos momentos, de insuflar uma nova
vitalidade ao projeto. Em 1897, Henry Sylvester Williams, jurista nascido em
Trinidad e habitante de Londres, fundou a PanAfrican Association, cujos mem-
bros posteriormente teriam entre si: George Padmore, Kwame Nkrumah e C.
L. R. James. No curso dos anos 1920, Marcus Garvey fundou a Universal Negro
Improvement Association cujo objetivo consistia em promover a descolonizao
da frica e unir os africanos de todo o mundo. A organizao de Garvey possua
antenas no Canad, nos Estados Unidos da Amrica do Norte, nas Antilhas,
na Amrica Latina e na frica57. Quando esta associao pereceu, em 1927, a
frica, muito particularmente em referncia  questo etope, j comeava a
desempenhar um papel de primeira grandeza nas questes mundiais.




57    T. Martin, 1976; E. D. Cronon, 1962; R. A. Hill (org.), 1983.
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                    905



                                        CAPTULO 29


           Concluso: a frica s vsperas da
                  conquista europeia
                                             J. F. Ade. Ajayi




     Neste ltimo captulo, ns gostaramos de lanar luz sobre as grandes cor-
rentes da evoluo histrica que conduziu a frica ao princpio do ltimo
quarto do sculo XIX. Tendncias estas particularmente originadas no curso
do perodo 1875-1885, durante o qual acompanhamos o redirecionamento do
interesse suscitado pela frica na Europa, com a Conferncia de Berlim sobre
a frica do Oeste encaminhando uma trajetria que desembocaria na partilha
e, finalmente, na conquista do continente. Um olhar sobre o conjunto da frica,
s vsperas da conquista europeia, permite entrever assaz nitidamente, por um
lado, uma tendncia dominante que se afirma a despeito do nmero e da diver-
sidade dos Estados, povos e regies, e, por outra parte, algumas tendncias qui
divergentes. Aparentemente, a tendncia dominante seria aquela que conduz
os diversos detentores do poder na frica a dedicarem-se deliberadamente
ao fortalecimento da sua potncia e dos seus meios de defesa dos territrios e
interesses africanos. Estes esforos foram todavia sistematicamente solapados
e, ao final das contas, anulados pela presena europeia.
     Tal como demonstraram os sucessivos captulos deste volume, o sculo XIX
foi na frica um perodo de rpidas e, por vezes, contraditrias transformaes.
At o terceiro quarto deste sculo, as mais profundas mudanas, aquelas de
maior amplitude, estiveram ligadas a fatores de ordem interna. Outras mudan-
as produziram-se em grande parte sob a influncia ou mesmo provocadas pela
906                                                              frica do sculo XIX  dcada de 1880



incidncia das atividades dos negociantes, missionrios ou cnsules europeus,
primeiramente concentrados nas regies litorneas e posteriormente, sobretudo
a partir de 1850, penetrando progressivamente nas regies interioranas. Algumas
iniciativas transformadoras,  imagem dos esforos realizados pelos soberanos da
Etipia para unificar o pas e reformar as instituies, no tiveram seno alcance
local. Alhures, atividades a exemplo daquelas prprias aos ambiciosos quedivas
do Egito, no vale do Nilo, repercutiram sobre toda uma regio. O Mfecane,
fenmeno originalmente local, no tardou a expandir-se, propagando-se em
toda a frica Austral e Central, assim como em algumas partes da frica do
Leste, com tamanha intensidade que, s vsperas da conquista europeia, a hist-
ria destas regies correspondia, em larga medida, quela de Estados que haviam
surgido deste fenmeno ou que haviam sofrido reviravoltas em funo dele1.
    A jihad estendeu os seus movimentos pela reforma islmica  totalidade do
Sudo e ao Saara Oriental, at a Cirenaica; eles se prolongaram para o Sul, at
os limites da zona das florestas, atingindo a Senegmbia, as regies do Volta
e aquelas ocupadas pelos malinqus do Sul, pelos iorubs do Norte e pelas
populaes de lngua edo. Juntamente com o crescimento da demanda europeia
por leo de palma, amendoim, marfim, sisal e borracha, e na justa medida que
uma rede interna de rotas comerciais de longa distncia permitia responder a
esta demanda, o comrcio, do qual dependiam a aquisio de armas de fogo e
a acumulao de riquezas, tornou-se um fator essencial e capaz de determinar
a ascenso e a queda de Estados, em vastas regies da frica. Em decorrncia
desta expanso do comrcio europeu, bem como das atividades dos missionrios
europeus e norte-americanos, o cristianismo e as ideias europeias relativas 
organizao social e poltica tornaram-se igualmente fatores de transformao,
atravessando uma vasta zona estendida de Serra Leoa at a frica Austral,
alcanando Madagascar.
    O aspecto mais impactante destes diferentes movimentos  o esforo empre-
endido, no sculo XIX, por grande nmero de soberanos africanos para reforma-
rem a sua sociedade, em diferentes partes do continente. Algumas dentre as suas
iniciativas tinham como fonte a herana cultural africana; outras eram animadas
pelas ideias reformistas do isl. Na maioria dos casos, os chefes no demonstra-
vam grande inclinao para tirar proveito das possibilidades oferecidas pela nova
dimenso dos intercmbios comerciais e pelas atividades dos europeus, fossem
estes ltimos negociantes, missionrios ou caadores de animais ou concesses.


1     Consultar I. N. Kimambo, captulo 10 do presente volume.
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                            907



Outro trao, igualmente marcante,  o modo atravs do qual os projetos refor-
mistas dos dirigentes africanos foram sistematicamente solapados pelas prprias
atividades destes comerciantes, missionrios e caadores, das quais os dirigentes
africanos pretendiam tirar proveito.
     espantoso que este aspecto do sculo XIX africano - o esforo interno
por reformas sistematicamente abafado pela interveno externa - tenha at
os nossos dias retido to pouca ateno. Convencidos que o colonialismo e a
integrao ao sistema capitalista mundial representavam as condies necess-
rias para a modernizao, a maioria dos historiadores no percebeu a enorme
vontade de autodesenvolvimento que animava o esforo dos africanos ao longo
deste sculo e tampouco a qual ponto a conquista europeia e o colonialismo
constituram uma subverso deste esforo.


    As estruturas polticas
    A esfera na qual mais fortemente manifestou-se o esforo de autodesenvolvi-
mento talvez tenha sido aquela referente s estruturas polticas e ao poder estatal.
A grande lio que os povos da frica Central e do Oeste tiraram do trfico de
escravos,  poca j antiga - justamente esta lio que a frica do Leste reteve,
por sua vez, no transcorrer do sculo XIX -, equivaleu a saber que o meio de
sobreviver ao trfico, qui dele tirar proveito, era reforar as estruturas e a base
militar do poder de Estado.
    Ao incio do sculo XIX, como ns observamos, "as estruturas polticas e
econmicas em grande parte da frica aparentavam caracterizar-se por certa
fragilidade. Os limites dos sistemas estatais indicavam estarem submetidos a
um perptuo movimento de fluxo e refluxo e os centros administrativos, por sua
vez, a movimentos alternados de ascenso e queda2". O grau de submisso, as
contribuies materiais e o servio militar que o Estado exigia do povo em troca
da sua proteo reduziam-se ao estrito necessrio. Em grande parte dos casos,
a vida cotidiana dos indivduos inscrevia-se em larga escala em um tecido de
relaes nas quais intervinham os laos de parentesco e as instituies religiosas,
jurdicas e econmicas que, muito amide, no se circunscreviam s fronteiras
dos Estados. O Magreb e o Egito eram as nicas regies onde se haviam de
longa data estabelecido estruturas polticas relativamente durveis, derivadas de
vrios sculos de aplicao da lei islmica. Invariavelmente, alhures no conti-

2    Consultar, acima, o captulo 1.
908                                                         frica do sculo XIX  dcada de 1880



nente, havia no sculo XIX um enorme esforo para instaurar novas estruturas
polticas, capazes de se manterem por certo tempo. No jogo de intensas rivali-
dades polticas, resultantes destes esforos, algumas dentre as aes foram, sem
sombra de dvida, ineficazes e, em determinadas localidades, o seu mais ntido
resultado foi a desintegrao dos imprios e a descentralizao, por vezes frag-
mentao, da autoridade. Como observam J. Ki-Zerbo e K. Arhin no tocante
s regies voltaicas:
          O sculo XIX acompanhou a generalizao da instabilidade poltica e dos des-
      locamentos populacionais; certo nmero de massacres e movimentos secessionistas
      reproduziram-se sob a responsabilidade daqueles, propriamente aqueles, que supos-
      tamente deveriam representar a autoridade; embora tenha havido notveis excees,
      por via de regra, a frequncia e a amplitude destes conflitos acentuaram-se; a ten-
      dncia para o deslocamento das sociedades esteve, indubitavelmente, ligada ao fato
      de as potncias perifricas e rebeldes terem progressiva possibilidade de adquirirem
      armas e delas servirem-se contra os chefes reinantes3.
    Esta tendncia foi especialmente ilustrada pelo impacto inicial do Mfecane
e do comrcio, assim como pelo domnio conquistado pelos chokwe e ovimbun-
dus sobre os territrios dos Estados luba e lunda4. Muitos Estados e imprios
desapareceram. Porm, ainda mais impactante  o surgimento de novos centros
de poder nos quais eram experimentadas novas estruturas administrativas que
tendiam, com maior frequncia: a um fortalecimento dos meios disponveis
ao soberano; a uma mais ntida definio dos seus poderes; a um mais estrito
controle sobre os dignatrios do Estado, os quais deviam a sua condio muito
mais ao prncipe que aos seus direitos hereditrios; e finalmente, para um aper-
feioamento do sistema fiscal e de outras reformas da mesma ordem5.
    Alguns historiadores identificaram estes movimentos de reforma com as ati-
vidades de "protonacionalistas e fundadores de imprios" africanos, uma espcie
de corrida africana que teria parcialmente provocado ou, ao menos contribuiria,
para explicar a corrida dos europeus6. Na realidade, estas atividades reformistas
de modo algum constituram um acesso febril, comparvel  corrida europeia.
A frica buscara estruturas polticas mais estveis ao longo de todo o sculo
XIX e, inclusive, anteriormente a esta poca; o estado de coisas reproduzido


3     K. Arhin e J. Ki-Zerbo, acima no captulo 25.
4     Consultar acima nos captulos 4, 5 e 11.
5     Conferir T. C. McCaskie, 1980.
6     Referir-se, por exemplo, a R. Robinson, 1985.
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                       909



no continente no era seno o prolongamento de uma tendncia constituinte
da evoluo geral destes povos. Talvez tenha havido uma acelerao no sculo
XIX e as mudanas associadas at ento  ascenso de Estados como o antigo
Oyo, no sculo XVII, ou o Ashanti, o Daom, o Fouta-Djalon, o Fouta Toro e
o Bondu, no sculo XVIII, generalizar-se-iam muito mais nesta poca. Em todo
caso e aparentemente, houve um esforo mais deliberado para institucionalizar
as transformaes polticas, inscrevendo-as em estruturas de carter mais per-
manente e apoiando-se em novos dispositivos militares, econmicos e sociais.
    Dentre os principais Estados sobreviventes ao sculo XVIII, raros seriam
aqueles que alcanariam esta condio sem realizarem grandes reformas internas.
Com efeito, as rivalidades polticas eram de tamanha intensidade e a necessi-
dade de canalizar o desenvolvimento das relaes comerciais impunha proble-
mas a tal ponto que cada Estado devia escolher entre um esforo reformista e
expansionista  custa dos seus vizinhos ou as perspectivas da desintegrao e
da fragmentao. Reduzidos em seu nmero foram os Estados que,  imagem
do Benin, puderam sobreviver simplesmente voltando-se para si7. A maioria
foi obrigada, a exemplo do Ashanti, do Daom, do Buganda, entre outros, a
zelar constantemente pela preservao e inclusive pelo aumento da eficcia do
poder - em amplo grau proporcionada pela capacidade do chefe em centralizar
este poder, enfraquecer os seus subordinados e impor crescentes contribuies
a estes ltimos; monopolizar os principais recursos econmicos e estratgicos;
instituir uma funo pblica e hierarquizada na qual as nomeaes, as promo-
es e a disciplina estivessem submetidas ao controle do monarca; e consolidar
estes poderes atravs da criao e do enquadramento de uma fora armada
permanente e comandada por oficiais similarmente submetidos  autoridade do
chefe de Estado. Tratava-se ento de uma verdadeira revoluo, eventualmente
exitosa e sem aparente mudana do sistema poltico; em alguns casos, tal como o
Borno, ela no pde realizar-se sem uma mudana de dinastia8. Frequentemente,
esta revoluo derivou de um compromisso, "novos homens" eram nomeados
 frente de antigas chefaturas conduzidas a respeitarem o estilo burocrtico
recm-introduzido na administrao ou, ainda, novas funes adotavam par-
cialmente os ritos ligados aos ttulos tradicionais.
    O Mfecane expandiu e difundiu amplamente o novo modelo de Estado nguni
do Norte, tal como revolucionado por Shaka. O novo Estado equivalia, essen-
cialmente, a uma adaptao do sistema de grupos etrios, com vistas a criar uma

7    A. I. Asiwaju, acima no captulo 26.
8    M. Last, acima no captulo 22.
910                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



fora armada quase constantemente em p-de-guerra que recrutava em todo o
reino jovens homens a mobilizar, alm de mulheres como esposas; todos estavam
ao servio do rei, ao qual pertencia a totalidade dos recursos, inclusive o gado e
a produo agrcola; pois era necessrio alimentar a fora armada e uma corte
de mais em mais numerosa. O sistema igualmente organizava a aculturao dos
povos conquistados, integrando-os  cultura dominante, alm de introduzir uma
concepo totalmente nova das relaes entre o soberano e os seus assujeitados9.
A personalidade do soberano e a sua capacidade em governar aparentemente
continuavam a desempenhar um papel mais importante, comparativamente s
estruturas de Estado, alm deste ltimo, ele prprio, estar muito amide rasgado
por conflitos opondo famlias rivais no seio das dinastias reais.
    Entretanto,  incontestvel que, alm das devastaes e da confuso geral
pelas quais ele foi inicialmente responsvel, o Mfecane logrou criar muitos gran-
des Estados, mais fortes e eficazes que os seus precedentes e assentados sobre
estruturas mais durveis. Os novos Estados igualmente possuam fronteiras
mais ntidas, seno porque as exigncias por eles impostas aos seus assujeitados
no deixavam dvida alguma quanto  extenso ou aos limites dos territrios
submetidos  sua autoridade. Em suplemento, o soberano eventualmente podia
valer-se da funo suprema na realizao de diversos rituais; no entanto, mani-
festa e progressivamente, ele deixava de ser unicamente um chefe religioso. As
suas capacidades de organizao e administrao, bem como a sua aptido para
o comando militar, em sua funo de chefe do executivo no seio do aparelho de
Estado, tendiam a sobressair em detrimento das consideraes de parentesco e
de laos rituais, este estado de coisas no impedia que, em alguns casos, estes
ltimos conservassem um importante papel no plano ideolgico e na qualidade
de fontes de reconhecida legitimidade.
    No caso etope, o objetivo da reforma no consistia em criar um novo Estado
ou reforar o Estado existente, mas em fazer reviver um Estado muito ancio, o
antigo imprio de inspirao crist copta que, sob a dupla presso dos oromos
muulmanos e dos cristos na Europa, decompusera-se em vrias chefaturas
rivais. Os chefes, assim opostos entre si, tinham sempre o mesmo objetivo:
reivindicar pessoalmente e impor a autoridade do imperador; restabelecer a
sua aliana com a Igreja; reformar esta ltima, dotando-a de novos meios e
utilizando a sua influncia para levar as potncias rivais, fossem elas crists ou
muulmanas, a renderem fidelidade ao imperador. As tradies histricas do


9     L. D. Ngcongco, acima no captulo 5.
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                               911



imprio, a quantidade de chefes rivais entre si e as relaes de fora existentes
entre eles no concediam seno estreita margem de manobra aos imperadores
Tewodros II e Yohanns IV para o restabelecimento do imprio. Alm disso,
inclusive no se podia imaginar o estabelecimento de novas estruturas enquanto
a supremacia militar no estivesse assegurada. A ao sucessiva dos dois impe-
radores foi assaz exitosa, no tocante aos resultados, a ponto de despertar a cons-
cincia nacional; porm, ela se demonstrou insuficiente para monopolizar os
recursos econmicos e estratgicos ou para totalmente reduzir as ambies das
potncias vassalas, inclinadas a colaborarem com os inimigos vindos do Egito
pelo Norte ou com os invasores europeus pela costa10.
    Trata-se, exatamente e em certa medida, desta mesma nostalgia do passado
que encontramos nos esforos realizados pelos quedivas do Egito com o obje-
tivo de transformarem os seus poderes mantidos em uma potente monarquia
hereditria e nacional, estenderem o domnio do Egito no vale do Nilo e, seno
para faz-la renascer, ao menos para rivalizar com a antiga glria dos faras ou
com aquela mais recente, do Egito dos califas fatmidas. O objetivo de Muham-
mad `Al era solapar o poder dos mamlk e dizim-los, reorganizar a funo
pblica e os seus conselhos, bem como levar a cabo uma reforma agrria com
uma redistribuio das terras que permitisse fortalecer o controle exercido pelo
soberano sobre as regies rurais e a agricultura; conjunto de aes que deveria
permitir uma maior extrao de recursos deste setor e assim criar os meios para
a construo de uma economia industrial moderna, para manter uma fora
armada e organizada e para se libertar, atravs da negociao, da tutela otomana.
O quediva Ism`l reacendia e levou adiante este esprito reformista: ele engajou
europeus para dirigirem empresas abolicionistas e comerciais no Sudo, concluiu
a abertura do canal de Suez e construiu outros canais, realizou obras de irrigao,
assim como abriu vias frreas e outras redes de comunicao. O seu objetivo era,
tanto quanto permitisse a tutela otomana, explorada pelas potncias europeias
para imporem tratados desiguais que garantiam os seus interesses, adquirir uma
tecnologia europeia que modernizasse as estruturas e as instituies egpcias11.
    O objetivo declarado dos movimentos da jihad era fazer renascerem as cls-
sicas instituies islmicas da poca dos califas ortodoxos. Na prtica, tratava-se
de instaurar Estados islmicos teocrticos, em lugar das tradicionais sociedades
governadas por muulmanos e tradicionalistas. Era imperioso levar ao poder
dirigentes escolhidos pelas suas sapincia e piedade, consagrados  gesto dos

10   R. Pankhurst, acima no captulo 15. Consultar igualmente R. A. Caulkc, 1972.
11   A. Abdel-Malek, acima no captulo 13.
912                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



assuntos do Estado, segundo os preceitos do Alcoro e das leis islmicas, e
dedicados a estabelecerem instituies autenticamente islmicas. Durante os
anos 1870, os sucessores dos fundadores de Sokoto haviam em larga medida
alcanado os seus fins. Os emires, atuando sob a autoridade comum do califa,
haviam incontestavelmente logrado estabelecer estruturas polticas mais dur-
veis que aquelas dos reis huassa, anteriormente por eles eliminados. Certamente,
os soberanos e as classes aristocrticas que os rodeavam haviam assimilado boa
parte da nobreza huassa, alm de terem retomado para si grande parte dos
privilgios dos feudais e dos prncipes-mercadores. Entretanto, a paz relativa
usufruda pelo califado, o esforo de desenvolvimento dos mercados, indstrias,
artesanato e rotas comercias, os poderes conferidos aos juzes e outros funcio-
nrios, bem como o controle exercido pelos emires sobre a funo pblica eram
fatores relevantes que concorriam para consideravelmente reforar a autoridade
no seio do Estado.
    Ahmadu Sayku, sucessor de al-Hadjdj `Umar Tal, pouco aps a incorporao
do Macina ao imprio, foi obrigado a simultaneamente enfrentar rivalidades
dinsticas internas e a hostilidade dos franceses, os quais encorajavam, pela sua
postura, os grupos dissidentes do interior. Malgrado estas dificuldades e obstcu-
los, o imprio fornecera o quadro geral de um Estado, dotado de princpios jur-
dicos e estruturas administrativas que consolidavam a unidade das populaes
muito diversas que viviam neste vasto territrio. Inclusive independentemente
das estruturas de Estado, a ordem tijni introduzia o suporte de uma religio e
de um modo de vida que constituam um fator suplementar de unidade e fideli-
dade ao soberano. O exemplo da revoluo do Dinguiraye incitou muitos chefes
religiosos a levarem a jihad a outras regies, a fim de nelas substituir os muul-
manos de tendncia secularista e os tradicionalistas, atravs de clrigos dispostos
a criarem Estados teocrticos islmicos. Assim sendo, no imprio desmembrado
do Jolof, os Estado do Kayor e do Jolof, em razo de terem passado para o raio
de influncia dos clrigos, dedicaram-se a propagar o isl como fermento para a
reforma na Senegmbia. Junto aos malinqus do Sul, regio na qual os muul-
manos constituam uma minoria, Samori Tour, guerreiro juula (dioula) com
passado de negociador, decidiu servir-se do isl para unificar as populaes do
seu pas, fossem elas inicialmente muulmanas ou tradicionalistas12. Ns assim
descobrimos o isl sendo utilizado com os mesmos fins em Nupe e Ilorin, onde
os soberanos aderiram a esta religio,  sua tradio escrita e ao seu modelo de


12    Y. Person, acima no captulo 24.
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                         913



instituies polticas e sociais, no to somente porque pretendiam transformar
uma realeza de tipo ritual tradicional em Estado teocrtico funcional, mas,
igualmente, em virtude de identificarem no isl um fator de expanso, atravs
das converses, junto aos povos no muulmanos.
    O cristianismo respondeu a uma necessidade anloga, fornecendo o quadro
cultural para a criao de uma sociedade crioula a partir de um conjunto dspar de
povos que se haviam fixado em Freetown e nas localidades circunvizinhas, assim
como em diversos estabelecimentos do litoral liberiano ou ainda em Libreville,
Freretown e em outros estabelecimentos de escravos libertos. Em diversos luga-
res, missionrios vindos para obterem converses receberam frequentemente um
caloroso apoio da parte dos soberanos africanos, os quais demonstravam, todavia,
muito zelo pela sua independncia e pouca inclinao a permitirem a converso
do seu povo; porm, aos olhos deste ltimo as atividades dos missionrios ofe-
reciam uma possibilidade de acesso  educao europeia: alfabetizao e aquisi-
o de algumas capacidades tcnicas, especialmente em matria de marcenaria,
impresso grfica e, caso possvel, igualmente de fabricao de armas de fogo
e da plvora para canho. Os soberanos de Madagascar, a seu turno, tentaram
manter o equilbrio entre protestantes ingleses e catlicos franceses, em seguida,
rejeitaram ambos e ensejaram proibir as suas atividades religiosas e, finalmente,
viram a corte e a elite administrativa tornarem-se protestantes, ao passo que o
catolicismo progredia sensivelmente em algumas das provncias. Os soberanos
desejaram se inspirar nas ideias europeias em matria de diplomacia, reforma
judicial e reorganizao das foras armadas, assim como para estabelecerem
uma monarquia constitucional13. De modo semelhante, certo nmero de novos
Estados da frica Austral, a exemplo do reino sotho de Moshoeshoe, os quais
enfrentavam as aes agressivas do nacionalismo branco, aceitaram missionrios
como conselheiros e defensores da sua causa visvis do mundo exterior, eles
os protegeram e inclusive tomaram medidas de ordem legislativa para ajud-
los em seu trabalho de converso14. Nos Estados fantis da Costa do Ouro e em
alguns importantes centros missionrios, especialmente Abeokuta, no Sudoeste
do pas Iorub, alguns chefes africanos, possuidores de uma educao ocidental,
esforavam-se para tirar proveito da sua instruo e das suas relaes na Europa
para introduzirem reformas nas estruturas do Estado tradicional: por exemplo,
criando uma chancelaria dirigida por africanos instrudos, com vistas a regula-
mentar as relaes diplomticas com os europeus e as relaes inter-Estados;

13   P. H. Mutibwa, acima no captulo 16.
14   N. Bhebe, acima no captulo 7.
914                                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



reformando os sistemas fiscais para a introduo de impostos regulamentares
destinados a substiturem o tributo ou as taxas; e aperfeioando o sistema judi-
cial, graas ao registro dos atos e  introduo de leis escritas15.


      A organizao militar
   Em ltima anlise, a solidez das estruturas polticas repousava no aparato
militar. Jamais isso foi to verdadeiro quanto no sculo XIX. At ento, os laos
entrecruzados das relaes de parentesco e das relaes religiosas provavelmente
contavam muito mais que a organizao militar. A tal ponto que esta ltima
consistia em, episodicamente, decretar a mobilizao em massa da populao
que, ela prpria, trazia as armas e provises com vistas  defesa das localidades,
quando atacadas, situao que se reproduzia somente durante breves perodos,
na estao das secas e nos intervalos da atividade agrcola normal. A armada
tinha maior importncia para as relaes com os povos vizinhos que para a estru-
tura do poder no prprio seio do Estado. A capacidade de mobilizar tropas era
funo do senso poltico do soberano e, raramente, este ltimo pde atribuir-se
o monoplio sobre ela. A formao de um corpo de cavalaria teve como efeito
a criao de uma elite na armada e, geralmente, aconteceu simultaneamente 
constituio de uma classe aristocrtica que dividia com o soberano o acesso
aos recursos necessrios para adquirir e equipar cavalos, recrutar cavaleiros e
abastecer a tropa.
   Sabemos atualmente que, at meados do sculo XIX, o emprego do mosquete
de carregamento pelo canho ou dos seus derivados (o fuzil Darne, por exem-
plo), quer fossem eles importados ou de fabricao local, no modificou seno
muito pouco o desfecho dos combates e as estruturas de Estado na frica. Indu-
bitavelmente ele propiciou s tropas disciplinadas, durante um perodo, ganha-
rem vantagem sobre adversrios que no estivessem habituados ao emprego das
armas de fogo; tal foi o caso de soldados egpcios no Sudo Meridional, ao longo
dos anos 1840. Todavia, os mosquetes em nada eram capazes de enfrentar uma
cavalaria disciplinada, armada de lanas ou flechas envenenadas, haja vista que
os cavaleiros podiam, to logo lanada a primeira salva de tiros, contra-atacar
os mosqueteiros antes que eles recarregassem os mosquetes. Os impis de Shaka
demonstraram a superioridade da curta lana sagaie, para o combate corpo-
a-corpo, quando ela estava nas mos de soldados disciplinados. Os guerreiros

15    Consultar A. Pallinder-Law, 1974; igualmente conferir A. A. Boahen, acima no captulo 3.
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                                                   915



egba de Abeokuta adquiriram armamento europeu, inclusive alguns canhes,
contribuindo para a sua resistncia contra as invases daomeanas; entretanto,
durante os anos 1860, eles no puderam fazer frente aos soldados de Ibadan,
mais disciplinados e combatentes, em sua maioria munidos de um equipamento
de fabricao local. Do mesmo modo, Twodros,  frente de soldados dotados
de um equipamento leve, venceu em vrias ocasies, atravs de ataques-surpresa
e de avanos frontais, tropas que possuam, no entanto, a vantagem de estarem
armadas com mosquetes16.
    A maior revoluo ocorrida na arte da guerra, no sculo XIX, foi o surgi-
mento do guerreiro profissional. A fora das lutas polticas e a frequncia das
guerras haviam criado tal situao que um pequeno nmero de indivduos per-
manecia constantemente armado; deste modo surgiu o guerreiro profissional,
na qualidade de membro de pleno direito na sociedade. Por via de regra, no
existia armada propriamente permanente. A guerra era, de certo modo, uma
empreitada entre outras ou um aspecto da ao conduzida para a conquista do
poder poltico e para dispor dos recursos econmicos. O guerreiro era, muito
amide, um empreendedor que, aps ter acumulado certa fortuna graas aos
negcios, encontrava-se em condies de se juntar aos guerreiros ou de recrutar/
capturar escravos, por ele mobilizados em sua armada privada. Assim preparado,
ele se lanava em busca dos seus interesses; em outros termos,  procura da
conquista do poder poltico, quer fosse para si prprio ou porque este poder lhe
garantiria uma parte dos recursos econmicos dos quais normalmente dispe
um Estado. Caso lograsse xito, ele adquiriria os ttulos de uma funo que lhe
permitia integrar-se a um sistema poltico. Por vezes, um soberano, a exemplo
de Moshoeshoe, era ele prprio o empreendedor que melhor alcanava reunir
os meios necessrios para formar uma armada de recrutas e clientes; quanto aos
outros empreendedores de menor envergadura, estes no tinham outra escolha
seno aceitarem a integrao segundo as condies ditadas pelo soberano17.
    Shaka foi o prottipo de um rei que se imps como chefe de guerra. Sozinho,
ele formou os seus regimentos em grupos etrios, organizou o seu treinamento
e a sua proviso, fixou as regras disciplinares e decidiu acerca do equipamento
necessrio, de modo a constituir um exrcito profissional. Ele dotou os seus guer-
reiros de novos equipamentos, cuja fabricao, in loco, foi por ele determinada. A
armada tornou-se, deste modo, o principal sustentculo do Estado. Numerosos


16   Conferir em JAH, 1971, vol. XII, 2 e 4, os artigos concernentes s armas de fogo na frica subsaariana,
     I e II, 1971. Igualmente referir-se a J. P. Smaldone, 1972, e R. A. Caulk, 1972.
17   B. Awe, 1973; L. D. Ngcongco, acima no captulo 5.
916                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



generais secessionistas levaram consigo uma frao da armada,  qual impuseram
o seu comando; pilharam vastos territrios e, consequentemente, engrossaram as
suas fileiras com novos recrutas durante o percurso; adquiriram gado, mulheres;
e, finalmente, serviram-se das suas tropas para agrupar, sob a sua autoridade,
comunidades muito diversas, constituindo um reino. A principal fora dos guer-
reiros profissionais residia em menor grau no seu armamento que em sua disci-
plina, seu treinamento e na organizao do seu abastecimento. Mesmo quando
eles deviam sobreviver com os recursos locais, a requisio era uma operao
organizada que no degenerava em pilhagem. Em meio s armadas permanentes
africanas do sculo XIX, as mais eficazes apoiavam-se nos recursos locais, em
todos os nveis - treinamento, equipamento, comando. Elas assim se situavam,
em oposio quelas foras armadas que se buscava moldar segundo o modelo
europeu, quer fosse no tocante aos uniformes,  vida na caserna, ao perfil de
treinamento ou s patentes. No caso de Madagascar, chegou-se ao ponto de
adotar, relativamente s reformas, a prtica da compra de patentes, assim como
outras prticas habituais nas armadas europeias do incio do sculo XIX.
    Como o exemplo das armadas europeias causara grande impresso, o uso do
mosquete europeu expandiu-se; numerosas foram as novas armadas que o ado-
taram, algumas em razo do seu poder de fogo (caso dos fuzis Enfield), outras
em virtude do poder de detonao e da eficcia do efeito produzido por uma
salva de mosquetes, cujo estrondo, somente ele, podia semear o pnico  distn-
cia em um regimento de cavalaria. Numerosos soberanos africanos igualmente
pretenderam adquirir peas de artilharia. Em funo do peso dos canhes e da
quantidade da plvora que eles consumiam, eles tentaram com muito pouco
sucesso, produzi-los in loco. Aproximadamente nos anos 1870, teve incio a
importao de um equipamento de guerra mais aperfeioado - fuzis com car-
regamento pela culatra, carabinas de repetio, metralhadoras e canhes - cujo
nec plus ultra era a metralhadora Maxim que os europeus lograriam monopolizar.
Alguns chefes,  imagem dos chefes egba, empregaram canhes europeus, antes
e sobretudo como arma psicolgica, muito mais que na guerra propriamente
dita. Na realidade, desde antes do sculo XIX, numerosos soberanos haviam
buscado importar armas de fogo europeias. Entretanto, foi necessrio esperar a
segunda metade do sculo, poca na qual se comeou a importar armas de fogo
mais eficazes, para que os armamentos europeus fossem incontestavelmente
vistos como capazes de decidirem o desfecho dos combates na frica. Como as
armas europeias se haviam tornado um fator indiscutvel de superioridade, era
desde logo imperioso poder import-las em tempos de guerra; por conseguinte,
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                         917



os esforos realizados para adquiri-las tornaram-se um aspecto essencial do
comrcio, da diplomacia e da arte de governar.
    A revoluo ligada a esta crescente importncia  ilustrada pela diferena de
comportamento entre os imperadores da Etipia, Twodros e Yohanns. Two-
dros tentara produzir in loco canhes de plvora atravs de tcnicos europeus;
contudo, ele provou ser capaz, mesmo sem isso, de vencer armadas mais bem
equipadas que a sua e munidas de mosquetes. Contrariamente, Yohanns - e
com maior nfase Mnlik, posteriormente a ele - compreendeu no lhe ser
possvel livrar-se dos seus inimigos do Tigre e das plancies litorneas, seno
na justa medida do incremento da sua capacidade em tirar proveito da situao
para adquirir armamento europeu em maior quantidade e de melhor qualidade,
comparativamente ao que dispunha. Com este mesmo esprito, os soberanos da
frica do Norte e igualmente do Saara e do Sudo dedicaram-se, atravs do
comrcio e da diplomacia, a constituir estoques de armas europeias, principal-
mente importadas pela frica do Norte, mas, igualmente, pelas vias comerciais
da costa da frica do Oeste e do Leste. Os dirigentes de Madagascar proce-
deram do mesmo modo. No centro e ao leste da frica, a principal atividade
comercial era a caa ao elefante; portanto, o marfim, constituindo uma razo
suplementar para a importao das armas de fogo, pela mesma ocasio fortaleceu
a tendncia  militarizao da sociedade.
    Uma das consequncias maiores desta crescente importncia das armas de
fogo foi o relativo declnio da cavalaria como corpo de elite e tropa de choque,
bem como a sua substituio por uma infantaria armada  moda europeia. Nas
regies florestais e naquelas onde havia a influncia militar nguni, a fora de
elite era tradicionalmente a infantaria. A tendncia, no sculo XIX, consistiu
essencialmente em intensificar o treinamento desta infantaria, progressivamente
transformada em armada profissional e, ulteriormente, dotada de um armamento
europeu. Em meio a vastos deslocamentos populacionais que se produziram, por
exemplo, aps o Mfecane e o esfacelamento do antigo Imprio oyo, era possvel
que um povo da mata, at ento defendido por cavaleiros, penetrasse em regio
de mata mais densa onde a guerra a cavalo era mais difcil; estado que coisas
que acentuava o declnio da cavalaria. Em contrapartida, em alguns Estados
diretamente confrontados com colonos europeus, tradicionalmente defendidos
por cavaleiros equipados com armas de fogo, iniciou-se a criao de pequenos
cavalos, com o objetivo de formar novas tropas, capazes de realizarem movi-
mentos rpidos, assim como a importao de armas europeias; permitindo deste
modo a estes Estados garantirem, por algum tempo, a sua superioridade militar.
Quase invariavelmente alhures na frica e, particularmente no Sudo, onde
918                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



durante sculos a cavalaria fora o ncleo e a elite das foras militares, soldados de
infantaria profissionais, bem treinados e armados de fuzil, tornaram-se o prin-
cipal componente armado e impuseram-se, a seu turno, como elite. A cavalaria
comeava ento a ser relegada  segunda linha defensiva e  reserva. Este fator
suplementar da revoluo ocorrida nas foras armadas africanas no deixaria
de produzir importantes efeitos sociais e econmicos, todos tendencialmente
convergentes para o fortalecimento da posio do soberano, na qualidade de
chefe do poder executivo do Estado.


      A transformao econmica e social
    O que sabemos sobre o sculo XIX na frica evidencia que a reproduo,
neste continente, de mutaes sociais de primeira grandeza, notadamente a trans-
formao do carter da escravatura, o surgimento de uma classe de guerreiros e
de uma classe de mercadores politicamente muito influente. Estas transforma-
es facilitaram e, em certa medida, provocaram as mudanas ocorridas - como
mencionado acima - nas estruturas polticas e na organizao militar, tanto
quanto foram, em parte, estas mesmas transformaes o resultado destas ltimas.
Alm disso, havia uma crescente demanda por mo-de-obra, exercida alm dos
tradicionais limites do grupo familiar, das pequenas comunidades locais ou dos
grupos etrios organizados. Como no passado, as diversas sociedades africanas
repugnavam a ideia segundo a qual seria possvel para um homem livre vender o
seu trabalho; e a tendncia dominante, no sculo XIX, era promover a utilizao
de escravos, o trabalho obrigatrio e o emprego da mo-de-obra importada. A
tendncia global, no terceiro quarto do sculo XIX, era para uma generalizao
da prtica escravocrata, inclusive nas zonas rurais; para o aumento do nmero
de escravos em cada grupo familiar; e para o incremento da sua utilizao, com
vistas a alcanar uma produo organizada segundo um modo quase-capitalista,
mediante o qual, as suas condies tornar-se-iam piores que nunca18.
    A partir do incio do sculo, as tenses causadas pelas rivalidades polticas
agravaram-se progressivamente, tornando-se corriqueiro que os litgios refe-
rentes a terras, gado e, at mesmo, diferenas doutrinais, fossem resolvidos pela
eliminao pura e simples de um dos adversrios ou, ao menos, da sua perso-
nalidade prpria. Comunidades inteiras foram assim absorvidas por estruturas
polticas existentes, salvo quando eram dispersas, situao que levava  captura

18    G. M. McScheffrey, 1983.
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                            919



dos jovens de ambos os sexos. Estes prisioneiros serviam para satisfazer a cres-
cente demanda por mo-de-obra nos setores agrcola, artesanal e no trabalho
nas minas, alm de igualmente contriburem para prover guerreiros s armadas
em vias de constituio. As novas estruturas estatais e militares afirmavam-se a
despeito das velhas aristocracias, cuja influncia, no triplo plano social, poltico
e econmico, era garantida pelo grande nmero de esposas e pela importncia
da rede familiar; outrossim, simultaneamente e como consequncia destas novas
estruturas, constituram-se novas categorias sociais, compostas de funcionrios,
os quais seriam liberados das tarefas agrcolas ordinrias. Estas novas aristo-
cracias no se apoiavam em redes parentais, propriamente ditas, mas, antes, em
vastas "famlias" de "clientes" e cativos que exploravam terras cuja superfcie cres-
cia progressivamente para assegurar no somente a subsistncia do grupo fami-
liar expandido, mas, igualmente, a manuteno dos contingentes de guerreiros,
quando a armada estivesse em campanha. Todos estes indivduos eram tambm
empregados na produo de mercadorias destinadas  venda no mercado local e
no grande comrcio, com vistas a se adquirir os recursos financeiros necessrios
para atrair mais clientes e comprar armas e munies importadas.
    Quando terminou o trfico atlntico e aumentou a demanda por ouro, leo
de palma, semente de palmiste e amendoim, na frica do Oeste, a demanda
por cana-de-acar, nas Ilhas Maurcio, na Reunio e em Comores, no Oceano
ndico, assim como aquela por marfim e cravo, na frica Oriental e Central,
houve necessidade de crescente volume de mo-de-obra cativa, no somente
para produzir estes artigos, mas, igualmente, para transport-los, por carregado-
res ou pirogas, at o litoral. A escravatura ligada s plantaes surgiu, quer seja
sob a forma de comunidades de escravos organizados segundo o direito consue-
tudinrio, na costa da Guin; com base na lei islmica, nas regies muulmanas;
ou, tal o caso das ilhas do Oceano ndico, de formas anlogas s plantaes de
tipo americano. Considerando o crescente nmero de escravos mobilizados nos
exrcitos ou em funes administrativas junto a diversas cortes, alguns estima-
ram que, em numerosas regies africanas, a populao de escravos teria atingido
entre 20 e 50% da populao total19. Embora existissem casos de revoltas entre
os escravos, notadamente aquele dos lozi, os quais se liberaram dos seus senhores
kololo20, as populaes reduzidas  escravido no constituam, por via de regra,
uma classe distinta. Certamente, a maioria dos escravos estava encarregada de
tarefas subalternas, geralmente agrcolas. Todavia, havia outros grupos relati-

19   Consultar igualmente K. Arhin e J. Ki-Zerbo, acima no captulo 25.
20   W. G Clarence Smith, 1979b.
920                                                                       frica do sculo XIX  dcada de 1880



vamente importantes, a saber, os guerreiros e escravos domsticos, aos quais se
acrescentavam aqueles que, em nmero reduzido embora considervel, haviam
logrado assumir postos de confiana ou responsabilidade em virtude de se terem
destacado na guerra, no comrcio ou na administrao. A condio e o modo de
vida destes ltimos eram muito variveis, tornando muito difcil a constituio
de uma classe de escravos homognea. Somente em algumas regies, como, por
exemplo, no antigo Calabar, onde os escravos viviam em perptuo estado de
alienao, onde praticamente nada era feito para integr-los culturalmente e
onde, tradicionalmente, os membros da elite dirigente vangloriavam-se da sua
fortuna aumentando o nmero de escravos sacrificados em cerimnias fne-
bres21, unicamente sob tais condies ocorreu o reagrupamento dos escravos
em torno de rituais secretos para exigirem uma melhoria em sua condio.
Alhures, a tendncia era a aculturao e a integrao  sociedade no seio de lares
aristocrticos. Certamente, esta integrao no ultrapassava determinado nvel -
como atesta o nmero daqueles que aspiravam serem libertados ou daqueles que,
emancipados pelas leis coloniais, pediram para retornar ao seu lugar de origem
-, conquanto fosse ela real, de todo modo e suficientemente, a ponto de permitir
supor que a dinmica da mudana, na maioria das comunidades africanas, seria
regida pelas oposies entre os grupos etrios e os sexos, no quadro de cada
"casa", assim como por questes estatutrias e ligadas  rivalidade na luta pelo
poder entre linhagens e grupos parentais, muito mais que por tenses entre as
classes sociais lato sensu.
    No  fcil apreciar, do ponto de vista quantitativo, os efeitos do desenvol-
vimento das atividades comerciais nas formaes sociais. No h dvida que os
efetivos e a fora da classe dos mercadores tenham aumentado. Menos ntida  a
medida da pertinncia em se poder falar de surgimento de uma classe mercantil
ou capitalista. O comrcio longnquo, com os seus centros de caravanas e a sua
organizao, sob todos os aspectos e especialmente aqueles ligados  segurana,
ao reabastecimento, s facilidades de crdito e do transporte, era praticado de
longa data na frica do Norte e do Oeste e esta atividade expandia-se rapida-
mente no sculo XIX, na frica Central e do Leste. Este fenmeno produziu-se,
tanto em regies islamizadas, onde a contabilidade era feita em rabe, quanto
nas regies da frica do Oeste, onde se praticava h muito tempo o trfico de
escravos e nas quais as lnguas comerciais eram as europeias, assim como nas
regies da frica do Leste, onde o kiswahili ganhava espao, por sua vez, como


21    K. K. Nair, 1972, p. 48; igualmente conferir acima o captulo 27.
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                        921



lngua do negcio.  bem provvel que, em algumas partes do litoral oeste-
africano, a utilizao da mo-de-obra servil comeasse a ser complementada por
antigas formas de trabalho forado, em curso de expanso, como o emprstimo
de recursos mediante "refm", prtica na qual o trabalho do "refm" representava
os interesses do tomador de emprstimo e a sua pessoa uma garantia para o
provedor do capital. O considervel desenvolvimento desta forma de trabalho
forado era um sinal da crescente influncia dos grupos mercantis e da funo
do banqueiro. Diz-se que na Costa do Ouro, durante os anos 1870, esta prtica
ganhou uma amplitude comparvel quela da escravatura propriamente dita, esta
ltima permitindo recrutar mo-de-obra alm da circunvizinhana imediata da
comunidade, ao passo que o sistema de "refns" consistia no meio de recruta-
mento de trabalhadores no interior da prpria comunidade22. Entretanto, fora
das cidades litorneas da frica do Norte, os mercadores levaram muito tempo
para se constiturem como classe distinta. Nas regies submetidas  influncia do
cristianismo e das ideias europeias, comeava a surgir um grupo de mercadores
comparvel  classe mdia vitoriana. Contudo, mesmo nesta regio, excetuando-
se a Serra Leoa e a Libria, os mercadores que pretendiam ganhar influncia
e poder no interior dos Estados tradicionais, alcanavam-no principalmente
adquirindo ttulos de chefia no seio das estruturas estatais em formao. Em
muitas regies do Sudo e da Senegmbia, o grupo dominante de mercadores
estava estreitamente ligado aos chefes religiosos muulmanos, a tal ponto que
no havia uma classe distinta de mercadores, mas, antes e sobretudo, uma classe
de religiosos que praticavam comrcio. Alhures, no existia distino ntida
entre os mercadores ou guerreiros e a elite dirigente. Numerosos dentre aqueles
que, em sua juventude, lanavam-se em projetos comerciais, posteriormente,
tornavam-se suficientemente prsperos para financiarem os projetos similares
de outros, comprando, com a fortuna alcanada, funes tradicionais que lhes
conferiam poderes oficiais, por eles exercidos simultaneamente  sua adminis-
trao das terras, dos rebanhos e de outros bens e  organizao, mediante uma
estrutura paramilitar, dos seus clientes e partidrios.
    Desde os anos 1870, na frica Austral, as necessidades da agricultura comer-
cial, sobretudo praticada pelos beres, mas, igualmente, por alguns britnicos,
haviam criado uma insacivel demanda por mo-de-obra. A colnia do Cabo
pudera dispor de escravos libertos, "aprendizes" e trabalhadores do exterior, a
exemplo dos mfengu, os quais haviam fugido do Mfecane, ao passo que o Natal,


22   G. M. McSheffrey, 1983.
922                                                  frica do sculo XIX  dcada de 1880



o Estado livre de Orange e o Transvaal obtiveram os seus contingentes sobre-
tudo entre os seus vizinhos africanos espoliados das suas terras, cuja liberdade
de deslocamento era restringida pelas Pass Laws. Quando foram descobertas
as jazidas de diamante do Griqualand Ocidental, aumentou sobremaneira a
demanda por mo-de-obra e fez-se necessrio trazer de regies mais distantes
os trabalhadores imigrantes. Embora oficialmente no tenha havido escravatura
na frica do Sul e tampouco sistema de "refns", era notvel o nascimento de
um processo de proletarizao, ainda pior e cuja receita era a seguinte: arrancar
dos Estados africanos as suas melhores terras, criando populaes sem-terra, as
quais no possuam outra escolha seno trabalharem nas rigorosas condies
fixadas pelos seus impiedosos rivais. Deste modo, a sinistra disputa entre as
colnias brancas e os Estados africanos, desenvolvida com arbitragem parcial do
soberano britnico, no mais e to somente possua como objeto terras ou gado,
mas, desta feita, a supremacia total, o poder de obrigar as pessoas a trabalharem
a partir de uma posio de fora inexpugnvel. Tal combate no poderia encon-
trar desfecho em uma federao no seio de um "imprio informal". Contudo,
ao passo que esta situao comeava a tornar-se progressivamente mais ntida
para os europeus, fossem eles colonos, funcionrios coloniais ou membros do
governo imperial, os chefes dos diferentes Estados africanos, por sua vez, no
percebiam a qual ponto a regra do jogo mudara com a aproximao do ltimo
quarto do sculo XIX.


      A evoluo das relaes de fora
    Houve, ao longo dos anos 1870, transformaes capitais no somente na
estrutura interna dos Estados africanos, mas, igualmente, no tocante ao respec-
tivo papel dos europeus na frica e no mbito dos meios dos quais dispunham
estes ltimos. Em 1870, as repercusses da Revoluo Industrial e da guerra na
Europa sobre a organizao dos Estados e o seu poderio militar tornavam-se
evidentes. Entre as naes europeias e os Estados africanos, as relaes de fora
comeavam a adquirir contornos progressivamente desiguais. Naquele ano, a
Alemanha e a Itlia tornaram-se Estados unificados, desde logo mais fortes,
cujos cidados no tardariam a exigir uma participao mais ativa na obteno
dos recursos africanos. Em 1870-1871, Bismarck selou a unidade alem atravs
de uma vitria sobre a Frana, no desfecho de uma guerra que inaugurara o
emprego de novas tcnicas militares, especialmente no tocante aos armamentos,
ao treinamento das tropas e  ttica. O efeito destas novidades rapidamente foi
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                           923



sentido na frica, onde se iniciou a importao de armas de fogo mais aper-
feioadas. Na Frana, a necessidade de recuperao aps a derrota mencionada
traduziu-se pela vontade de erguer um imprio na frica, tanto pelo valor
intrnseco da empreitada quanto pelas suas repercusses no estado moral da
nao. A Frana lanou-se portanto em uma nova poltica de expanso dinmica
e defesa dos seus interesses nacionais na frica, poltica geralmente aplicada
atravs de agentes comerciais ou missionrios e, mais especificamente, graas
ao fortalecimento da posio francesa na Arglia e na Senegmbia. A revolta
ocorrida na Kablia foi violentamente reprimida. Ela ofereceu oportunidade de
confisco de considerveis superfcies de terra cultivvel junto aos rabes e de
pastagens a serem distribudas entre os colonos europeus, ao passo que os rabes
sem-terra foram reduzidos a constiturem uma mo-de-obra barata. Aos colonos
franceses, espanhis, italianos, malteses ou gregos, cristos ou judeus, se lhes foi
atribuda a cidadania francesa, situao privilegiada em relao aos rabes que,
por sua vez, eram sujeitos franceses.
    Estes acontecimentos tiveram globalmente como efeito o fortalecimento da
concorrncia existente entre os europeus. Em face da ao incisiva e deliberada
da Frana, os britnicos no se mostravam menos pretensos a consolidarem e
defenderem as suas prprias posies. A descoberta de diamantes, em 1869-
1870, na Griqualand Ocidental e a perspectiva de descoberta de ouro em grande
quantidade elevaram a febre por concorrncia e profundamente modificaram
as bases sobre as quais repousavam as relaes entre europeus na frica, assim
como as relaes entre europeus e africanos. Diversas atividades s quais os
europeus se haviam aparentemente dedicado at ento, de modo desinteres-
sado ou com fins humanitrios, passaram a ser consideradas segundo o que
elas eventualmente pudessem oferecer aos interesses nacionais europeus. J se
fora o tempo em que os exploradores agiam simplesmente movidos pela curio-
sidade cientfica; neste perodo tratar-se-ia sobretudo de agentes encarregados
de recolherem informaes estratgicas e segredos comerciais. Os missionrios
no eram somente servidores de Deus, obedecendo  vocao de evangeliza-
o, doravante seriam agentes organizados em prol de um esforo nacional de
aculturao que tinha como objetivo exclusivo enfraquecer a posio cultural
e comercial dos seus anfitries. Os mercadores no buscavam unicamente o
lucro; eles preparavam o terreno com vistas  instalao do seu pas nos postos
de comando. Desta forma, a frequente colaborao entre africanos e europeus
que, at bem pouco, aparentemente tendia a colocar as ideias e as tcnicas ao
servio do fortalecimento das naes africanas, durante a situao revolucionria
do sculo XIX, transformava-se em um plano de subverso que contribua dire-
924                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



tamente para sistematicamente levar ao aborto os esforos empreendidos pelos
dirigentes africanos com vistas a reformar e modernizar as suas sociedades.
    Seguindo a mesma lgica, os soberanos africanos geralmente consideravam
as atividades dos abolicionistas como negativas. Em muitos casos, aps resisti-
rem e contemporizarem, eles finalmente aceitaram contribuir para o trmino do
trfico transatlntico, na justa medida em que outras possibilidades de exporta-
o (produtos agrcolas, ouro, marfim etc.) eram-lhes ofertadas em substituio
e mediante a condio de poderem, eles prprios, continuar a possuir escravos,
bem como recorrer a outras formas de trabalho forado. Existia, portanto, uma
base de cooperao. Tratava-se, como indicamos anteriormente, da crescente
utilizao da mo-de-obra escrava. Os europeus reconheceram o estado de fato,
porm, ao longo dos anos 1870 e sem contudo renunciarem  sua postura, eles
passaram a utilizar a emancipao como um fator de natureza a enfraquecer as
bases econmicas dos Estados africanos. Deve-se expressamente notar, a este
respeito, que a maioria das tropas levadas pelos europeus  frica, nesta poca,
eram compostas por escravos africanos emancipados e que estes ltimos perma-
neciam leais aos seus libertadores, os quais os armavam e comandavam.
    A maioria dos dirigentes africanos estava igualmente muito preocupada
com os missionrios europeus. Por conseguinte, numerosos foram aqueles que
finalmente ofereceram-lhes bom acolhimento, conquanto estes missionrios
colocassem, em sua tarefa, menor nfase sobre as converses comparativamente
quela dedicada  educao. Numerosos soberanos demonstravam-se felizes com
a possibilidade oferecida a alguns dos seus escravos ou, inclusive aos seus pr-
prios filhos, de aprenderem a ler e escrever, capacidade considerada a chave do
saber do homem branco, alm de um elemento essencial nas relaes comerciais.
Os missionrios recebiam ainda melhor acolhimento quando ensinavam novas
tcnicas, tais como a impresso grfica, a construo de habitaes, a agricultura
mecanizada, a vacinao etc. Eventualmente se lhes solicitava o ensino da arte
de fabricao das armas de fogo e da plvora, assim como de outros artigos de
importncia estratgica ou, ao menos, se lhes requeria assistncia na importao
destes artigos. No curso dos anos 1870, j era possvel constatar que o processo
de aculturao tinha como efeito o enfraquecimento da identidade dos pases
de acolhida e o despertar da sua vontade em manterem a sua independncia.
As atividades missionrias igualmente tornaram-se um fator de diviso, na justa
medida em que elas incitaram tal ou qual Estado africano a apoiar os habitantes
locais europeus, ao passo que outros se opunham a eles.
    A mais subversiva dentre todas as atividades europeias talvez tenha sido
o comrcio. Os intercmbios comerciais normalmente compunham a base da
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                                                925



cooperao entre africanos e europeus, os quais demonstravam, ambos, todo o
interesse em promover o desenvolvimento. Cabia aos soberanos africanos, por
razes estratgicas, regulamentar o comrcio e permitir aos Estados e merca-
dores africanos dele extrarem as maiores vantagens possveis. Os comerciantes
europeus igualmente dedicavam-se, bem entendido, a negociar condies que
lhes garantissem os maiores lucros possveis. Na frica do Norte, eles haviam
explorado as fraquezas do imperador otomano para provocar a concesso aos
europeus de privilgios exorbitantes, atravs de tratado, engajando-se em con-
trapartida a contriburem para o fortalecimento da tutela otomana; situao esta
que enfraquecia a capacidade dos dirigentes norte-africanos em regulamentarem
o comrcio nos seus prprios territrios. Os europeus reservavam-se, outrossim,
o direito de se atriburem tal ou qual parte do Imprio Otomano, sempre que
isso parecesse oportuno para o concerto das potncias europeias. A Frana imps
uma derrota ao dei de Argel, em 1830, fazendo valer pretenses sobre o conjunto
do beilhique e, posteriormente, em 1878, ela reclamou a Tunsia, do mesmo
modo que a Gr-Bretanha o faria em relao ao Egito, no ano de 1882.
    Durante os anos 1870, o livre comrcio era a palavra de ordem com a qual os
europeus opunham-se ao direito dos chefes africanos de regulamentarem o comr-
cio23. Em nome do livre comrcio, eles se esforavam em obter maiores privilgios
para os seus negociantes. Eles encorajavam os soberanos africanos a endividarem-
se pesadamente junto aos bancos europeus e a aventureiros europeus de passado
duvidoso. Eles manipulavam o servio da dvida de modo a adquirirem, com anos
de antecedncia, direitos sobre a produo agrcola e as receitas aduaneiras. Eles
assinavam acordos desiguais para a cobrana das dvidas e, fortalecidos com estes
privilgios, alm de outros que haviam sido concedidos aos seus negociantes, empe-
nhavam-se no enfraquecimento da economia dos Estados, assim como e sobre-
tudo, dedicavam-se a debilitar o controle que os soberanos africanos eram capazes
de exercer sobre os mecanismos econmicos. No Egito e na Tunsia, os europeus
impuseram a vigilncia de comisses internacionais da dvida, cuja ao atingia
gravemente a autonomia dos dirigentes, alm de provocarem levantes, bloquearem
as reformas e conduzirem, em linha reta, para a perda da independncia, pratica-
mente sem combate. Porm, o livre comrcio no passava de um slogan que marcava
o desejo de passar as rdeas da economia aos negociantes europeus para que estes


23   A mais ntida expresso deste estado de esprito est contida no Ato Geral da Conferncia de Berlim,
     no qual o princpio da "porta aberta" foi proclamado para o Congo e o Nger, constituindo o preldio
     da poltica de monoplio praticada pela Associao Internacional Africana, patrocinada por Lopold
     da Blgica e pela Companhia Real do Nger.
926                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



pudessem excluir no somente os negociantes africanos, mas, igualmente, outros
habitantes de origem europeia.
    A razo da confiana e da agressividade recm-demonstrada pelos europeus,
a partir dos anos 1870, era a industrializao e um capitalismo em plena maturi-
dade, situao atestada, por exemplo, pelos novos tipos de armas de fogo, as quais
fizeram pender o equilbrio de foras para o lado dos exrcitos conduzidos pelos
europeus. Esta mudana no ocorrera da noite para o dia e os prprios europeus
no foraram a acelerao do processo. Certamente, at 1871, talvez em grande
parte pela proximidade do pas, os franceses mobilizaram at 110.000 homens
na guerra por eles travada na Arglia. Entretanto, caso excetuarmos o caso refe-
rente  guerra anglo-ber de 1899-1902, a qual aparenta efetivamente ser uma
exceo na qual a Gr-Bretanha engajou um contingente militar ainda maior,
nenhuma outra potncia podia manter foras to importantes na frica. A
Gr-Bretanha utilizou at 12.000 homens (em sua maioria tropas indianas) na
invaso da Etipia, em 1868; no entanto, no mais que 2.500 soldados britnicos
foram comandados por sir Garnet Wolseley, quando o Ashanti foi invadido e
Kumasi saqueada. Posteriormente, os europeus empregariam preferencialmente
escravos emancipados, recrutados e treinados por eles. Vrias armadas africanas
-  imagem dos impis zulu, dos amazonas do Daom e dos balouchis de Zanzibar
- eram reputadas pela sua disciplina e pela qualidade do seu treinamento. Havia
igualmente generais africanos capazes de rivalizarem com os chefes militares
europeus, alm de estarem, os primeiros, mais familiarizados com o terreno. Os
europeus logravam, invariavelmente, no somente recrutar tropas africanas em
nmero suficiente, mas, igualmente, realizavam alianas. Os servios de infor-
mao militares, bem como os mercadores e missionrios, sempre forneciam
bons indicativos para a abordagem junto a eventuais aliados. Todavia, se os
oficiais europeus e as suas tropas africanas conservavam um moral elevado, isso
se devia antes a um novo sentimento: a confiana nascida da certeza, segundo
a qual, enquanto conservassem a superioridade quanta e qualitativa no tocante
ao armamento, mesmo em caso de possvel derrota em batalhas aqui ou acol,
a guerra finalmente teria um desfecho favorvel a eles.


      A herana das guerras
   Podemos dizer  guisa de concluso que, nos anos 1870, os esforos empre-
endidos em diferentes partes do continente, para integralmente reconstruir a
sociedade, haviam produzido grandes transformaes, as quais, alm das tendn-
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                         927



cias divergentes, em seu conjunto haviam reforado a capacidade dos africanos
em se defenderem e preservarem os seus interesses. Igual e nitidamente, durante
este perodo, a presena europeia operava solapando estas estruturas e fazendo
pesar uma grave ameaa futura; situao exacerbada em razo do altssimo
preo pago pelos chefes africanos em suas vitrias, ao qual podemos denominar
herana das guerras.
    Acompanhamos o surgimento de Estados mais extensos e fortes, nos quais
o poder executivo tinha tendncia a se concentrar nas mos de certo nmero
de elementos que, a ttulo individual ou na qualidade de detentores de tal ou
qual funo, dependiam muito mais diretamente da autoridade do soberano e
de funcionrios que deviam as suas atribuies, sobretudo, ao seu mrito, aos
seus atos pregressos e  ao do prncipe, comparativamente  interferncia de
antigos direitos hereditrios. O processo que conduzira  instaurao destes
Estados mais fortes, onde esta concentrao tornara o poder executivo mais
eficaz, dilapidara outros Estados, mais fracos. Diversas categorias de indivduos
em risco de perda do poder, sobre as quais pesava uma ameaa a interesses de
toda espcie por eles anteriormente adquiridos, haviam reagido e a guerra tor-
nara-se um fenmeno endmico. Tanto mais os europeus tomavam conscincia
do aumento do poder estatal na frica, mais eles demonstravam deciso em
lhe impor obstculos; e a sua tarefa era facilitada pela possibilidade que se lhes
oferecia de explorar a herana deste constante estado de guerra para suscitarem
divises e criarem oportunidades de interveno.
    Os Estados formados haviam constitudo instituies polticas mais estveis
e geralmente mais eficazes que todas as instituies precedentes, com objetivo
atingir a satisfao das exigncias do soberano em sua relao com os seus sujei-
tos. Isso supunha, como indicamos anteriormente, uma definio mais precisa
da autoridade, alm de um traado mais ntido das fronteiras. Talvez este fator
tenha igualmente favorecido uma tomada de conscincia mais precisa sobre o
valor do solo. De todo modo, os conflitos tornaram-se mais implacveis que no
passado e tenderam para a guerra total. Eles no tinham simplesmente como
objetivo determinar os limites dos poderes respectivos dos chefes em conflito,
pois que, desta feita, colocava-se em jogo o destino de sociedades inteiras. No
 raro observar o vencedor fazer prisioneira toda a populao ativa, amparar-se
das terras, dos rebanhos e, por vezes, anexar a comunidade inteira, levando-a 
consequente perda da sua identidade.
     imperioso aqui sublinhar que, em larga escala, as guerras do sculo XIX
no fortaleceram o poder de Estado seno em detrimento de outras formas de
solidariedade. As rivalidades polticas e a concorrncia econmica, colocadas em
928                                                   frica do sculo XIX  dcada de 1880



jogo por estas guerras, eram de tamanha intensidade que sequer respeitavam
aquilo que ns denominaramos atualmente etnicidade - ou seja, as afinidades
culturais criadas pelo emprego de uma mesma lngua, pela crena nos mesmos
mitos sobre a origem do homem ou do grupo, assim como pelas redes paren-
tais ou pela interconexo de crenas religiosas que, por via de regra, haviam
no passado transcendido as fronteiras de poder dos Estados. Se este declnio
da etnicidade sem dvida no era novo, ele certamente jamais fora to gene-
ralizado quanto no sculo XIX. Nos enfrentamentos e processos de formao
dos Estados ligados ao Mfecane ou s guerras iorubs, ashanti ou massai deste
sculo, o poder de Estado sem dvida alguma desempenhou um papel muito
mais importante que a etnicidade. Com efeito, caso considerarmos a amplitude
das guerras e dos deslocamentos populacionais, ligados ao trfico de escravos e
ao processo de formao ou reconstruo dos Estados,  paradoxal que tenha
sido possvel, no tocante aos povos africanos s vsperas da conquista colonial,
evocar a velha noo antropolgica de tribo, cujas caractersticas seriam aquelas
de uma entidade biolgica imutvel. Muito em contrrio, na realidade, as novas
estruturas estatais que no repousavam sobre a etnicidade se haviam tornado
mais importantes que a solidariedade tnica, no que dizia respeito a determinar
a reao dos diversos povos africanos frente ao desafio europeu.
    A estratgia dos europeus, quando tomaram conscincia do fortalecimento
do poder estatal na frica, equivaleu primeiramente a cerrar fileiras sob o impe-
rativo do interesse nacional. Os missionrios, mercadores, exploradores e agentes
consulares europeus, outrora pretensos a agirem de forma dispersa e, muito ami-
de, oposta entre si, comearam a se unir sob a bandeira dos interesses nacionais.
A situao ao incio do sculo, poca em que era possvel observar missionrios
alemes patrocinados por instituies britnicas ou ainda negociantes franceses
e britnicos cooperarem na corte de Zanzibar, era progressiva e dificilmente
imaginvel nos anos 1870. Esta estratgia dos europeus todavia mostrou-se
ineficaz, haja vista que os soberanos africanos passaram a considerar que todos
os habitantes europeus, fossem eles missionrios, comerciantes ou exploradores,
serviam em ltima anlise aos mesmos interesses. Alm disso, estes reis se haviam
tornado peritos na arte de jogar as naes europeias umas contra as outras, de
tal modo que os europeus decidiram comportarem-se diferentemente.
    Como observamos, o fator que definitivamente fez pender o equilbrio de
foras na frica, nos anos 1870, no foi a natureza das armadas ou a excelncia
do seu treinamento, da sua disciplina ou do seu comando, mas a qualidade e a
quantidade das armas de fogo. A ltima palavra, na luta pelo poder na frica,
pertenceria portanto queles que tivessem o controle das armas e munies. A
Concluso: a frica s vsperas da conquista europeia                         929



situao tenderia a permanecer incerta por tanto tempo quanto os europeus
buscassem separadamente satisfazer os seus interesses nacionais e os chefes de
Estado africanos pudessem jogar as potncias umas contra as outras. Ademais,
os europeus, com absoluta necessidade de terem aliados, resignar-se-iam a for-
necer armas de fogo para a obteno de tratados, concesses, garantias de neu-
tralidade ou, em contrrio, para conseguirem a participao ativa em guerras que
os opunham a Estados africanos rivais. Portanto, se lhes tornou essencial subme-
terem a corrida para a frica a certas regras baseadas em acordos internacionais
e, muito especialmente, limitarem o fornecimento de armas e munies. A mais
intensa rivalidade colocava em disputa britnicos e franceses. Os britnicos
tentaram, para garantir os seus interesses, constituir-se em protetores, inclusive
dos interesses portugueses, situao que ofereceu a Bismarck a oportunidade
de se intrometer de modo interessado, reunindo em Berlim uma conferncia
internacional. O encontro de Berlim, por sua vez, concedeu ao rei Lopold da
Blgica a ocasio de obter o aval da comunidade internacional acerca das suas
pretenses no Congo, razo pela qual ele proclamou, em alto e bom tom, o
livre comrcio e as ideias humanitrias antiescravagistas24. Esta evoluo abriria
caminho para o Ato de Bruxelas, o qual, em nome da campanha antiescravista,
interditou o fornecimento de armas aos chefes de Estado africanos.
    O fato  que, invocando a limitao dos armamentos e a campanha contra
o escravismo, os britnicos puderam isentar os colonos "autnomos" da frica
do Sul da aplicao dos dispositivos adotados em Bruxelas. Segundo a mesma
lgica, sem deixar de combater tal ou qual Estado da frica e negociar mlti-
plos tratados e convenes com soberanos africanos, eles igualmente puderam
sustentar que, em razo de possurem escravos e serem comerciantes, os Esta-
dos africanos no eram reconhecidos pelo direito internacional. Portanto, foi
possvel declarar no Ato Geral da Conferncia de Berlim (1885) e no Ato de
Bruxelas (1889) que, segundo o direito internacional, a frica era terra nullius e
que somente as potncias europeias e os seus colonos nela possuam interesses,
os quais deviam ser protegidos.
    Em outros termos, enquanto na frica os pases europeus tratavam com tal
ou qual Estado africano, reconhecendo-os, aliando-se com alguns ou comba-
tendo outros, na Europa, ao contrrio, eles cerravam fileiras como irmos de
raa e formavam um cartel para regulamentar o fornecimento dos principais
armamentos aos africanos. Os chefes africanos no tinham nenhum meio de


24   S. Miers, 1971.
930                                                 frica do sculo XIX  dcada de 1880



resposta a tal estratgia. A luta pelo poder na frica encontrava-se portanto
entrelaada  poltica internacional do concerto das potncias europeias, dom-
nio no qual a diplomacia africana sofria de uma grave desvantagem.  duvidoso
que os africanos se tenham dado conta, antes que fosse tarde demais, da gra-
vidade do perigo que os ameaava. Habitualmente, eles contavam com o fato
dos europeus estarem, na frica, distantes das suas bases e, especialmente, com
a invarivel vantagem numrica dos africanos. Eles preservaram a sua conduta
como se pudessem indefinidamente jogar as potncias europeias umas contra
as outras. Na frica Austral, eles inclusive acreditaram serem capazes de apelar
 rainha da Inglaterra e aos seus representantes diretos para fazer respeitar as
obrigaes decorrentes dos tratados, contra a vontade dos colonos anglo-beres
e de alguns aventureiros. A mil lguas de imaginar o contrapeso que poderia ter
representado a solidariedade africana, cada Estado comportava-se como julgava
adequado faz-lo, isoladamente e em seu prprio interesse.
    Caso pretendamos encontrar a explicao para este estado de coisas,  neces-
srio invocar, aparentemente, no somente os talentos diplomticos das estra-
tgias europeias, mas, igualmente, a herana das guerras, aspecto indissocivel
das situaes revolucionrias que caracterizaram a frica no sculo XIX. Foi a
intensidade e a crueldade das guerras que impediu os dirigentes africanos de
a tempo compreenderem que a resposta  investida europeia deveria tomar a
frente das oposies existentes entre Estados africanos, os quais deveriam se
unir para enfrentar esta ameaa.
Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao de uma Histria Geral da frica   931




          Membros do Comit Cientfico
       Internacional para a Redao de uma
             Histria Geral da frica




Prof. J. F. A. Ajayi (Nigria)  1971 Coordenador do volume VI
Prof. F. A. Albuquerque Mouro (Brasil)  1975
Prof. A. A. Boahen (Gana)  1971 Coordenador do volume VII
S. Exa. Sr. Boubou Hama (Nger)  1971-1978 (Demitido em 1978; falecido em 1982)
S. Exa. Sra. Mutumba M. Bull, Ph. D. (Zmbia)  1971
Prof. D. Chanaiwa (Zimbbue)  1975
Prof. P. D. Curtin (EUA)  1975
Prof. J. Devisse (Frana)  1971
Prof. M. Difuila (Angola)  1978
Prof. Cheikh Anta Diop (Senegal)  1971 Prof. H. Djait (Tunsia)  1975
Prof. J. D. Fage (Reino Unido)  1971-1981 (Demitido)
S. Exa. Sr. M. El Fasi (Marrocos)  1971 Coordenador do volume III
Prof. J. L. Franco (Cuba)  1971
Sr. Musa H. I. Galaal (Somlia)  1971-1981 (Falecido)
Prof. Dr. V. L. Grottanelli (Itlia)  1971
Prof. E. Haberland (Repblica Federal da Alemanha)  1971
Dr. Aklilu Habte (Etipia)  1971
S. Exa. Sr. A. Hampat Ba (Mali)  1971-1978 (Demitido)
Dr. I. S. El-Hareir (Lbia)  1978
932                                                          frica do sculo XIX  dcada de 1880



Dr. I. Hrbek (Tchecoslovquia)  1971 Co diretor do volume III
Dra. A. Jones (Libria)  1971
Pe. Alexis Kagame (Ruanda)  1971-1981 (Falecido)
Prof. I. M. Kimambo (Tanznia)  1971 Prof. J. Ki-Zerbo (Alto Volta)  1971
Coordenador do volume I
Sr. D. Laya (Nger)  1979
Dr. A. Letnev (URSS)  1971
Dr. G. Mokhtar (Egito)  1971 Coordenador do volume II
Prof. P. Mutibwa (Uganda)  1975
Prof. D. T. Niane (Senegal)  1971 Coordenador do volume IV
Prof. L. D. Ngcongco (Botsuana)  1971 Prof. T. Obenga (Repblica Popular do Congo)
 1975
Prof. B. A. Ogot (Qunia)  1971 Coordenador do volume V
Prof. C. Ravoajanahary (Madagscar)  1971
Sr. W. Rodney (Guiana)  1979-1980 (Falecido)
Prof. M. Shibeika (Sudo)  1971-1980 (Falecido)
Prof. Y. A. Talib (Cingapura)  1975
Prof. A. Teixeira da Mota (Portugal)  1978-1982 (Falecido).
Mons. T. Tshibangu (Zaire)  1971
Prof. J. Vansina (Blgica)  1971
Rt. Hon. Dr. E. Williams (Trinidad e Tobago)  1976-1978 (Demitido em 1978; fale-
cido em 1980)
Prof. A. Mazrui (Qunia) Coordenador do volume VIII (no  membro do
Comit)
Prof. C. Wondji (Costa do Marfim) Codiretor do volume VIII (no  membro do
Comit)

Secretaria do Comit Cientfico Internacional para a Redao de Uma Histria Geral da frica
Sr. Maurice Glel, Diviso de Estudos e Difuso de Culturas, Unesco, 1, rue Miollis,
75015 Paris
Dados biogrficos dos autores do volume VI                                          933




                Dados biogrficos dos autores
                       do volume VI




  Captulo 1        J. F. ADE. AJAYI (Nigria). Especialista em histria da frica Oci-
                    dental no sculo XIX; autor de vrios artigos e publicaes sobre a his-
                    tria africana; antigo vice-reitor da Universidade de Lagos; professor
                    emrito do Departamento de Histria da Universidade de Idaban.
  Captulo 2        I. WALLERSTEIN (E.U.A.). Especialista em sociologia africana e
                    nos sistemas econmicos mundiais; autor de vrios artigos e publi-
                    caes; foi professor de sociologia na University College de Dar es
                    Salaam, na Universidade Columbia de Nova-Iorque e na Universi-
                    dade McGill de Montreal; diretor do Fernand Braudel Center for the
                    Study of Economies, Historical Systems and Civilizations, SUNY,
                    Binghamton.
  Captulo 3        A. ADU BOAHEN (Gana). Especialista em histria colonial oeste-
                    africana; autor de numerosas publicaes e artigos sobre a histria afri-
                    cana; anteriormente professor e chefe do Departamento de Histria
                    na Universidade de Gana.
  Captulo 4        S. DAGET (Frana). Especialista em histria do trfico de escravos
                    africanos no sculo XIX; autor de vrios artigos e publicaes sobre
                    o trfico de escravos africanos; anteriormente professor de histria na
                    Universidade de Nantes. Falecido em 1992.
  Captulo 5        L. D. NGCONGO (Botsuana). Especialista em histria da frica
                    Austral; publicou inmeros estudos a respeito do Botsuana pr-colo-
                    nial; anteriormente diretor do National Institute of Development,
934                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



               Research and Documentation; professor e chefe do Departamento de
               Histria da Universidade de Botsuana.
 Captulo 6    E. K. MASHINGAIDZE (Zimbbue). Especialista em histria da
               frica Austral; foi professor titular na Universidade Nacional do
               Lesoto e embaixador do Zimbbue junto  Organizao das Naes
               Unidas, secretrio permanente em Harare.
 Captulo 7    N. M. BHEBE (Zimbbue). Especialista em histria da frica Aus-
               tral; autor de vrias obras sobre os ndebele; anteriormente professor
               titular na Universidade da Suazilndia; "Senior Lecturer" na Univer-
               sidade do Zimbbue.
 Captulo 8    A. F. ISAACMAN (E.U.A.). Especialista em histria da frica; autor
               de vrias obras sobre a histria social de Moambique nos sculos XIX
               e XX; professor de histria na Universidade do Minnesota.
 Captulo 9    A. I. SALIM (Qunia). Especialista em histria da frica Oriental,
               autor de numerosos artigos sobre os povos falantes de kiswahili; pro-
               fessor e presidente do Departamento de Histria na Universidade de
               Nairbi.
 Captulo 10   I. N. KIMAMBO (Repblica Unida da Tanznia). Especialista em
               histria da frica Oriental; autor de vrias publicaes sobre a histria
               pr-colonial da Tanznia; foi administrador universitrio; professor do
               Departamento de Histria da Universidade de Dar es Saalam.
 Captulo 11   D. W. COHEN (E.U.A.). Especialista em antropologia histrica
               africana, aplicando as tcnicas da antropologia e da histria social 
               explorao dos problemas histricos da regio dos Lagos no sculo
               XIX; interessa-se pelas antropologias e histrias que os prprios afri-
               canos produziram fora dos crculos acadmicos; professor de histria
               e antropologia na Universidade John Hopkins de Baltimore.
 Captulo 12   J.-L. VELLUT (Blgica). Especialista em histria da frica Central;
               autor de diversos artigos e publicaes sobre o Congo, ex-Zaire, e
               Angola; professor de histria na Universidade de Louvain.
 Captulo 13   A. ABDEL-MALEK (Egito). Especialista em sociologia e filosofia
               social do mundo rabe; autor de diversos artigos e publicaes sobre o
               mundo rabe e afro-asitico segundo a abordagem da teoria poltica e
               social; diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Cientfica
               (CNRS) de Paris; anteriormente coordenador de projeto e diretor-
               geral de publicaes (SCA-NST) na Universidade das Naes Unidas
               de Tquio; autor de livros e crnicas, Cairo.
 Captulo 14   H. A. IBRAHIM (Sudo). Especialista em histria do Egito e do
               Sudo nos sculos XIX e XX; autor de diversos artigos e publicaes;
Dados biogrficos dos autores do volume VI                                               935



                     professor de histria e decano da Faculdade de Artes da Universidade
                     de Cartum.
                     B. A. OGOT (Qunia). Especialista em histria africana; pioneiro em
                     tcnicas de histria oral, autor de numerosas publicaes sobre a his-
                     tria da frica Oriental; anteriormente diretor do International Louis
                     Leakey Memorial Institute e professor de histria na Universidade
                     Kenyatta de Nairbi; diretor do Institue of Research and Postgraduate
                     Studies em Maseno University College, Maseno.
  Captulo 15        R. PANKHURST (Reino Unido). Especialista em histria da Eti-
                     pia; autor de diversas publicaes sobre a histria e a cultura etopes;
                     anteriormente diretor do Institute of Ethiopian Studies de Addis-
                     Abeba; professor de estudos etopes no Institute of Ethiopian Studies
                     de Addis-Abeba.
  Captulo 16        P. M. MUTIBWA (Uganda). Especialista em histria de Madagascar
                     no sculo XIX e autor de vrias publicaes a esse respeito; anterior-
                     mente professor de histria e diretor de pesquisa na Universidade de
                     Makerere, em Kampala; secretrio da Uganda Constitutional Com-
                     mission em Kampala.
                     F. V. ESOAVELOMANDROSO (Madagscar). Especialista em his-
                     tria de Madagascar nos sculos XVIII e XIX; professor de histria
                     na Faculdade de Letras da Universidade de Antananarivo.
  Captulo 17        M. H. CHRIF (Tunsia). Especialista em histria social e poltica
                     norte-africana; autor de vrios artigos sobre a histria norte-africana;
                     professor e decano da Faculdade de Cincias Humanas e Sociais de
                     Tnis.
  Captulo 18        A. LAROUI (Marrocos). Especialista em histria do Magreb; autor
                     de vrias obras sobre a histria do Marrocos e da frica do Norte no
                     sculo XIX; professor de histria contempornea na Universidade de
                     Rabat.
  Captulo 19        N. A. IVANOV (Federao Russa). Especialista em histria medieval
                     e contempornea da frica do Norte; autor de vrias publicaes sobre
                     a histria contempornea da frica do Norte; encarregado de pesquisa
                     no Instituto de Estudos Orientais da Academia de Cincias da Rssia,
                     Moscou.
  Captulo 20        S. BAIER (E.U.A). Especialista em histria econmica da frica Oci-
                     dental e, em particular, da histria do Sahel Oeste-africano; autor de
                     vrias publicaes sobre as economias sahelianas; anteriormente diretor
                     adjunto do African Studies Center da Universidade de Boston; enge-
                     nheiro de software junto a Access Technology, Natick (Massachusetts).
936                                                     frica do sculo XIX  dcada de 1880



 Captulo 21   A. A. BATRAN (Sudo). Especialista em histria do isl na frica;
               autor de obras e artigos sobre as confrarias religiosas sufis e sobre a
               evoluo da erudio na frica Ocidental e do Norte; professor de
               histria africana na Universidade Howard, Washington D.C.
 Captulo 22   M. LAST (Reino Unido). Especialista em histria e sociologia afri-
               canas; autor de vrias obras sobre a histria e a cultura haussas, bem
               como sobre a vida inteletual no Sudo Ocidental; professor de antro-
               pologia social no University College de Londres.
 Captulo 23   M. LY-TALL (Mali). Especialista em histria do Mali; autor de obras
               sobre o Imprio do Mali e a vida de al-Hadjdj `Umar Tall; anterior-
               mente professor adjunto no IFAN da Universidade de Dakar; embai-
               xador extraordinrio e pleinipotencirio, delegado permanente do Mali
               junto  UNESCO.
 Captulo 24   Y. PERSON (Frana). Especialista em histria da frica e, notada-
               mente, do mundo mande; autor de vrias obras sobre a histria da
               frica; professor de histria na Universidade de Paris-I, Panthon-
               Sorbonne. Falecido em 1982.
 Captulo 25   K. ARHIN (Gana). Especialista em antropologia social, principal-
               mente no que diz respeito  histria e  cultura dos akan; autor de
               vrias obras sobre os ashanti; professor de estudos africanos no Insti-
               tute of African Studies da Universidade de Gana.
               J. Ki-ZERBO (Burkina Faso). Especialista em histria africana e sua
               metodologia; autor de numerosos trabalhos sobre a frica negra e sua
               histria; professor de histria na Universidade de Dakar; diretor do
               CEDA de Uagadugu e deputado na Assemblia Nacional do Burkina
               Faso.
 Captulo 26   A. I. ASIWAJU (Nigria). Especialista em histria da frica; autor
               de vrias obras relativas aos povos de lngua ioruba e aja, assim como
               ao impacto da partilha territorial colonial sobre os povos africanos;
               professor de histria na Universidade de Lagos.
 Captulo 27   E. J. ALAGOA (Nigria). Especialista em histria africana e sua meto-
               dologia; autor de numerosos estudos sobre os ijo, as tcnicas de histria
               da tradio oral e a arqueologia; professor de histria na Universidade
               de Port Harcourt.
               L. Z. ELANGO (Camares). Especialista em histria de Camares;
               professor titular do Departamento de Histria de Yaound.
               N. METEGUE N'NAH (Gabo). Especialista em histria da frica
               Central; chefe do Departamento de Histria da Universidade de
               Libreville.
Dados biogrficos dos autores do volume VI                                               937



  Captulo 28        F. W. KNIGHT ( Jamaica). Especialista em histria da dispora afri-
                     cana; autor de diversas publicaes sobre Cuba, a sociedade escrava-
                     gista e a dispora africana; professor de histria da Universidade John
                     Hopkins de Baltimore.
                     Y. A. TALIB (Cingapura). Especialista do isl, do mundo malaio e do
                     Oriente Mdio, e mais especificamente da Arbia do Sudoeste; autor
                     de vrias obras a esse respeito; chefe do Departamento de Estudos
                     Malaios da Universidade Nacional de Cingapura.
                     P. D. CURTIN (E.U.A.). Especialista em histria da frica e do tr-
                     fico de escravos; autor de vrias publicaes a esse respeito; professor
                     de histria na Universidade John Hopkins de Baltimore.
  Captulo 29        J. F. ADE. AJAYI (Nigria).
                     M. A. OMOLEWA, da Universidade de Idaban, ajudou o professor J.
                     F. Ade. Ajayi na fase final de preparao do presente volume.
Abreviaes e listas de peridicos                                              939




                                   Abreviaes e
                                listas de peridicos




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HMSO -- Her (His) Majesty's Stationery Office, Londres
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                            ndice remissivo




frica central, 4-5, 7,      frica ocidental, no            expanso comercial,
   28; tendncias e pro-        incio do sculo             263; invaso Nguni,
   cessos, 47-75.               1-26; abolio do            298; europeus, 307;
frica equatorial, 48,          comrcio de escra-           tendncias e proces-
   69, 868-870.                 vos, 77-104; tendn-         sos, 47-75; Massai,
frica meridional, 38-          cias e processos, 47-        303.
   39, 169-210; Colnia         75; retorno de escravos,   Agricultura/ocupao
   do Cabo e Natal,             835-41; e economia           do solo, frica me-
   169-210; economia            mundial,                     ridional, 169-210;
   mundial, 27-46;              27-46.                       frica oriental, 275-
   expanso britnica,       frica oriental e inte-         342; bacia do Congo
   169-210; no incio           rior (1845-1880),            e Angola, 342-376;
   do sculo, 1-26;             275; abolio do             delta do Nger e Ca-
   relaes dos beres          comrcio de escra-           mares, 843; dispo-
   com os africanos,            vos, 77-104, 275,            ra, 875-930; Egito,
   169; Repblica dos           481; comunidades             377-410; Etipia e
   beres, 169; retirada        costeiras (c. 1800)          Somlia, 435-476;
   britnica do interior,       249-274; dispora            Grandes Lagos,
   170; tendncias e            da, 875; efeitos so-         317-342; Mada-
   processos, 47-75.            cioeconmicos da             gascar, 477-516;
1002                                           frica do sculo XIX  dcada de 1880



  Magreb, 525-548;          481-516; Magreb,          430-434; economia
  Marrocos, 549-570;        519-548; Marrocos,        mundial, 27-46;
  Macina e Torodbe,         557-570; Macina e         bacia do Zambeze,
  706-741; e Mfecane,       Torodbe, 699-741;         218-247.
  105-146, 147-168;         regio do Nger,       Comrcio de sal, 324-
  no incio do sculo,      771-812, 813-841;         342, 595-617; frica
  1-26; tendncias e        sultanato de Omani,       ocidental, 798-812,
  processos, 47; Saara,     260-274; Saara, 591-      843-873.
  591-618; Senegm-         618; Senegmbia e      Costa da frica oriental
  bia e Alta Guin,         Alta Guin, 741-          e interior, 211-247,
  741-750; trfico de       760; Sokoto e Borno,      249-274; abolio
  escravos e abolio,      641-697; Sudo,           do comrcio de
  77-104; Sokoto e          413-434; Transkei,        escravos, 78-104,
  Borno, 665-697;           132, 149,179; Trans-      307-316; comu-
  Sudo, 416; Zam-          vaal, 53, 109, 119,       nidades costeiras
  beze, 215-6.              125, 167, 175-210;        (c. 1800) 249-251;
Comrcio, no incio         Mfecane, 107-146.         dispora africana
  do sculo, 1-26,        Comrcio de escravos,       da, 886-904; efeitos
  435-476; frica           77-104, 905-930;          socioeconmicos da
  ocidental, 619-640;       no incio do sculo,      expanso comercial,
  frica oriental,          1-26; aprendizado,        263-274; europeus,
  254-274, 275-316;         158, 182; bacia do        307-316; invaso
  frica meridional,        Congo e Angola,           Nguni, 298-303;
  158-168, 189-210;         345-376; frica           Massai, 303-7;
  bacia do Congo e          oriental, 250-274;        tendncias e proces-
  Angola, 342-376;          Etipia e Somlia,        sos, 47-75.
  bacia do Zambeze,         443-476; Grandes       Lnguas, Adar, 448;
  216-247; conquista        Lagos, 324-340;           Aja, 814, 821, 827,
  europeia, 905-930;        Madagascar, 481-3,        833; Akan, 812;
  curva do Nger e          511-516; Macina e         Amrico,
  bacia do Volta, 771-      Torodbe, 712-735;         439,441; rabe,
  812; delta do Nger e     regio do Nger e         385, 443, 446, 585,
  Camares, 843-873;        Camares, 771-812,        592, 600, 629; Ba-
  depois da abolio        843-873; Saara, 592-      tonu, 816; Boko,
  da escravatura, 98;       605; Senegmbia e         816; Edo, 818, 837,
  Egito, 389-410;           Alta Guin, 699-          906; Europeias, 920;
  Grandes Lagos, 320-       741; Sokoto e Borno,      Fulfulde, 624, 627,
  342; Madagascar,          650-697; Sudo,           645; Ge'ez, 436, 443;
ndice remissivo                                                            1003



  Grebo, 760; Kat-             delta do Nger e Ca-        770; Sokoto e Borno,
  icho, 449; Kissi, 758;       mares, 844; Norte          641-697; frica
  Kiswahili, 266, 267;         da frica, 380;             meridional, 178-210;
  Kololo, 127, 135;            Senegmbia e Alta           Sudo, 413-434;
  Kru, 759; Luo, 333;          Guin, 743; comr-          bacia do Zambeze,
  Mande, 763, 816;             cio de escravos, 86;        211-247; conquista
  Ndebele, 128; Ngu-           Sokoto e Borno, 643;        europeia, 905-930.
  ni, 55, 105-6; Niger-        frica meridional,       Sociedade e estrutura
  Congo, 843-873;              172; Sudo, 412;            social, frica orien-
  Nkonde, 55; Nyanja,          Torodbe, 717, 727;          tal, 249-274, 274-
  55; Pato, 899; Sho-         rotas comerciais, 86,       316; bacia do Congo
  na, 127, 144; Sinde-         251, 256, 277, 319,         e Angola, 349-376;
  bele, 128; Suali, 267,      331, 643, 717; vege-        bacia do Zambeze,
  279, 286; Tigrinya,          tao, 346; frica          223-243; conquista
  436; Tumbuka, 244;           ocidental, 86, 344,         europeia, 905-930;
  Turco, 592; Twi, 812;        643, 705, 717, 727,         curva do Nger e
  Voltaica, 816; Xhosa,        743, 773; bacia do          bacia do Volta, 787-
  113, 159.                    Zambeze, 214.               812; dispora, 875-
Mapas, frica central,      Poltica/polticos/poder/      904, delta do Nger e
  214; misses crists,        lei/conflitos, bacia        Camares, 843-873;
  54; bacia do Congo           do Congo e Angola,          efeitos do comrcio
  e Angola, 346, 358;          349-276; frica ori-        Omani 264-269;
  frica oriental,             ental, 249-307; Egi-        Egito, 389-405;
  251, 256, 277, 282,          to, 377-410; Etipia        Grandes Lagos, 320-
  300, 304; Egito,             e Somlia, 435-466;         342; Madagascar,
  380; Etipia, 437;           Grandes Lagos, 317-         477-496; Magreb,
  Grandes Lagos, 297,          339; Madagascar,            572-589; Macina e
  319, 331; Oceano             477-511; Magreb             Torodbe, 704-735;
  ndico, 277; Isl, 54,       518-546, 551-570;           Mfecane, 105-113;
  552; Kintampo, 802;          Macina e Torodbe,           Marrocos, 551-570;
  Madagascar, 479,             699-741; regio             regio do Nger,
  483, 488; Macina,            do Nger, 771-831;          771-812, 813-841;
  705; rotas mi-               tendncias e proces-        Saara, 592-613;
  gratrias, 300; regio       sos, 68-72; delta do        Senegmbia e Alta
  do Nger, 817; Mar-          Nger e Camares,           Guin, 744-763;
  rocos, 552; curva            846-873; Saara, 591-        Sokoto e Borno,
  do Nger e bacia             617; Senegmbia e           664-673.
  do Volta, 773, 802;          Alta Guin, 744-
                                  Organizao
                           das Naes Unidas
                              para a Educao,
                          a Cincia e a Cultura




UNESCO HISTRIA GERAL DA FRICA VOLUMES I-VIII

Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda         melhor permitissem acompanhar a evoluo dos
espcie ocultaram ao mundo a verdadeira histria da       diferentes povos africanos em seus contextos
frica. As sociedades africanas eram vistas como          socioculturais especficos.
sociedades que no podiam ter histria. Apesar dos        Esta Coleo traz  luz tanto a unidade histrica da
importantes trabalhos realizados desde as primeiras       frica quanto suas relaes com os outros continentes,
dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,    sobretudo as Amricas e o Caribe. Durante muito
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande            tempo, as manifestaes de criatividade dos descendentes
nmero de estudiosos no africanos, presos a certos       de africanos nas Amricas foram isoladas por certos
postulados, afirmava que essas sociedades no podiam      historiadores num agregado heterclito de africanismos.
ser objeto de um estudo cientfico, devido, sobretudo,
                                                          Desnecessrio dizer que tal no  a atitude dos autores
 ausncia de fontes e de documentos escritos.
                                                          desta obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
De fato, havia uma recusa a considerar o povo africano    para as Amricas, a "clandestinidade" poltica e cultural,
como criador de culturas originais que floresceram e se   a participao constante e macia dos descendentes de
perpetuaram ao longo dos sculos por caminhos             africanos nas primeiras lutas pela independncia, assim
prprios, as quais os historiadores, a menos que          como nos movimentos de libertao nacional, so
abandonem certos preconceitos e renovem seus              entendidas em sua real significao: foram vigorosas
mtodos de abordagem, no podem apreender.                afirmaes de identidade que contriburam para forjar o
A situao evoluiu muito a partir do fim da Segunda       conceito universal de Humanidade.
Guerra Mundial e, em particular, desde que os pases      Outro aspecto ressaltado nesta obra so as relaes da
africanos, tendo conquistado sua independncia,           frica com o sul da sia atravs do oceano ndico,
comearam a participar ativamente da vida da              assim como as contribuies africanas a outras
comunidade internacional e dos intercmbios que ela
                                                          civilizaes por um processo de trocas mtuas.
implica. Um nmero crescente de historiadores tem se
empenhado em abordar o estudo da frica com maior         Avaliando o atual estgio de nossos conhecimentos sobre
rigor, objetividade e imparcialidade, utilizando com      a frica, propondo diferentes pontos de vista sobre as
as devidas precaues fontes africanas originais.         culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria,
No exerccio de seu direito  iniciativa histrica,       a Histria Geral da frica tem a indiscutvel vantagem
os prprios africanos sentiram profundamente a            de mostrar tanto a luz quanto a sombra, sem dissimular as
necessidade de restabelecer em bases slidas a            divergncias de opinio que existem entre os estudiosos.
historicidade de suas sociedades.                         Nesse contexto,  de suma importncia a publicao
Os especialistas de vrios pases que trabalharam nesta   dos oito volumes da Histria Geral da frica que ora se
obra tiveram o cuidado de questionar as simplificaes    apresenta em sua atual verso em portugus como fruto
excessivas provenientes de uma concepo linear e         da parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil,
restritiva da histria universal e de restabelecer a      a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e
verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.       Diversidade do Ministrio da Educao do Brasil (Secad/
Esforaram-se por resgatar os dados histricos que        MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).
